Mochila extraviada e mercado com muita confusão

Existe sempre aquelas coisas que você nunca imagina que vão acontecer com você: pegar uma doença muito ruim, ficar pobre, torcer pro Botafogo… Umas das que estavam no meu rol de “isso nunca vai acontecer comigo” era ter uma mochila extraviada. Pô, viajo MUITO no Brasil, seja a trabalho, seja a turismo e nunca, eu disse NUNCA, tive uma mochila extraviada. Por isso, nunca fiz o que varias pessoas recomendam que é deixar artigos de higiene básica e uma muda de roupa dentro da mochila de mão para o caso de você ter uma bagagem extraviada. Por isso o moído foi grande quando eu descobri que a minha mochila não iria mesmo aparecer naquela esteira de bagagem. Falem o que quiser do Brasil, mas comigo isso nunca havia acontecido em terras brasileiras. Se tivesse acontecido isso com qualquer um no Brasil já iam começar o velho clichê: “Se aconteceu isso agora, imagina como não vai ser na Copa…”.
Centro de Pequim

Como não havia o que fazer, fui reclamar no guichê da empresa no aeroporto da China e, lógico, não havia ninguém que falasse um inglês decente para poder me explicar o que estava acontecendo. Papo de cá, mimica de lá, acabamos que nos entendemos e eles ficaram de me entregar a minha mochila no próximo dia pela manhã. Como eu havia mudado minha rota (saí direto de Washington), minha mochila tinha sido extraviada. Saí do guichê com aquela cara de “tá, eu tenho certeza que tudo vai dar certo, United Airlines! Você nunca me aprontou uma!” (NOT!!!!!) e fui para o centro de Pequim procurar o meu couch.

COUCH (HOSPEDAGEM) EM PEQUIM

Até que não foi muito difícil encontrar o lugar que eu iria ficar. Me enrolei um pouco com todas aquelas letras chinesas, mas depois de um tempo zanzando que nem uma barata tonta, me passa um gringo do meu lado (uma coisa que vocês tem que aprender quando viajam na Ásia. Deu algum tipo de problema, pede ajuda pro primeiro gringo que vir!). Pedi o celular dele emprestado, o bicho foi de boa, liguei pra minha host e marquei de me encontrar em frente a uma lojinha lá. Ela foi me buscar e tudo de boa.
Eu iria ficar num couch super irado. No lugar moravam um francês, um inglês, uma russa, uma estoniana e uma chinesa, fora os agregados que iam se jogando lá pelos sofás (quando eu cheguei, além de mim, havia um esloveno babaca). E sim, o lugar era mais bagunçado que o Campeonato Maranhense de Futebol. Assim que cheguei, Sacha, a russa, me perguntou se eu queria dormir um pouco e eu, lógico, disse que não, que era melhor ficar acordado.

Tecla PAUSE

Aqui já vai a primeira dica pra quem estiver pensando em fazer viagens pela Ásia. Se você vem direto do Brasil, NÃO DURMA assim que chegar. Se quiser se acostumar com o fuso horário, controle o seu cansaço e só durma meia noite, uma hora da manhã. Você não vai conseguir dar uma dormidinha de uma hora só para relaxar, você vai capotar, acordar três da manhã e ficar zanzando esperando o dia amanhecer. Portanto, quer vencer o Jet Lag? Durma apenas no horário que você normalmente dormiria no Brasil. Eu dormi meia noite, por exemplo, apesar de esse horário no Brasil ser onze da manhã. Não tem vezes que você volta da balada e vai dormir sete da manhã? Pois é, fique com isso na cabeça e você não vai ficar com sono. Se não for assim, é prego de caixão, vai estar um solzão no lugar, você vai estar na cabeça que no Brasil é de madrugada e lá vai uma semana perdida tentando se adaptar com Jet Lag.

Tecla PLAY

Centro de Pequim

PRECISO DE ROUPAS!!!

Na verdade, na verdade, eu precisava mesmo era ir em um mercado, pois todos meus materiais de higiene pessoal (tirando escova de dente e desodorante) estavam na minha mochilona que só Deus sabia onde estava viajando nesse momento. Não tinha nenhuma roupa tirando a do corpo (que já estava com ela por pelo menos umas quarenta horas) e, o pior, não tinha cuecas.

Descemos para uma feira em um shopping que de cara dava para ver que era bem turístico. Por quê? Nada, só porque a atendente já começou me atendendo em espanhol (não era que lá eles falavam inglês! Ela fala espanhol!). Comprei algumas camisas no melhor estilo “fui em Beijing e lembrei de você”, uma bermuda e depois seguimos para o mais complicado: “comprar cuecas”. Porque? Ah, parceiro, se já é constrangedor você chegar em um camelô e falar “desce um par de cuecas ai”, imagina ter que chegar em um camelô e, por mímicas, querer dizer “estou procurando cuecas”. Parceiro, não teve outro jeito, tirei o cinto da calça, virei de lado, puxei de dentro da calça o “lado” da cueca que eu tava usando (tentando não deixar escapar as teias de aranha e morcegos porque já eram rodados quase 47 horas de uso da mesma cueca) e o cidadão entendeu. Mas, veja bem, eu tava fazendo isso de maneira discreta. A Sacha, amigo, não queria nem saber, já chegava botando o bicho na galera e alardeando para quem quisesse ouvir na feira “estou procurando cuecas para o maranhense ao lado aqui!!!”. E tome constrangimento!

Existem diversas formas de se ganhar a vida na China. Acredite, seu trabalho não é tão ruim quanto você pensa.

