Onde comer em Fernando de Noronha – Barraca de Tia Regina

Esse foi o relato que eu fiquei mais feliz em ter escrito sobre minha viagem a Noronha. Ele é sobre uma das mais gratas surpresas que pudemos ter por lá: a barraca da Tia Regina na praia do Porto. Todos os dias podíamos não saber como ia ser o mergulho, mas tínhamos certeza que o almoço ia ser a peixada da barraca da Tia Regina.
Tudo começou quando eu e Dudu estávamos voltando de nosso primeiro mergulho e procurávamos um lugar barato para poder almoçar. Perguntamos a uns locais e eles nos indicaram uma tal de uma barraca da Tia Regina, que lá a comida era boa e barata. Porém nos alertaram:
– Rapaz, a comida dela é boa. O problema é que a mulher é grossa que só uma parede de igreja! Ela é o Seu Lunga de saias daqui de Noronha. A gente que já é da ilha, conhece o jeito dela, mas a gente avisa logo os turistas que é para eles não estranharem. Não levem a mal, como disse, é só o jeito dela. Ela já deixa anotado na geladeira os dois peixes que ela serve no dia que é para ninguém perguntar qual o “peixe do dia”. Se chegar e perguntar o “peixe do dia” a mulher já dá uma popa do tamanho do mundo. Se perguntar se esse peixe tem espinha então…
Beleza. Seguimos o conselho e fomos para a barraca da Tia Regina. E, lógico que ocorreu o que você está pensando, aquilo era mais forte do que eu. Em momentos como esse a prudência fala bem baixinho e a zoeira bem mais alto. Chegamos à barraca e lá estava uma senhora, sozinha, preparando um peixe e dando conta de sua barraca. Para fazer amigos, resolvi ser educado e perguntei:
– Ow tia Regina, qual é o peixe de hoje?
Rapaz, se um dia você conseguir imaginar alguém com fogo nas pupilas seria a cena que você veria dessa mulher parando o que tava fazendo e, enchendo o pulmão de ar, virando e gritando a plenos pulmões:
– Vocês por acaso são cegos? Não tão vendo escrito na geladeira?
– Ah bom. Vi agora. E esse peixe tem espinha, Tia?
– NÃO, ELE TEM OSSO! JÁ VIU PEIXE TER ESPINHA?
Rapaz, não era brincadeira não. Ela era mesmo grossa que só cintura de sapo! Porém como o almoço com ela era barato, MUITO BARATO, acabamos ficando por lá! A mulher trazia uma porção de peixe que facilmente daria para quatro pessoas, com salada. Por QUARENTA REAIS!!! Esse preço para uma peixada é ridículo em qualquer praia do Brasil, imagina mais em Noronha! E ainda por cima era gostoso. O negócio era só se acostumar em ser xingado o tempo inteiro por ela quando você pedia algo que tava de boa.
Depois de uns dias fomos criando mais intimidade, conhecendo melhor a Tia Regina e vendo que, conforme o local nos havia falado, era só o jeito dela mesmo. Ela era rabugenta, mas era uma ótima e doce pessoa. Tia Regina, como todo mundo em Noronha, trabalhava de sol a sol. De domingo a domingo. Aquele exemplo de gente batalhadora mesmo.
