Canadá: Cataratas do Niágara, Copa do Mundo e uma invasão da torcida da Bósnia

E lá vamos nós para o penúltimo país da viagem: o Canadá. De todos os lugares por onde passei nessa aventura, esse era, disparado, o mais conhecido. Curiosamente, eu nunca tinha colocado os pés no país, então aproveitei a Copa do Mundo como desculpa perfeita para finalmente conhecer esse colosso da América do Norte.

A coincidência foi boa: cheguei exatamente a tempo da estreia do Canadá contra a Bósnia. Pensei: “pronto, vou aproveitar e assistir a um jogo de Copa”.

Fui todo animado pesquisar os ingressos e… levei um direto no queixo. O mais barato custava mil dólares. Isso mesmo: US$ 1.000 para assistir ao grande clássico mundial entre Canadá e Bósnia. Rapaz… se fosse uma final de Copa, Brasil e Argentina, eu até pensava no assunto. Mas mil dólares para ver essa pelada? Aí também não. Resolvi prestigiar o espetáculo da forma tradicional: sentado em um bar, comendo alguma coisa e economizando novecentos e muitos dólares.

Como nasceu o segundo maior país do planeta. Por que o Canadá deu tão certo?

A história do Canadá moderno começa com a chegada dos franceses no século XVI, que fundaram colônias às margens do rio São Lourenço e desenvolveram o lucrativo comércio de peles com os povos indígenas. Mais tarde, os britânicos conquistaram a Nova França durante a Guerra dos Sete Anos, em 1763, e passaram a controlar praticamente todo o território. Para evitar revoltas, Londres permitiu que a população francófona mantivesse sua língua, sua religião católica e parte de suas leis, algo que explica por que o Canadá continua sendo oficialmente bilíngue até hoje. Em 1867, várias colônias britânicas se uniram formando o Domínio do Canadá, que aos poucos conquistou autonomia política, até se tornar um país plenamente soberano ao longo do século XX, mantendo, porém, a monarquia britânica como chefe de Estado.

O crescimento canadense foi impulsionado por uma combinação rara de fatores: enorme disponibilidade de recursos naturais, imigração em massa, estabilidade institucional e forte integração econômica com os Estados Unidos. Florestas, petróleo, gás, minérios, agricultura e, mais recentemente, tecnologia e serviços financeiros transformaram o país em uma das economias mais ricas do mundo. Ao contrário de muitos países que conquistaram a independência por meio de guerras, o Canadá fez essa transição de forma gradual e relativamente pacífica, preservando instituições sólidas e um ambiente favorável aos investimentos. Hoje, mesmo ocupando o segundo maior território do planeta, tem pouco mais de 40 milhões de habitantes concentrados principalmente na estreita faixa próxima à fronteira americana, onde o clima é menos rigoroso e se desenvolveu a maior parte da economia do país.

As primeiras impressões do Canadá. O alívio inicial

A primeira sensação que tive ao chegar ao Canadá foi de alívio. Cara, é bom demais desembarcar em um lugar onde você entende o inglês que as pessoas falam. Depois de tantos dias no Caribe tentando decifrar sotaques que pareciam um inglês completamente diferente, conversar com um canadense foi quase terapêutico. Pela primeira vez na viagem eu não precisava ficar pedindo para a pessoa repetir três vezes a mesma frase ou fingindo que tinha entendido só para não prolongar a conversa.

Uma curiosidade que descobri por acaso foi sobre o inglês dos próprios canadenses. A gente costuma pensar que todo canadense nasce falando inglês e francês perfeitamente, mas não é bem assim. Como eu estava na parte francófona do país, muita gente tem o francês como primeira língua e aprende inglês na escola, exatamente como nós aprendemos inglês no Brasil. Descobri isso conversando com um canadense que tinha viajado comigo em São Vicente e Granadinas. Em determinado momento ele comentou, com a maior naturalidade do mundo: “Naquela viagem eu tive um pouco de dificuldade porque meu inglês ainda não era muito bom.” Eu fiquei olhando para ele tentando entender. Como assim o inglês não era bom? Meu amigo… você é canadense! Só depois caiu a ficha de que, para muita gente por lá, o inglês também é uma segunda língua.

