Viagem à Mauritânia – Todas suas flores – Curiosidades sobre a Mauritânia

Nouakchott
Antes de viajar, conhecia muito pouco desse país. Na verdade, na verdade, apenas sabia do bizarro fato de que a Mauritânia foi o último país do mundo a oficialmente abolir a escravidão, há menos de quarenta anos atrás (o Brasil foi o último entre os países ocidentais em 1888).
Bem, não é por proibir alguma coisa que ela deixa de existir. A ONU estima que existam hoje por volta de 340 mil escravos na Mauritânia. A título de comparação, supõe-se que no Brasil existam 200.000 trabalhadores em regime análogo a escravidão, desde os bolivianos trabalhando em oficinas têxteis subterrâneas em São Paulo aos agricultores esquecidos no interior do Pará e Amazonas. Porém estamos falando de um país com 200 milhões de habitantes de dimensões continentais, enquanto a Mauritânia tem menos de quatro milhões.
As mulheres também têm problemas no país. Apenas um terço delas são alfabetizadas e ainda ocorre a mutilação genital em zonas rurais. Homossexualismo não é só proibido como punido com pena de morte.
Países onde o homossexualismo é punido com pena de morte estão pintados em preto no mapa. Se liga na Mauritânia

Ademais, o autor do Pequeno Príncipe, Saint Exupéri, como piloto da Força Aérea da França, viajava bastante ao lugar. Nouakchott era um posto francês no Saara, deserto onde é ambientado o seu livro, àquela época.Na verdade, a Mauritânia tem uma história muito parecida com os dos países do Norte da África, como o Marrocos. Foi inicialmente colonizada pelos bérberes, depois pelos árabes e, por fim, pelos franceses. Conseguiu independência e tem um histórico de ditadores se matando uns aos outros por meio de golpes. Hoje é um país majoritariamente islâmico e, em sua maioria, desértico.

Operário dando uma pausa no trabalho para realizar uma das cinco orações diárias dos muçulmanos

Não é permitido entrar no país com bebidas alcoolicas. Até cheguei a ver uma galera em fóruns de internet sugerindo que você esvasiasse garrafas de plástico de água mineral e colocassem gin ou cachaça dentro, que elas parecem água e você com certeza iria conseguir passar na imigração. Juro que fiquei pensando o tanto que o cidadão deve gostar de encher a cara para vir a fazer uma patacada dessas. O produto de exportação da Mauritânia é o ferro e o país basicamente vive de minerais e pescados.

Pôr do sol no Saara

Era um país que dificilmente eu iria visitar em um futuro próximo.

Acontece que um amigo meu diplomata, o Emanuelzinho, foi alocado por um tempo na Mauritânia. Ele me convidou a visitá-lo e eu, obviamente, topei.
Eu e o Manolo em uma praia próxima a Nouakchott
A gente a caminho da praia

Foi uma boa oportunidade, até porque segundo o site inglês foreign advice travel (algo como conselho acerca de viajar a um país), site que uso como base para saber a segurança de um lugar para onde estou viajando, metade da Mauritânia só deve ser visitada para viagem indispensáveis e não evitáveis e a outra metade em hipótese alguma.
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Curitiba

Semana passada ocorreu o quarto Encontro Nacional do Couchsurfing em Curitiba. Aproveitando-se do feriado, o pessoal de lá realizou um evento bem legal onde centenas de couchsurfers de diversas partes do país puderam se conhecer e se divertir durante quase uma semana em Curitiba. O encontro foi bem estafante e até hoje, uma semana e meia depois, minha garganta ainda sofre as conseqüências de tantas noites de esbórnia.

Couch em Curitiba

Bem, pra começar o post acho que não teria como eu deixar de falar de uma das partes mais legais do evento que foi o couch que pude ficar em Curitiba. Fiquei na casa de Ana Cláudia, uma amiga minha do colégio dos tempos do Maranhão. Cara, foi aquilo que eu chamo de couch cinco estrelas como esse aqui e esse aqui. A Cláudia passava o dia inteiro com a gente, pra cima e pra baixo no carro dela e sempre estava a disposição pra poder ir pra qualquer lugar!

