VIAGEM A SEYCHELLES| Quando parei de ser turista e comecei a entender o país

E, cara, vou te falar uma coisa: depois que você começa a entender como Seychelles funciona, o país muda completamente. É como desbloquear uma fase secreta de um videogame. Você deixa de viver como um turista e começa a viver, dentro do possível, como um morador. Descobre onde ficam os supermercados, aprende como funciona o transporte público, entende quais lugares são feitos para os locais e quais existem exclusivamente para arrancar dinheiro dos turistas.

Foi aí que Seychelles começou a fazer muito mais sentido para mim.

Em vez de pagar uma fortuna em táxis, eu pegava ônibus junto com estudantes indo para a escola, trabalhadores voltando para casa e senhorinhas carregando sacolas de supermercado. Passava por bairros que dificilmente conheceria se estivesse preso entre um resort e outro. Comecei a observar o cotidiano das pessoas, e essa, para mim, sempre foi a melhor parte de viajar.

E o melhor de tudo era o preço.

A passagem do ônibus custava menos de três reais.

Três reais.

Em um dos países mais caros do mundo.

E não era um sistema ruim, muito pelo contrário. Os ônibus percorrem praticamente toda Mahé e Praslin, as duas ilhas onde fiquei hospedado. Bastava baixar o aplicativo oficial do transporte público para saber exatamente em que horário o próximo ônibus passaria no ponto. Confesso que achei que os horários seriam apenas uma sugestão, mas não. Funcionavam surpreendentemente bem. Quase sempre o ônibus aparecia na hora prevista.

A vista das paradas de ônibus de Seychelles

Outra descoberta interessante foi que o governo mantém uma marca estatal que vende diversos produtos básicos a preços subsidiados. Arroz, farinha, açúcar, sal e outros itens essenciais podem ser encontrados em praticamente qualquer supermercado pelos mesmos valores tabelados. Isso ajuda bastante os moradores a enfrentarem o alto custo de vida do arquipélago.

A partir do momento em que comecei a cozinhar, usar ônibus e fazer compras onde os seichelenses fazem, a viagem ficou muito mais barata. Continuava longe de ser um destino econômico, claro, mas deixava de parecer inviável. Para minha surpresa, encontrei frutas custando praticamente o mesmo que no Brasil. Carne bovina continuava bastante cara, mas peixe era abundante e muito mais acessível, o que faz todo o sentido em um arquipélago cercado pelo oceano.

E tem mais uma vantagem que pesa bastante no orçamento.

As praias.

Elas são públicas.

Não importa se na frente existe um resort de cinco estrelas ou um hotel que cobra milhares de dólares por diária. Você pode simplesmente chegar, estender sua toalha na areia e aproveitar uma das praias mais bonitas do planeta sem pagar absolutamente nada por isso.

O ferry do Satanás – A travessia que me fez entender por que existe avião 

Depois de passar dois dias em Beau Vallon, finalmente chegou o momento que eu mais esperava desde que comecei a planejar a viagem: conhecer Anse Lazio. Durante anos ela apareceu em listas das praias mais bonitas do mundo e, pelas fotos que eu via na internet, parecia aquele lugar que alguém inventou no Photoshop. Era justamente por causa dela que eu tinha decidido incluir Seychelles no roteiro.

O único detalhe é que Anse Lazio fica na ilha de Praslin.

“Sem problemas”, pensei.

Era só colocar a mochila nas costas, pegar o ônibus até o porto, embarcar no ferry e, cerca de uma hora depois, estaria do outro lado.

Tudo muito simples.

Até chegar à bilheteria do porto.

O ferry custava…

300 reais.

CADA trecho.

Isso mesmo.

Trezentos reais para ir. Trezentos reais para voltar.

Comentei o preço com o Alex, meu anfitrião no Airbnb.

Esperando ouvir alguma reclamação.

Ele simplesmente respondeu:

— Barato, né

Barato.

Foi nessa hora que percebi que os seichelenses vivem em uma realidade econômica completamente diferente da nossa e começa a entender o custo de vida que eles estão sujeitos.

Enfim…

Respirei fundo, engoli o choro, passei o cartão e fui embarcar.

Dava para ir de avião também. O detalhe é que se o ferry era caro, o avião custava cerca de cinco vezes mais do que o ferry e, considerando o tempo de check-in, embarque, desembarque e deslocamento até o aeroporto, a economia de tempo nem era tão grande assim.

