Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Passeamos a tarde inteira de barco. Depois de um tempo, o guia parou o barco num cantinho pra gente esperar o pôr-do-sol. Cara, que cena linda, viu? É muito da hora ver o sol indo se pôr devagarzinho lááááá atrás do rio e das árvores. Ficamos admirando aquele sol se pondo e então seguimos viagem de volta para o hotel fazenda.
A viagem de volta, rio acima, também foi bem interessante. O guia ia com uma lanterna focando as margens e dentro dos rios procurando alguma coisa interessante. Cara, o que a gente mais via eram muito, mas MUITOS olhos de jacarés por todos os lados. Mas parecia que uma hora ou outra o barco ia passar por cima de um deles, tanto eram os olhinhos que víamos por todos os lugares. Mas o mais legal mesmo não foi nem os jacarés, o mais da hora foi que teve uma hora que o guia pediu silêncio pra todo mundo e começou a focalizar algo estranho do outro lado da margem. Ele foi chegando perto, perto, perto… Quando vimos, era uma onça, descansando, imponente, do outro lado do rio. Cara, muito legal ver um animal assim, no meio do ambiente selvagem. Só que claro, nada podia ser perfeito. Aquela velha, CHATA, ENJOADA DA PORRA, deu tanto escândalo quando o guia começou a chegar mais perto da onça, que ela acabou entrando pra dentro do mato. MISERÁVEL!
Essa foi a melhor foto que consegui bater com minha câmera maravilhosa
Na volta vim conversando com o guia e perguntei se ele não tinha medo desses bichos de dentes afiados que ficavam andando pra cá e pra lá no Pantanal e ele me falou que nunca houve problema. Piranhas vez ou outra mordem as pessoas, mas disse que não é que nem filmes, onde uma morde e aí já vem uma cambada mordendo uma atrás da outra. Disse que vez ou outra elas até mordem, mas que você, apesar de ficar sangrando, dá pra nadar até a outra ponta da margem antes de ser todo comido. Jacaré então, esse sim era bem mais tranquilo. Ele falou que o máximo que aconteceu de um jacaré ir pra cima de alguém foi numa pousada que ele trabalhava antes. Diz que lá tinha um que era meio que de estimação da galera. Todo resto de comida e de peixe eles iam lá e jogavam pra esse jacaré comer. O jacaré, sabendo que ali tinha comida fácil, ficava por ali mesmo. Os turistas então, adoravam, pois o bicho era mansinho e todo mundo ia bater foto com ele. Até que um dia uma turista tava lá pescando e puxou um peixão imenso com o anzol. Rapaz, pra que? Esse jacaré diz que viu esse peixe no anzol, os olhinhos deles começaram a brilhar e lá se danou ele pra correr atrás do peixe. Mas gente, o detalhe, o peixe ainda estava na vara da turista. Rapaz, diz que esse jacaré começou a correr atrás dessa mulher e essa turista começou a gritar desesperada por socorro achando que ele queria comer ela! Diz que o jacaré só parou de correr atrás dela quando ela largou a vara com o peixe no chão. Eu perguntei pra ele o que ele fez quando viu a cena: – “Eu? Eu não fiz nada, fiquei foi só rindo mesmo, pois sabia que o jacaré não estava correndo atrás da mulher, mas sim atrás do peixe”. Isso, a mulher correndo desesperada, achando que ia ser devorada, temendo PELA VIDA e o cidadão dando risada. Vida de guia é uma graça mesmo.
Depois de realizado o passeio e de ter comido como um bicho quando voltei pro hotel-fazenda (cara, esses lugares que você paga um valor e come até morrer, sempre me fazem muito mal), acatei os conselhos que algumas pessoas me deram antes de eu ir pro Pantanal e fui direto pra cama dormir. Por quê? Bem, todo mundo sempre me aconselhou a não perder duas coisas no Pantanal, o nascer do sol e o pôr-do-sol. Bem, o pôr-do-sol eu já tinha visto, faltava agora só o nascer.
E AMANHECE NO PANTANAL
Acordei cedinho no outro dia, por volta de umas cinco da manhã e segui pra ponte que havia logo perto pra poder esperar o sol nascer. O grande problema foi como chegar nessa ponte. Por quê? Cara, como falei, era um hotel fazenda no MEIO do mato e pra poder sair desse hotel fazenda eu teria que sair andando no MEIO do mato. Qual o problema? Rapaz e o medo de uma onça sair do meio do mato e querer me comer? Pode parecer besteira, mas depois de vir ouvindo história de uma onça que comeu uma menina e só deixou o pé de fora e depois de ver com seus próprios olhos uma no meio de um mato IGUALZINHO o que eu iria atravessar pra poder chegar na ponte, aumentava e muito o meu receio de acabar virar comida de felino. Mermão, chega eu ia tremendo que só vara de bambu verde. Pode parecer besteira, mas rapaz, no meio de um mato escuro (sem mente poluída) qualquer coragem se esvai pelos dedos. De qualquer forma, foi tudo bem pra poder chegar na ponte.
Caminhão que quase me mata atropelado
Na ponte, outro problema, onde eu deveria ficar acomodado pra esperar o nascer do sol? Cara, não é besteira, o nascer do sol ia demorar um pouquinho pra poder começar e eu também não ia sair de lá exatamente após o sol nascer, era preciso passar um tempinho por lá. Procurei um pouco e quando estava pra me sentar no parapeito da ponte pra poder esperar o sol nascer eu só escuto FOOOOOMMMMM e lá vem um caminhão que nem um louco. Juro que a primeira coisa que eu pensei foi em me jogar de cima da ponte, haja vista que eu acreditava que REALMENTE ia ser atropelado. Na hora consegui achar um espacinho pro lá e me abriguei do caminhão. Pantanal doido, quando não te mata com onça, quer te matar com caminhão!
Depois do amanhecer no Pantanal, fomos para uma cavalgada. Cara, não sei vocês, mas eu NUNCA havia cavalgado na minha vida. Bicho, é muito interessante!!!! O cavalo parece um carro! Você puxa ele pra um lado, ele vai pro lado que você puxou, puxa ele pro outro, ele vai pro outro! Que nem um volante!! Aí você puxa pra trás, ele para! Cara, que mágico! O legal foi só ficar passeando por aquelas fazendas e poder observar melhor os passarinhos cantando. Tentei até bater foto de uns tuiuiús, mas não deu muito certo.
VOLTANDO PARA BRASÍLIA
Depois de todo esse passeio, era chegada a maldita hora de voltar para casa. Expliquei mais ou menos pro dono do hotel fazenda como era meu plano pra poder voltar pra Brasília e ele fechou de me deixar no lugar que o ônibus em direção a Campo Grande ia parar. Comprou minha passagem e tudo. Rapaz, os caras desse Hotel Fazenda Lontra Pantanal são gente boa mesmo. Super recomendado.
“Curioso” o nome desse lugar, não?
Enquanto esperávamos, ele, pra variar, foi me contando as mesmas histórias que havia por lá e que todo mundo contava: Problemas com o Paraguai e gente sendo atacada por onça. Não precisa eu repetir mais uma vez as histórias que eu já havia escrito. De qualquer forma, foi só interessante ouvir ele me falar que o guia que levou a gente pra fazer o passeio do pantanal, não só falava inglês, como falava espanhol, francês e hebraico. Sim, o cara falava hebraico! Disse ele que tinha guias lá no Pantanal que os caras não sabiam escrever o nome, mas sabiam falar duas ou três línguas tamanha a convivência que eles tinham com estrangeiros desde pequenos.
Peguei o meu busão e segui em direção a Campo Grande.
Cheguei em Campo Grande por volta das cinco da manhã. Meu voo pra Brasília só saía de lá meio dia. Sem problemas, eu já tinha planejado o que iria fazer. Fui caminhando até o centro de Campo Grande e procurei próximo a rodoviária alguma pousadinha onde eu pudesse dormir umas três ou quatro horas e talvez tomar um banho. Sussa, acho que uns 30 reais pra isso estava de bom tamanho. Rapaz, não era tão fácil como parecia.
Cara, eu chegava nas pousadinhas e explicava “Não, eu tenho um voo pra daqui a pouco, só quero tomar um banho, trocar de roupa e tirar um cochilo”, mas bicho, era difícil dos caras entenderem, viu? Rapaz, todo canto só queriam me cobrar diária inteira, 60 reais pra cima só pra eu passar algumas horas lá dentro. Até que… Bem.. até que teve uma única pousada que aceitou me hospedar. O cara falou que fazia um preço camarada e que só me cobraria 20 reais por isso. Beleza, só comecei a desconfiar de que algo não estava de boa, mas tranquilo. Pedi, pra poder dar uma subida e conferir o quarto, rapaz… pra que?
Primeiro que quando eu estava indo pro quarto, no corredor cruzei com uma simpática, digamos, “donzela” bem parecida com a Amy Winehouse. Sim, como essa foto abaixo.
