Eu e Samanta saímos pra poder comprar a nossa passagem de trem em direção à nossa próxima cidade, Kajuharo. Fomos à estação de trem, compramos a passagem e foi tudo de boa. Estávamos saindo da estação de trem e… e… E começamos a pensar: – “Opa, como vamos fazer pra voltar pra casa agora?”. Danou-se, não sabíamos como voltar, estávamos perdidos! Paramos um táxi e perguntamos se ele sabia onde ficava a nossa pensão. Logicamente ele falou que sim (taxistas na Índia NUNCA dizem que não sabem o lugar que você está procurando). Pegamos o táxi e depois de uns dez minutos ficou claro que o cara não sabia patavina nenhuma onde era a nossa pensão. Depois de um tempo ele simplesmente nos largou em um lugar próximo à pensão e a gente acabou tendo que se virar.
O grande problema é que, como já havia explicado, Varanasi é uma cidade milenar e, como todas as cidades milenares, é cheia de ruas sinuosas que mais parecem corredores onde duas pessoas mal conseguem passar ao mesmo tempo. As casas são tão próximas que os telhados das duas chegam quase a se tocar acima da sua cabeça e tapam o sol. O seu senso de direção fica inexistente. Samanta tinha uma bússola que usávamos para tentar nos localizar, mas mesmo assim não tava ajudando muito.
Depois de algum tempo, mais perdido que só um cachorro que caiu da mudança, resolvemos pagar um cara com uma charrete movida a bicicleta (igual à que pegamos no Nepal) para ele nos levar na nossa pensão, já que, como falei, carros não chegavam lá. Cheguei pro cara (já bravo que só siri dentro de lata pelo fato de ter sido enrolado previamente pelo motorista do táxi) com o cartãozinho da pensão e perguntei:
– Tu sabes onde fica esta pensão, cara?
– Eu sei.
– Tu sabes mesmo?
– Eu sei.
– TU TENS CERTEZA QUE TU SABE ONDE FICA ESTA PENSÃO?
– Eu sei
– Se tu não souberes a gente não vai te pagar. Ouviu? Não vamos te pagar! Já que tu sabes onde fica, segue com a charrete e só olha pra frente!
Lá foi o cara pedalando. O cara foi pedalando, pedalando, pedalando e a agulhazinha da bússola da Samanta só apontando pro lado contrário. Quando ele parou pra pedir informação, não deu certo! Eu explodi e desci da carroça gritando:
– VOCÊ NÃO FALOU QUE SABIA ONDE ERA? VOCÊ NÃO FALOU, SEU VELHO MENTIROSO? VOCÊ MENTIU PRA MIM! VOCÊ NÃO PASSA DE UM MENTIROSO BARATO E POR CAUSA DISSO AGORA NÃO VOU TE DAR NENHUM TOSTÃO! VAI TE EMBORA DAQUI!
Descemos da charrete e começamos a ir embora. Ah, cara, pra que? Quando a gente falou que não ia pagar o velho (cara, só pra você ter uma idéia, o velho tinha cobrado a gente menos do que 25 centavos de real pela “corrida”, mas como já falei, se o cara tá querendo me roubar, pode ser um centavo que eu não vou pagar!) juntou UMA PENCA de gente na rua nos cercando, perguntando o que tava acontecendo se oferecendo pra “ajudar”. Nessa hora eu comecei a ficar assustado, mas como não podia mostrar sinal de fraqueza (seria meu fim. Aí sim o velho ia querer arrancar uns dez dólares da minha mão), me recusei a pagar e a situação começou a ficar tensa com mais gente se amontoando.
Um indiano lá do meio da multidão, que falava um bom inglês, se ofereceu pra nos “ajudar”. Foi lá e falou que se todo o problema era por causa de 25 centavos que ele pagava ao velho. O cara parecia ser realmente simpático e bem educado e devido a isso aceitei a ajuda dele. Ele pagou os vinte cinco centavos do velho pilantra. A multidão se dispersou e ele veio falar comigo:
– Mas então cara, onde você tá indo?
– Rapaz, eu tou indo pra essa pensão aqui. Tu sabes onde é?
– Claro que eu sei. Vamo lá, eu te levo lá.
– Quanto você vai me cobrar por isso?
– Não, não vou te cobrar nada. Pode vim, eu te levo lá.
