Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Esses dias viajei com uns amigos pra Maceió. Aproveitamos que tivemos uma folga aqui em Brasília e uma galera, em peso, resolveu comprar passagens e descer pra lá. Não foi a minha primeira vez na capital de Alagoas, mas com certeza foi a que eu gastei mais tempo conhecendo as atrações que existem próximas a cidade. Digo ao redor da cidade pq Maceió em si não tem muitas atrações. É uma capital do Nordeste como outra qualquer, com algumas coisas legais pra fazer, mas nada muito extraordinário. Tirando uma ou outra estátua do Marechal Deodoro da Fonseca, que parece ser o maior herói da cidade, não existe muito o que olhar.
Aê… Olha o nome do barco!!
No primeiro dia fomos para a praia do Francês, que até parecia ser uma boa praia, pena que choveu o dia inteiro e não deu pra curtir tanto. Eu ainda tentei alugar uma prancha e surfar, relembrando os bons tempos que morava na Austrália, mas percebi que estou demasiadamente enferrujado! Depois de tomar um caldo atrás do outro, achei que seria melhor devolver a prancha antes que eu terminasse por me afogar. Ainda bem que não avisei ninguém da galera que estava indo surfar, bom que não passei vergonha. Voltei cedo pra pocilga que fiquei pra poder dormir logo, já que no outro dia acordaríamos BEM cedo pra poder fazer o passeio da Foz do Rio São Francisco.
Confessa, todo mundo tem uma dessas…
Foz do Rio São Francisco
Inicialmente eu planejava fazer um passeio aos cânions do Rio São Francisco, que ficam na fronteira entre os estados de Alagoas e Sergipe. Cara, o lugar é muito lindo e muito da hora! O grande problema é que é longe de Maceió e infelizmente não deu pra irmos pra lá. Tivemos que nos contentar em ir a sua foz (foz é onde o rio encontra o mar), pois era bem mais perto. Fechamos com uma agência e os bichos foram nos pegar na porta da pousada. Quem foi dirigindo a van foi um motorista que fazia as vezes de guia turístico e que, diga-se de passagem, era MUITO engraçado. O bicho era bem figura e viajar com ele era dando risada durante boa parte do caminho.
No caminho ele foi mostrando algumas curiosidades da cidade de Maceió. Passamos do lado de um “cinturão verde” e ele foi nos explicar o que era. Apesar de todo o apelo ecológico que eles queriam transparecer, aquele “cinturão verde” foi feito ao redor de um fábrica de corrosivos para que, caso ocorresse um vazamento, pudesse primeiro atingir esse tal “cinturão verde” antes de causar algum tipo de problema para seres humanos. Idílico não? Pois é, se isso é verdade ou não, ele depois mostrou o verdadeiro “cinturão humano” que existia ao redor da fábrica também. Ele não soube informar se era uma invasão ou se foi a própria fábrica que concedeu aquilo, mas ao redor da indústria existiam diversas moradias precárias com várias famílias morando. Diz que aquelas pessoas moravam lá e por motivos de segurança foi colocado um alarme caso algum vazamento ocorresse para que as pessoas “corressem” caso houvesse algum tipo de problema. Isso, não é que havia um plano de socorro ou resgaste dessas famílias, o que havia era um alarme e “dá no pé, cabra!”, “corre pra aquele lado”. Segundo o guia, seis meses atrás o alarme foi tocado e foi uma correria danada pra tudo que foi lado. Imagina a situação, cara, você tá ali de boa em casa, vendo o seu Faustão, todo serelepe e, DO NADA, soa um alarme. Vazamento de uma indústria de CORROSIVOS!!! Meu amigo! Deve ter gente correndo desse alarme até hoje! Depois que se descobriu que foi um alarme falso. Foi brinks. Simples, né? Todo mundo de volta pra casa e finge-se que nada aconteceu. Esses estagiários que ficam tocando o alarme…
Tamanhozinho do pastel, meu brother!
Outra curiosidade que nos foi proporcionada também foi que pudemos ver no caminho uma estátua do Marechal Deodoro da Fonseca (mais uma) em cima de um cavalo. E, vejam só, como vocês iam morrer sem saber disso! O cavalo do Marechal estava com as quatro patas no chão. E daí? Bem, e daí que isso significa que ele havia morrido de causas naturais. Se o cavalo tivesse com duas patas levantadas, significava que ele havia morrido em batalha, e apenas uma pata no chão, que ele havia morrido em ação (não me pergunte a diferença entre ação e batalha porque eu não tenho a mínima ideia!). Interessante, né? Tem coisas que só esse blog sabe fazer você descobrir! Preste atenção nas patas dos cavalos das suas cidades e surpreenda seus coleguinhas com todo conhecimento adquirido aqui!
Outro banho de cultura que nos foi proporcionado foi sobre os motéis lá de Maceió. Segundo o guia, lá em Maceió tinha uma região de motéis que era conhecida como “você que sabe”. Isso vinha da história de quando você perguntava pra alguma menina pra onde ela queria ir e ela respondia “você que sabe”, você já sabia onde levar ela. Depois não tinha desculpa que vc foi pro lugar errado. E sim, havia um motel lá com esse nome, pena que passamos rápido e não deu pra bater foto. Mas que eu achei o nome engraçado, achei…
Tá, eu nunca fui bom com protetor solar mesmo..
Depois de todo esse banho de cultura, chegamos à última cidade antes da foz para poder pegar o barco em direção à foz. Era a cidade de Piaçabaçu e junto com o barco vinha uma guia. Rapaz, mas a vontade que a gente teve foi de jogar a guia na água, viu¿ Eita, mas aquela mulher falava… Nos brindou com mais conhecimento que eu até hoje não sei como consegui viver sem. Pra começar, lá foi filmado o filme “Deus é Brasileiro” (ótimo filme por sinal) e ela ficou toda se gabando por conhecer diversos atores globais. Morri de inveja ali na hora, tudo o que eu mais queria era uma foto com o Antônio Fagundes, não sei como vou viver sem nunca tê-lo abraçado! Depois ela nos brindou com a inestimável curiosidade, que ela contava com um indescritível orgulho, que Piaçabuçu era, pasmem, a única cidade do Brasil que era ESCRITA COM DUAS CEDILHAS!! Sim, amigo, é isso mesmo! Vocês conseguem acreditar? Pois é verdade, é a única cidade do Brasil escrita com duas cedilhas! Você acha que é pouca coisa? Pois você tinha que ver o orgulho que aquela menina falava da cidade dela! Mas enchia a boca pra falar disso!
A foz é um lugar bem bonito. O mais interessante de ver era um farol que ficava suspenso no meio do rio. Perguntamos o que era e nos foi dito que aquilo foi tudo que sobrou de um povoado que existia do lado da praia. Diz que de uma hora pra outra o mar começou a encher, encher, encher e tomou todo o povoado, só deixando como resquício aquele farol. Se tivesse algum ecochato no barco já ia gritar que era aquecimento global, mas, felizmente, esse ponto não foi tocado.
Tomamos um banho e voltamos pro barco. Cara, mas que peça. Bicho, todo mundo pregado e cansado de horas de exposição solar e banhos de rio e a mulher não parava de falar. Mas, mlk, sério mesmo, a mulher parecia uma metralhadora! Tudo o que você mais quer quando está fazendo uma viagem pra relaxar e espairecer é uma mulher que não para de falar besteira e se gabar porque tem fotos com atores globais…
Cara, o encontro do Couchsurfing em Lisboa teve várias atrações e coisas legais. Porém, se eu pudesse citar o que foi a coisa mais engraçada e interessante de toda essa viagem por Portugal eu responderia sem sombra de dúvidas que foi conhecer o Chris. Ele era inglês e trabalhava como advogado para refugiados na Inglaterra. Isso só uma das várias histórias dele, pois, como falei, o bicho realmente era engraçado.
