Lesoto seria o úĺtimo país nesse meu giro pela parte sul da África. Era o país que faltava para eu completar todos os países do sul da África, a exceção talvez de Angola (que na verdade já é quase que no centro da África). Lesoto é um reino e, junto com San Marino e Vaticano, um dos três únicos países do mundo totalmente cercado por outro país. Levando em consideração que San Marino e Vaticano são micropaíses, Lesoto na verdade acaba sendo o único com essa característica. Além disso, é o único país do mundo em que todo seu território está acima de 1000 metros de altura, sendo o país mais frio da África. Ele é um país relativamente isolado e, todo o desafio para chegar lá, mais uma vez, começou pelo visto de entrada no país.

A burocracia do Lesoto explicada: envie documentos para o visto e reze
Mais um capítulo da minha saga com vistos africanos. Para entrar no Lesoto, também precisamos de visto. Antes eles tinham um sistema online todo bonitinho para você aplicar para o visto, mas ele foi simplesmente desativado. Hoje, para conseguir o visto, você tem que mandar seus documentos para um e-mail. Sim, um e-mail. Eles analisam quando querem, respondem quando querem e você fica ali, rezando para alguém abrir a caixa de entrada.

Eu mandei um e-mail perguntando quais documentos eram necessários e… silêncio absoluto. Esperei um mês, reenviei o e-mail e aí sim eles responderam, listando tudo o que eu tinha que mandar. Um dia depois, eu enviei tudo certinho. Receberam, mas responderam dizendo que não iriam emitir o visto naquele momento porque, quando o visto fosse aprovado, eu teria apenas 21 dias para entrar e sair do Lesoto. Ou seja: pediram para eu enviar tudo de novo “mais perto da viagem”. Repare na loucura: enviar de novo para o mesmo e-mail que eles respondem quando querem, sem prazo, sem previsão, sem garantia de nada. E para completar, só emitem o visto se você já tiver comprado passagem de ida e volta e hospedagem.

E se não derem o visto a tempo?
Problema seu. Você perde tudo e dane-se.

Longa vida à burocracia africana.
Enviei tudo de novo e pedi, educadamente, um e-mail de confirmação — só para eu saber que alguém vivo tinha recebido minha mensagem. É claro que não falaram nada. Como sempre, respondem quando querem. A viagem foi chegando, eu mandando e-mail todo dia perguntando se precisavam de mais algum documento. Nada. Nenhuma resposta.

Cheguei até a pedir ajuda para um cara de Lesoto que conheci no Couchsurfing. Todo santo dia ele tentava ligar para todos os números disponíveis no site do visto — nenhum funcionava. Todos caíam, chamavam eternamente ou estavam desativados. Quando eu já estava prestes a cancelar minha passagem do Malawi para Lesoto e comprar uma do Malawi direto para a África do Sul, PLIM, recebo uma carta de autorização para entrada no Lesoto na minha caixa de entrada. Cara, eu comemorei aquilo como se o Brasil tivesse acabado de ganhar uma Copa do Mundo.

Viajar pela África é sempre assim: teste cardíaco gratuito.
E eu achando que a novela tinha acabado ali.
Mal sabia eu que a dor de cabeça estava só começando.

E você achou que tinha acabado? Quando o visto depende de uma sala cheia de papel e frango frito
Ainda no aeroporto da África do Sul, apresentei a carta de visto que o Lesoto tinha me enviado. A atendente da companhia aérea analisou, pediu minha cópia e saiu. Quando anunciaram o embarque, todo mundo foi chamado… menos eu. A moça voltou dizendo que precisava ligar para o Lesoto para confirmar se o meu documento era real antes de me deixar entrar no avião. No fim, deu certo — seguir viagem virou quase um prêmio. Reitero, isso foi ainda na África do Sul.

Ao chegar ao único aeroporto do Lesoto, descobri outra novidade: apesar de ter enviado tudo por e-mail, o visto não ficava pronto ali. Eles só te dão um carimbo temporário de entrada e você tem 72 horas para se apresentar pessoalmente no Ministério de Assuntos Internos para concluir o processo. Ah, detalhe: o lugar não abre fim de semana, fecha para almoço e às 15h encerra o expediente porque, afinal, ninguém é de ferro.