Outra coisa que me impressionou foi o nível de organização. Você sai do aeroporto e já encontra um ônibus esperando. O ônibus te deixa exatamente na estação de metrô. Do metrô você faz integração com um bonde e, poucos minutos depois, está na porta do Airbnb. Tudo funciona como se tivesse sido pensado para facilitar a vida de quem usa transporte público. Depois de tantos países onde o planejamento do deslocamento começava com “vamos negociar com o taxista”, aquilo parecia quase ficção científica.

O erro que, por sorte, se resolveu sozinho

Tem uma história que até hoje eu não sei explicar. Eu sabia que queria ir ao Canadá para acompanhar o jogo de abertura da Copa do Mundo. Também sabia que queria chegar na cidade onde a partida seria disputada. E sim, eu sabia que essa cidade era Toronto. Até aí, tudo bem.

O problema é que, na hora de comprar as passagens, fiz exatamente o contrário do que estava pensando: comprei um voo da Jamaica para Montreal. Não me pergunte como. Não me pergunte por quê. Eu simplesmente comprei. Meses depois, revisando o roteiro, olhei a passagem e pensei: “Pera aí… por que diabos eu fiz?”

Minha primeira ideia foi cancelar a passagem e pedir o dinheiro de volta. Fui olhar as regras da tarifa e descobri que a Arajet ficaria com praticamente todo o valor pago. Resultado: não cancelei, deixei a passagem para lá, engoli o prejuízo e comprei outra, dessa vez para Toronto.

Só que aí aconteceu uma daquelas coincidências improváveis que às vezes salvam a vida da gente. Pouco antes da viagem, a companhia aérea alterou o horário do voo para Montreal. E quando a empresa muda significativamente o horário, você passa a ter direito ao reembolso integral. Foi exatamente o que aconteceu. Pedi o dinheiro de volta e, como num passe de mágica, a maior burrada que eu tinha cometido no planejamento simplesmente desapareceu. Dessa vez, a sorte resolveu trabalhar a meu favor.

A última catarata da coleção. Cataratas do Niágara, as cataratas do Pica Pau

De longe, o passeio mais legal para fazer saindo de Toronto é conhecer as Cataratas do Niágara. Se você nunca ouviu esse nome, provavelmente conhece pelo episódio clássico do Pica-Pau nas cataratas. Pois é, são aquelas mesmas. E, para mim, esse passeio tinha um significado especial. As Cataratas do Niágara fazem parte daquilo que eu considero a “tríade” das cataratas mais famosas do planeta: Iguaçu, Vitória (entre Zâmbia e Zimbábue) e Niágara. Como eu já tinha visitado as duas primeiras, só faltava essa para completar o álbum.

Como praticamente tudo no Canadá funciona direito, fazer um bate e volta é muito fácil. Fui até a rodoviária de Toronto, comprei a passagem para o primeiro ônibus que sairia — eles partem praticamente de hora em hora — e duas horinhas depois já estava em Niágara. O melhor é que o ônibus para praticamente na porta das cataratas. Você desce e… pronto. Elas já estão ali na sua frente.

Uma coisa interessante é que as cataratas ficam exatamente na fronteira entre Canadá e Estados Unidos. Dá até para atravessar a pé pela Rainbow Bridge, que liga os dois países. O problema é que eu não podia fazer isso. Meu visto canadense permitia entrada apenas por via aérea. Ou seja, se eu atravessasse para os Estados Unidos, muito provavelmente pisaria em solo americano e nunca mais pisaria no Canadá naquela viagem. Achei melhor continuar admirando a paisagem do lado canadense mesmo, que, diga-se de passagem, é o lado com a melhor vista.

