Como eu estava sem lenço nem documento — e, principalmente, sem dinheiro para ficar inventando passeio caro —, resolvi sair sozinho para dar uma volta por Bujumbura. A pé, óbvio. Antes mesmo de deixar o hotel, perguntei ao recepcionista se era perigoso andar pela cidade, se tinha muito roubo, assalto ou coisa do tipo.

A resposta dele foi maravilhosa:
— O único perigo aqui é a polícia.
Segundo ele, havia muito policial pelas ruas e eu deveria tomar cuidado principalmente ao tirar fotos. Se algum deles visse um gringo fotografando, poderia aparecer dizendo que eu tinha fotografado alguma coisa proibida e tentar arrancar algum dinheiro. Mas ele me tranquilizou: se acontecesse, bastava dar uma pequena quantia e o problema estaria resolvido.
Dez reais, mano.
O esquema de corrupção aparentemente tinha sido adaptado ao poder aquisitivo do país.

Porquinho-da-índia, crocodilo e o pior Discovery Channel do mundo
Minha primeira parada foi em um zoológico que ficava praticamente ao lado do hotel. “Zoológico”, aliás, é uma maneira bastante generosa de descrever aquilo. Estava mais para um depósito de animais. Logo que cheguei, encontrei um francês passando a mão em um leopardo como quem acaricia um gatinho. O guia perguntou se eu também queria entrar e fazer carinho no bicho. Custaria incríveis cinco reais.

Não quis. E não foi pelos cinco reais. Achei simplesmente errado ficar tratando um animal silvestre daquele jeito para turista tirar foto.

Pouco depois, o guia apareceu com um porquinho-da-índia.
- Olha que bonitinho, vocês criam aqui – perguntei
- Não, é para alimentar o leopardo. Ele gosta de sangue fresco
E VRAU. Jogou o pobre do porquinho dentro da jaula.
O bichinho bateu no chão, olhou para um lado, olhou para o outro e imediatamente percebeu que aquele definitivamente não era o melhor dia da vida dele. Tentou sair correndo desesperado, naquele passinho frenético de porquinho-da-índia, como se ainda existisse alguma possibilidade de elaborar um plano de fuga. Acho que não conseguiu andar nem dez centímetros.

VRAU de novo.
Já estava na boca do leopardo.
Lembre, o francês tava passando a mão no gatinho tinha nem 10 minutos atrás.
Segundo o guia, eles compravam vários porquinhos na feira justamente para alimentar o leopardo.
O que mais me chamou a atenção foi o que aconteceu depois: antes de comer, o leopardo começou a retirar os pelos do porquinho com uma habilidade impressionante. Fazia aquilo com uma precisão absurda, arrancando os pelos sem praticamente danificar a pele. Por alguns segundos, esqueci até da bizarrice da situação e fiquei só olhando para aquilo pensando: “Rapaz… como esse bicho consegue fazer isso?”. Só depois que ele “limpa” o porquinho que ele come.

Depois fomos conhecer os crocodilos. E foi aí que eu percebi que o guia tinha uma relação bastante particular com o conceito de segurança no trabalho.
Ele simplesmente abriu o recinto de um deles, entrou, caminhou tranquilamente até o crocodilo, chegou por trás e começou a puxar o rabo do bicho.
Sim.
Puxar.
O rabo.
De um crocodilo.

Eu fiquei olhando para aquilo tentando entender se estava diante de um profundo conhecedor do comportamento dos crocodilos ou apenas de um sujeito que tinha sobrevivido tempo suficiente fazendo merda para começar a acreditar que era imortal.
— Viu? Ele não faz nada. Só ataca quando está dentro d’água.
Não fazia a menor ideia de onde ele tinha tirado aquela teoria. Talvez de um livro. Talvez de décadas trabalhando com crocodilos. Talvez das vozes da cabeça dele. De qualquer maneira, eu certamente não pretendia entrar naquela jaula para colaborar com o método científico.
Só que o homem estava disposto a defender sua tese.
Para não sair de mentiroso, levou a gente até outro recinto onde, dessa vez, havia um crocodilo dentro d’água. Eu pensei: “Pronto. Agora ele vai mostrar de longe como o comportamento muda.”
Claro que não.
Pegou um pedaço de pau, chegou perto da água e começou a cutucar o crocodilo.
— Agora vocês vão ver como ele reage dentro d´água, como é diferente.
Meu irmão, eu não queria ver como ele reagia. Eu estava perfeitamente satisfeito em passar o resto da minha vida sem descobrir como um crocodilo reage quando um sujeito fica enchendo o saco dele com um pedaço de pau. Mas o guia parecia empenhado em transformar aquela visita ao zoológico em um episódio do Discovery Channel produzido com um orçamento de oito reais e sem qualquer preocupação com a sobrevivência do apresentador.
VRAU!! VRAU!!! VRAU!!!