Na hora eu pensei:

“Quem é o maluco que paga tudo isso para economizar tão pouco tempo?”

Algumas horas depois eu descobri exatamente quem.

As pessoas que já fizeram o trajeto de ferry.

Cara, durante boa parte da minha vida eu sempre me considerei uma pessoa tranquila em relação a enjoo em embarcações. Pegava a lancha de São Luís para Alcântara sem problema nenhum. Passeio de barco? Tranquilo.

Só que, de uns anos para cá, alguma coisa aconteceu.

A idade chegou.

Comecei a enjoar em praticamente toda embarcação.

Em São Vicente e Granadinas eu sobrevivi a seis horas em um barco minúsculo sendo sacudido pelo mar o tempo inteiro. Achei que, depois daquela experiência, nada mais conseguiria me impressionar.

Ledo engano.

Quando entrei no ferry de Seychelles, a primeira coisa que chamou minha atenção foi um detalhe curioso. Cada poltrona tinha um saquinho de vômito. Pensei comigo:

“Que povo exagerado…”

Rapaz…

Era eu quem estava sendo inocente.

Enquanto o barco permanecia dentro da baía, a viagem parecia um passeio de domingo. Foi só sair para mar aberto que parecia que alguém tinha apertado um botão. Ou, para ser mais preciso, parecia que Satanás tinha assumido o controle do Oceano Índico.

O ferry começou a balançar de um lado para o outro de um jeito completamente absurdo. Não era aquele balanço gostoso de barco. Era uma pancada para um lado, outra para o outro, depois um mergulho na onda e, em seguida, outra pancada.

Foi aí que tudo fez sentido os saquinhos. Em poucos minutos começaram a surgir uma tia com um saco de lixo grande. Para que. Ela recolhia os saquinhos cheios e já entregava outro novinho para o próximo passageiro que estivesse prestes a contribuir com a estatística. Era uma linha de produção. Eu não cheguei a vomitar. Mas também não fiquei muito confiante.

A tia do vômito

Quando finalmente o ferry atracou em Praslin, minhas pernas estavam literalmente tremendo. Mas eu tinha sobrevivido. E agora, finalmente, era hora de conhecer Anse Lazio.

Anse lazio – Cheguei suando e encontrei uma das praias mais bonitas do mundo 

Consegui uma hospedagem muito boa em Anse Volbert, uma das melhores bases para explorar a ilha de Praslin. No outro dia acordei cedo, preparei a mochila de praia, coloquei máscara de snorkel, toalha e lá fui eu seguir o ritual que já tinha aprendido em Seychelles: caminhada até o ponto de ônibus e transporte público para economizar uma pequena fortuna em táxi.

Peguei o ônibus, acompanhei o trajeto pelo aplicativo e desci exatamente na parada que me disseram ser a de Anse Lazio.

Olhei para um lado.

Olhei para o outro.

Cadê a praia?

Cadê Anse Lazio?

Na minha frente havia apenas um paredão gigantesco coberto de vegetação.

Foi aí que um pessoal que estava passando explicou que eu ainda precisava caminhar uns vinte minutos até a praia.

“Caminhar”, no caso, é uma forma bastante generosa de descrever a situação.

Boa parte do percurso é uma subida bem íngreme. Você sobe, sobe, sobe… depois desce tudo de novo até finalmente chegar ao mar.

Vale a pena?

Muito.

A vista até que compensa

Mas ninguém coloca essa parte no Instagram.

As fotos mostram apenas a areia branca, o mar azul-turquesa e os coqueiros. Não mostram o cidadão suando feito uma tampa de chaleira para chegar até lá.

Quando finalmente alcancei a praia, veio outra preocupação.

Quanto iria custar uma cadeira?

Se em Beau Vallon eu já tinha pago cerca de oitenta reais para usar uma espreguiçadeira com direito a banheiro e chuveiro, imaginei que em Anse Lazio, uma das praias mais famosas do planeta, a facada seria histórica.

Fui me aproximando do restaurante já preparado psicologicamente.

Na minha cabeça, qualquer coisa entre quinhentos e oitocentos reais parecia perfeitamente possível. Respirei fundo e perguntei o preço. O rapaz respondeu:

Cinquenta reais.