Já comecei a ficar com um pouco de receio de ficar por lá, mas rapaz, depois que eu vi o quarto foi que me deu mais nojo ainda. A Pousada Bonaparte de Maceió parecia um hotel cinco estrelas comparado com aquele muquifo (sim, o lugar era ruim MESMO!). Meu sono até passou nessa hora. Resolvi pegar minhas coisas e seguir pro aeroporto. Ia esperar o avião sem dormir mesmo…
Minha máquina já estava meio que morrendo, então essa é a única foto que consegui tirar do muquifo. Infelizmente saiu tremida e só vi depois
Na hora que a gente tava saindo, não pude deixar de presenciar essa cena. Um bando de peão tomando cerveja quente escutando o som do carro em frente a pracinha. Cara, esses bichos estão em todos lugares
Inicialmente eu estava planejando gastar toda uma semana aproveitando Bonito. Quando saí daqui de Brasília me parecia que esse tempo não daria pra aproveitar tanto, mas posteriormente pude perceber que estava enganado. Cara, em Bonito você tem que ter foco. Lá existem dezenas, talvez centenas, de atrações e passeios diferentes das mais diversas modalidades possíveis. Lógico, tudo sempre muito, mas MUITO caro. Como disse, você tem que ter foco, você tem que ir pra lá sabendo o que você quer fazer. Por que eu fui pra Bonito (e acredito que a maioria das pessoas vão também)? Eu fui para Bonito pra poder aproveitar aquelas águas de clareza e limpeza indescritíveis. Você tem que ficar o tempo todo com isso na cabeça porque senão você acaba pagando fortunas por passeios que podem facilmente ser realizados próximos de grandes centros urbanos a preços muito mais baratos. Pra que diabos eu vou gastar 350 reais (sem transporte) pra poder fazer uma trilha mais rapel (Passeio da Boca da Onça) se eu posso fazer isso por meros 100 reais (com transporte) em um lugar deslumbrante próximo daqui de Brasília? Pra que diabos eu vou gastar centenas de reais pra fazer um “passeio de bote” de uma hora se eu posso fazer um rafting no Rio Corumbá, que dura uma manhã inteira, por menos de oitenta reais? Cara, são essas coisas que você tem que ter em mente. 213 reais pra fazer flutuação no Rio da Prata? Vale cada centavo, lugar algum no mundo eu vi algo semelhante. A mesma coisa eu digo do abismo Anhumas, que também vale cada centavo dos quase 500 reais do passeio. São lugares que apesar de MUITO caros valem a pena por serem únicos e se são únicos valem um preço exorbitante desses. Agora, pagar 150 reais pra fazer passeio de cavalo, é programa de índio.
Por essas e outras que depois de dois dias vi que não havia mais o que fazer em Bonito. A não ser que eu fosse repetir algum passeio, era melhor que eu fosse embora de lá. Conversando com as pessoas, descobri que existia um lugar q sempre quis visitar e que ficava próximo de Bonito. Onde era? Pantanal! Pombas, onde eu assino? Vamos embora!
De Bonito para Miranda: o “Grilo Falante”
Descobri um carinha que, por módicos 50 contos, te levava de Bonito a um hotel- fazenda incrustado no meio do Pantanal Mato-Grossense. O lugar chamava-se Lontra Pantanal Hotel e eu SUPER recomendo a quem queira ficar por lá. Só pra vocês terem uma ideia, eu paguei 330 reais por dois dias com hospedagem, alimentação e passeio. TUDO INCLUSO! A gente quando tá em Bonito meio que perde a noção de como as coisas são caras por lá =)
O caminho em si também merece ser citado. O motorista chamava-se “grilo” e o cidadão era super gente boa. No caminho fomos conversando sobre histórias recorrentes em zonas de fronteira que aconteceram com ele e com outros amigos que moravam por lá. Ele contou como era quase sempre uma aventura viajar com seu próprio carro pro Paraguai, que poderia ocorrer dos guardas paraguaios inventarem qualquer desculpa pra apreender, ficar com o seu carro no Paraguai e nunca mais você vê-lo. Diz que camionete Hilux então… Outra engraçada que ele contou foi que teve um mês que ele não podia passar em um posto da polícia rodoviária, polícia militar e até polícia ambiental que nego parava o carro dele. Mas era batata. Passou em um posto, paravam o carro dele, davam uma geral e depois mandavam ele ir embora. Diz ele que depois de uns quatro ou cinco dias, sem paciência, foi lá e perguntou pra um policial o que diabos era que eles não paravam de encrencar com ele. O policial foi lá e falou que tinham pego um carrinho igualzinho o dele, mesmo modelo, mesma cor e ainda por cima com um trailerzinho igualzinho o que ele usava pra transportar as malas dos clientes, ABARROTADA de cocaína. Depois disso, ele ficou sem ter um pouco de paz por quase um mês. Essa é a vida na fronteira!
Falando em outra coisa engraçada, estávamos eu e ele lá proseando e do nada nos ultrapassa um carro: ZUUUUMMMM. Mas o bicho ia embalado, voando baixo. Sabe o que era? Cara, era um carro do Google Street!! Sim, aquele carro que faz o serviço de sair fotografando as ruas das cidades para que vc posteriormente possa ver na internet. O que ele fazia no meio do Pantanal? Isso eu não sei até hoje. Mas enfim, acharam um desses até em Santa Inês no Maranhão.
Ele me contou uma história que ocorreu com uma família que vivia vizinha ao sítio que ele morava. Lá tinha uma menininha que todo dia caminhava um certo tempo até chegar em um ponto onde o ônibus escolar a pegava para ela ir estudar. Depois de uns dias ela começou a falar que quase todo dia quando ela ia pegar esse ônibus, tinha um gatinho que ficava “guardando” ela. Diz que ela só dizia isso: “Papai, tem um gatinho me guardando”. O pai, achando que isso era coisa de criança, nem dava bola. Até que teve um dia que ela sumiu e quando foram procurar por ela só acharam o sapatinho com o pé dela dentro. Foram achar o corpo dela todo dilacerado só algumas semanas depois. O “gatinho” enfim parou de “guardar ela”. Numa região como aquela não podia faltar história de onça…
Bois ameaçadores nos confrontam do outro lado da pista de terra.
Mas o mais engraçado mesmo foi uma mulher que tava viajando que foi, de longe, o destaque da nossa viagem. Cara, sabe uma daquelas mulheres frescas? Mas o estereótipo mesmo? Cara, era a mulher! A mulher era MUUUIITOOO chata! Só pra vocês terem uma ideia, a gente tava indo em direção ao hotel fazenda quando passou um boiadeiro do nosso lado tocando a sua boiada. Rapaz, mas pra que? Essa mulher começou a dar um escândalo… “Ai meu Deus! Ai meu Deus! Olha o tanto de boi! Ai meu Deus! E se eles vierem aqui comer (!!!!!!!!!!!!!!) a gente? Ai meu Deus, socorro!!”. E começou a se desesperar dentro do carro. Eu, como não perco a chance, comecei a comentar com o grilo: “Rapaz, um boi desse tamanho tem força pra virar esse carro, né?” e o grilo respondendo que sim, só de sacanagem. “Rapaz, se um boi desses avança pra cima do carro, a gente capota, né?”. Só de raiva! A mulher, coitada, quase que desmaia no banco de trás! Foi a nossa primeira conversa e a primeira de muitas vezes que eu judiava com ela =)
Largateaaaannddooo
Pantanal!
Desde o primeiro momento em que desci do carro e vi como era o hotel fazenda pude perceber que realmente não ia me arrepender de ter trocado alguns dias em Bonito pra poder ir pra lá. O lugar era realmente BEM DA HORA, super isolado (celular não pegava) e cercado de verde por todos os lados. De início já fui saldado por alguns carcarás (pega, mata e come!) que passeavam tranquilamente pelo hotel fazenda.
Não houve nem tempo de descansar, fui descendo, jogando minhas coisas no carro e já indo pro primeiro passeio programado: subir o rio para poder observar jacarés e outros pássaros. O barco atrasou um pouquinho, daí resolvi que não seria uma má ideia pular no rio e dar um banhada. Perguntei pra dona da pousada se era de boa banhar naquele rio e ela me falou que sim, que era super sossegado. Que o rio só era infestado de piranhas e podia ser que uma hora um jacaré passasse nadando do seu lado, mas que eles eram super dóceis e que não iam dar problemas pra ninguém. Mas assim, com uma naturalidade… “Pode ir meu filho! Tem algumas piranhas assassinas nadando e uns jacarés de dentes afiados passeando, mas tirando isso, nada demais! Eles são dóceis como um cachorrinho de pelúcia”. Acho que ela imaginava que aqueles dentes sanguinários e afiados serviam só deixar as piranhas mais bonitinhas…Não sei você, mas isso não está no rol de informações que eu desejo receber quando estou pra poder ir nadar em algum lugar.
Ainda fui dar uma nadada, já que ela insistiu que, apesar do rio estar infestado de animais assassinos, ninguém no hotel fazenda nunca teve problemas. Fiquei uns cinco minutos lá dentro, mas não aguentei ficar nadando não. Quem já banhou em rio sabe que quando você fica lá de boa, vários peixinhos ficam te beliscando e dando umas mordiscadas na sua pele, nada anormal. O problema é que quando você está em um rio de água barrenta cheio de piranhas, qualquer mordiscada você já acha que é uma piranha arrancando o seu rim. Lembrei do sábio ditado “Em rio de piranha, jacaré nada de costa”, resolvi sair e ficar tomando banho de chuveiro, que era um pouco mais seguro. O barco chegou e seguimos viagem.
É minha amiga piranha, um dia é o da caça, o outro do caçador.
