VIAGEM AO BURUNDI | O país mais pobre do mundo onde tudo podia dar errado — e quase deu!

Se Ruanda era um país que eu já tinha vontade de conhecer havia muitos anos, o Burundi estava no extremo oposto. Cara, o Burundi era um daqueles países que eu mal sabia que existia. Eu só sabia que fazia fronteira com Ruanda. Resolvi ir basicamente porque já estaria ali do lado, em Ruanda. Descobri que havia voos relativamente baratos entre Kigali e Bujumbura e pensei: por que não? Quando é que eu estaria novamente naquela região da África com o Burundi a menos de uma hora de avião?

Foi aí que comecei a pesquisar sobre o país e um dado imediatamente chamou minha atenção: o Burundi é o país mais pobre do mundo. E não estou falando do país mais pobre da África ou do Hemisfério Sul. Estou falando do planeta inteiro. Um país pequeno, extremamente populoso para o tamanho do território, sem saída para o mar, com pouca industrialização e onde grande parte da população ainda depende da agricultura de subsistência.

A viagem ainda tinha uma questão interessante. Poucos dias antes eu estava em Seychelles, o país mais rico da África, e agora estava indo para o extremo oposto. Em questão de dias eu sairia de um pequeno país africano insular, relativamente rico, organizado e cheio de resorts de luxo para, bem, pro Burundi. Para quem gosta de observar como sociedades diferentes funcionam, dificilmente eu conseguiria um contraste maior dentro de uma mesma viagem.

E esse dado sobre o Burundi me deixou realmente intrigado porque o país não estava vivendo uma guerra aberta quando eu fui para lá. Você olha para o mundo e encontra países destruídos por conflitos, bombardeios e crises humanitárias gravíssimas e, ainda assim, o Burundi continua aparecendo no fundo. Isso despertou minha curiosidade. Como seria, na prática, visitar o país mais pobre do planeta? Bem… era exatamente isso que eu estava indo descobrir.

Golpes, massacres e crises: a história que afundou o Burundi

A história do Burundi é bastante parecida com a de Ruanda, inclusive na complicada relação entre hutus e tutsis. Antes da chegada dos europeus, a região já possuía um reino organizado, governado por um mwami, uma espécie de rei, e as divisões sociais entre hutus e tutsis já existiam, embora fossem menos rígidas do que se tornariam posteriormente. No final do século XIX, o Burundi passou para o controle da Alemanha e foi incorporado à África Oriental Alemã. Depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, o território passou para a administração da Bélgica, junto com Ruanda. Os belgas reforçaram as divisões entre hutus e tutsis e privilegiaram durante boa parte do período colonial a minoria tutsi na administração. O Burundi conquistou sua independência em 1962 mantendo inicialmente a monarquia, mas o rei seria derrubado poucos anos depois e, em 1966, o país virou uma república.

Daí para frente, infelizmente, a história do Burundi virou uma sucessão de golpes de Estado, governos autoritários e massacres entre hutus e tutsis. Em 1972, uma rebelião hutu foi seguida por uma repressão brutal do governo dominado por tutsis, que matou dezenas de milhares de pessoas, principalmente hutus. Em 1993, o país elegeu Melchior Ndadaye, seu primeiro presidente hutu democraticamente eleito, mas ele foi assassinado poucos meses depois por militares tutsis. O assassinato desencadeou novos massacres e uma guerra civil que duraria mais de uma década e deixaria cerca de 300 mil mortos. A paz começou a ser construída com os Acordos de Arusha, em 2000, mas a estabilidade política continuou bastante frágil. Pierre Nkurunziza governou de 2005 até sua morte, em 2020, e a tentativa de conseguir um controverso terceiro mandato em 2015 provocou outra enorme crise política. Ou seja, quando você olha para a pobreza atual do Burundi, começa a entender que ela não apareceu do nada: o país passou boa parte das décadas posteriores à independência pulando de golpe em golpe, massacre em massacre e crise em crise. Difícil construir uma economia desse jeito.

Existe ainda um personagem que parece estar presente em praticamente qualquer país africano que você visite atualmente: os chineses. No Burundi não seria diferente. Mesmo sendo um mercado minúsculo e extremamente pobre, a China está presente financiando ou construindo estradas, prédios públicos e outros projetos de infraestrutura, além de manter relações políticas próximas com o governo. Em Bujumbura, você encontra obras e placas lembrando dessa cooperação sino-burundinesa. É impressionante: você pode ir para Angola, Etiópia, Ruanda, Burundi ou praticamente qualquer outro canto do continente e, em algum momento, aparece uma obra chinesa. Os europeus colonizaram a África, foram embora e, algumas décadas depois, os chineses chegaram com empreiteiras, empréstimos e engenheiros. Mudou bastante a estratégia, mas a disputa por influência no continente continua firme e forte.

