Los Roques – A Fernando de Noronha da Venezuela

Quando estava decidindo minhas férias, queria procurar um lugar que pudesse descansar e mergulhar um pouco e ao mesmo tempo me trouxesse um pouco de história, presepadas e aprendizagem, como sempre busco em minhas viagens. Los Roques me pareceu uma boa escolha por ser na Venezuela (quer um momento mais único que um país sob a batuta de Chávez, para o bem ou para o mal?) e ser uma ilha paradisíaca no meio do Caribe.
Los Roques vista do avião
Antes mesmo de chegar a ilha, já no caminho, como tudo na Venezuela, foi na tensão. Resolvi dormir em uma pousada que ficava perto do aeroporto para evitar perder o voo que saía bem cedo no outro dia. Na ida fui pego por um motorista filho de pais árabes e, como todo árabe, um cara super gente boa (pode isso, cara? Taxista e gente boa?). Ele me deixou na pousada, perguntou se eu queria trocar dólares (já que em Los Roques era impossível, segundo ele. Depois fui descobrir que era mentira. Bem, antes de árabe, ele era taxista, né?) e falou que no outro dia pela manhã iria me buscar. Fui dormir o sono dos justos sem nenhuma preocupação.
No outro dia pela manhã, saí da pousada e tinha outro cara me esperando. Blz, ele não ia me sequestrar, foi chamado pela pousada, era de confiança. Tudo escuro, quatro e meia da manhã, saio com esse bicho para o aeroporto. No caminho, ele começa “tenho que botar gasolina!”. Disse que sem problema e falei que ele podia colocar, já achando que era um golpe para poder me fazer pagar mais (já que a corrida era por conta da pousada). Lembrou-me até esse post aqui da Índia. Quando foi no terceiro “tenho que botar gasolina” e passando pelo segundo posto de gasolina fechado, percebo que, efetivamente, o tanque do cara tava no vazio. Tudo a noite, no meio de Caracas, com um bando de “manos” caminhando pelas ruas. E eu me sentindo dentro do carro cercado no melhor estilo The Walking Dead.
Me senti assim perdido no meio de Caracas pela madrugada
O cara simplesmente me liga o carro no pisca alerta no melhor estilo “me assalte” e começa a ir devagar, segundo ele para economizar gasolina. E eu, claro, adorei, porque tudo que mais se quer quando está atrasado para um voo é um táxi na iminência de se faltar a gasolina, no meio DO NADA e com o pisca alerta ligado. Será se tudo na Venezuela tem que ser do jeito mais difícil? Nessa hora, cara, vale tudo rezar para tudo, Nossa Senhora do Bom Parto, Iemanjá, Saint Seya, Jaspion, Sailor Moon. Não sei se meu cosmos tava bem invocado, só sei que tive sorte da entrada do aeroporto ser em uma descida e o carro ir na banguela.
Cheguei à fila do check in e aquela fila. Saí do check in DEZ MINUTOS antes do voo e me deparo com uma fila GIGANTESCA para a sala de embarque. Fiquei de olho em uma careca de um cara que tinha acabado de fazer check-in comigo e fui acompanhando. Chegando lá, me desesperei quando vi uma fila gigantesca e a maioria da galera com o tícket do voo que saía as 06:15, sendo que meu voo era as 06:00. Não sei se fiquei mais desesperado por ter perdido o voo em si ou por ter que ficar mais um dia em Caracas. Depois que eu fui descobrir. A empresa aérea dava aula de corte de custos. O mesmo carinha que faz o check in, faz o embarque por isso temos que esperar ele terminar com o balcão de check in primeiro na parte de cima. Ele cobra escanteio e faz o gol de cabeça. Fiquei de olho, se ele colocasse o chapeuzinho de piloto, juro que eu ficava uma semana em Caracas.