Tentei dizer para ela que aquela cena toda era meio constrangedora, uma menina intermediando com seu parco chinês uma compra de cuecas pra mim, mas ela só ficou mais discreta mesmo quando uma vendedora disse que tinha cuecas bem baratas para o seu marido!! Sim, porque se você vê dois gringos de idade semelhante caminhando numa feira e a mulher pedindo cuecas para o homem, você na hora vai deduzir o que?  Se bem que, ela devia era ter achado o máximo! Não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ser casada com um maranhense com 1,60m de pura emoção. Compramos alguns poucos pares, pois, me havia sido prometido que no outro dia pela manhã, eu receberia minha mochila de volta. Comprei mais cuecas mesmo pq o preço tava barato e eu tava precisando de cuecas de qualquer forma. Outra parada bem engraçada é que, muita gente diz que é lenda, mas cara, aquilo sobre os asiáticos é verdade, viu? Não, eu não fui trocar de cueca com o vendedor no banheiro, mas acontece que eu tive que pegar a cueca XXXXXL para ficar um pouco apertada, mas confortável.

Jantar oferecido em um restaurante norte-coreano em Pequim. Como tudo dos norte-coreanos, o restaurante era bem luxuoso

PORQUE TODO MUNDO TEM O SEU DIA DE GRINGO SOLTA FRANGA

No outro dia, como era de se esperar, minha mochila não chegou. Lá fui eu ter que ir comprar mais roupas (principalmente cuecas) só que dessa vez sozinho, pois a Sacha tinha que trabalhar. Após me encontrar com o pessoal da agência de turismo da Coréia do Norte em um restaurante de Pequim e pagar o meu pacote, segui para o mesmo shopping que havia ido com Sacha no dia anterior para comprar as cuecas. Só que, ferrou, tava fechado! O lugar fechava as sete. E aí, parceiro? Se lá que a galera falava pouco inglês já era difícil, imagina como seria nos outros lugares que NINGUÉM fala inglês. Vamos dar um jeito. Camisas eu ate podia pedir emprestadas para a galera do meu couch, mas cueca já é um pouco demais. Fui andando pela rua a procura de algo ou algum lugar que pudesse parecer vender cuecas e nada. Parei em frente a um sex shop e pensei “será se sex shop vende cueca?”, mas depois desisti da ideia de chegar na Coréia do Norte (cujo voo era no outro dia pela manhã) com cuecão de couro (uuhuuuooo!!) ou cuecas de super-homem, águias, elefantes (imagine como seria a tromba), Homem-Aranha, angry birds ou coisas assim. Depois de um tempo, entrei em um supermercado e qual não é a minha surpresa ao descobrir que nos fundos havia uma lojinha de roupas.

Cheguei lá e só vi calcinha para vender (não, amigão, eu não comprei calcinha. Se eu cogitei comprar? Se eu tivesse, cê acha que eu falaria?). Fiquei procurando cueca e nada de achar. Quando fui procurar um vendedor, problema! Só tinha vendedora mulher! Qual problema? Pombas, eu não poderia usar minha estratégia de virar de lado e puxar minha cueca dizendo que eu precisava de aquilo porque, bem, porque ela era mulher, cara! Vai que ela entende que eu tou assediando ela sexualmente (E ai, gatinha? Quer terminar de tirar isso aqui lá em casa?). Sei lá, ninguém falava inglês. Dai, no desespero, não deu outra, apela pra mimica. Nada dela entender. Mais desespero. Tento desenhar uma cueca no papel, nada dela entender. Mais desespero. Resolvi apelar. Comecei a apontar para a calcinha e depois para mim, batendo no peito tentando explicar “quero um desses, só que para homem!”. Na hora eu vi que a cara que ela fez foi “pronto, mais um gringo querendo comprar calcinha! Mais um que vem para Ásia para soltar a franga!” e me entregou uma calcinha!!!! Falei que não era aquilo!! Ela ficou me olhando com uma cara meio estranha e depois fez que entendeu. “Ufa”, pensei. Parceiro, a mulher não me vem lá de dentro e me traz um sutiã? Aí eu realmente tive certeza que ela achava que eu torcia pro São Paulo. Na hora eu fiquei meio sem saber o que falar (pô cara, a mulher achou que eu fui lá para comprar sutiã!!!), mas depois comecei a apontar para a minha bacia!! Ate que, enfim, uma velha que tava lá atrás do balcão entendeu e me trouxe umas cuecas XXXXXL acabando por vez com minha agonia.

United, você me apronta cada uma.

Pior que no final não adiantou de nada. Assim que eu cheguei em casa, Sacha recebe uma ligação. Pela reação dela parecia ser algo bom. Descemos e NA MINHA ULTIMA NOITE EM PEQUIM ANTES DA CORÉIA, me para uma Kombi e me desce um GORDO suado com a minha mochilinha, inteirinha, viva, sã e salva e, o melhor, com todas as minhas cuecas dentro!

Isso, vai lá, mostra pro tio como é que se faz uma pose para foto.
Olha como era simples achar o restaurante que eles haviam indicado, havia só CAMINHÕES em frente da entrada
Centro de Pequim
Pragmatismo, é isso que eu admiro nos chineses. Para que comprar um carrinho de bebê se você já tem uma mala com rodinhas?
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5 comentários em “Mochila extraviada e mercado com muita confusão

  1. Ah, eu também tive uma viagem interessante pelo sul da China no mês de agosto. Dá para resumir da seguinte forma: Sabe aquele papelzinho da Anvisa/Receita que você recebe perguntando se nos últimos 15 dias esteve na zona rural, pegou alguma doença, se portava algum produto biológico estranho… pois tive que mentir em 90% dos quadradinhos. Acho que foi uma viagem interessante…

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