Chegando no Burundi e já utilizando a milenar técnica milenar de se fazer de idiota

Para começo de conversa, eu já sabia que não teria no Burundi a mesma facilidade que tinha encontrado em Ruanda para me comunicar. Em Kigali, o inglês resolvia praticamente tudo. No Burundi, a situação seria diferente. Lá o francês e o kirundi são as línguas oficiais. Inglês? Até vem ganhando espaço, mas eu já tinha sido avisado de que, na prática, encontraria quase ninguém falando inglês, muito longe do que vi em Ruanda. E meu francês, bem… digamos que não serve nem para pedir socorro com muita eficiência.

Como eu já tinha sido extorquido ao entrar na Gâmbia, outro dos países mais pobres do mundo, resolvi desembarcar no Burundi preparado para qualquer eventualidade. O visto custava 40 dólares e podia ser tirado na chegada, então levei o dinheiro certinho e trocado. Além disso, deixei separado mais uns 10 dólares separados em outro bolso. Sabe como é: experiência internacional. Se aparecesse alguma “taxa administrativa especial de boas-vindas ao Burundi”, eu pelo menos já estava preparado.

E os sinais começaram antes mesmo de eu embarcar. Teoricamente, antes da viagem era necessário preencher pela internet um formulário de registro para apresentar à imigração. O problema é que o formulário online tinha campos aparentemente trocados: onde você esperava colocar o nome, aparecia sobrenome; onde deveria entrar o sobrenome, parecia pedir o nome. Fiquei olhando para aquilo tentando descobrir se eu estava preenchendo errado ou se o próprio formulário estava errado. No fim consegui completar, mas aquilo já funcionou como uma pequena prévia do que eu imaginava encontrar pela frente. Se até o formulário oficial de entrada estava daquele jeito, pensei: “Rapaz… essa viagem promete.”. Sim, no final não me pediram formulário nenhum.

Cheguei ao balcão do visto no aeroporto e, para minha surpresa, tudo funcionou de maneira extremamente profissional. Pediram meu passaporte, conferiram os documentos, mandaram pagar a taxa do visto e pronto. E detalhe importante: paguei os 40 dólares com meu cartão Wise. Guarde essa informação porque ela ainda vai voltar nesta história. Depois colocaram o visto no passaporte e me mandaram seguir para a imigração. Até ali, tudo perfeito.

Cheguei ao guichê e o agente começou a falar francês comigo. Avisei que só falava inglês e ele passou para um inglês sofrível, mas suficiente para a gente conseguir se entender. Perguntou onde eu ficaria, quanto tempo permaneceria no país, essas coisas normais. Quando terminou e parecia que finalmente iria me liberar, veio a surpresa: perguntou se eu não poderia deixar uma “gorjeta” para ele. Rapaz… o próprio oficial da imigração estava me pedindo dinheiro. Na hora ativei uma das técnicas mais importantes que desenvolvi viajando pelo mundo: fiz cara de idiota, fingi que não tinha entendido absolutamente nada, agradeci, peguei meu passaporte e fui embora.

E isso acabou reforçando uma espécie de lei geral das minhas viagens. Pode ser o país que for, aeroporto internacional normalmente funciona de maneira relativamente profissional. De vez em quando aparece alguém tentando conseguir uma gorjeta — já tinha acontecido comigo até na Mauritânia —, mas, pela minha experiência, quando você simplesmente não entra na conversa, o sujeito desiste e deixa você seguir. Nunca passei por aquela história de ser levado para uma salinha e ficar retido até “molhar a mão” de alguém. Imagino que exista uma razão prática para isso: aeroporto internacional recebe centenas ou milhares de passageiros, tem câmeras, outros funcionários e muito mais controle. É bem diferente de uma fronteira terrestre perdida no meio do nada, onde aparece um estrangeiro a cada duas horas e o funcionário pode pensar: “Rapaz… deixa eu conversar com esse aqui com mais calma.”

Dois motoristas, gasolina a 20 reais e um policial arretado

Como eu já sabia que o Burundi podia ser meio bagunçado, resolvi não inventar moda logo na chegada e paguei para alguém do hotel ir me buscar no aeroporto. Uma corridinha de oito minutos custaria 20 dólares. Achei um absurdo, claro, mas preferi pagar pela tranquilidade de sair do aeroporto já sabendo quem estaria me esperando e para onde eu iria.