E o melhor, ela era democrática!
Segundo nos disse depois, não tinha quem chegasse ali na barraca dela que ela não tratasse daquele jeito. “Aregando”, como ela mesma dizia:
–  Rapaz, eu arengo com quem tiver aqui. Pode ser quem for, mas aqui na minha barraca trato do jeito que eu quiser! Minha língua é afiada, se não gostar, nem vem! Já arenguei com o Lula, já arenguei com o Datena, aquele gordo! Arengo com quem for!
E pior que isso era verdade, viu?
Teve um dia que eu e Dudu estávamos sentados na areia, próximo à barraca dela e só escutamos alguém falando com a Tia Regina:
– Ow Tia Regina! Fui comer o seu peixe ali na beira da praia e o mar levou seu prato!
– Pois vá já buscar o meu prato, SEU MOLEQUE!
– Mas Tia Regina! Ele se foi!!
– NÃO QUERO SABER! SE VOCÊ NÃO FOR BUSCAR MEU PRATO, VOU CORTAR SUAS BOLAS FORA E DAR AOS TUBARÕES PARA COMER!
– Mas, Tia Regina, tubarão aqui em Noronha é vegetariano! (os guias falam que os tubarões de Noronha são vegetarianos para a galera não ficar com medo quando for nadar, já que lá tem muito tubarão)
– POIS EU PEGO SEUS OVOS, AMASSO, FAÇO UM OMELETE COM ELES E DOU PARA OS TUBARÕES COMEREM DO MESMO JEITO! SEU MOLEQUE! VÁ BUSCAR MEU PRATO AGORA!
E tudo isso aos gritos.
Rapaz, quando a gente achava que ela ia matar o menino, se vira para apartar a briga e vê… Sabe com quem era que ela tava gritando? Bruno Gagliasso, um famoso ator de novelas da Globo! Pensa que ela se dobrava a ele? Que nada! Só se aquietou quando viu que ele estava brincando com ela e tinha escondido o prato. Se ele teria ido buscar no meio do mar se fosse verdade? Rapaz, do jeito que a mulher xingava, eu não sei ele, mas eu iria!
Outro dia a gente tava comendo lá e tava tia Regina vendo aquele programa do Datena. Morte para todo lado, assalto, batida de carro… Aquela coisa agradável. Eis que resolvemos fazer uma sugestão a Tia Regina:
– Tia Regina, esse programa é muito violento! Bote em outro!
– Não tá gostando? POIS TAPE OS OUVIDOS! Vou até botar mais alto que é para expulsar vocês! Vocês já pagaram mesmo! Agora que pagaram eu posso expulsar vocês!
E durante o dia, comendo o almoço da Tia Regina, era engraçado ouvir as cortadas que ela ia dando nos clientes:
– Tia, esse peixe é pescado aqui?
– NÃO, VEM DO SUPERMERCADO!
– Tia, qual o peixe que não tem espinha?
– É O PEIXE “PICANHA NA CHAPA”!
Fora os “qual o peixe de hoje?”, “qual o peixe mais gostoso?” que eram de lei e a mulher respondia com os olhos já em chamas.
A gente não sabia como o dia ia começar, mas sabia que ia terminar comendo um peixe e tomando uma na barraca aos gritos de Tia Regina.
Com ela não tinha mimimi.
Saudades dela.