Pensei que tinha entendido errado.

Perguntei de novo.

Era isso mesmo.

Cinquenta reais.

Pelo mesmo esquema: cadeira, banheiro, chuveiro e estrutura durante o dia inteiro. E não era uma estrutura improvisada, não. O restaurante era limpo, organizado e muito bem cuidado. Depois de passar dias tomando susto com os preços de Seychelles, encontrar uma pechincha justamente em uma das praias mais famosas do mundo foi uma surpresa.

O snorkel na praia também era maravilhoso. Muito peixes, arraias e até uma outra tartaruga que aparecia para dar um alô.

O mais legal era depois pegar o busão. Você pagava por um deslocamento de ônibus e ganhava junto um passeio de montanha russa. Juro, o motorista dirigia como se estivesse disputando uma etapa do Mundial de Rally. As curvas já são fechadas. As estradas são estreitas. O terreno é montanhoso. E eles simplesmente aceleram. Que nem um louco. Que não vive a vida ao máximo perde a oportunidade de ser extraordinário. Naqueles ônibus você aprende rapidamente a segurar firme. Pela janela você vê as pessoas, literalmente, pulando no mato para não serem atropeladas. Eu mesmo pulei no mato umas duas vezes.

No outro dia eu tomei uma decisão que parece quase um crime em Seychelles. Não fui para La Digue. Fazia alguns bons dias que eu só pulava de uma cidade para outro. De um país para outro. De uma ilha para outra. Estava cansado. Poderia ter ido apenas para dizer que fui. Ou podia descansar e aproveitar um dia de Anze Lazio. Preferi descansar em Anse Lazio mais um dia.

Viajar também é saber quando parar.

Curieuse – Tartaruga, jabuti… sei lá. O bicho era gigante 

No meu último dia paguei um passeio para La Curiese. 

A Ilha Curieuse é uma das atrações mais famosas de Seychelles por reunir, em um espaço relativamente pequeno, algumas das características mais marcantes do arquipélago. Ela abriga uma das maiores populações de tartarugas-gigantes-de-Aldabra vivendo em liberdade, além de extensos manguezais, praias preservadas e uma rica biodiversidade. No passado, Curieuse também teve um papel importante na história do país: durante o século XIX funcionou como uma colônia para pessoas com hanseníase, cujos antigos edifícios ainda podem ser visitados. Atualmente, toda a ilha faz parte do Parque Nacional Marinho de Curieuse, sendo uma área protegida dedicada à conservação da fauna e da flora locais, especialmente do coco-de-mer, a palmeira que produz a maior semente do mundo. E, sim, no passeio tava incluso um snorkel em St. Pierre, um dos melhores snorkels de Seychelles

Mas eu fui mais por conta das tartarugas. As tartarugas-gigantes existiam em praticamente todas as ilhas de Seychelles antes da chegada dos europeus, mas foram caçadas até a extinção entre os séculos XVII e XIX. A única população que sobreviveu foi a do remoto Atol de Aldabra, por ser muito isolado. Entre 1978 e 1982, cerca de 250 tartarugas de Aldabra foram levadas para Curieuse como parte de um projeto de conservação. A ilha foi escolhida porque é protegida, desabitada, possui vegetação adequada, pouca interferência humana e fica muito mais próxima das áreas turísticas do que Aldabra, permitindo tanto a conservação quanto a educação ambiental. Imagina, cada turista que pisa lá paga uma taxa de 100 reais. E eu vi dezenas de turistas chegando sem parar. É mais do que suficiente para financiar a preservação. Tem dessas tartarugas por toda Seychelles. Inclusive no primeiro airbnb que eu fiquei o cara criava uma no quintal. Segundo ele, era costume você ganhar uma tartaruga quando nascia para poder criá-la. E, assim, ela pode durar duzentos anos, então serve para você, seu neto, bisneto e põe gente pelos anos.

Agora, uma coisa me deixou meio confuso. Todo mundo chamava aqueles bichos de tartarugas-gigantes. Mas, convenhamos, tartaruga vive no mar. Quem vive exclusivamente em terra é jabuti. Então, na minha cabeça de brasileiro, aquilo eram uns jabutis gigantes. Enfim… pode chamar do que quiser. O importante é que elas são enormes.