A Cláudia não morava sozinha, ela tinha, digamos, uma “companheira de casa” e que no final sempre era o centro das atenções. Ela se chamava Zaha e era da raça maltês, uma cachorra MUITO fofa e que fazia muita bagunça. Deixar a Zaha solta pelo apartamento era pedir pra casa virar do avesso.

Por último, mas não menos importante, a Cláudia também hospedou uma outra menina durante o meeting. Ela se chamava Larissa e era estudante de medicina, o que foi de muita valia enquanto estivemos em Curitiba. Por que, Claudiomar? Você ou a Claudia passaram mal? Não, nós não, Zaha sim. Mas a Larissa era médica ou veterinária? Bem, deixa eu explicar.

Larissa e Claudia

A Larissa é médica e, como todos os médicos devem ser a meu ver, ela tinha um conceito de “nojo” meio que diferente das pessoas normais. Um catarro pras pessoas normais é uma coisa asquerosa, mas pra ela nada mais é do que uma mistura de proteína, água e restos celulares, comum em pessoas que ela um dia virá a tratar quando se formar. Tem que ser assim mesmo, né amigo? Imagina o que seria um médico com nojo de catarro e outros excrementos orgânicos? Eles parecem simplesmente relevar tudo isso. A Larissa foi muito útil nesse ponto.

Bem, teve um dia que resolvemos dar uma volta por uma feirinha de Curitiba e levamos a Zaha pra poder dar uma volta também. E cachorro, ainda mais filhote, vocês sabem como é, né? Sai comendo tudo que vê pela frente. E gente, só uma pausa. Esses cachorros de hoje em dia tão muito fresco, né? Hoje cachorro de madame não pode comer uma carnezinha mais gordurosa que já passa mal. Tem cachorro hoje em dia que não pode mais nem, PASMEM, comer osso porque se engasga. É muita frescura! Essa meninada que hoje passa o dia ouvindo Restart…

Cara, porque a gente tava caminhando com a Zaha e ela comeu um pedaço de bacon que tava no chão. Rapaz, pense num aperreio depois disso? “Ah, meu Deus, a Zaha vai passar mal” – dizia a pobre da Cláudia desesperada. E eu tentando acalmar a coitada, falando que não ia dar nada. A Zaha, apesar de fofinha e cheia de pelos ainda era um cachorro e cachorros são carnívoros, oras! É cara, mas depois de meia hora tive que me render aos fatos.
Não, isso não machuca. A corrente passa no meio do peito dela

Estávamos dentro do carro, já voltando pra casa. Eu e a Cláudia na frente e a Larissa atrás com a Zaha no colo. Sim, se eu enrolei esse tempo todinho pra explicar, você sabe do que eu tou falando. Dali a pouco a gente só escuta um barulhinho: Bleerrrgggghhh!!! A Zaha vomitou tudo o que tinha no estômago em cima da pobre da Larissa. Aí, meu amigo, aí foi banco pra um lado, ração de cachorro de madame pro outro, jantar da noite passada TUDO em cima da pobre da Larissa. Rapaz, pense em alguém que ficou desesperado? Ela? Não, eu e Cláudia ficamos desesperados preocupados com a Larissa e ela só de boa! A gente desesperado pra poder chegar em casa pra menina poder se lavar logo e a Larissa, que tava vomitada, falando pra gente ficar de boa, aquilo era só, cara, eu não lembro como era a palavra que ela utilizava, mas era algo como “Ah gente, isso é só fisiológico!”. Cara, sério! Imagine como seria uma menina, digamos, “normal”? Ela já estaria gritando mais que uma arara tendo os intestinos arrancados! Larissa não, Larissa tava lá, serena!

Além desse teve outro dia que a gente tava em casa se preparando pra sair e resolvemos soltar a Zaha dentro de casa pra poder dar um pouco mais de alegria no recinto. Ela ficou doida pra cima e pra baixo na casa. Como estávamos nos arrumando, não pudemos dar muita atenção a ela. Como cachorro hoje é bicho inteligente, ela pensou que só tinha uma maneira de chamar a nossa atenção. Subiu em cima do meu colchão, próximo ao meu travesseiro e ficou em posição de ataque. Começou a se contorcer e aquele negócio marrom começou a descer de dentro da cachorra! Rapaz, foi um Deus nos acuda dentro do apartamento! “A cachorra tá cagando, a cachorra tá cagando!” – gritava alguém de dentro do banheiro quando Larissa mais veloz que o Papa-Léguas só enrolou a sua mão em um saco plástico de supermercado e colocou embaixo da cachorra no exato local da, digamos, aterrissagem do projétil marrom. Missão cumprida, cachorra amarrada depois disso e eu e a Cláudia impressionados com a coragem da menina! “Ah gente, isso é só fisiológico” – ela repetia seu velho bordão.