Começou dar na cabeça do crocodilo e crocodilo doido querendo arrancar o braço do guia. Viva o Burundi.
A visita continuou até chegarmos ao recinto de um antílope. O pobre do animal estava quieto atrás de uns arbustos quando o guia perguntou:
— Quer ver como o antílope corre?
Antes que alguém pudesse responder…
VRAU!!! VRAU!! VRAU!!!
Deu três cipoadas no pobre do antípole que, ÓBVIO, saiu correndo desesperado.

Uma descoberta científica absolutamente revolucionária. Não podemos reclamar do método científico do sujeito.
Ainda vimos alguns chimpanzés e cobras, que o guia, mantendo o padrão de segurança estabelecido durante toda a visita, simplesmente ia tirando e colocando no pescoço das crianças. A essa altura eu já nem me surpreendia mais. Depois de ver porquinho-da-índia virando almoço, sujeito puxando rabo de crocodilo e antílope tomando carreira de pedaço de pau, uma cobra no pescoço de uma criança parecia quase uma atividade recreativa perfeitamente normal.


Enfim, depois daquela forma, digamos, heterodoxa de lidar com os animais, achei que já tinha visto o suficiente do zoológico de Bujumbura. Estava na hora de voltar para um ambiente teoricamente mais previsível e seguro.

A rua.
Fui dar uma volta pela cidade.

A gravíssima crise diplomática da rua que eu fotografei – conhecendo os homens da lei

Ainda consegui entrar na catedral da cidade. O prédio me chamou a atenção porque tinha aquele teto MUITO alto típico de catedral, mas, fora isso, o interior era de uma simplicidade impressionante. Não lembro de ver grandes pinturas religiosas, altares ornamentados, imagens espalhadas ou praticamente qualquer decoração. Era tudo muito simples. Não sei se aquilo tinha alguma explicação específica ligada à própria igreja, mas, naquele momento, foi impossível não relacionar aquela austeridade com a pobreza que eu estava começando a enxergar no país.

Saí da catedral, voltei para a rua e imediatamente lembrei do aviso do recepcionista:
“Cuidado com as fotos.”

Já tinham me dado exatamente o mesmo aviso quando estive no Saara Ocidental. Lá, no começo, eu andava meio escondendo a câmera, olhando para os lados antes de fotografar, como se estivesse registrando instalações nucleares secretas. Depois percebi que ninguém estava nem aí e terminei andando normalmente, tirando foto de tudo, sem policial nenhum aparecer para encher meu saco.
Imaginei que no Burundi seria a mesma coisa.

Primeira foto.
Tudo tranquilo.
Segunda foto.

MANO.
Do nada apareceu um sujeito com um fuzil enorme perguntando o que eu estava fazendo.
SEGUNDA FOTO!
Nem deu tempo de eu desenvolver confiança.

Expliquei que era turista, que estava simplesmente fotografando a rua e que não tinha nada demais ali. Para mim, pelo menos, era, literalmente, uma rua. Só que ele começou a dizer que eu não podia tirar fotos naquele lugar. O problema é que o sujeito não falava absolutamente nada de inglês, eu não falava francês e nossa conversa rapidamente atingiu aquele nível internacional de comunicação baseado em apontar para coisas e repetir as mesmas palavras cada vez mais alto.
Então ele começou a me conduzir para o outro lado da rua.

Na hora me veio a lembrança da Argélia e pensei (clique aqui para ler a história):
“Pronto. Lá vou eu para uma delegacia.”
Mas não. Ele só estava me levando até outro policial que falava inglês. O problema é que, nesse processo, apareceu mais um e, quando percebi, já havia três policiais em cima de mim discutindo a gravíssima questão diplomática das duas fotografias que eu tinha acabado de tirar.

E existe uma coisa que aprendi viajando: quando aparece polícia querendo complicar alguma coisa, é melhor tentar resolver enquanto ainda tem pouca gente envolvida. Porque, a cada novo sujeito que chega para “ajudar”, aumenta o número de opiniões, de autoridades e o orçamento necessário para encerrar a reunião.
O policial que falava inglês começou a perguntar quem tinha me dado permissão para tirar fotos, que aquilo não podia, que eu estava fotografando um lugar proibido e blá-blá-blá. O problema é que o inglês dele também era bastante limitado, então ninguém conseguia explicar direito o que exatamente eu tinha fotografado de tão sensível. Para mim continuava sendo uma rua.