Cara, é muito impressionante o Pantanal. É aquilo mesmo que vemos na TV, muito verde, pássaros e muito, mas MUITOS, jacarés. Mas parece uma praga, pra onde você olha tem um jacaré observando pra você! Eles são de todos os tamanhos, mas não chega a ter aqueles crocodilos de quinze metros que você vê na TV não. Eles eram no máximo de um tamanho de um homem adulto. Além de jacarés tinham muitas, mas MUITAS capivaras por todos os lados e ainda outras aves coloridas, além de araras, é claro! Mas o maior destaque vai pra aquela mulher chata que eu havia falado que deu escândalo no carro porque achou que ia ser “comida” pelos bois. Se ela deu escândalo com boi, com jacaré então…
Rapaz, ela tava com uma filinha, uma adolescente de seus 17 anos e que estava super curtindo o passeio. Curtindo assim, tentando curtir, porque essa mulher não parava de reclamar e censurar a menina: “Fulana, sai do sol”, “Fulana, sai de perto da borda que tem um jacaré a 48 metros daqui”, “Fulana, não coloca a mão na água que um peixe vai te comer”. Rapaz, mas aquilo dava raiva, viu? Eu, só de mal, não perdia a oportunidade de perturbá-la! Quando ela começava a falar “menina, tira essa mão da água, só tu tá fazendo isso”, eu ia lá e começava a meter a mão na água, quando o barco passava próximo de uma margem, eu começava a falar “rapaz, acho que tem alguma coisa se mexendo aí nesse mato, vai que é uma onça e que ela pula aqui dentro??!?!” só pra ver a mulher quase se jogando na água. E assim eu ia indo, ela frescando e eu perturbando e morrendo de rir por dentro. Rapaz, mas essa mulher sofreu comigo…
Toda hora que o barco parava eu aproveitava pra dar uma nadada, sempre, claro, mais desconfiado que velha em canoa. Teve uma hora que o guia parou o barco e lááááá do outro lado tinha um jacaré na margem tomando sol. Todo mundo do barco ficou morrendo de medo de entrar na água desse jacaré querer vir pra cima e comer a gente. A chata então… só faltando amarrar a filha dela no banco. Eu, claro, que nunca tive frescuras com essas coisas, aproveitei. Fui lá e pulei na água. A chata ficou falando “Menino, sai daí! Esse jacaré vai acabar te comendo!”. E eu nem dando bola. Rapaz, mas foi esse jacaré sair da margem, entrar na água e afundar pra eu só faltar voar pra cima do barco. Ok, ele tava a uns vinte metros da gente, mas, amigo, um jacaré na água, afundando, água barrenta! Duvido quem não fica com medo por mais que o guia fale que o jacaré não morde a gente!
Vai… nada com um bichinho desses dentro d´água que eu quero ver…
No outro dia, tentei fazer dois dos passeios mais famosos de Bonito: o do Rio da Prata e o Rapel na Gruta de Anhumas.
O problema é que, como falei, Bonito estava APINHADA de gente e os passeios de lá, como tem o seu caráter de turismo ecológico, tem um número limitado de pessoas que podem ir. Além de que todos são muito, mas MUITO, longe da cidade e os taxistas (e como todo taxista antes mesmo de ser um ser humano é sempre um GRANDE FILHO DA PUTA) cobram o olho da cara pra poder ir te levar lá (tinha taxista que queria 160 reais pra poder te levar em passeio a 25 km da cidade) acabava que eu ficava dependente de conseguir que as agências de turismo me encaixassem em grupos que já iam em vans ou carros alugados pra eu poder ir (e aqui fica outra dica, se for pra Bonito em mais de uma pessoa, alugue um carro, vai fazer MUITA diferença pra você). Aí eu ficava naquela sinuca, se tinha vaga no passeio, não tinha vaga em carro compartilhado, se tinha vaga no carro, o passeio já tava lotado. Comecei a ficar bem preocupado se eu iria realmente conseguir ir nos dois passeios acima citados. Como no segundo dia não consegui vaga nem carro, resolvi fazer um “passeio de bote” nas águas de alguns dos rios de Bonito. Deixo ênfase no termo “passeio de bote”, pq era só um passeio mesmo, não era um “rafting” como no início eu achava que seria.
Esperava isso
O passeio em si foi bem tranquilo. Passeio de família mesmo, um bando de crianças e pais e rema daqui, rema dali. Foi legal, mas longe de um tipo de passeio que eu tivesse escolhido pra poder fazer quando estivesse viajando sozinho.
Mas foi isso =(A transparência da água é impressionante
Mas o legal mesmo foi ir pra lá. Como falei, estava sozinho e não tinha alugado um carro. Acabei ficando na mão dos taxistas da cidade (o que não há coisa pior) e sem ter muito o que fazer. Como eles queriam um olho meu adiantado e um olho após o serviço, resolvi levar uma ideia com os mototaxistas da cidade e ver o que conseguiria fazer. Os caras das agências me sugeriam que eu não fizesse isso, afinal o passeio de bote era a 25 km de Bonito sendo que 15km eram só de estrada de terra batida. Pensei: “- Não, que eu sou maranhense, sou macho pra caralho, solto pipa e jogo bola e pá pá pá” e resolvi ir. Falei com um mototaxista e ele me falou que era tranquilo, que era super de boa, que eu podia ficar despreocupado que eu nem ia sentir a viagem. Rapaz…
Meu amigo, os primeiros dez quilômetros até que foram de boa, o resto é que foi aquela montanha-russa! Cara, vou te falar que poucas coisas foram emocionantes como aquele “passeio de moto”, viu? Mermão! A motinha tremia mais que gelatina em tsunami! Pela primeira vez na vida eu senti como uma britadeira se sente. E pensa que o motoqueiro se intimidava? Tava nem aí, o bicho ia era no pau!! Eu ficava de olho no velocímetro dele e nada de ele diminuir a velocidade a menos de 60 km/h. Teve uma hora que eu perguntei se dava pra ele ir um pouco mais devagar e ele me falou que era mais seguro (!!!!!!!!) ir naquela velocidade porque assim a moto não derrapava. Se fosse mais devagar corria o risco da moto derrapar e ambos sermos jogados pra fora da pista! Eita beleza! E o chão cheio de uns pedregulhos imensos, eu ficava só imaginando o que ocorreria se a moto passasse com o pneu por cima de um daqueles, se a gente não voaria longe! Só sei que na ida, quando chegamos, eu quase pedi pra ficar por lá mesmo, tamanho o medo de voltar todo aquele trajeto de moto! De tanto ficar quicando, quase que eu saio que nem essa cena de Chaplin abaixo:
Cara, cê tinha que ver era o tamanho dos caminhões que passavam ao nosso lado levantando poeira pra tudo que era lado!!! Eu até parei uma hora pra bater uma foto, pena que não ficou tão boa…
Caminhão passando do lado da motinha. Se liga no tanto de poeira que levantava
Passeio do Rio da Prata
Quando voltei do bote, fiquei perambulando pelas agências de turismo pra ver se eu conseguiria um passeio melhor. Corre daqui, corre dali, acabou que, milagrosamente, surgiu uma vaga para um dos passeios mais badalados de Bonito, o Passeio do Rio da Prata. Como já falei, foi um golpe de sorte, pois em Bonito quando tem vaga no passeio, não tem no transporte e vice-versa. O cara me explicou que eu havia um grupo com uma van alugada pra eles e sobrara uma vaga que eu iria pegar. Bola na rede, fui dormir.
No outro dia, acordei bem cedinho, umas cinco da manhã e fui o primeiro a ser pego na pousada. Entrei na van e fomos para a segunda pousada. Fiquei naquela expectativa de quem seriam os meus amiguinhos de aventura. Quem iria se divertir comigo! Rapaz, quando eu vi o símbolo no primeiro squeeze que uma tia tava carregando, vi que estava seriamente em apuros. Era um símbolo da CVC. O dia seria longo. De repente, começou a entrar aquela “cambada CVC” dentro do ônibus. Ixi, mas era tia gorda, tiozão de bigode, menino gritando, pagodeiro, enfim, escreva a palavra “farofeiro” no Google imagens e tenha uma noção do tipo de gente que eu tou falando. Viva a nova classe média… Rapaz, seis horas da manhã e o povo já entrava na van gritando, que diabo era aquilo, vai ter energia assim na pqp. Teve uma hora que um cara virou pra mulher dele e falou: – Ai Ivonete, coça as minhas costas aqui. Tou todo me coçando. Juro que na hora me lembrei da foto abaixo:
A van tinha alguns lugares que dava pra você sentar sozinho, sem ninguém do seu lado e do outro lado uma fileira de dois ou três bancos. Sentei em um que tinha um banco do lado esperando sentar alguém legal e assim eu poder conversar e quem sabe conseguir uma companhia pra tomar um chopp a noite, mas tudo o que eu consegui foi que uma gorda sentasse do meu lado e fosse me espremendo a viagem inteira. Bom que na volta eu já aprendi e fui o primeiro a entrar na van pra poder pegar o lugar sozinho. Como não tinha muito o que fazer no caminho, tentei tirar umas fotos do belíssimo nascer do sol que ocorria, mas infelizmente a minha máquina digital era vagabunda.
O pior foi que tinha um tio estilo “pavê para cumê” contando piada a viagem inteira. Se liga em uma:
“Dois amigos estavam caçando no mato. De repente uma cobra veio e picou um dos dois. Ele gritou para o amigo que tinha sido picado e pediu que ele telefonasse para o médico para ver o que deveria fazer. O amigo ligou ligeiro para o médico que lhe disse:
– Enquanto eu estou indo com o soro, você vai e chupa o local da picada que é para tirar o veneno da cobra.
Foi lá correndo onde estava o amigo e tomou um susto quando percebeu que o amigo havia sido picado bem na cabeça do pinto. O mordido, desesperado, foi lá e perguntou:
– E aí? O que foi que o médico disse?
– Uai… ele disse que você vai morrer!”
Eu até ri dessa, mas cara, ele contava dezenas dessas piadas de tiozão e o que mais me impressionava era que o pessoal se encasquestava de rir. E eu lá com aquela cara de “kill me!!”. Mas enfim, o bom foi que a trilha terminou logo!!
Como tudo que havia em Bonito, o passeio é uma bela facada de caro, 213 reais, mas, cara, esse passeio valeu cada centavo gasto nele. Bicho, o que era aquilo? A água, como falei, num nível de transparência absurdamente impressionante, os peixes pareciam que voavam! Quem tiver a oportunidade, não perca a chance de um dia fazer esse passeio! Já fiz vários snorkellings em diversos lugares, mas como Bonito, esse sim, é único.
Os caras cobram 220 reais de passeio e não tem coragem nem de colocar uma rede decente para gente deitar. Isso era de que? Couro de jumento?Esse era o almoço. Nem salada decente tinha
No final, tinha o mais aguardado, o almoço! Cara, não é por nada não, mas ficar umas três ou quatro horas flutuando e nadando em uma água relativamente fria dá uma fome GIGANTESCA! Saí de dentro d´água já com uma fome gigantesca. Quando cheguei lá pra comer o almoço, apesar de absurdamente caro, deixou muito a desejar, mas enfim, o importante foi que o passeio valeu cada centavo gasto.
