Viagem ao Caribe| Dominica, onde a natureza ainda manda

E então chegou a hora de seguir viagem para o próximo destino: Dominica.

A essa altura da jornada eu já tinha passado por Barbados, tinha sido despachado involuntariamente para Saint Maarten por uma companhia aérea criativa e agora finalmente estava embarcando para a ilha que originalmente deveria ter sido minha segunda parada. Tudo isso ainda fazia parte do longo caminho entre Brasília e a Copa do Mundo.

E o que eu sabia sobre Dominica?

Rapaz… praticamente nada.

Na verdade, sendo completamente honesto, eu só sabia duas coisas. A primeira era que um amigo meu, diplomata, tinha servido lá durante algum tempo. A segunda era que Dominica e República Dominicana são países diferentes, apesar de passarem a vida inteira confundindo turistas, jornalistas e provavelmente metade da população mundial.

Era esse o tamanho do meu conhecimento sobre o país.

Eu não sabia qual era a capital. Não sabia qual era a principal atração turística. Não sabia como era a economia, a cultura, a comida ou sequer o tamanho da ilha. Dominica era uma espécie de ponto em branco no meu mapa mental.

E, pensando bem, talvez isso fosse justamente o mais interessante.

Quando a gente viaja para lugares muito famosos, normalmente já chega com uma imagem pronta na cabeça. Você sabe mais ou menos o que esperar. Já em Dominica, eu não tinha expectativa nenhuma. Nenhuma mesmo. Era um daqueles raros casos em que eu estava desembarcando em um país praticamente sem preconceitos, sem roteiro mental e sem grandes referências.

Cerveja nacional de Dominica

Eu só sabia que era uma ilha do Caribe.

E nem imaginava que ela seria completamente diferente de tudo o que eu tinha visto até então.

Dominica, a ilha que resolveu continuar selvagem

Se você olhar um mapa do Caribe, Dominica parece apenas mais uma das várias pequenas ilhas espalhadas entre a América do Norte e a América do Sul. Mas basta passar algumas horas por lá para perceber que ela é completamente diferente dos seus vizinhos.

A própria história da ilha já foge do padrão. Enquanto boa parte do Caribe foi rapidamente ocupada, colonizada e transformada em enormes plantações europeias, Dominica resistiu por muito mais tempo. Os povos indígenas Kalinago, conhecidos pelos europeus como caribes, conseguiram manter o controle de boa parte da ilha durante séculos graças ao relevo extremamente montanhoso e coberto por florestas densas. Franceses e britânicos disputaram o território durante muito tempo, mas nenhum dos dois conseguiu dominar completamente a ilha com a mesma facilidade observada em outras partes do Caribe. Tanto que até hoje Dominica abriga o maior território indígena oficialmente reconhecido do Caribe Oriental, onde vivem descendentes diretos dos Kalinago.

Enquanto muitas ilhas caribenhas apostaram pesado em resorts, cassinos, praias lotadas e turismo de massa, Dominica seguiu outro caminho. Ela ficou conhecida como “A Ilha da Natureza”. Em vez de enormes complexos hoteleiros à beira-mar, o que você encontra são montanhas cobertas por floresta tropical, cachoeiras, rios, fontes termais, lagos vulcânicos e trilhas. É uma ilha que parece mais próxima da Costa Rica do que de lugares como Aruba, Bahamas ou Saint Maarten. Isso acontece também porque as praias não são balneários tão agradáveis como outras do Caribe. Então assim, apesar do país querer te fazer acreditar que isso foi uma escolha deles, na verdade as praias de Dominica não chegam ao nível das outras ilhas caribenhas, por isso ela teve meio que “reinventar” o seu turismo.

E isso ajuda a explicar outra coisa que me chamou atenção: a relativa ausência daqueles navios de cruzeiro gigantescos que parecem pequenos prédios flutuantes.