Vivendo no Iraque
Pra começo de conversa, ele já tinha lutado no Iraque. Sim, isso mesmo que você está lendo aqui, o cara era veterano do Iraque. Eu juro que quando ele falou isso pra gente eu fiquei espantado, não com o fato de ele ter ido lutar lá, mas sim com a naturalidade que ele falava isso. Falava como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas, assim, como quem diz “ah eu trabalhei de policial uns tempos por aí”. “Por que diabos ele tinha ido lutar no Iraque” – essa deve ser a pergunta que você está se fazendo e pode ter certeza que foi a primeira pergunta que eu fiz pra mim mesmo quando ele me falou isso, afinal, como já disse, o cidadão era advogado de refugiado, ou seja, era um cara estudado. Na simplicidade costumeira ele falou que um dia estava em casa entediado e pensou “Nossa, preciso fazer alguma coisa legal que vá render muita história, essa minha vida tá muito chata”. Começou a dar um passeio na rua, viu um cartaz conclamando ingleses a ir lutar no Iraque e pensou que isso seria uma boa ideia. Se inscreveu no programa e algumas semanas depois já estava iniciando o seu treinamento para poder ir lutar no Iraque. Diz ele que tentou entrar no MI6, o serviço secreto inglês, mas que não foi aceito devido a seu passado como advogado para refugiados (principalmente pessoas da Somália suspeitas de terrorismo. Sim, o figura era doido mesmo!).
Certo dia, contou que estava em um treinamento em um lugar tipo uma fazenda e o sargento havia falado pra eles que eles poderiam atirar nos alvos ou em qualquer outra coisa que quisessem, bastava que não fossem os próprios instrutores (é sempre bom falar, né? Do jeito que tinha maluco por lá…), ovelhas e vacas. Diz ele que cinco ficavam atirando e um sexto ficava passando de cabeça baixa (a coisa mais sábia a ser feita quando um pelotão de malucos está atirando) e servindo munição pra todo mundo. De repente, entrou no campo de tiro, um pouco distante, mas não muito, um pavão. Um pavão grande, gordo, colorido, bonito! Um belo pavão. Eis que de repente alguém pensa “Hum, pavão não é gente, não é vaca e não é ovelha” vira-se e começa a sentar o dedo pra tentar matar esse pavão. Os outros foram tendo a mesma ideia e todo mundo começou a tentar matar esse pavão. E aí foi aquela loucura, com todo mundo tentando matar o maldito pavão e querendo ser o primeiro a abatê-lo. Rapaz, diz que foi uma cena cômica, pra não dizer o mínimo. O pavão ficou caminhando calmamente pelo campo, de um lado para outro e só as rajadas de bala comendo do lado dele. Gente, eu acho que eu não preciso explicar, um pavão não é uma avestruz, um pavão é uma ave lenta… Ele caminha muito vagarosamente. Pois é, ainda assim os caras metiam fogos, rajadas comiam do lado do pavão e nada de alguém conseguir acertá-lo. Era tanta bala que até o cara que fornecia munição queria saber o que tava acontecendo, porque ninguém parava de atirar e pedir mais munição… No final o pavão saiu da linha de tiro na maior calmaria do mundo e sem nenhum arranhão. Diz que o sargento mandou parar o treinamento e ficou encarando um por um querendo entender o que tinha ocorrido. No final ele só deu um esporro no melhor estilo “vocês são os piores soldados que eu já tive que treinar!” e no final ficou tudo certo. E assim, alguns meses depois, ele tava pronto pra poder ir para o Iraque.
Nós três no dia em que o Chris nos contou as suas aventuras com o Pavão!
Quando alguém perguntava se tinha algo que ele pudesse descrever do Iraque, o que ele mais lembrava de lá, ele dizia “homens nus lambuzados de óleo correndo pelas ruas”. É, isso mesmo que você leu! Antes que você comece a achar que o bicho tava viajando ou que ele tenha andado por quebradas gays do Iraque, não é nada disso! Na verdade, na verdade, quando ele chegou a Basra, cidade do Iraque que os ingleses ficaram responsáveis por controlar, as batalhas já haviam cessado (até porque eles não iam mandar um cara com esse nível de treinamento pra poder combater no front). A função dos soldados ingleses que chegaram depois foi de basicamente agir como polícia e manter a ordem no lugar. Eles tinham ordens expressas de NUNCA atirar sem que fossem atacados primeiro, ou seja, patrulhavam com rifles, mas não podiam usá-los, eles basicamente serviam de enfeite. Bem, lógico que não era só eles que sabiam disso, os iraquianos também tinham conhecimento. O que eles faziam? Bem, quando alguém queria roubar alguma coisa, os caras basicamente tiravam toda a roupa possível e se besuntavam de óleo, dificultando sobremaneira que fossem agarrados quando saíam na carreira. E lá iam o Chris e os companheiros correrem atrás de um bando de homem besuntado de óleo pra ver se agarrava. Felicidade extrema! Além disso, ele contou que certa vez teve o carro fuzilado quando fazia patrulha, mas dessa vez, felizmente, o fuzilamento foi realizado por pedras jogadas por crianças.
Advogado de refugiados
Mas o mais interessante mesmo de conversar com ele, era ouvir os casos que ele falava dos refugiados que ele tomava conta. Diz que era só caso escabroso. Teve um cara que era muito gente boa e ele realmente ficou amigo do bicho, mas que a Inglaterra não cedeu asilo a ele só porque o trabalho dele era recrutar crianças pra lutar no exército rebelde de Uganda. Poxa, não existe aquele ditado que toda profissão é digna? Outra foi a de um somali que juntou todas as economias da vida dele e chegou na Europa quase que a nado, mas também infelizmente não obteve asilo. Mas pra mim o mais interessante era quando ele comentava dos chineses. Diz ele que diversos chineses, sem ter a mínima esperança de obter algum futuro na China, fazem acordos com a máfia chinesa e a máfia toma conta de fazê-los chegar na Inglaterra. Eles cuidam de passagem, entrada, o que for. Bem, mas gente, se ninguém faz nada de graça, imagina a máfia. Pois é, a máfia fazia todo esse serviço e pedia em troca apenas 70% de tudo que eles ganhassem trabalhando na Inglaterra. De boa, né? Cara, pode parecer ruim, mas é MUITO melhor do que eles conseguiriam na China. Caso eles quisessem sacanear a máfia, não tinha problema, eles só torturavam ou matavam algum parente do bicho e tudo estava resolvido. Resultado? Dana-se o pobre do chinês pra trabalhar 20 horas por dia na Inglaterra e mandar tudo pra China, tanto pra máfia, quanto pra sua família. Mas o mais macabro era o que acontecia caso fossem pegos pela imigração inglesa. Como estar ilegal em um país não é um crime, os oficiais ingleses recolhiam o passaporte dos chineses e davam prosseguimento ao processo de deportação. Quando os ingleses iam à embaixada da China para reconhecimento do passaporte, a Embaixada falava que o passaporte não era chinês, que era falso e que o pobre imigrante não era problema deles. E aí? E aí chora. A Inglaterra não podia fazer nada, até porque é interesse da China que essa grana fique sendo repassada para o país. Resultado? O chinês não podia ser deportado, ele continuava trabalhando que nem um escravo e os oficiais de imigração basicamente só anotavam os dados do chinês e o mandavam embora. Simples assim. Gente, tudo isso, como falei, era ele que tava falando, não sei até onde é verdade, mas devido o nível de detalhamento que ele ia falando as coisas, realmente parecia bem verossímil.