Abismo Anhumas
Quando voltei do passeio comecei a criar coragem em enfrentar um desafio ainda maior que o passeio do Rio da Prata. Desafio maior porque era mais perigoso? Mais pesado? Mais tenso? Não, desafio maior pq o preço do passeio era muito, mas MUITO mais caro do que o passeio do Rio da Prata. Se achava que o Rio da Prata era caro, o que falar do rapel no Abismo Anhumas que custava o módico valor de 468 reais POR PESSOA e SEM TRANSPORTE? Pois é, cara, realmente fiquei um bom tempo meditando comigo mesmo se valeria a pena eu espocar uma grana dessas em apenas um dia de passeio. Cara, é muito dinheiro! Conversei com um, conversei com outro e depois de um tempo de indecisão decidi ir. Ah, quer saber? Já tava lá mesmo…
Acabei me decidindo quando conversei com várias pessoas e todas me confirmaram que era um passeio único na sua vida. Cara, pense em uma gruta. Agora pense que essa gruta tem um, digamos assim, um “teto” de 72 METROS DE ALTURA q vc desce de rapel. Dentro da gruta lá embaixo, um imenso lago de águas cristalinas com 80 metros de profundidade, cheio de galerias e estalactites e estalagmites gigantes e com uma visibilidade de dezenas de metros. No final, volta como foi, de rapel, só que dessa vez subindo ao invés de descendo. Cara, realmente vale a pena. Esse é outro passeio em Bonito que vale cada real, cada centavo, cada pacote de miojo que possa faltar na sua casa após pagar o passeio. SENSACIONAL! Pra melhorar, janeiro era a melhor época pra se descer, já que era o único mês em que ficava um feixe de luz iluminando o lago vindo da entrada de luz no abismo. Posso dizer que poucas coisas no mundo podem ser tão lindas como o que vi naquele dia. Nossa, que da hora! Tem gente que gasta mais do que 468 em um par de tênis ou de sapatos, mas visitar aquele lugar valeu mil vezes esse preço. Lugar único em beleza no mundo.
A única parte vergonhosa foi que, como falei, assim como descemos, temos que subir. E como é que sobe? Bem, do mesmo jeito que desceu, pela corda. A diferença é que na descida você tem a gravidade pra te puxar, na subida você que lutar contra a gravidade. Eles ensinam a gente a subir de volta. Você dá uma puxada na corda com os braços e depois com as pernas e se projeta pra cima. Parece fácil, mas cara… Eu tava num grupo com quatro meninas. Bicho, acredita que as quatro malditas subiram de boa e eu quase botei os bagos pra fora? Vergonha…
Sempre nutri um grande desejo em visitar a cidade de Bonito. Adoro atividades na água e Bonito acho que seria o lugar perfeito pra poder fazer isso.
Tirei alguns dias de férias e fiz uma das maiores besteiras possível: ir em alta temporada pra uma das principais atrações turísticas do Brasil. Depois explico. Peguei o meu voo para Campo Grande e por sorte consegui um couch. No outro dia de manhã. Na rodoviária, comprei o meu bilhete e fui obrigado a esperar por um pouco mais de meia hora antes do ônibus poder sair. Como não tinha o que fazer, comi um sanduíche por uma banca qualquer e depois passei em uma agência de turismo pra levantar algumas informações e também passar um pouco o tempo. Quando cheguei lá fui conversar com o atendente e ele já veio com aquele papo: “Ãhn? Indo pra Bonito em alta temporada? Rapaz, é melhor você reservar logo. Tenho um albergue aqui que só tem uma vaga e vai que tu não consegues um lugar pra ficar. Bonito é um lugar muito pequeno e que fica cheio muito rápido, pode ser que tu fiques na rua e pá pá pá… Pega meu albergue, que não sei o que…” e coisas do tipo que eu já estava acostumado. Pensei: “Arf… mais um que tá doido pra passar a perna em mim. Reservar um quarto de um albergue ao dobro do preço, pegar a diferença e fazer uma grana comigo… Sem chance”. O problema era que quanto mais eu conversava com ele, mas ele parecia sincero em me falar que era loucura chegar a Bonito em pleno mês de janeiro sem antes ter conseguido alguma acomodação. Ele parecia como todos canalhas que sempre me enganaram enquanto eu viajava, com a diferença que parecia bem mais sincero.
CHEGANDO A BONITO
Peguei o busão e cheguei a Bonito mais ou menos pela hora do almoço. Como de praxe, em todos locais que já viajei e não consegui achar couch, saí perambulando pela cidade, batendo de pousada em pousada pra ver onde iria ficar. Geralmente, quando viajo, a minha estratégia é a seguinte. Vou a uma pousada que parece bem chique, depois vou na que parece a pior da cidade, vou em uma média e em mais umas outras duas. De posse de todos esses preços, vejo mais ou menos quanto é a média e assim tento achar um preço que eu queira pagar. Pois é… Só tinha um problema, toda pousada que eu batia e perguntava “Tem vaga?” a resposta indubitavelmente era “Não!” e lá ia eu pra outra pousada. E nessa de “tem vaga”, “não”, “tem vaga”, “não”, “tem vaga”, “não”, comecei a ficar preocupado em realmente não achar uma pousada e ter que dormir na rua. Pode parecer que eu estou inventando, mas não, cara, é realmente isso mesmo. Não é que estava muito caro! Era que não tinha mesmo!
Cheguei a Bonito numa quarta feira e realmente não conseguia achar um lugar onde pudesse ficar. Cada pousada que eu passava e não tinha vaga, lembrava do cara da agência de turismo que, pro meu desgosto, dessa vez não estava mentindo. Ainda tentei ir ao albergue que ele havia me falado, mas, no intervalo entre eu falar com o cara da agência e chegar a Bonito, a única vaga do albergue em quarto coletivo foi ocupada. Caminhar, caminhar, caminhar… Até que fui chegando no fim da cidade, em uma estrada de terra que desbocava em uma pousada um pouco afastada da cidade. Fui caminhando e cada vez que chegava mais perto, mais assustadora ficava a pousada. O local era meio caindo aos pedaços, com paredes descascadas, portão de ferro enferrujado e coisas do tipo. Aquela típica casa de filme de terror. Cenário perfeito pra poder achar um quarto barato.
Bati uma foto da pousada para postar no blog
Fui atendido por uma senhora até um certo ponto simpática que e que foi me mostrar os “aposentos”. Cara, que medo viu? Eu juro que eu achei que ela ia me levar pra uma catacumba ou algo assim. Quando desci, que liguei a luz, ela nem acendeu! As luzes estavam queimadas: “Faz tempo que ninguém se hospeda aqui, né senhora?” “Ah sim, mas eu te dou um desconto!”. Rapaz, mas ainda bem que não funcionava as luzes, pq eu teria medo de ver aquele quarto, o banheiro chega tinha teia de aranha pelos boxes. Lógico que não aceitei o quarto, mas depois fiquei pensando que se fossem nos meus tempos de mochileiro se eu não teria ficado lá era de qualquer jeito.
Seus aposentos são por aqui, senhor
Continuei procurando, mas, cara, tava praticamente impossível conseguir um lugar pra ficar. Não é que estava muito caro não, era que não tinha era mesmo! Procurei, procurei, procurei até que por sorte consegui achar uma pousada até relativamente confortável, com um quarto sobrando e com um preço razoável. Cara, eles cobravam 60 reais por dia por um quarto com ar-condicionado, banheiro privativo e cama de casal. Isso seria muito barato pra qualquer cidade turística do Brasil, mas considerando que era Bonito em alta temporada (cara, aquela cidade é MUITO cara em alta temporada!), achei o preço ridículo. Nem tentei barganhar porque realmente era um bom um preço.
No final, a pousada foi boa, mas foi ruim. Foi boa pq eu realmente tive conforto e sempre que entrava no quarto, já ligava o ar-condicionado. Por outro lado, cara, a pior coisa que você pode fazer quando viaja sozinho, é ficar em uma pousada. Você acaba ficando muito solitário. Bicho, toda vez que eu voltava de um passeio, umas cinco horas da tarde, o que me restava era ficar “forever alone” no quarto, lendo os livros que eu tinha salvo no meu Ipad. O albergue era 45 reais, quarto com ventilador, sete beliches no quarto (eu sei que não é necessário falar, mas em um beliche cabem duas pessoas, lembrem disso =P), mas pelo menos eu teria amigos. Além de que me obrigaria a sair, já que quanto mais o seu quarto é desconfortável, mais tempo você quer ficar fora fazendo alguma coisa. Conforto eu tenho em casa. Trocava fácil o desconforto por ter o que fazer a noite, pois pra mim não há nada pior que sentar em uma mesa de bar e ficar tomando cerveja sozinho…
O quartoSe liga no café da manhã!
BALNEÁRIO MUNICIPAL
Entrada do Balneário Municipal
No meu primeiro dia em Bonito, não me restou muita coisa a fazer. Demorei tanto tempo tentando achar algum lugar pra poder ficar, que acabei por ficar livre só umas três e meia da tarde. Aí já não havia muito o que fazer. Achei que já ia gastar o meu primeiro dia forever alone no quarto quando o dono da pousadinha que eu iria ficar me sugeriu ir ao Balneário Municipal de Bonito. Fiquei meio em dúvida se iria ou não (pombas, a entrada era 20 reais e fechava já 17:00 da tarde), mas depois que ele me falou que trabalhava lá e que poderia me dar uma cortesia, resolvi que iria. Viva o dinheiro público!
