VIAGEM À JAMAICA| Piratas, Bob Marley e uma boa dose de decepção

Viajando por Kingston, resolvi visitar um dos principais pontos turísticos de toda a Jamaica, Port Royal.

Port Royal teve uma das histórias mais extraordinárias do Caribe. Fundada pelos ingleses após conquistarem a Jamaica dos espanhóis em 1655, a cidade rapidamente se transformou em um dos portos mais ricos e movimentados das Américas. Sua localização estratégica permitia controlar as rotas comerciais do Caribe, mas a fama veio principalmente por outro motivo: ela se tornou o principal refúgio de piratas, corsários e contrabandistas da região. Figuras lendárias, como o capitão Henry Morgan, viveram ou passaram por ali, gastando fortunas em tavernas, cassinos e bordéis. Não por acaso, Port Royal ganhou o apelido de “a cidade mais perversa da Terra”. Em 1692, porém, um forte terremoto seguido por um tsunami fez cerca de dois terços da cidade afundarem no mar em poucos minutos, matando milhares de pessoas. Muitos contemporâneos interpretaram a tragédia como um castigo divino pela fama de corrupção e libertinagem do lugar. Hoje, as ruínas submersas de Port Royal são consideradas um dos sítios arqueológicos subaquáticos mais importantes do mundo e oferecem um raro retrato preservado da vida no auge da era da pirataria.

O plano era simples: visitar Port Royal pela manhã e, de lá, pegar um barco para Lime Cay. Pelo menos esse era o plano.

Pedi o Uber ainda no Airbnb, em Kingston, e o céu já estava completamente nublado. Pensei: “vai chover”. Só não imaginava que seria daquele jeito.

Poucos minutos depois de sair, começou um temporal daqueles. Mas não era uma chuvinha tropical qualquer. Era água suficiente para eu começar a me preocupar se o carro era anfíbio. Quanto mais nos aproximávamos de Port Royal, mais a chuva aumentava. Em alguns momentos pensei seriamente em desistir e pedir para o motorista dar meia-volta.

Mas já estava ali mesmo.

Vamos até o fim.

Por sorte, perto da chegada a Port Royal a chuva diminuiu um pouco e finalmente chegamos.

Confesso que minha expectativa era completamente diferente da realidade.

Quando eu pensava em Port Royal, imaginava um grande complexo turístico dedicado à era da pirataria. Navios antigos, atores vestidos de piratas, museus, canhões, bandeiras tremulando, talvez até um sujeito de perna de pau andando com um papagaio no ombro.

A realidade era que lá tinha…

Nada.

Absolutamente nada.

Na minha cabeça, Port Royal era uma atração turística. Só depois descobri que Port Royal é, na verdade, um bairro inteiro de Kingston.

Como ainda chovia fraco, as ruas estavam praticamente desertas. O motorista perguntou onde eu queria descer. Minha vontade foi de responder “não tenho a mínima ideia”.

Olhei ao redor e vi uma igreja e algumas construções históricas ao fundo.

— Siô, me deixa por ali.

Por pura sorte, era exatamente onde ficava o antigo forte de Port Royal que eu queria visitar.

Comecei a procurar a entrada e não encontrei uma alma viva.

Depois de caminhar um pouco, avistei uma senhora em uma pequena vendinha.

Perguntei o preço do ingresso.

— Vinte dólares.

Mais de cem reais.

Perguntei o motivo daquele valor e ela respondeu com a maior naturalidade do mundo:

— O guia está incluído.

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Depois percebi que isso era praticamente um padrão na Jamaica. Em muitos lugares você não compra apenas o ingresso; compra também um guia obrigatório. O resultado é que tudo acaba ficando muito mais caro.

O único problema é que entender o guia era quase tão difícil quanto pagar a entrada.

O sotaque jamaicano continua sendo um dos maiores desafios linguísticos que já enfrentei.

