VIAGEM A ANGOLA| Aventuras em Luanda: Do Miradouro à Fortaleza

O Miradouro da Lua é uma das paisagens naturais mais impressionantes de Angola. Localizado a cerca de 40 quilômetros de Luanda, o lugar recebeu esse nome porque suas falésias, esculpidas ao longo de milhões de anos pela erosão da chuva e do vento, lembram a superfície da Lua. O cenário é formado por cânions, ravinas e camadas de rochas em tons de amarelo, laranja e avermelhado, criando um visual quase surreal e único. Apesar da aparência árida e desértica, a região fica bem próxima ao litoral, tornando o Miradouro da Lua um dos cartões-postais mais famosos e fotografados de Angola. Cara, não é jeito de falar não. Eu realmente nunca tinha visto nada parecido com isso na minha vida.

Fiquei na dúvida se conseguiria ir ao Miradouro da Lua. Meu desarranjo intestinal ainda não tinha passado completamente e o passeio ficava a cerca de uma hora e vinte minutos de onde eu estava hospedado. Se acontecesse alguma emergência no meio do caminho, não haveria muito o que fazer. Mesmo assim, resolvi arriscar.

Chamei um Yango e, quando o motorista chegou, fiz uma proposta: ofereci 150% a mais do valor da corrida para que ele me esperasse no Miradouro da Lua, depois me levasse ao Museu da Escravatura, aguardasse novamente e, por fim, me deixasse em outro ponto de Luanda.

No total, paguei cerca de 200 reais (40 dólares) pelo dia inteiro de transporte. Sinceramente, achei muito barato. Afinal, eu teria um carro praticamente à minha disposição durante várias horas, percorrendo uma boa distância.

O mais curioso foi a reação do motorista. Ele agradeceu de um jeito que parecia que eu tinha acabado de lhe entregar uma fortuna. Talvez eu conseguisse negociar um preço menor, mas preferi pagar o que, para mim, parecia um valor justo. E, já que a diferença era pequena, ainda pedi um Yango Comfort, fazendo todo o percurso no ar-condicionado. Não dava para reclamar da vida.

Lá fomos nós. Era cerca de uma hora e vinte de estrada até o Miradouro da Lua. O trajeto, por si só, já vale a viagem. À medida que você vai deixando Luanda para trás, a paisagem muda completamente. Dá para ver um pouco da Angola rural e vários baobás espalhados pelo caminho, aquelas árvores gigantes que parecem ter sido plantadas de cabeça para baixo.

No meio da viagem percebi que o motorista estava meio perdido. Foi só então que ele confessou que nunca tinha ido ao Miradouro da Lua.

Pô… um dos principais cartões-postais de Angola e o sujeito nunca tinha visitado. No fim das contas, achei até bacana. Sem querer, eu estava proporcionando o passeio para nós dois. Depois de quase uma hora e meia de viagem, finalmente chegamos. E a primeira coisa que vimos foi uma cerca fechando a entrada.

Baobá

Sim. O miradouro estava interditado para visitação. Enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo, o motorista foi conversar com os guardas. Super gentis. Um tinha um fuzil. O outro uma escopeta. Eles explicaram que a área estava fechada por causa de uma obra e que o responsável não autorizava a entrada de visitantes. Não dava para abrir exceção.

Os dois guardas armados deixavam a conversa com um certo ar de seriedade. Mas, conforme a conversa foi andando, ficou claro que havia um detalhe não dito naquela história. Em determinado momento, o motorista virou para mim e perguntou discretamente:

— Será que dá para resolver com uma gasosa?

Demorei um segundo para entender.

No Brasil a gente fala em dar um cafezinho. Em Angola, a expressão é dar uma gasosa. Ou seja, um “refrigerante”… que, na prática, é apenas um jeito mais simpático de pedir uma propina.

Falei para o motorista resolver a situação, porque eu preferia não me envolver diretamente nessa conversa.

Depois de alguns minutos, ele voltou e falou, com a maior naturalidade do mundo:

— Cara, acho que se você der cinco reais (um dólar) para cada um, eles deixam a gente entrar.