Balneário municipal, no site do governo, é assim
Cara, pra quem não sabe o Balneário é o passeio MAIS barato que você consegue fazer em Bonito. Os naturais de Bonito nem pagam entrada, por exemplo. Tá certo que não é aquela coisa ridiculamente barata (só pra vocês terem uma noção, a entrada no Taj Mahal na Índia me custou 30 reais), mas pra Bonito o preço saía quase como um disparate. Resolvi ir. Fiz amizade com um moto-taxi lá que ainda me fez o incrível desconto de um real pra poder me levar e desci pro Balneário. Pois é, cara, pois lá é aquele famoso “barato que sai caro”. Mermão, mas tinha gente, gente, GENTE!! Apinhado de gente pra todo lado! Era farofeiro de um lado cantando pagode, tia gorda caminhando pro lado com a boca cheia de galeto, umas outras garotas de laje pegando sol e por aí vai. Enfim, aquele pandemônio.
Mas na verdade ele é assim
Valeu só pela experiência que pude ter em pela primeira vez poder testemunhar o que é aquela água cristalina de Bonito. Cara, muito lindo! Os peixinhos ficavam bem na superfície da água e dava pra você ver o fundo claramente. Nossa, mas uma piscina não conseguia ficar limpa como aquilo. A imagem era tão clara que até refração não parecia existir por lá. Agora pense, se num lugar, CHEIO de farofeiro, a água era cristalina, imagina como não seria em outros lugares. Sem noção.
Eu fiquei pensando se essa placa quer dizer “Cuidado ao pisar nos degraus” ou “Cuidado pra não pisar nos peixes”. Olha o tanto…Cara, pode parecer que usaram Photoshop, mas não. A água é cristalina assim mesmo…
Assim, mas o que mais se destacou na nossa viagem foi a pousada que ficamos. O que, ela foi legal? Isso, um lugar perfeito pra você se hospedar se quiser se irritar. Ou hospedar aquela sogra ou seu cunhado folgado. Cara, sem noção! Eu posso falar pra você com conhecimento de causa, afinal, já fiquei em diversas pocilgas no mundo inteiro. Mas essa pousada me deixou impressionado, se destacou. Uma coisa é você ficar num bangalô decrépito em uma ilha da Tailândia como o vídeo abaixo:
Mas aí você entende, é uma região isolada em um país não muito rico e você, by the way, tá pagando 6 reais por noite pra ficar em um quarto sozinho. Outra coisa é pagar 28 reais em uma pousada na quinta maior cidade do Nordeste, com toda a infraestrutura necessária, em um quarto com mais OITO camas e UM BANHEIRO e, bem, não ter direito nem a um colchão. Sim, isso mesmo que você leu! Não havia SEQUER COLCHÃO no nosso quarto! E a gente dormia em que¿ Bem, era tudo menos em um colchão. Cara, aquilo era algo entre uma espuma e uma caixa de ovos. Dá só uma olhada no que dormíamos:
Primeira foto
Bicho, sério, eu já cheguei a pagar um dólar pra dormir em duas pessoas no Nepal quando viajava com a CoraçãoGelado. O quarto não tinha nada, mas pelo menos tinha malditos dois colchões pra podermos deitar em cima. Qualquer lugar que eu viajava, seja na Ásia, seja no inferno, eu sabia que o lugar que iria ficar não poderia ter muita coisa, mas um colchão era o mínimo que eu TINHA CERTEZA que iria conseguir. Colchão é o mínimo que você pode colocar um ser humano pra dormir, abaixo disso você vira, sei lá, um cavalo ou uma geladeira sendo transportada em um caminhão, mas não um ser humano. Cara, sério mesmo, aí vai mais uma foto, diz se não parece uma espuma que a galera utiliza pra poder colocar embaixo de geladeira em caminhão de mudança.
Sim, a gente dormia em cima disso
Pera, não para por aí. Além de todo esse conforto de dentro dos quartos, ainda tinha o atendimento. Cara, o dono do lugar, um francês, era muito, mas MUITO ignorante! Bicho, chegou um momento que eu achava que ele imaginava me fazendo um favor e não prestando um serviço. O bicho era ignorante! Mas era grosso que só parede de igreja. Você ia perguntar uma coisa pra ele, ele te respondia com sarcasmo e com uma grosseria que nos impressionava. Só pra vocês terem uma ideia, segue um diálogo que eu tive com a simpatia:
– Oie amigo, tudo bom¿ Então, só agora que eu fui perceber, as suas tomadas já são naquele novo padrão de três furos e o carregador do meu celular é no de dois furos. Tu não terias um adaptador pra eu carregar meu celular não¿
– São cinco reais amigo.
– Cinco reais por um “T”?????
– São cinco reais amigo.
– Brother, acho que eu não tou sendo tão claro, eu não quero comprar, eu tou querendo usar só por uma hora pra eu poder carregar meu celular.
– São cinco reais, amigo.
– Cara, peraí! Será se a gente pode ter um pouco de bom senso aqui¿
– São cinco reais, amigo.
– Cara, eu tou hospedado aqui! Eu tou PAGANDO por esse lugar!
– Amigo, comecei a vender depois que eu emprestava e depois ninguém me devolvia.
– Deixa eu ver se eu entendi. Você tá alegando que eu posso roubar o seu T?
– São cinco reais, amigo! – e virou de costa e me deixou falando sozinho.
Cara, aquilo me deixou tão, mas tão revoltado! Porra, eu tava pagando pra ficar na pousada do figura e o cara tava me “usurando” um adaptador! E ainda me chamou de ladrão! É por essas e outras que eu falo! Cara, se for a Maceió, NÃO SE HOSPEDE na Pousada Bonaparte. Eles, a Pousada Bonaparte, se aproveitam de pessoas que fazem reservas pela internet, que não tem conhecimento de como é aquela pocilga, pra poder cobrar o que querem e prestar um serviço como aquele. Cara, vou gastar um certo tempo da minha vida, mas vou fazer o que puder pra fazer com que ninguém volte a ter uma experiência desagradável como a que eu tive. Vou visitar todos os fóruns de mochileiros, albergues, o que for! Mas esse maldito “T” vai sair bem mais caro pra aquele francês ignorante do que ele pode imaginar. Ele vai aprender que as vezes o barato pode sair bem caro 😉
Caso queiram saber o site do pardieiro, é só clicar no link abaixo:
Uma noite antes de irmos para Maragogi ia rolar aquela porradaria entre o Cigano e o Cain Velasquez que o Cigano ganhou por nocaute. Na hora isso me remeteu aquela história de quando eu fui ver uma luta entre o Wanderlei Silva e o Chuck Lindell em Santa Bárbara, pois estávamos em uma cidade diferente procurando uma TV pra ver o pau comendo. Marcamos com um amigo que estava em outro hotel mais grã-fino e fomos lá pra poder ver a luta acreditando que um hotel mais caro iria ter uma assinatura do canal Combate.
Quando chegamos lá não acreditamos quando vimos que o hotel só tinha TV aberta. Bateu um certo desespero quando vimos que a luta estava pra começar e não tínhamos onde ver. Resolvemos fazer o que era certo numa situação como essa. Saímos, literalmente, correndo do hotel em busca de qualquer bar, restaurante, pocilga, prisão, o que fosse, que tivesse transmitindo a luta ao vivo para podermos ver. Lembrei da final da Eurocopa que queria ver quando estava no Vietnã e tivemos problemas semelhante pra poder achar um bar (link aqui).
Dez malucos correndo que nem loucos pela cidade e nada de achar uma TV transmitindo a luta. Quando estávamos próximos a desistir, ouvimos um grito do mais exaltado do nosso grupo e fomos ver o que era. Sim, ele havia achado o nosso eldorado!!! Corremos feito loucos pra poder ir ver a luta.
Chegando lá, ficamos de boa e pedimos uma cerveja. A luta principal ainda ia demorar pra começar. Como tava com um pouco de fome resolvi pedir uma picanha pra comer enquanto esperava. Enquanto isso, o nosso brother, mais conhecido como “neguinho”, começou a conversar com dois cabras GIGANTESCOS sentados na mesa ao lado sobre MMA e ficou logo brother dos bichos. Papo vai, papo vem, começa a luta principal. E nada da minha picanha chegar. Quando soou o gongo e o Cigano começou a trocar tapa com o cara, minha picanha chegou. Rapaz, mas foi eu pegar o garfo e a faca pra comer minha picanha pro Cigano dar uma bolacha na oreia do pobre e ganhar a luta de nocaute. Fácil como roubar doce de criança. Rapaz, pra que¿ “Neguinho” se abraçou com os cabras e começou a pular e a comemorar que nem uma criança (sim, ele é fã de MMA). Meu amigo, quem disse que eu consegui ver o nocaute¿ Os bichos começaram a pular e vir pra cima da minha mesa e eu a me desesperar de ver minha picanha indo pros ares. Depois de muito “Cigano deu no cara” de um lado e muito “Meu Deus, olha a minha picanha!” ficou tudo bem no final.Só consegui ver o nocaute lá pro terceiro replay…
Maragogi
No outro dia fomos para Maragogi, uma reserva natural de corais em Alagoas. Cara, vi algumas fotos na internet e realmente fiquei maravilhado com o lugar. Maragogi era de longe o lugar que eu mais esperava visitar quando estava para ir para Alagoas. Se liga nas fotos aí embaixo.
