Lesoto: o reino encravado, a burocracia infernal e a fortaleza de Thaba Bosiu

Lesoto seria o úĺtimo país nesse meu giro pela parte sul da África. Era o país que faltava para eu completar todos os países do sul da África, a exceção talvez de Angola (que na verdade já é quase que no centro da África). Lesoto é um reino e, junto com San Marino e Vaticano, um dos três únicos países do mundo totalmente cercado por outro país. Levando em consideração que San Marino e Vaticano são micropaíses, Lesoto na verdade acaba sendo o único com essa característica. Além disso, é o único país do mundo em que todo seu território está acima de 1000 metros de altura, sendo o país mais frio da África. Ele é um país relativamente isolado e, todo o desafio para chegar lá, mais uma vez, começou pelo visto de entrada no país.

A burocracia do Lesoto explicada: envie documentos para o visto e reze

Mais um capítulo da minha saga com vistos africanos. Para entrar no Lesoto, também precisamos de visto. Antes eles tinham um sistema online todo bonitinho para você aplicar para o visto, mas ele foi simplesmente desativado. Hoje, para conseguir o visto, você tem que mandar seus documentos para um e-mail. Sim, um e-mail. Eles analisam quando querem, respondem quando querem e você fica ali, rezando para alguém abrir a caixa de entrada.

Eu mandei um e-mail perguntando quais documentos eram necessários e… silêncio absoluto. Esperei um mês, reenviei o e-mail e aí sim eles responderam, listando tudo o que eu tinha que mandar. Um dia depois, eu enviei tudo certinho. Receberam, mas responderam dizendo que não iriam emitir o visto naquele momento porque, quando o visto fosse aprovado, eu teria apenas 21 dias para entrar e sair do Lesoto. Ou seja: pediram para eu enviar tudo de novo “mais perto da viagem”. Repare na loucura: enviar de novo para o mesmo e-mail que eles respondem quando querem, sem prazo, sem previsão, sem garantia de nada. E para completar, só emitem o visto se você já tiver comprado passagem de ida e volta e hospedagem.

E se não derem o visto a tempo?

Problema seu. Você perde tudo e dane-se.

Longa vida à burocracia africana.

Enviei tudo de novo e pedi, educadamente, um e-mail de confirmação — só para eu saber que alguém vivo tinha recebido minha mensagem. É claro que não falaram nada. Como sempre, respondem quando querem. A viagem foi chegando, eu mandando e-mail todo dia perguntando se precisavam de mais algum documento. Nada. Nenhuma resposta.

Cheguei até a pedir ajuda para um cara de Lesoto que conheci no Couchsurfing. Todo santo dia ele tentava ligar para todos os números disponíveis no site do visto — nenhum funcionava. Todos caíam, chamavam eternamente ou estavam desativados. Quando eu já estava prestes a cancelar minha passagem do Malawi para Lesoto e comprar uma do Malawi direto para a África do Sul, PLIM, recebo uma carta de autorização para entrada no Lesoto na minha caixa de entrada. Cara, eu comemorei aquilo como se o Brasil tivesse acabado de ganhar uma Copa do Mundo.

Viajar pela África é sempre assim: teste cardíaco gratuito.

E eu achando que a novela tinha acabado ali.

Mal sabia eu que a dor de cabeça estava só começando.

E você achou que tinha acabado? Quando o visto depende de uma sala cheia de papel e frango frito

Ainda no aeroporto da África do Sul, apresentei a carta de visto que o Lesoto tinha me enviado. A atendente da companhia aérea analisou, pediu minha cópia e saiu. Quando anunciaram o embarque, todo mundo foi chamado… menos eu. A moça voltou dizendo que precisava ligar para o Lesoto para confirmar se o meu documento era real antes de me deixar entrar no avião. No fim, deu certo — seguir viagem virou quase um prêmio. Reitero, isso foi ainda na África do Sul.

Ao chegar ao único aeroporto do Lesoto, descobri outra novidade: apesar de ter enviado tudo por e-mail, o visto não ficava pronto ali. Eles só te dão um carimbo temporário de entrada e você tem 72 horas para se apresentar pessoalmente no Ministério de Assuntos Internos para concluir o processo. Ah, detalhe: o lugar não abre fim de semana, fecha para almoço e às 15h encerra o expediente porque, afinal, ninguém é de ferro.

E se você não for?

Basicamente, você vira um problema diplomático ambulante e não consegue nem sair do país.

Quando perguntei no aeroporto onde regularizar isso, o povo arregalava os olhos e mandava: “Vá lá o mais rápido possível”. Nem chip de celular eu pude comprar.

Como eu tinha chegado numa quinta, fui direto ao ministério — vai que eles resolviam que a semana só ia de segunda a quinta e na sexta eu ficava ao léu. Cara, do jeito que as coisas eram, tudo podia acontecer.

O aeroporto é tão pequeno que existe apenas uma vanzinha que busca todos os passageiros. Me avisaram: se eu perdesse a van, só pegaria outra quando chegasse o próximo voo. Entrei na van junto com um grupo de africanos. Depois de alguns minutos ouvindo o papo, algumas palavras soaram familiares. Português. Eram moçambicanos. Ficamos conversando o trajeto todo — admito que foi um alívio falar português depois de tantos dias improvisando inglês.

Cheguei ao meu Airbnb, deixei as malas e parti para o tal ministério.

E aí começou o calvário.

O prédio parecia cenário de série feita para zoar serviço público. Móveis empilhados pelos corredores, poeira acumulada e aquele ar de abandono absoluto — mas com gente circulando, então tecnicamente estava “funcionando”. Me encaminharam para uma salinha e: era um mar de mesas marrons e pilhas absurdas de processos em papel. Pilhas e pilhas. Naquele momento eu compreendi por que eles não respondiam e-mails: quem vai parar a vida para catar processos em montanhas de papel para responder e-mail?

As senhoras do setor foram até simpáticas. Depois de uns 15 minutos escavando papelada, acharam meu processo e me mandaram para outra sala para “pagar o visto”.

Cheguei na tal sala e encontrei três mulheres enormes. Parafraseando um antigo presidente, elas deviam pesar algumas arrobas.  E lá estavam elas sentadas, batendo papo como se nada no mundo fosse mais prioritário. Quando me viram, disseram para esperar no corredor porque ia demorar. E realmente foi. Eu via pela fresta da porta, e, cara, mesmo sabendo que eu estava esperando do lado de fora, elas simplesmente ficaram batendo papo e me deixaram esperando. Era necessário aguardar acabar o bate-papo. Depois de meia hora, uma delas finalmente percebeu a fila crescendo e começou a atender.

Quando entrei, o impacto veio pelo nariz: um cheiro fortíssimo de frango frito impregnado em tudo — paredes, papéis, mesas. Os documentos tinham manchas de gordura. Elas conversavam entre si enquanto faziam meu atendimento, riam, comentavam histórias, como se eu nem estivesse ali. Depois de 45 minutos, paguei a taxa e voltei para a primeira sala.

Ali, as funcionárias disseram que agora o supervisor precisava assinar, mas ele estava em uma reunião. Imagino que fosse do mesmo nível de produtividade da sala do frango frito. Me mandaram sentar e esperar.

E assim foi:

5 minutos.

10.

15.

30.

45.

1 hora.

1h10.