As Cataratas do Niágara não são as mais altas do mundo — esse título fica com as Cataratas Vitória. Também não são as que despejam o maior volume de água — nesse quesito o Iguaçu leva vantagem. Mas elas têm uma característica impressionante: praticamente todo aquele volume gigantesco de água passa por uma garganta relativamente estreita. O resultado é uma muralha de água absurda, concentrada num espaço pequeno, produzindo um barulho constante que impressiona mesmo de longe.

E, claro, existe o passeio clássico de barco que entra praticamente dentro da cachoeira. Eles entregam uma capa de chuva para todo mundo e lá vai você navegar em direção àquele paredão de água. Antes de viajar, eu assisti a um vídeo de uma youtuber brasileira dizendo que, com a capa fornecida pela empresa, “você quase não se molha”. Pensei: beleza, tranquilo.

Rapaz…

Acho que ela confundiu “quase não se molha” com “você sai parecendo que caiu numa piscina de roupa”. Mano, eu saí ensopado. A capa protege um pouco, claro, mas a quantidade de água que bate em você é absurda. Quando desembarquei, parecia que tinha tomado banho vestido.

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Maldita youtuber.

Depois do passeio ainda descobri outra surpresa. Eu imaginava que, ao redor das cataratas, haveria apenas alguns restaurantes e lojinhas de lembranças. Nada disso. Existe um verdadeiro complexo de entretenimento. Tem roda-gigante, kart, fliperama, montanha-russa, museus, hotéis, restaurantes… parece uma mistura de parque de diversões com Las Vegas em miniatura. Achei muito mais interessante do que esperava. Infelizmente, como eu estava completamente encharcado — obrigado novamente, maldita youtuber — e ainda precisava pegar o ônibus de volta para Toronto, não deu tempo de explorar muita coisa. Ficou mais uma desculpa para voltar um dia.

No meio da torcida da Bósnia e quase vendo família turca indo dormir no xilindró

Como eu não tinha conseguido ingresso para o jogo de abertura da Copa, resolvi simplesmente passear por Toronto. Afinal, já que eu estava na cidade, pelo menos queria sentir o clima do evento. Estava andando tranquilamente quando comecei a notar uma quantidade cada vez maior de policiais. Era viatura, bicicleta, cavalo… polícia para todo lado. Pensei comigo: “Onde tem tanta polícia assim, alguma coisa interessante está acontecendo.” Resolvi seguir o fluxo.

Poucos minutos depois descobri o motivo. Era a torcida da Bósnia descendo em massa para o estádio. Sem pensar duas vezes, vesti minha camisa amarela do Brasil no meio daquela multidão azul e comecei a caminhar junto. Rapaz, era uma festa bonita de ver. Cantavam, pulavam, tocavam tambor… até que, em determinado momento, um careca de quase dois metros de altura com uma cara de poucos amigos deu dois tapinhas nas minhas costas e falou:

— O que você está fazendo aqui, rapaz? Cai fora… você não é bósnio!

Na hora passou pela minha cabeça responder:

— Meu amigo, aqui é Toronto, não Sarajevo. Eu fico onde eu quiser.

Mas aí fiz um cálculo rápido. Antes de terminar a frase, provavelmente eu já teria tomado uns cinquenta tapas na cabeça. Achei mais prudente rir, sair discretamente para o lado e deixar os caras curtirem a festa deles.

Cheguei ao estádio e, como não tinha ingresso mesmo, fui dar uma volta por um parque que ficava ali perto. Estava sentado descansando quando chegou uma família de turistas turcos. Eles tiraram um drone da mochila e começaram a preparar o voo. Pensei: “Vai dar ruim.”

E deu.

O drone subiu… voou uns três segundos… bateu em cheio num galho de árvore e caiu igual uma pedra.

Rapaz…

Foi impressionante.

Parecia que tinham apertado um botão secreto.

Começou a surgir policial de tudo quanto é lado. Polícia de bicicleta. Polícia correndo. Polícia de carro. Faltou só brotar policial de dentro do chão.