Eu olhei para ele e praticamente gritei:

— CINCO REAIS?!

Ele ficou sem entender minha reação.

— Ué… é muito?

Mano… eu comecei a rir.

Na minha cabeça, se aquilo fosse terminar em propina, eu já estava preparado para perder, no mínimo, uns cinquenta reais por guarda. Afinal, era um dos principais pontos turísticos do país, os caras estavam armados e tinham acabado de dizer que a entrada era proibida.

Aí a “gasosa” custava cinco reais.

Era inacreditável.

Essa era justamente a Angola que eu tinha passado anos ouvindo dizer que era um dos lugares mais caros do mundo.

No fim, todo mundo saiu satisfeito. Eu consegui conhecer o principal cartão-postal do país. O motorista do Yango finalmente visitou o Miradouro da Lua pela primeira vez. E os dois guardas ficaram felizes com os cinco reais de cada um.

Sinceramente, é difícil imaginar uma negociação mais ganha-ganha do que essa.

E, sim, o Miradouro da Lua faz jus à fama que tem. Cara, foi, de longe, o cânion mais bonito que eu já vi na vida. As camadas de rochas esculpidas pela erosão, os tons de amarelo, laranja e vermelho e aquele aspecto quase extraterrestre fazem parecer que você foi parar em outro planeta. É daqueles lugares em que nenhuma foto consegue transmitir direito a sensação de estar ali.

O mais curioso é que, apesar de ser um dos principais cartões-postais de Angola, o lugar ainda não é tomado por turistas. Durante boa parte da visita, eu praticamente tive aquele cenário só para mim. Tudo bem que foi porque eu paguei uma tubaína para cada guarda armado até os dentes, mas ainda assim. Pude caminhar com calma, observar as formações rochosas e simplesmente admirar uma das paisagens naturais mais impressionantes que já encontrei em todas as minhas viagens.

Depois de aproveitar bastante o Miradouro da Lua, voltamos para o carro e seguimos para a próxima parada do dia: o Museu Nacional da Escravatura, um dos lugares mais importantes para entender não apenas a história de Angola, mas também parte da história do próprio Brasil.

Em Angola, até museu fechado abre. Conhecendo o Museu Nacional da Escravatura

O Museu Nacional da Escravatura de Angola é um dos locais históricos mais importantes do país. Instalado em uma antiga capela do século XVII, nos arredores de Luanda, ele preserva a memória do tráfico transatlântico de escravos, que levou milhões de africanos, principalmente angolanos, para as Américas entre os séculos XVI e XIX. Antes de embarcarem nos navios, muitos escravizados passavam por esse local, onde eram batizados à força e obrigados a abandonar suas crenças e identidades. O museu reúne objetos, documentos e relatos desse período, tornando-se um espaço de reflexão sobre uma das maiores tragédias da história da humanidade. Para os brasileiros, a visita tem um significado ainda mais profundo, já que uma parte expressiva dos africanos escravizados trazidos para o Brasil saiu justamente da região da atual Angola, deixando uma influência marcante na formação da cultura, da língua, da música, da culinária e da própria população brasileira. Na verdade, como maranhense tem uma importância maior ainda, dado que lá aparecia o Maranhão como um dos principais portos que receberam escravizados de Angola.

Cheguei ao Museu da Escravatura e… adivinha?

Estava fechado para reforma.

Fechado para reforma

Pensei: “Hoje não é meu dia.”

Mas aí começou aquela conversa daqui, conversa dali, até que me explicaram que, na verdade, o museu não estava exatamente fechado. Era só eu pagar 25 reais (5 dólares) que a visita acontecia.

O ingresso oficial custava cerca de 2,50 reais.

Os outros 22,50 reais… bem… digamos que eram para facilitar a logística.

Depois da experiência no Miradouro da Lua, eu já tinha entendido como algumas coisas funcionavam por ali. Vinte e cinco reais a menos para mim, vinte e cinco reais a mais para o guardinha do museu. No fim, mais uma vez, todo mundo saiu satisfeito.

