Crônicas de um mochileiro enfurnado nos Andes Bolivianos

A quatro mil metros de altura se distinguem os homens dos meninos pelo cheiro. Ou, basicamente, pela coragem de tomar banho gelado ou não quando o frio lá fora é negativo. Bem, eu sou menino e deixo isso bem claro.
Depois de visitarmos algumas lagoas perdidas nos Andes Bolivianos, fomos nos hospedar em um hotel de sal. Sim, a estrutura do hotel era toda de sal e, lógico, todo mundo quando chega, a primeira coisa que faz é dar com a língua na parede para saber se ela é salgada. Sim, ela é salgada. Bem salgada.
Esse hotel de sal era um pouco melhor que a espelunca que ficamos hospedados na noite passada, inclusive havia disponibilidade de banhar em um chuveiro quente por 5 reais.
Estava dividindo o quarto com outros três franceses. Franceses, bom reiterar. Estava na cama, deitado, acabado, morrendo de sono, pois não tinha conseguido dormir direito na noite passada e não conseguia levantar um dedo do pé.
Quando eu estava pegando no sono, a luz do quarto se acende e entra o primeiro francês de cabelo molhado no quarto. Alguns minutos depois, entra o segundo de cabelo molhado. Quando entra o terceiro francês de cabelo molhado, ele olha para mim e fala:
– Claudio, o banho quente aqui é muito bom. Você devia experimentar.
Pausa constrangedora. Ele olha no fundo dos meus olhos e diz, com uma sinceridade avassaladora:
– Mas, devia experimentar mesmo, Claudio!
Segui para o chuveiro.
Não há sono que sustente a vergonha de um francês te mandar tomar banho.

Na foto, quarto no hotel de sal

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