O pior é que, em algum momento, meu celular desbloqueado foi parar na mão dele. E o sujeito começou a mexer nas minhas coisas. Passava foto, abria coisa, fuçava daqui, fuçava dali. Aquilo começou a me irritar de verdade. Falei que não tinha feito nada de errado, peguei meu celular, virei as costas e comecei a ir embora.
Mano…
O sujeito me agarrou pelo braço.
Aí apontou para o carro da polícia e fez menção de que iria me colocar lá dentro.
Pronto. Acabou minha disposição para discutir princípios jurídicos no Burundi.

Lembrei imediatamente do conselho do recepcionista, tirei o equivalente a uns 30 reais e distribuí democraticamente: dez para cada um. Problema resolvido. Instantaneamente. Ninguém mais queria saber quem tinha autorizado fotografia, o que eu tinha fotografado ou qual segredo de Estado burundinês aparecia naquela rua. Peguei minhas coisas e fui embora.
E sabe o que mais me irritou nessa história? Se o sujeito tivesse chegado logo no começo e falado “me dá dez reais”, eu provavelmente teria dado dez reais e economizado meia hora da minha vida. Mas não. Precisou montar toda uma operação policial, juntar três homens, examinar meu celular, ameaçar me colocar no carro e realizar uma pequena reunião de cúpula para conseguir dez reais de cada.
Depois disso, sinceramente, eu desencanei do Burundi.

Já tinha acontecido chatice demais em pouco tempo. Problema com cartão, preocupação com dinheiro, malária, zoológico maluco e agora polícia me arrancando dinheiro por causa de duas fotos. Resolvi voltar para o hotel e basicamente esperar a hora de ir embora. Tanto que quase não fotografei e praticamente não gravei vídeos na cidade.
E o pior é que, no caminho de volta, cruzei com vários policiais. E, todos, absolutamente todos, me olhavam com a cara de:
“Vai. Pisa com o pé esquerdo no chão. Só pisa. Quero ver.”
Sério. Enchi o saco muito rápido daquilo.

Quando eu achei que já tinha visto de tudo no Burundi…
Não foi uma experiência muito agradável andar pelas ruas de Bujumbura de maneira geral. Senti uma diferença em relação a muitos outros lugares da África por onde passei. Normalmente, quando percebem que você é estrangeiro, as pessoas ficam curiosas, perguntam de onde você veio e puxam conversa. Quando você responde “Brasil”, aí pronto: aparece futebol, seleção brasileira, jogador, alguma história e mais vinte perguntas.
No Burundi eu não senti muito isso. E não foi só por causa da polícia. Tive algumas interações com pessoas que achei bastante secas, rudes ou simplesmente pouco receptivas. Entre os países africanos que visitei foi aquele em que eu me senti menos acolhido.
Talvez eu tenha dado azar. Talvez já estivesse de saco cheio e isso tenha contaminado minha percepção. Provavelmente teve um pouco dos dois.
Mas minha passagem pelo Burundi, definitivamente, não estava deixando saudade.

No outro dia resolvi ficar só pelos arredores do hotel. Não estava nem um pouco a fim de encontrar outro policial e passar novamente por meia hora de estresse por causa de dez reais. Fui então dar uma volta às margens do Lago Tanganica, que é uma das coisas mais importantes do Burundi. O país não tem saída para o mar, então o lago funciona quase como seu grande corredor para o exterior, conectando o Burundi a Tanzânia, Zâmbia e República Democrática do Congo. Além disso, é um negócio colossal: o Tanganica é um dos maiores e mais profundos lagos do mundo e concentra uma biodiversidade enorme.
A região do lago perto do hotel estava meio deserta. Resolvi tirar algumas fotos, fazer umas imagens e sair logo dali. Além da paranoia com a polícia, agora eu também estava com a malária instalada na cabeça. Levantei meu pau de selfie de três metros para conseguir uma imagem mais aberta e…
DO NADA.
Saiu um sujeito do meio do mato
SÓ DE CUECA.
Mano.