Quanto ao museu, achei a visita válida, mas o que mais me marcou foi o próprio lugar onde ele está instalado e o peso histórico daquele local, mais do que o acervo em si. As peças expostas são interessantes, mas relativamente simples. O grande impacto vem de saber que você está em um dos pontos ligados a um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade.

Uma informação que aprendi lá me chamou bastante a atenção. Segundo o museu, Angola foi o território que mais forneceu pessoas escravizadas para as Américas, enquanto o Brasil foi o país que mais recebeu esses africanos. Isso ajuda a explicar por que a influência angolana é tão forte na formação da cultura brasileira. O que mais me surpreendeu foi descobrir que, somados, os países da América Central receberam um número semelhante ao do Brasil. Considerando o tamanho do nosso país, eu jamais imaginaria isso. Pelo menos era essa a informação apresentada pelo museu.

Depois seguimos para o Memorial Agostinho Neto, dedicado ao primeiro presidente de Angola e uma das figuras mais importantes da história do país. Cheguei lá e… adivinha?

Estava fechado.

Dessa vez, porém, não teve negociação, não apareceu nenhuma “gasosa” salvadora e, para ser sincero, eu também nunca sou de oferecer esse tipo de coisa. Quando dá, deu. Quando não dá, faz parte da viagem.

Então me contentei em tirar algumas fotos do lado de fora e pedi para o motorista do Yango me deixar de volta no apartamento.

Dessa vez não teve gasosa

Foi só na volta que aconteceu uma daquelas cenas típicas de viagem. Vi uma enorme bandeira de Angola tremulando no alto de uma colina e, logo abaixo dela, a silhueta de uma antiga fortaleza dominando a paisagem.

Na mesma hora me caiu a ficha.

Eu ainda não tinha visitado justamente a Fortaleza de São Miguel de Luanda, talvez o ponto turístico mais importante da capital.

Pedi para o motorista mudar os planos e seguir para lá. Afinal, depois de um dia em que metade das atrações resolveu fechar as portas para mim, eu não podia correr o risco de perder justamente a principal delas.

Como Angola me conquistou de vez

A Fortaleza de São Miguel de Luanda é o monumento histórico mais importante da capital angolana. Construída pelos portugueses em 1576, logo após a fundação de Luanda, ela foi durante séculos o principal centro militar e administrativo da colônia, desempenhando um papel decisivo na defesa da cidade e no controle do comércio atlântico, incluindo o tráfico de pessoas escravizadas para as Américas. Após a independência, a fortaleza ganhou um novo significado e passou a abrigar o Museu das Forças Armadas, com canhões, veículos militares e exposições sobre a história de Angola. Além de sua importância histórica, o local oferece uma das vistas mais bonitas da Baía de Luanda, o que faz dele um dos pontos turísticos mais visitados do país, reunindo tanto moradores quanto turistas interessados em compreender a história angolana e admirar a paisagem da capital.

E, sim, a vista da Fortaleza de São Miguel faz jus à fama que tem. Do alto das muralhas, dá para enxergar boa parte da Baía de Luanda, a orla, os arranha-céus e o movimento da cidade. É um daqueles lugares em que vale a pena parar alguns minutos, esquecer a câmera e simplesmente apreciar a paisagem.

Depois que desci da fortaleza, passei em um supermercado para comprar minhas indispensáveis Coca-Colas Zero e voltar para o apartamento. Naquela noite seria a final da Copa do Mundo, e eu queria assistir ao jogo já bêbado de aspartame. Enquanto caminhava pelos corredores do mercado, ainda estava tentando entender como Luanda tinha conseguido contrariar praticamente todas as expectativas que eu tinha criado sobre ela.

No fim das contas, Luanda me encantou. E, curiosamente, em vários momentos ela me lembrou São Luís do Maranhão, minha cidade. Não porque sejam iguais, mas porque compartilham uma característica muito parecida: são cidades de contrastes. Lugares onde a beleza convive com a desigualdade, onde prédios modernos dividem espaço com ruas caóticas, onde riqueza e pobreza estão lado a lado o tempo inteiro. Apesar de todos os problemas, Luanda tem personalidade. É uma cidade que não tenta esconder suas contradições e, talvez justamente por isso, acaba sendo tão interessante.

