Perambulando por Antália

No outro dia resolvi dar a tradicional perambulada pela cidade. Acordei cedo e decidi ir para praia pra, pela primeira vez, tomar um banho no mar Mediterrâneo. Antália é famosa pelas diversas praias ensolaradas que fazem a alegria de europeus e russos. A galera lá do Norte desce em peso pra Antália nessa estação pois em agosto já começa a ficar frio na Europa. Quando saí da Polônia a temperatura estava oscilando entre 12 a 15 graus e chovia o dia inteiro. Saca só a temperatura que estava em Antália no dia em que cheguei lá:

Saí andando e pude ver algumas falésias que me lembraram as que havia visto em Bali.
Fui que nem um menino pulando de uma parada a outra achando que as falésias iam até as águas. Fui pulando, pulando, pulando… Vlapt, Vlapt, “Hahahahe-que-divertido”, “nossa-nunca-me-diverti-tanto”, “meu-Deus-que-felicidade” e… uooowwww… ACABOU O CHÃO!! Mermão!! A parada era um precipício!! Eu fui caindo, caindo e tive que sair me agarrando no que eu vi… Me abracei à primeira coisa que vi e me arranhei todo.

Cara, quase que eu volto pra casa todo molhado, hehehe… Depois dessa experiência de quase morte, resolvi fazer algo mais seguro como nadar com tubarões ou chamar a Feiticeira pra porrada.
Personificação de onde mais ou menos eu fiquei pendurado…
Fui pra praia pra ver “de qual é” e fiquei fascinado. As águas eram de uma pureza impressionante. Nem água de piscina era tão clara como aquela. Comecei a andar pela areia e fui surpreendido por algo interessante. As praias tinham cordas pra delimitar as partes privadas dos hotéis. Nunca tinha visto isso.

Depois de um tempo nadando voltei pra areia pra dar uma secada e notei que duas minas estavam pegando sol ao meu lado. Bem, já tava ali mesmo… sentado… sem fazer nada… não custava nada puxar um assunto com elas, né? Cheguei do lado como quem não quer nada e conversa vai, conversa vai, perguntei a nacionalidade delas: Polonesas! Bingo! Ficamos amigos e marcamos de sair mais tarde pra poder tomar uma cerveja. Beleza, voltei pro apartamento pra trocar de roupa mais feliz que o traficante da Amy Winehouse. Tomei meu banho, troquei de roupa e quando estava saindo de fininho pela porta do apartamento, o Mehmet veio pra falar comigo:
Taxista tirando um cochilo. Ow menino bunitinho, meu Deus!
– Claudio, onde cê tá indo, cara?
– Er… hum… veja bem… eu… eu… eu tou indo dar uma volta na cidade, cara!
– Ah, que legal, vou com você então, posso te apresentar tudo por lá.
– Er.. hum… veja bem… Não precisa não, cara. Não quero incomodar, pode ficar aí…
– Não, não, pode deixar que eu vou…
Cara, tudo o que eu não queria era mais gente pra poder melar meu esquema com as polacas. Ainda mais um TURCO e ainda por cima tiozão. Fiquei até imaginando como deveria ser essa combinação explosiva. Imagina aqueles tiozão chegando nas minas aqui no Brasil? Agora imagina um cara TURCO e ainda por cima tiozão, realmente me deixou preocupado o que poderia ocorrer… Desculpa, cara, não é nenhum preconceito com os turcos, mas é que o último que eu havia conhecido eu não tive uma boa impressão na Tailândia. Perdoem pelo politicamente incorreto, mas esse é um blog de viagens com um toque de humor. Mas segue o diálogo:

– Não, mas eu vou sair com uns amigos brasileiros que conheci por aí. A gente quer só falar português o dia inteiro.
– Não tem problema…
– Mas, mas…
Outra coisa que me impressionou nessas praias de Antália. Vocês já tinham visto uma praia que não possui areia, mas… Pedras?
Mas não teve jeito. Ele acabou indo comigo. No caminho expliquei que ia me encontrar também com duas polonesas que havia conhecido na praia e talvez o brasileiro não fosse aparecer. Ele não percebeu que eu estava de caô e acabou vindo comigo. No final eu percebi que estava sendo um imbecil com o Mehmet e foi muito legal ele ter ido comigo encontrar as meninas. Ele era gente boa demais e, apesar de estarmos no Ramadã, o figura acabou bebendo do mesmo jeito, ehheheehe.