E o mais legal é que elas ficam completamente soltas. Você pode chegar perto, fazer fotos, acariciar o casco e até alimentá-las com as folhas que você acha no chão. Cara… eu vi uma criança simplesmente beijando uma delas. A tartaruga — ou jabuti, escolha o nome que preferir — não pareceu particularmente impressionada. Provavelmente já tinha visto turistas muito mais estranhos do que aquele. Passei quase a manhã inteira brincando com elas. É uma experiência muito diferente de vê-las atrás de cercas ou em um zoológico. Você realmente tem a sensação de estar dividindo o espaço com animais que vivem ali há décadas e que simplesmente aprenderam a ignorar completamente os seres humanos. Eu cheguei a ver algo parecido em Galápagos. Lá também tinha umas tartarugas gigantes. Só que tinha uma cerca e você não podia nem chegar perto. Em Curiese não, como falei, tinha criança beijando as tartarugas.

Depois da visita, serviram um almoço crioulo para o grupo e seguimos para a última etapa do passeio: o snorkel em St. Pierre, supostamente o melhor snorkel de Seychelles. Infelizmente, essa foi a única parte que foi ruim. O mar estava bastante agitado — algo que eu já tinha percebido durante a travessia de ferry — e toda aquela movimentação levantava areia do fundo. Resultado: a água ficou bem turva e a visibilidade caiu muito. Ainda deu para ver alguns peixes, mas passou longe daquela água cristalina que aparece nas fotos de Seychelles.

O país que começou me expulsando e terminou me conquistando

Depois do passeio em Curieuse, era hora de voltar para Praslin, dormir mais uma noite e, no dia seguinte, enfrentar novamente o famoso ferry do Satanás para retornar a Mahé e pegar o voo para o próximo destino.

Confesso que, na hora de ir embora, bateu uma tristeza daquelas.

Minha relação com Seychelles começou da pior forma possível. Primeiro veio a imigração, que parecia um interrogatório policial. Depois, o susto com os preços, que me fizeram pensar que eu teria que vender um rim até o fim da viagem. Mas, à medida que os dias foram passando e eu fui entendendo como o país realmente funciona, tudo mudou. Muito mudou.

Seychelles acabou se tornando o lugar mais próximo de um paraíso que eu já visitei.

É difícil encontrar outro país que consiga reunir tantas qualidades ao mesmo tempo. O clima é agradável praticamente o ano inteiro. O mar é morno, cristalino e de um azul que parece editado no Photoshop. As praias são espetaculares. O país é limpo, organizado, seguro e funciona surpreendentemente bem.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a qualidade de vida da população. É claro que Seychelles tem seus problemas — basta lembrar da grave crise relacionada ao consumo de heroína —, mas, de maneira geral, a impressão que tive foi a de um país onde as pessoas conseguem viver relativamente bem. Diferentemente de destinos turísticos como Fernando de Noronha, onde tudo é muito caro, mas a população local vive no veneno, em Seychelles você percebe uma infraestrutura pública funcionando, bairros bem cuidados e um padrão de vida bastante elevado para os padrões africanos.

Normalmente, quando viajo, cada país se destaca por alguma característica específica. Um tem uma natureza extraordinária, outro possui uma história fascinante, outro é extremamente barato, outro é muito seguro. Sempre existe algum ponto forte… e alguma fraqueza.

Seychelles foi um dos raríssimos lugares onde eu tive dificuldade de encontrar essa fraqueza.

No fim das contas, o país me conquistou completamente.

E a maior descoberta da viagem nem foi Anse Lazio.

Nem Curieuse.

Nem Beau Vallon.

Foi perceber que Seychelles fica muito mais interessante quando você larga o roteiro tradicional de lua de mel, coloca uma mochila nas costas, pega um ônibus junto com os moradores, faz compras no supermercado e passa a conhecer o país como ele realmente é.

Mesmo que, aparentemente, a imigração ainda ache essa uma péssima ideia.

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VIAGEM A SEYCHELLES | Como viajar por Seychelles sendo pobre

Eu não sabia muita coisa sobre Seychelles antes da viagem. Na verdade, praticamente tudo o que eu conhecia do país cabia em uma única frase. Toda vez que eu comentava que iria para lá, a reação era sempre a mesma:

— “Você vai para Seychelles? Rapaz… então você está milionário!”