Nada mais irônico e apropriado que ela vir de uma cidade que se chamava “Vassouras”.

Dia na feirinha

Esse dia na feirinha foi até legal. Não que eu ache interessante ficar visitando feira e mercado, isso é coisa pra gringo, mas como as companhias eram legais, valia o passeio. No caminho eu tentei bater foto, mas não deu tempo, de uma “pichação” que era comum pelo centro da cidade de Curitiba. Algum figura saiu escrevendo pelas paredes da cidade o endereço do MySpace dele pras pessoas poderem lhe visitar. A que ponto chega uma pessoa no afã de quere ser famoso.

Demos uma volta pela feirinha e depois fomos voltar pra casa. Na hora de voltar pro carro, alguma coisa estava faltando. Chave da casa? Carteira? Juízo? Não, Cláudia deu por falta do carro. Ah, meu amigo, aí começou o desespero. Cláudia começou a se desesperar, o carro fora roubado! E se desespera daqui; liga dali; o carro não tem seguro; ah meu Deus, o que fazemos agora; Fulano no telefone falando pra ligar pra polícia. O desespero tomou conta de todos nós e, principalmente, de Cláudia.

Eu, no meu íntimo particular, também estava um pouco desesperado. Além do fato de Cláudia ter perdido o carro, lembrei que dentro dele eu havia deixado o meu casaco do Brasil. Sim, aquele casaco que vocês já conhecem que está em todas minhas fotos e que viajou o mundo comigo! Se vocês olharem as fotos lá de cima, dá pra ver que ele está em três delas!

Tudo bem, um casaco não tem o mesmo valor de um carro, mas pô, foi o casaco que viajou comigo o mundo inteiro, né? Quando eu o teria novamente? Tinha um valor sentimental meio grande naquela peça de algodão e poliéster. Agora que eu o perdera, eu teria que comprar um outro casaco e dar outra volta ao mundo com ele! E pô, eu pensando em tudo isso, mas não podia nem comentar com a Cláudia, né? Imagina, ela desesperada com um carro e eu preocupado com um casaco? Enfim, Cláudia era a prioridade.

Enquanto o desespero tomava conta do clima, tive uma ideia sublime. Senão genial! Cara, sabe aquela ideia que se fosse na área da ciência lhe valeria um Nobel? Poderia me chamar de Claudiomar Einstein depois dessa. Qual foi a minha brilhante sugestão? “Gente, que tal a gente descer mais um pouco e ver se o carro não ficou mais abaixo?”.

Sim, exatamente como você pensou. O carro se encontrava uma quadra abaixo e meu casaco estava lá dentro. Ela havia estacionado uma rua abaixo e não lembrava… Alívio geral e a constatação que essa juventude anda usando drogas demais…

Obs: Sim, galera, eu vou continuar escrevendo sobre as viagens de volta ao mundo, mas só tou escrevendo sobre outra viagens minhas porque uma hora ou outra esse blog vai acabar e não quero que seja tão rápido…

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Cruzando a fronteira da Turquia com a Síria

No outro dia consegui pegar o meu busão em direção a Damasco na Síria. Ainda estava meio confuso se eu conseguiria ou não o maldito visto pra poder entrar no país. Uns me falavam que era super de boa pra poder tirar, que era só pagar a taxa que você estava dentro enquanto outros me falavam que era maior embaço e complicado. Isso era um tanto quanto preocupante, haja vista que não ter todas as informações necessárias em um ambiente possivelmente hostil como aquele não é o melhor dos cenários. Se os caras da fronteira percebessem isso, eles poderiam tentar me enrolar (fazendo eu pagar mais pela taxa do visto, que eu sequer sabia de quanto era) ou então me pedir suborno, o que eu só faria em último caso.