Só então o supervisor apareceu, assinou meu papel e me liberou. Três horas depois, eu finalmente saía com o visto. E não, não estava lotado. Éramos apenas eu e um chinês acompanhado por um despachante do Lesoto. Era pura burocracia, misturada com um certo prazer institucional de mostrar poder — fazer o estrangeiro esperar porque podem.

Para piorar, quando saí, eles me deram um recibo do pagamento. Normalmente jogo isso fora, mas esse achei “bonito” e guardei. No dia seguinte, recebo uma ligação desesperada: era o despachante do chinês dizendo que eu tinha levado o recibo do cliente dele. Conferi e, sim, as funcionárias tinham me entregado o recibo errado. O cara implorou dizendo que precisava daquele papel “com urgência absoluta” e que iria me encontrar onde eu estivesse. Falei que estava num supermercado. Cinco minutos depois, o homem brotou no meio das prateleiras.

Comentei com um taxista e ele disse que, no Lesoto, todo mundo tem medo dos chineses. Segundo ele, os chineses tentam de tudo para não te pagar, e se houver qualquer erro de recibo, eles se negam a pagar e ainda chamam a polícia. Vendo o desespero do despachante, acredito que já tinha policial no calcanhar dele.

E olha… não duvido.

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

Viagem ao Malawi – Perambulando por Lilongwe: quando a capital parece uma cidade sem centro

Cara, por mais que eu tenha tentado encontrar alguma coisa realmente interessante para fazer em Lilongwe, vou te dizer… foi difícil, viu? Mesmo assim fiz meu roteirinho e saí andando pela cidade para ver o que dava.

A primeira parada foi o Lilongwe Wildlife Centre, o principal santuário de vida selvagem do Malawi e um dos projetos de conservação mais importantes da África Oriental. O centro fica bem no meio da capital e funciona como hospital, creche e casa de recuperação para animais vítimas de tráfico, armadilhas ou maus-tratos. Já passaram por lá pangolins, macacos, cervos, aves e todo tipo de bicho que o ser humano dá um jeito de maltratar.

Eles tratam, reabilitam e, quando possível, devolvem os animais à natureza. Também fazem um trabalho bem forte de educação ambiental com escolas e visitantes. Eu fui achando que seria algo meio sem graça, mas acabei gostando bastante — especialmente pelos macacos soltos andando entre a gente, inclusive o lendário macaco da bola azul. Sim, ele mesmo. Tava lá, pleno. Infelizmente não consegui tirar uma foto que fizesse jus às… bem… às azuis dele.

Imagem da internet
Mensagem bem simpática do tipo “Não acaricie um jacaré!!!!”

Depois disso, continuei perambulando pela cidade tentando achar algo para ver ou fotografar. Cara… complicado. Ainda bati foto do Banco Central, de uns prédios governamentais, mas nada que valesse escrever um “uau”. De qualquer forma, eu estava a caminho do ponto que, teoricamente, era o mais famoso da cidade: o Memorial da Primeira Guerra Mundial.

O memorial foi construído pelos britânicos durante o período colonial para homenagear os soldados africanos que lutaram na Campanha da África Oriental ao lado do Exército Britânico — muitos deles do King’s African Rifles, uma tropa formada majoritariamente por povos da região. Sim, teve malawiano lutando contra tropas alemãs em território que hoje é Tanzânia, Moçambique e Malawi. A estrutura permanece até hoje não só por ser herança colonial, mas porque representa um capítulo importante — e pouquíssimo falado — da história do país: milhares de africanos foram enviados para uma guerra que não era deles, mas cujas consequências atingiram profundamente o continente. Além disso, o memorial tem umas das maiores torres do Malawi, então teoricamente daria para ver Lilongwe inteira lá de cima.

Pus no Google Maps e fui. Rapaz… de repente as construções começaram a sumir, o asfalto acabou e me vi cada vez mais cercado por mato, mato e mais mato. Fui ao memorial achando que era no centro — e… era no meio do nada.

Se liga onde ficava o memorial

Para ajudar, começou a chover. Quando tentei subir as escadarias, estavam fechadas com cadeado. Aí surge um sujeito sorridente do nada dizendo que, se eu desse uma “gorjeta”, ele abria. Mano, os caras trancam de propósito só para arrancar uns trocados de quem aparece. Fui ver o livro de visitas: quase quatro da tarde e eu era o único turista do dia. Vida que segue. Subi assim mesmo e, chegando no topo, descobri que não dava para ver quase nada, porque a cidade fica longe do memorial.

Único visitante do dia

O “guia” me contou que a maioria dos turistas que visitam ali são do Quênia, da África do Sul e… da Malásia. Sim, Malásia, lá do outro lado do mundo. Vai entender.

Vista de Lilongwe. Cara, o memorial é realmente no meio do nada

Quando comecei a descer, tava reparando na fiação exposta que parecia ter sido instalada durante a própria Primeira Guerra. Eu já estava com medo de levar um choque quando, de repente, vi um clarão enorme. Pensei: “eita, curto-circuito!”. Nada disso: era um raio, que caiu quase do nosso lado. Foi aí que eu concluí que meu dia já tinha dado tudo o que tinha para dar. Peguei um táxi todo molhado e voltei para o Airbnb que, sim, obviamente, continuava sem energia quando cheguei.

O Malawi funciona… mas continua pobre: entendendo essa contradição

O Malawi é um caso curioso porque, ao mesmo tempo em que é um país extremamente pobre, ele também é surpreendentemente organizado em alguns aspectos. Tem bolsa de valores, instituições relativamente estáveis, um governo que funciona e um ambiente político previsível — o que, convenhamos, já coloca o país na frente de muito vizinho. À primeira vista, parece contraditório: como um país com mercado financeiro, sistema bancário razoável e estabilidade continua entre os mais pobres do mundo? A explicação está, basicamente, na economia. O Malawi não tem saída para o mar, tem pouca indústria, depende pesadamente da agricultura de subsistência e vive sofrendo com eventos climáticos, especialmente secas e enchentes. A estabilidade evita o caos institucional, mas não gera riqueza — e o país simplesmente não tem motores suficientes para crescer.

Essa contradição aparece claramente no dia a dia. Como eu já tinha percebido na prática, a vida no Malawi é marcada por apagões intermináveis, que param restaurantes, hotéis, comércio, hospitais — tudo. E a própria capital, Lilongwe, representa bem essa mistura de ordem com precariedade: é uma cidade espalhadíssima, com bairros distantes, poucas áreas densas e praticamente sem “centro”. Você passa mais tempo cruzando estradas vazias do que caminhando de um bairro ao outro. Parece que você está atravessando várias pequenas cidades em vez de uma capital de verdade. A estabilidade existe no papel, mas ainda não virou desenvolvimento — e o Malawi fica preso exatamente nesse limbo.

Quando eu tentava encontrar alguma atração turística para visitar, cara… complicado. As pessoas são gentis, acolhedoras — o país não tem o apelido de “Warm Heart of Africa” à toa — mas realmente não tem muita coisa para ver na capital. Todo mundo fala maravilhas do Lago Malawi, mas eu via as fotos e parecia… um lago normal. Nada de um Titicaca boliviano. Além de ser relativamente difícil chegar até ele. Então desisti de inventar moda e fiquei pela capital mesmo. Pela capital sem luz, diga-se.