Fomos lá e você não tem ideia. Todos aqueles corais, aquela água azul, aquele céu… Nossa Maragogi foi uma… uma… deixa eu achar a palavra certa…. Maragogi foi uma merda. Puta que pariu, que decepção da porra. Primeiro que o lugar é CHEIO de gente, gente pra todo lado e fazendo barulho. Comecei a nadar um pouco afastado do pessoal pra ver se eu conseguia ver uns peixes e ainda assim tinha pouca coisa. Os poucos peixes que haviam por lá eram sem graça e a diversidade era mínima. Nossa, que decepção, acho que é hora de eu dar uma volta em Arraial do Cabo novamente (link aqui)… Legal mesmo de Maragogi foi só no caminho ir conversando com o guia da van. O bicho era engraçado e foi me contando as história dele de como era a vida no interior de Alagoas há uns vinte anos atrás. Diz ele que veio de um interior onde os principais utensílios domésticos eram um par de cadeiras na porta, um fogão a lenha pra fazer comida e um revólver no bolso pra qualquer eventualidade. Mas assim, com uma naturalidade como quem te pede um copo d´água. Falou que a cidade dele era terra sem lei mesmo e que ele passou uns dois anos assim sem nunca ter sido preso. Eu, claro, perguntei:
Única foto decente que bati de Maragogi..
– Mas a polícia, não te tomava essa arma não?
– Ah, cara, trabalhador assim eles não enchiam o saco não. Sabiam que eu era gente boa e por isso não me perturbavam.
É, inversão de valores é conosco mesmo. No interior de Alagoas, pai de família anda com arma no bolso e não se fala mais nisso =)
Esses dias viajei com uns amigos pra Maceió. Aproveitamos que tivemos uma folga aqui em Brasília e uma galera, em peso, resolveu comprar passagens e descer pra lá. Não foi a minha primeira vez na capital de Alagoas, mas com certeza foi a que eu gastei mais tempo conhecendo as atrações que existem próximas a cidade. Digo ao redor da cidade pq Maceió em si não tem muitas atrações. É uma capital do Nordeste como outra qualquer, com algumas coisas legais pra fazer, mas nada muito extraordinário. Tirando uma ou outra estátua do Marechal Deodoro da Fonseca, que parece ser o maior herói da cidade, não existe muito o que olhar.
Aê… Olha o nome do barco!!
No primeiro dia fomos para a praia do Francês, que até parecia ser uma boa praia, pena que choveu o dia inteiro e não deu pra curtir tanto. Eu ainda tentei alugar uma prancha e surfar, relembrando os bons tempos que morava na Austrália, mas percebi que estou demasiadamente enferrujado! Depois de tomar um caldo atrás do outro, achei que seria melhor devolver a prancha antes que eu terminasse por me afogar. Ainda bem que não avisei ninguém da galera que estava indo surfar, bom que não passei vergonha. Voltei cedo pra pocilga que fiquei pra poder dormir logo, já que no outro dia acordaríamos BEM cedo pra poder fazer o passeio da Foz do Rio São Francisco.
Confessa, todo mundo tem uma dessas…
Foz do Rio São Francisco
Inicialmente eu planejava fazer um passeio aos cânions do Rio São Francisco, que ficam na fronteira entre os estados de Alagoas e Sergipe. Cara, o lugar é muito lindo e muito da hora! O grande problema é que é longe de Maceió e infelizmente não deu pra irmos pra lá. Tivemos que nos contentar em ir a sua foz (foz é onde o rio encontra o mar), pois era bem mais perto. Fechamos com uma agência e os bichos foram nos pegar na porta da pousada. Quem foi dirigindo a van foi um motorista que fazia as vezes de guia turístico e que, diga-se de passagem, era MUITO engraçado. O bicho era bem figura e viajar com ele era dando risada durante boa parte do caminho.
No caminho ele foi mostrando algumas curiosidades da cidade de Maceió. Passamos do lado de um “cinturão verde” e ele foi nos explicar o que era. Apesar de todo o apelo ecológico que eles queriam transparecer, aquele “cinturão verde” foi feito ao redor de um fábrica de corrosivos para que, caso ocorresse um vazamento, pudesse primeiro atingir esse tal “cinturão verde” antes de causar algum tipo de problema para seres humanos. Idílico não? Pois é, se isso é verdade ou não, ele depois mostrou o verdadeiro “cinturão humano” que existia ao redor da fábrica também. Ele não soube informar se era uma invasão ou se foi a própria fábrica que concedeu aquilo, mas ao redor da indústria existiam diversas moradias precárias com várias famílias morando. Diz que aquelas pessoas moravam lá e por motivos de segurança foi colocado um alarme caso algum vazamento ocorresse para que as pessoas “corressem” caso houvesse algum tipo de problema. Isso, não é que havia um plano de socorro ou resgaste dessas famílias, o que havia era um alarme e “dá no pé, cabra!”, “corre pra aquele lado”. Segundo o guia, seis meses atrás o alarme foi tocado e foi uma correria danada pra tudo que foi lado. Imagina a situação, cara, você tá ali de boa em casa, vendo o seu Faustão, todo serelepe e, DO NADA, soa um alarme. Vazamento de uma indústria de CORROSIVOS!!! Meu amigo! Deve ter gente correndo desse alarme até hoje! Depois que se descobriu que foi um alarme falso. Foi brinks. Simples, né? Todo mundo de volta pra casa e finge-se que nada aconteceu. Esses estagiários que ficam tocando o alarme…
Tamanhozinho do pastel, meu brother!
Outra curiosidade que nos foi proporcionada também foi que pudemos ver no caminho uma estátua do Marechal Deodoro da Fonseca (mais uma) em cima de um cavalo. E, vejam só, como vocês iam morrer sem saber disso! O cavalo do Marechal estava com as quatro patas no chão. E daí? Bem, e daí que isso significa que ele havia morrido de causas naturais. Se o cavalo tivesse com duas patas levantadas, significava que ele havia morrido em batalha, e apenas uma pata no chão, que ele havia morrido em ação (não me pergunte a diferença entre ação e batalha porque eu não tenho a mínima ideia!). Interessante, né? Tem coisas que só esse blog sabe fazer você descobrir! Preste atenção nas patas dos cavalos das suas cidades e surpreenda seus coleguinhas com todo conhecimento adquirido aqui!
Outro banho de cultura que nos foi proporcionado foi sobre os motéis lá de Maceió. Segundo o guia, lá em Maceió tinha uma região de motéis que era conhecida como “você que sabe”. Isso vinha da história de quando você perguntava pra alguma menina pra onde ela queria ir e ela respondia “você que sabe”, você já sabia onde levar ela. Depois não tinha desculpa que vc foi pro lugar errado. E sim, havia um motel lá com esse nome, pena que passamos rápido e não deu pra bater foto. Mas que eu achei o nome engraçado, achei…
Tá, eu nunca fui bom com protetor solar mesmo..
Depois de todo esse banho de cultura, chegamos à última cidade antes da foz para poder pegar o barco em direção à foz. Era a cidade de Piaçabaçu e junto com o barco vinha uma guia. Rapaz, mas a vontade que a gente teve foi de jogar a guia na água, viu¿ Eita, mas aquela mulher falava… Nos brindou com mais conhecimento que eu até hoje não sei como consegui viver sem. Pra começar, lá foi filmado o filme “Deus é Brasileiro” (ótimo filme por sinal) e ela ficou toda se gabando por conhecer diversos atores globais. Morri de inveja ali na hora, tudo o que eu mais queria era uma foto com o Antônio Fagundes, não sei como vou viver sem nunca tê-lo abraçado! Depois ela nos brindou com a inestimável curiosidade, que ela contava com um indescritível orgulho, que Piaçabuçu era, pasmem, a única cidade do Brasil que era ESCRITA COM DUAS CEDILHAS!! Sim, amigo, é isso mesmo! Vocês conseguem acreditar? Pois é verdade, é a única cidade do Brasil escrita com duas cedilhas! Você acha que é pouca coisa? Pois você tinha que ver o orgulho que aquela menina falava da cidade dela! Mas enchia a boca pra falar disso!
A foz é um lugar bem bonito. O mais interessante de ver era um farol que ficava suspenso no meio do rio. Perguntamos o que era e nos foi dito que aquilo foi tudo que sobrou de um povoado que existia do lado da praia. Diz que de uma hora pra outra o mar começou a encher, encher, encher e tomou todo o povoado, só deixando como resquício aquele farol. Se tivesse algum ecochato no barco já ia gritar que era aquecimento global, mas, felizmente, esse ponto não foi tocado.
Tomamos um banho e voltamos pro barco. Cara, mas que peça. Bicho, todo mundo pregado e cansado de horas de exposição solar e banhos de rio e a mulher não parava de falar. Mas, mlk, sério mesmo, a mulher parecia uma metralhadora! Tudo o que você mais quer quando está fazendo uma viagem pra relaxar e espairecer é uma mulher que não para de falar besteira e se gabar porque tem fotos com atores globais…
Cara, o encontro do Couchsurfing em Lisboa teve várias atrações e coisas legais. Porém, se eu pudesse citar o que foi a coisa mais engraçada e interessante de toda essa viagem por Portugal eu responderia sem sombra de dúvidas que foi conhecer o Chris. Ele era inglês e trabalhava como advogado para refugiados na Inglaterra. Isso só uma das várias histórias dele, pois, como falei, o bicho realmente era engraçado.
Vivendo no Iraque
Pra começo de conversa, ele já tinha lutado no Iraque. Sim, isso mesmo que você está lendo aqui, o cara era veterano do Iraque. Eu juro que quando ele falou isso pra gente eu fiquei espantado, não com o fato de ele ter ido lutar lá, mas sim com a naturalidade que ele falava isso. Falava como se fosse a coisa mais normal do mundo, mas, assim, como quem diz “ah eu trabalhei de policial uns tempos por aí”. “Por que diabos ele tinha ido lutar no Iraque” – essa deve ser a pergunta que você está se fazendo e pode ter certeza que foi a primeira pergunta que eu fiz pra mim mesmo quando ele me falou isso, afinal, como já disse, o cidadão era advogado de refugiado, ou seja, era um cara estudado. Na simplicidade costumeira ele falou que um dia estava em casa entediado e pensou “Nossa, preciso fazer alguma coisa legal que vá render muita história, essa minha vida tá muito chata”. Começou a dar um passeio na rua, viu um cartaz conclamando ingleses a ir lutar no Iraque e pensou que isso seria uma boa ideia. Se inscreveu no programa e algumas semanas depois já estava iniciando o seu treinamento para poder ir lutar no Iraque. Diz ele que tentou entrar no MI6, o serviço secreto inglês, mas que não foi aceito devido a seu passado como advogado para refugiados (principalmente pessoas da Somália suspeitas de terrorismo. Sim, o figura era doido mesmo!).