Quando voltar pra casa não parece uma boa ideia
Robert Mugabe, ditador sanguinário do Zimbábue
Mas o mais chocante mesmo era quando ocorria deportações de países, digamos, “complicados”. Ditaduras fratricidas tem problemas com pessoas que tentam fugir dos seus países. Apesar de a grande maioria das pessoas que fogem desses lugares serem cidadãos honestos que querem apenas melhorar de vida, alguns poucos são opositores políticos que podem causar problemas se voltarem. Ele disse que em alguns países, notadamente o Congo e o Zimbábue, ocorria fuzilamento sumário, no aeroporto mesmo, de refugiados que eram deportados de volta. Se em trinta deportados, um poderia ser opositor político e causar problemas, porque não passar todo mundo na bala e assim evitar correr riscos? É, racionalismo macabro é conosco mesmo… Outra que ele contou foi a história de uma mulher do Turcomenistão que foi deportada. Dois oficiais de imigração da Inglaterra foram escoltando ela no avião. Chegando ao Turcomenistão, diz que ela não conseguiu se “explicar” direito porque tinha “fugido” pra Inglaterra e a polícia secreta do país resolveu descer o cacete pra ver se ela confessava que era espiã. Como ela não quis “colaborar”, eles tentaram achar “colaboração” em quem mais estava com ela. E quem foi com ela? Sim, os dois oficiais ingleses que a acompanhavam. E nem adiantou os dois tentarem de toda forma apresentar os passaportes pra provar que eram ingleses. “São passaportes falsos, eles também são espiões” – e dana-se os pobres apanharem também no aeroporto. Eu fico imaginando o desespero deles gritando “Eu sou inglês!!!” enquanto apanhavam! Até os caras realmente acreditarem que eles dois realmente eram ingleses, os pobrezinhos apanharam que só menino quando apronta…
Vivendo na Inglaterra
Mas nem só de desgraça vivia o Chris. Era engraçado também ouvir ele falando de como era a maneira inglesa de viver. Segundo ele, a vida na Inglaterra era tão desgraçada que eles gostavam de tomar cerveja quente e comida sem gosto. Diz ele que eles misturavam tudo, juntavam e jogavam a 300ºC no óleo quente que era pra levar o gosto de qualquer coisa. Que um dia bonito lá era quando não se chovia três dias ininterruptos. Que se achávamos que tava fazendo frio em Lisboa porque tava fazendo uns 10ºC deveríamos passar o ano inteiro a -10º pra poder saber o que era uma vida desgraçada. O bicho era engraçado demais. Pra fechar com chave de ouro, ele voltou um dia mais cedo pra Inglaterra e mandou uma mensagem pra gente “Domingo de sol em Lisboa? Aqui na Inglaterra tá -5ºC e ainda tá chovendo granizo. Nós rimos do seu frio :P!!”. Que bicho gente boa, cara!
Como havia dito no post passado, um dos principais motivos que me levaram a viajar para Lisboa mais cedo, além da crise mundial que me arrebentou, foi a possibilidade de participar do encontro do Couchsurfing em Lisboa. Cara, o encontro foi realmente bem da hora. Assim como o de Praga, não deixou nada a desejar.
De início, na primeira noite, tivemos uma baladinha onde nos foi proporcionado uma apresentação de fado, um estilo português musical que eu só havia conhecido por meio da música fado tropical do Chico Buarque (que eu nem sei se é um fado mesmo!). Foi uma noite mais de boa, mais pra poder esperar a galera chegar mesmo e se preparar para o próximo dia.
No outro dia, pela tarde, fomos dar uma volta por Lisboa e a galera tinha organizado uma tarde de jogos medievais lusitanos. Como isso funciona? Bem, algum dos organizadores do evento era pesquisador e tinha algumas fontes onde era possível saber como brincavam as crianças em Portugal há algumas centenas de anos atrás. Eles viram como era, encomendaram a alguns carpinteiros e fizeram diversos brinquedos e jogos baseados nisso. Foi realmente bem interessante e deu pra poder passar a tarde.
Boliche a la Fred Flintstone em Lisboa
A noite, lógico, era chegada a hora da bagaceira. Foi programado um “tour de bares” por Lisboa. A ideia era simples, selecionaram alguns bares da cidade e as gentes saía bebendo nos bares selecionados. Foi da hora porque podemos conhecer vários bares diferentes com vários estilos interessantes. Teve uma hora que foi bem engraçada.
Olha que da hora esse bar, cara! Os bichos utilizam brócolis como lustre!
Eu tava andando na rua, indo de um bar para o outro e quando você anda pelas ruas de Portugal, principalmente os lugares turísticos, uma hora ou outra alguém aparece lhe oferecendo uma quinquilharia. Eu fui andando por lá, dando umas voltas e do nada veio um cara em minha direção. Vi que ele ia me oferecer algo e já me preparei pra poder dizer que não queria. Quando ele veio na minha direção já veio gritando: – Coca, quer coca?. Mas assim, como quem te oferece um pacote de Halls…
Ãhn? Mas assim? Sem nem me oferecer uma cerveja antes? O cara já veio me oferecendo coca, assim, no meio da rua. Eu no início até achei que era coca cola, mas depois que eu fui me tocar que o cara tava me oferecendo era cocaína mesmo. É isso aí, o mercado cada vez mais se adaptando e oferecendo comodidade a quem quer consumir o que for. Enfim, a única parte mais ou menos complicada nesse bar tour é que, meu amigo, a Lisboa velha é CHEIA de ladeiras! É ladeira pra cima e pra baixo, tudo o que você menos quer quando tá com o bucho cheio de mais ou menos um quilo de feijão comido em um jantar português ainda há pouco.
No outro dia, mais um dia de passeio pela cidade e a noite, mais uma noite de esbórnia. A noite descemos pra uma balada organizada e fechada apenas para o Couchsurfing. Porra, muito legal! A festa era só nossa, todo mundo se conhecia e ninguém queria arrumar confusão com ninguém. Por outro lado, também ninguém pegava ninguém, coisas do Couchsurfing.
Uma parte que foi bem engraçada foi que uma hora durante a festa, a gente tava lá dançando e do nada passa alguma coisa por cima de mim. Quando vejo, tinha um inglês VOANDO por cima da minha cabeça, LITERALMENTE. O cara fez aquilo que no show de rock chamamos de stage diving (mergulho do palco)! Aquele mergulho que os cantores de rock fazem onde eles se jogam no meio da plateia e vão “surfando” em cima das cabeças dos bichos. Sim, ele fez exatamente isso!
Um “stage diving”
Virei pra ele e perguntei, bicho, como foi que tu fizeste isso? Ele falou: “Ah, tinha uma caixa de som lá em cima, eu subi em cima e pulei! A galera foi me jogando e eu fui só surfando!”. Porra, fiquei doido pra poder fazer o mesmo e lá fui eu. Subi em cima da caixa de som, gritei pra chamar a atenção e VLUPT! pulei lá em cima de galera! Rapaz, não é que deu certo mesmo? Pulei e a galera foi me levando… Aí, depois, foi só alegria! Foi só surfar por cima da galera! Estava realizado o primeiro stage diving da minha vida! Sweet…
Era chegada a hora do último país, da última semana, da última parada de toda minha viagem de volta ao mundo. Era chegada a hora de pousar em Portugal. Nos meus planos iniciais, eu iria ficar apenas uns dois ou três dias em Lisboa, acabou que eu cheguei mais cedo e fiquei um pouco mais de uma semana devido um encontro internacional do Couchsurfing (parecido com o que eu fui em Praga) que iria ocorrer lá e eu tava doido pra poder participar. Fiquei num couch de uma portuguesa que havia conhecido no encontro em Praga com mais outros quatro couchsurfers, o que deixou a casa BEM da hora.