Indiano querendo te ajudar, sendo gente boa e ainda por cima de graça? Isso logicamente era uma armadilha. Lá na hora falei pra ele que ia pagar 20 rúpias (um real. Dez rúpias ele já tinha dado pro velho ir embora) pra ele e pro amigo dele que apareceu depois pra nos levar à nossa pensão. Depois de muita relutância (pombas, o cara parecia REALMENTE ser gente boa) ele acabou aceitando a gorjeta e fomos indo seguindo ele por aquelas ruas medievais e sinuosas de Varanasi.
Andamos por volta de uns cinco minutos e eu comecei a sacar tudo. O cara parou numa loja que vendia uma PANCADA de bugigangas e nos convidou pra entrar. Eu falei bem enfático que eu não queria ir a loja nenhuma, que ele nos levasse à nossa pensão. Ele insistiu, eu falei “não”, insistiu mais uma vez, eu fui bem enfático e acho que ele desistiu. Virou, saiu andando e fomos lhe seguindo. Cinco minutos depois ele parou em OUTRA loja e nos convidou pra entrar e, mais uma vez, Claudiomar Hulk, estourou com o cara! Comecei a ser bem grosso com ele e falei que ele dissesse logo o que ele queria, que se ele queria fazer dinheiro com a gente que procurasse outro idiota e toda a “ceninha” que eu já expliquei em detalhes em outras situações. Nessa hora, como já de era de se esperar (afinal ele não tava esperando minha reação, ele ficou meio assustado), saiu andando com nós dois os seguindo.
Quando os estávamos seguindo, eu tive uma idéia. Puxei Samanta um pouco para trás de mim e deixei os caras se distanciarem, assim, uns dez metros. Quando vi que eles só olhavam pra frente, puxei a Samanta pelo braço e entramos em uma ruela totalmente estreita. Saí rodando, pelas ruas labirínticas de Varanasi com o intuito de escapar dos dois malas. Deu certo, depois de alguns minutos estávamos no meio de um labirinto e sem sinal dos dois malas perto da gente. Pra melhorar ainda mais a questão, um dos malas ainda tinha dado uma grana dele pra solucionar o problema do velho. Sei que ele havia dado apenas vinte e cinco centavos, mas me senti profundamente bem de saber que eu tinha ocasionado um prejuízo a ele e roubado o ladrão.
Restava um problema: Ainda estávamos perdidos, sem a mínima noção de onde era nossa pensão e ainda por cima com dois malas que, com certeza, estavam na febre atrás da gente…
Só sei que andando um pouco acabei chegando ao Rio Ganges. Ao chegar ao Ganges, de longe, avistei um prédio de onde havia tirado uma foto. Olhei na máquina e confirmei o local. Daí tive uma idéia genial. Bastava apenas seguir o curso do Ganges, atingir o prédio e de lá caminhar para a pensão (já que o prédio era quase que do lado). Quando começamos a seguir o curso do rio, meu amigo, apareceu os dois meliantes BABANDO de raiva. O cara já veio gritando: – “Onde vocês tavam? Quem mandou vocês virem por aqui?”. Eu que já não tava com muita paciência mandei ele calar a boca, falei que não precisava da autorização dele pra andar em Varanasi e mandei ele ir embora porque eu já sabia como voltar pra casa. O cara não gostou mesmo. Falou que queria o dinheiro dele. Fui lá e devolvi os vinte e cinco centavos que ele havia pagado ao velho da charrete e mandei ele ir embora. Pensa que foi? Na terra dos mil roubos um safado nunca sai com as mãos abanando…
Deixei ele falando sozinho. Peguei Samanta pelos braços e fomos indo em direção a nossa pensão. O cara veio frenético nos seguindo e gritando: – “Como assim você vai me dar só isso? Você é louco? Pode me pagar mais! Eu servi como guia pra você! Você prometeu me pagar 20 rúpias! Vamos, me pague! Me pague o que prometeu!”. Eu fiquei ignorando o que ele falava, já que ele não tinha feito nada de útil, só tentado ganhar grana as minhas custas. Apesar de o estar ignorando, o fato dele me ir gritando comigo no meio da rua me irritava cada vez mais e vi que seria questão de tempo eu explodir com ele. Depois de um dez minutos vendo que eu o estava ignorando, ele tentou outra estratégia… Mas isso é assunto para o próximo capítulo….
O post já ta muito grande e vou deixar vocês com um gostinho de curiosidade do que aconteceu. Daqui a dois dias posto o resto 🙂