Se eu ganhasse uma rúpia seichelense cada vez que ouvi isso, provavelmente não ia comprar muita coisa. Seychelles consegue ser cara de um jeito quase ofensivo.

E o pior é que eu estava chegando justamente da Etiópia. Um país que tinha acabado de me surpreender pela beleza, pela história e, principalmente, pelos preços. Durante vários dias eu fiz e refiz conversões para reais porque simplesmente não acreditava no quanto as coisas eram baratas na Etiópia. Toda hora eu pensava: “Não é possível… devo ter feito a conta errada.”

Agora o jogo virava completamente.

Eu estava saindo de um dos países mais baratos que já visitei para desembarcar em um dos destinos mais caros do planeta. Meu medo já não era mais converter errado para menos.

Era converter certo e descobrir que um sanduíche custava o equivalente a um financiamento imobiliário.

Entre o cartão-postal e o interrogatório 

Seychelles começa a te conquistar antes mesmo de você colocar os pés no país. A chegada pelo aeroporto é, sem exagero, uma das mais bonitas que eu já fiz na vida. Existem pousos memoráveis. Existe o pouso em Fernando de Noronha. Existe o pouso nas Ilhas Maurício. Existe o pouso nas Maldivas.

E existe Seychelles.

O avião vai perdendo altitude lentamente. Você olha pela janela e vê apenas o oceano.

Água.

Mais água.

Mais água.

A sensação é muito parecida com a de pousar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. O avião continua descendo e, por vários segundos, tudo o que você consegue enxergar é mar. Você começa até a pensar que aquele sujeito errou alguma coisa.

De repente…

Do nada…

Surge uma tripa de terra.

E, praticamente no último instante, aparece a pista.

É um daqueles pousos que fazem qualquer passageiro largar o celular e olhar pela janela. Se o piloto errar a conta por alguns metros, o banho de mar já está garantido.

A chegada já explica por que Seychelles ficou famosa no mundo inteiro. A cor da água é absurda, as montanhas de granito brotam do oceano e você já entende, antes mesmo de desembarcar, que está chegando a um lugar muito diferente.

Só que a beleza da paisagem foi rapidamente substituída pela realidade da imigração.

Com a quantidade de carimbos que já tenho no passaporte, normalmente eu nem me preocupo muito. Geralmente o agente pergunta onde vou ficar, quantos dias pretendo permanecer no país e, no máximo, qual é a minha profissão no Brasil. Foi assim em Moçambique. Foi assim nos Estados Unidos. Imaginei que Seychelles seguiria exatamente o mesmo roteiro.

Rapaz…

Cheguei ao guichê da imigração e tudo começou exatamente como eu esperava. A agente perguntou o motivo da viagem, quantos dias eu ficaria no país, onde estava hospedado, o endereço do hotel… aquele roteiro de sempre. Depois perguntou qual era a minha profissão no Brasil. Respondi simplesmente:

— Sou programador Python.

Já peguei minha mochila e fiz aquele movimento clássico de quem está indo embora.

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Quem disse.

A entrevista estava só começando.

Ela continuou perguntando sobre a viagem, até que soltou:

— Você tem dinheiro suficiente para se manter em Seychelles?

Respondi tranquilamente que sim.

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Ela então respondeu:

— Então me mostra.

Eu confesso que fiquei alguns segundos processando a informação. Minha primeira reação foi pensar que eu tinha entendido o inglês errado. Não era possível que ela estivesse pedindo para eu provar que tinha dinheiro.Mas era exatamente isso.

Abri a mochila e mostrei os dólares que eu carregava em espécie.Ela olhou e respondeu:

— Isso é pouco.

Na minha cabeça só vinha uma pergunta:

“Gente… quem anda com um bolo de dinheiro vivo em 2026?”

Expliquei que praticamente todas as minhas despesas de viagem eram pagas no cartão de crédito.

Ela perguntou:

— E qual é o limite do seu cartão?

Aí complicou.

Respondi, com toda a sinceridade do mundo, que eu não fazia a menor ideia. Nunca tinha decorado o limite porque simplesmente nunca precisei.

Ela ficou alguns segundos me olhando com uma expressão que parecia dizer:

“Meu Deus… o que eu faço com esse cidadão?”