Abaixo dá para ver o sentimento que eu tava na fronteira:

Pra piorar, todos no busão pareciam ser turcos e ninguém parecia que sabia falar inglês, muito menos o motorista. Enfim, o jeito foi seguir viagem. Quando fui cruzar a fronteira, fiquei impressionado, pela primeira vez desde quando havia começado a viajar, me deparei com guardas de fronteira que não falavam uma palavra em inglês. Os caras não sabiam falar nem hot-dog. Pode parecer besteira, mas lembre-se que eles trabalham com fronteira, cara! Eles são os responsáveis por deixar ou não uma pessoa passar pra dentro de um país ou outro. Eles pareciam falar só turco e árabe. Não parecia que forasteiros de outras nacionalidades eram muito comuns por aquelas bandas. Quando foi pra poder sair do país, havia uma fila para sírios, outra para turcos e outra para “o resto”. Qual não foi a minha surpresa ao ver que um outro cara ia comigo pra fila do “resto”. Opa, um estrangeiro em lugares isolados como esses sempre são bons, duas cabeças pensam melhor que uma e sempre podemos nos ajudar caso algo aconteça.
Fui trocar uma ideia e ele me saiu melhor que o esperado. O cara, apesar de falar pouco inglês, sabia falar turco e árabe! BINGO!! Tudo certo, amigo!! Agora nada pode dar errado!!! O bicho era búlgaro (sim, já pode ir contando línguas faladas: turco, inglês, árabe e búlgaro. Pelo menos), marinheiro e gente boa pacas. Depois que cruzamos a fronteira da Turquia sentei do lado dele e fomos conversando no caminho. Ele me contou que já havia viajado pro Brasil e visitado dois portos: Santos e um tal de Madieiria. Maidieiria?? Que diabo é isso?? Tá certo que eu não sei todos os portos do Brasil, mas com certeza a gente não teria um porto com esse nome. Devia ser um nome parecido. Fiquei pensando, pensando… Rapaz, depois de um tempo eu não fui me tocar do porto que ele tava falando? Era o porto de PONTA DA MADEIRA!! O que é Ponta da Madeira??? É o porto do ITAQUI!! O que é o Itaqui?? É um dos maiores portos do Brasil e fica situado numa cidade patrimônio da humanidade!! SIM, O CARA JÁ HAVIA PASSADO POR SÃO LUÍS!! Rapaz, que felicidade!!
Fiquei todo feliz e fui bombardeando o cara de perguntas: o que ele havia visto, se tinha gostado, se tinha passado muito tempo e talz. Pô, não é todo dia que se conhece alguém que já foi a São Luís NO MEIO DO ORIENTE MÉDIO, né? Enfim, eu vi que ele meio que não entendeu o que eu tava perguntando (ele não falava inglês tão bem, como já falei) e foi me contando como foi essa “excursão” dele por terras ludovicenses.
Diz ele que ficou quase uma semana esperando pra poder descer do navio. Ele me contou que quando eles chegam, eles ficam numa fila de barcos esperando obter autorização pra poder descer em terra firme. Falou que era um saco. Você dorme e acorda todo o dia olhando a terra firme e não pode descer! Isso depois de provavelmente ter cruzado um oceano inteiro! Depois que ele enfim conseguiu descer, tentou ver como faria pra poder dar uma volta na cidade, mas foi informado que o centro histórico era MUITO longe do porto do Itaqui (e bicho, real? É longe MESMO!!). Juntou quatro amigos pra tentar rachar um táxi, mas o taxista que fez mais barato queria 100 reais POR CABEÇA pra levá-los ao centro e trazê-los de volta ao porto do Itaqui, o que fica mais que demonstrado que seja na Índia ou seja no Maranhão não há raça mais FILHA DA PUTA do que taxista pra querer te roubar. Só pra vocês terem uma ideia, eu paguei uma vez uns 250 reais pra viajar de Brasília a São Luís de ônibus. Como eles não estavam lá tão a fim de conhecer a cidade, resolveram buscar um programa um pouco mais educativo e saudável. Compraram uma garrafa de vodca e foram atrás de um puteiro.
Bem gente. Eu vou falar uma coisa pra vocês. São Luís é uma cidade bonita, mas mulher é uma situação complicada. Se tu olha uma mulher gatinha caminhando na rua tu achas logo que é turista. É… a situação aqui é braba mesmo. Agora imagina como deve ser isso em um puteiro?? Imaginou? Agora pensa como deve ser assim em um puteiro baixo, mas BAIXO nível como são os ao redor do porto (dizem que o mais rico dos que lá frequentam chega de bicicleta)? Pensou, pois é!! Foi isso que ele me falou… E o coitado ainda espocou 100 dólares com o pacote completo: Vodca, entrada, mulher e tudo… Gringo só se complica…
Eu percebi que a experiência que ele teve com São Luís não foi das melhores, por isso mudei logo de assunto: – Olha, chegamos no posto de fronteira da Síria!! Vamos descendo??
Descemos e ele foi na frente, pois, como disse, falava árabe. Rapaz, assim que entrei no posto eu só faltei foi rir. Imagina um bando de gordo, de bigodinho e farda por todos os cantos?? Pois era assim o posto de fronteira. Mas parecia um bando de Saddam Hussein por todos os lados. Engraçado DEMAIS!! Perguntei quanto era pra poder pagar pelo visto e o marinheiro me falou que era uns 30 dólares. Tirei 30 dólares e quando ia pagar ele me falou que só podia ser pago em moeda local. Ow beleza, que boa notícia. E onde eu iria trocar? “Seus problemas acabaram”, tinha uma casa de câmbio DENTRO do posto de fronteira só pra isso. Agora pense comigo. Aquela era a casa de câmbio em centenas de quilômetros. Já deduziu? Claro que a conversão foi a PIOR possível e o visto que era pra sair por uns 30 dólares, acabou saindo por 40 só com o tanto que eles me roubaram no câmbio.
No final graças a Deus deu tudo certo e eu conseguia atravessar, são e salvo, a fronteira da Síria…