Uma curiosidade foi quando eu estava indo embora no aeroporto. O cara do raio-X me perguntou de onde eu era. Eu falei que era do Brasil, esperando aquele bingo de sempre — Ronaldinho, Rivaldo, Neymar, essas coisas. Nada disso. O cara abriu um sorriso e perguntou: “País do Bolsonaro?”. Vocês que gostam de político, me falem se isso é bom ou ruim.

Mas, sinceramente, a pior parte da viagem não foi o apagão eterno, nem o memorial no meio do nada, nem a ausência de Uber. Foi o fato de que o Malawi virtualmente não tem Coca Zero. Mano… eu não bebo álcool, não tomo refrigerante com açúcar e evito doce. Me sobra o quê? Coca Zero. E ela simplesmente… não existia.

O tanto de dinheiros que uma simples nota de 10 dólares comprava

Aí sim, meu amigo, aí foi sofrimento real.

= (

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

Viagem ao Malawi: pobreza extrema, apagões constantes, coca zero inexistente e um país que tenta funcionar

O Malawi sim, foi um país que eu só decidi visitar porque eu já tava pela região. Nunca tinha ouvido falar em qualquer coisa referente ao país e na verdade vez ou outra eu pegava me confundindo dizendo que eu ia viajar pro Mali e não pro Malawi. As passagens aéreas para lá era bem complicadas, mas acabei conseguindo achar algumas razoáveis com conexões na África do Sul. Depois que eu fui descobrir que o Malawi é o sétimo país mais pobre do mundo. A título de comparação, o Brasil tem uma renda per capita quase 15x maior que a do Malawi e a própria Zâmbia, que eu achei muito pobre, tem 3x mais renda per capita do que o Malawi.

A título de curiosidade, teve uma noite que eu fui tomar banho e comecei a sentir um cheiro de queimado. E isso é estranho, porque, ao contrário do surto esquizofrênco do Brasil que mistura eletricidade e água para ter chuveiro quente (sim, na gringa chamam o chuveiro brasileiro de suicide shower), o chuveiro no Malawi era a gás. Além disso, era um cheiro estranho, parecia cheiro de carvão. Depois fui comentar com o dono do Airbnb e ele me falou que isso ocorria porque os vizinhos usavam carvão para poder cozinhar. Sim, o fogão ainda era a carvão. Isso porque eu tava em um dos bairros mais nobres de Lilongwe, a capital do país.

Isso explica muito os perrengues que iriam acontecer comigo na viagem ao Malawi.

Como é chegar ao Malawi: visto fácil, transporte difícil e os primeiros perrengues

O visto para o Malawi, inacreditavelmente, foi fácil de tirar. Sim, fácil — uma palavra que eu não achava que combinava com vistos africanos depois da novela Zâmbia/Moçambique. Os caras me deram um prazo de até cinco dias úteis e, veja só, em cinco dias úteis o visto estava na minha caixa de entrada, prontinho, online, bonitinho, só para apresentar na chegada. Eu ainda acho que teve algum erro no universo, porque, depois de pagar duas vezes pelo KAZA Visa da Zâmbia e nunca receber resposta de Moçambique, conseguir um visto do Malawi quase como num passe de mágica foi praticamente uma experiência espiritual.

Achar hospedagem, por outro lado, já foi um desafio à parte. Já não sou mais aquele moleque de 20 anos que dorme em qualquer espelunca porque “o importante é viajar”, mas também ainda não virei fresco de hotel cinco estrelas (ainda — ênfase no ainda). Só quero o básico do básico: ar-condicionado, wi-fi e uma cozinha para eu poder fazer minha comida e evitar passar mal com restaurante duvidoso. Cara, achar um lugar com esses três requisitos no Malawi foi quase uma gincana. Mas no fim encaixei um Airbnb que atendia o mínimo existencial que eu precisava, e de lá peguei meu voo na África do Sul rumo ao Malawi.

A novela já começa no aeroporto. No Malawi não existe Uber, Indrive, Yango ou qualquer outro app de transporte. Zero. Você olha pra tela do celular, aperta o aplicativo no automático… e nada funciona. O jeito foi negociar com meu host para ele ir me buscar. Na rua, os taxistas cobram 30 dólares por corrida — sim, TRINTA. Coisa de 170 reais para andar uns poucos quilômetros. É facada, machadinha e serrote tudo junto no turista. Mas beleza, era o que tinha para hoje. Se eu quisesse sair do aeroporto, ou pagava, ou passava a noite fazendo amizade com mosquitos.

História do Malawi: Colonialismo, autocracia e dependência externa

A história moderna do Malawi começa sob domínio britânico, quando a região foi incorporada ao Protetorado da Niassalândia no final do século XIX. Os britânicos estabeleceram ali uma administração colonial voltada principalmente para agricultura e extração de recursos, mas sem grandes investimentos em infraestrutura ou indústria. O país só conquistou sua independência em 1964, adotando inicialmente um sistema de partido único liderado por Hastings Kamuzu Banda, que governou como autocrata por três décadas. O ditador se acha tanto, que mandou até fazer um Mausoléu para ele que até hoje está presente no meio da capital do país, Lilongwe. Fica do lado do Parlamento do país, inclusive. Apesar da independência formal, o Malawi saiu do período colonial com pouquíssimo desenvolvimento econômico, forte dependência externa e uma população majoritariamente rural — características que continuam marcando o país até hoje.

O Mausoléu onde tá enterrado o bonitão
Parlamento do Malawi

Mesmo após a redemocratização nos anos 1990, o Malawi segue entre os países mais pobres do mundo por uma combinação de fatores: falta de acesso ao mar, baixa industrialização, agricultura extremamente dependente do clima, explosão demográfica, desmatamento severo e governos sucessivos sem capacidade de modernizar a economia. A dependência de ajuda internacional é alta, e choques climáticos — como secas e enchentes — afetam diretamente a produção de alimentos e a renda da população.

O país até tem algumas indústrias, cujos donos são parte da minúscula elite branca que ficou por lá. Por lá também tem bastante indianos, que formam a elite comercial do país. Cara, se tem um comércio ou um supermercado, certeza que o dono é um indiano. Sim, mas podia ser o supermercado que fosse, por mais que eu procurasse nunca achava Coca Zero. Impressionante.

Por agora também tem começado a aparecer bastante chineses. Na verdade, os chineses estão cada vez mais presentes na África inteira.

Supermercado do lado do Airbnb. Era de quem? Óbvio, de um indiano

O apagão interminável que me fez repensar o valor da eletricidade

Cara, foi só eu pisar no Airbnb e fuuuuuuuuuuuu. Acabou a luz. Depois de quatro dias sem saber o que era um ar-condicionado ligado à noite na Zâmbia, eu já nem me abalei. Meu corpo tinha virado oficialmente “resiliente ao calor”. O dono do Airbnb me explicou que ali era sempre assim: quedas constantes de energia, mas tinham baterias para manter pelo menos as luzes funcionando. Só não teria ar-condicionado. Nem fogão. Nem TV. Nem… geladeira. Vida que segue.

Aí começou a contagem. Uma hora sem energia. Duas. Três. Nada. Quatro, cinco, seis… nada. Sete… oito… nove… e quando bateu dez horas sem energia, você acha que voltou? Não: eu é que desisti e fui dormir sem ar-condicionado mesmo, igual na Zâmbia. Ainda bem que não estava calor.