Saí do terminal e lá estava um cara segurando uma plaquinha com meu nome. Melhor ainda: ele falava um ótimo inglês. Entramos no carro e ele simplesmente sentou no banco de trás comigo. Olhei para ele e perguntei:

— Ué, você não vai dirigir?

Ele respondeu tranquilamente que não. Quem dirigiria seria um amigo dele.

Rapaz…

Aquilo tinha orelha de golpe, nariz de golpe e rabo de golpe.

Por alguns segundos pensei seriamente em sair do carro e descobrir outra maneira de chegar ao hotel. Só que havia sido o próprio hotel que tinha organizado o transfer, todas as mensagens estavam registradas dentro do Booking e o lugar tinha boas avaliações. Resolvi pagar para ver.

Pouco depois apareceu outro sujeito, entrou no banco do motorista e começou a dirigir. O pequeno detalhe é que ele não falava uma palavra de inglês. Fiquei acompanhando tudo pelo GPS e, quando percebi que estávamos realmente seguindo em direção ao centro de Bujumbura e ao meu hotel, relaxei. Pelo menos o suposto sequestro estava seguindo exatamente a rota do Google Maps.

No caminho comecei a conversar com o rapaz que falava inglês e finalmente entendi a situação. Normalmente era ele mesmo quem buscava e levava os hóspedes usando o próprio carro. O problema é que ele só conseguia fazer isso quando conseguia comprar gasolina.

Sim.

Quando ele CONSEGUIA comprar gasolina.

O Burundi sempre enfrentou dificuldade com combustíveis devido a falta de dólares para importar petróleo e pelas dificuldades logísticas de um país pobre, sem saída para o mar e totalmente dependente de combustível importado. Para piorar, a guerra, do Irã, não, da Ucrânia em 2022, ainda ajudou a bagunçar os preços e o mercado internacional.

Ele explicou que abastecer podia virar uma operação de vários dias. Você deixava o carro na fila do posto e, dependendo da situação, voltava um ou dois dias depois para tentar conseguir gasolina. Durante o trajeto passamos por postos com filas enormes de veículos esperando combustível. Eu até pensei em tirar algumas fotos, mas ele recomendou que não fizesse isso porque a polícia poderia implicar com um estrangeiro fotografando aquelas filas.

Guarde também essa informação sobre a polícia implicar comigo. Ela ainda vai ser importante.

Segundo ele, quem não quisesse esperar precisava recorrer ao mercado paralelo, onde o a gasolina vinha do Congo (sim, do CONGO!) e o litro podia chegar ao equivalente a uns 20 reais (4 dólares). Depois dessa conversa, comecei a olhar de maneira um pouco diferente para os 20 dólares que tinha pago pelo transfer. Talvez não fosse tão absurdo assim.

E finalmente entendi por que havia dois sujeitos no carro. Como ele não tinha conseguido combustível, pediu para um amigo fazer a corrida, mas fez questão de ir junto porque, segundo ele, achava importante que alguém que falasse inglês estivesse lá para receber o hóspede estrangeiro. Continuo achando que ele simplesmente rachou os 20 dólares com o amigo.

Mas tudo bem.

Ele estava no direito dele.

Saímos do aeroporto e eu estava preparado para encontrar um verdadeiro pandemônio. Afinal, eu tinha acabado de desembarcar no país mais pobre do mundo, estava esperando ruas destruídas, caos, carroça passando no meio da avenida, sei lá. Nada disso. Bujumbura parecia uma cidade africana relativamente normal. Carros, engarrafamentos, placas de propaganda, prédios de concreto, ruas asfaltadas, comércio, gente indo e voltando. Era, basicamente, uma grande cidade africana com quase um milhão de habitantes. Se ninguém tivesse me contado que eu estava em um dos países mais pobres do planeta, certamente eu não descobriria apenas olhando pela janela do carro. Mais uma vez, parecia só mais uma cidade grande africana.

No caminho, o rapaz fez a gentileza de parar em um banco que tinha um caixa eletrônico que sacava em dólares porque eu tinha comentado que meu estoque estava ficando baixo. Chegamos lá e havia três caixas eletrônicos. Dois não funcionavam. Obviamente, no único que funcionava havia uma fila imensa. Beleza. Ficamos esperando.