Como é voar na Air Koryo, a pior companhia aérea do mundo

Depois que a Air Koryo foi eleita a pior empresa aérea no ranking da SkyTrax, o blog Melhores Destinos solicitou que um blogueiro que acabou de visitar a Coréia do Norte fizesse um relato de como é voar de Air Koryo. Acabou que ele teve a mesma impressão que eu, voar com Air Koryo só dá medo do avião cair, mas tirando isso é bem mais confortável do que viajar com a Gol ou a Webjegue.

Segue o relato…

“…A Coreia do Norte é considerada a nação mais fechada do mundo. Os números não são precisos, mas a quantidade de ocidentais que visita o país a cada ano gira ao redor de apenas 3 mil pessoas. Para chegar lá, esses viajantes têm duas alternativas: avião ou trem. Se escolherem chegar por via aérea, é grande a chance de precisarem voar na única companhia com apenas uma estrela no ranking SkyTrax e, portanto, considerada a pior do mundo: a Air Koryo.

Essa empresa de péssima fama foi fundada em conjunto por norte-coreanos e soviéticos em 1954 e foi batizada de Chosonminhang. Chegou a voar para lugares como Moscou, Berlim e Praga, mudou para o nome atual em 1992, mas, aos poucos, junto com a decadência do comunismo e do próprio país, foi perdendo destinos internacionais regulares até chegar aos três que tem hoje: Pequim e Shenyang, na China, e Vladivostok, na Rússia. Existem relatos de voos para Kuala Lampur, na Malásia, e para Bangcoc, na Tailândia, mas os mesmos não são regulares nem constam no site da companhia.

Uma olhada na Wikipedia atrás de informações sobre a frota da Air Koryo pode ser assustadora para quem não é fã de aviação. Com exceção de um Antonov ucraniano, todos os outros aviões são os russos Ilyushin e Tupolev. Isso não é necessariamente um motivo de preocupação, afinal existem modelos modernos desses fabricantes, todos autorizados a voar na União Europeia, por exemplo. Mas uma pesquisa mais cuidadosa mostra que esse não é o caso da maioria dos aviões da Air Koryo. Os modernos, ali, são poucos.