Farofada em Los Roques

Los Roques é um Parque Nacional da Venezuela bem parecido com Fernando de Noronha. Existe um pequeno povoado e parece que todo mundo vive do turismo, direta ou indiretamente. Logicamente, por dependerem do turismo, todo mundo odeia Chávez.
Única pousada pró-Chávez na ilha. Lógico que era a que mais deixava a desejar na limpeza…
Não sei como surgiram as primeiras pessoas, já que ao que pude entender, o fornecimento de água doce é escasso, com os lençóis freáticos sendo bem salobros e a vida nativa se limitando a alguns lagartos pretos que infestam todas as ilhas de Los Roques (que inclusive eu fico curioso de como eles chegaram aqui dada a sua existência em quase todas as ilhas e elas serem bem afastadas do continente).
Los Roques é um mar de tranquilidade em meio a toda aquela loucura e vida louca que é Caracas. Também, Caracas tem milhões de habitantes, Los Roques 1200. Enfim pude bater fotos com a minha câmera melhor sem medo de ser roubado e não ficar enfiando todo o dinheiro vivo que tenho comigo nos bolsos das calças. A noite inclusive eu ia para a areia, colocava o laptop no colo e ficava escrevendo sem preocupação alguma de algo ocorrer.
Todos que queiram pescar, venham comigo!!!
Pipocam pousadas por todas as ilhas e o esquema farofa é meio que oficial. Todas as pousadas oferecem um serviço de pensão completa, com café-da-manhã, jantar e, como você passa o dia fora, um cooler com algumas bebidas e comidas frias, já que nas ilhas não há restaurantes. Então basicamente o que você faz é pagar um passeio (que tem o preço ridículo de em média uns 10 reais o mais caro custa 40 reais), pegar a sua farofa e ficar o dia inteiro em uma ou duas ilhas diferentes.
Eu preparado para ir para mais uma ilha. Vestido até o pescoço por causa do sol…
Eu como já fui com sede ao pote, peguei logo a mais longe e mais famosa, que tem uma passarela de areia ligando duas ilhas. Porém fui com proteção inapropriada e fiquei queimadaço os outros dias, o que me obrigou inclusive a ficar um dia inteiro sem ir para os passeios só batendo fotos na ilha principal e estudando para o curso de mergulho avançado que aproveitei para fazer por lá (que foi mais barato do que fazer em Brasília mergulhando no Lago Paranoá =P).
Outra coisa que me impressionou em Los Roques é que lá gasta-se bastante com pousadas, mas muito dinheiro mesmo e tudo é muito caro. Por outro lado, se você dá uma volta pela parte do povoado onde vivem os locais você percebe que eles parecem levar uma vida bem simples, dessa forma sempre fico me questionando para onde vai todo o dinheiro que gastamos, porque salário para esse povo não é. Ter uma pousada em Los Roques deve ser um bom negócio.

Aceitando Jesus na Pousada em Los Roques

Cheguei a Los Roques, no esquema que mais gosto, free style. Não tinha nada reservado e saí batendo de pousada em pousada até achar uma que tivesse um preço legal. Apesar de isso parecer bem bonito e romântico para quem está lendo, caminhando contra o vento sem lenço nem documento, depois que bati na oitava pousada sem vaga, comecei a ficar preocupado. Até achei uma com vaga e que parecia legal, porém eu estava só com dólares e o recepcionista me falou que eles não aceitavam porque estava perigoso trocar dólares em Los Roques, o que me deixou bem preocupado.
Luar em Los Roques na entrada do “aeroporto”
Depois de tentar algumas vezes, acabei achando uma pousada chamada “Los Corales” que recomendo bastante para quem quiser se hospedar. Fui recebido por uma argentina que falava português e só depois fui descobrir que era hóspede, mas muito amiga da dona da pousada.
O esquema, como falei, era café, jantar e cooler (eles chamam de cava) com comidas e bebidas. Paguei uns 80 dólares com tudo (o que parece ser meio que um preço médio da ilha). A pousada tinha um quê meio de uma grande família e um dos donos da pousada, o Jesus, era uma figura em particular, super gente boa e cozinhava bem para caramba. Dizia ele que aprendeu a cozinhar sozinho usando os hóspedes de cobaia. Fica a sugestão da Pousada Los Corales em Los Roques.
Para quem não gosta de peixe, Los Roques é um grande problema. Todo santo dia era peixe, o que para mim não era um problema. Jesus me explicou que era porque carne de galinha e vaca são bem caros na ilha e já chegam com uma qualidade bem ruim. Além disso, como era um parque nacional, não era permitido criar animais que não fossem da fauna local, o que fazia ele optar só por peixe pois era mais barato e de melhor qualidade. E cara, era uns filés de peixe para picanha nenhuma colocar defeito. Teve um dia inclusive que um dos hóspedes pescou uma barracuda e levou para o Jesus cozinhar.
A vida em Los Roques acaba terminando bem cedo. Quando é nove horas da noite todo mundo já tá meio que recolhido pro seu poleiro e a cidade meio que morre. Tem até uma baladinha em frente a pousada que eu fiquei, mas que toda vez que olhava lá dentro, tava só o Dee Jay e os barmans. Ao contrário das ilhas de mergulho da Tailândia onde havia mochileiros para todos os lados, Los Roques é um destino basicamente de casais. Ir sozinho para lá é fria, o mergulho pode até ser legal, mas quando é de noite você acaba indo dormir cedo também, porque acaba que não consegue conhecer ninguém na cidade, haja vista que parece haver só casais.
Baladinha em frente a minha pousada. Dá para ver o tanto de gente que tem dançando lá..