Os pobres dos turcos ficaram completamente desesperados.

Os policiais cercaram a família e começaram a perguntar se eles tinham autorização para operar um drone naquela área. O pai da família tentava explicar que era só para fazer umas imagens, as crianças olhando sem entender nada e a mãe com aquela cara de “eu falei para você não inventar moda”.

No fim, deu tudo certo. Os policiais perceberam que era apenas uma família de turistas que não fazia ideia das regras, mandaram guardar o drone e explicaram que aquela região era considerada uma zona de segurança nacional por causa da Copa do Mundo.

E, convenhamos…

Os caras resolveram levantar um drone do lado de um estádio onde estava acontecendo a abertura de uma Copa do Mundo.

Realmente não era o melhor lugar do planeta para testar um brinquedo novo.

Família turca se explicando pros policiais

A imigração americana antes mesmo de sair do Canadá

Chegou a hora de seguir viagem. O próximo destino era os Estados Unidos, onde eu tentaria assistir ao primeiro jogo do Brasil contra o Marrocos, em Nova Jersey. Mas, antes mesmo de embarcar, tive uma surpresa que eu não fazia ideia de que existia.

A imigração dos Estados Unidos é feita ainda em território canadense. Isso mesmo. Você passa pelo controle americano dentro do aeroporto do Canadá e, quando desembarca nos EUA, já chega como se estivesse vindo de um voo doméstico. Achei isso muito interessante. O mais engraçado é que fui andando totalmente distraído, entrando nas filas e respondendo às perguntas de um funcionário sem prestar muita atenção. Só depois de alguns minutos caiu a ficha: “Pera aí… esse cara é da imigração americana.” A confirmação veio quando ele pediu minhas digitais. Aí pensei: realmente, acho que não estou mais na fila do embarque.

Depois de passar pela imigração, era só esperar o voo. Ou pelo menos era o que eu imaginava. O embarque atrasou… e atrasou… e atrasou de novo. No total, foram mais de duas horas e meia de atraso. A companhia aérea dizia que o problema era o mau tempo em Nova York. O curioso é que um amigo meu, que morava lá, mandava mensagem dizendo que o céu estava completamente limpo. Vai saber.

E o sofrimento não terminou aí. Depois de finalmente embarcarmos, ainda ficamos mais de uma hora sentados dentro do avião, parado na posição. A explicação da companhia era curiosa: ou esperávamos ali dentro ou o voo seria cancelado. Segundo eles, se todos desembarcassem para aguardar no terminal, a tripulação estouraria o limite de horas de trabalho e o voo simplesmente não sairia naquele dia. Confesso que achei aquilo com uma certa cara de migué, mas também não tinha muito o que fazer. No fim, ninguém resolveu testar a teoria abrindo a porta do avião e, duas horas e meia depois do horário previsto, finalmente levantamos voo rumo aos Estados Unidos.

No fim, deu tudo certo. Consegui comprar dois ingressos para assistir à estreia do Brasil contra o Marrocos em Nova Jersey. Depois de toda a maratona de voos, conexões e países visitados, finalmente chegava o momento que tinha motivado toda essa viagem: acompanhar uma Copa do Mundo de perto. Só de entrar no estádio e ver aquela multidão de torcedores de todos os cantos do planeta já fez valer a pena.

No final deu certo

Agora… que jogo ruim, viu? Eu já tinha desembolsado uma pequena fortuna no ingresso, então pelo menos esperava uma partida memorável. Em vez disso, assisti a um Brasil burocrático, criando pouco e sofrendo muito mais do que deveria contra o Marrocos. Em vários momentos parecia que quem vestia a camisa pentacampeã era o adversário. No fim, saí do estádio feliz pela experiência de viver uma Copa do Mundo, mas com a sensação de que, se o Brasil continuasse jogando daquele jeito, a passagem de volta ia chegar bem antes do que a torcida imaginava.

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