De repente começou uma confusão gigantesca do lado de fora do banco. Dois sujeitos desceram dos carros no meio da rua e começaram a discutir aos berros. Pararam o trânsito, começaram a gesticular, um gritava de um lado, outro gritava do outro e, como sempre acontece nessas situações, surgiu imediatamente uma multidão de curiosos para acompanhar o espetáculo. Entre trocas de “tua mãe não é homem”, “teu pai não é mulher” e outros insultos apareceu também um policial com um fuzil enorme pendurado na bandoleira. O puliça chegou gritando, apontando o dedo na cara dos dois e tentando colocar ordem naquela zona.

Só que ninguém parecia particularmente impressionado com o fuzil. Pelo contrário. A confusão que antes tinha dois, agora tinha três. Sim, um terceiro com um fuzil.

Os dois continuaram gritando, começaram os empurrões e, em determinado momento, um dos sujeitos simplesmente empurrou o policial. Sim. O cara empurrou um policial armado com um fuzil no meio de Bujumbura.

Nessa hora pensei:

“Pronto. Agora vai dar merda.”

Comecei discretamente a procurar um lugar onde pudesse me esconder para quando começassem os pipocos. Me abriguei atrás de uma mureta e esperei o pior. Só que, do nada — mas do nada mesmo —, a discussão acabou. Os três pararam de gritar, começaram a conversar normalmente, vieram os sorrisos, apertaram as mãos e pronto. O policial ainda foi para o meio da rua organizar o trânsito para os dois conseguirem tirar os carros dali.

Cinco minutos antes eu estava procurando onde me esconder de um possível tiroteio. Cinco minutos depois estava todo mundo sorrindo e indo embora como se nada tivesse acontecido.

Só mais uma terça-feira normal no Burundi.

Vivendo como os locais, sem dinheiro no país mais pobre do mundo

Depois desse show, finalmente chegou a minha vez de tentar sacar dinheiro. Eu ainda estava sem internet, mas lembrava vagamente que tinha uns 120 dólares disponíveis na conta da Wise. O caixa eletrônico também não inspirava muita confiança. Travava, demorava, parecia reiniciar sozinho e, a cada operação, eu ficava esperando para descobrir se sairia dinheiro ou se aquela geringonça simplesmente desistiria de viver.

Tentei sacar 120 dólares. Nada. Apareceu uma mensagem mandando entrar em contato com meu banco. Achei que talvez estivesse acima do limite e tentei 100. Nada de novo. Tentei 50. Mesma coisa. Sempre a mesma mensagem. Como dois dos três caixas eletrônicos daquele banco já estavam quebrados, concluí que aquele também devia estar funcionando só quando estava a fim. O problema é que as outras pessoas da fila conseguiam sacar normalmente.

Voltei para o carro, contei o que tinha acontecido e pedi para seguirmos para o hotel. No caminho, pedi para o rapaz compartilhar a internet do celular dele comigo porque queria conferir se aquelas tentativas de saque não tinham sido debitadas da minha conta. Foi aí que veio a bomba.

A WISE SIMPLESMENTE NÃO FUNCIONA NO BURUNDI.

Por quê?

Sabe Deus.

Entrei no site da Wise e descobri que o Burundi estava na lista de lugares onde a empresa não oferecia seus serviços. O mais legal era a lista de países… Irã, Coreia do Norte, Cuba e… Burundi. Sabe Deus por que. Era por isso que o caixa eletrônico recusava todas as operações. E foi nessa hora que eu comecei a me desesperar.

Quando você começa a viajar, leva vinte cartões diferentes, dinheiro em espécie escondido em três lugares, reserva da reserva e provavelmente algum ouro para negociar sua fuga em caso de golpe de Estado. Só que, com o tempo, você vai relaxando, baixando a guarda e simplificando tudo. E aí mora o perigo. Eu tinha chegado ao ponto de viajar basicamente com meu cartão Wise e um pouco de dinheiro vivo para emergências.

Pois bem.

A emergência tinha acabado de chegar.

O dinheiro que eu tinha na mochila não dava nem para pagar o hotel. Quem dirá comida, transporte e todo o resto que eu ainda precisaria durante os dias no Burundi.

Nessa hora eu realmente me desesperei. Comecei a me perguntar o que seria da minha vida naquele país sem conseguir usar meu dinheiro.

Foi então que lembrei de uma coisa: eu tinha trazido outro cartão de crédito do Brasil. Era um Visa do Santander que eu tinha jogado na mochila basicamente para testar se ele funcionava mesmo fora do país. Nem era para ser meu cartão principal. Na hora de pagar o hotel, puxei o cartão, coloquei na maquininha e…

PASSOU.