E se você não for?
Basicamente, você vira um problema diplomático ambulante e não consegue nem sair do país.
Quando perguntei no aeroporto onde regularizar isso, o povo arregalava os olhos e mandava: “Vá lá o mais rápido possível”. Nem chip de celular eu pude comprar.

Como eu tinha chegado numa quinta, fui direto ao ministério — vai que eles resolviam que a semana só ia de segunda a quinta e na sexta eu ficava ao léu. Cara, do jeito que as coisas eram, tudo podia acontecer.
O aeroporto é tão pequeno que existe apenas uma vanzinha que busca todos os passageiros. Me avisaram: se eu perdesse a van, só pegaria outra quando chegasse o próximo voo. Entrei na van junto com um grupo de africanos. Depois de alguns minutos ouvindo o papo, algumas palavras soaram familiares. Português. Eram moçambicanos. Ficamos conversando o trajeto todo — admito que foi um alívio falar português depois de tantos dias improvisando inglês.

Cheguei ao meu Airbnb, deixei as malas e parti para o tal ministério.
E aí começou o calvário.
O prédio parecia cenário de série feita para zoar serviço público. Móveis empilhados pelos corredores, poeira acumulada e aquele ar de abandono absoluto — mas com gente circulando, então tecnicamente estava “funcionando”. Me encaminharam para uma salinha e: era um mar de mesas marrons e pilhas absurdas de processos em papel. Pilhas e pilhas. Naquele momento eu compreendi por que eles não respondiam e-mails: quem vai parar a vida para catar processos em montanhas de papel para responder e-mail?

As senhoras do setor foram até simpáticas. Depois de uns 15 minutos escavando papelada, acharam meu processo e me mandaram para outra sala para “pagar o visto”.

Cheguei na tal sala e encontrei três mulheres enormes. Parafraseando um antigo presidente, elas deviam pesar algumas arrobas. E lá estavam elas sentadas, batendo papo como se nada no mundo fosse mais prioritário. Quando me viram, disseram para esperar no corredor porque ia demorar. E realmente foi. Eu via pela fresta da porta, e, cara, mesmo sabendo que eu estava esperando do lado de fora, elas simplesmente ficaram batendo papo e me deixaram esperando. Era necessário aguardar acabar o bate-papo. Depois de meia hora, uma delas finalmente percebeu a fila crescendo e começou a atender.

Quando entrei, o impacto veio pelo nariz: um cheiro fortíssimo de frango frito impregnado em tudo — paredes, papéis, mesas. Os documentos tinham manchas de gordura. Elas conversavam entre si enquanto faziam meu atendimento, riam, comentavam histórias, como se eu nem estivesse ali. Depois de 45 minutos, paguei a taxa e voltei para a primeira sala.

Ali, as funcionárias disseram que agora o supervisor precisava assinar, mas ele estava em uma reunião. Imagino que fosse do mesmo nível de produtividade da sala do frango frito. Me mandaram sentar e esperar.
E assim foi:
5 minutos.
10.
15.
30.
45.
1 hora.
1h10.
Só então o supervisor apareceu, assinou meu papel e me liberou. Três horas depois, eu finalmente saía com o visto. E não, não estava lotado. Éramos apenas eu e um chinês acompanhado por um despachante do Lesoto. Era pura burocracia, misturada com um certo prazer institucional de mostrar poder — fazer o estrangeiro esperar porque podem.

Para piorar, quando saí, eles me deram um recibo do pagamento. Normalmente jogo isso fora, mas esse achei “bonito” e guardei. No dia seguinte, recebo uma ligação desesperada: era o despachante do chinês dizendo que eu tinha levado o recibo do cliente dele. Conferi e, sim, as funcionárias tinham me entregado o recibo errado. O cara implorou dizendo que precisava daquele papel “com urgência absoluta” e que iria me encontrar onde eu estivesse. Falei que estava num supermercado. Cinco minutos depois, o homem brotou no meio das prateleiras.

Comentei com um taxista e ele disse que, no Lesoto, todo mundo tem medo dos chineses. Segundo ele, os chineses tentam de tudo para não te pagar, e se houver qualquer erro de recibo, eles se negam a pagar e ainda chamam a polícia. Vendo o desespero do despachante, acredito que já tinha policial no calcanhar dele.
E olha… não duvido.
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