Apesar disso, a visita valeu a pena.

O forte é muito interessante e mostra claramente como os terremotos mudaram completamente a geografia de Port Royal ao longo dos séculos. Partes que antes ficavam à beira-mar hoje estão em terra firme por causa das alterações provocadas pelos abalos sísmicos. Algumas construções continuam inclinadas até hoje, preservando as marcas deixadas pelos terremotos que destruíram boa parte da antiga cidade dos piratas.

No fim da visita, o guia perguntou se eu tinha alguma dúvida.

Respondi que não.

Ele permaneceu parado ao meu lado, em silêncio.

Acho que estava esperando uma gorjeta.

Rapaz…

Depois de pagar vinte dólares pela entrada, estava mais fácil ele me dar uma gorjeta do que eu dar uma para ele.

Até hoje ele tá ali parado esperando a gorjeta dele…

Nem Bob Marley salvou Kingston

Depois de conhecer um pouco de Kingston, chegou a hora da atração que praticamente todo mundo me recomendava.

— Você vai visitar o Museu do Bob Marley, né?

Era quase uma unanimidade. Sempre que eu perguntava o que fazer na capital jamaicana, a resposta vinha imediatamente: o museu do Bob Marley.

Então fui todo empolgado.

Antes de contar como foi a visita, vale um pouco de contexto.

O museu funciona justamente na antiga casa onde Bob Marley viveu entre 1975 e 1981, período em que gravou alguns dos discos mais importantes de sua carreira e ajudou a transformar o reggae em um fenômeno mundial. Foi ali que ele compôs músicas que marcaram gerações e recebeu artistas, políticos e personalidades do mundo inteiro. A casa também ficou conhecida por um episódio dramático: em 1976, poucos dias antes do concerto Smile Jamaica, Bob Marley sofreu uma tentativa de assassinato. Homens armados invadiram a residência e dispararam vários tiros. Marley foi atingido de raspão no braço e no peito, sua esposa Rita levou um tiro na cabeça e seu empresário também ficou ferido. Mesmo assim, apenas dois dias depois, Bob Marley subiu ao palco e fez o show, dizendo que “as pessoas que estão tentando tornar este mundo pior não tiram um dia de folga; por que eu tiraria?”. Hoje, a casa foi transformada em museu e preserva parte da estrutura original, reunindo objetos pessoais, fotografias, discos, instrumentos e lembranças de um dos artistas mais influentes da história da música.

Cheguei à entrada e veio o primeiro choque: 25 dólares.

Não, não podia bater foto lá dentro. Então essa é uma das poucos fotos que eu pude bater por lá.

Mais uma vez a Jamaica fazendo o que sabe de melhor: esvaziar minha carteira.

Perguntei o motivo do preço.

— O guia está incluído.

Claro que estava.

De novo era a lei não escrita obrigando todo ponto turístico a colocar um guia junto com o ingresso. Você querendo ou não.

Paguei e fiquei esperando para entrar.

Confesso que minha expectativa era alta.

Estamos falando simplesmente do jamaicano, e provavelmente caribenho, mais famoso da história. Um cara que transformou o reggae em um fenômeno mundial, virou símbolo do país e até hoje movimenta milhares de turistas.

Achei que encontraria uma exposição cheia de objetos pessoais, documentos, curiosidades, vídeos raros, bastidores da carreira…

Rapaz…

Que decepção.

A visita começou e rapidamente percebi que o maior desafio não seria o museu.

Seria a guia.

Ela não explicava as coisas.

Ela gritava.

E não era porque o grupo estava longe.

Era o jeito dela.

Parecia que toda frase precisava ser anunciada como se estivesse apresentando o último capítulo de uma novela.

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O problema é que a casa é composta por cômodos relativamente pequenos. Cada grito ecoava pelas paredes e voltava ainda mais alto.

Para completar, vinha aquele sotaque jamaicano que, depois de alguns dias no país, eu já tinha aceitado que jamais conseguiria entender completamente.

