VIAGEM A ETIÓPIA| Addis Abebba, glacial, moderna e sem Coca Zero. Primeiro dia já teve confusão e um taxista feliz (sempre eles)

Poucos países da África despertavam tanta curiosidade em mim quanto a Etiópia. Era um destino que estava na minha lista havia muitos anos. Além de sua história milenar, a Etiópia ocupa um lugar especial no imaginário africano por ter sido o único país a resistir à partilha da África promovida pelas potências europeias no século XIX. Com exceção da breve ocupação italiana durante a década de 1930, o país conseguiu preservar sua independência e acabou se tornando um símbolo de resistência e orgulho para muitos povos africanos.

Já fazia tempo que eu tinha vontade de montar um roteiro aproveitando uma conexão da Ethiopian Airlines. A companhia aérea permite fazer escalas longas em Addis Abeba, e eu sempre achei que seria um desperdício simplesmente trocar de avião em uma cidade com tanta história. A oportunidade apareceu quando um amigo meu se mudou para lá. Aproveitei a viagem entre Luanda, em Angola, e Mahé, nas Seychelles, comprei a passagem pela Ethiopian e programei uma conexão de quatro noites em Addis Abeba.

Infelizmente, meu amigo acabou voltando para o Brasil antes da minha chegada. Então, no fim das contas, tive que explorar a cidade sozinho.

E, cara, vou te falar…

Poucas cidades, entre todas as que já visitei pelo mundo, me deram tanta satisfação quanto Addis Abeba. Foi um daqueles lugares que superaram minhas expectativas praticamente desde o primeiro dia.

Chegando no aeroporto achei que era golpe… e mandei embora o motorista que eu mesmo tinha pedido

Pousei em Addis Abeba e, assim que liguei o celular, já apareceu uma mensagem no WhatsApp. Era um motorista, com foto e tudo, dizendo que estava me esperando no estacionamento número 9 do aeroporto.

Na hora pensei:

“Golpe.”

Respondi que ele devia estar me confundindo com outra pessoa, porque eu não tinha reservado traslado nenhum.

Achei que ele ia espernear, discutir, mas… que nada… Ele respondeu apenas “ok” e foi embora.

Uns dez minutos depois, enquanto caminhava pelo estacionamento, me bateu um estalo.

“…não é possível.”

Abri os e-mails e descobri que eu realmente tinha pedido para o hotel mandar alguém me buscar no aeroporto. Simplesmente tinha esquecido completamente.

Saí correndo para tentar alcançar o motorista.

Quando cheguei ao estacionamento… obviamente ele já tinha ido embora.

Respirei fundo e pensei:

“Beleza. Sem problema. Vou voltar no aeroporto, comprar um chip de celular, sacar dinheiro e chamar um Uber.”

Plano perfeito. Não tinha como dar errado.

Ou quase.

Entrei em direção à porta do terminal e um policial já levantou a mão mandando eu voltar.

— Onde o senhor pensa que vai?

— Acabei de desembarcar. Só vou comprar um chip de celular e sacar um dinheiro.

— Não pode.

— Como assim?

— Quem sai do aeroporto só entra de novo pelo embarque. E, mesmo assim, apenas com cartão de embarque.

Tentei explicar que eu tinha acabado de chegar, que só tinha saído para procurar o motorista e que precisava resolver essas coisas antes de ir para o hotel.

Não adiantou absolutamente nada.

A regra era simples: saiu do aeroporto, não entra mais.

Só depois fui lembrar que a Etiópia passa por um período de instabilidade política e conflitos internos. A segurança no aeroporto estava extremamente rígida e ninguém fazia exceções.

Resultado: fiquei do lado de fora sem chip de celular, sem dinheiro local e sem ter como chamar um carro por aplicativo.

E já passava das nove da noite.

Para piorar, Addis Abeba fica a mais de 2.300 metros de altitude. É uma das capitais mais altas do mundo e, quando o sol vai embora, o frio aparece sem pedir licença.

Lá estava eu, parado na calçada, no frio, sem internet, sem moeda local e começando a repensar todas as minhas escolhas de vida.