Acordei no outro dia e… cadê a luz? Exatamente: não tinha voltado ainda. Tomei café, saí para andar pela cidade, passei o dia fora e… Cadê a luz? Continuava na mesma. A essa altura, até as baterias de luz solar do Airbnb tinham ido para o espaço, então nem luz, nem wi-fi, nem tomada para carregar celular tinha mais. (Ainda bem que eu tinha comprado 10 GB de internet 4G local senão era isolamento total.) O dono do Airbnb ficou com tanta pena que foi no mercado comprar umas lâmpadas recarregáveis e ainda me trouxe um powerbank para eu ao menos carregar o celular quando acabou a bateria.

Quando já era noite, quase hora de dormir de novo, finalmente a energia voltou. Cara… vou te contar: essas viagens servem para a gente aprender a dar valor às coisas mais simples da vida. Eu juro que, depois disso, toda vez que eu chego em casa, aperto o interruptor e a lâmpada acende, eu penso: “rapaz… isso aqui é luxo puro”. Pode parecer bobagem, mas ficar esse tempo todo sem energia é MUITO ruim. Não desejo pra ninguém.

Futebol ainda vai salvar o mundo

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

Viajando a Botsuana – o alívio da chegada a Gaborone

Depois da decepção monumental que foi Kasane, voltei para Victoria Falls e peguei meu voo para Gaborone, a capital de Botsuana. Cara, chegar em Gaborone foi quase terapêutico depois dos perrengues de Victoria Falls e Livingstone. A cidade é moderna, organizada, limpa, pavimentada… um verdadeiro spa urbano depois de ficar negociando preço com taxista na rua, dormindo com mosquiteiro e rezando para a energia não cair por seis horas. Em Gaborone, era só abrir o Indrive (o Uber russo que funciona lá), chamar o carro e pronto. Ar-condicionado ligado 24h, estabilidade, paz espiritual. Até o cérebro agradeceu.

Mas a maré de azar resolveu me acompanhar fielmente em Botsuana. Cara, eu simplesmente esqueci uma sacola com todas as minhas cuecas e meias no Zimbábue. Todas. Cheguei em Botsuana literalmente com a cueca do corpo e dois pares de meia: um vestido e o outro… bem… ruim, por assim dizer. Aí entra o momento em que o ChatGPT brilhou: expliquei que precisava de uma loja estilo Mesbla (sou velho mesmo, paciência), mostrei onde eu estava hospedado e pedi um lugar para comprar cueca e meia barata. ChatGPT mandou direto: “vai no shopping tal e entra na loja tal. Você deve pagar tanto por isso”. Rapaz, tiro e queda. Fui, comprei meia e cueca suficiente para passar o resto da viagem digno — ou algo perto disso.

E foi ali, no shopping, que tive minha primeira surpresa real em Gaborone. Nas cidades da África Subsaariana onde eu tinha ido, shopping normalmente era vazio, um ou outro estrangeiro comendo hambúrguer, uns expatriados trabalhando no notebook, famílias indianas ou árabes andando devagar pelos corredores. Em Gaborone, não: só classe média negra, consumindo, comprando, rindo, almoçando, como qualquer shopping no Brasil. Aquilo me chamou muita atenção porque não é exatamente a “imagem clichê” que associam à África — mas Botsuana é Botsuana. Democracia funcionando, mina de diamante, economia estável… e, ali, um shopping lotado de gente vivendo sua vida normalmente. Foi uma das primeiras coisas que me fez pensar: rapaz, Botsuana é diferente mesmo.

O contraste de Botsuana: estabilidade política, hipersegurança e o museu do sushi

No outro dia saí andando pela cidade batendo fotos dos prédios, do memorial aos três líderes que garantiram a independência de Botsuana e por aí vai. No memorial, inclusive, foi engraçado ver que tinha um grupo de meninas que desfilava, e batia foto, e dançava… Ah pronto, a la a geração Tik Tok. Depois que eu vi, atrás do monumento, tinha sacos e sacos de roupa, acredita? As meninas ficavam trocando de roupa para poder fazer vídeo no TikTok, Rapaz…

Sai de lá e continue passeando pela cidade. Só uma coisa me chamava a atenção. Cara, tinha uns veículos de combate imensos pelas ruas da cidade. Achei estranho, já que Botsuana é um país estável e seguro. Quando eu cheguei no prédio do parlamento para bater foto, mano, era viatura de polícia que não acabava mais. Resolvi perguntar para uns caras engravatados o que estava ocorrendo.

Rapaz, para que, os caras já mandaram um “para que você quer saber?” e na hora eu saquei que eles eram policiais a paisana. E começa os caras a me interrogar. Quem eu era, de onde eu vinha, porque eu tava ali, quando eu tinha chegado em Botsuana… Só sei que na hora deu uma vontade de ir embora, rapaz… Depois que eles viram que eu era só um turista que me explicaram que estava tendo um evento e quatro presidentes africanos estavam presentes, por isso todo aquele aparato policial. Inclusive pediram para eu não bater foto, deixar para bater foto no outro dia. Bater foto? Eu caí foi fora logo. Tá louco. Saí de lá e fui para o museu nacional de Botsuana. Se quiserem ver foto do parlamento baixem na internet.

Pô, do lado de fora do museu um prédio mó bonito. Tinha tudo para ser bem legal. Tinha o que lá dentro?

Museu nacional de Botsuana

Nada

Literalmente nada

Não tou zuando, a única exposição que tinha era da história do Sushi

JURO

Provavelmente estava sendo bancada pela Embaixada do Japão, já que tinha um japonês lá explicando como se faz sushi. Decepção define.

Vai um sushi de plástico aí, patrão?

Depois que saí de lá resolvi ir para um safári que tinha dentro da cidade de Botsuana e aparentemente dava para ir a pé. Sim, a pé. Não tinha carnívoros, só zebras, avestruzes, impalas, essas coisas. Cheguei lá, uma chuva da moléstia. Mais uma vez o azar. Nem desci do carro, pedi pro motorista me deixar no Airbnb de volta pagando o dobro do preço da corrida. Desci do carro, encostei as costas na cama e…? Abriu o sol. Chama outro Indrive e vamo de novo pro safári. Rapaz, não foi eu chegar lá e descobrir que eu não podia fazer o safári a pé? Sim, você podia ir sozinho, podia descer do carro, bater fotos, mas não era como caminhar no Ibirapuera, também não era bagunçado assim. Rapaz, o jeito foi eu pedir de novo pro motorista do Indrive não ir embora. Pedi para ele me deixar em um shopping para eu procurar algo para comer e acabar aquela maré de azar. Cê tá louco, o primeiro dia deu tudo errado.

Subindo a Kgale Hill, a maior montanha de Gaborone

Como em um dia eu já tinha visto tudo o que eu queria em Gaborone, no segundo dia resolvi subir a Kgale Hill. Com cerca de 1.300 metros de altitude, ela se destaca no meio da paisagem e funciona como um mirante natural da capital. Tem uma trilha até o topo que muita gente da cidade já fez. Ela é curta, mas íngreme, então já dá para dizer que você fez “uma aventura” sem sofrer muito. Pois bem, lá fui eu.