Depois de uns quinze minutos eu simplesmente desisti.

Passei a apenas balançar a cabeça de vez em quando, fingindo que estava acompanhando a explicação enquanto admirava as paredes.

O pior é que não existe escapatória.

Depois que o tour começa, você fica preso ao grupo até o final.

E o final demorou.

Duas horas.

Duas horas ouvindo uma guia berrando em um sotaque que meu cérebro já tinha oficialmente desistido de decodificar.

No fim, ainda fiquei com a sensação de que havia muito pouco conteúdo.

Boa parte da visita gira em torno da própria casa, de alguns discos de ouro e platina, fotografias e lembranças da carreira.

Para alguém que esperava conhecer mais sobre a vida, a música e a importância de Bob Marley para a Jamaica e para o mundo, achei a experiência bastante superficial.

Saí de lá pensando que o maior ícone cultural do país merecia um museu muito melhor.

Principalmente por 25 dólares.

E obviamente uma guia que gritasse menos.

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VIAGEM A JAMAICA| MUITO ALÉM DO REGGAE

Depois de toda a loucura de ficar pulando de país em país pelo Caribe e da excelente experiência que foi São Vicente e Granadinas, chegou a hora de visitar um dos destinos que eu mais queria conhecer havia muitos anos: a Jamaica.

Acho que a Jamaica ocupa um lugar especial no imaginário de muita gente. Comigo não era diferente, mas havia um motivo a mais. Eu sou de São Luís, cidade conhecida como a Jamaica Brasileira, graças à forte tradição do reggae. Então visitar a matriz, a Jamaica original, era uma vontade antiga.

Só que, se nos outros países do Caribe eu tinha dado uma sorte absurda com o tempo — praticamente não vi uma nuvem no céu —, na Jamaica aconteceu exatamente o contrário.

Choveu.

E choveu muito.

Desde o dia em que desembarquei em Kingston até a hora de ir embora, parecia que alguém tinha esquecido a torneira do céu aberta. Além do incômodo de passar boa parte da viagem molhado, ainda perdi a oportunidade de conhecer Lime Cay, uma pequena ilha considerada um dos lugares mais bonitos da região.

Fica aí uma foto do paraíso que eu perdi de visitar

Faz parte. Viajar também é isso. Nem sempre o destino colabora, então o jeito é guardar o guarda-chuva, ajustar os planos e descobrir o que a Jamaica ainda tinha para oferecer.

O primeiro choque com a Jamaica

É impressionante como a Jamaica já começa a mostrar sua personalidade antes mesmo de você sair do aeroporto.

A primeira delas é o preço.

Cara, a Jamaica é absurdamente cara.

Qualquer refeição simples, qualquer passeio ou qualquer corrida de táxi parece custar algumas dezenas de dólares. Pelo menos existe Uber, o que evita a necessidade de negociar preço, mas isso não significa que ele seja barato.

Muito pelo contrário.

Assim que desembarquei, pedi um carro para o Airbnb e tomei um susto: 25 dólares por uma corrida de menos de cinco quilômetros. Algo em torno de 130 reais.

Cheguei até a conferir o aplicativo de novo porque achei que tinha digitado o endereço errado.

Não tinha.

Era isso mesmo.

Visitando um dos principais pontos turísticos de Kingston, o sorvete da Devon House. Assim, é bom, mas nada de outro mundo. Me lembrou a sorveteria Coppelia de Havana em Cuba

Entrei no carro e sentei no banco de trás, como faço normalmente. O motorista olhou para mim pelo retrovisor e perguntou se eu poderia sentar no banco da frente.

Na hora imaginei que fosse algum daqueles casos em que o Uber funciona meio na clandestinidade, como aconteceu comigo na Costa Rica, onde os passageiros costumavam ir na frente para não chamar atenção.

Mas não.