Foi quando apareceu um sujeito oferecendo táxi.

Lá vou eu fazer uma das coisas que mais odeio em viagens: barganhar com taxista.

O rapaz falava um inglês surpreendentemente bom e me levou até outro carro, onde estava o motorista de verdade.

Olhei para ele.

Era um cara baixinho, magrinho…

E pensei comigo mesmo:

“Bom… se ele tentar me sequestrar, pelo menos com esse eu consigo sair na mão”

Perguntei quanto ele cobrava.

Na verdade, nem esperei a resposta.

Já lancei logo minha proposta:

— Dez dólares.

Na minha cabeça ele iria pedir uns cinquenta. Taxista de aeroporto costuma ter um talento especial para identificar turista cansado.

Mas, para minha surpresa, ele respondeu na mesma hora:

— Fechado.

Achei estranho.

Estranho até demais. Ele não quis nem barganhar, mano!

Suco de abacate. Sim, é tão ruim quanto parece

O rapaz que fez a intermediação ainda me pediu uma gorjeta pelos “serviços prestados”. Lá se foram mais cinco dólares.

Durante o caminho fomos conversando. O motorista falava um inglês muito bom, era simpático e acabou contando que era formado em engenharia hidráulica. Como não tinha conseguido emprego na área, trabalhava dirigindo táxi para sustentar a família.

Ou seja, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Na Etiópia também existe o engenheiro dirigindo Uber.

Só muito depois fui entender por que ele aceitou minha oferta sem negociar nem por um segundo.

Descobri que a corrida entre o aeroporto e o hotel normalmente custava…

Dois dólares.

Isso mesmo.

Dois dólares.

Enquanto eu comemorava por ter conseguido uma corrida por dez dólares, o motorista provavelmente estava comemorando por ter encontrado o turista mais generoso de Addis Abeba naquela noite.

Foi ali que caiu a ficha.

A Etiópia não era apenas barata.

Ela era absurdamente barata.

E tudo estava apenas para começar.

Fui bancar o esperto e passei o dia procurando um chip e uma Coca-Cola Zero

Cheguei ao hotel, deixei as malas e saí para procurar alguma coisa para comer. Antes, passei em um caixa eletrônico para sacar dinheiro. Foi aí que tive meu primeiro grande choque com Addis Abeba.

Cara… a cidade é muito mais moderna do que eu imaginava.

Havia avenidas largas, prédios enormes, edifícios modernos de vidro e aço e, para minha surpresa, praticamente toda a fiação elétrica era subterrânea. Eu estava caminhando por uma grande metrópole e não por uma cidade que, no imaginário de muita gente (inclusive eu antes de pousar lá), ainda é associada apenas à fome e às guerras.

Quando a gente pensa em Etiópia, normalmente lembra das imagens das grandes secas das décadas de 1980 e 1990, dos campos de refugiados e da pobreza extrema que rodaram o mundo inteiro. Quando criança, tinha um amigo meu que era magrinho e o apelido dele era Etiópia (sim, na década de 90 a gente podia fazer essas coisas). Então chegar a Addis Abeba e encontrar uma cidade moderna causa um choque enorme.

Sim, eu sei que capital não representa um país inteiro. Também sei que existem regiões muito pobres na Etiópia. Mas isso não muda o fato de que a primeira impressão que Addis Abeba passa é completamente diferente da imagem que muita gente, inclusive eu, tinha antes de chegar.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi o custo de vida. A Etiópia é absurdamente barata.

E havia mais uma surpresa.

Apesar de a língua oficial ser o amárico, praticamente todo mundo conseguia se comunicar em inglês. Da recepcionista do hotel ao motorista de táxi, do garçom ao segurança do shopping, sempre havia alguém falando pelo menos o básico. Uns eram praticamente fluentes, outros se viravam como podiam, mas era raro encontrar alguém que não conseguisse manter uma conversa simples.

Perguntei para várias pessoas onde tinham aprendido inglês.

A resposta foi sempre a mesma:

— Na escola.

Cara… isso sempre me impressiona.