No outro dia fui pra praia novamente e fiquei só de boa. A noite tinha marcado de sair mais uma vez com as minas pra pegar uma balada e, vou te dizer, como foi engraçada essa minha primeira experiência na noite turca… Assunto pro próximo post…

Antália

Antália fica situada na província de mesmo nome, sendo a sua capital. É uma cidade consideravelmente antiga, provavelmente fundada no século II a.C. Acredita-se que ela foi fundada pelo imperador Attalos II, nomeando a mesma Attalia. Foi disputada por diversos povos devido a sua posição estratégica e, como boa cidade do Oriente Médio que é, pertenceu a diversos impérios diferentes no final ficando sob domínio turco.

Hoje possui uma população de aproximadamente 800.000 habitantes e é um dos principais pontos turísticos da Turquia. Russos por todos os lados com o bolso cheio de dinheiro fazem a cidade ser absurdamente cara.
Couch em Antalya
Rodoviária em Antália

Cara, a viagem até Antalya transcorreu normalmente. Engraçado foi quando cheguei à rodoviária.
Cara, olha que interessante isso. O ônibus que eu peguei de Istambul a Antália tinha internet wireless. Eu nunca tinha visto…

O cara que ia me hospedar já se encontrava lá me esperando. Ele era um pouco mais velho, tinha uns 45 anos, se chamava Mehmet, era turco e engenheiro-chefe de uma empresa ao lado da casa dele. Gente boa demais. Assim que eu fui descendo, ele foi me cumprimentando. Eu fui lá, ofereci minha mão a ele achando que ele ia me abraçar. Cê acha?? Naadaaaa… O cara veio pra me abraçar e PREU! ME TASCOU UM BEIJÃO NA BOCHECHA!! Eu confesso que achei meio estranho na hora, afinal, não é todo dia que um tiozão vem e é, digamos, tão carinhoso assim com você… Mas enfim, depois desse choque cultural tudo começou a ficar de boa…

Seguimos para sua casa e lá deixei minhas coisas. O Mehmet era indescritivelmente gente boa, falava inglês com dificuldade mas era extremamente gentil. Ele inclusive saiu do trabalho só pra ir me buscar. Deixou-me em casa e marcamos de sair apenas mais tarde.
Quando foi de noite ele foi me buscar em casa, saímos pra encontrar mais outros dois couchsurfers de Antália e fomos para um jantar. A única parte engraçada foi na hora de pagar a conta. Fomos comer em um restaurante meio caro e cada hora que descia um prato novo eu fazia as contas… E os caras não paravam de pedir comida! Eu me vi logo desesperado porque vi que minha grana de uma semana inteira iria embora. Na hora que veio a conta, veio junto o meu desespero. O desespero acabou ficando engraçado. Um dos turcos acabou aproveitando que o outro estava no banheiro e VLAPT pegou a conta na mão e, veja só, tirou a carteira pra já ir pagando.

Na hora o outro turco veio do banheiro e, olhando aquela cena, VOOU pra cima dele e queria tomar a conta da mão dele!! Os caras basicamente começaram A BRIGAR pra ver quem iria pagar a conta! Mas não no estilo brasileiro, no estilo turco! Um queria pagar a conta e o outro não queria deixar!! E foi nessa, os três brigando, quase saindo no tapa pra ver quem iria pagar e eu lá observando aquela cena. Logicamente eu também queria entrar na briga pra poder pagar a conta inteira sozinho, ou você acha que não? Eu só não me ofereci porque senão a briga iria ser maior. Hahahahaha…

