Na mais tradicional celebração religiosa do Irã – Conhecendo a Ashura

Em Yazd, acabamos vendo tudo numa pressa danada porque no outro dia era Ashura, um dos dias mais importantes para os muçulmanos xiitas. Nesse dia eles comemoram o martírio do Iman Houssein (para saber mais a história dele, clique aqui). São dez dias de comemoração e quanto mais vai chegando perto da data da morte (que ocorreu em 1580), maiores e mais fortes vão ficando as celebrações. Durante a Ashura, o Irã inteiro para, pois fica celebrando o martírio e tudo fecha. Não chegar a ser um Shabat, que quase fez eu dormir na rua em Eilat, Israel (leia sobre a minha agonia no Shabat em Israel clicando aqui).

Ashura pela noite, Ashura pela manhã

Porém, depois de passar pelo lugar dos pombos malditos, ainda tínhamos que procurar algum lugar para ficar. O problema é que Yazd estava lotada e nada de a gente conseguir uma hospedagem. Depois de alguma luta, conseguimos um quarto de hotel (que acabou sendo o quarto mais caro que pagamos em toda a viagem), deixamos nossas coisas por lá e fomos conhecer a cidade. Como o dia era de celebração religiosa, fomos abordados algumas vezes por Basijs, a polícia religiosa, e toda vez eu ficava preocupado (apesar de não estar fazendo nada de errado, polícia sempre me deixa nervoso).

DE REPENTE, RECEBEMOS UM TELEFONEMA DO GOVERNO DO IRÃ!

Quando estávamos passeando por Yazd, o telefone de Ciro tocou. Era o cara da recepção do hotel dizendo que representantes do governo do Irã haviam ido ao nosso hotel, nos procurado e nos “oferecido” um tour por Yazd para entendermos melhor a Ashura. Cara, órgão do governo é sempre problema (imagina no Irã!), então é lógico que não aceitamos.

Passeamos pela cidade e a noite entramos em uma mesquita. Havia dezenas de estrangeiros assistindo a celebração da Ashura e também um Íman dando palestras em inglês, explicando e desmitificando o Islamismo. No final, descobrimos que era o tal do programa do governo para estrangeiros o qual haviamos sido convidados! Seguem fotos e vídeos da celebração:

O Íman fez uma observação que achei interessante. Os xiitas são vistos como mais radicais que os sunitas no islamismo devido a revolução islâmica iraniana. Porém, segundo o Íman, os xiitas nunca começaram uma guerra ou invadiram um país vizinho. Isso até onde lembro é verdade, a Guerra Irã-Iraque, por exemplo, foi de iniciativa do Iraque, sunita. Segundo o Íman, isso ocorre porque os Xiitas sempre lutam contra opressão.

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Íman palestrando sobre o Islamismo

Outra coisa interessante é que ele explicou o motivo das pessoas baterem no peito durante a celebração. Isso ocorre porque, segundo o Íman, na cultura deles, quando alguém quer demonstrar que está triste com algo, bate no peito em sinal de tristeza. Na celebração todos estão batendo no peito por “saudade de Íman Houssein”.

É também um gesto comum durante a Ashura oferecer comida para as pessoas em um sinal de solidariedade. Depois da palestra do Íman fomos a um restaurante e recebemos um jantar. A comida era simples, mas bem gostosa e, bem, grátis. Os caras foram gente boa demais.20161011_145429

NO OUTRO DIA, INFILTRADOS NA ASHURA DE TAFT!

Pela manhã, no outro dia, seguimos para Taft, uma cidadezinha ao lado de Yazd onde ocorria uma Ashura mais tradicional. Enquanto procurávamos o lugar da celebração, nos perdemos e fomos pedir informação a um cara que, simplesmente, para ser gentil, entrou no nosso carro e foi nos levando até lá!

Coisas do Irã.

Quando chegamos… Era gente, gente, GENTE por todos os lados. Mulheres de um lado observando e homens no meio celebrando.