Eu e Dudu tomando uma na Tia Regina

Arraia sendo vista do barco

Mergulho em Noronha

Em Noronha, fiz os melhores mergulhos da minha vida tanto com cilindro quanto sem cilindro. Cara, lá é legal demais. Para ter uma ideia, estávamos fazendo uma trilha para chegar à praia do Sancho (que em uma eleição realizada no site Trip Advisor venceu com o título de praia mais bonita do mundo) e quando estávamos em cima do morro, avistamos a galera nadando lá embaixo. Porém, algo estava estranho. Parecia haver manchas pretas ao redor da galera que boiava na água. Quando descemos o morro e vimos, as manchas na verdade era um cardume de peixes gigantesco que circundavam quem nadava!!!!  Lembrou até uma história que aconteceu comigo em Fiji (confira a história aqui).

Acesso para a praia do Sancho
Em outro lugar, Caminho de Abreu, fomos fazer um snorkelling em uma piscina natural bem pequena, devia ter uns vinte metros quadrados com dois de profundidade. Tão pequena que você não pode nadar lá sem colete. Ainda assim, cheguei a ver dois tubarões por lá.
Dudu na trilha do Caminho de Abreu. Abaixo, dá para ver a galera nadando com colete na piscina natural

O mergulho com cilindro também foi fenomenal, pois avistamos cardumes gigantescos. Porém nada foi tão legal quanto o mergulho noturno que fizemos em Noronha.
Mergulhamos nós dois e mais um guia, cada um com sua lanterna. O guia foi logo explicando para gente “Cara, se vir barracuda ou tubarão, não aponta lanterna no olho deles porque senão eles atacam”. Beleza, o problema é que não é tão simples assim. Você tá ali embaixo, tá tudo escuro, às vezes acontece de você apontar em um sem querer.
Teve uma hora que passou uma barracuda GIGANTESCA do nosso lado e alguém jogou um raio de luz nela. Cara, ela simplesmente ENLOUQUECEU e parecia que ia nos atacar, mas foi embora. Porém, nada se compara a uma hora que eu estava mergulhando e vi um tubarão passando do meu lado parecendo um raio! Só deu tempo de eu apagar minha lanterna e sentir ele passando quase que entre meus braços. Depois que a gente subiu que fomos saber que alguém tinha jogado luz nele e ele, sim, efetivamente veio para nos atacar, sorte que tampamos a luz da lanterna a tempo.
Nesse mergulho noturno também vimos tartarugas gigantescas, quase que do tamanho de camas de casal, lagostas caminhando pela areia e teve até um peixe, grande até, do tamanho de um cachorro de porte médio, que ficou nos seguindo do início ao fim do mergulho tanto atraído pelo nossa luz, quanto se aproveitando dela para caçar. Isso foi até fichicha! O guia falou que uma vez ele foi mergulhar e uma BARRACUDA, atraída pela luz, ficou o mergulho inteiro nadando do lado deles. Mas do lado mesmo, diz que dava até para ver o olho dela os observando e os dentes afiados quando ela abria e fechava a boca meio que esperando a hora de arrancar os dedos de alguém.
Foi mais ou menos essa sensação que o cara teve. No vídeo abaixo dá para perceber o que é uma barracuda atacando. Repare que ele avança do mais completo nada e de uma forma MUITO rápida
Diz que outra vez um cara colocou a luz em um tubarão bico fino. Não conseguiu tampar a lanterna a tempo e o tubarão veio com tudo e arrancou o regulador (ou respirador, para quem não conhece) da boca dele. Diz que a boca do cara ficou toda rasgada e ele ainda perdeu dois dentes, fora o regulador, que o tubarão levou na boca.
Outro mergulho legal que fizemos foi quando estávamos nadando na praia da Cacimba do Padre e o Dudu teve uma brilhante ideia. Olhou o Morro Dois Irmãos láááááá ao fundo e me falou “Cara, vamos nadar até lá? Pode ser que tenha alguns peixes!”. Rapaz, já não tenho mais 18 anos e essas demonstrações de virilidade não costumam me seduzir tanto hoje em dia, ainda mais para sair nadando em mar aberto em uma ilha oceânica sem nenhum socorro próximo. Obviamente eu não quis ir. Acontece que o rapaz queria porque queria e ia acabar indo de todo jeito. Para não deixar ele ir sozinho, fui com ele.
Cara… A gente começou a nadar, a nadar, a nadar e nada de chegar nesse Morro Dois Irmãos. E a corrente cada vez mais puxando a gente para mar aberto. Sei que no final a gente chegou e quase não tinha nada lá. Tivemos que voltar nadando no braço novamente. Quando chegamos à praia ele veio me perguntar:
– E aí? Viu peixe? Viu tubarão? O que você conseguiu ver?
Só respondi:
– Vi sim! Vi uma coisa bem legal! Vi, lá no fundo, a Dona Morte com um capuz e uma foice olhando para mim e me chamando com o dedinho indicador…

Tá louco…
Morro Dois Irmãos, reparem no mar aberto

Perambulando por Noronha – Como se deslocar em Noronha e outras dicas

E, sim, Fernando de Noronha é linda.
Há a praia do Sueste que, bicho, de longe foi o lugar onde, fazendo snorkel, mais vi tartaruga marinha na minha vida. Muito mais do que a praia de Akumal do México (confira a história aqui). Teve vezes de eu ver quatro tartarugas se alimentando ao mesmo tempo e por duas vezes eu esbarrar em alguém e, ao virar para pedir desculpas, constatar que tinha esbarrado em uma tartaruga! Essa praia do Sueste é uma das mais legais, porém só tem galera de fora! Para conhecer a galera da ilha tem que ir à Praia do Porto, que é onde fica a barraca da Tia Regina que eu vou contar com mais detalhes no próximo post. A praia do Porto é a dos locais.

Por do sol na praia do Porto

Sobre o deslocamento por lá. Toda agência de turismo vai te falar que não é possível se deslocar na ilha e vai querer te empurrar um buggy de qualquer jeito. Mas não é assim! Dá para facilmente fazer tudo de ônibus por lá! Ele não leva a todas as praias, às vezes até tem que caminhar um pouco (portanto não sejam burros como eu que só levei sandália! Levem tênis!!). Mas quem se importa com o tempo? Você está em Noronha, cara! Você também sempre pode pedir carona que logo a galera gente boa para e te dá espaço no buggy deles.
Pegando uma carona em Noronha 

