Depois de toda a loucura de ficar pulando de país em país pelo Caribe e da excelente experiência que foi São Vicente e Granadinas, chegou a hora de visitar um dos destinos que eu mais queria conhecer havia muitos anos: a Jamaica.

Acho que a Jamaica ocupa um lugar especial no imaginário de muita gente. Comigo não era diferente, mas havia um motivo a mais. Eu sou de São Luís, cidade conhecida como a Jamaica Brasileira, graças à forte tradição do reggae. Então visitar a matriz, a Jamaica original, era uma vontade antiga.

Só que, se nos outros países do Caribe eu tinha dado uma sorte absurda com o tempo — praticamente não vi uma nuvem no céu —, na Jamaica aconteceu exatamente o contrário.
Choveu.
E choveu muito.
Desde o dia em que desembarquei em Kingston até a hora de ir embora, parecia que alguém tinha esquecido a torneira do céu aberta. Além do incômodo de passar boa parte da viagem molhado, ainda perdi a oportunidade de conhecer Lime Cay, uma pequena ilha considerada um dos lugares mais bonitos da região.

Faz parte. Viajar também é isso. Nem sempre o destino colabora, então o jeito é guardar o guarda-chuva, ajustar os planos e descobrir o que a Jamaica ainda tinha para oferecer.
O primeiro choque com a Jamaica
É impressionante como a Jamaica já começa a mostrar sua personalidade antes mesmo de você sair do aeroporto.
A primeira delas é o preço.

Cara, a Jamaica é absurdamente cara.
Qualquer refeição simples, qualquer passeio ou qualquer corrida de táxi parece custar algumas dezenas de dólares. Pelo menos existe Uber, o que evita a necessidade de negociar preço, mas isso não significa que ele seja barato.
Muito pelo contrário.
Assim que desembarquei, pedi um carro para o Airbnb e tomei um susto: 25 dólares por uma corrida de menos de cinco quilômetros. Algo em torno de 130 reais.

Cheguei até a conferir o aplicativo de novo porque achei que tinha digitado o endereço errado.
Não tinha.
Era isso mesmo.


Entrei no carro e sentei no banco de trás, como faço normalmente. O motorista olhou para mim pelo retrovisor e perguntou se eu poderia sentar no banco da frente.
Na hora imaginei que fosse algum daqueles casos em que o Uber funciona meio na clandestinidade, como aconteceu comigo na Costa Rica, onde os passageiros costumavam ir na frente para não chamar atenção.
Mas não.
Era apenas um costume jamaicano. Segundo ele, sentar ao lado do motorista é visto como um gesto de simpatia e proximidade.

Achei curioso.
Quando cheguei ao Airbnb, a faxineira ainda estava terminando de arrumar a casa e acabamos conversando um pouco.
Ela era inglesa, mas me contou que tinha se mudado para a Jamaica porque não aguentava mais o custo de vida na Inglaterra.
Confesso que aquilo me surpreendeu.
Ela contou que comprou uma casa anos atrás e que o imóvel hoje vale alguns milhões de reais. Resolveu alugá-lo e viver da renda na Jamaica, onde, segundo ela, o dinheiro rendia muito mais. A limpeza do Airbnb era praticamente um hobby para não ficar parada em casa.
Quando descobriu que eu era brasileiro, abriu um sorriso enorme.

Disse que tinha visitado o Brasil e que nunca tinha conhecido um país tão barato na vida.
É engraçado ouvir isso sendo brasileiro.
Passamos a vida reclamando do custo de vida e, de repente, alguém vindo de um país rico olha para o Brasil como um destino barato.
Ela até arriscou algumas palavras em português antes de ir embora.
Aliás, essa simpatia pelo Brasil apareceu durante praticamente toda a viagem.
Sempre que eu perguntava para qual seleção eles torceriam na Copa do Mundo, a resposta era quase automática:
— Brasil.
E isso antes mesmo de eu dizer que era brasileiro.

O dono do Airbnb foi outro que demonstrou um carinho enorme pelo país. No fim da hospedagem, resolvi deixar para ele uma camisa da Seleção Brasileira que eu tinha levado.
Rapaz…
O homem ficou emocionado.
Só faltou chorar agradecendo e disse que aquele tinha sido um dos melhores presentes que já havia recebido.
Foi um daqueles momentos simples que acabam ficando na memória da viagem.
A única dificuldade era entender o que eles falavam.
Meu Deus do céu…
O sotaque jamaicano talvez seja um dos mais difíceis que já encontrei.

Perambulando por Kingston
A primeira coisa que me surpreendeu em Kingston foi o tamanho da cidade.
A gente costuma imaginar o Caribe como um conjunto de pequenas capitais tranquilas, mas Kingston foge completamente desse padrão. Com mais de um milhão de habitantes na região metropolitana, é disparada uma das maiores cidades do Caribe.
Outra expectativa que caiu por terra foi a do reggae.

Eu não esperava encontrar pessoas tocando Bob Marley em cada esquina ou dançando reggae no meio da rua, mas imaginava que o estilo estivesse muito mais presente no dia a dia.
Na prática, quase não vi ninguém de dreadlock, muito menos aquele visual rastafári que muita gente associa automaticamente à Jamaica.

O que eu mais ouvia eram os ritmos caribenhos modernos, aqueles batidões eletrônicos que lembram um pouco o funk brasileiro.
Em um momento até comentei sobre alguns artistas clássicos do reggae, como Erik Donaldson, e várias pessoas simplesmente não sabiam quem era.

Depois parei para pensar que talvez não fosse tão estranho assim.
Se um estrangeiro chegar hoje ao Brasil perguntando sobre Adoniran Barbosa, provavelmente também vai encontrar muita gente que nunca ouviu falar dele.
Outra coisa que achei curiosa foi a popularidade do Ludo.

No Brasil ele costuma ser visto como um jogo infantil. Na Jamaica, encontrei diversos grupos de adultos jogando em praças e calçadas. Muitos tabuleiros eram personalizados com o mapa do país e os nomes das paróquias jamaicanas, mostrando que o jogo acabou ganhando uma identidade bem própria por lá.

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