Como é que a gente passa mais de dez anos estudando inglês no Brasil e tanta gente termina a escola sem conseguir manter uma conversa básica? Enquanto isso, na Etiópia, um país muito mais pobre que o nosso, boa parte da população consegue se comunicar razoavelmente bem com turistas.

Na manhã seguinte comecei a missão que tinha ficado pendente desde a noite anterior: comprar um chip de celular.

Encontrei uma loja de telefonia perto do hotel.

Só tinha um pequeno problema.

A fila era gigantesca.

Parecia agência bancária em dia de pagamento ou loja de operadora no centro da cidade quando todo mundo resolveu reclamar da mesma conta.

Olhei aquela fila e pensei:

“Eu sou mais esperto que isso.”

Saí andando pela cidade procurando outra loja.

Não era possível que existisse apenas uma.

Detalhe importante: eu estava sem internet, sem mapa e andando completamente no instinto.

Entrei em três shoppings diferentes.

Perguntei para algumas pessoas.

Andei durante mais de uma hora.

Resultado?

Volta o cão arrependido, com suas orelhas tão fartas, com seu osso roído e com o rabo entre as patas

E a fila…

Parecia ainda maior.

Não teve jeito.

Sentei, esperei e fiquei pensando que aquilo era um castigo merecido.

Se eu tivesse feito o chip no aeroporto na noite anterior, teria economizado horas da minha viagem.

Mas não…

Resolvi inventar moda.

Depois de cerca de uma hora e meia, finalmente saí da loja com internet funcionando.

Missão número um concluída.

Faltava a missão número dois.

Encontrar uma Coca-Cola Zero.

Passei em algumas vendinhas perto do hotel.

Nada.

Pensei:

“Normal. Vou em um supermercado grande.”

Entrei em um.

Nada.

Depois outro.

Nada.

Mais um.

Nada.

Foi aí que descobri uma informação que mudou completamente minha viagem. Não existe Coca-Cola Zero na Etiópia. Na verdade, não era só Coca Zero. Praticamente não existia refrigerante sem açúcar. Cheguei ao ponto de perguntar ao próprio ChatGPT onde eu poderia encontrar. Ele indicou alguns supermercados especializados em produtos importados para expatriados. Fui em todos.

E…

Nada.

Cara, isso me deixou genuinamente impressionado. Pode parecer uma reclamação boba, mas eu não tomo café, não gosto de chá e faz tempo que praticamente parei de beber cerveja. No fim do dia, minha única “frescura” é tomar uma Coca-Cola Zero gelada. E, pela primeira vez em muitos anos de viagem, nem isso eu consegui encontrar. No fim das contas, a busca por um chip de celular e por uma simples Coca Zero consumiu praticamente um dia inteiro da minha estadia em Addis Abeba.

A única bebida zero açúcar que pude achar em toda Addis Abebba. Ainda assim só em um restaurante. Nem em supermercado consegui achar

Pelo lado positivo, acabei conhecendo a cidade muito mais do que teria conhecido se tudo tivesse dado certo logo de primeira. Às vezes, perder tempo também é uma forma de viajar.

História da Etiópia, a nação africana que Roma e a Pérsia tratava de igual para igual

Para entender a Etiópia, é preciso esquecer quase tudo o que normalmente imaginamos sobre a África. Enquanto grande parte do continente passou por sucessivas invasões e colonizações, a Etiópia preservou uma continuidade histórica impressionante. Sua origem podemos dizer que começa com o poderoso Império de Axum, que floresceu entre os séculos I e VII e controlava importantes rotas comerciais entre a África, a Península Arábica e a Índia. Eles eram tão poderosos e importantes que o erudito persa (hoje Irã) Mani, fundador do maniqueísmo, chegou a citar Axum como um dos quatro maiores impérios do mundo de sua época, ao lado de Roma, Pérsia e China. E, sim, Roma respeitava o Império dos Etiópes de igual para igual.

