Então havia chegado a hora do último país do meu giro pela África: o Quênia. E, depois de tudo que tinha acontecido nas últimas semanas, confesso que eu já estava começando a sentir aquele misto de cansaço com sensação de missão cumprida. Tinha passado por Angola, Etiópia, Seychelles, Ruanda, Burundi e agora faltava apenas uma última parada antes de voltar para casa: Nairóbi.

E por que o Quênia entrou no roteiro? Na verdade, de uma maneira bastante simples. Quando fui comprar as passagens para a África, descobri que conseguia montar o itinerário chegando por Luanda e voltando para o Brasil por Nairóbi. Na mesma hora pensei: por que não? Em vez de simplesmente usar a cidade como ponto de saída do continente, poderia ficar alguns dias e conhecer mais um país.

E, nesse caso, não era qualquer país. O Quênia é uma das principais economias da África Oriental, Nairóbi é uma das cidades mais importantes do continente e funciona como uma espécie de centro econômico, diplomático e tecnológico da região. É ali, por exemplo, que ficam as sedes africanas de várias organizações internacionais e dois dos principais escritórios da ONU fora de Nova York e Genebra. Então era uma cidade que eu realmente tinha curiosidade de conhecer, até porque representava uma África bastante diferente de alguns dos lugares pelos quais eu tinha acabado de passar.

E, assim, depois de Bujumbura no Burundi, Nairóbi tinha virado praticamente meu porto seguro. A Nova York africana. Eu olhava para a cidade e pensava: “Uber! Internet boa! Todo mundo fala inglês! Fast-food! Cartão de crédito! Civilização!”. Coisas absolutamente banais começaram a parecer artigos de luxo. Depois de passar dois dias preocupado com polícia querendo dinheiro, falta de gasolina, malária, cartão que não funcionava e hipopótamo que aparentemente você precisava driblar, eu não estava exigindo muita coisa da vida.

Se tivesse um Uber me esperando, internet funcionando e algum lugar onde eu pudesse comer um hambúrguer em paz, o Quênia já começaria com cinco estrelas.

Chegando ao Quênia: O maravilhoso dia em que absolutamente nada deu errado
A primeira coisa que me impressionou quando cheguei a Nairóbi foi o frio.

Rapaz… como é frio naquela cidade.

Aquilo não fazia o menor sentido na minha cabeça. Nairóbi fica praticamente em cima da Linha do Equador, quase na mesma latitude de Macapá. Eu tinha acabado de passar por Bujumbura, onde estava torrando de calor. Algumas horas depois, desembarquei no Quênia e estava procurando casaco.

Eu estava na África. Na Linha do Equador. E com frio.

Depois fui descobrir a explicação: Nairóbi fica a quase 1.800 metros de altitude. É mais alta que Brasília e, por causa disso, tem temperaturas muito mais amenas do que aquela imagem de calor africano que automaticamente aparece na nossa cabeça. Dependendo da época do ano e do horário, a temperatura pode cair bastante, principalmente à noite e de madrugada.

Desci no aeroporto, peguei minhas coisas e fiz uma coisa que, depois do Burundi, me proporcionou uma felicidade completamente desproporcional:

Pedi um Uber.
Meu Deus, que saudade do Uber.

Você abre o aplicativo, aparece um carrinho, aparece o preço, aparece o nome do sujeito, você entra e ele te leva para onde você pediu. Olha que tecnologia maravilhosa! Não precisava negociar preço, procurar motorista, perguntar na recepção, descobrir se tinha gasolina ou entrar num carro com dois sujeitos e acompanhar pelo GPS para conferir se o meu suposto sequestro estava seguindo na direção correta.

Segui para o apartamento onde ficaria hospedado e não aconteceu absolutamente nada. Nada. Cheguei, entrei, guardei minhas coisas e pronto.

Maravilhoso.

Depois de tantos acontecimentos inexplicáveis nos dias anteriores, eu estava começando a descobrir o prazer de uma viagem em que as coisas simplesmente acontecem como deveriam acontecer.