Com essas pequenas dicas acaba que Noronha não fica muito cara. Apesar de tudo vir do continente, não achei os preços tão extorsivos por lá. As coisas chegam até mesmo a ser mais baratas que no Rio de Janeiro em alta temporada. Tirando os mergulhos. Mergulhar lá é caro, mas vale cada centavo. Explico em outro post também.
Agora, a internet sim, a internet é péssima. Teoricamente lá pega 3G e na Pousada Tubarão, onde fiquei, tinha até 4G, mas tudo é na base do “teoricamente”. Nem a 3G nem a 4G funcionavam durante o dia. Acabava que o principal ponto de internet da ilha era do lado do Palácio do Governo onde havia internet WI-FI de graça, que só pegava bem mesmo depois da uma da manhã.
Usando internet…
Então funcionava assim, você ia para o forró ou para a balada na pizzaria, tomava umas e, quando estava voltando para pousada, ficava no Palácio trocando ideia com a galera lá usando a internet. Muitas das informações que escrevo aqui me foram ditas durante a internet da madrugada. O lugar bomba mesmo!
Se liga no tanto de gente usando internet…

Para os mais incautos, dá até para ficar trabalhando algumas meninas por lá. Bem, mesmo que ela não goste de você, ela não pode simplesmente sair dali, já que também quer usar a internet, então você acaba tendo um pouco mais de tempo para trabalhar, hahhah. Mas sério, é um lugar bom mesmo para isso, haja vista que como são poucas as meninas solteiras viajando por lá. Além de que o forró é uma verdadeira briga de foice com os locais para xavecar as meninas. Na internet pelo menos as coisas são mais civilizadas.
E na balada também tinha Maracatu

Ju Medeiros, o poeta de Noronha, tocando em uma noite na balada

Outra coisa engraçada era que eu precisava de todo jeito mandar uma mensagem para um amigo de Brasília, um negócio que eu precisava que ele visse para mim. Fiquei o dia todinho desesperado tentando mandar um whatsapp e nada do telefone conectar. Depois de um tempo, vendo meu desespero, um amigo me perguntou “já pensou em mandar uma mensagem normal?”. Rapaz, a gente hoje tá tão viciado no whatsapp que esquece que existe mensagem normal… Acabou que deu certo… hahahah
Por último, apesar da internet ruim, quase tudo pode ser pago com cartão e também dá para sacar dinheiro por lá, apesar de precisar pegar a fila dos Correios se seu banco for o Banco do Brasil como era o meu.
Nascer do sol na única agência dos Correios em Noronha, onde eu sacava dinheiro

Mergulhando com fiscais ambientais – o outro lado

Eu e Dudu, amigo de Brasília e companheiro dessa viagem, fomos mergulhar um dia e acabamos no mesmo barco com alguns dos temidos servidores de um órgão de fiscalização ambiental.
Eles estavam lá para fazer a parte boa do trabalho, mergulhar para medir corais e contar peixes a fim de montar bancos estatísticos. Engana-se quem acha que aquilo era o que eles mais faziam. Falavam-me meio tristes que deviam fazer bem mais, mas como tem poucos servidores no órgão, acaba que a parte mais difícil e chata do trabalho é que acaba ocupando a maior parte do tempo. E que trabalho é esse? Bem tomar conta do meio ambiente na ilha. Ah, mas eles ficam colhendo flores e abraçando árvores? Não, fiscalizando mesmo! De olho se ninguém está fazendo nada de errado na ilha, como pescando em lugar proibido ou caçando. Algum deles chegam até a trabalhar armados e possuem poder de polícia. Lembrou-me as vezes quando a gente andava na praia e via láááá em cima do morro os fiscais ou policiais militares monitorando o pessoal nas praias.
Trabalhar regulando a liberdade das pessoas é algo que ninguém gosta, ainda mais em uma ilha com população tão pequena, onde todos se conhecem. Hoje você pode estar tomando uma no bar com um Noronhense gente boa para caramba e no outro dia pode estar levando ele preso por ter pescado lagosta ou outro animal protegido. Disse que apesar de alguns Noronhenses entenderem que aquele era um trabalho que tinha de ser feito, era bem desconfortável trabalhar lá, pois eles eram servidores apenas 40 horas por semana, nas outras horas eles queriam viver como qualquer outro cidadão normal. Porém não era tão fácil, haja vista que, bem, nenhum Noronhense (ou ser humano) fica super de boa quando leva uma multa de um mês de salário por fazer algo que não julga errado, como pescar um peixe que pescou por décadas de sua vida.
Ele nos dizia que tinha uma ação até legal onde eles limitavam áreas da ilha onde se podia pescar enquanto outros lugares eram proibidos. Dessa forma, mantinha-se a reprodução dos peixes e assim os Noronhenses terão sempre de onde tirar seu sustento (nem todo mundo vive de turismo, vários nativos vivem da pesca, que dizem dar um bom dinheiro).
O outro servidor me dizia que o trabalho de fiscalização era importante porque a ilha tinha muito mais gente do que ela suportava. Com 6.000 habitantes hoje, a ilha já estava quase entrando em colapso. Ele parecia fazer aquele perfil mais ambientalista maluco Greenpeace. Daqueles que vê alguém derrubando uma árvore em Noronha e sai falando na imprensa que estão desmatando a ilha inteira, por isso nem levei muito a sério o que ele falou. Ficava lembrando das palavras do taxista: – A gente sempre caçou e pescou e Noronha nunca se acabou…
Depois fui checar as informações e, segundo o IBGE, Noronha tem uma população de 2930 habitantes. Continua sendo um número grande para uma ilha oceânica com tão pouca disponibilidade de água potável, porém é metade do que ele falou, né?
Sede do governo pernambucano em Noronha. Ou “a máfia”, segundo os nativos
Vestígios da prisão que existia em Fernando de Noronha
Eu e Dudu, meu parceiro de viagem