Forever Alone nas noites de Los Roques

De noite eu saía vagando pela ilha, meio que procurando um grupo que pudesse ser amigo. Chegar em uma mesa que alguém tivesse tomando uma cerveja, me apresentar e pedir para sentar, como já fiz algumas vezes, sim, no melhor estilo “não tenho amigos”, mas que acaba não sendo tão invasivo quando você tem um lugar apinhado de mochileiros. Eu tava disposto a sentar em qualquer mesa que não tivesse um casal. Dois homens e uma mulher, três homens, duas mulheres e um homem, qualquer combinação valia, mas quem disse? Foram sete noites “forever alone” em Los Roques, portanto, fica a dica, se for, leve toda a sua leitura atrasada do ano, porque você vai conseguir colocar em dia.
Única balada em Los Roques. E não é que lá encontrei um carioca que tinha ficado amigo em um encontro do Couchsurfing?

Claudio Bonitão

Como sempre acontece quando viajo, as pessoas tem dificuldade em pronunciar meu nome e acabei sendo chamado de Claudio mesmo. O problema era que havia outro Claudio na pousada e quando o Jesus chamava “Claudio!!!” vínhamos nós dois. Ele perguntou se alguém tinha uma ideia de como acabar com essa confusão, eu sugeri chama-lo de Claudio Italiano e me chamar de Claudio Guapo (o que em espanhol quer dizer algo como bonito). A galera achou engraçado e até mesmo depois do Claudio Italiano ir embora, fiquei com o apelido de Claudio Guapo.

Por último, acabei conhecendo uma mulher que estava precisando um pouco de dólares e acabou me oferecendo uma cotação que de tão boa, quase que eu vendi todos os meus dólares para ela, aluguei um maleiro, botei um chapeuzinho e fui ficar cochichando “dólares, dólares” no ouvido dos turistas no aeroporto. Pode parecer brincadeira, mas eu tou falando sério. Troquei tantos dólares que depois no final fiquei preocupado como diabos eu iria fazer para gastar todo o dinheiro. Refiz as contas e vi que com todos os gastos de mergulho, alimentação, cana, hospedagem em Los Roques e Caracas, ainda iam me sobrar uns cem dólares em bolívares! Ainda pensei em trocar de volta com ela, mas pombas, ela me fez um câmbio tão bom que fiquei sem graça. O jeito era gastar esses cem dólares (já que em Caracas ninguém trocava bolívares por dólares, a não ser por um câmbio muito desfavorável), só que não sabia de que forma. Bem, difícil é ganhar dinheiro, gastar é o mais fácil, a gente dava um jeito.
Quatrocentos dólares compram dinheiro demais sô!

4 comentários em “Los Roques – A Fernando de Noronha da Venezuela

  1. Claudiomar, tudo bem?

    Estou indo para Los Roques em alguns dias (na verdade para Caracas, e logo tentar alguma forma de chegar em Los Roques, barco, avião, nadando, qualquer forma) e queria fugir desse esquema de pousadas. É a única forma mesmo de hospedagem em Gran Roque? Vi que rola de acampar em algumas outras ilhas, mas não sei se em Gran Roque rola.

    Estava pensando até em pedir hospedagem para os locais, já rolou em algumas cidades de praia pequenas que eu já fui.

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  2. Ronan,
    Acho difícil você conseguir ficar lá de outra forma que não por pousadas. Los Roques é como Fernando de Noronha, uma ilha pequena, com pequena população, porém com um número GIGANTESCO de turistas rotativos. Muitos deles tendo a mesma ideia que você. Quando eu fui, acampar também não era possível. Portanto, pode tentar a sorte, eu só acho difícil dar certo.
    Abraços,
    Claudiomar

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  3. Anônimo,
    Quando eu fui tudo era pago com a moeda local boliviana, porém o preço era calculado em dólares. Funcionava assim, eles te diziam “a hospedagem custa 60 dólares”, daí você via a cotação do dia e pagava em moeda venezuelana.
    Abraços,
    Claudiomar

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