Depois de um impasse, eles conseguiram entrar num consenso lá e pagaram a conta. Saímos pra poder dar uma volta na cidade. Detalhe, estávamos no Ramadã, o mês mais sagrado para os islâmicos no mundo inteiro. Só pra vocês terem uma ideia, em países como a Síria, durante o Ramadã os muçulmanos não consomem QUALQUER TIPO DE COISA entre o nascer do sol e o pôr-do-sol. Água também. Os caras não podem nem beber água durante o dia. Pois então, estávamos durante o Ramadã e eu só observando. Saímos pra comer pela tarde e os caras comeram, beberam e o caramba…

Depois fomos para, uma mesquita? Não! Fomos para um BAR!! E começamos a beber CERVEJA!! Em alguns países islâmicos bebidas alcoólicas são sequer permitidas, beber durante o Ramadã então seria algo tão herege como marcar um churrasco durante a semana santa (aquele período em que só podemos comer peixe) ou então, sei lá, sair no tapa com a vó durante a ceia de natal por causa de um pedaço de coxa de galinha…
Cartão postal de Antália.

E o bar CHEIO de gente!! Cara, eu comecei até a ficar sem graça de estar participando daquela heresia, sem saber o que fazer, fui lá e falei com o Mehmet:
– Ôw Mehmet, tipo… Você é muçulmano certo?
– Sim, Claudio, como todo bom turco…
– E… er… estamos no mês do Ramadã, certo?
– Sim!
– E tipo… Não seria meio errado a gente estar bebendo no Ramadã, cara?
Ele me olhou, deu uma risada e falou:
– Ah, brother! A Turquia é um país moderno! Quando você for à Síria você se preocupa com isso…
– Hauhauhueha. Então estamos conversados! Desce outra cerveja por favor…

Perambulando por Istambul, parte 2

Após sair do bazar turco segui em direção à “Torre de Gálata”, um dos vários cartões-postais de Istambul. Ela é uma das torres mais velhas do mundo. Foi construída, ainda de madeira, pelos bizantinos no ano de 528 D.C. Posteriormente foi destruída pelos cruzados, mas reconstruída pelos genoveses em 1348. Após a tomada da cidade pelos turcos otomanos em 1453 a torre foi sendo reformada e utilizada como ponto de vigilância por eles. Hoje ela tem reforço de concreto e é aberta a visitação.
Torre de Gálata vista do outro lado do Bósforo

Ela fornece uma impressionante vista do estreito de Bósforo, da Mesquita Azul e da Basílica de Santa Sofia. (Cliquem na foto para vê-la melhor)

Caso vocês ainda não tenham observado, é possível ver várias mesquitas diferentes nas fotos acima. Isso é interessante porque assim como nós temos várias igrejas espalhadas pelas cidades, eles tem várias mesquitas. O que isso quer dizer? Cara, mesquita não é algo que eu esteja lá tão acostumado, portanto toda mesquita nova que eu passava perto, eu me encantava com toda aquela opulência… Fiquei imaginando se os islâmicos pensam a mesma coisa ao passar ao lado de nossas igrejas.

Eu ia lá e batia umas fotos. Tinha uma que eu achei interessante o TANTO de pombo que tinha ao redor do povo que tava batendo foto por lá. Depois que eu fui ver que tinha um tiozão fazendo uma grana que vendendo milho pra poder dar a eles e tinha uma galera se divertindo com isso.

Depois de alguns dias dando algumas voltas por Istambul (cara, eu poderia fazer um blog inteiro sobre os monumentos que pude ver por lá) decidi tomar coragem e enfrentar a minha próxima viagem, a Síria. Aproximadamente 1800 km me separavam de Istambul até o destino final. É muito? Bem, pra viajar no Brasil, que é um país só e tem todas as cidades conectadas é muito, pra viajar naquela loucura que é o Oriente Médio é uma eternidade. Decidi que não iria direto.
Elas estão por todos os lados… Uhhhhh
Fiquei por um tempo pensando o que eu iria fazer e decidi fazer um “pit-stop” no meio do caminho para que a viagem não ficasse tão cansativa. Procurei no Couchsurfing.org as cidades do litoral da Turquia entre as quais possuíam mais couchs disponíveis. Acabei vendo que uma tal de Antalya parecia ser uma cidade com grande disponibilidade. Comecei a pedir couchs pro povo até que um cidadão disse que estava tudo bem se eu ficasse no couch dele. Ele parecia ser gente boa.
Eu queria entender o que esse brother queria engraxar...