O encontro e o passeio por Lisboa foram super da hora. Um dos problemas foi que lá não parava de chover e acabou por impossibilitar algumas atividades que a galera tinha planejado, mas não foi um grande problema.
Show de malabares de um dos couchsurfers que teve que ser interrompido devido a chuva
Lisboa é uma cidade bem legal e bem bonitinha. Uma das coisas mais legais é que ela é MUITO parecida com São Luís (ou São Luís é muito parecida com ela, como achar melhor). Há casarões com aquele estilo colonial, tal qual São Luís, por toda a Lisboa velha além de suas diversas ladeiras com ruas de paralelepípedos, tal qual… bem… tá ficando chato ficar repetindo.
Fachada de prédio coloniais em Lisboa
Uma coisa que eu esperava que ia acontecer, mas ainda assim me assustou, é o tanto, mas TANTO de brasileiro que tem em Lisboa (ou tinha, já que depois da crise uma galera voltou pro Brasil). Isso ocorre devido a uma coisa meio óbvia, já que como a língua é a mesma, Portugal é um dos destinos preferidos dos brasucas, assim como a Espanha é para os latinos-americanos. Mas cara, falando assim você não deve imaginar, mas é que tem muito, mas MUITO brasileiro lá mesmo. Assim que eu cheguei, pra começo de conversa, no aeroporto e peguei o busão, metade do ônibus era de brasileiros. Me entrosei com eles e já de começo conheci uma maranhense de BARRA DO CORDA (um cidade do interior do Maranhão) no busão! Bicho, se em São Luís já se é difícil encontrar alguém de Barra do Corda, imagina em Lisboa! Ela realmente me impressionou! Foi a segunda maranhense que eu conheci na minha viagem inteira depois do cara de Riga, na Letônia (link da história aqui). A mina era bem gente boa, mas não tivemos muito tempo pra conversar, já que ela logo desceu.
Banco do Brasil em Lisboa
Além disso, outra coisa que me deixou impressionado, é como parece que eles não gostam de brasileiros por lá. Por quê? Bem, cara, segundo alguns amigos me confidenciaram isso ocorre porque, bem, imaginem quais brasileiros que vão pra lá. A maioria são trabalhadores braçais e de baixa educação, então os brasileiros lá são como são os “nordestinos” para galera do Sul ou Sudeste. Mas ser um trabalhador braçal não é lá uma grande problema, o problema é que os portugueses são um povo muito formal e a gente, pelo outro lado, é MUITO bagunçado, se for de baixa educação então… Imagina… Mas o principal problema é que Portugal sempre foi um país muito tranquilo e seguro e hoje vê os seus índices de violência indo para as alturas principalmente devido a brasileiros que entram na Europa de qualquer maneira e, uma vez estando lá, se veem sem alternativas. Aqui no Brasil já sabemos como essa história começa e também sabemos como ela termina. Pelo que meus amigos portugueses me falavam, Portugal agora está tendo que lidar com alguns tipos de crimes que não faziam parte de sua realidade como assaltos a banco e sequestros e parte deles possuem brasileiros como envolvidos ou protagonistas. Até mesmo o PCC, por um momento, começou a preocupar os portugueses. Então, é como disse a minha amiga que me hospedou, os portugueses não tem problema algum com brasileiros que eles sabem que são pobres e vão a Portugal à procura de uma vida melhor, que vão lá pra poder construir as suas vidas, isso é bem benéfico para o pais. O problema são os brasileiros que migram pra Portugal e de uma certa maneira exportam os problemas sociais do Brasil em um país que não está acostumado a assistir o Datena quando chega em casa do trabalho. Bem, se isso serve de consolo, Portugal também enfrenta o mesmo tipo de questão com imigrantes africanos e até mesmo o Brasil, em menor escala, também possui alguns problemas com gangues de imigrantes, notadamente angolanos e paraguaios. Isso é um problema sério, pois apesar da grande maioria dos imigrantes serem pessoas de bem e agirem de uma maneira benéfica para a sociedade, se 98 locais e 2 imigrantes cometem um crime, a imprensa vai cair em cima dos imigrantes, dar muito mais valor aos 2 e querer te levar a crer que são um problema muito maior do que a realidade.
Em menor escala isso acabou ocorrendo comigo também. Meu jeito menos formal de tratar com as pessoas na rua meio que irritava alguns portugueses. Pra ilustrar eu lembro bem um dos primeiros diálogos que eu tive assim que eu cheguei a Portugal. Eu tinha acabado de descer do metrô, cheio de malas nas costas, e fui perguntar a um policial que vi na rua onde ficava o restaurante que eu procurava, segue o diálogo:
Senhor, como chego no Restaurante Tal?
Boa noite! – respondeu ele de uma maneira bem rude – Aqui em Portugal dizemos “Boa Noite” antes de perguntar algo em sinal de educação. Em que posso ajudá-lo?
Senhor, boa noite, como chego no Restaurante Tal?
Virando ali a esquina.
Cara, sem brincadeira, foi assim mesmo que o bicho me respondeu. Tirando o povo do aeroporto, foi o primeiro português que eu conversei na rua e o bicho foi MUITO rude comigo. Não vou dizer que todos portugueses são assim, até porque TODOS os que conheci pelo couchsurfing foram MUITO gente boa, mas pude notar um certo “ranso” de alguns portugueses nas ruas a conversar comigo quando notavam o meu sotaque brasileiro. Às vezes podia ser só impressão minha, mas, por via das dúvidas, pra todo português na rua que eu fosse perguntar uma informação eu sempre falava “boa noite” antes de começar a conversar, ainda que fosse meio-dia.
Depois de passar pelo medo de ser mais um brasileiro barrado na fronteira da Espanha, tudo mais ficou de boa. Segui para o lugar indicado e fui para o couch. Meu host chamava-se Daniel e era um catalão (catalão, não espanhol, como ele gostava de dizer).
Pra quem não entende o porquê de ele tanto enfatizar isso, deixe-me explicar. Há algum tempo atrás, a Catalunha foi um reino independente, mas posteriormente foi unificada (ou tomada, como eles mesmos gostam de dizer) pelo reino de Castela (daí vem o nome “Castelhano” que alguns se referem ao espanhol) formando-se assim a Espanha Contemporânea. Os bascos também entraram nessa e viraram Espanha, só que aí é outra história. Apesar dessa “unificação”, vários catalães sempre tiveram problemas com esse “rebaixamento” de Estado independente para província da Espanha. Esse ressentimento atingiu o seu auge durante a ditadura de Franco (1939-1975) quando a Catalunha perdeu sua autonomia e sofreu pesada repressão cultural e lingüística do regime (falar Catalão chegou inclusive a ser proibido). Hoje a Catalunha é uma comunidade autônoma da Espanha, sendo reconhecida como uma “nacionalidade”, e desfruta de uma maior autonomia, com Constituição própria e, claro, língua oficial. Só como última curiosidade, como a Catalunha não tem seleção oficial, a “seleção” deles é o time do Barcelona que possui como maior rival o Real Madrid, que, como o próprio nome já diz, é o principal time de Madrid e por tabela da Espanha (ou Castela). Não raro é comum você ver em jogos entre o Real Madrid e Barcelona alguns espanhóis vaiando o hino espanhol. Na verdade, não são espanhóis, são catalães =)
Dois monumentos dedicados a Catalunha. Acima, a chama que nunca é apagada pra simbolizar o nacionalismo catalão e abaixo flores para os que lutaram pela Catalunha.