Quando fui pesquisar como era subir a tal da Kgale Hill, quase desisti só de ler as barbaridades. Metade da internet dizia que a trilha era “extremamente difícil”, a outra metade estava em pânico absoluto por causa dos supostos babuínos odiadores de humanos que supostamente atacavam quem subia a colina. Aí, pra completar o terror psicológico, cometi o erro de perguntar pro ChatGPT. Rapaz… ele me descreveu praticamente a sucursal do inferno: disse que antigamente davam comida pros babuínos e hoje qualquer pessoa com mochila virava alvo. Se tivesse cheiro de comida, já era: mochila rasgada, bolso rasgado, dignidade rasgada — um autêntico arrastão babuínico. Disse também para não abrir embalagem nenhuma (porque poderia fazer os babuínos acharem que você estava com comida) e ainda mencionou um tal de babuíno alfa lendário, que se implicasse com você sentava no meio da trilha e te obrigava a andar de ré calmamente — porque se corresse, era perseguição e morte.

Beleza, obrigado internet.

Pra fechar o combo do pânico, o motorista do Indrive resolveu colaborar. No meio do caminho, ele perguntou o que eu ia fazer ali. Eu falei que ia subir a colina. Aí veio o golpe final:

Sozinho?

Quando eu disse que sim, ele respirou fundo, me olhou pelo retrovisor e soltou um “tenha cuidado… o caminho é muito desafiador”. Perfeito para acalmar qualquer um, né? Quando ele me deixou no pé da colina, tinha uma patrulha de babuínos me encarando. Eu olhei pra um lado, pro outro… pensei em desistir… mas aí o carro já tinha ido embora. Pronto. Começou oficialmente o modo survival horror Botsuana edition.

Se liga como era a entrada do lugar

Pensei: pronto, arrumei pra minha cabeça. Uma trilha que, pelo que eu tinha lido, era praticamente o Everest versão Botsuana, com babuínos psicopatas armando emboscada. Já estava ali mesmo — então bora. Na pior das hipóteses, era só um fim de semana normal no Rio de Janeiro. Decidi que só ia caminhar por trilha bem marcada e, no primeiro sinal de encrenca — trilha fechando, bifurcação suspeita, mato com cara de “vai te perder sim”— eu dava meia-volta, voltava para a entrada da trilha e fingia que nunca tive essa ideia. E fui com uma pedra na mão, porque vai que eu encontrava o tal babuíno macho alfa mitológico? Eu não ia provocar, mas se ele resolvesse ser doido, eu já estava pronto pra ser doido em dobro.

Fui indo.

E indo.

E indo.

E…

Cheguei no topo.

Na hora bateu aquela sensação “é só isso mesmo?”. A trilha era toda demarcada, e em vários trechos até cimentada. E pra ver o nível de civilização da coisa: o Google Maps mostrava o caminho certinho, como se eu estivesse indo comprar pão. Não vou mentir: é subida e cansa um pouco. Mas, sinceramente? 30 minutos andando e pronto, estava lá em cima vendo Gaborone inteira. No meio do caminho até cruzei o caminho de um gordinho descendo com camisa da Alemanha, enquanto eu estava com a do Brasil. Clássico.

No topo tinha uma torre, provavelmente de telefonia

E os famosos babuínos assassinos?
Além dos que estavam no pé da colina, quantos eu vi?
Absolutamente nenhum.

No meio da trilha larguei até a pedra da “autodefesa”. Já estava era torcendo pra aparecer ao menos um babuíno pra justificar o drama todo — nem isso. A trilha foi tranquila, sem ataque, sem bicho, sem caos, sem arrastão. Valeu pelo passeio, pela vista e pela história… mas a real é que foi bem mais tranquilo do que qualquer pessoa (ou qualquer ChatGPT) tinha me avisado.

Só vi babuínos um pouco longe da entrada e ainda assim, corriam quando achavam que eu ia chegar perto

Ficou para outro dia o encontro com o babuíno alfa demoníaco. Quem sabe na lua cheia da sexta-feira 13.

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

Botsuana: Democracia, Gaborone, Chobe e Kasane: como é viajar pelo país mais estável do continente

A primeira coisa que eu tenho que dizer é que, se na viagem Zâmbia/Zimbábue eu tive uma maré absurda de sorte, em Botsuana foi exatamente o oposto. Impressionante como absolutamente tudo resolveu dar errado ao mesmo tempo. Nada sério, nada envolvendo saúde ou segurança — graças a Deus — mas todo o resto parece que entrou num complô pessoal. Depois eu vou detalhar essa novela, mas já adianto: foi um festival de azar.

Inicialmente, meus planos para Botsuana eram simples: visitar só a capital, Gaborone. Mas quando eu estava montando o roteiro para Zâmbia/Zimbábue, descobri que dava para fazer um bate e volta, um passeio de um dia, de Livingstone até Kasane, em Botsuana, para conhecer o famoso Parque Nacional de Chobe. Pensei: “Uai, é agora!”. E paguei pelo day tour. Antes de contar como esse passeio virou uma comédia de erros, deixa eu explicar um pouco da história de Botsuana — porque esse país é bem mais interessante do que parece no mapa.

Botsuana: o país africano que transformou tradição, política e diamantes em estabilidade

A história moderna de Botsuana começa com a chegada dos britânicos no final do século XIX, quando o território passou a ser administrado como o Protetorado de Bechuanalândia. Nessa fase crucial, três líderes locais — Khama III, Sebele I e Bathoen I — enxergaram o risco de serem anexados pela Rodésia de Cecil Rhodes (hoje Zimbábue), que avançava agressivamente pela região. Os três viajaram até Londres e conseguiram convencer a Coroa britânica a manter Botsuana como protetorado separado, evitando que suas terras fossem tomadas. Essa negociação foi decisiva para o futuro do país e hoje é lembrada no Monumento aos Três Chefes, em Gaborone, que simboliza coragem política e visão estratégica.

Monumento aos três chefes, principal monumento de Gaborone, capital de Botsuana
Sim, tinha umas meninas desfilando lá e fazendo vídeos para o Tik Tok. Cara, elas tinham, literalmente, um saco de roupas para ficar trocando a cada desfilada que elas faziam. Engraçado demais. Sim, eu já fui jovem, eu também fazia coisas assim (não, não desfilei em monumentos, mas você entendeu o meu ponto)

Botsuana conquistou sua independência em 1966 e deu início a uma trajetória singular no continente africano. Ao contrário de muitos países vizinhos, que enfrentaram golpes militares, guerras civis e ditaduras logo após a saída dos colonizadores, Botsuana adotou uma democracia estável desde o primeiro dia. O país era pobre, praticamente sem infraestrutura, mas possuía algo raro: uma liderança pragmática, comprometida e com visão de longo prazo. O primeiro presidente, Seretse Khama — neto de Khama III — combinou tradição local com governança moderna, criando instituições sólidas e um ambiente político que valorizava consenso em vez de confronto.

Além disso, Botsuana investiu os recursos dos diamantes em escolas e universidades e mandou estudantes estudarem na Europa. Quando eles voltaram, eles já eram engenheiros, médicos, administradores públicos, criando uma forte classe média negra que é raro você ver em outros países subsaarianos.

O resultado dessa combinação foi extraordinário. Botsuana se tornou um dos países mais estáveis e bem administrados da África, com crescimento econômico consistente, baixa corrupção e serviços públicos que funcionam melhor do que a média regional. A descoberta e o uso responsável dos diamantes impulsionaram o desenvolvimento, mas não criaram a dependência predatória que arruinou outros países. Hoje, Botsuana é considerado um modelo de democracia africana: segura, previsível e com instituições fortes. Para quem visita a região, a diferença é nítida — é um país que escolheu o caminho da estabilidade e colhe os frutos até hoje.