Eu não fazia ideia de onde aquele homem tinha vindo. Não sabia se estava tomando banho no lago, dormindo no mato, morava ali ou tinha simplesmente sido materializado pelo Burundi para acrescentar mais um acontecimento inexplicável à minha viagem.
Tava feita a sensação de que, no Burundi, tudo pode acontecer.
O cara parecia meio alterado e ficou me encarando. Eu fiquei encarando ele.
Ninguém falava nada.
Ele provavelmente estava pensando: “Quem é esse maluco com uma vara de três metros?”
E eu: “Quem é esse maluco de cueca que acabou de sair do mato olhando para minha vara de três metros?”

Ficamos naquele impasse por um tempo. Pelo menos havia uma vantagem estratégica bastante evidente: como o sujeito estava só de cueca, dava para perceber que não estava armado. Se a diplomacia da encarada fracassasse completamente e a situação terminasse na porrada, eu pelo menos não estava em desvantagem.
No fim, não aconteceu absolutamente nada. Cada um seguiu para um lado, ambos provavelmente convencidos de que tinham acabado de encontrar o sujeito mais estranho daquela margem do Lago Tanganica.
Aí já deu, mano.
Uma hora era polícia tentando me arrancar dinheiro. Outra hora era um maluco de cueca surgindo do mato. Eu oficialmente desisti de procurar coisas para fazer no Burundi. Já estava tendo emoção suficiente sem procurar nenhuma.

No Burundi, sobreviver também exigia preparo físico
Voltei para o hotel e o recepcionista perguntou onde eu tinha ido.
— Fui dar uma volta no lago.
Ele respondeu com a maior tranquilidade:
— Ah, legal. Você viu os hipopótamos?
…
— COMO ASSIM TEM HIPOPÓTAMO NO LAGO E VOCÊ NÃO ME FALA NADA?!
Para quem não sabe, hipopótamo não é aquele porquinho gigante simpático que fica boiando nos documentários. É um animal extremamente territorial e perigoso, especialmente quando alguém fica entre ele e a água. E eu tinha acabado de passar um tempão caminhando sozinho na margem do lago, no meio do mato, preocupado com mosquito e homem de cueca.

O recepcionista tentou me tranquilizar:
— Ah, cara, não precisa ter medo. Se um correr atrás de você, é só pular para o lado. Ele é tão grande que não consegue virar rápido para te pegar.
Mano…
No dia anterior o conselho tinha sido basicamente: “Malária? Relaxa.”
Agora era: “Hipopótamo? É só dar uma de Ronaldinho Bruxo e meter um drible”
O plano oficial de segurança do hotel aparentemente consistia em repelente, mosquiteiro e, em caso de ataque de hipopótamo, incorporar a Daiane dos Santos e torcer para dar certo.
Eu só queria sobreviver até meu voo.
Só dei risada, voltei para o quarto, tomei banho e comecei a me preparar para ir embora. Naquela altura, meu objetivo no Burundi já não era conhecer mais nada. Era chegar ao aeroporto vivo, entrar no avião e sair do país sem nenhum novo acontecimento digno de entrar neste relato.

O último perrengue antes de conseguir fugir do Burundi
Cheguei ao aeroporto e encontrei aquele caos. A cada controle, o oficial pegava meu passaporte e começava uma verdadeira auditoria. Folheava página por página, voltava, olhava para mim, olhava para a foto, folheava novamente, examinava um carimbo, depois outro. Eu ficava ali esperando enquanto o cara parecia procurar desesperadamente uma vírgula errada que justificasse mais meia hora de conversa comigo e dez reais a menos.
Mas não tinha.

Passava por um oficial e começava tudo de novo no seguinte. Passaporte. Folheada. Cara do passaporte. Minha cara. Carimbo. Outra folheada. Minha cara novamente.
Depois de vencer todas as fases daquele videogame burocrático, finalmente consegui chegar à área de embarque.
E o aeroporto era bem precário. Tinha buraco no teto, estrutura bastante simples e, para completar, não tinha ar-condicionado naquela área. Era um calor dos infernos. Eu já estava cansado, estressado, de saco cheio e ainda teria que ficar horas sentado naquele forno esperando o voo.