Vivendo em Noronha – o dia a dia difícil dos Noronhenses

Morar em Noronha é viver uma batalha diária em uma realidade paralela e surreal.
As diversas regulações e limitações para supostamente proteger a ilha fazem com que a vida dos nativos seja bem difícil. Há preços extorsivos para tudo, pois, como o lugar é um Parque Nacional, nada pode ser produzido por lá e todos as mercadorias tem que vir de fora.
Basta ir ao supermercado. Enquanto há um tempo atrás gente andava reclamando do quilo do tomate, em Noronha ele custava doze reais. A cebola, oito reais o quilo. Maçã, treze! Abacaxi, quinze! A unidade! Um galo inteiro não sai por menos de 80 reais (como não lembro se ainda é permitido criar bichos em Noronha, não sei se esse era o preço pelo bicho vivo ou morto). Pelo menos o quilo do peixe lá é tão barato quanto o quilo do frango.
Agora, ruim mesmo é reformar ou construir sua casa. Você não pode simplesmente bater a laje e depois chamar a galera para fazer um churrasco lá em cima e comemorar. Para qualquer tipo de alteração você necessita de uma autorização do governo. Ah, mas isso é só para reformas grandes, né? Naaadaaa! Essa regra serve até para trocar um vaso sanitário, uma porta, fiação… Você faz uma aplicação no Governo, vai um TÉCNICO na SUA CASA para avaliar se você realmente precisa disso (ou merece) e, caso haja autorização, você pode dar início à obra. Aí você vai à única loja de material de construção da ilha, leva essa papelada (mais ou menos como uma receita médica para comprar um remédio na farmácia) e deixa os olhos da cara para levar um saco de cimento.
Lógico que essa autorização leva meses para sair. Isso quando sai. Onde há burocracia, há malfeitos, assim, os amigos do rei são sempre favorecidos. Conheci um cara que casou e precisou esperar por CINCO ANOS a autorização para construir uma casa na parte de trás do terreno onde sua mãe morava. Sim, porque hoje em Noronha ninguém compra mais lote. A galera vai fazendo puxadinho aqui e ali onde já há um terreno. Acontece de casais se separarem e terem que morar na mesma casa por anos por não terem para onde ir. Se você quer abrir um negócio em Noronha, precisa se associar com um Noronhense (ou fazê-lo de testa de ferro, como preferir). Isso, lógico, depois de enfrentar toda a burocracia mastodôntica já citada para comprar o material de construção e dar uma recauchutada no seu restaurante ou pousada.
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Uma festa na laje animada como essa dificilmente ocorrerá em Noronha!
As coisas são dessa forma, teoricamente, para evitar que comecem a construir adoidado na ilha levando à superpopulação. A gente até brincava lá dizendo que se em Noronha tivesse ladrão, ele entraria na sua casa e roubaria fiação, porta, telha, sanitário. Quando você chegasse iam estar intactos sua televisão, sua geladeira, seu computador, seu tablet… já que isso não precisa de autorização especial para comprar.