Separei algumas coisas que não precisava e perguntei pro Yunus se tava tudo bem de eu deixar na casa dele. Pra pegar quando voltasse. Ele falou que era sem problemas. Separei minha mochila maior e lá dentro deixei algumas roupas, presentes, meu laptop e, sem ele saber, 200 euros dentro. Cara, isso é uma coisa boa do Couchursurfing.org, viu? Você poder deixar suas coisas na casa dos outros e não ter que se preocupar com isso. NUNCA que eu faria isso em um albergue. Claro que depois, quando voltei à sua casa, regressando da minha viagem à Síria e ao Líbano, estava tudo lá inclusive a grana que eu tinha deixado…
Centro de Istambul

No outro dia comprei minha passagem de ônibus e segui viagem.

Perambulando por Istambul, parte 2.

A história da Mesquita Azul (ou Mesquita do Sultão Ahmet, sultão que patrocinou sua construção) tem uma história peculiar e engraçada. Como já contei pra vocês, em 1453 os turcos-otomanos tomaram Constantinopla e decidiram manter a Sofia de pé, adicionando apenas as minaretes para transformá-la numa mesquita (ainda que sempre fora permitido aos cristãos realizarem suas preces lá dentro). Mais ou menos duzentos anos depois, em 1606, um sultão turco, Ahmet, estava sentando na varanda do seu palácio à beira do tédio, sem ter o que fazer e pensou: – Rapaz, essa tal de Santa Sofia até que é bonitinha mesmo. Mas, pensando bem, ela não é obra dos irmãos otomanos. Ela, apesar de hoje ser nossa, foi construída pelos bizantinos e possui influência da arquitetura bizantina. Quer saber? Vou fazer uma outra bem maior, bem mais imponente e bem mais bonita para demonstrar que os otomanos podem construir uma mesquita bem melhor que esses bizantinos aí. Tá certo que vamos ter quase 1000 anos de tecnologia a mais, mas quem precisa saber disso?

Esse gato ficava o dia inteiro sentado nessa posição, em frente à Mesquita Azul. Todo mundo que entrava na mesquita ia lá e passava a mão na cabeça dele. Era engraçado
Bem, tá certo que não foi 100% desse jeito, mas diria que foi 90%, já que realmente houve esse desejo do sultão de construir algo maior e mais suntuoso que a catedral bizantina. E, ah sim, ele construiu ela em frente à Igreja de Santa Sofia. Sim, amigo, uma em frente a outra. Dois mundo, duas civilizações e dois estilos arquitetônicos frente a frente, simplesmente sensacional.

A Hagia Sofia na esquerda com a Mesquita Azul a poucos metros de distância. Destaque abaixo para os navios cruzando o estreito de Bósforo
Santa Sofia ao fundo
A mesquita na parte de dentro também é suntuosa. Diversos vitrais e mosaicos estão espalhados dentro. Não há imagens, afinal, os muçulmanos não as cultuam (basta lembrar daquela confusão das charges na Dinamarca que tacaram fogo no mundo muçulmano). O melhor de tudo é que a entrada é franca, não precisa pagar nada, basta apenas não ir durante os momentos de prece islâmica.
Interior da Mesquita Azul
Depois da Mesquita Azul, visitei as cisternas da Basílica, uma construção bizantina realizada ainda sobre o reinado de Constantino, o mesmo que falei há alguns posts atrás e que quase retomou todos os territórios do antigo Império Romano. As cisternas foram construídas no século VI, possuem 9.800 metros quadrados e são sustentadas por 28 colunas bizantinas.

Os turistas tem a tradição de jogar moedas nas cisternas para realizar os seus desejos. Peixes também podem ser encontrados por lá.