Depois levantou da cadeira e chamou a SUPERVISORA. Oxi, subiu mais um degrau, a coisa começou a ficar séria.

Nessa hora eu já comecei a imaginar que ia inaugurar a estatística de brasileiros deportados de Seychelles.

A supervisora veio, fez mais algumas perguntas, onde eu ia ficar, se já tinha pago hotel, se já tinha pago o ferry para viajar entre as ilhas, olhou meu passaporte, conferiu que eu tinha passagem de saída, reservas de hospedagem, um transfer já me esperando do lado de fora e dezenas de carimbos de outros países. Ficou analisando. Pediu para ver de novo. Perguntou mais algumas coisas e ficou pensando e me encarando.

Depois de um tempo, devolveu os documentos e disse que eu podia entrar.

Confesso que saí da imigração um pouco sem entender o que tinha acontecido.

Eu já tinha entrado em países bem mais complicados do que Seychelles e nunca tinham me interrogado daquele jeito.

Confesso que foi uma das imigrações mais chatas pelas quais já passei. Na hora até fiquei meio sem entender o motivo de tanta desconfiança. Depois, pensando melhor, lembrei que tinha vivido algo parecido nas Maldivas (confira a história aqui). Lá eles chegaram ao ponto de ligar para o Airbnb onde eu estava hospedado para confirmar que a minha reserva realmente existia antes de me autorizarem a entrar no país.

Mais tarde fui pesquisar na internet e descobri que eu não era exceção. Vários viajantes relatavam experiências muito parecidas em Seychelles. Acho que isso acontece porque o perfil de turista que eles recebem costuma ser bem diferente do meu. O visitante típico chega em um voo vindo da Europa, já comprou um pacote completo, entra em um transfer organizado pelo hotel, passa uma semana dentro de um resort e volta para casa. Eu apareci sozinho, vindo da Etiópia, dizendo que ia pegar ônibus, ferry, Airbnb e sair andando pelo país inteiro. Convenhamos… olhando pela perspectiva deles, eu realmente não parecia o turista padrão de Seychelles. Para ter uma ideia do público que o país costuma atrair, foi justamente em Seychelles que o príncipe William e Kate Middleton passaram a lua de mel.

Outro detalhe também ficava martelando na minha cabeça. Antes da viagem eu tinha assistido a uma reportagem da BBC que me impressionou bastante. O documentário mostrava que cerca de 10% da população economicamente ativa de Seychelles era dependente de heroína, uma das maiores proporções do mundo. A matéria teve enorme repercussão internacional justamente porque quebrava aquela imagem de paraíso perfeito vendida pelos folhetos de turismo.

O próprio governo reconheceu a gravidade do problema e parte da imprensa local discutiu o impacto que aquela exposição poderia ter sobre a reputação do país. No fim, o turismo continuou forte, mas ficou claro que, por trás das praias de areia branca, dos resorts de luxo e das águas azul-turquesa, Seychelles também convive com desafios sociais bastante sérios. Talvez justamente por isso a imigração seja tão criteriosa com quem entra no país. Não posso afirmar que uma coisa esteja ligada à outra, mas, depois daquela entrevista, confesso que essa hipótese passou pela minha cabeça.

Então eles tão arrochando qualquer um que eles tenham suspeita disso. Há um tempo atrás eles chegaram a proibir todo e qualquer cidadão da Nigéria de entrar. Daí chega um doidinho, sul-americano, praticamente vizinho de Pablo Escobar, direto da África, com uma cara de fi duma égua, falando que alugou um Airbnb e que vai pegar um ferry para outra ilha sozinho. Com um passaporte cheio de carimbo (exatamente o que você espera de um traficante de drogas internacional). É óbvio que eles dão uma arrochada. Eles não querem turista desse tipo por lá. Eles querem alguém com euros, muito deles, e não alguém com reais na carteira.

Na verdade, além de europeus tem muitos russos também. Rapaz, nunca vi tantos russos fora da Rússia como vi em Seychelles. 

O país africano que parece organizado demais para ser verdade 

Seychelles é um arquipélago formado por antigos fragmentos do supercontinente Gondwana, uma cordilheira submersa que permaneceu ligada ao bloco da Índia por milhões de anos antes da separação dos continentes.