Segundo os nativos, esses são contêineres americanos do tempo da Segunda Guerra Mundial e que hoje são usados  como moradia por Noronhenses

Todos esses problemas e regulações acabam dificultando bastante a vida na ilha. Sem acesso a Internet de qualidade, oportunidades de capacitação e altos custos para se manter e investirem em si mesmos, ocorre um círculo vicioso, que se mantém há gerações, onde os melhores empregos da ilha mantém-se nas mãos das pessoas de fora. Para piorar, a um nativo não há quase nada para se fazer por lá.

Poucas opções de lazer, rotinas estressantes de trabalho (“a gente costuma dizer que na ilha é onde o filho chora e a mãe não vê” – me disse um nativo), baixos salários e alto custo de vida levam parte da população a um clima de desalento e desilusão. Noronha tem hoje um dos maiores índices de alcoolismo per capita do Brasil.
Às vezes ficava pensando… Com todos os serviços turísticos sendo caros, MUITO caros, e com os salários de fome pagos aos noronhenses, tem muita gente fazendo um bom dinheiro à custa da vida difícil dos locais.
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E aí? Como chegar a Fernando de Noronha?

Existem duas empresas aéreas que realizam voos para Fernando de Noronha: A Azul e a Gol. Conforme falei, as duas costumam cobrar preços abusivos. Acaba que a melhor forma de ir para lá sem ter que vender o seu irmão mais novo é esperar saírem algumas promoções tal qual a que eu consegui. Saiu uma promoção da Gol oferecendo voos de Brasília para Noronha, apenas com uma conexão em Recife, por 10.000 milhas o trecho. Aí, cara, não teve como não comprar. Acabou que gastei 22.000 milhas para comprar as passagens de ida e volta e desci diretamente na ilha!
Aeroporto de Noronha
Essa parece ser a única forma viável de chegar a turismo. Apesar de haver vários barcos chegando à ilha, a maioria para abastecimento, não conheci ninguém que tenha me falado que foi pelo mar ou que o achasse viável. Na verdade é possível chegar lá comprando um cruzeiro, mas acho que vale pouco a pena, parte porque você não dorme na ilha, parte porque eles geralmente ficam poucos dias.
O interessante é que as pessoas que moram em Noronha têm direito a um incentivo para poder viajar ao continente. Depois de algumas negociações entre governo e empresas aéreas, foi disponibilizada uma pequena cota de passagens diárias para moradores de Noronha, cinco por dia. Ao invés de pagar milhares de reais como todo mundo por uma passagem, eles gastam 200 reais por trecho. Tem que esperar muito na fila? Nada! Eles me disseram que tem que tem que marcar só com uma semana de antecedência!
Por último, antes de viajar a Noronha, evite filas, pague TODAS as taxas que você precisa antes de chegar lá! Noronha tem uma tal de uma taxa de preservação ambiental que é uma facada e tem um valor diário que vai aumentando. Só por curiosidade, para ficar cinco dias, você paga R$ 251,86 (51 reais por dia) e para ficar trinta você paga R$ 4240,50 (141 reais por dia), NO SECO!! Apenas pelo direito de ficar em Noronha! Dá pra pagar direto no site do governo, http://www.noronha.pe.gov.br/, e não enfrentar filas no aeroporto quando chegar. Fora isso, metade da ilha é um Parque Nacional e para ter acesso a esses locais paga-se mais módicos R$ 88. Pode escolher não pagar essa taxa, mas aí não vai poder ir às principais e melhores praias de Noronha além de não poder mergulhar com cilindro também, ou seja, basicamente você não faz nada. Esse cartão de acesso pode deixar para comprar quando estiver lá mesmo.
Vila dos Remédios
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Fernando de Noronha

Eu realmente achava que iria demorar mais um tempo na minha vida para eu ter a oportunidade de visitar Fernando de Noronha. 
Sempre achei o preço das passagens simplesmente abusivo e todo mundo me falava que Noronha era um lugar inacreditavelmente caro. 
Bem, consegui uma boa promoção de milhas e, no final, acabou que descobri que Noronha não é tão caro assim quanto eu imaginava.
Vamos começar o post.