Os shoppings são lotados de negros consumindo. Isso pode parecer bobeira, mas em outros países africanos, você só vê brancos nos shoppings e os negros trabalhando. Em Botsuana não, lá há uma classe média negra bem forte

As etnias de Botsuana formam um mosaico cultural organizado em torno de grupos conhecidos como Tswana (ou Batswana), que deram origem ao nome do país. Esses grupos são divididos em chefias tradicionais que ainda hoje têm influência política e social, mesmo dentro da estrutura moderna do Estado. Cada etnia possui seu kgosi (chefe), responsável por decisões comunitárias, resolução de conflitos e pela manutenção de tradições. Apesar das diferenças entre os grupos, existe uma identidade coletiva forte e valores compartilhados, elementos que ajudaram Botsuana a manter estabilidade política desde a independência.

O clima do país é semiárido, com longos períodos de seca, solos pobres e chuvas imprevisíveis. Nesse contexto, a água sempre foi um recurso extremamente valioso, essencial para o gado e para a vida no deserto do Kalahari. É por isso que a palavra “pula”, que significa literalmente chuva, se tornou tão simbólica a ponto de virar o nome da moeda nacional. Isso faz lembrar que cada gota conta. Eu só não vi esse semiárido todo que falaram, porque eu não consegui lavar a roupa quando estive por lá do tanto que choveu todos os dias e não ia ter como secar.

Safári no Chobe: a parte épica, a parte frustrante e a parte engraçada

Como eu já estava na Zâmbia e existia um bate-volta bem famoso até o Parque Nacional de Chobe, em Botsuana, pensei: por que não? Chobe é um dos parques mais conhecidos da África — criado em 1968, tem quase 12 mil km² e abriga a maior concentração de elefantes do continente, mais de 100 mil vivendo soltos. O rio Chobe corta o parque garantindo água o ano todo, e por isso atrai de tudo: búfalos, hipopótamos, girafas, crocodilos e uma infinidade de aves. Tem o combo completo: safári terrestre de manhã, safári de barco à tarde. Clássico.

O day tour funciona assim: sete da manhã a van já está buzinando na porta da sua pousada em Livingstone. Te levam até a fronteira com Botsuana, você carimba saída, carimba entrada, troca de carro e pronto — já começa o safári terrestre. A promessa era épica: centenas, milhares de elefantes caminhando a centímetros do carro. O guia falava como se fosse quase um tsunami cinzento andando pela savana. A expectativa era grande.

Quantos elefantes eu vi? 100 mil? 1.000? 100?

ZERO.

Cara, acredita nisso? Me venderam o apocalipse elefantídeo e eu não vi um único elefante. Depois descobri que, nessa época do ano, ainda restam várias lagoas pelo parque por causa das chuvas, então os bichos ficam dentro da mata, escondidos, sem precisar ir até o rio beber água.

Claudiomar triste.

O safári até começou promissor: em cinco minutos encontramos um leopardo no topo de uma árvore com sua refeição — um antílope recém-abatido pendurado ali como um troféu. O bicho estava deitado no galho como se fosse a melhor rede do mundo. Pensei: se começou assim, imagina o resto. Mas não teve resto. Depois disso, vimos alguns búfalos, uns antílopes tímidos e… nada. O safári ficou tão parado que eu literalmente dormi no carro. Claudiomar triste, novamente.

Consegue ver o antílope ali em cima?

À tarde veio o famoso safári de barco no rio Chobe, o mais esperado do passeio. Ali é o momento em que, teoricamente, os elefantes atravessam o rio, os hipopótamos brigam na água e os crocodilos ficam à espreita. E… adivinha? Zero elefantes de novo. Pelo menos hipopótamos e búfalos apareceram em quantidade, e conseguimos ver uns dois crocodilos sem graça.

Foi melhor que nada. Interessante é que o rio delimita a fronteira entre a Namíbia e Bostuana. No lado de Botsuana é um parque, não pode plantar, criar animal, pescar… no lado da Namíbia… bem… dane-se. A gente passava de barco e via os bois pastando na margem do rio e um vaqueiro espantando eles da margem para eles não serem comidos por crocodilos.

Lado da Namíbia, tão nem aí. É vaca, é boi, é chalé para alugar…

A única parte realmente engraçada foi uma menina que, toda vez que aparecia um animal, se agarrava no namorado como se o leopardo fosse pular dentro do barco. Pensei: deve ser americana, sueca, suíça… Não. Era a única menina zambiana do barco. A ironia da vida.

As lixeiras tem que ser praticamente blindadas pros bichos não saírem comendo lixo

No fim do dia voltamos pra Livingstone. Foi legal? Olha… acho que fiquei mais animado por ter passado pela minha primeira quádrupla fronteira (Namíbia, Botsuana, Zimbábue e Zâmbia ao mesmo tempo) do que pelos próprios animais. Hipopótamos eu já tinha visto indo pra Piscina do Diabo, crocodilo eu já vi aos montes no Pantanal… então digamos que foi frustrante.

Mas pelo menos não choveu nenhum dia e consegui fazer tudo o que tinha programado nessa viagem maluca.

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

ZIMBÁBUE | Victoria Falls, babuínos na rua, Mugabe e as Cataratas Vitória #zimbabwe #zimbabue

Queria a vista completa das Cataratas Vitória, e pra isso tive que ir até o Zimbábue. No caminho, encontrei muito mais do que uma das maiores quedas d’água do planeta: vistos complicados, uma cidade que existe só por causa da cachoeira, histórias políticas pesadas e um país que passou por um dos maiores colapsos econômicos da história recente.

As Victoria Falls ficam exatamente na fronteira entre Zâmbia e Zimbábue. Apesar da maioria dos voos internacionais chegar pelo lado zimbabuano, eu optei por me hospedar em Livingstone, na Zâmbia, que é maior, mais estruturada e oferece os principais passeios — como a Piscina do Diabo e o safári a pé com rinocerontes.
Victoria Falls, no Zimbábue, é praticamente uma cidade-monotema: tudo gira em torno da cachoeira.

Ainda assim, é no Zimbábue que você tem a vista mais impressionante e cinematográfica das Cataratas Vitória. É dali que vêm as imagens clássicas de documentários, livros e cartazes de viagem: o paredão de 1,7 km de água despencando, a névoa subindo como fumaça e o barulho que faz o peito vibrar.

Neste vídeo, além da visita às cataratas, eu conto:
– Como funciona a travessia de fronteira entre Zâmbia e Zimbábue
– Por que ficar hospedado em Victoria Falls costuma não valer a pena
– A história do Grande Zimbábue, da colonização britânica e da Rodésia
– A ascensão e queda de Robert Mugabe
– A hiperinflação absurda que destruiu o país
– Como é o Zimbábue hoje, com economia dolarizada
– E várias situações que ninguém te conta sobre viajar por lá

Se você quer entender o Zimbábue além da cachoeira, fica até o fim.