Apesar de toda a expectativa que eu vinha nutrindo por Barcelona, acabou que nem foi tão legal quanto eu estava esperando. Sim, Barcelona é uma cidade bem interessante, mas acabou que eu acho que não tive muita sorte. As baladas que eu fui foram um tanto quanto meia-bocas e as pessoas que conheci, tirando o meu host, não foram lá tão interessantes. Foi legal andar pelas ruas medievais de Barcelona, ver as transformações e como foi bom pra cidade ter sediado os jogos olímpicos de 1992.
Barcelona é uma cidade de praia, portanto tava meio chata quando cheguei, no inverno. Uma das paradas engraçadas foi que eu ADORO Burger´s King. Quando saí daqui de Brasília, aqui não tinha, tampouco em São Luís. Como sabia que aquela seria a minha penúltima semana viajando, resolvi que Barcelona seria o lugar que eu comeria Burger´s King “até dizer chega”! Era pra comer até enjoar! Comer o suficiente pra não sentir saudade! Comecei a “jantar” lá todos os dias da semana! Mas comi sanduíche que não agüentava mais! Comia, comia e comia. Quando voltei de Barcelona, eu fui descobrir que tinham aberto um Burger´s King em Brasília e eu tinha entupido minhas veias pra nada.
Outra coisa que rolou e foi bem engraçada foi que andamos a cidade inteira a procura de um prédio que teoricamente mudava de cor quando estava a noite. Andamos, sem brincadeira, umas duas horas (não pegamos um ônibus porque cada esquina achávamos que estávamos pra chegar) e quando chegamos lá descobrimos que tínhamos ido ver o prédio no ÚNICO dia da semana em quem eles não ligavam as luzes. Felicidade extrema.
Fomos também em uma exposição bem interessante. Artistas catalães, cansados de ver pessoas serem tratadas como índices tiveram uma ideia no mínimo inusitada. Resolveram pegar diversas estatísticas e personificá-las. De que maneira? Pra cada ser humano de uma estatística havia um grão de arroz. Logo, 2 milhões de africanos morrem de AIDS por ano? Eles separam 2 milhões de grãos de arroz e fazem uma pilha pra você poder ter uma ideia. Existem 214 milhões de pessoas subnutridas na Índia? 214 milhões de grãos de arroz pra poder exemplificar. Cara e isso é impressionante, viu? Quando falamos de números assim, ao léu, realmente não te transmite o que é esse número em seres humanos. Era realmente IMPRESSIONANTE ver algumas montanhas de grãos de arroz do lado de algumas estatísticas que eu até tinha noção de quanto era numericamente, mas não tinha noção do que era se fosse pra contar…
PARA VARIAR, PROBLEMAS NO AEROPORTO
Inicialmente eu até pensava em ficar mais tempo na Espanha. De Barcelona eu tava planejando viajar para outras cidades na Espanha como Madrid, Bilbao ou Ibiza. Ocorre que, como falei há alguns posts atrás, a crise de 2008 estourou bem no meio da minha viagem e eu vi o meu dinheiro (que estava em reais) praticamente virar pó com as super valorizações do dólar e do euro. Devido a isso, tive que ir adiantando a minha viagem e acabou que eu tive os meus planos de viajar pela Espanha frustrados.
Placas em Catalão, língua oficial de Barcelona e de toda Catalunha
Marquei a minha passagem pra Lisboa, Portugal, mais cedo e fui para o aeroporto pra poder voar. Lá ia rolar o Encontro Europeu do Couchsurfing, o LIU (Lisbon Invites You). Caraca, tava radiante pra poder chegar logo em Lisboa e rever uma galera que havia conhecido em Praga. Cheguei serelepe e saltitante ao aeroporto e quando fui pra passar a minha bagagem, a surpresa! Meu nome não constava na lista de passageiros. Perguntei pra mulher como isso era possível e ela falou que era isso mesmo. Meu nome não tava lá e por isso eu não poderia voar. Mas pombas, eu havia reservado a minha passagem ligando no Brasil! Ela me mandou num guichê e o cara começou a me atender.
Vasos preguiçosos em Barcelona
Cara, sério, parecia cena de filme. O bicho tinha uma cara de ser meio maluco e falou que ia resolver o meu problema. Fiii, quando vi a cara do sujeito me deu foi medo do que ele ia fazer. E o cabra falava que não tinha como resolver e que tava difícil. E soltava gargalhada. Ele virava e falava: – Ih, cara, vai dar pra eu resolver não!!! HAHAHAHAHA – e começava a rir descontroladamente! Eu comecei foi a achar que ele tava era de brincadeira com minha cara! Nada! Ele era meio pirado mesmo. No final acabou que ele conseguiu mesmo resolver meu problema e entrei no avião em direção a Lisboa!
Bem, alguns posts atrás já escrevi contando como foram minhas experiências entrando na Europa. Cara, pode parecer besteira, mas toda vez que você vai entrar na Europa, é sempre aquela tensão. Vem sempre aquela história mal-explicada dos pesquisadores brasileiros que foram barrados na Espanha e deu maior chabu e crise diplomática. Você sempre fica naquela, “pô, os caras, pesquisadores, iam fazer uma viagem curtíssima pra Portugal, tinham convite do evento no bolso. Brasileiros são os mais barrados na Espanha…” e coisas assim. Não adianta querer falar que não, sempre dá aquele gela quando você está pra atravessar a fronteira.
Tranquilo, todas as outras vezes que eu havia passado tinham sido de boa, sempre tava com todos os documentos, sempre tinha a passagem de saída com a data marcada no bolso, enfim, não havia como eles encresparem comigo, afinal, tava com toda documentação certa comigo. Era só ficar de boa e responder as perguntas. E assim foi, aquele tranqüilidade pra passar a fronteira na Áustria (link do post aqui), mais de boa ainda pra passar na Eslovênia(link do post aqui), Suíça tiveram algumas perguntas (link do post aqui). Tudo certo. Não havia com que preocupar.
Só quando estava no avião voando de Zurique para Barcelona, na maior tranqüilidade, que eu fui lembrar. “Êpa! Mas peraí! A Suíça… A Suíça não FAZ PARTE da União Européia. A Suíça não faz parte do acordo de livre tráfego de pessoas na Europa. Isso quer dizer que… que… CARACA, eu vou passar por UMA FRONTEIRA EUROPÉIA e não me preparei em NADA! E pior, vou passar pela mais famosa moedora de carne imigrante brasileira, a temida ESPANHA! EMBRIÃO da crise dos imigrantes!”. Calma! Não era preciso pânico! Era só lembrar o que eu tinha comigo na minha bagagem de mão!
Vamos lá! “Don´t be Panic”, já dizia o Guia do Mochileiro das Galáxias! Era só lembrar o que eu tinha e apresentar lá na hora. Nem ia dar nada, pô! Era só uma semana e meia na Europa mesmo! Vamos lá! Passagem de volta pro Brasil? Er… Não tinha. Seguro saúde? Vencido! Comprovante de renda? O que? Dinheiro no bolso? Uns 20 euros! Carta convite? Servia o endereço do meu couch impresso? Tava arrumado? Não parecia um imigrante ilegal? Bem, eu tava de cabelo grande, barba, bermuda e camisa. Se você olhasse pra mim jurava que o Manu Chao tinha se inspirado em minha pessoa pra poder compor a música “Clandestino”!