Capital do Marrocos – Casablanca – “Lá só tem a mesquita”

Se Marrakesh é a cidade marroquina mais visitada por turistas, Casablanca é a mais famosa e a única que eu conhecia de nome. Isso ocorre porque há um filme famosíssimo que foi filmado lá e que também tem o nome de Casablanca.
Ela é a maior e mais importante cidade do Marrocos. É uma cidade grande como São Paulo, com vários atrativos, porém poucos deles turísticos.
Todo mundo me falava que em Casablanca só tinha a mesquita. Isso é um pouco estranho, pois uma cidade que foi fundada pelos fenícios há mais de 2500 anos dificilmente teria pouco a oferecer.
O curioso da cidade é o nome. Obviamente Casablanca é um termo latino e a cidade foi nomeada por nada mais nada menos que os portugueses. Pelos idos dos anos de 1500, aquela região era apinhada de piratas que aterrorizavam todo navios que viajavam por lá. Obviamente Portugal tinha interesse que ali estivesse pacificado (pois era o caminho das Índias) e cinquenta navios com 10.000 homens enviados para combater piratas serviu para demonstrar isso. Eles combateram os piratas por décadas até conseguir expulsá-los de vez e fundar um forte que foi chamado de “Casa Branca” dando origem ao nome atual da cidade. Porém, um forte terremoto no  século XVIII destruiu a cidade e os portugueses a abandonaram. Posteriormente ela foi ocupada pelos espanhóis que mudaram o nome para Casablanca, que se mantém até hoje. Infelizmente acabei ficando pouco tempo por lá.
Eu e Caio, um brasileiro que conheci no caminho, fomos conhecer essa “só tem a mesquita”. Mano, quando você chega lá…
O rei Hassan II queria deixar a sua marca e bancou a construção de nada mais nada menos que a terceira maior mesquita do mundo (só perde para as de Meca e de Medina) com a maior minarete do mundo de impressionantes 210 metros de altura. Acomoda 25.000 crentes nos seus pisos, 5.000 mulheres no segundo andar (já que mulheres e homens rezam em lugares diferentes) e quase 80.000 nos seus pátios.
Sim, ela é monumental o suficiente para ser comparada com Angkor Wat (confira o post aqui) no Camboja e a Basílica de São Pedro em Roma (confira o post aqui). Foi edificada em cima de uma rocha na beira da praia ecoando um verso constante no Corão de que o trono de Deus foi erguido sobre as águas. Ela é simplesmente monumental e sensacional. Vale demais a viagem a Casablanca para poder conhecê-la. É uma obra de encher os olhos. “Só tem a mesquita…”
Uma construção faraônica como essa é bonita de ver, só que custa dinheiro, muito dinheiro. Ela consumiu em recursos quase meio bilhão de dólares (mais ou menos como o Estádio Mané Garrincha de Brasília) e hoje questiona-se quem deve arcar com a conta de manutenção do lugar (mais ou menos como o Estádio Mané Garrincha de Brasília) já que ela já começa a dar sinais de que necessita de reformas. Está à beira do mar que vai danificando as suas estruturas. Essa reforma não vai sair nem um pouco barata e um país não democrático esse não é um debate tão fácil…
Ficamos um tempo por lá e depois voltamos no hotel para buscar nossas coisas.
Próxima parada, Brasil.
Para se ter uma noção do quão monumental é a mesquita, dá para levar o caminhão a esquerda em consideração
Espelho d´água dentro da mesquita. Originalmente servia para que os muçulmanos se lavassem antes ou depois das preces, porém nunca foi usada

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Fes – Cidade do Marrocos do couro e a maior zona de exclusão de automóveis do mundo

Depois de Laayoune lá vou eu pegar mais cinco horas, entre voos e conexões, e passar a terceira vez por Casablanca em menos de cinco dias. Estava a caminho de Fes.
Se muitos dizem que a Marrakesh é a cidade turística do Marrocos e Casablanca a cidade dos negócios, Fes é a cidade histórica e também um dos locais mais importantes para os marroquinos.
Foi nesse cidade, fundada no final do século VIII (!!!!!), que iniciou-se a luta pela independência marroquina e foi essa a cidade que por mais tempo foi capital do Reino do Marrocos.
Fes é uma cidade de superlativos e alguns marcos. É a maior cidade medieval islâmica do mundo e tem a maior Medina (aglomerado de edifício históricos protegidos por uma muralha) do Marrocos. Lá dentro não é permitido o trânsito de carros, assim, em Fes há a maior zona de exclusão de automóveis do mundo. Assim, lá dentro, caminhando por aquelas vielas sem carros, você realmente se sente como que transportado para um microcosmo medieval, onde as pessoas comerciam as mesmas coisas há centenas de anos.
Além disso, em Fes foi fundada a primeira universidade do mundo (construída em 859. Obviamente, os europeus  não reconhecem isso) e que se encontra em operação até hoje.
Fes se destaca pela indústria do couro. Ele é trabalhado de forma artesanal com poucas mudanças nessas centenas de anos. Fui visitar uma cooperativas dessas e fiquei impressionado com o quão desumano é o trabalho que eles fazem por lá. Cara, é um cheiro tão insuportável de carne em decomposição (já que eles arrancam o couro do animal e deixam ele de molho em uma pedra especial para retirar restos de carne e pelos) que, antes de você entrar na cooperativa, os caras te dão algumas folhas de menta para você ficar cheirando e disfarçar o cheiro forte.
Setor do couro em Fez