Depois das cisternas, segui para um típico bazar turco. Milhares de turcos tentavam nos enfiar dentro das suas lojinhas a qualquer preço. Rolou até uma coisa engraçada comigo. Tinha uma camisa que eu tava muito a fim de comprar e parei pra falar com um vendedor turco quanto era. Segue o diálogo:

– Amigo, amigo! Venha aqui comprar umas coisas na minha lojinha.
– Cara, quanto custa aquela camisa ali?
– Qual? Aquela com a bandeira da Turquia?
– Sim! Quanto custa.
– Quer pagar quanto? (E as Casas Bahia faziam história…)
– Não sei…
– Olha só, ela é de qualidade, bom tecido…
– Você, REALMENTE, quer saber quanto eu QUERO pagar?
– Sim, quanto?

– Uai, eu QUERO pagar sete dólares (a camisa valia pelo menos uns 20 dólares)
– Sete?
– Sim, você perguntou quanto eu quero pagar, não quanto eu acho que ela vale. Eu pago sete dólares.
– ORA SEU X%^*(@. ENFIA ESSES SETE DÓLARES NO SEU #$(#$(*#&*@). SAI DAQUI ANTES QUE EU TE ENCHA DE PORRADA.
E continuou me xingando em turco enquanto eu ia embora. Fique pensando se na Turquia tratar bem os clientes é coisa de viadinho…
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Perambulando por Istambul

Já havia conseguido meu couch em Istambul há algum tempo antes de sair da Polônia. Os meus hosts eram super gente boa. Um casal: uma menina do Azerbaijão e um cara que era filho de um turco com uma brasileira, mas tinha nascido nos Estados Unidos. Sim, ele foi a primeira pessoa que eu conheci que tinha três nacionalidades ao mesmo tempo. Ele realmente tinha três passaportes diferentes. Chegou a morar um tempinho no Brasil e falava um pouquinho de português, idioma que conversávamos quando ele não queria que sua namorada entendesse o que estávamos falando, hehehe.
Estreito de Bósforo
A chegada a Istambul foi interessante já desde o trajeto pra poder chegar em casa. O povo turco parece ser um povo MUITO bruto, brother! Sério, foi muito engraçado já no primeiro ônibus que eu entrei. O cobrador, logicamente, não falava inglês e eu meio que no “mimication” tentava explicar pra ele que queria ir para um bairro que eu havia escrito no papel. Um outro turco já veio subindo no busão direto e não quis nem saber se eu tava no caminho ou não, foi me empurrando com tudo e passou a roleta. Eu meio que cambaleie, mas não caí no chão. O cara nem falou desculpa nem nada! Parecia até um trator!
Chegando à parada de ônibus combinada, vi um cara balançando uma bandeira do Brasil, era o meu host, que se chamava Yunus. Deixei minhas coisas na casa dele e perguntei o que havia de bom pra poder fazer em Istambul além de, claro, a Igreja Santa Sofia e a Mesquita Azul, os dois principais cartões postais da cidade. Ele foi me falando e eu fui só escrevendo: As cisternas da cidade, a torre Galata, o Estreito de Bósforo, o “banho-turco”… Ãhn? Banho-turco? Que diabos era aquilo? Perguntei pra ele e ele me explicou dizendo que era algo mais ou menos assim:
– Cara, é assim: um turco só de sunga, com pelo pra todo lado, um bigodão imenso, te deita em uma cama, te enche de porrada com umas pedras quentes, depois te joga água fervente nas costas e depois te faz uma massagem.
– !!!!
– Eu não consigo entender como alguém pode gostar disso – ele me disse.
– É, parece que não é muito meu tipo não – eu respondi.
Resolvi guardar o primeiro dia pra visitar o monumento que eu mais queria visitar desde que cheguei na Turquia, a Igreja de Santa Sofia. Mas o que foi a “Igreja de Santa Sofia” e o que ela é hoje? Bem, a Igreja de Santa Sofia foi construída pelo Imperador Teodósio em 532 d.C. como um símbolo da opulência e do poder do Império Bizantino. Durante muitos anos foi considerada uma das maravilhas do mundo da Idade Média. Em 1453, após a tomada de Constantinopla pelos turcos, a Igreja, devido a sua opulência, foi poupada. Ao invés de tacarem fogo e mandarem ao chão como eles costumavam fazer, os turcos ficaram impressionados com aquela construção milenar e gigantesca. Resolveram preservá-la e, melhor que isso, resolveram, er… digamos… pegá-la meio que emprestada pra dar uma rezadas ou outras. Sim, eles ergueram quatro minaretes (aquelas torres que ficam ao redor das mesquitas) e, PIMBA, a Igreja virou uma mesquita. O que ela é até hoje! A primeira celebração islâmica na nova mesquita ocorreu em 1 de Junho de 1453.
Foi engraçado tentar chegar à Igreja de Santa Sofia. Era meio complicado conseguir andar naquelas ruas medievais de Istambul. As ruas eram sinuosas e era difícil você se situar. Encontrei o primeiro turco e fui pedir informação pra ele:
– Oi senhor, tudo bom? O senhor poderia me dar uma informação? Onde fica a Sofia?
– Bulgária.
– Ãhn?
– Sim, Sofia fica na Bulgária, é a capital da Bulgária