Cara, eu tava realmente ferrado! Eu não tinha PORRA NENHUMA que pudesse me ajudar caso o cara do posto de imigração quisesse encrespar comigo! Mas NADA mesmo! Sequer a passagem de volta comigo! E tava atravessando o posto de fronteira que TODO MUNDO falava que era pra ter o maior cuidado possível, PIOR, por Barcelona, que junto com Madrid são os dois piores pesadelos de brasileiros! Cara, eu tava realmente encrencado. Enfim, agora não tinha mais jeito. As poucas coisas que eu poderia demonstrar que só ia a turismo a Barcelona estavam na minha mala dentro do avião e eu não teria acesso. O negócio agora era, no melhor estilo Marta Suplicy, relaxar e gozar.
O avião pousou! Tensão! Me senti como um boi entrando no lugar do abate! Passou o primeiro, passou o segundo, passou o terceiro. Minha vez. Comecei a já imaginar eles me levando pra salinha, me descendo o cacete e depois me mandando de volta pra casa. Eles quebrando meus ossos só por diversão. Cheguei, olhei para o guardinha ele pra mim e começou a falar:
– Buenas tardes, amigo! O que quieres aka en Barcelona? (ou qualquer coisa parecida em Espanhol, que eu não sei falar!)
Olhei pra ele. Pombas! Não sei falar espanhol! NUNCA que eu conseguiria levar uma entrevista em outra língua que não fosse inglês ou português. Entrevista de fronteira é coisa séria! Imagina o cara te pergunta uma coisa, tu respondes achando que estais falando algo e estais dizendo outra coisa totalmente diferente? Não tive dúvida, comecei a falar em inglês!
– Então, amigo, eu sou brasileiro, como podes ver no meu passaporte. Consigo até entender espanhol e tenho certeza que se eu falasse em português claro e devagar, você compreenderia também. Mas sabe o que é? Eu prefiro falar em inglês, pois tenho medo de eu entender algo errado ou você entender algo de errado comigo e isso dar problema. Portanto, se possível, gostaria que a entrevista fosse em Português.
E ele? O que respondeu? Sabe aquela carinha de “não tou entendendo porra nenhuma”? Mas foi essa mesma que ele fez pra mim! Ficou me olhando pra mim com aquela cara de sonso e tentando me entender. Ele olhou pro cara do lado, falou em espanhol com ele. Falou algo em espanhol pra mim, carimbou meu passaporte e me mandou seguir. Nada mais! Sim, isso mesmo que você entendeu! O cara NÃO FALAVA INGLÊS! Sim, o guarda do posto de imigração não falava inglês e, portanto, não fez entrevista nenhuma comigo! Só me mandou seguir! Eu juro que não entendi nada quando isso ocorreu! Achei que ele tinha mandando eu seguir, que eu seria dirigido a uma salinha, lá ia ter alguém que falava inglês e aí sim eu seria entrevistado! Nada! Quando eu menos me espanto, já tava no meio do saguão do aeroporto caminhando livre como um passarinho! Até saí de dentro do saguão e fui pra área pra pegar táxi, só pra confirmar que não tava na área internacional! Cara, você consegue compreender o grau disso? Bicho, em todo minha viagem não teve aeroporto ALGUM que o responsável não falava inglês, fosse o Nepal, fosse a Turquia. Agora na Espanha, no Aeroporto Internacional de Barcelona, um dos mais movimentados da Europa, o cabra não sabia falar inglês! Imagina se eu fosse fazer besteira? Ele não ia neeemmm desconfiar! Os únicos lugares que me deparei com guardinhas que só falavam a língua local foram em países árabes e ainda assim quando atravessava por terra, NUNCA em aeroportos!
Ronaldo fazendo propaganda de… cabelo? Qual é a próxima? Ronaldinho Gaúcho fazendo propaganda de pasta de dente?
Sim, mas era isso mesmo! Eu tava na Espanha, atravessando a fronteira sem passagem, sem dinheiro, sem reserva de hotel, sem seguro-saúde, sem PORRA nenhuma, demonstrando que todo esse terrorismo que a imprensa sempre fez com passagem de fronteira na Europa é uma grande babaquice!
Antes de ir pegar meu busão para o meu couch, ainda tive que discutir com a menininha do câmbio do aeroporto que não queria trocar minhas cédulas de moeda da Eslováquia. A menina teimava porque teimava que a Eslováquia era Euro e, portanto, ela não podia aceitar e tentando explicar pra topeira que na Eslováquia ainda não era Euro, ela tava confundindo era com Eslovênia! Hahahah… Acabou que a única dor-de-cabeça que tive no aeroporto de Barcelona foi só aturar essas duas topeiras de guichê: a mina do câmbio e o imbecil do posto de controle.
De todos os postos de imigração que tive que passar, tirando Israel (aquilo não era um posto de imigração, era um bunker!), o que eu tive mais trabalho pra poder atravessar foi o da Suíça. Apesar de todo terrorismo que vemos na imprensa sobre imigração, o trabalho que a Suíça me deu foi só que, antes de entrar, o guardinha me perguntou pra onde eu ia, de onde eu vinha e o que iria fazer na Suíça, onde eu iria ficar e quanto tempo iria passar. Respondida todas as perguntas, eles carimbaram o meu passaporte e SÓ! Estava livre como um passarinho, saltitando e paparilando pelos corredores do aeroporto. Sim, cara, esse foi o maior trabalho que tive pra poder passar em fronteiras, pq todas as outras eles simplesmente perguntavam meu nome e depois carimbavam o passaporte.
Uma coisa interessante foi que, imagina, tinha acabado de pegar um voo do Egito, um país pobre, direto pra Suíça, um dos países mais ricos do mundo. Será se tem gente que planeja fugir de lá pra poder morar na Suíça? Pois é, os suíços pensam a mesma coisa. Cara, mas foi a gente PISAR fora do avião para três guardinhas de fronteiras saírem abordando geral e perguntando pra onde iam e o que iriam fazer em Zurique. Logicamente, eles abordavam quem tivesse traços árabes e, caso achassem necessário, encaminhavam os árabes para a salinha. Sim, isso mesmo, os árabes eram entrevistados por pelo menos dois guardinhas diferentes antes de poderem entrar na Suíça.
Confesso que sinto um pouco de dificuldade em escrever sobre Zurique. Não que me falte palavras para descrever o lugar (como Petra ou a Tailândia), me falta mesmo é o que escrever. Zurique pra mim não tem nada pra ver, nada que justifique uma viagem pra lá. Assim, se você gosta de querer tirar onda de chique, tomar um chá de alguma coisa em algum lugar bonitinho e depois sair tirando onda quando chegar no Brasil que foi a Zurrique (sim, com o sotaque francês mesmo) lá é uma boa pedida. Tirando isso não há nada demais. Não há elefantes caminhando pelas ruas, não há pirâmides no meio do deserto, uma praia muito legal pra você surfar, nenhuma construção arquitetônica em que você olhe e pense “uau, como eles foram capaz de fazer isso há centenas de anos atrás?”. Nada disso, Zurique é apenas mais uma cidade européia: arrumadinha, limpa, cara, com um bando de gente mal-humorada e de cara fechada andando nas ruas. A cidade parece uma casa de boneca, é verdade, mas está longe de ser uma Praga ou uma Budapeste. Trocando em miúdos, é apenas um bom lugar pra você fazer uma escala do seu voo e foi por causa disso que eu fui pra lá, só porque precisava descer em algum lugar saindo de Cairo (que vale MIL VEZES mais).