Era apenas um costume jamaicano. Segundo ele, sentar ao lado do motorista é visto como um gesto de simpatia e proximidade.

Achei curioso.

Quando cheguei ao Airbnb, a faxineira ainda estava terminando de arrumar a casa e acabamos conversando um pouco.

Ela era inglesa, mas me contou que tinha se mudado para a Jamaica porque não aguentava mais o custo de vida na Inglaterra.

Confesso que aquilo me surpreendeu.

Ela contou que comprou uma casa anos atrás e que o imóvel hoje vale alguns milhões de reais. Resolveu alugá-lo e viver da renda na Jamaica, onde, segundo ela, o dinheiro rendia muito mais. A limpeza do Airbnb era praticamente um hobby para não ficar parada em casa.

Quando descobriu que eu era brasileiro, abriu um sorriso enorme.

Disse que tinha visitado o Brasil e que nunca tinha conhecido um país tão barato na vida.

É engraçado ouvir isso sendo brasileiro.

Passamos a vida reclamando do custo de vida e, de repente, alguém vindo de um país rico olha para o Brasil como um destino barato.

Ela até arriscou algumas palavras em português antes de ir embora.

Aliás, essa simpatia pelo Brasil apareceu durante praticamente toda a viagem.

Sempre que eu perguntava para qual seleção eles torceriam na Copa do Mundo, a resposta era quase automática:

— Brasil.

E isso antes mesmo de eu dizer que era brasileiro.

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O dono do Airbnb foi outro que demonstrou um carinho enorme pelo país. No fim da hospedagem, resolvi deixar para ele uma camisa da Seleção Brasileira que eu tinha levado.

Rapaz…

O homem ficou emocionado.

Só faltou chorar agradecendo e disse que aquele tinha sido um dos melhores presentes que já havia recebido.

Foi um daqueles momentos simples que acabam ficando na memória da viagem.

A única dificuldade era entender o que eles falavam.

Meu Deus do céu…

O sotaque jamaicano talvez seja um dos mais difíceis que já encontrei.

Perambulando por Kingston

A primeira coisa que me surpreendeu em Kingston foi o tamanho da cidade.

A gente costuma imaginar o Caribe como um conjunto de pequenas capitais tranquilas, mas Kingston foge completamente desse padrão. Com mais de um milhão de habitantes na região metropolitana, é disparada uma das maiores cidades do Caribe.

Outra expectativa que caiu por terra foi a do reggae.

Sim, é uma estátua da lenda, Usain Bolt, no Centro Olímpico de Kingston

Eu não esperava encontrar pessoas tocando Bob Marley em cada esquina ou dançando reggae no meio da rua, mas imaginava que o estilo estivesse muito mais presente no dia a dia.

Na prática, quase não vi ninguém de dreadlock, muito menos aquele visual rastafári que muita gente associa automaticamente à Jamaica.

O que eu mais ouvia eram os ritmos caribenhos modernos, aqueles batidões eletrônicos que lembram um pouco o funk brasileiro.

Em um momento até comentei sobre alguns artistas clássicos do reggae, como Erik Donaldson, e várias pessoas simplesmente não sabiam quem era.

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Depois parei para pensar que talvez não fosse tão estranho assim.

Se um estrangeiro chegar hoje ao Brasil perguntando sobre Adoniran Barbosa, provavelmente também vai encontrar muita gente que nunca ouviu falar dele.

Outra coisa que achei curiosa foi a popularidade do Ludo.

Jamaicanos jogando Ludo no meio de um parque de Kingston

No Brasil ele costuma ser visto como um jogo infantil. Na Jamaica, encontrei diversos grupos de adultos jogando em praças e calçadas. Muitos tabuleiros eram personalizados com o mapa do país e os nomes das paróquias jamaicanas, mostrando que o jogo acabou ganhando uma identidade bem própria por lá.

Tabuleiro de Ludo sendo vendido em Kingston

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