Ah sim, ele era daqueles piadistas, pensei. Vou arrumar uma vaga pra ele no Zorra Total.
– Ok, e a “Hagia Sofia” (Santa Sofia em Turco)?
– Ah, sim, a Hagia Sofia fica naquele caminho.
Turco imbecil, pensei. Enfim, segui o caminho, mas me perdi depois novamente. Parei outro turco e pedi informação:
– Bom dia, Senhor. O senhor poderia me informar onde fica a Sofia?
– Bulgária, senhor! Sofia é a capital da Bulgária.
– Ok!!! E a Hagia Sofia, pra onde fica?
– Naquele caminho, senhor!
Gatinho comendo cabeças de peixes na saída da Hagia Sofia
Cara, dá pra acreditar nisso? Sério, muito engraçado, de quatro pessoas que eu pedi informação, três me falaram primeiro que Sofia era a capital da Bulgária. Os caras lá REALMENTE querem que você fale Hagia Sofia quando se referir à mesquita-igreja deles, ehehehe. Eu fiquei imaginando o tanto de turista imbecil que deve falar Sofia ao invés de Santa Sofia pra esses caras. Pensando bem, eu acho que até dou razão pra eles…
“Hagia Sofia” vista de fora
Vitrais na Hagia Sofia
Consegui chegar lá e paguei mais ou menos uns quinze dólares pra poder entrar. O interior da Igreja-Mesquita é… é… é… assim… bonitinho… Nada que valha o dinheiro que você paga pra poder entrar. Lá dentro há alguns dos mais famosos e bem preservados mosaicos bizantinos e cristãos-ortodoxos.
Esse mosaico fez parte de muitos livros de história da galera

Havia também dentro da Igreja um buraco na parede que os turcos costumavam dizer que era um teste pra poder checar se você não tinha pecados, se era uma pessoa pura. Bastava que você enfiasse o dedo dentro, mantivesse os pés juntos e imóveis e conseguisse dar uma volta de 360 graus com uma de suas mãos. Logicamente que eu, depois de quase um mês de Europa Oriental, não consegui girar nem 60 graus a minha mão. O que não faltava era pecado dentro de mim, rapaz…

Depois de mais ou menos uma hora, saí da Hagia Sofia e me dirigi a Mesquita Azul, uma das mais lindas mesquitas que pude presenciar em toda minha viagem.