Meu primeiro dia em Nairóbi, inclusive, foi praticamente dedicado a não fazer turismo. Eu já estava viajando havia bastante tempo e começava a acumular aquela quantidade de pequenas pendências que a gente vai empurrando quando está na estrada. Conta para pagar, e-mail para responder, mensagem acumulada, coisa do trabalho para olhar, roupa para organizar, fotos e vídeos espalhados pelo celular e aquela mochila que, depois de semanas de viagem, já tinha deixado de obedecer a qualquer sistema minimamente racional de organização.

Então fui apenas ao supermercado comprar algumas coisas para comer e voltei para o apartamento. Nada de museu, safári, girafa ou atração turística. Passei o restante do dia colocando minha vida brasileira minimamente em ordem.

Pode parecer desperdício passar um dia inteiro em Nairóbi pagando boleto e respondendo e-mail, mas chega uma hora em uma viagem longa em que você precisa parar. Não adianta atravessar metade da África se, quando voltar para casa, descobrir que cortaram sua internet porque você esqueceu de pagar a conta.

Turismo também tem dessas coisas.

Visitando o museu nacional do Quênia e fóssil importantíssimo que parece nome de impressora
No outro dia resolvi visitar um dos lugares que eu estava mais aguardando conhecer em Nairóbi: o Museu Nacional do Quênia. E o lugar é interessante justamente porque funciona quase como uma grande introdução ao país. Tem exposições sobre a história do Quênia, desde o período colonial até a independência, sobre os diferentes povos e culturas que formam o país e uma enorme coleção (sim, ENORME) dedicada à fauna queniana, com aves, mamíferos e outros animais que ajudam a entender a biodiversidade absurda dessa parte da África. É o tipo de museu que eu esperava encontrar na Etiópia. Mas existe uma seção que, para mim, era disparada a mais interessante: a dedicada às origens da humanidade.

Sim, porque o Quênia, junto com a Etiópia e a Tanzânia, é um dos lugares mais importantes do planeta para achados arqueológicos referentes a evolução humana. Foi nessa região da África Oriental que apareceram alguns dos fósseis mais importantes já encontrados dos nossos ancestrais e parentes distantes. A região do Lago Turkana, no norte do Quênia, por exemplo, virou praticamente uma mina de ouro da paleoantropologia, com descobertas de diferentes espécies de hominídeos que viveram ali ao longo de milhões de anos.

E o Quênia também tem, digamos assim, a sua própria Lucy.

É o Turkana Boy, um Homo erectus encontrado em 1984 perto do Lago Turkana e que viveu aproximadamente 1,6 milhão de anos atrás. Apesar do nome “Boy”, não era uma criancinha: as análises dos dentes indicam que ele provavelmente tinha uns oito ou nove anos quando morreu e já media cerca de 1,60 metro. O mais impressionante, porém, é o estado do esqueleto. Estamos falando de um dos esqueletos de humanos antigos mais completos já encontrados. Graças a ele, os cientistas conseguiram entender muito melhor como era o corpo do Homo erectus: pernas relativamente longas, braços proporcionalmente mais curtos e uma anatomia já muito mais parecida com a nossa do que com a dos hominídeos mais antigos. O Homo erectus também é especialmente importante na nossa história evolutiva porque foi a primeira espécie humana conhecida a se espalhar amplamente para fora da África.

Ou seja: o rapaz é importante para diabo!

Só que praticamente ninguém conhece o coitado.

Pergunte para uma pessoa minimamente interessada em evolução humana quem é Lucy e existe uma boa chance de ela saber. Lucy é aquela famosa Australopithecus afarensis encontrada na Etiópia, com cerca de 3,2 milhões de anos, cujo esqueleto ajudou enormemente os cientistas a entender como nossos ancestrais caminhavam sobre duas pernas. Quando estive em Adis Abeba, fui ao Museu Nacional da Etiópia justamente para conhecê-la.

Agora pergunte:

— Você conhece o KNM-WT 15000?