Perambulando pelo Zimbábue: javalis, babuínos e um cotidiano mais tranquilo que o da Zâmbia

Separei pouco tempo para ficar em Victoria Falls, no Zimbábue, porque — como já expliquei — preferi me hospedar em Livingstone. Acabei passando só um dia cheio por lá para ver as cataratas do lado zimbabuano e, mesmo assim, me arrependi. Eu devia era ter ficado em Livingstone o tempo todo e só cruzado a fronteira para ver as cataratas do lado do Zimbábue e voltado no mesmo dia para Zâmbia. A cidade de Victoria Falls não tem absolutamente nada pra fazer, a não ser servir de base para as quedas d’água. A única vantagem real é que tudo é bem mais barato que na Zâmbia — eu comi um prato decente por menos de dez reais. Além disso, lá funciona o Indrive, que é tipo um Uber russo, enquanto na Zâmbia você depende de sorte e boa vontade. Ah, e no Zimbábue a luz caía menos, então deu para usar mais o ar-condicionado (um luxo depois de Livingstone). E o inglês? MUITO mais fácil de entender que o da Zâmbia. Pensando bem, talvez o Zimbábue tenha sido até menos perrengue que a Zâmbia, kkk.

Outra coisa boa: meu chip comprado na Zâmbia funcionou perfeitamente no Zimbábue, então economizei na compra de outro chip. Caminhar por Victoria Falls também tem seu charme porque ali tem bem mais vida selvagem na rua do que em Livingstone. Em Livingstone eu não vi um único animal andando solto. Em Victoria Falls, eu não cheguei a topar com elefantes, búfalos ou hipopótamos — mas vi javalis estilo “Pumba” e babuínos pra dar e vender.

Esse cara aqui ficava em um hotel só espantando babuíno

Eles andam no meio da rua como se fossem cachorros e os moradores precisam trancar portas e janelas, senão eles entram e roubam comida. Tem gente que cria cachorro só para espantar babuíno.

Outra coisa divertida foi minha hospedagem: fiquei num quarto de uma casa, e no outro quarto estavam dois caras do Benin que tinham ido participar de uma conferência africana sobre prevenção de desastres naturais. Os dois eram gente boa, super cultos, mas era nítido que um era o chefe do outro. O chefe sentava à mesa, abria o laptop, e lá ia o subordinado: pegava a garrafa de água, guardava as chinelas do chefe, ligava o carregador do chefe na tomada… só depois ele ligava o próprio laptop. Eu assistia isso e dava risada sozinho. No meio desse convívio, teve um dia que a internet caiu e eu não consegui chamar um táxi para ir ver as cataratas. Os dois me salvaram: o ônibus do evento chegou para buscar eles e eles me deram carona até o centro da cidade, me poupando meia hora de caminhada no sol forte.

Entenda por que o Zimbábue oferece a experiência mais “cinematográfica” das Cataratas Vitória

No Zimbábue é onde você realmente vê as Cataratas Vitória completas. Aquelas imagens de documentário, de livro de geografia e de cartaz de agência de viagem? Todas são feitas do lado zimbabuano. Isso acontece porque a água cai do lado da Zâmbia: quando você visita Livingstone, você está quase em cima das rochas de onde o rio despenca. É legal, tem a Piscina do Diabo, tem emoção, mas a vista é lateral — você vê o abismo bem na sua frente, mas não vê a catarata inteira. Já no Zimbábue, você está exatamente de frente para o paredão de água. É ali que a catarata ganha escala: 1,7 km de queda contínua, uma muralha branca de água se desfazendo, a névoa subindo como fumaça e o estrondo que parece não ter fim.

Olha o tanto de água que fica voando como névoa

O parque do lado zimbabuano tem uma trilha leve com vários mirantes que acompanham praticamente toda a extensão das cataratas. Cada ponto revela um ângulo diferente: em um, a queda principal; em outro, um arco-íris perfeito surgindo no meio da névoa; mais adiante, o desfiladeiro engolindo o rio como se fosse um funil gigantesco. A visita fica muito mais visual, ampla e imersiva — é realmente a experiência mais cinematográfica das cataratas. Mas, dito isso, admito: a Piscina do Diabo na Zâmbia ainda foi meu momento favorito.

O pessoal do lado da Zâmbia na Piscina do Diabo

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

Viagem ao Zimbábue: babuínos na rua, comida barata, Victoria Falls e a nota de 100 trilhões de dólares que não comprava nada

Cheguei ao Zimbábue porque queria ver as Victoria Falls, as Cataratas do Iguaçu da África, que ficam exatamente na fronteira entre Zâmbia e Zimbábue. Apesar de a cidade do lado zimbabuano literalmente se chamar Victoria Falls — porque vive única e exclusivamente para isso — e apesar da maior parte dos voos internacionais chegar justamente ali, eu preferi me hospedar na Zâmbia em Livingstone. A cidade de Livingstone é muito mais estruturada, maior, com mais opções de tudo, enquanto Victoria Falls é praticamente uma cidade-monotema: existe, respira e funciona ao redor da cachoeira.

E mesmo assim, apesar de ser menor, estar num país com um histórico político complicado e viver entre crises cíclicas, a cidade de Victoria Falls recebe mais turistas que Livingstone. E a razão é simples: a vista das cataratas é melhor do lado zimbabuano. É do Zimbábue que você vê o paredão inteiro de água de frente, aquela imagem clássica que aparece em documentários. Do lado da Zâmbia, a visão é lateral, depende da época do ano e muitas vezes alguns trechos chegam a secar. O Zimbábue também investiu mais cedo em turismo: hotéis grandes, trilhas bem feitas e acesso direto ao mirante principal — tudo num espaço compacto, fácil de explorar a pé. No fim das contas, mesmo com inflação, crise política e tudo mais que o país enfrenta, o apelo visual fala mais alto. A maioria dos visitantes atravessa a fronteira porque, para ver as cataratas em sua forma mais épica, o lado do Zimbábue é imbatível.

Apesar da fama, ficar hospedado em Victoria Falls, no lado do Zimbábue, costuma ser uma furada para quem quer aproveitar bem a região. A cidade é pequena, tem menos opções de hospedagem e tudo costuma ser bem mais caro pelos mesmos passeios que você faria do lado zambiano. E o pior: as principais atrações — o safári a pé com rinocerontes e a Piscina do Diabo — ficam em Livingstone, na Zâmbia. Ou seja, se você se hospedar no Zimbábue, vai pagar mais e ainda vai ter que fazer deslocamentos maiores todos os dias. Além disso, quem está no Zimbábue precisa cruzar a fronteira diariamente, perdendo tempo e dinheiro com imigração, transporte e aquela burocracia básica de qualquer travessia africana. E se quiser fazer o day tour para Kasane, em Botsuana? Também vai ter que passar obrigatoriamente por Livingstone. No final das contas, Victoria Falls só vale a pena se você gosta de pagar mais para ter menos benefícios e não se incomoda em perder horas indo e voltando da fronteira. A melhor opção, pra mim, é a que eu fiz: ficar a maior parte dos dias em Livingstone e ir para Victoria Falls apenas no dia de visitar as cataratas do lado zimbabuano.

Chegada ao Zimbábue: gripe forte, avião só de gringos e o taxista mais didático da África

Desci no aeroporto do Zimbábue com uma gripe forte e totalmente desanimado porque imaginava que essa gripe iria estragar a minha viagem. Ledo engano, logo fiquei bom e logo estava lá pronto para a minha viagem. Uma coisa que me chamou a atenção é que só tinha estrangeiros no avião. 100%, todos os lugares. Os únicos locais eram aeromoças ou o piloto. Beleza, é uma zona turística, mas, caramba, mesmo os passeios eu só vi uma vez um casal de locais com a gente, de resto era sempre uma maioria de gringos aposentados.