Apesar dessas características potencialmente arrepiantes, a Air Koryo é membro da IATA (a Associação Internacional de Transporte Aéreo) e o histórico de acidentes da companhia é baixíssimo. São apenas dois registrados em mais de 50 anos de atividades, em 1983 e em 2006, sendo que esse último não teve nem feridos. Mas é bom lembrar que estamos falando da companhia aérea estatal de uma ditadura, o que sempre pode significar informações sonegadas ou falsas.

Mesmo sabendo de tudo isso, quando fechei minha viagem para lá não tive a menor dúvida e escolhi chegar de avião com a Air Koryo. Eu tinha consciência de que poderia ser, no mínimo, tenso, mas viajar para a Coreia do Norte é como viajar no tempo, direto para o período da Guerra Fria. Eu queria entrar no clima logo que fosse possível e não podia perder aquela oportunidade de voar em um equipamento fabricado na falecida União Soviética.

Então eu fui…”

Para ler o relato completo, clique no link abaixo:

http://www.melhoresdestinos.com.br/avaliacao-air-koryo.html

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O culto à personalidade na Coreia do Norte e a influência da Guerra das Coreias (1950 – 1953) nisso

Vou pecar por ser prolixo, mas tenho que falar! Lá o culto a personalidade atingiu proporções nunca antes vistas.  Os grandes líderes são retratados como seres notáveis, parecem seres divinos, com poderes fantásticos e especiais e tudo que eles fazem ou já fizeram tem um caráter inacreditável. Assim como veneramos Jesus na religião católica por seus feitos sobre-humanos, vi um paralelo semelhante com as diversas histórias sobre os líderes.
Kim Il Sung e Kim Jong Il são quase o “Leonardo Da Vinci” das Coréias. Eles escreveram livros, filosofias, óperas, balés, dirigiram centenas de filmes, ensinaram agricultores a plantar, operários a trabalhar… Só parecem não ter ensinado como fazer dinheiro, pois, com sua renda per capita de meros 1400 dólares por ano, a Coréia do Norte está entre as dez piores rendas do planeta.
Para que ler outro autor se você pode ler apenas sobre os Kims? É impressionante como em todas as livrarias só havia livros deles. Aí fica fácil achar eles um gênio, não tem outro para comparar 😛
É lógico que a biografia dele não caberia em um só volume, né?  Uma vida guerreira merece MILHARES de volumes!!!

Diversas óperas escritas pelo Grande Líder

Todo ato deles é representado por quadros em museus. A casa que Kim Il Sung nasceu é um museu a céu aberto. Saímos da casa fomos tomar água no poço que ele tomava todos os dias.