Mano, eu dei um grito tão alto que o hotel inteiro parou para olhar para mim. Literalmente. Dei um pulo como se o Brasil tivesse acabado de ganhar uma Copa do Mundo. O pessoal começou a perguntar o que tinha acontecido e eu só conseguia apontar para a maquininha e gritar:

— PASSOU!!! PASSOU!!! PASSSOUUUUUUU!!!

Pode parecer uma reação completamente desproporcional por causa de um cartão de crédito, mas, naquele momento, aquilo resolveu a minha vida. O dinheiro que eu tinha em espécie não dava nem para pagar o hotel. Se aquele cartão também fosse recusado, eu sinceramente não sabia nem onde iria dormir, quem dirá como pagaria comida, transporte e o resto da viagem.

Depois desse perrengue, guardei o Wise e passei a usar exclusivamente o Santander. Cê tá louco. Não queria nem olhar para o cartão da Wise novamente até eu ir embora do Burundi.

Só depois me veio uma dúvida: se a Wise não funcionava no Burundi, como diabos eu tinha conseguido pagar a taxa do visto no aeroporto?

Sim. Eu falei para você guardar essa informação.

Eu tinha passado exatamente o cartão da Wise para pagar os 40 dólares do visto e a transação aparentemente tinha sido aprovada. Até hoje não sei explicar direito o que aconteceu. Talvez o pagamento tenha sido processado por alguma estrutura internacional ou existisse alguma particularidade naquela maquininha do aeroporto, embora no comprovante aparecesse algo relacionado ao Bank of Burundi. O fato é que o pagamento do visto funcionou e, pouco depois, o mesmo cartão não servia nem para sacar dinheiro no caixa eletrônico.

Sim, assim como em Ruanda, eles AMAM Skol no Burundi

Por via das dúvidas, guardei o comprovante do visto como se fosse um documento diplomático. Vai que, na hora de sair do país, alguém resolvesse descobrir que aquele pagamento não tinha sido processado direito e viesse me cobrar os 40 dólares novamente. Depois de tudo que já tinha acontecido nas primeiras horas no Burundi, eu não estava disposto a testar a sorte.

E os problemas acabaram de começar

Como eu não sabia o que seria da minha vida dali para frente — se o Wise continuaria bloqueado e até quando meu glorioso cartão reserva do Santander continuaria salvando minha pele —, entrei imediatamente no modo contenção de gastos. A missão agora era simples: sobreviver financeiramente até sair do Burundi, chegar a outro país e descobrir se meu Wise voltaria a funcionar.

Eu tinha combinado com um guia um passeio por Bujumbura, uma visita a uma plantação de chá nos arredores da cidade e ainda uma caminhada por uma área de floresta. Depois fui descobrir que algumas regiões do Burundi, principalmente próximas à fronteira com a República Democrática do Congo, têm alertas de segurança por causa da atuação e das incursões de grupos armados vindos do Congo. Dependendo da área, existe inclusive risco de ataques e sequestros. Como eu não posso morrer, a floresta obviamente saiu do roteiro. Ficariam apenas a plantação de chá e o passeio pela cidade.

No fim, nem isso aconteceu. Com a incerteza sobre o dinheiro, cancelei tudo. Não fazia sentido gastar o que fosse com guia e passeio sem saber se, dois dias depois, eu teria como pagar um prato de comida.

Mosquiteiro, repelente e a vontade de continuar vivo

Depois do check-in, fui para o quarto e reparei que minha cama tinha um belíssimo mosquiteiro. Fui perguntar na recepção se aquilo era por causa de muriçoca, pernilongo ou qualquer outra coisa do gênero. O sujeito respondeu com a maior naturalidade do mundo que, como o hotel ficava praticamente às margens do Lago Tanganica, era melhor dormir com o mosquiteiro por causa da malária.

Assim.

Falou “malária” como quem recomenda colocar um casaco porque de noite pode esfriar.

— O QUÊ?! AQUI TEM MALÁRIA?

— Tem, mas não precisa se preocupar muito. Não é tão sério assim.

Como assim “não é tão sério assim”, mano?

A partir daquele momento, eu praticamente transformei o mosquiteiro em minha residência oficial. Passava o maior tempo possível dentro daquela fortaleza e tomava banho de repelente de quatro em quatro horas. Podia faltar dinheiro, podia faltar gasolina, podia dar problema com cartão.

Agora malária também?

Tá louco.

Eu não posso morrer. Minha esposa já deixou claro que se eu morrer, ela me mata. Então é melhor eu evitar.

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