A história de Seychelles é relativamente curta quando comparada à de outros países. Diferentemente de Madagascar ou das Comores, o arquipélago permaneceu desabitado até o século XVIII. Embora navegadores árabes e suaílis provavelmente já conhecessem aquelas ilhas por fazerem parte das rotas comerciais do Oceano Índico, não há evidências de que tenham criado povoamentos permanentes. Os primeiros europeus a registrar Seychelles foram os portugueses, durante a viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1503. Apesar disso, Portugal nunca se interessou em colonizar o arquipélago. Quem efetivamente tomou posse das ilhas foram os franceses, em 1756, iniciando a colonização com plantações e a chegada de escravizados africanos.

Após as Guerras Napoleônicas, Seychelles passou ao domínio britânico em 1814, permanecendo como colônia até conquistar sua independência em 1976. Ao longo desse período, africanos, franceses, britânicos, indianos e chineses contribuíram para formar a identidade multicultural do país e o crioulo seichelense, hoje a língua mais falada do arquipélago. Depois de um golpe de Estado em 1977 e anos sob um regime de partido único, Seychelles iniciou sua democratização na década de 1990. Atualmente é o país mais rico da África com uma das maiores rendas per capita da África, baseada principalmente no turismo e na pesca, e é reconhecido mundialmente por sua política de preservação ambiental.

Coco de Mer. Maior semente do mundo e símbolo das Seychelles

Atualmente, Seychelles é considerada uma democracia multipartidária, realizando eleições livres desde o início da década de 1990, quando abandonou o regime de partido único. Apesar do tamanho reduzido do país e de algumas críticas relacionadas à concentração de poder e à liberdade de imprensa, o arquipélago é visto como uma das democracias mais estáveis da África. Sua economia depende fortemente do turismo, responsável pela maior parte da entrada de divisas, além da pesca, especialmente do atum, e de serviços financeiros internacionais. Graças a essa combinação, Seychelles possui uma das maiores rendas per capita do continente africano. De modo geral, a população desfruta de um padrão de vida elevado para os padrões africanos, com bons indicadores de educação, saúde e expectativa de vida. Por outro lado, o país enfrenta problemas como o alto custo de vida e a forte dependência do turismo que ficou mais clara quando tudo teve que ficar fechado devido a COVID19.

É realmente impressionante como tudo parece funcionar na ilha.

Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a limpeza.

Não era apenas impressão.

O país parece fazer um esforço deliberado para permanecer limpo.

Existem políticas específicas para gerenciamento de resíduos, lixeiras por toda parte e uma preocupação constante com a imagem do arquipélago.

Só para você ter uma ideia, a gente acha que o problema do turismo em lugares como o Rio de Janeiro é a violência, mas a principal queixa de turistas na saída do Rio é sobre limpeza urbana.

Em Seychelles, ela parece tratada como patrimônio nacional.

A mesma sensação aparece quando o assunto é segurança. Me explicaram que as penas para crimes, principalmente contra turistas, são bem pesadas, justamente porque eles querem que seja mantido essa visão de paraíso intocado. Enquanto fiquei nas praias e cidades não encontrei vendedores insistentes. Não encontrei caixas de som tocando música merda no volume máximo. Não encontrei pedintes circulando pelas praias.

A lógica é simples. A economia depende do turismo. A reputação do país vale dinheiro.

Mas nem tudo são flores

Existe um detalhe que quase ninguém comenta.

Seychelles é extremamente montanhosa.

No mapa parece tudo perto.

Na prática…

…você descobre que precisa subir e descer morros o tempo inteiro. Então prepare as suas panturrilhas.

Descobrindo como não falir em Seychelles 

Antes de sair do aeroporto, fiz a minha primeira anotação para escrita.

“Caro demais. Meu Deus.”

Era um excelente resumo de Seychelles.

E, sinceramente, eu nem consigo culpar os caras por isso. Estamos falando de um pequeno arquipélago perdido no meio do Oceano Índico, a mais de mil quilômetros do continente africano. A população é pequena, o relevo é bastante montanhoso, há pouca terra disponível para agricultura e praticamente tudo o que os moradores consomem precisa chegar de navio ou de avião. Some a isso uma economia baseada no turismo de alto padrão e fica fácil entender por que os preços são tão salgados. Para você ter uma ideia, quando estive lá, o litro da gasolina custava algo em torno de 2 dólares (10 reais). Se até abastecer um carro é caro, imagine todo o resto. Então não adiantava reclamar. Era aceitar a realidade, engolir o choro e seguir viagem.