Istambul

Se fosse possível definir Istambul com apenas uma palavra, a mais próxima que eu conseguiria achar seria “fantástica”. Uma cidade tão curiosa que é a única capital de um país que se situa em dois continentes diferentes ao mesmo tempo!!
Poucas cidades no mundo foram tão disputadas por tantos povos diferentes e trocaram de mãos como Istambul. Istambul era Bizâncio quando foi tomada por Roma. Depois mudou seu nome para Constantinopla e por muito tempo foi capital do Império Romano do Oriente e do Império Bizantino. Se a queda de Roma, em 476, é considerada como um marco de divisão entre a Idade Antiga e a Idade Média, a tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turco-otomanos marca a divisão da Idade Média para a Idade Moderna.
Estreito de Bósforo
Toda essa importância deve-se a sua posição estratégica importante. Istambul fica situada no Estreito de Bósforo, que separa geograficamente a Europa da Ásia. Possuir o domínio sobre o Estreito é praticamente possuir a Europa a seus pés. Se você parar para pensar, todos esses impérios citados, assim que assumiram controle sobre Bósforo, “pegaram um naco” considerável da Europa para si. Como pode ser visto abaixo os Impérios Romano, Bizantino e Turco Otomano nos seus auges.
Império Romano

Império Bizantino e Império Romano do Ocidente

Império Turco Otomano

Possuir o Estreito de Bósforo sobre o seu domínio também significava controlar uma importante rota comercial. O Estreito é porta de entrada para o Mar Negro, que se estende sobre diversos países tais como Ucrânia, Rússia, Bulgária, Romênia, Geórgia… Importante lembrar que um dos motivos que levaram os portugueses a contornar a África em direção à Índia foi a tomada de Constatinopla, já que os turcos elevaram absurdamente o preço das especiarias.
A tomada de Constantinopla foi uma das batalhas mais épicas de toda a humanidade. Constatinopla era uma barreira tão inexpugnável que apesar do Império Bizantino não ter a muito tempo a força que possuía durante a queda de Roma, centenas de anos se passaram até que a cidade fosse tomada. Árabes, mongóis, hunos, russos, ávaros, diversos povos que aterrorizaram a Europa, destruíram os seus impérios e levaram ao completo desespero dos Europeus (os forçando à construção de milhares de castelos para se proteger) não conseguiram tomar Constantinopla. Os árabes inclusive conseguiram tomar Jerusalém. Isso se deve principalmente a suas gigantescas muralhas, a praticamente a impossibilidade de sitiar a cidade (já que ela era cercada por mares) e também a uma substância química que só os bizantinos tinham conhecimento que simplesmente esfacelava os barcos inimigos em batalha (que curiosamente era chamada de “fogo grego” e até hoje divide os especialistas sobre o material utilizado), a correntes que era utilizadas entre um lado e outro do estreito e que, quando levantadas, rachavam os barcos inimigos ao meio e colocavam todo mundo pra nadar.
Ilustração de como era Constantinopla em 1453. Preste atenção nas correntes. Abaixo, as diversas muralhas que cercavam Constantinopla. Detalhe que “Wall” em português significa “muralha

Os turcos também sofreram pra poder conseguir tomar a cidade. Pra falar a verdade, os bizantinos há algum tempo já vinham perdendo territórios para os turcos na região que hoje é a atual Turquia. Só que, tomar Constantinopla não seria tão fácil quanto. Com uma tecnologia muito superior, os turcos possuíam a “Grã Bombarda” um canhão gigantesco de bronze com oito metros de comprimento e 7 toneladas. Eram necessários mais de 60 bois e 200 homens pra poder carregar o monstro. Durante o dia, Constatinopla era incansavelmente bombardeada pelas catapultas e canhões dos turcos. Durante a noite, a cidade inteira tentava desesperadamente reconstruir as suas muralhas com sacos de areia e pedras.

O fim todo mundo já conhece e eu até já adiantei. Apesar da heroica resistência dos bizantinos, os turcos enfim conseguiram adentrar os muros da cidade e trucidaram quem eles conseguiram encontrar, script comum em todas as conquistas de cidades sitiadas durante a história.
Enfim, eu poderia ficar durante horas, dias, anos contando as histórias de Istambul. Assim como Roma, cada esquina, cada rua, cada prédio, cada mesquita pode carregar consigo anos de batalhas, glórias, sofrimentos e história! Com certeza uma das minhas cidades preferidas…