Ah, a língua alemã. Sempre tão bela e tão delicada! É só ler o nome das estações aí e lembrar qual é a que você vai pra sua casa…
Apesar de tudo, Zurique não foi de tão ruim assim. Pelo menos boas coisas ocorreram por lá. Primeiro que a minha host foi MUITO legal. O nome dela era Yaga e ela tinha acabado de entrar no couchsurfing, eu fui o seu primeiro guest. Ela era muito doce. Foi muito legal os tempos que passamos juntos e até hoje mantemos contato no MSN. Uma coisa engraçada que aconteceu foi que eu não tinha checado direito como tava a temperatura em Zurique antes de ir pra lá. Enquanto em Cairo tava fazendo um calor de 30ºC, em Zurique tava fazendo entre 0º e -5º. Meu amigo! Pense num menino que tremia de frio quando chegou? Cara, eu não tinha mais nada pra se proteger do frio! Cachecol, luva, meia grossa, gorro, nada! Só tinha os casacões mesmo! Resultado? Tive que pegar tudo emprestado com minha host. Só que ela só tinha tudo rosa! Fiquei lá, no primeiro dia, andando todo de rosa até que pude comprar tudo que precisava e poder sair na rua de boa. Tenho certeza que quem passava na rua olhava pra mim, TODO COLORIDO, e pensava “tinha que ser latino mesmo!”.
Segundo que foi em Zurique a primeira e única vez na minha vida que pude presenciar neve ou ver um dia nevando. De início eu estava planejando ficar lá apenas duas noites (mais do que suficiente), mas depois acabei postergando a minha passagem por mais duas noites porque a previsão do tempo dizia que só iria nevar três dias após a minha chegada (desde que eu havia chegado só chovia o dia inteiro). Fiquei numa sinuca de bico, pois tinha sete dias pra ficar em Barcelona e acabei ficando só cinco pra poder ficar mais dois em Zurique e enfim ver neve que, graças a Deus, ocorreu.
Nada como um dia ensolarado pra bater uma foto maravilhosa! Gente, detalhe, aquilo na frente é um lago, viu?
Teve também um Free Hugs que foi bem legal, conheci uma romena super gente boa e foi bem da hora sair abraçando aquele povo sisudo pelas ruas. Cara, apesar de eles parecem mal-humorados, era só a gente oferecer um abraço grátis que eles abriam um sorrisão.
Meu primeiro bonequinho de neve! Tá, não foi aquele bonecãããão, mas tá valendo, não?
Tá nevando!!!
A imagem que ficou pra mim de Zurique foi de uma cidade muito rica, onde tudo funciona e tudo é bem arrumadinho. Mas se eu voltaria pra lá novamente a turismo? Só se fosse só pra fazer outra escala…
Como havia falado, de início, a Jordânia não estava nos meus planos pra ser visitada. Pra mim parecia um lugar muito distante e inóspito pra ser alcançado. Eu até pensava em ir a Amã, capital, mas estava lá embaixo na minha escala de prioridades. Tudo mudou depois que as pessoas começaram a me falar de Petra.
Se liga na riqueza de detalhes esculpidas na coluna
Enfim, eu acho meio difícil expressar em palavras o que é realmente andar por entre aquelas muralhas naturais de Petra. Em ter a sensação de estar no meio do de um deserto e do nada um dos mais extraordinários trabalhos humanos surgindo diante dos seus olhos.Pra quem não sabe o que é Petra. Lá é um dos lugares mais impressionantes já construídos pelo o homem. Petra significa “rocha” em grego e é isso mesmo que ela é: uma cidade incrustada nas rochas. Deixe-me ser mais claro. O povo Nabateu, uma tribo árabe, ao chegar ao local, encontraram uma região repleta de rochas, cânions e gargantas por todos os lados. Lá resolveram edificar a sua cidade e viver. Como o que não faltavam eram paredes de rochas e cavernas eles pensaram “Hum, porque não facilitar o trabalho?” e simplesmente começaram a esculpir as suas construções nas pedras. Não, eles não arrancavam a pedra, esculpiam e depois levantavam as edificações. Eles simplesmente iam nas paredes de pedra e, literalmente, iam fazendo um buraco nelas. Cara, isso era muito louco! Durante centenas de anos a cidade prosperou como uma importante rota comercial chegando a ter uma população de quase 20 mil pessoas.Os Estados Unidos possuem duas atrações turísticas semelhantes e que são famosas no mundo inteiro: os rostos de quatro presidentes americanos esculpidos no Monte Rushmore e o Grand Canyon. Petra é quase que uma fusão dos dois, com a diferença que foi esculpida nas rochas há milênios sem a utilização de dinamites ou engenharia avançada, só de picaretas!
Grand Canyon e, abaixo, o Monte Rushmore
E da mesma maneira misteriosa que foi construída, Petra foi misteriosamente desocupada. As conclusões mais aceitas propõem que os habitantes da cidade simplesmente fugiram de lá depois que dois sucessivos terremotos destruíram quase que toda a cidade. Temendo que outros pudessem estar por vir e com a perda de importância da rota comercial que passava por lá, os habitantes remanescentes decidiram desocupar a cidade.
Após o abandono, Petra ficou esquecida durante centenas de anos. Durante todo esse tempo, o Ocidente imaginava que fosse uma lenda e que realmente nunca existira, mais ou menos como Atlântida ou a cidade de Tróia. Em 1812, porém, um explorador suíço “redescobriu” a cidade e hoje Petra é um dos principais pontos turísticos de todo o mundo. Ficou ainda mais famosa quando foi o cenário das aventuras do filme “Indiana Jones e a Última Cruzada”. Até novela da Globo já foi filmada lá.
Não tenho muitas histórias de Petra. Só passei um dia por lá e ainda assim fiquei só batendo fotos e passeando entre as ruínas. De qualquer maneira, faltaram presepadas, mas sobraram histórias e saudades de um dos lugares mais impressionantes desse planeta! Petra é SHOW!
Depois de Petra, a Helena voltou para a Palestina e eu resolvi atravessar por barco o Mar Vermelho pra assim chegar logo ao Egito e evitar todo o trabalho e rotina de entrevistas para passar pela fronteira de Israel. Entrei no Egito por mar. Era chegada a hora de se preparar para voltar para a Europa. Suíça!
Cara, se liga em um dos beduínos que trabalhavam por lá. Diz aí se ele não é IGUALZINHO o Jack Sparrow do filme “Piratas do Caribe”?
Estávamos andando no meio do deserto e olha o que achamos no meio do NADA. Esse simpático gatinho que todo mundo que passava, passava a mão na cabeça dele. Me lembrou um gato semelhante que achei em Istambul.
Alguém fez um comentário no post passado, acho que a Paulistana, com uma proposta que eu achei bem interessante. Ela pedia que eu desse a minha visão sobre o conflito entre Israel e Palestina. Cara, se posicionar sobre um tema tão delicado como esse é realmente muito complicado. Como falei, desde que o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo existem, eles estão lutando entre si, com um se aliando ao outro com o passar do tempo.
É complicado falar sobre a Questão Palestina por que, por mais que queiram nos fazer acreditar, esse conflito que está ocorrendo agora, logicamente, não se iniciou com a criação do estado de Israel. Só pra lembrar, as cruzadas nada mais foram do que a tentativa de se recuperar a Terra Santa das mãos dos infiéis muçulmanos que ocupavam Jerusalém há um bom tempo. Por nove vezes os cristãos guerrearam com os islâmicos, algumas vezes obtendo sucessos outras não.
Desde o começo do século e, principalmente, depois do Holocausto, milhões de judeus começaram a comprar terras e a migrar para a Palestina onde começaram a formar os seus kibutzi. Após a declaração de sua independência (o qual o Brasil foi um dos maiores entusiastas), Israel foi atacado por vários países árabes coligados e milagrosamente conseguiu derrotá-los. Com a justificativa que precisava de faixas de terras para se proteger dos próximos ataques, anexou diversas regiões de países vizinhos e no caminho ou expulsou (versão palestina) ou simplesmente assistiu os palestinos indo embora temendo por suas próprias vidas (versão de Israel). Esses palestinos acabaram indo se refugiar nos países vizinhos (Síria, Líbano, Jordânia…). Aí estava feita a panela do diabo.