Não é que eles nunca apareçam. Aparecem. Mas em uma frequência muito menor do que em outras ilhas do Caribe. Existem alguns motivos para isso. O primeiro é econômico. Dominica nunca conseguiu se estruturar para receber milhões de turistas por ano como seus vizinhos mais famosos. O segundo é geográfico. A ilha é extremamente montanhosa, com pouco espaço plano para construir grandes áreas turísticas, avenidas largas ou enormes zonas comerciais voltadas para passageiros de cruzeiro.

TEST.JPG00000

Talvez por isso Dominica tenha conseguido preservar uma sensação rara no Caribe moderno. Enquanto muitas ilhas foram moldadas para atender turistas, Dominica dá a impressão de que continua existindo exatamente como era há 500 anos atrás.

E foi justamente isso que começou a me deixar curioso antes mesmo de desembarcar. Pela primeira vez naquela viagem, eu não estava indo para uma ilha conhecida pelas praias ou pelos resorts. Eu estava indo para uma ilha conhecida pelas montanhas, pelas florestas e pelos vulcões.

E isso não é exatamente o que a maioria das pessoas imagina quando pensa no Caribe.

TEST.JPG00000

Explorando Marigot em Dominica, um local pouco visitado pelos turistas

Como eu tinha poucos dias em Dominica, precisei fazer escolhas. A ilha está cheia de cachoeiras, trilhas, vulcões, fontes termais e atrações espalhadas pelo interior, mas eu não conseguiria ver tudo. Acabei decidindo usar Marigot como base. A cidade fica perto do principal aeroporto da ilha, o que facilitava bastante a logística, além de servir como um bom ponto de partida para explorar os arredores.

TEST.JPG00000

Logo nas primeiras caminhadas percebi uma coisa curiosa: Dominica não parece ter sido projetada para pedestres. Em muitos trechos simplesmente não existem calçadas. Você caminha pelo acostamento, torcendo para que os motoristas tenham a mesma vontade de chegar vivos ao destino que você tem. Em vários momentos eu me vi andando espremido entre um barranco de um lado e carros passando do outro. Não chega a ser perigoso o tempo todo, mas definitivamente não é aquele tipo de lugar onde você sai para fazer uma caminhada relaxante apreciando a paisagem.

Na verdade, Dominica parece ser um país feito para quem tem carro. O problema é que ela também parece ser um país que não sabe muito bem o que fazer quando o carro deixa de funcionar.

Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a quantidade de veículos abandonados espalhados pela ilha. Não estou falando de um ou dois carros velhos esquecidos em algum canto. Estou falando de carcaças enferrujadas aparecendo em terrenos baldios, na beira das estradas, atrás de casas e até em áreas relativamente centrais. Em alguns casos restava apenas o esqueleto do veículo, como se a natureza estivesse lentamente reivindicando a posse do automóvel.

Por onde você anda tem esses destroços de carro pela ilha. Perguntei para um local e ele me explicou. O que você faz com um carro depois que não precisa dele? É uma ilha, é caro se livrar deles. Além disso, carro por lá é MUITO caro, então muita gente vai aproveitando as peças do carro e largando as carcaças pela ilha

Pelo que conversei com moradores e li depois, isso acontece porque descartar veículos em uma ilha não é tão simples quanto em um país continental. Você não pode simplesmente rebocar toneladas de sucata para algum lugar distante. Tudo precisa ser desmontado, reciclado ou exportado, o que custa dinheiro. Muito dinheiro. O resultado é que diversos carros acabam ficando onde morreram, transformando-se lentamente em peças permanentes da paisagem local.

E existe algo quase poético nisso. Dominica é uma ilha onde a natureza parece vencer todas as batalhas no longo prazo. As montanhas engolem as estradas, a vegetação invade qualquer espaço abandonado e até os carros acabam sendo lentamente incorporados ao cenário. Em poucos lugares do Caribe eu tive uma sensação tão forte de que a natureza continua dando as cartas.

Enquanto caminhava por Marigot, desviando de carros em movimento e observando carros que já tinham desistido de se mover há muito tempo, comecei a perceber que Dominica realmente era diferente das outras ilhas que eu havia visitado. Menos polida. Menos turística. Menos preocupada em impressionar visitantes.

E talvez justamente por isso mais interessante.

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog