VIAGEM A ETIÓPIA| Addis Abeba: igrejas secretas, altitude e a melhor comida da viagem

Depois de perder praticamente um dia inteiro aprendendo, da pior forma possível, que nem sempre vale a pena tentar ser o mais esperto da situação, finalmente chegou a hora de conhecer Addis Abeba de verdade. No fim das contas, aquela saga atrás de um chip de celular e de uma Coca-Cola Zero acabou tendo um lado positivo. Passei horas andando sem rumo pela cidade, o que me permitiu observar com calma as ruas, os bairros e o dia a dia dos moradores. Pelo menos na região mais central e urbanizada, Addis Abeba me surpreendeu pela limpeza, pela organização e pela sensação de cidade em pleno crescimento. Era uma capital muito diferente da imagem que eu tinha formado antes da viagem.

No meu segundo dia, resolvi contratar um guia que tinha sido recomendado pelo meu amigo meu que eu iria visitar. Meu amigo fez questão de destacar duas qualidades: o sujeito conhecia muito bem a história da Etiópia e, principalmente, falava um excelente inglês.

O Gashaw passou para me buscar no hotel logo cedo. Assim que ele começou a falar, eu já senti um alívio enorme. Eu entendia absolutamente tudo o que ele dizia. Não havia aquele sotaque carregado ou aquele inglês truncado que faz você passar o passeio inteiro fingindo que entendeu metade da conversa. Depois perguntei onde ele tinha aprendido a falar tão bem. A resposta veio com a maior naturalidade do mundo: ele era formado em Literatura Inglesa. Aí fez sentido. Dali em diante, o passeio virou praticamente uma conversa entre dois amigos. Além de conhecer muito da história da Etiópia, o Gashaw era um sujeito extremamente simpático o que deixou o dia muito mais agradável.

A primeira parada foi a Igreja de São Jorge (ou St. George Cathedral), um dos templos mais importantes da Igreja Ortodoxa Etíope. Construída no fim do século XIX para celebrar a vitória etíope na Batalha de Adwa, quando o exército do imperador Menelik II derrotou as tropas italianas e garantiu a independência do país, a igreja se tornou um dos maiores símbolos do orgulho nacional etíope. No complexo também estão os túmulos de Menelik II e de sua esposa, a imperatriz Taitu Betul, duas das figuras mais importantes da história moderna da Etiópia. Além de seu enorme significado histórico e religioso, a igreja é conhecida por sua arquitetura octogonal e por abrigar um pequeno museu com objetos ligados à monarquia e à tradição ortodoxa do país.

O mais legal é que a visita ao interior da igreja não é feita por um guia turístico qualquer, mas por um diácono da própria Igreja Ortodoxa Etíope. Enquanto caminhávamos pelo templo, ele ia explicando a história da igreja, o significado das pinturas, dos ícones e das cerimônias religiosas. O único problema era um pequeno detalhe: se eu entendi uns 10% do inglês dele, foi muito. Tinha momentos em que eu sinceramente não sabia se ele estava falando inglês ou se já tinha mudado para o amárico no meio da frase. Ainda assim, mesmo sem compreender tudo, a experiência valeu muito a pena.

Foi ali que tive meu primeiro contato de verdade com o cristianismo etíope. Até então eu conhecia a Igreja Ortodoxa Etíope apenas pelos livros, mas vê-la funcionando na prática foi muito interessante. O que mais me chamou a atenção foi como, apesar de terem seguido caminhos diferentes há muitos séculos, ela continua sendo muito mais parecida com o catolicismo romano do que eu imaginava. Os vitrais e pinturas mostravam São Jorge, o anjo Gabriel, a Virgem Maria, a Santíssima Trindade e diversas outras figuras que qualquer católico reconheceria imediatamente. 

Pode parecer um detalhe pequeno, mas para quem cresceu no Brasil isso chama atenção. Em boa parte das igrejas protestantes brasileiras, por exemplo, esse tipo de representação não é permitido.

Mas o momento mais marcante da visita veio quando o diácono caminhou até um dos cantos da igreja, levantou um tapete e revelou uma pesada porta de ferro embutida no chão. Parecia cena de filme de aventura. Ele abriu a porta e apareceu uma escada estreita descendo para uma passagem subterrânea que levava aos fundos da igreja. Naquele instante, tive a sensação de estar entrando em um daqueles antigos mosteiros medievais cheios de passagens secretas e histórias escondidas. Só aquela cena já fez a visita valer a pena. 

Cara, a porta era tão pesada que três homens precisaram fazer força juntos para levantá-la. Era uma chapa de ferro enorme, daquelas que passam a impressão de que foram feitas para resistir a qualquer coisa. Não duvido nem um pouco que aquele compartimento suportasse até um bombardeio. Era só torcer para não ter uma pedra gigante rolando ladeira abaixo. 

Assim que descemos a escada, chegamos a uma espécie de cripta, onde estão os túmulos do imperador Menelik II e de sua esposa, a imperatriz Taitu Betul, instalados em dois mausoléus monumentais, ricamente ornamentados. O ambiente era escuro, silencioso e transmitia uma sensação de enorme solenidade. Tudo era muito luxuoso, muito nobre, muito da realeza. Os tapetes, as pinturas, a decoração… Enquanto caminhávamos pelo local, o diácono continuava explicando cada detalhe da sacristia, apontando objetos religiosos, pinturas e símbolos da tradição ortodoxa etíope. O problema é que, naquele ponto da visita, eu já tinha desistido completamente de tentar entender o inglês dele. De vez em quando eu ainda fazia um esforço, mas logo percebia que estava mais perdido do que chinelo em enchente.. Passei a simplesmente observar o lugar e deixar a vida me levar. Antes de irmos embora, o diácono fez questão de nos mostrar uma pintura que, segundo a tradição local, teria sido feita por Michelangelo. A história é fascinante, embora a maioria dos historiadores considere essa atribuição extremamente improvável e não haja provas que confirmem que a obra seja realmente do mestre renascentista. Ainda assim, verdadeira ou não, foi uma daquelas histórias que tornam uma visita muito mais interessante.

Subindo mais alto que o Pico da Neblina sem sair do carro – O lugar onde os etíopes treinam para dominar as maratonas

Depois da visita à igreja, voltamos para o carro e seguimos para o Parque Entoto, onde fica um dos mirantes mais famosos de Addis Abeba. A princípio, eu achei que não haveria tanta diferença. Afinal, a capital da Etiópia já está a cerca de 2.400 a 2.500 metros de altitude. Subir mais algumas centenas de metros não parecia algo tão significativo. Mas bastou olhar as placas para perceber a dimensão da coisa. Em poucos minutos de carro, chegamos a aproximadamente 3.100 metros acima do nível do mar. Para ter uma ideia, eu estava a uma altitude superior ao Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, que nem chega aos 3.000 metros. Era uma sensação curiosa pensar que eu tinha alcançado aquela altura simplesmente sentado no banco de um carro.

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O Gashaw aproveitou o caminho para explicar que a altitude é justamente um dos grandes segredos do sucesso dos corredores etíopes nas provas de longa distância. Muitos atletas de elite treinam na região do Entoto para aproveitar o ar mais rarefeito. Como há menos oxigênio disponível, o organismo é obrigado a produzir mais glóbulos vermelhos para transportar oxigênio pelo corpo. Depois, quando esses atletas competem em cidades ao nível do mar, onde o ar é muito mais rico em oxigênio, acabam levando uma vantagem fisiológica importante.

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Não é por acaso que a Etiópia produziu alguns dos maiores fundistas da história, como Abebe Bikila (que ganhou duas medalhas de ouro. A primeira correndo DESCALÇO em Roma), Haile Gebrselassie, Kenenisa Bekele e Tirunesh Dibaba. Para eles, subir correndo uma montanha a mais de três mil metros de altitude faz parte da rotina de treinamento.

O mirante em si é espetacular. Infelizmente, no dia da minha visita, o tempo estava bastante nublado e a vista de Addis Abeba não apareceu com toda a grandiosidade que eu imaginava. Ainda assim, o passeio valeu muito a pena. Além da paisagem, o parque é coberto por extensas florestas de eucalipto, uma árvore que, curiosamente, nem é nativa da Etiópia. O Gashaw me explicou que ela foi introduzida no fim do século XIX pelo imperador Menelik II. Na época, Addis Abeba crescia rapidamente e a população já havia praticamente esgotado a madeira das florestas nativas para construção e produção de carvão. Como o eucalipto cresce muito depressa, ele acabou sendo escolhido para reflorestar a região e, desde então, passou a fazer parte da paisagem da cidade.

Como o corte das árvores é proibido, surgiu uma atividade bastante curiosa. Existe uma associação de mulheres que percorre diariamente o parque recolhendo apenas folhas, galhos secos e madeira caída naturalmente. Depois, elas carregam enormes fardos nas costas morro abaixo para vender como lenha nos mercados de Addis Abeba. Confesso que foi uma das cenas que mais me marcou durante a viagem. Eram senhoras já de idade, muitas delas bem pequenas fisicamente, transportando cargas que pareciam pesar quase tanto quanto elas próprias. 

Folhas para serem vendidas

É um trabalho extremamente pesado e, pelo que pude perceber, muito mal remunerado. Foi um daqueles momentos em que a beleza da paisagem e a dureza da realidade conviviam lado a lado, lembrando que a Etiópia moderna que tanto me impressionou ainda enfrenta enormes desafios sociais.

Injera, Mercato e o primeiro picolé maranhense da Etiópia

Depois seguimos para um dos restaurantes mais tradicionais de Addis Abeba, o Addis Ababa Restaurant. O restaurante funciona em um casarão histórico construído pelo imperador Menelik II, que foi dado de presente à sua filha, a futura imperatriz Zewditu, quando ela se casou com Dejazmach Wube. Só o prédio já vale a visita. É daqueles lugares em que você tem a sensação de estar entrando em um pedaço da história da Etiópia. Logo na entrada, outra tradição chama a atenção: a cerimônia do café. Uma funcionária coloca carvão em um pequeno fogareiro, torra os grãos de café na hora, mói tudo manualmente e prepara a bebida em uma jarra de barro chamada jebena. No meio tem uns incensos para deixar mais cheiroso. O cheiro do café recém-torrado toma conta do ambiente e, para os etíopes, esse ritual é muito mais do que preparar uma bebida. É uma forma de receber bem os convidados, conversar e celebrar a convivência. Como eu não tomo café, fiquei apenas observando, mas achei muito interessante ver uma tradição tão antiga ainda fazendo parte do cotidiano do país. 

Foi ali também que experimentei o prato mais famoso da culinária etíope: a injera. Na verdade, a injera é aquele enorme pão achatado e esponjoso que serve ao mesmo tempo de prato, talher e acompanhamento. Ela é feita de teff, um cereal originário da Etiópia cultivado na região há milhares de anos. Sobre esse pão são colocados vários ensopados, legumes e molhos, cada um com um sabor completamente diferente. Não existe garfo nem faca. Você rasga um pedaço da injera com a mão e o usa para pegar a comida.

A famosa Injera

E, cara… que negócio bom. A injera tem um sabor levemente azedo, resultado da fermentação da massa, que combina perfeitamente com os ensopados bem temperados. Cada pedaço que você rasga acaba trazendo um molho diferente, então praticamente nenhuma mordida é igual à outra. Depois daquele almoço, eu só pensava em uma coisa: comer injera de novo. Se dependesse de mim, teria almoçado e jantado aquilo todos os dias até ir embora de Addis Abeba.

Me ofereceram um suco de abacate por aquelas bandas também. Sim, é tão ruim e intragável quanto parece

De lá seguimos para o Mercato, considerado um dos maiores mercados a céu aberto da África. Durante décadas, ele foi o principal centro comercial de Addis Abeba e até hoje reúne milhares de comerciantes vendendo praticamente de tudo: frutas, temperos, roupas, ferramentas, eletrônicos, artesanato, peças de carro e mercadorias vindas de todas as regiões da Etiópia. O lugar é importante não apenas pelo tamanho, mas porque continua sendo o coração do comércio popular da cidade. É daqueles lugares onde você consegue entender muito mais sobre a vida de um país do que passeando apenas pelos cartões-postais.

Antes mesmo da viagem, muita gente tinha me dito para não visitar o Mercato sozinho. O próprio Gashaw reforçou essa recomendação. Ele falou que não aconselhava nem mesmo etíopes que não conhecessem bem a região a andarem por lá desacompanhados. O problema não era exatamente violência, mas o tamanho do mercado, a quantidade de gente, o risco de furtos e a facilidade de se perder naquele verdadeiro labirinto de ruas e barracas.

Confesso que, por mais que o Gashaw tentasse me passar tranquilidade, eu não consegui relaxar completamente. Cara… é gente para todos os lados. Muita gritaria, vendedores chamando clientes, carrinhos passando espremidos entre as pessoas, ruas estreitas e uma movimentação praticamente ininterrupta. Era aquele tipo de lugar em que você instintivamente coloca a mão no bolso de cinco em cinco minutos para conferir se carteira e celular continuam ali. No fim das contas, gostei bastante da experiência. Foi um dos lugares mais autênticos que visitei em Addis Abeba, mas passei boa parte do tempo em estado de alerta.

Depois de horas andando pelo mercado, o Gashaw me deixou no hotel para descansar. Pelo menos essa era a ideia dele.

Porque, sinceramente, eu não sei descansar quando estou viajando.

Sempre fico com a sensação de que, se eu passar duas horas deitado no quarto, vou perder alguma coisa incrível acontecendo do lado de fora. É quase uma ansiedade de viajante. Eu olho pela janela, vejo a cidade ali me esperando e começo a pensar: “Já descansei o suficiente.” No fim, quase sempre acabo saindo de novo. Afinal, dá para dormir quando voltar para casa. Viajar, não.

Não deu nem meia hora.

Quando percebi, já estava saindo do hotel de novo.

Descansar definitivamente não é o meu forte quando estou viajando. Então pedi outro Yango e saí para conhecer Addis Abeba à noite.

E, cara… não me arrependi nem um pouco.

Addis Abeba fica linda depois que escurece. Os prédios iluminados, o movimento nas ruas e o clima frio dão à cidade uma atmosfera completamente diferente da que eu tinha visto durante o dia.

Alguém tinha me dado a dica de visitar o Friendship Park, onde acontece um show de luzes todas as noites. Lá fui eu, mais uma vez, dentro de um Yango.

Antes mesmo de entrar no parque aconteceu uma das cenas mais curiosas da viagem.

Um morador de rua veio me pedir dinheiro.

Em inglês.

Tudo bem, ele não começou a recitar Shakespeare nem nada do tipo, mas conseguiu manter uma conversa básica comigo, explicou a situação dele e pediu ajuda. Foi mais uma confirmação daquilo que já vinha me impressionando desde que cheguei ao país: na Etiópia praticamente todo mundo consegue falar pelo menos um pouco de inglês. Como falei, até então, a única vez que eu tinha vivido algo parecido tinha sido na Eslovênia. É uma daquelas coisas que só viajando para acreditar.

Entrei no parque e fui assistir ao famoso show de luzes.

Cara…

Muito legal.

Mas muito legal mesmo.

Jatos d’água, projeções, música e um espetáculo visual muito bem produzido. Na hora me lembrei de um show semelhante que eu tinha assistido anos antes, em Jacarta, na Indonésia. Não era exatamente igual, mas me trouxe aquela mesma sensação de estar vendo uma cidade investir em espaços públicos que realmente valem a visita.

Quando o espetáculo terminou, ainda não era hora de voltar para o hotel.

Resolvi caminhar mais um pouco pela cidade para conhecer o Commercial Bank of Ethiopia Headquarters, o prédio mais alto da Etiópia. À noite, todo iluminado, ele domina completamente o horizonte de Addis Abeba. Confesso que me lembrou bastante os arranha-céus iluminados que vi em Baku, no Azerbaijão. É curioso como uma cidade que tanta gente ainda associa apenas à pobreza hoje possui um skyline cada vez mais moderno.

Só que uma hora a realidade bateu.

Já era tarde da noite.

A temperatura despencava rapidamente.

E, a mais de 2.400 metros de altitude, o frio parecia atravessar o casaco e chegar direto nos ossos.

Achei melhor encerrar o passeio antes que eu me transformasse no primeiro picolé maranhense da história da Etiópia.

Meu grande encontro com Lucy durou até eu fazer uma pergunta

No outro dia finalmente chegou o momento que eu mais aguardava desde que comecei a planejar essa viagem: conhecer Lucy, um dos fósseis mais importantes da história da humanidade. Para quem nunca ouviu falar dela, Lucy é o esqueleto parcial de uma fêmea da espécie Australopithecus afarensis, que viveu há cerca de 3,2 milhões de anos. Seus restos foram encontrados em 1974, na Etiópia, e revolucionaram o estudo da evolução humana ao mostrar que nossos ancestrais já caminhavam sobre duas pernas muito antes de desenvolverem cérebros grandes. Não é exagero dizer que ela ajudou a mudar a forma como entendemos a própria origem da humanidade.

Fazia anos que eu queria conhecer Lucy. Sempre gostei desses temas ligados à evolução humana e à pré-história, então entrar naquele museu era quase como realizar um pequeno sonho de infância. Quando finalmente cheguei à vitrine onde ela estava exposta, fiquei vários minutos parado observando cada detalhe. Olhava para aqueles ossinhos tentando imaginar que aquele ser havia caminhado pela Terra milhões de anos antes de qualquer civilização existir. Era uma sensação difícil de explicar.

Até que resolvi fazer uma pergunta ao ChatGPT sobre um detalhe específico da ossada.

Foi um erro.

O ChatGPT resolveu destruir meus sonhos tão mesquinhos sem a menor cerimônia.

Descobri que os ossos que estavam na vitrine não eram os originais.

Aquilo que eu estava admirando era uma réplica em resina.

Na hora bateu uma pequena decepção.

Pô, réplica em resina eu podia ver em São Luís!

Depois fui entender o motivo. Os verdadeiros restos de Lucy são valiosos demais para ficarem permanentemente expostos ao público. Eles permanecem guardados em um ambiente climatizado, sob rigoroso controle de temperatura e umidade, sendo disponibilizados apenas para pesquisadores e estudos científicos. O que os visitantes veem no museu é uma reprodução extremamente fiel, feita justamente para preservar um dos fósseis mais importantes já encontrados.

Confesso que fiquei um pouco triste quando descobri isso. Por alguns minutos senti que tinham roubado um pedacinho da experiência. Mas, pensando melhor, acho que essa é mesmo a decisão mais sensata. Estamos falando de um patrimônio científico insubstituível. Não dá para deixar ali ao alcance de algum maluco para um acidente ou até a deterioração natural causada pela exposição para colocar em risco algo que pertence, de certa forma, a toda a humanidade.

E, para ser sincero, a réplica era tão bem feita que, se eu não tivesse perguntado ao ChatGPT, provavelmente teria saído do museu acreditando que tinha visto os ossos originais.

Eu e a resina dos restos mortais da mãe da humanidade

Do fóssil de 3 milhões de anos ao bife que nem passou pela frigideira

Só sei que saí do museu com um sentimento meio agridoce. Não por causa da Lucy, mas pelo próprio museu. Pô… era o Museu Nacional da Etiópia. Estamos falando de um dos países historicamente mais importantes da África, berço de uma das civilizações mais antigas do mundo e guardião de um dos fósseis mais famosos da humanidade. Eu imaginava um museu enorme, com dezenas de salas, exposições grandiosas e um acervo gigantesco. Na prática, achei o espaço bem pequeno. São poucos andares e a visita acaba muito mais rápido do que eu esperava. Claro que existem peças interessantes e a própria Lucy já faz o ingresso valer a pena, mas confesso que eu esperava muito mais de um museu nacional de um país como a Etiópia, com tanta história para contar.

Depois da visita, saí para almoçar. E, obviamente, fui repetir o prato que tinha conquistado meu coração desde o primeiro dia: injera com algum dos inúmeros ensopados etíopes. Se uma coisa funciona, não há motivo para inventar moda.

Enquanto esperava a comida, porém, uma cena chamou completamente minha atenção.

Na mesa ao lado havia um grupo de senhores muito bem vestidos, todos de paletó, com aquela cara de empresários ou autoridades. De repente, os pratos chegaram.

E eles começaram a comer… carne de boi crua.

Mas não era um carpaccio, cortado em fatias fininhas e temperado. Também não era um tartare.

Era carne crua mesmo.

Daquelas que, se você colocasse em uma bandejinha de isopor e envolvesse com plástico-filme, eu juraria que tinha acabado de sair da seção de açougue do supermercado.

Aquele prato tradicional etíope se chama tere siga. Consiste em cubos ou tiras de carne bovina crua, normalmente servidos com pimenta, mostarda e temperos locais. Para os etíopes, é uma iguaria bastante apreciada, especialmente em ocasiões especiais e comemorações.

Eu olhava para eles completamente intrigado.

Eles comiam com a maior naturalidade do mundo, enquanto eu tentava convencer meu cérebro de que aquilo era apenas uma diferença cultural.

Não consegui.

Confesso que comecei a sentir aquele inconfundível cheiro de açougue invadindo o restaurante e meu estômago imediatamente avisou que seria melhor manter uma distância respeitosa daquela experiência gastronômica.

A injera eu adorei.

O tere siga… acho que vou deixar para a próxima encarnação.

Enfim, cada cultura tem suas tradições culinárias. Algumas a gente experimenta com prazer. Outras a gente admira de longe. E está tudo bem.

Haile Selassie, rastafáris e uma história difícil de inventar – Como um imperador etíope virou Deus na Jamaica

Saí do almoço e segui para o Museu Etnológico da Etiópia. Confesso que ele nem fazia muita parte dos meus planos. Museus de etnologia normalmente não estão entre os meus favoritos e eu imaginava encontrar apenas uma sequência de vitrines com roupas tradicionais, utensílios antigos e objetos do cotidiano. Mas praticamente todo mundo que eu pesquisava fazia questão de recomendar a visita. Como eu também não tinha nenhum outro compromisso para aquela tarde, resolvi dar uma chance.

Ainda bem que fui.

Logo na chegada entendi por que o lugar é tão especial. O museu funciona no antigo Palácio de Haile Selassie, hoje localizado dentro do campus da Universidade de Addis Abeba. Antes mesmo de olhar qualquer exposição, o próprio prédio já vale a visita. Caminhar pelos corredores, conhecer os antigos aposentos da família imperial e imaginar que aquele foi, durante décadas, o centro do poder da Etiópia dá uma dimensão completamente diferente da história do país.

Foi ali também que percebi que os dois principais museus de Addis Abeba acabam se complementando. O Museu Nacional é mais voltado para a história natural, a arqueologia e, claro, para a Lucy. Já o Museu Etnológico mergulha na formação do povo etíope, nas diferentes etnias, religiões, tradições e na própria história política do país. No fim das contas, se eu tivesse tempo para visitar apenas um dos dois, acho que escolheria justamente o Museu Etnológico. Saí de lá com a sensação de que entendi muito melhor a Etiópia do que quando entrei.

Uma das exposições que mais me chamou a atenção foi a dedicada ao movimento Rastafári. Foi ali que finalmente entendi por que tanta gente associa a Jamaica à Etiópia. O movimento surgiu na Jamaica na década de 1930, inspirado pelas ideias do líder negro Marcus Garvey, e passou a enxergar a Etiópia como a terra prometida para os descendentes de africanos espalhados pelo mundo. Nesse contexto, Haile Selassie deixou de ser apenas o imperador da Etiópia e passou a ser venerado pelos rastafáris como a encarnação de Deus, ou Jah.

O mais curioso é que o próprio Haile Selassie nunca aceitou essa condição divina. Pelo contrário, sempre afirmou ser apenas um homem. Ainda assim, mantinha uma boa relação com o movimento, principalmente por enxergar nele um aliado na valorização da identidade africana e do pan-africanismo. Em 1948, por exemplo, doou terras na região de Shashamane para que afrodescendentes da diáspora que desejassem retornar ao continente africano pudessem se estabelecer na Etiópia.

O grande imperador Haile Selassie

Mas a impressão que tive ao ler os painéis do museu é que o imperador encarava toda essa devoção com uma certa perplexidade. Parecia respeitar os rastafáris e reconhecer sua importância política e cultural, mas não dava muito crédito ao que parecia um bando de maluco vindo do outro lado do continente dizendo que ele era deus. Pelo menos essa foi minha interpretação.

Por fim, fui conhecer a Catedral da Santíssima Trindade, considerada a igreja mais importante de Addis Abeba e a segunda mais sagrada da Igreja Ortodoxa Etíope, atrás apenas da Catedral de Nossa Senhora de Sião, em Axum. Construída durante a ocupação italiana e concluída após a libertação do país, ela acabou se tornando um símbolo da resistência etíope e da recuperação da independência nacional. Além de sua importância religiosa, a catedral abriga os túmulos do imperador Haile Selassie e de sua esposa, a imperatriz Menen Asfaw, além de outras figuras importantes da história do país.

Foi um dos lugares de que mais gostei em Addis Abeba. A arquitetura é belíssima, os vitrais deixam a luz entrar de um jeito muito bonito e existe uma atmosfera de paz difícil de explicar. É aquele tipo de lugar em que você simplesmente senta em um banco e fica observando o movimento, sem pressa para ir embora.

Na verdade, gostei tanto de ficar ali que acabei passando um pouco da conta.

Em determinado momento, um senhor que parecia ser o padre ou o responsável pela catedral veio falar comigo. Na minha cabeça, eu já imaginei que ele iria contar mais alguma curiosidade sobre a igreja. Nada disso. Ele apenas me informou, com toda a educação do mundo, que o horário de visitação havia terminado e que eu precisava me retirar.

Então tá bom.

Tecnicamente, fui expulso da Catedral da Santíssima Trindade. kkk

Tudo bem… talvez “expulso” seja um pequeno exagero da minha parte. Digamos apenas que fui gentilmente convidado a ir embora porque fiquei bem mais do que podia e devia lá dentro.

O lugar que eu mais queria conhecer… e achei melhor não arriscar

Infelizmente chegou a hora de me despedir da Etiópia. E a sensação que ficou foi a de que três dias eram muito pouco para um país com tanta história. Consegui conhecer bem Addis Abeba, mas tive que deixar muita coisa de fora. A primeira delas foi o Mosteiro de Debre Libanos, um dos mais importantes centros religiosos da Igreja Ortodoxa Etíope. Fundado no século XIII por São Tekle Haymanot, o mosteiro é um dos principais destinos de peregrinação do país e fica próximo à famosa Ponte Portuguesa e ao desfiladeiro do Rio Jemma. O problema é que ele fica a cerca de duas horas e meia de carro da capital. Somando ida, volta e visita, praticamente consumiria um dia inteiro da viagem. Com o tempo que eu tinha disponível, simplesmente não fechava a conta.

Mas a maior frustração foi outra.

Desde que comecei a planejar essa viagem, o lugar que eu mais sonhava conhecer era Lalibela. Considerada por muitos o maior tesouro histórico da Etiópia, a cidade é famosa por suas onze igrejas escavadas diretamente na rocha entre os séculos XII e XIII. Em vez de serem construídas para cima, como acontece normalmente, elas foram literalmente escavadas para baixo, formando um conjunto arquitetônico único no mundo e reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO.

Infelizmente, a região de Lalibela vinha enfrentando episódios de conflito armado e instabilidade nos últimos anos. Apesar de a situação oscilar bastante, achei que simplesmente não valia a pena correr o risco.

Afinal, eu tenho um filho pequeno e não posso morrer agora.

Talvez quando ele ficar velho e não quiser mais saber de mim, tudo bem, eu posso morrer. Mas por agora eu não tenho essa escolha

Eu sou muito sensível à altitude. Em Machu Picchu, por exemplo, passei muito mal e quase não conseguia aproveitar o passeio. Em Addis Abeba, que está a cerca de 2.400 metros acima do nível do mar, começou a acontecer algo parecido. Meu estômago simplesmente parou de funcionar direito. Não cheguei ao ponto de passar tão mal quanto no Peru, mas já dava para perceber que meu corpo estava reclamando.

Para piorar, todo mundo dizia que não era necessário reservar um hotel com ar-condicionado porque Addis Abeba é uma cidade fria. E isso é verdade… até certo ponto. Realmente não faz calor, principalmente à noite. O problema é que o ar-condicionado não serve apenas para esfriar o ambiente. Ele também mantém a temperatura estável e permite dormir com as janelas fechadas. Como o meu quarto não tinha ar-condicionado, precisei deixá-las abertas durante a noite. Resultado: barulho de carros, cachorros, gente conversando e tudo o que acontecia na rua acabava entrando no quarto.

Mas acho que o pior nem foi isso.

Foi a altitude.

O ar um pouco mais rarefeito fazia com que eu nunca conseguisse entrar naquele sono realmente profundo. Eu acordava várias vezes durante a noite e, no dia seguinte, parecia que tinha dormido apenas algumas horas. Depois de três dias nesse ritmo, eu já estava completamente esgotado.

Quando cheguei ao aeroporto para seguir viagem, já estava preocupado. Meu estômago continuava estranho, eu me sentia extremamente cansado e comecei a cogitar que talvez tivesse comido alguma coisa estragada.

Felizmente, não era nada disso.

Foi só desembarcar no próximo destino, Seychelles, ao nível do mar, para tudo voltar ao normal. Meu estômago melhorou, a disposição voltou e a sensação de mal-estar simplesmente desapareceu. Era como se meu corpo tivesse dito: “Agora sim.”

Estava na hora da próxima aventura.

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VIAGEM A ETIÓPIA| Addis Abebba, glacial, moderna e sem Coca Zero. Primeiro dia já teve confusão e um taxista feliz (sempre eles)

Poucos países da África despertavam tanta curiosidade em mim quanto a Etiópia. Era um destino que estava na minha lista havia muitos anos. Além de sua história milenar, a Etiópia ocupa um lugar especial no imaginário africano por ter sido o único país a resistir à partilha da África promovida pelas potências europeias no século XIX. Com exceção da breve ocupação italiana durante a década de 1930, o país conseguiu preservar sua independência e acabou se tornando um símbolo de resistência e orgulho para muitos povos africanos.

Já fazia tempo que eu tinha vontade de montar um roteiro aproveitando uma conexão da Ethiopian Airlines. A companhia aérea permite fazer escalas longas em Addis Abeba, e eu sempre achei que seria um desperdício simplesmente trocar de avião em uma cidade com tanta história. A oportunidade apareceu quando um amigo meu se mudou para lá. Aproveitei a viagem entre Luanda, em Angola, e Mahé, nas Seychelles, comprei a passagem pela Ethiopian e programei uma conexão de quatro noites em Addis Abeba.

Infelizmente, meu amigo acabou voltando para o Brasil antes da minha chegada. Então, no fim das contas, tive que explorar a cidade sozinho.

E, cara, vou te falar…

Poucas cidades, entre todas as que já visitei pelo mundo, me deram tanta satisfação quanto Addis Abeba. Foi um daqueles lugares que superaram minhas expectativas praticamente desde o primeiro dia.

Chegando no aeroporto achei que era golpe… e mandei embora o motorista que eu mesmo tinha pedido

Pousei em Addis Abeba e, assim que liguei o celular, já apareceu uma mensagem no WhatsApp. Era um motorista, com foto e tudo, dizendo que estava me esperando no estacionamento número 9 do aeroporto.

Na hora pensei:

“Golpe.”

Respondi que ele devia estar me confundindo com outra pessoa, porque eu não tinha reservado traslado nenhum.

Achei que ele ia espernear, discutir, mas… que nada… Ele respondeu apenas “ok” e foi embora.

Uns dez minutos depois, enquanto caminhava pelo estacionamento, me bateu um estalo.

“…não é possível.”

Abri os e-mails e descobri que eu realmente tinha pedido para o hotel mandar alguém me buscar no aeroporto. Simplesmente tinha esquecido completamente.

Saí correndo para tentar alcançar o motorista.

Quando cheguei ao estacionamento… obviamente ele já tinha ido embora.

Respirei fundo e pensei:

“Beleza. Sem problema. Vou voltar no aeroporto, comprar um chip de celular, sacar dinheiro e chamar um Uber.”

Plano perfeito. Não tinha como dar errado.

Ou quase.

Entrei em direção à porta do terminal e um policial já levantou a mão mandando eu voltar.

— Onde o senhor pensa que vai?

— Acabei de desembarcar. Só vou comprar um chip de celular e sacar um dinheiro.

— Não pode.

— Como assim?

— Quem sai do aeroporto só entra de novo pelo embarque. E, mesmo assim, apenas com cartão de embarque.

Tentei explicar que eu tinha acabado de chegar, que só tinha saído para procurar o motorista e que precisava resolver essas coisas antes de ir para o hotel.

Não adiantou absolutamente nada.

A regra era simples: saiu do aeroporto, não entra mais.

Só depois fui lembrar que a Etiópia passa por um período de instabilidade política e conflitos internos. A segurança no aeroporto estava extremamente rígida e ninguém fazia exceções.

Resultado: fiquei do lado de fora sem chip de celular, sem dinheiro local e sem ter como chamar um carro por aplicativo.

E já passava das nove da noite.

Para piorar, Addis Abeba fica a mais de 2.300 metros de altitude. É uma das capitais mais altas do mundo e, quando o sol vai embora, o frio aparece sem pedir licença.

Lá estava eu, parado na calçada, no frio, sem internet, sem moeda local e começando a repensar todas as minhas escolhas de vida.

Foi quando apareceu um sujeito oferecendo táxi.

Lá vou eu fazer uma das coisas que mais odeio em viagens: barganhar com taxista.

O rapaz falava um inglês surpreendentemente bom e me levou até outro carro, onde estava o motorista de verdade.

Olhei para ele.

Era um cara baixinho, magrinho…

E pensei comigo mesmo:

“Bom… se ele tentar me sequestrar, pelo menos com esse eu consigo sair na mão”

Perguntei quanto ele cobrava.

Na verdade, nem esperei a resposta.

Já lancei logo minha proposta:

— Dez dólares.

Na minha cabeça ele iria pedir uns cinquenta. Taxista de aeroporto costuma ter um talento especial para identificar turista cansado.

Mas, para minha surpresa, ele respondeu na mesma hora:

— Fechado.

Achei estranho.

Estranho até demais. Ele não quis nem barganhar, mano!

Suco de abacate. Sim, é tão ruim quanto parece

O rapaz que fez a intermediação ainda me pediu uma gorjeta pelos “serviços prestados”. Lá se foram mais cinco dólares.

Durante o caminho fomos conversando. O motorista falava um inglês muito bom, era simpático e acabou contando que era formado em engenharia hidráulica. Como não tinha conseguido emprego na área, trabalhava dirigindo táxi para sustentar a família.

Ou seja, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Na Etiópia também existe o engenheiro dirigindo Uber.

Só muito depois fui entender por que ele aceitou minha oferta sem negociar nem por um segundo.

Descobri que a corrida entre o aeroporto e o hotel normalmente custava…

Dois dólares.

Isso mesmo.

Dois dólares.

Enquanto eu comemorava por ter conseguido uma corrida por dez dólares, o motorista provavelmente estava comemorando por ter encontrado o turista mais generoso de Addis Abeba naquela noite.

Foi ali que caiu a ficha.

A Etiópia não era apenas barata.

Ela era absurdamente barata.

E tudo estava apenas para começar.

Fui bancar o esperto e passei o dia procurando um chip e uma Coca-Cola Zero

Cheguei ao hotel, deixei as malas e saí para procurar alguma coisa para comer. Antes, passei em um caixa eletrônico para sacar dinheiro. Foi aí que tive meu primeiro grande choque com Addis Abeba.

Cara… a cidade é muito mais moderna do que eu imaginava.

Havia avenidas largas, prédios enormes, edifícios modernos de vidro e aço e, para minha surpresa, praticamente toda a fiação elétrica era subterrânea. Eu estava caminhando por uma grande metrópole e não por uma cidade que, no imaginário de muita gente (inclusive eu antes de pousar lá), ainda é associada apenas à fome e às guerras.

Quando a gente pensa em Etiópia, normalmente lembra das imagens das grandes secas das décadas de 1980 e 1990, dos campos de refugiados e da pobreza extrema que rodaram o mundo inteiro. Quando criança, tinha um amigo meu que era magrinho e o apelido dele era Etiópia (sim, na década de 90 a gente podia fazer essas coisas). Então chegar a Addis Abeba e encontrar uma cidade moderna causa um choque enorme.

Sim, eu sei que capital não representa um país inteiro. Também sei que existem regiões muito pobres na Etiópia. Mas isso não muda o fato de que a primeira impressão que Addis Abeba passa é completamente diferente da imagem que muita gente, inclusive eu, tinha antes de chegar.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi o custo de vida. A Etiópia é absurdamente barata.

E havia mais uma surpresa.

Apesar de a língua oficial ser o amárico, praticamente todo mundo conseguia se comunicar em inglês. Da recepcionista do hotel ao motorista de táxi, do garçom ao segurança do shopping, sempre havia alguém falando pelo menos o básico. Uns eram praticamente fluentes, outros se viravam como podiam, mas era raro encontrar alguém que não conseguisse manter uma conversa simples.

Perguntei para várias pessoas onde tinham aprendido inglês.

A resposta foi sempre a mesma:

— Na escola.

Cara… isso sempre me impressiona.

Como é que a gente passa mais de dez anos estudando inglês no Brasil e tanta gente termina a escola sem conseguir manter uma conversa básica? Enquanto isso, na Etiópia, um país muito mais pobre que o nosso, boa parte da população consegue se comunicar razoavelmente bem com turistas.

Na manhã seguinte comecei a missão que tinha ficado pendente desde a noite anterior: comprar um chip de celular.

Encontrei uma loja de telefonia perto do hotel.

Só tinha um pequeno problema.

A fila era gigantesca.

Parecia agência bancária em dia de pagamento ou loja de operadora no centro da cidade quando todo mundo resolveu reclamar da mesma conta.

Olhei aquela fila e pensei:

“Eu sou mais esperto que isso.”

Saí andando pela cidade procurando outra loja.

Não era possível que existisse apenas uma.

Detalhe importante: eu estava sem internet, sem mapa e andando completamente no instinto.

Entrei em três shoppings diferentes.

Perguntei para algumas pessoas.

Andei durante mais de uma hora.

Resultado?

Volta o cão arrependido, com suas orelhas tão fartas, com seu osso roído e com o rabo entre as patas

E a fila…

Parecia ainda maior.

Não teve jeito.

Sentei, esperei e fiquei pensando que aquilo era um castigo merecido.

Se eu tivesse feito o chip no aeroporto na noite anterior, teria economizado horas da minha viagem.

Mas não…

Resolvi inventar moda.

Depois de cerca de uma hora e meia, finalmente saí da loja com internet funcionando.

Missão número um concluída.

Faltava a missão número dois.

Encontrar uma Coca-Cola Zero.

Passei em algumas vendinhas perto do hotel.

Nada.

Pensei:

“Normal. Vou em um supermercado grande.”

Entrei em um.

Nada.

Depois outro.

Nada.

Mais um.

Nada.

Foi aí que descobri uma informação que mudou completamente minha viagem. Não existe Coca-Cola Zero na Etiópia. Na verdade, não era só Coca Zero. Praticamente não existia refrigerante sem açúcar. Cheguei ao ponto de perguntar ao próprio ChatGPT onde eu poderia encontrar. Ele indicou alguns supermercados especializados em produtos importados para expatriados. Fui em todos.

E…

Nada.

Cara, isso me deixou genuinamente impressionado. Pode parecer uma reclamação boba, mas eu não tomo café, não gosto de chá e faz tempo que praticamente parei de beber cerveja. No fim do dia, minha única “frescura” é tomar uma Coca-Cola Zero gelada. E, pela primeira vez em muitos anos de viagem, nem isso eu consegui encontrar. No fim das contas, a busca por um chip de celular e por uma simples Coca Zero consumiu praticamente um dia inteiro da minha estadia em Addis Abeba.

A única bebida zero açúcar que pude achar em toda Addis Abebba. Ainda assim só em um restaurante. Nem em supermercado consegui achar

Pelo lado positivo, acabei conhecendo a cidade muito mais do que teria conhecido se tudo tivesse dado certo logo de primeira. Às vezes, perder tempo também é uma forma de viajar.

História da Etiópia, a nação africana que Roma e a Pérsia tratava de igual para igual

Para entender a Etiópia, é preciso esquecer quase tudo o que normalmente imaginamos sobre a África. Enquanto grande parte do continente passou por sucessivas invasões e colonizações, a Etiópia preservou uma continuidade histórica impressionante. Sua origem podemos dizer que começa com o poderoso Império de Axum, que floresceu entre os séculos I e VII e controlava importantes rotas comerciais entre a África, a Península Arábica e a Índia. Eles eram tão poderosos e importantes que o erudito persa (hoje Irã) Mani, fundador do maniqueísmo, chegou a citar Axum como um dos quatro maiores impérios do mundo de sua época, ao lado de Roma, Pérsia e China. E, sim, Roma respeitava o Império dos Etiópes de igual para igual.

A Etiópia também é um dos países cristãos mais antigos do planeta. O cristianismo tornou-se religião oficial ainda no século IV, séculos antes de boa parte da Europa, dando origem à Igreja Ortodoxa Etíope, uma das tradições cristãs mais antigas e singulares do mundo. Como eles se desconectaram da Europa por conta do Império Árabe-Muçulmano, o cristianismo etípoe acabou por preservar costumes que desapareceram em outros lugares da Europa, como longos períodos de jejum que, somados, podem ultrapassar duzentos dias por ano para os fiéis mais devotos. A tradição etíope também atribui enorme importância a personagens bíblicos como a Virgem Maria, o anjo Gabriel e São Jorge, padroeiro nacional. Segundo a tradição local, a Rainha de Sabá era etíope e teve um filho com o rei Salomão, origem lendária da antiga dinastia imperial. Se isso é verdade ou não, é um fato de que emissários etíopes eram recebidos constantemente na corte de Salomão, refletindo a importância que eles tinham no mundo antigo. Os etíopes também afirmam guardar a Arca da Aliança na cidade de Axum. Alguns acreditam, inclusive, que um dos três Reis Magos era etíope, mostrando como a narrativa bíblica faz parte da identidade nacional.

São Jorge matando o dragão

Talvez o mais impressionante seja que, apesar de toda essa longa história, a Etiópia conseguiu preservar sua própria identidade cultural. O idioma oficial continua sendo o amárico, escrito em um alfabeto próprio, o ge’ez, um sistema de escrita com quase dois mil anos de história. Pouquíssimos países mantiveram uma continuidade cultural tão antiga; além da Etiópia, vêm à mente apenas civilizações como China, Japão, Irã e, em parte, o Egito — que preservou muito de seu passado, mas acabou adotando a língua e a cultura árabes. A Etiópia ainda é considerada o berço do café. Segundo a tradição, foi ali que um pastor chamado Kaldi percebeu que suas cabras ficavam mais agitadas depois de comer os frutos de uma determinada planta. Verdadeira ou não, a história simboliza a profunda ligação entre o país e a bebida, que continua fazendo parte da vida cotidiana dos etíopes e da imagem que o país projeta para o mundo.

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Porém, nenhuma figura marcou tanto a história moderna da Etiópia quanto Haile Selassie I, imperador entre 1930 e 1974. Descendente da dinastia que afirmava ter origem no rei Salomão e na Rainha de Sabá, ele tornou-se um símbolo mundial de resistência ao denunciar, na Liga das Nações, a invasão da Etiópia pela Itália fascista de Benito Mussolini em 1935.

Rainha de Sabá indo encontrar o Rei Salomão

Após a Segunda Guerra Mundial, voltou ao trono e promoveu reformas para modernizar o país, embora também tenha sido criticado por seu governo autoritário e pelos problemas econômicos que culminaram em sua deposição em 1974.

Curiosamente, sua importância ultrapassa em muito as fronteiras da Etiópia. Antes de ser coroado, seu nome era Ras Tafari Makonnen, origem do movimento Rastafári, surgido na Jamaica na década de 1930, cujos seguidores passaram a venerá-lo como a manifestação de Deus, ou Jah, na Terra. Foi a partir dessa crença que a Etiópia ganhou um significado espiritual para milhões de pessoas, enquanto símbolos como os dreadlocks, as cores da bandeira etíope e a filosofia de valorização da identidade africana se espalharam pelo mundo, principalmente graças às músicas de Bob Marley, o mais famoso divulgador da cultura rastafári.

Haile Selassie I

Cultura na Etiópia – o país que ninguém me contou que existia

Cara, uma das coisas que mais me impressionou na Etiópia foi o quanto os etíopes são educados. Não, eu não esperava encontrar uma sociedade tribal vivendo isolada do mundo e gritando “uga uga”. Esse estereótipo nunca fez sentido. Mas também não esperava encontrar um povo que, em vários aspectos, me pareceu anos-luz à frente da maior parte da América Latina quando o assunto é educação, cordialidade e interesse pelo mundo.

Como já comentei, praticamente todo mundo falava inglês. E quando eu digo todo mundo, é praticamente todo mundo mesmo. Recepcionistas, garçons, motoristas de aplicativo, policiais,vendedores de rua… teve até pedinte me abordando em inglês (isso só tinha acontecido antes na Eslovênia. Confira o post aqui). Uns falavam melhor, outros pior, mas quase sempre era possível manter uma conversa. Isso tornou a viagem absurdamente fácil para um estrangeiro.

Mas o episódio que mais me marcou aconteceu dentro de um Yango. Assim que o motorista descobriu que eu era brasileiro, abriu um sorriso e disse que adorava o Brasil. Pensei comigo: “Lá vem Neymar, Pelé, Ronaldinho…”

Que nada.

A primeira pergunta dele foi:

— Você já voou em um avião da Embraer?

Na lata.

Fiquei até sem reação.

Depois começou a falar da Amazônia e da importância dela para o planeta. Tudo bem, repetiu aquela história de que ela é “o pulmão do mundo” — que tecnicamente não é bem assim, mas vamos dar um desconto. Em seguida comentou sobre a Guerra das Malvinas e disse que tinha sido um enorme erro a Argentina enfrentar militarmente o Reino Unido. Eu já estava tentando entender de onde aquele sujeito tinha tirado tanta informação sobre a América do Sul quando ele emendou outro assunto.

Falou dos carros fabricados pela Volkswagen no Brasil.

E ainda fez questão de explicar:

— Você sabe que Volkswagen significa “carro do povo”, não sabe?

Como se eu fosse o estrangeiro desinformado da conversa.

Depois contou que ainda era possível encontrar alguns Volkswagen Brasília rodando pelas ruas da Etiópia. Sim, depois que ele falou isso eu fiquei LOUCO para achar uma Brasília Amarela e bater uma foto. Infelizmente não consegui =(

Eu só ficava ouvindo e pensando: “Rapaz… esse motorista sabe mais sobre o Brasil do que muito brasileiro.”

Enquanto isso, muita gente no Brasil mal consegue apontar a capital da Bolívia no mapa.

O mais curioso é que ele não foi uma exceção. Várias pessoas perguntavam de onde eu era e, quando eu respondia “Brasil”, a reação não era “Ah… Rio de Janeiro?”. Muitas simplesmente perguntavam se eu era de Brasília ou demonstravam conhecer outras regiões do país. Pode parecer um detalhe pequeno, mas para quem viaja bastante isso chama muito a atenção. Em um dos meus diários de viagem, por exemplo, contei a história de um holandês que perguntou se eu era de Buenos Aires (cito essa história aqui). Então encontrar gente na Etiópia com esse nível de conhecimento sobre o Brasil foi algo realmente inesperado.

Tudo isso me fez pensar bastante.

Sinceramente, ainda não entendo como a Etiópia não conseguiu se desenvolver economicamente muito mais do que já se desenvolveu. Porque potencial humano ela claramente tem. Durante toda a viagem encontrei pessoas educadas, curiosas, respeitosas e interessadas em conversar sobre o mundo.

E a cidade reforçava essa impressão o tempo todo.

Por onde você olhava havia guindastes.

Mais guindastes.

E mais guindastes.

Era uma quantidade impressionante de prédios sendo construídos. Muitos países ricos em petróleo possuem uma ou duas avenidas cheias de arranha-céus para impressionar o visitante, mas basta virar duas esquinas para a paisagem mudar completamente. Em Addis Abeba, não. A sensação era de uma cidade inteira crescendo ao mesmo tempo. Você andava quilômetros e continuava vendo edifícios modernos, novos empreendimentos e obras espalhadas por todos os lados. Era evidente que a cidade estava passando por uma transformação profunda.

E, talvez, parte dessa confiança venha da própria história do país. Os etíopes têm um orgulho enorme da sua identidade nacional. Não é difícil entender o motivo. Afinal, eles, mais uma vez, pertencem ao único país africano que conseguiu preservar sua independência durante a corrida imperialista europeia do século XIX. Essa história de resistência está presente em monumentos, museus, conversas e até na forma como eles falam do próprio país. É um orgulho que não parece arrogância; parece apenas a consciência de que eles carregam uma das histórias mais antigas e fascinantes de toda a África.

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