Peguei um taxista no aeroporto que era gente boa demais e fomos conversando no caminho. Como de costume nos países assim que chego, perguntei para o taxista se era seguro caminhar pela região.

Ele falou que sim, desde que eu caminhasse só pelas estradas, evitasse andar sozinho e a noite e não me aventurasse a caminhar por entre os arbustos:

  • Ah sim, porque nos arbustos pode ter gente escondida para me roubar?
  • Não, porque a alguns metros da pista tem elefantes, hipopótamos e búfalos e se eles se sentirem ameaçados, eles podem te trucidar como uma boneca.

Explicando de forma didática assim não tem como não entender, né?

História do Zimbábue: Do Grande Zimbábue à hiperinflação, a trajetória histórica mais dramática da África Austral

Antes dos europeus chegarem houve na região o Grande Zimbábue, um reino africano que prosperou entre os séculos XI e XV e deixou como legado as famosas ruínas de pedra que deram nome ao país. Séculos depois, no final do século XIX, a região passou a ser alvo da cobiça britânica quando David Livingstone — missionário e explorador escocês — entrou para o imaginário britânico como herói nacional. Já dado como morto na África, ele foi encontrado pelo jornalista Henry Morton Stanley, episódio que gerou a famosa frase “Dr. Livingstone, I presume?”.

TEST.JPG00000
Placa em homenagem a David Livingstone

As explorações de Livingstone revelaram o interior da África Austral aos europeus e abriram caminho para a ambição colonial britânica. Seu relato sobre as Cataratas Vitória despertou interesse na região e tornaram o território mais vulnerável ao avanço imperial. Décadas depois, esse vácuo foi ocupado por Cecil Rhodes, que via a região como parte essencial do seu projeto de expandir o domínio britânico por toda a África. Cecil Rhodes, magnata e político queria estender o domínio do Império Britânico da “Cidade do Cabo ao Cairo”. A presença britânica ali facilitou a exploração de rotas, a instalação de infraestrutura e a articulação política que abriria caminho para a submissão dos reinos locais ao domínio europeu.

Do lado que seria a Rodésia do Sul, os britânicos consolidaram um sistema colonial em que a minoria branca controlava a política, as melhores terras agrícolas e praticamente toda a economia, enquanto a população africana era empurrada para reservas pobres e sem direitos. Essa desigualdade profunda alimentou décadas de tensão. Em 1965, quando muitos países africanos já estavam conquistando independência, os colonos brancos da Rodésia do Sul se recusaram a abrir mão do poder e declararam uma independência unilateral — um Estado que continuava branco, mas sem reconhecimento internacional. Esse ato provocou o início de uma guerra longa entre os nacionalistas africanos e o governo colonial, conflito que geraria as lideranças que mudariam o país, incluindo Robert Mugabe, que chegaria ao poder em 1980 como herói nacional. Foi o fim da Rodésia e o nascimento do Zimbábue. Com Mugabe, as coisas que estavam ruins se tornaram apocalípticas.

TEST.JPG00000

O governo de Robert Mugabe transformou o Zimbábue em um laboratório de desastre político, econômico e humano. Ele começou como líder da independência e poderia ter sido o Nelson Mandela do Zimbábue, unificando o país após o fim da Rodésia branca. Em vez disso, escolheu se tornar um tirano. Seu governo promoveu massacres contra opositores — o mais famoso deles foi o Gukurahundi, nos anos 1980, quando milhares de civis ndebeles foram mortos por forças comandadas pelo próprio Estado. Mugabe não pode ser acusado de racismo, no governo dele ele perseguiu, democraticamente, tanto negros quanto brancos: os primeiros, quando discordavam dele; os segundos, quando decidiu expropriar propriedades agrícolas sem planejamento, destruindo a principal base econômica do país. A intolerância política virou regra, jornalistas foram silenciados, opositores desapareceram e eleições se tornaram teatro.

Crianças brincando nas ruas, uma imagem que eu já tinha me desacostumado no Brasil

O colapso total veio com a hiperinflação histórica, que chegou a níveis tão absurdos que as pessoas andavam com notas de trilhões de dólares zimbabuanos. A maior de todas foi a nota de 100 trilhões de dólares zimbabuanos, um pedaço de papel que não comprava nem um pão — quando havia pão. Era comum ver pessoas indo ao mercado carregando sacolas cheias de dinheiro que valiam menos do que o plástico da própria sacola. A população gastava o salário imediatamente, antes que perdesse valor em poucas horas, e muitos acabaram abandonando a moeda local, passando a usar dólar americano, rand sul-africano ou qualquer moeda estrangeira que ainda tivesse algum poder de compra.A economia derreteu, hospitais fecharam, milhões fugiram do país e a moeda deixou de existir. O fim do regime só veio quando o próprio partido de Mugabe o expulsou em 2017, pressionado pelo Exército. Depois disso, o país adotou o dólar americano, a economia estabilizou minimamente e parte da vida cotidiana voltou ao eixo — ainda longe do ideal, mas sem a ruína absoluta da era Mugabe. Ele poderia ter entrado para a história como símbolo de reconciliação e liderança; porém preferiu enriquecer, se perpetuar no poder e deixar como legado um país devastado.

Hoje o Zimbábue tem uma economia dolarizada e você pode ter uma vida mais próxima do normal.

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

ZÂMBIA | Piscina do Diabo e rinocerontes a pé: a viagem mais insana da minha vida. Parte 2 #zambia

Você já ouviu falar no passeio do rinoceronte em Livingstone, na Zâmbia? Eu também não. Mas fui — e foi um dos momentos mais impressionantes da minha vida. Você anda a pé, no meio do mato, com guias armados de AK-47, até ficar a poucos metros de um rinoceronte solto na natureza. E se acha que isso já é loucura suficiente, se prepara: eu também nadei na Piscina do Diabo, uma piscina natural na beira das Cataratas Vitória, com um abismo de mais de 100 metros logo depois da borda. Neste vídeo, eu conto como esses dois passeios me fizeram repensar o que é segurança, aventura e respeito à natureza. Falo sobre os cuidados que os guias tomam, o papel dos turistas na preservação da fauna, o perigo dos caçadores ilegais e o que acontece quando você resolve “pagar de doido” num lugar onde os animais valem mais que os visitantes. Se você curte histórias de viagem com emoção de verdade — e não só selfie em ponto turístico —, esse vídeo vai mexer com você.

VIAGEM A ZÂMBIA E VICTORIA FALLS | Como sobreviver caos africano e se divertir muito #victoriafalls

A Zâmbia foi uma das viagens mais intensas que já fiz. Fui ver de perto as Cataratas Vitória, uma parede de água que despenca de mais de 100 metros de altura e faz o chão tremer. Me molhei na névoa a quilômetros de distância da queda d’água, me joguei — literalmente — na Piscina do Diabo, a centímetros do abismo, e caminhei ao lado de rinocerontes, escoltado por guardas armados. Mas não foi só isso: também teve blackout todo dia, mosquiteiro obrigatório por causa da malária, taxistas que viraram guias improvisados e um visto que me custou o dobro — porque os caras simplesmente não entregam no prazo. No meio disso tudo, entendi por que a cidade se chama Livingstone, como a figura do explorador britânico virou parte da identidade local, e como até os elefantes viram problema urbano. Se quer entender como é viajar por um país que mistura natureza extrema, caos africano, gentileza inesperada e histórias coloniais mal resolvidas, esse vídeo é pra você.