Aí fiz uma coisa que nunca tinha feito na vida: peguei os poucos dólares que ainda me restavam e PAGUEI para entrar numa sala VIP.
Não foi pela comida.
Não foi pela bebida.
Não foi pelo conforto.
Foi pelo ar-condicionado.
Normalmente tenho acesso a salas VIP pelo cartão e jamais me passaria pela cabeça gastar meus últimos dólares para entrar em uma. Mas naquele momento eu olhei para aquele aeroporto, olhei para o calor, pensei em tudo que tinha acontecido nos últimos dois dias e concluí:

“Chega. Eu mereço um ar-condicionado.”
Era estresse demais para uma viagem só.
Tudo o que é ruim de viver é bom de contar
Depois de todos esses perrengues — cartão que não funcionava, medo de malária, polícia tentando arrancar dinheiro, hipopótamo que eu só descobri que existia depois de caminhar tranquilamente na beira do lago — você deve estar imaginando que eu detestei a viagem ao Burundi.
Cara, pelo contrário.
Primeiro porque vale aquela máxima atribuída ao Ariano Suassuna: tudo que é bom de viver é ruim de contar, e tudo que é ruim de viver é bom de contar. E, nesse quesito, o Burundi foi extremamente generoso comigo. Em dois dias aconteceu coisa suficiente para escrever este texto inteiro.
Mas, acima de tudo, visitar o Burundi acabou sendo importante para mim por outro motivo: fez eu dar mais valor à vida que tenho. Anos atrás, quando fui estudar espanhol na República Dominicana, havia um casal de suecos estudando com a gente. Um dia, a sueca me falou que tava gostando de morar por um tempo na República Dominicana porque os pequenos perrengues que enfrentava ali faziam com que ela valorizasse mais a vida que tinha na Suécia.
Na época pensei: “República Dominicana, bicho?”
Às vezes a República Dominicana fica mais rica que o Brasil.

Para mim, brasileiro, aquilo era só realidade. Mas depois do Burundi eu finalmente entendi o que ela queria dizer.
A experiência de visitar um dos países mais pobres do mundo me serviu principalmente para três coisas.
A primeira foi perceber que até a pobreza extrema pode ser diferente da imagem que construímos na cabeça. Eu esperava chegar ao “país mais pobre do mundo” e encontrar algum cenário quase pós-apocalíptico. Não encontrei. Em Bujumbura havia internet móvel, eletricidade, ruas asfaltadas, carros, bancos, hotéis, restaurantes, supermercados e gente levando uma vida absolutamente normal dentro das condições que tinha. Tirando a questão da polícia e algumas particularidades, em vários momentos eu poderia perfeitamente imaginar que estava andando por alguma cidade do interior do Maranhão.
Claro que existe uma diferença importante: eu estava justamente em Bujumbura, a principal cidade e centro econômico do país. E estava comparando com cidades de um dos estados mais pobres do Brasil. Ainda assim, achei interessante perceber que a realidade era muito menos cinematográfica do que a expressão “país mais pobre do mundo” fazia minha cabeça imaginar. Pobreza extrema não significa necessariamente caos absoluto.
A segunda coisa foi finalmente entender aquela sueca da República Dominicana.
O Burundi me fez valorizar muito mais a vida que tenho no Brasil. A gente reclama — e muitas vezes com razão — de segurança, infraestrutura, serviços públicos, salário, preço das coisas e mais uma infinidade de problemas. Mas viajar por lugares muito mais pobres ajuda a colocar algumas dessas reclamações em perspectiva. O Brasil tem problemas enormes, mas também oferece uma estrutura e uma qualidade de vida que muitas vezes a gente só percebe quando sai dele.

Eu já tinha sentido algo parecido quando visitei o Haiti, mas no Burundi essa sensação foi ainda mais forte. Tanto que comprei um chaveiro do país. A ideia é simples: toda vez que eu estiver reclamando demais de alguma coisa, posso olhar para ele e lembrar:
“Calma. Poderia ser pior. Você poderia estar novamente discutindo com três policiais no Burundi por causa de uma foto. Ou dormindo em um mosquiteiro. Ou tentando dar um duplo twist carpado para fugir de um hipopótamo”
E, por último, cara…
Eu visitei um dos países mais pobres do mundo.
E consegui fazer minha viagem.
Fiquei em hotel, consegui me comunicar mesmo sem falar francês ou kirundi, usei cartão de crédito, caminhei pela cidade, visitei lugares, resolvi problemas e, apesar de todos os perrengues, saí de lá inteiro e com história para contar.
De certa forma, o Burundi virou minha prova de fogo. Depois dele, comecei a pensar que dificilmente encontraria uma viagem muito mais complicada.

Claro que essa é exatamente a frase que você não deveria dizer quando ainda pretende continuar viajando pelo mundo.
Mas, naquele momento, eu saí do Burundi pensando:
“Pronto. Se eu consegui viajar aqui, agora eu consigo viajar para qualquer lugar.”
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