A Etiópia também é um dos países cristãos mais antigos do planeta. O cristianismo tornou-se religião oficial ainda no século IV, séculos antes de boa parte da Europa, dando origem à Igreja Ortodoxa Etíope, uma das tradições cristãs mais antigas e singulares do mundo. Como eles se desconectaram da Europa por conta do Império Árabe-Muçulmano, o cristianismo etípoe acabou por preservar costumes que desapareceram em outros lugares da Europa, como longos períodos de jejum que, somados, podem ultrapassar duzentos dias por ano para os fiéis mais devotos. A tradição etíope também atribui enorme importância a personagens bíblicos como a Virgem Maria, o anjo Gabriel e São Jorge, padroeiro nacional. Segundo a tradição local, a Rainha de Sabá era etíope e teve um filho com o rei Salomão, origem lendária da antiga dinastia imperial. Se isso é verdade ou não, é um fato de que emissários etíopes eram recebidos constantemente na corte de Salomão, refletindo a importância que eles tinham no mundo antigo. Os etíopes também afirmam guardar a Arca da Aliança na cidade de Axum. Alguns acreditam, inclusive, que um dos três Reis Magos era etíope, mostrando como a narrativa bíblica faz parte da identidade nacional.

São Jorge matando o dragão

Talvez o mais impressionante seja que, apesar de toda essa longa história, a Etiópia conseguiu preservar sua própria identidade cultural. O idioma oficial continua sendo o amárico, escrito em um alfabeto próprio, o ge’ez, um sistema de escrita com quase dois mil anos de história. Pouquíssimos países mantiveram uma continuidade cultural tão antiga; além da Etiópia, vêm à mente apenas civilizações como China, Japão, Irã e, em parte, o Egito — que preservou muito de seu passado, mas acabou adotando a língua e a cultura árabes. A Etiópia ainda é considerada o berço do café. Segundo a tradição, foi ali que um pastor chamado Kaldi percebeu que suas cabras ficavam mais agitadas depois de comer os frutos de uma determinada planta. Verdadeira ou não, a história simboliza a profunda ligação entre o país e a bebida, que continua fazendo parte da vida cotidiana dos etíopes e da imagem que o país projeta para o mundo.

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Porém, nenhuma figura marcou tanto a história moderna da Etiópia quanto Haile Selassie I, imperador entre 1930 e 1974. Descendente da dinastia que afirmava ter origem no rei Salomão e na Rainha de Sabá, ele tornou-se um símbolo mundial de resistência ao denunciar, na Liga das Nações, a invasão da Etiópia pela Itália fascista de Benito Mussolini em 1935.

Rainha de Sabá indo encontrar o Rei Salomão

Após a Segunda Guerra Mundial, voltou ao trono e promoveu reformas para modernizar o país, embora também tenha sido criticado por seu governo autoritário e pelos problemas econômicos que culminaram em sua deposição em 1974.

Curiosamente, sua importância ultrapassa em muito as fronteiras da Etiópia. Antes de ser coroado, seu nome era Ras Tafari Makonnen, origem do movimento Rastafári, surgido na Jamaica na década de 1930, cujos seguidores passaram a venerá-lo como a manifestação de Deus, ou Jah, na Terra. Foi a partir dessa crença que a Etiópia ganhou um significado espiritual para milhões de pessoas, enquanto símbolos como os dreadlocks, as cores da bandeira etíope e a filosofia de valorização da identidade africana se espalharam pelo mundo, principalmente graças às músicas de Bob Marley, o mais famoso divulgador da cultura rastafári.

Haile Selassie I

Cultura na Etiópia – o país que ninguém me contou que existia

Cara, uma das coisas que mais me impressionou na Etiópia foi o quanto os etíopes são educados. Não, eu não esperava encontrar uma sociedade tribal vivendo isolada do mundo e gritando “uga uga”. Esse estereótipo nunca fez sentido. Mas também não esperava encontrar um povo que, em vários aspectos, me pareceu anos-luz à frente da maior parte da América Latina quando o assunto é educação, cordialidade e interesse pelo mundo.

