Acabou que com toda confusão que Air Canada fez comigo (entenda mais sobre a história lendo aqui), atrasando por quase três horas o meu voo, eu cheguei na casa do meu amigo, Herbert, por volta de uma da manhã. Ou seja, eu teria menos de 48h em Nova York. Tudo bem, eu tinha viajado para lá só para pegar meu voo de volta pro Brasil depois de todo um rolê no Caribe e também para de alguma forma ou conseguir um ingresso pro jogo da Copa de 2026 Brasil x Marrocos ou ao menos fazer uma fuzarca com a torcida do Brasil.
Na verdade, descer com a torcida é a parte mais legal da Copa, mais ainda do que o próprio jogo. Eu já tinha acompanhado aquele tipo de movimentação em outras viagens e até mesmo com os bósnios no Canadá. Isso é muito mais interessante do que simplesmente chegar ao estádio, sentar e assistir à partida. É ali que está boa parte da graça: milhares de pessoas andando juntas, cantando, bebendo, cantando e transformando algumas ruas da cidade numa extensão da arquibancada.

Na teoria, meu plano para o dia seguinte estava relativamente organizado. Na prática, eu ainda dependia de uma quantidade considerável de coisas darem certo, o que normalmente não é um bom sinal nas minhas viagens.
Infelizmente os astros não se alinharam e nenhuma das duas opções pareciam que iam dar certo, nem o ingresso pro jogo, nem descer com a torcida pro estádio. Era uma burocracia monstra para descer pro estádio, ele nem era em Nova York, era em Nova Jersey, não ia ter concentração. Enfim, não ia ter como chegar no estádio com a torcida.
Acordei meio desanimado
Parecia que dessa vez não ia rolar.
Fomos dar uma volta na cidade, procurar algo para comer e… rapaz… do nada surgiu a oportunidade de um ingresso para mim.
Rapaz…
Aí deu uma animada.
Fiquei um pouco com uma sinuca moral já que eu só teria um ingresso. E, assim, meio que teria que abandonar o Herbert. Mas, assim, eu abandonava. Sabia que ele faria o mesmo e eu até encorajaria ele a fazer o mesmo caso fosse o contrário.
Depois de toda a incerteza, agora pelo menos eu tinha certeza de que entraria no estádio. E não é que depois de um tempo surgiu um outro ingresso? Perfeito. Tudo resolvido.
O problema era que Herbert estava praticamente sem bateria no celular e nós ainda tínhamos outra missão absolutamente fundamental antes de ir pro jogo: comprar um tênis para a minha esposa, a Bruna. Ai de mim se eu voltasse dos EUA sem aquele tênis. Copa do mundo era periférico, o tênis dela era importante.
E outra? Como faríamos para chegar no estádio? Não, não tinha metrô e não dava para chegar de Uber, você tinha que conseguir de alguma forma o transporte oficial da FIFA.
Então lá fomos nós resolver tudo ao mesmo tempo. Jogo, ingresso, celular, tênis, transporte, mochila… parecia que eu estava coordenando uma pequena operação militar, só que sem qualquer planejamento e com um nível de competência bastante questionável.
Compramos o tênis. Compramos um carregador externo pro Herbert. Conseguimos na internet comprar duas vagas no ônibus que sairia de Nova York pro estádio. Ida e volta. E, assim, o jogo tava para começar. Corremos para o ponto de ônibus de onde ele saía e, quem disse que a gente conseguia achar? No final conseguimos e quando chegamos na fila do ônibus encontrei um amigo que também estava indo para o jogo. Falei para ele todo feliz que tinha conseguido dois ingressos. Eu estava radiante. Falei para ele que iria correr em uma loja de conveniência pra comprar algumas coisas para comer. Que se ele quisesse eu comprava para ele. Até ele me falar, com a maior tranquilidade:
— Não, não precisa comprar para mim. Eu consegui um camarote de graça com um amigo meu. Eu como lá dentro.
PORRA.
Eu ali preocupado com ingresso, mochila, ônibus, torcida e logística para chegar ao estádio e o cidadão simplesmente tinha conseguido camarote.
Algumas pessoas claramente estavam vivendo aquela experiência de maneira diferente.
Pois é.
E quando chega o ônibus? Era um ônibus de linha? Nada, kkkk. Era um ônibus escolar. Daqueles de filme. Amarelo. Tudo bem, tudo era festa.
Quando chegamos perto do estádio apareceu outro problema: onde diabos eu deixaria minhas coisas? Eu estava com mochila e alguns objetos e não me deixaram entrar. Encontramos um lugar que guardava bagagem.
Preço?
25 dólares.
VINTE E CINCO DÓLARES.
Cara, tenho quase certeza de que o conteúdo inteiro da minha mochila valia menos do que aquilo. Se o sujeito tivesse roubado tudo, talvez tivesse prejuízo tentando revender.
Mas não tinha muita escolha. Quando eu fui pagar, não aceitava dinheiro. Quando eu ia passar o meu cartão, um cara que estava lá na fila perguntou se eu me importava de passar 50 dólares no cartão que ele me dava os 25 que ele tinha em espécie. Claro que não. Passei 50 dólares e fomos para dentro. Guarde essa informação. 50 dólares no cartão.