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Setor das mullheres

Todo mundo de preto (durante a Ashura todos se vestem de preto em luto pelo martírio de Íman Houssein) e cantando músicas religiosas, além de diversos carros alegóricos recriando o martírio de Íman Houssein. Eu, como não sabia, na noite anterior, acabei saindo de camisa vermelha. Depois fui saber que vermelho era a cor do exército que matou Houssein, então eu meio que saí vestido de Judas no dia da celebração do Natal. Às vezes eu fico impressionado como saio vivo dessas…

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O Judas do Paranauê

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VOCÊ PODE SER O MACHO QUE FOR, MAS VAI FICAR COM MEDO!

Cara, é algo meio ruim de falar, mas na hora você fica um pouco com medo. Todo mundo de preto e cantando músicas islâmicas religiosas te lembram na hora do Estado Islâmico. Eu ficava com medo de algum maluco querer arrumar confusão com a gente por estarmos em uma celebração xiita sem sermos muçulmano. Depois de um tempo você deixa esse preconceito bobo de lado (inclusive o Estado Islâmico é islâmico sunita e não xiita) e é contagiado pela festa. O pessoal inclusive distribuiu água, doces e chá, como sempre, sem cobrar nada por isso, em solidariedade.

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Galera distribuindo comida, água e chá para a população

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E SEMPRE TEM UMA HORA QUE BATE A FOME

Só sei que foi chegando a hora do almoço e foi batendo uma fome da gota. Como falei, era Ashura e tudo fechado. Começamos a ver uma galera vindo com prato de comida na mão e deduzimos o que estava ocorrendo. Em algum lugar por ali, estavam distribuindo comida. Rapaz, fomos seguindo o rastro e o cheiro e acabamos chegando no lugar.

20161012_062129Antes mesmo de chegar à fila, um cara estava indo embora com dois pratos na mão. Visivelmente estava levando para casa para comer mais tarde. Estava montando em uma garupa de moto com um amigo. Quando perguntamos onde ficava o lugar para pegar comida ele simplesmente falou “rapaz, tou com dois aqui, toma um prato para você”. Por mais que insistíssemos, ele bateu o pé e falou que era para gente pegar um prato para gente (o prato tinha comida demais! Dava fácil para nós dois). Quando aceitamos, ele começou a insistir de também levarmos o segundo prato, já que éramos dois. Aí não teve como aceitar. Rapaz, foi difícil convencer o cara que só queríamos um prato viu? Gente boa demais o rapaz. Ciro imaginou que fosse parte do costume iraniano do ta´arof (não lembra? Checa esse post aqui onde explico). No final “negociamos” e levamos só um prato.

Coisas do Irã.

Quando ele foi embora começamos a pensar “ih, rapaz, ele não deu colher”. Corre daqui, corre de lá, não tinha como a gente conseguir uma colher. O mais engraçado era a gente passar com aquele prato cheio de comida pela galera varada de fome e todo mundo perguntar, desesperado, para a gente onde havíamos conseguido! A gente tava era com medo de ser atacado, hahahaa. Acabou que eu e Ciro fomos lavar a mão para comer com as mãos mesmo (bicho, a fome tava de matar). No final, paramos para comprar uma pepsi, e o tio da vendinha nos deu duas colheres de plástico. 20161012_062059

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Matando a broca

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Confesso que foi a primeira aglomeração imensa de multidão que vi na vida onde não vi ninguém saindo na porrada em nenhum momento. Depois ficamos pensando. Os caras separam homem de mulher e lá não tem bebida. Se você pensar bem isso meio que resolve 99% dos problemas de gente brigando. No final, a única porrada que vimos foi entre algumas crianças em uma viela, que fomos separar, afinal, o clima era de celebração!

Ashura foi legal demais!

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Vontade de ficar embaixo dessa bandeira na sombra!

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O pessoal passava com umas correntes de plástico e ficavam batendo nas costas, simulando um martírio semelhante ao de Íman Houssein

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A galera lá chegava a chorar!

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Os bebês eram vestidos de verde
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E colocados nos carrinhos durante a celebração

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