Certo dia, contou que estava em um treinamento em um lugar tipo uma fazenda e o sargento havia falado pra eles que eles poderiam atirar nos alvos ou em qualquer outra coisa que quisessem, bastava que não fossem os próprios instrutores (é sempre bom falar, né? Do jeito que tinha maluco por lá…), ovelhas e vacas. Diz ele que cinco ficavam atirando e um sexto ficava passando de cabeça baixa (a coisa mais sábia a ser feita quando um pelotão de malucos está atirando) e servindo munição pra todo mundo. De repente, entrou no campo de tiro, um pouco distante, mas não muito, um pavão. Um pavão grande, gordo, colorido, bonito! Um belo pavão. Eis que de repente alguém pensa “Hum, pavão não é gente, não é vaca e não é ovelha” vira-se e começa a sentar o dedo pra tentar matar esse pavão. Os outros foram tendo a mesma ideia e todo mundo começou a tentar matar esse pavão. E aí foi aquela loucura, com todo mundo tentando matar o maldito pavão e querendo ser o primeiro a abatê-lo. Rapaz, diz que foi uma cena cômica, pra não dizer o mínimo. O pavão ficou caminhando calmamente pelo campo, de um lado para outro e só as rajadas de bala comendo do lado dele. Gente, eu acho que eu não preciso explicar, um pavão não é uma avestruz, um pavão é uma ave lenta… Ele caminha muito vagarosamente. Pois é, ainda assim os caras metiam fogos, rajadas comiam do lado do pavão e nada de alguém conseguir acertá-lo. Era tanta bala que até o cara que fornecia munição queria saber o que tava acontecendo, porque ninguém parava de atirar e pedir mais munição… No final o pavão saiu da linha de tiro na maior calmaria do mundo e sem nenhum arranhão. Diz que o sargento mandou parar o treinamento e ficou encarando um por um querendo entender o que tinha ocorrido. No final ele só deu um esporro no melhor estilo “vocês são os piores soldados que eu já tive que treinar!” e no final ficou tudo certo. E assim, alguns meses depois, ele tava pronto pra poder ir para o Iraque.
Nós três no dia em que o Chris nos contou as suas aventuras com o Pavão!
Quando alguém perguntava se tinha algo que ele pudesse descrever do Iraque, o que ele mais lembrava de lá, ele dizia “homens nus lambuzados de óleo correndo pelas ruas”. É, isso mesmo que você leu! Antes que você comece a achar que o bicho tava viajando ou que ele tenha andado por quebradas gays do Iraque, não é nada disso! Na verdade, na verdade, quando ele chegou a Basra, cidade do Iraque que os ingleses ficaram responsáveis por controlar, as batalhas já haviam cessado (até porque eles não iam mandar um cara com esse nível de treinamento pra poder combater no front). A função dos soldados ingleses que chegaram depois foi de basicamente agir como polícia e manter a ordem no lugar. Eles tinham ordens expressas de NUNCA atirar sem que fossem atacados primeiro, ou seja, patrulhavam com rifles, mas não podiam usá-los, eles basicamente serviam de enfeite. Bem, lógico que não era só eles que sabiam disso, os iraquianos também tinham conhecimento. O que eles faziam? Bem, quando alguém queria roubar alguma coisa, os caras basicamente tiravam toda a roupa possível e se besuntavam de óleo, dificultando sobremaneira que fossem agarrados quando saíam na carreira. E lá iam o Chris e os companheiros correrem atrás de um bando de homem besuntado de óleo pra ver se agarrava. Felicidade extrema! Além disso, ele contou que certa vez teve o carro fuzilado quando fazia patrulha, mas dessa vez, felizmente, o fuzilamento foi realizado por pedras jogadas por crianças.
Advogado de refugiados
Mas o mais interessante mesmo de conversar com ele, era ouvir os casos que ele falava dos refugiados que ele tomava conta. Diz que era só caso escabroso. Teve um cara que era muito gente boa e ele realmente ficou amigo do bicho, mas que a Inglaterra não cedeu asilo a ele só porque o trabalho dele era recrutar crianças pra lutar no exército rebelde de Uganda. Poxa, não existe aquele ditado que toda profissão é digna? Outra foi a de um somali que juntou todas as economias da vida dele e chegou na Europa quase que a nado, mas também infelizmente não obteve asilo. Mas pra mim o mais interessante era quando ele comentava dos chineses. Diz ele que diversos chineses, sem ter a mínima esperança de obter algum futuro na China, fazem acordos com a máfia chinesa e a máfia toma conta de fazê-los chegar na Inglaterra. Eles cuidam de passagem, entrada, o que for. Bem, mas gente, se ninguém faz nada de graça, imagina a máfia. Pois é, a máfia fazia todo esse serviço e pedia em troca apenas 70% de tudo que eles ganhassem trabalhando na Inglaterra. De boa, né? Cara, pode parecer ruim, mas é MUITO melhor do que eles conseguiriam na China. Caso eles quisessem sacanear a máfia, não tinha problema, eles só torturavam ou matavam algum parente do bicho e tudo estava resolvido. Resultado? Dana-se o pobre do chinês pra trabalhar 20 horas por dia na Inglaterra e mandar tudo pra China, tanto pra máfia, quanto pra sua família. Mas o mais macabro era o que acontecia caso fossem pegos pela imigração inglesa. Como estar ilegal em um país não é um crime, os oficiais ingleses recolhiam o passaporte dos chineses e davam prosseguimento ao processo de deportação. Quando os ingleses iam à embaixada da China para reconhecimento do passaporte, a Embaixada falava que o passaporte não era chinês, que era falso e que o pobre imigrante não era problema deles. E aí? E aí chora. A Inglaterra não podia fazer nada, até porque é interesse da China que essa grana fique sendo repassada para o país. Resultado? O chinês não podia ser deportado, ele continuava trabalhando que nem um escravo e os oficiais de imigração basicamente só anotavam os dados do chinês e o mandavam embora. Simples assim. Gente, tudo isso, como falei, era ele que tava falando, não sei até onde é verdade, mas devido o nível de detalhamento que ele ia falando as coisas, realmente parecia bem verossímil.
Quando voltar pra casa não parece uma boa ideia
Robert Mugabe, ditador sanguinário do Zimbábue
Mas o mais chocante mesmo era quando ocorria deportações de países, digamos, “complicados”. Ditaduras fratricidas tem problemas com pessoas que tentam fugir dos seus países. Apesar de a grande maioria das pessoas que fogem desses lugares serem cidadãos honestos que querem apenas melhorar de vida, alguns poucos são opositores políticos que podem causar problemas se voltarem. Ele disse que em alguns países, notadamente o Congo e o Zimbábue, ocorria fuzilamento sumário, no aeroporto mesmo, de refugiados que eram deportados de volta. Se em trinta deportados, um poderia ser opositor político e causar problemas, porque não passar todo mundo na bala e assim evitar correr riscos? É, racionalismo macabro é conosco mesmo… Outra que ele contou foi a história de uma mulher do Turcomenistão que foi deportada. Dois oficiais de imigração da Inglaterra foram escoltando ela no avião. Chegando ao Turcomenistão, diz que ela não conseguiu se “explicar” direito porque tinha “fugido” pra Inglaterra e a polícia secreta do país resolveu descer o cacete pra ver se ela confessava que era espiã. Como ela não quis “colaborar”, eles tentaram achar “colaboração” em quem mais estava com ela. E quem foi com ela? Sim, os dois oficiais ingleses que a acompanhavam. E nem adiantou os dois tentarem de toda forma apresentar os passaportes pra provar que eram ingleses. “São passaportes falsos, eles também são espiões” – e dana-se os pobres apanharem também no aeroporto. Eu fico imaginando o desespero deles gritando “Eu sou inglês!!!” enquanto apanhavam! Até os caras realmente acreditarem que eles dois realmente eram ingleses, os pobrezinhos apanharam que só menino quando apronta…
Vivendo na Inglaterra
Mas nem só de desgraça vivia o Chris. Era engraçado também ouvir ele falando de como era a maneira inglesa de viver. Segundo ele, a vida na Inglaterra era tão desgraçada que eles gostavam de tomar cerveja quente e comida sem gosto. Diz ele que eles misturavam tudo, juntavam e jogavam a 300ºC no óleo quente que era pra levar o gosto de qualquer coisa. Que um dia bonito lá era quando não se chovia três dias ininterruptos. Que se achávamos que tava fazendo frio em Lisboa porque tava fazendo uns 10ºC deveríamos passar o ano inteiro a -10º pra poder saber o que era uma vida desgraçada. O bicho era engraçado demais. Pra fechar com chave de ouro, ele voltou um dia mais cedo pra Inglaterra e mandou uma mensagem pra gente “Domingo de sol em Lisboa? Aqui na Inglaterra tá -5ºC e ainda tá chovendo granizo. Nós rimos do seu frio :P!!”. Que bicho gente boa, cara!
Como havia dito no post passado, um dos principais motivos que me levaram a viajar para Lisboa mais cedo, além da crise mundial que me arrebentou, foi a possibilidade de participar do encontro do Couchsurfing em Lisboa. Cara, o encontro foi realmente bem da hora. Assim como o de Praga, não deixou nada a desejar.
De início, na primeira noite, tivemos uma baladinha onde nos foi proporcionado uma apresentação de fado, um estilo português musical que eu só havia conhecido por meio da música fado tropical do Chico Buarque (que eu nem sei se é um fado mesmo!). Foi uma noite mais de boa, mais pra poder esperar a galera chegar mesmo e se preparar para o próximo dia.