Você olha os caras lá embaixo, maltrapilhos, envoltos em matéria orgânica decomposta, aquela água fétida escorrendo e é impossível não ficar com pena deles. O cara da cooperativa me falou que antes a situação de trabalho era bem pior, apesar de ser difícil de imaginar o que seria pior que aquilo. De qualquer forma, só podemos ver uma pequena parte do que antes era o lugar onde eles trabalhavam. O lugar foi declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO que agora está o reformando.

Reforma do lugar de tratamento de couro sendo financiada pela UNESCO. Notem o guindaste na foto
Lembrem de olhar para essa foto toda vez que acharem ruim seus trabalhos. Mano, é muito mais chocante ao vivo, ainda mais por causa do cheiro forte

Outra coisa engraçada foi que no albergue onde eu estava hospedado encontrei uma colega de universidade do tempo de UNB. Que coincidência.
Albergue onde fiquei em Fes

COMPRAS EM FES

Por lá, aproveitei para fazer algumas compras também. Comprei um bom cinto de couro por sete reais, uns bons perfumes por 10, 15 reais, lembrancinhas para dar de presente no Brasil…
Esqueçam preços tabelados, no Marrocos não tem nada disso e você tem que discutir tudo que vai comprar.
Quando eu precisava comprar alguma coisa perguntava no albergue antes “Ow, quanto achas que devo pagar por tal coisa?” e eles me respondiam a faixa de preço que eu deveria negociar. No wikitravel.com tem inclusive uma TABELA com preços de quanto você deve pagar por determinados tipos de produtos, de sapatos a alimentos.
Tabela de preços do wikitravel onde se vê de sapatos a tatuagem de henna
Você descobre mais ou menos quanto é e sai negociando. Eu detesto isso, pois sempre saio com a certeza de que fui roubado, mas é inegável que é engraçado. Com certeza eu ainda conseguiria pagar mais barato pelas coisas que comprei, mas para mim já estava barato suficiente.

DO YOU WANT CHILDREN? CHILDREN ARE CHEAP…

Um amigo meu ao chegar em Marrakech obviamente se perdeu e não conseguiu achar o seu albergue. Matutou, matutou, matutou e nada de conseguir. Decidiu pedir informação a um vendedor que foi super solícito e lhe explicou como era o caminho. Quando ele terminou de explicar o caminho virou para o meu amigo e ofereceu: – “Mas então, você não quer levar uma criança? Crianças aqui são baratas…”. Meu amigo disse que se empaledeceu e se assustou na hora. “Caraca, é tão descarado assim?”. Só depois que ele foi entender que na verdade o comerciante estava oferecendo uma criança para guiá-lo até o albergue, não para ele levá-la como escrava.
Em Fes é a mesma coisa. A Medina é tão gigante e tem tantas vielas, que eu acabei contratando uma criacinha também para me levar ao meu albergue.
Se liga na marra do meu primeiro guia

No albergue havia uma tartaruga de estimação. Era engraçado que vez ou outra a gente ia caminhando pelo albergue e quando via ela tava emborcada de cabeça para baixo sem conseguir se desvirar. Aí a gente ia lá e ajudava bichinha
Cara, por onde você andava tinham esses meninos vendendo pão nesse carrinho. Os caras devem gostar demais de comer isso no Marrocos

Fes vista de cima. Reparem no TANTO de antena parabólica nas casas. O sinal analógico lá não deve ser dos melhores…
Viela onde só cabe uma pessoa? Queriam nem saber! Era sair da frente para não ser atropelado por burros
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Saara Ocidental – Laayoune

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