Parece nome de impressora.

E é exatamente assim que o pobre Turkana Boy aparece nos registros científicos: KNM-WT 15000. A sigla vem da catalogação do fóssil: KNM é Kenya National Museums, WT se refere a West Turkana e 15000 é o número atribuído ao espécime. Cientificamente, perfeito. Para criar uma celebridade internacional da paleoantropologia, peśsimo.

E aqui eu tenho uma teoria absolutamente sem qualquer rigor científico: Lucy ganhou a disputa no marketing.

Começa pelo nome. Quando o esqueleto de Lucy foi encontrado na Etiópia, em 1974, os pesquisadores estavam comemorando a descoberta enquanto tocava “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles. Pronto. O fóssil ganhou o apelido de Lucy. Curto, simpático, fácil de lembrar e ainda associado a uma das bandas mais famosas da história.

O Quênia tinha tudo para responder à altura. Tinha um dos esqueletos mais completos de um Homo erectus já encontrado, um sujeito que viveu 1,6 milhão de anos atrás e que ajudou enormemente a entender uma das espécies mais importantes da evolução humana.

E chamou o cidadão de KNM-WT 15000. Parece nome de cyborg.

Aí não dá, Quênia.

É verdade que ele também ganhou o apelido muito mais simpático de Turkana Boy. Mas o estrago já estava feito. Lucy é Lucy. Você vai ao Museu Nacional da Etiópia e fala: “Quero ver a Lucy.” Todo mundo sabe imediatamente de quem você está falando. No Quênia, eu estava indo conhecer um sujeito que, dependendo da placa que aparecesse na minha frente, poderia ser Turkana Boy, Homo erectus ou KNM-WT 15000.

Mas, como atração de museu?

Desculpa, KNM-WT 15000.

Lucy meteu uma goleada no marketing.

Quando finalmente cheguei perto do Turkana Boy, já fui com as expectativas devidamente controladas porque sabia que aqueles não eram os ossos originais do KNM-WT 15000. O que fica exposto ao público é uma réplica extremamente fiel. O esqueleto verdadeiro fica guardado em uma sala-forte do Museu Nacional do Quênia e o acesso é extremamente restrito.

E faz todo sentido. Estamos falando de um esqueleto com cerca de 1,6 milhão de anos e de um dos achados mais importantes da história da paleoantropologia. Não dá para deixar um negócio desses montado no meio do museu esperando algum doidinho tropeçar, cair em cima do Homo erectus e destruir em três segundos o que a natureza levou mais de um milhão de anos para preservar. É basicamente a mesma coisa que acontece com Lucy na Etiópia: o turista vê uma reprodução enquanto os fósseis originais ficam protegidos e disponíveis principalmente para conservação e pesquisa.

Ainda assim, achei muito legal finalmente ficar diante do sujeito. Mesmo sabendo que era uma réplica, era possível ter uma dimensão muito melhor do esqueleto e entender por que o Turkana Boy é tão importante. Depois de passar um tempão falando de Lucy quando estive na Etiópia, eu finalmente tinha conhecido o representante queniano na disputa pelo hominídeo mais importante da minha viagem pela África.

Terminei a visita ao museu e resolvi seguir para o centro de Nairóbi para fotografar alguns dos prédios mais importantes da cidade. A ideia era justamente aproveitar que estava em uma das maiores metrópoles da África Oriental para registrar aquele lado mais urbano e moderno do Quênia.

Só que comecei a encontrar placa dizendo que não podia fotografar aqui, aviso de que não podia fotografar ali e por aí vai. Cara, minha cota de discussão com autoridade africana por causa de fotografia já tinha sido completamente utilizada naquela viagem.

Prédio bonito? Parabéns para o prédio. Ficaria sem a minha fotografia. Depois do Burundi, eu tinha desenvolvido uma espécie de estresse pós-traumático fotográfico.

Desencanei completamente.

Já tinha arrumado confusão internacional suficiente por uma viagem.

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