O problema é que existe um gasto do qual é praticamente impossível escapar: transporte. Seychelles não tem Uber, Bolt nem nenhum aplicativo semelhante. Você acaba completamente nas mãos dos táxis. Logo na chegada, paguei 50 dólares — cerca de 300 reais — apenas para ir do aeroporto até o Airbnb. Na hora achei um absurdo. Depois descobri que, pelos padrões locais, nem tinha sido uma corrida tão cara assim. Em seguida veio o chip de celular, que também custou uma pequena fortuna. E essa sensação se repetia o tempo todo. Cada compra, por menor que fosse, exigia uma pequena preparação psicológica antes de olhar o preço. Em Seychelles, você aprende muito rapidamente que a paisagem é paradisíaca… e a conta acompanha o cenário.

Antes de sair explorando, resolvi ficar duas noites na ilha principal, Mahe. Fiquei hospedado perto de Beau Vallon, provavelmente a praia mais famosa da ilha. A localização era excelente. Bastava caminhar alguns minutos e eu já estava com o pé na areia.

O dono do Airbnb era uma figura sensacional. Chamava-se Alex e era filho de um alemão com uma seichelense. O resultado era um sujeito que chamava atenção por onde passava. Muito alto, pele clara, traços europeus, mas com aquele jeito tranquilo típico das ilhas. Gente boa demais. Vivia praticamente em função do Airbnb. Em mais de uma ocasião me levou de carro ao supermercado para fazer compras e, quando voltei da ilha de Praslin, fez questão de ir me buscar no porto e me deixar na minha hospedagem seguinte. Foi daqueles anfitriões que fazem a diferença na viagem.

No primeiro dia comecei a perguntar para ele como funcionava o transporte público.

Ele me olhou com uma cara que parecia dizer:

— Mas… por que você quer saber disso?

Ele deu risada e respondeu que não fazia a menor ideia de como o sistema funcionava. Sabia apenas que existia um cartão de transporte, mas que não usava há um bom tempo. Pelo que entendi, nem os hóspedes dele costumavam pegar ônibus. Naquele momento comecei até a achar que a agente da imigração tinha um pouco de razão em desconfiar de mim. Claramente eu não era o tipo de turista que Seychelles estava acostumada a receber.

Então fica a dica para quem pretende economizar. Em Seychelles vale muito a pena comprar o cartão do transporte público. Existem opções de quatro dias, oito dias ou um cartão recarregável, que foi o que eu escolhi. O detalhe é que ele não é vendido em qualquer lugar. Normalmente você encontra em alguns supermercados e pontos específicos da empresa de transporte.

Sendo pobre em Seychelles

Cheguei todo confiante ao supermercado perto da hospedagem e perguntei onde comprava o cartão.

O atendente me olhou como se eu tivesse perguntado onde vendia um foguete para ir à Lua.

Depois respondeu, completamente intrigado:

— Mas… pra que você quer isso? Você é turista.

Expliquei novamente que queria andar de ônibus.

Ele então soltou:

— Cartão de ônibus a gente normalmente vende para trabalhador braçal.

Nessa hora eu comecei a rir.

Os caras realmente não estavam acostumados com um turista tentando economizar uns bons dólares usando transporte público. Mas enfim, consegui meu cartão.

Esperando o busão

Passei dois dias hospedado em Beau Vallon e gostei bastante da região. A praia é bonita, o mar costuma ser calmo e o snorkel ali é realmente muito bom. Dá para entrar na água com uma máscara e poucos minutos depois já encontrar uma boa quantidade de peixes.

Outra coisa que achei interessante foi um hotel de frente para a praia que alugava cadeiras e funcionava praticamente como um day use, igual aos que existem em muitas praias brasileiras. Você alugava a espreguiçadeira e podia usar os banheiros, os chuveiros e até guardar seus pertences em um armário enquanto estivesse no mar.

Quando vi a estrutura, pensei:

“Pronto. Lá vêm uns 500 reais.”

Nada disso.

Custava cerca de 80 reais.

Rapaz, barato, não Para falar a verdade, já paguei mais do que isso em Porto de Galinhas no carnaval. E correndo o risco de tomar uns tapas se eu reclamasse.

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