VIAGEM A SÃO VICENTE E GRANADINAS | Madonna, Tubarões e um catamarã infernal

São Vicente e Granadinas entrou no meu roteiro com uma promessa forte: conhecer Bequia e fazer um passeio até Tobago Cays, um daqueles lugares que aparecem em listas de “paraísos do Caribe”, com água azul-turquesa, pequenas ilhas, recifes e até cenário de Piratas do Caribe.

Na prática, a viagem começou me ensinando novamente uma regra importante da região: o Caribe é bonito, mas não tem qualquer compaixão pelo seu bolso.

Assim que desembarquei, descobri que uma corrida de táxi de cerca de vinte minutos até o terminal do ferry custaria 40 dólares. Como era domingo e eu precisava pegar o barco para Bequia, não havia muita margem para negociação. Paguei, cheguei ao porto e descobri que ainda teria horas pela frente até o próximo ferry.

E foi justamente nessa espera que apareceu um dos personagens mais improváveis que já encontrei viajando.

Primeiro ele me surpreendeu dizendo que conhecia Belém, o Mercado Ver-o-Peso e, quando descobriu que eu era maranhense, citou simplesmente Alcione. Nesse momento ganhou toda a minha atenção.

Até explicar que precisava da ajuda do governo brasileiro para resolver um problema com Madonna.

A partir daí começou um enorme dossiê envolvendo Madonna, Lenny Kravitz, Shakira, políticos argentinos, programas de televisão, passaportes antigos, carimbos e recortes de jornal. Segundo ele, existia uma conspiração internacional para sabotar sua vida.

Informei solenemente que colocaria o governo brasileiro à disposição da investigação e ele foi embora satisfeito, convencido de que finalmente tinha conquistado o apoio da maior potência da América do Sul.

Só depois dessa reunião diplomática consegui seguir para Bequia.

O grande objetivo era Tobago Cays. Consegui a última vaga num passeio de catamarã e paguei 130 dólares — sem almoço. Como a refeição mais barata por lá custava cerca de 30 dólares, fiz minha própria marmita no Airbnb e fui preparado para enfrentar o paraíso sem falir completamente.

O problema é que ninguém avisou meu organismo.

Assim que o barco deixou Bequia, comecei a sentir um enjoo absurdo. O mar estava agitado, o vento contra e as três horas previstas de navegação viraram quatro. Foram quatro horas tentando sobreviver enquanto o marinheiro explicava, com toda a delicadeza caribenha, que eu deveria ter tomado remédio antes.

Quando finalmente chegamos a Tobago Cays, fui direto para a água fazer snorkeling.

E aí veio outra surpresa.

Foi bom. Vi quatro tubarões num único mergulho, algo que nunca tinha acontecido comigo. Mas, fora isso, eu esperava muito mais. Depois de quatro horas de barco, 130 dólares e uma travessia que desmontou completamente meu organismo, Tobago Cays ficou longe de experiências que tive em lugares como Fernando de Noronha e Galápagos.

O mais irônico é que, nos dias seguintes, fiz snorkeling ali mesmo em Bequia e gostei mais.

Foi quando estabeleci uma nova regra pessoal de viagem: nunca mais passar oito horas num barco para ficar duas horas no destino.

Depois de quatro dias em Bequia, voltei para a ilha principal e passei duas noites em Kingstown. Eu tinha preparado um roteiro pela capital, mas já estava cansado demais para grandes explorações. Caminhei um pouco pela cidade, encontrei muitas ladeiras e poucas atrações que realmente me animassem.

Na hora de ir embora, tentaram novamente cobrar 40 dólares pelo táxi até o aeroporto.

Dessa vez eu já tinha aprendido.

Peguei uma van local por 2,50 dólares.

Claro que o desconto vinha acompanhado de alguns pequenos detalhes: van lotada, sem ar-condicionado, motorista acreditando estar disputando o Mundial de Rally e música no volume máximo durante todo o trajeto.

Mas economizei quase duzentos reais.

E valeu cada centavo.

No fim, São Vicente e Granadinas me entregou exatamente aquilo que eu mais gosto de encontrar numa viagem: histórias que eu jamais teria conseguido planejar.

Teve ilha paradisíaca, snorkeling, tubarões, táxi caríssimo, marmita improvisada, enjoo em alto-mar, motorista psicopata e um homem convencido de que Madonna fazia parte de uma conspiração internacional contra ele.

Talvez Tobago Cays não tenha sido o paraíso que eu imaginava.

Mas a viagem, como história, foi muito melhor.

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