Os judeus de Israel, por temerem se tornar uma minoria no seu próprio país, não aceitam que os palestinos voltem. Os países árabes não aceitam negociar enquanto os palestinos não puderem voltar para suas antigas moradas. E os pobres dos palestinos ficam sendo usados como massa de manobra por ambos os lados.
O cerne da questão é: – Afinal, a quem pertence as terras? Quem é o LEGÍTIMO dono? Essa resposta é muito difícil de ser respondida por que terras de países não são como o terreno de sua casa. Quando você vai comprar a sua casa, você vai lá, conversa com o antigo morador, ele lhe vende, o Estado lhe confere legitimidade e a casa é sua. Ninguém pode vir, dizer que morava lá há quarenta anos atrás e lhe expulsar de onde você está se você fez tudo de maneira legal, afinal, como falei, há o Estado para lhe garantir a legitimidade. O problema é que com países as coisas não são tão simples…
Num pensamento simplista, poderíamos dizer que os judeus “invadiram” o lugar onde hoje é Israel e expulsaram os Palestinos que lá estavam. Portanto eles “roubaram” as terras e casas dos árabes. Mas quando os árabes lá chegaram, não havia ninguém? Pelo contrário, os árabes também expulsaram os antigos detentores de Jerusalém (se não me engano os bizantinos) e ocuparam a terra por lá ficando. Então, eles também expulsaram alguém pra poder se alojar por lá. Além de que, se você pegar lá atrás na história, vai ver que os judeus são provenientes dessa região (guiados até lá por ninguém menos que Moisés) e foram expulsos pelos romanos há dois mil anos atrás da terra que eles acreditam lhe ser prometida por Deus. Por isso que você ao conversar com um ultra-ortodoxo ele vai argumentar que os judeus estão apenas voltando pra casa, ainda que 2000 anos depois. Você pode falar sobre essa história toda durante horas, mas imagina que você foi expulso da sua casa, da sua cidade? Será se um dia você vai aceitar isso? O Hamas tá aí pra poder te dar a resposta!
Por isso que é muito complicado opinar sobre esse assunto, cara! Israel tem o direito de existir e realmente precisa se proteger dos seus vizinhos hostis (Israel nunca iniciou uma guerra contra um país vizinho, eles sempre foram ameaçados ou atacados primeiro. Se a resposta foi totalmente desproporcional, aí é outra história. Bom lembrar que um dos principais objetivos do Irã e do Hizbollah é empurrar todos os judeus para o mar), mas ao mesmo tempo em que se protege, trata os palestinos como gado. Os palestinos também têm o direito de terem um Estado independente, mas não aceitam o traçado que Israel está disposto a ceder. Como não tem como fazer frente ao poderio bélico de Israel, utilizam o terrorismo para poder atacar. Por isso que eu sempre digo que ambos os lados estão super certos e super errados ao mesmo tempo. Há muita gente querendo pouca terra e esse conflito, infelizmente, tende a se arrastar durante um bom tempo…
SAINDO DE ISRAEL
Depois de passar por altas aventuras com uma turminha do barulho, meu plano era seguir de volta para o Egito e pegar meu avião em direção à Suíça. Pra minha grata surpresa, Helena tinha planos diferentes. Ela e a mãe dela planejavam viajar para a Jordânia para visitar as ruínas de Petra, a cidade perdida, a cidade construída nas pedras da Jordânia.
Tinha ouvido um pouco sobre a história dessa verdadeira pérola do Oriente Médio, mas não tinha feito planos de ir para lá. Na verdade parecia até um pouco difícil de chegar, por isso eu meio que desanimei. Depois do convite da Helena e de descobrir que Petra foi eleita uma das sete maravilhas modernas, não pensei duas vezes e resolvi ir para lá com ela. Só não sabia que ia dar tanto trabalho.
Trabalho pra poder chegar lá? Não, amigo, trabalho pra SAIR de Israel. Raios! Eu querendo sair do país e os caras pareciam que não queriam deixar eu ir embora. Foi quase que a mesma dor-de-cabeça pra poder entrar. Entra aqui, é entrevistado aqui. Entra ali é entrevistado ali. E por aí vai! Cara, isso porque eu tava indo embora! Passei quase uma hora para atravessar uma faixa de terra de uns cem metros. O melhor não foi isso. O melhor foi que fizemos amizade com uma brasileira que estava por lá atravessando também. Essa brasileira nos presenteou com uma das cenas mais engraçadas/sem noção que pude ver em toda minha vida.
Estávamos nós quatro conversando enquanto os guardas checavam os nossos passaportes. Quando eu olho pro lado, tá lá a cena inimaginável! A gente já DENTRO da base militar, olha pro lado e tá a mulher com a câmera ligando e filmando tudo lá dentro! Pra quem não sabe o teor da maluquice que ela estava fazendo, basta lembrar o que aconteceu comigo quando eu fui bater uma foto na RODOVIÁRIA. Cara, sabe quando acontece aquela parada que você não tá nem um pouco esperando? Tipo, imagina que você está andando de boa na rua e um elefante rosa com bolinhas amarelas passa do seu lado fazendo malabarismos! Foi mais ou menos como eu me senti quando eu vi aquela mulher com a câmera ligada! Fiquei uns cinco segundos com aquela cara de “MAS QUE PORRA É ESSA?” olhando pra ela e tentando não acreditar! Fiquei tão confuso que na hora de falar “meu, desliga essa câmera”, errei até a língua e comecei a falar em inglês com ela. Depois que consertei a língua correta, falei pra ela desligar e ela, graças a Deus, desligou primeiro e foi me perguntar depois por quê. Felizmente o guardinha não viu o que ela tinha feito. Perguntei por que ela estava fazendo aquilo e a resposta foi o que coroou aquela noite: – Ah, mas a lua tava tão bonita, resolvi fazer uma filmagem dela! (!!!!!!!!). Nessa hora deu vontade de dar uma chacoalhada e gritar “AMIGA! ISSO AQUI É UMA BASE MILITAR DE UM DOS PAÍSES MAIS PARANÓICOS DO MUNDO! Espera a gente passar pro lado da Jordânia que lá, cem metros depois daqui, vai ter uma lua tão bonita quanto essa!!!!”. Mas fiquei de boa.
Tudo deu certo e escapulimos pro lado da Jordânia, mas não sem antes conversar em português com, pasmem, o último guardinha que checava nosso passaporte. Ele havia morado em São Paulo por um tempo e ainda lembrava algumas palavras em português. Cara gente boa demais. Foi uma das ÚNICAS pessoas simpáticas que pude conhecer em Israel, pra falar a verdade. Na saída de Israel ainda tive que pagar uns 40 dólares de “taxa de saída” (!!!). Pra entrar eu não paguei nada, mas pra sair tive que levar essa facada! Fiquei me perguntando se eles tavam fazendo aquilo comigo só pra eu nunca mais voltar. Se foi pra isso, cara, pode ter certeza, eles chegaram muito próximo disso. Só pra vocês terem um ideia, depois que saí da Jordânia, teoricamente deveria passar por terra por Israel em direção ao Egito. Para evitar toda essa dor de cabeça, preferi pegar um ferry boat da Jordânia, atravessando todo o Mar Vermelho e já descendo direto no Egito. Deus me livre passar por todos esses postos de fronteira novamente. Pode ter sido só um infeliz azar, mas, cara, Israel me entristeceu bastante.