Finalmente entramos na região do estádio e começou aquela movimentação típica de jogo grande. Muita gente, polícia, segurança, fila, torcida, gente tentando descobrir para onde deveria ir. Achamos o nosso lugar. O legal que foi só a gente sentar que uma galera que estava perto da gente que já tava meio bêbada começou a querer arrumar confusão entre eles. Pronto, só faltava chegar o choque mandando bomba de gás para separar confusão a la Libertadores.
Meu irmão…
Eu só queria assistir ao jogo.
Depois de toda aquela preparação, finalmente começou a partida.
E foi um jogo chato.
É impressionante como funciona Copa do Mundo. Você pode atravessar meio mundo, gastar dinheiro, enfrentar fila, organizar transporte, comprar ingresso, passar horas criando expectativa e, quando finalmente chega o momento pelo qual você fez tudo aquilo, os caras entram em campo e resolvem jogar uma pelada de terça-feira às quatro da tarde.
Sim, todo mundo sabe o jogo horrível que foi Brasil e Marrocos, não precisa entrar em detalhes. É o que eu sempre digo sobre Copa. Só é legal até a hora que você entra no estádio. Depois que você tá lá dentro, você só passa raiva.
Mas beleza.
O jogo foi o de menos. A jornada foi muito mais legal que o destino.
Terminou o jogo e começou uma das partes mais complicadas de qualquer evento gigantesco: ir embora. Dezenas de milhares de pessoas saindo ao mesmo tempo, transporte lotado, fila para tudo e todo mundo tentando chegar exatamente aos mesmos lugares.
Seguimos tentando sair daquela confusão e, em algum momento, conseguimos furar uma fila gigantesca para pegar o transporte. Não tenho orgulho.
Também não tenho arrependimento.
Entramos no ônibus e pensei que finalmente aquela parte complicada tinha terminado.
Claro que não.
Cara, acredita que o motorista bateu o ônibus? A gente tava sentado no banco de repente escuta só um barulhão e o vidro trincando!
Nada grave, mas era exatamente o tipo de coisa que faltava para completar a experiência. Jogo chato, confusão na saída, torcida querendo brigar, fila, mochila e agora nosso próprio motorista resolvia acrescentar um pequeno acidente de trânsito ao roteiro. Descemos no meio de Nova York. Nesse momento estava terminando outro jogo que naquele momento era muito importante para Nova York: a final dos Knicks. Sim, era noite de uma final do time de basquete deles. Título que eles não ganhavam há quase 50 anos.
E sim, os Knicks o time de Nova York, foram campeões.
A cidade começou a enlouquecer.
Na mesma hora pensei:
— Times Square.
Herbert, entretanto, tinha uma visão um pouco diferente. Segundo ele, era melhor não ir porque provavelmente teria gente demais, bebida, confusão, polícia e sabe Deus o que mais.
Exatamente.
Era justamente isso que eu queria ver.
Não queria participar da confusão, obviamente. Mas queria estar lá para assistir. Para mim, aquele era o tipo de coisa que fazia parte da viagem. Eu poderia conhecer a Times Square em qualquer outro dia, mas uma Times Square tomada por bárbaros comemorando um título a la “Godos tomando Roma” era uma coisa que talvez eu nunca mais tivesse oportunidade de presenciar.
Porém, no final, o cansaço venceu e fui dormir.
E me arrependi.
No outro dia pela manhã (tive que sair seis da manhã do apartamento para pegar o voo) ainda cruzei com gente no metrô que claramente estava completamente virada, tinha virado a noite bebendo. Aquilo só aumentou minha sensação de que eu deveria ter ido para Times Square.
Mas havia um problema importante: no dia seguinte eu precisava pegar um avião. E aeroporto nos Estados Unidos não é exatamente o lugar onde eu gosto de testar aquela estratégia de chegar em cima da hora e torcer para tudo dar certo. Segurança, fila, deslocamento até o terminal… dependendo do aeroporto, aquilo pode consumir um tempo absurdo. Então tentei convencer a mim mesmo de que tinha tomado uma decisão adulta e responsável.
Decisão ruim.
Mas adulta e responsável.
No outro dia, já a caminho de seguir viagem, recebi uma mensagem do Herbert contando o que tinha acontecido durante a comemoração na Times Square.
Tinha dado confusão.
Quebraram carro.
Quebraram ônibus.
Teve tumulto.
E eu lendo aquilo pensando:
POMBAS! ERA EXATAMENTE POR ISSO QUE EU QUERIA TER IDO!
Claro que é muito fácil falar isso depois, lendo a história confortavelmente pelo celular e sabendo que você não tomei uma garrafada na cabeça nem fui preso no meio de uma confusão com a polícia. Provavelmente Herbert estava certo. Provavelmente ir dormir tinha sido a decisão mais sensata.
Mas viagem não é feita apenas das decisões sensatas.
Até hoje, quando lembro daquela noite, não penso no maravilhoso descanso que tive antes de pegar meu voo.
Penso na confusão que perdi de assistir.
Quando cheguei em casa, dois dias depois. Fui ver a fatura do meu cartão e… surpresa… sabe os 50 dólares que eu falei que eu passei para poder guardarem a minha mochila no estádio? Os 25 dólares que era da minha mochila, mais os 25 que um cara aleatório me deu e pediu para eu passar para ele? Então… não sei porque o banco rejeitou a transação. Sabe-se lá porque. Eu fiz tudo certinho. Mas no final não paguei pela miha mochila e ainda ganhei 25 dólares.
E tudo isso em menos de 48 horas.
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