Como já comentei, praticamente todo mundo falava inglês. E quando eu digo todo mundo, é praticamente todo mundo mesmo. Recepcionistas, garçons, motoristas de Yango, policiais,vendedores deê rua… teve até pedinte me abordando em inglês (isso só tinha acontecido antes na Eslovênia. Confira o post aqui). Uns falavam melhor, outros pior, mas quase sempre era possível manter uma conversa. Isso tornou a viagem absurdamente fácil para um estrangeiro.

Mas o episódio que mais me marcou aconteceu dentro de um Yango. Assim que o motorista descobriu que eu era brasileiro, abriu um sorriso e disse que adorava o Brasil. Pensei comigo: “Lá vem Neymar, Pelé, Ronaldinho…”

Que nada.

A primeira pergunta dele foi:

— Você já voou em um avião da Embraer?

Na lata.

Fiquei até sem reação.

Depois começou a falar da Amazônia e da importância dela para o planeta. Tudo bem, repetiu aquela história de que ela é “o pulmão do mundo” — que tecnicamente não é bem assim, mas vamos dar um desconto. Em seguida comentou sobre a Guerra das Malvinas e disse que tinha sido um enorme erro a Argentina enfrentar militarmente o Reino Unido. Eu já estava tentando entender de onde aquele sujeito tinha tirado tanta informação sobre a América do Sul quando ele emendou outro assunto.

Falou dos carros fabricados pela Volkswagen no Brasil.

E ainda fez questão de explicar:

— Você sabe que Volkswagen significa “carro do povo”, não sabe?

Como se eu fosse o estrangeiro desinformado da conversa.

Depois contou que ainda era possível encontrar alguns Volkswagen Brasília rodando pelas ruas da Etiópia. Sim, depois que ele falou isso eu fiquei LOUCO para achar uma Brasília Amarela e bater uma foto. Infelizmente não consegui =(

Eu só ficava ouvindo e pensando: “Rapaz… esse motorista sabe mais sobre o Brasil do que muito brasileiro.”

Enquanto isso, muita gente no Brasil mal consegue apontar a capital da Bolívia no mapa.

O mais curioso é que ele não foi uma exceção. Várias pessoas perguntavam de onde eu era e, quando eu respondia “Brasil”, a reação não era “Ah… Rio de Janeiro?”. Muitas simplesmente perguntavam se eu era de Brasília ou demonstravam conhecer outras regiões do país. Pode parecer um detalhe pequeno, mas para quem viaja bastante isso chama muito a atenção. Em um dos meus diários de viagem, por exemplo, contei a história de um holandês que perguntou se eu era de Buenos Aires. Então encontrar gente na Etiópia com esse nível de conhecimento sobre o Brasil foi algo realmente inesperado.

Tudo isso me fez pensar bastante.

Sinceramente, ainda não entendo como a Etiópia não conseguiu se desenvolver economicamente muito mais do que já se desenvolveu. Porque potencial humano ela claramente tem. Durante toda a viagem encontrei pessoas educadas, curiosas, respeitosas e interessadas em conversar sobre o mundo.

E a cidade reforçava essa impressão o tempo todo.

Por onde você olhava havia guindastes.

Mais guindastes.

E mais guindastes.

Era uma quantidade impressionante de prédios sendo construídos. Muitos países ricos em petróleo possuem uma ou duas avenidas cheias de arranha-céus para impressionar o visitante, mas basta virar duas esquinas para a paisagem mudar completamente. Em Addis Abeba, não. A sensação era de uma cidade inteira crescendo ao mesmo tempo. Você andava quilômetros e continuava vendo edifícios modernos, novos empreendimentos e obras espalhadas por todos os lados. Era evidente que a cidade estava passando por uma transformação profunda.

E, talvez, parte dessa confiança venha da própria história do país. Os etíopes têm um orgulho enorme da sua identidade nacional. Não é difícil entender o motivo. Afinal, eles, mais uma vez, pertencem ao único país africano que conseguiu preservar sua independência durante a corrida imperialista europeia do século XIX. Essa história de resistência está presente em monumentos, museus, conversas e até na forma como eles falam do próprio país. É um orgulho que não parece arrogância; parece apenas a consciência de que eles carregam uma das histórias mais antigas e fascinantes de toda a África.

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