Na manhã seguinte, já no aeroporto, antes de embarcar para a Etiópia, ainda tive que resolver um pequeno problema no balcão de check-in. Enquanto o funcionário tentava encontrar uma solução no computador, ele soltou, do nada, um:

— “Loucura, loucura, loucura!”

No melhor estilo Luciano Huck.

Eu caí na risada.

Não esperava ouvir um bordão tão brasileiro justamente na minha despedida de Angola.

Achei uma forma perfeita de encerrar a viagem. Saí do país com um sorriso no rosto e com a certeza de que Luanda foi muito diferente da cidade que eu imaginei antes de embarcar. Espero que aquela despedida tenha sido apenas um “até logo”. Porque, se depender de mim, ainda volto para Angola um dia.

Para Luanda, a nossa cidade irmã, deixo os versos que Bandeira Tribuzzi compôs para São Luís e que podem perfeitamente descrever Luanda:

“Ó minha cidade/Deixa-me viver/que eu quero aprender,tua poesia/sol e maresia,lendas e mistérios/luar das serestas e o azul de teus dias

Quero ler nas ruas/fontes, cantarias,torres e mirantes,igrejas e sobrados/nas lentas ladeiras,que sobem angústias,sonhos do futuro/glórias do passado.”

Valeu Luanda!

Epílogo. Como eu consegui ser cancelado em Angola

Rapaz, quando estou viajando, gosto de ir postando alguns vídeos curtos nas redes sociais. Coisas bem rápidas para Instagram, TikTok e YouTube Shorts, mostrando o que estou vendo naquele momento.

Apesar de eu praticamente só ter publicado vídeos elogiando Luanda, teve um em específico em que reclamei de uma coisa bem simples: havia um lugar lindo, que poderia ser extremamente agradável, mas estava com uma música absurdamente alta. Foi só esse comentário.

Rapaz… para quê.

Aparentemente o vídeo viralizou e, por alguns dias, eu me transformei no sujeito mais odiado de Angola. Os comentários eram uma mistura de gente concordando comigo e um batalhão dizendo que eu não entendia nada do país, que eu estava desrespeitando a cultura local e por aí vai.

O mais engraçado é que, quanto mais as pessoas brigavam nos comentários, mais o vídeo era entregue pelo algoritmo. As visualizações não paravam de subir.

Foi ali que eu realmente entendi como funcionam as redes sociais. Engajamento é engajamento. Para o algoritmo, pouco importa se as pessoas estão elogiando ou xingando. Se elas estão comentando, respondendo umas às outras e compartilhando o vídeo para reclamar dele, a plataforma entende que aquele conteúdo é interessante e passa a mostrá-lo para ainda mais gente.

Naquele momento eu percebi como é fácil crescer na internet apostando em polêmica. Bastava eu dobrar a aposta, continuar publicando vídeos falando mal de Angola e provavelmente ganharia muito mais visualizações. Mas esse nunca foi, nem nunca será, o objetivo do canal. Prefiro crescer mais devagar do que transformar minhas viagens em uma fábrica de indignação só para agradar o algoritmo.

Outra coisa que me chamou a atenção foi um efeito completamente inesperado da viralização.

Cara… meu TikTok começou a bombar de mensagens de meninas perguntando se eu ainda estava em Angola, chamando para sair, para conhecer a cidade, para tomar alguma coisa…

Foram dezenas de mensagens.

Eu realmente fiquei impressionado.

Depois fiquei pensando: se comigo aconteceu isso por causa de um vídeo reclamando de música alta, imagina como deve ser a caixa de entrada de alguém como o Neymar ou qualquer influenciador gigantesco. Deve ser um negócio completamente fora da realidade. Não é à toa que muitos acabam ficando meio malucos com fama.

E, antes que alguém resolva mandar mais uma mensagem…

Eu já sou casado.

E minha esposa é bem mais braba do que qualquer algoritmo das redes sociais.

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