No outro dia, pela tarde, fomos dar uma volta por Lisboa e a galera tinha organizado uma tarde de jogos medievais lusitanos. Como isso funciona? Bem, algum dos organizadores do evento era pesquisador e tinha algumas fontes onde era possível saber como brincavam as crianças em Portugal há algumas centenas de anos atrás. Eles viram como era, encomendaram a alguns carpinteiros e fizeram diversos brinquedos e jogos baseados nisso. Foi realmente bem interessante e deu pra poder passar a tarde.
Boliche a la Fred Flintstone em Lisboa
A noite, lógico, era chegada a hora da bagaceira. Foi programado um “tour de bares” por Lisboa. A ideia era simples, selecionaram alguns bares da cidade e as gentes saía bebendo nos bares selecionados. Foi da hora porque podemos conhecer vários bares diferentes com vários estilos interessantes. Teve uma hora que foi bem engraçada.
Olha que da hora esse bar, cara! Os bichos utilizam brócolis como lustre!
Eu tava andando na rua, indo de um bar para o outro e quando você anda pelas ruas de Portugal, principalmente os lugares turísticos, uma hora ou outra alguém aparece lhe oferecendo uma quinquilharia. Eu fui andando por lá, dando umas voltas e do nada veio um cara em minha direção. Vi que ele ia me oferecer algo e já me preparei pra poder dizer que não queria. Quando ele veio na minha direção já veio gritando: – Coca, quer coca?. Mas assim, como quem te oferece um pacote de Halls…
Ãhn? Mas assim? Sem nem me oferecer uma cerveja antes? O cara já veio me oferecendo coca, assim, no meio da rua. Eu no início até achei que era coca cola, mas depois que eu fui me tocar que o cara tava me oferecendo era cocaína mesmo. É isso aí, o mercado cada vez mais se adaptando e oferecendo comodidade a quem quer consumir o que for. Enfim, a única parte mais ou menos complicada nesse bar tour é que, meu amigo, a Lisboa velha é CHEIA de ladeiras! É ladeira pra cima e pra baixo, tudo o que você menos quer quando tá com o bucho cheio de mais ou menos um quilo de feijão comido em um jantar português ainda há pouco.
No outro dia, mais um dia de passeio pela cidade e a noite, mais uma noite de esbórnia. A noite descemos pra uma balada organizada e fechada apenas para o Couchsurfing. Porra, muito legal! A festa era só nossa, todo mundo se conhecia e ninguém queria arrumar confusão com ninguém. Por outro lado, também ninguém pegava ninguém, coisas do Couchsurfing.
Uma parte que foi bem engraçada foi que uma hora durante a festa, a gente tava lá dançando e do nada passa alguma coisa por cima de mim. Quando vejo, tinha um inglês VOANDO por cima da minha cabeça, LITERALMENTE. O cara fez aquilo que no show de rock chamamos de stage diving (mergulho do palco)! Aquele mergulho que os cantores de rock fazem onde eles se jogam no meio da plateia e vão “surfando” em cima das cabeças dos bichos. Sim, ele fez exatamente isso!
Um “stage diving”
Virei pra ele e perguntei, bicho, como foi que tu fizeste isso? Ele falou: “Ah, tinha uma caixa de som lá em cima, eu subi em cima e pulei! A galera foi me jogando e eu fui só surfando!”. Porra, fiquei doido pra poder fazer o mesmo e lá fui eu. Subi em cima da caixa de som, gritei pra chamar a atenção e VLUPT! pulei lá em cima de galera! Rapaz, não é que deu certo mesmo? Pulei e a galera foi me levando… Aí, depois, foi só alegria! Foi só surfar por cima da galera! Estava realizado o primeiro stage diving da minha vida! Sweet…
Era chegada a hora do último país, da última semana, da última parada de toda minha viagem de volta ao mundo. Era chegada a hora de pousar em Portugal. Nos meus planos iniciais, eu iria ficar apenas uns dois ou três dias em Lisboa, acabou que eu cheguei mais cedo e fiquei um pouco mais de uma semana devido um encontro internacional do Couchsurfing (parecido com o que eu fui em Praga) que iria ocorrer lá e eu tava doido pra poder participar. Fiquei num couch de uma portuguesa que havia conhecido no encontro em Praga com mais outros quatro couchsurfers, o que deixou a casa BEM da hora.
O encontro e o passeio por Lisboa foram super da hora. Um dos problemas foi que lá não parava de chover e acabou por impossibilitar algumas atividades que a galera tinha planejado, mas não foi um grande problema.
Show de malabares de um dos couchsurfers que teve que ser interrompido devido a chuva
Lisboa é uma cidade bem legal e bem bonitinha. Uma das coisas mais legais é que ela é MUITO parecida com São Luís (ou São Luís é muito parecida com ela, como achar melhor). Há casarões com aquele estilo colonial, tal qual São Luís, por toda a Lisboa velha além de suas diversas ladeiras com ruas de paralelepípedos, tal qual… bem… tá ficando chato ficar repetindo.
Fachada de prédio coloniais em Lisboa
Uma coisa que eu esperava que ia acontecer, mas ainda assim me assustou, é o tanto, mas TANTO de brasileiro que tem em Lisboa (ou tinha, já que depois da crise uma galera voltou pro Brasil). Isso ocorre devido a uma coisa meio óbvia, já que como a língua é a mesma, Portugal é um dos destinos preferidos dos brasucas, assim como a Espanha é para os latinos-americanos. Mas cara, falando assim você não deve imaginar, mas é que tem muito, mas MUITO brasileiro lá mesmo. Assim que eu cheguei, pra começo de conversa, no aeroporto e peguei o busão, metade do ônibus era de brasileiros. Me entrosei com eles e já de começo conheci uma maranhense de BARRA DO CORDA (um cidade do interior do Maranhão) no busão! Bicho, se em São Luís já se é difícil encontrar alguém de Barra do Corda, imagina em Lisboa! Ela realmente me impressionou! Foi a segunda maranhense que eu conheci na minha viagem inteira depois do cara de Riga, na Letônia (link da história aqui). A mina era bem gente boa, mas não tivemos muito tempo pra conversar, já que ela logo desceu.
Banco do Brasil em Lisboa
Além disso, outra coisa que me deixou impressionado, é como parece que eles não gostam de brasileiros por lá. Por quê? Bem, cara, segundo alguns amigos me confidenciaram isso ocorre porque, bem, imaginem quais brasileiros que vão pra lá. A maioria são trabalhadores braçais e de baixa educação, então os brasileiros lá são como são os “nordestinos” para galera do Sul ou Sudeste. Mas ser um trabalhador braçal não é lá uma grande problema, o problema é que os portugueses são um povo muito formal e a gente, pelo outro lado, é MUITO bagunçado, se for de baixa educação então… Imagina… Mas o principal problema é que Portugal sempre foi um país muito tranquilo e seguro e hoje vê os seus índices de violência indo para as alturas principalmente devido a brasileiros que entram na Europa de qualquer maneira e, uma vez estando lá, se veem sem alternativas. Aqui no Brasil já sabemos como essa história começa e também sabemos como ela termina. Pelo que meus amigos portugueses me falavam, Portugal agora está tendo que lidar com alguns tipos de crimes que não faziam parte de sua realidade como assaltos a banco e sequestros e parte deles possuem brasileiros como envolvidos ou protagonistas. Até mesmo o PCC, por um momento, começou a preocupar os portugueses. Então, é como disse a minha amiga que me hospedou, os portugueses não tem problema algum com brasileiros que eles sabem que são pobres e vão a Portugal à procura de uma vida melhor, que vão lá pra poder construir as suas vidas, isso é bem benéfico para o pais. O problema são os brasileiros que migram pra Portugal e de uma certa maneira exportam os problemas sociais do Brasil em um país que não está acostumado a assistir o Datena quando chega em casa do trabalho. Bem, se isso serve de consolo, Portugal também enfrenta o mesmo tipo de questão com imigrantes africanos e até mesmo o Brasil, em menor escala, também possui alguns problemas com gangues de imigrantes, notadamente angolanos e paraguaios. Isso é um problema sério, pois apesar da grande maioria dos imigrantes serem pessoas de bem e agirem de uma maneira benéfica para a sociedade, se 98 locais e 2 imigrantes cometem um crime, a imprensa vai cair em cima dos imigrantes, dar muito mais valor aos 2 e querer te levar a crer que são um problema muito maior do que a realidade.
Em menor escala isso acabou ocorrendo comigo também. Meu jeito menos formal de tratar com as pessoas na rua meio que irritava alguns portugueses. Pra ilustrar eu lembro bem um dos primeiros diálogos que eu tive assim que eu cheguei a Portugal. Eu tinha acabado de descer do metrô, cheio de malas nas costas, e fui perguntar a um policial que vi na rua onde ficava o restaurante que eu procurava, segue o diálogo:
Senhor, como chego no Restaurante Tal?
Boa noite! – respondeu ele de uma maneira bem rude – Aqui em Portugal dizemos “Boa Noite” antes de perguntar algo em sinal de educação. Em que posso ajudá-lo?
Senhor, boa noite, como chego no Restaurante Tal?
Virando ali a esquina.
Cara, sem brincadeira, foi assim mesmo que o bicho me respondeu. Tirando o povo do aeroporto, foi o primeiro português que eu conversei na rua e o bicho foi MUITO rude comigo. Não vou dizer que todos portugueses são assim, até porque TODOS os que conheci pelo couchsurfing foram MUITO gente boa, mas pude notar um certo “ranso” de alguns portugueses nas ruas a conversar comigo quando notavam o meu sotaque brasileiro. Às vezes podia ser só impressão minha, mas, por via das dúvidas, pra todo português na rua que eu fosse perguntar uma informação eu sempre falava “boa noite” antes de começar a conversar, ainda que fosse meio-dia.