Casa onde o Grande Líder nasceu, hoje um museu
Todo lugar que visitamos, eles citam “este lugar foi visitado sete vezes por Kim Il Sung!”, Kim Jong Il batizou esse lugar como “…”, andou no brinquedo do parque de diversões.
Só um parênteses. Você aí se achando todo pimpão porque andou em uma montanha-russa com quarenta loopings nos Estados Unidos. Grandes coisas. Quando estávamos lá no parque de diversões da Coréia, o guia perguntou se queríamos ir em um. Proposta indecente! Lógico! Fomos num brinquedo que no Maranhão costumávamos chamar de “Ranger”. Furamos uma fila de , literalmente, milhares de pessoas (estrangeiros não precisam pegar filas, aquela é a fila dos coreanos – falava o guia quando dizíamos que furar fila não era certo) e seguimos. Cara! Que emoção, viu? Quando demos o primeiro looping, o brinquedo fez um BARULHÃO e começou a se tremer! Manutenção não deve ser o forte da Coréia do Norte. Os gritos entoados depois desse barulho não foram de emoção! Foram pela vida! Mas estávamos seguros, antes do brinquedo começar a rodar, veio um dos carinhas do parque e deu um aperto, mas um APERTO, no cinto de segurança que saímos falando fino depois que descemos. Depois vê até onde vai esse cinto de segurança…
As minas piram no parque de diversões da Coreia do Norte
Voltando. Fatos fantásticos ocorreram em sua infância (Kim Il Sung, por exemplo, escreveu “Liberdade para a Coréia” quando ele tinha apenas quatro anos, sendo essas as primeiras palavras que ele aprendeu a escrever), quando criança, Kim Il Sung aprendeu do seu pai diversos ensinamentos sobre como seria a Coréia livre.
Pessoas nos mostravam orgulhosas quadros em que netos e filhos posavam com algum dos líderes (ainda que fosse um quadro com centenas de pessoas ao mesmo tempo).
Olha a felicidade da tia em nos mostrar que seu sobrinho tem uma foto com Kim Jong Il. Sim, ele e outros 150
Os guias contavam como o pai de Kim Il Sung, quando ele já estava bem doente e para morrer, virou pra mulher dele e fez um ultimo pedido. Pediu que ela entregasse o seu par de pistolas para Kim Il Sung para que ele pudesse com elas lutar pela indep da Coréia. Essas foram as primeiras armas do Exercito Revolucionário Coreano e são reverenciadas quase como o Cálice Sagrado dos cristãos.
Meu filho! Eu te entrego a Coréia! Faça o que quiser com ela! Reparem  nas armas sagradas na mão da  mãe. As armas em um vidro abaixo
As armas da Liberdade Coreana
Uma das primas de Kim Il Sung foi capturada pelos japoneses, torturada e por se recusar a dizer a localização do campo rebelde, teve os olhos arrancados pelos japoneses (sim, como falei, os japas eram hardcore). Apesar de tudo, antes de morrer ela disse: “Eu não posso ver nada, mas posso ver a liberdade da Coréia”.
Você fica injuriado porque uma outra rua no Brasil tem nome de um irmão ou filho de político? É porque não foi ainda não Coréia do Norte. Lá existe um “jardim dos mártires” para homenagear todos os heróis que lutaram por uma Coréia livre. Aí meu amigo, é primo do Kim Il Sung, irmão do Kim Jong Il, filho, a prima dos olhos arrancados, vizinho, o que você imaginar, tem gente sendo homenageado. A mãe preparou uma refeição para Kim Il Sung ir lutar? Então foi uma refeição revolucionária! Estátua para ela no jardim dos mártires!
Eles estão no ano 2012? Lógico que não, eles levam em consideração a história antes e depois do nascimento de Kim Il Sung, não parece lógico? Logo, estamos no ano 101 da era Juche (1912 é ano 1 e não ano 0, por isso ano 101 e não 100). Cara, você conseguem perceber o quanto isso é maluco? Até a contagem dos anos é diferente. Acho que é a primeira sociedade moderna que eu conheço que conta o tempo baseado na figura de um líder não-religioso, Kim Il Sung (os muçulmanos contam baseados em Maomé, nós baseados em Jesus Cristo). Como eu falei, eu não duvidaria se depois de alguns dias começassem a nos falar que um deles ressuscitava mortos, curava enfermos ou andava sobre as águas.
E lógico, pode faltar comida no país, mas apenas alguns meses depois da morte de Kim Jong Il, já havia uma gigantesca estátua de bronze ao lado da do seu pai em um dos principais pontos de Pyongyang.
É nóis na Coreia!
Falando sobre essas estátuas, tudo era cheio de frescura. Você tinha que demonstrar respeito, não podia fazer isso, não podia fazer aquilo, não podia bater foto de um jeito, não podia bater foto de outro, mas, principalmente, não podia bater foto dos pés da estátua. E isso, eles falavam de dez em dez minutos! Isso era realmente um assunto sério, cara! Como de uma forma ou de outra queria ir contra o sistema, rage against the machine, deixar voar o meu espírito Che Guevara, saí batendo várias fotos dos pés das estátuas! Fuck the police!! Sei que pode parecer pouco para você, mas me senti satisfeito de deixar o meu espírito transgressor fluir, nem que fosse por um pouquinho… E o medo de eles checarem as fotos da minha máquina na fronteira… rapaz…
Essa foto quase me custou a cabeça. Clique na foto e veja o que eu deixei escrito no livro de visitas de um museu da Coréia do Norte. Cem anos depois, isso estará arquivado como o dia em que um maranhense arriscou a sua vida para deixar uma marca no mundo mágico de Kim Il Sung!!! HUÁ HUÁ HUÁ! Depois o guia não pediu para eu falar em inglês o que havia escrito para ele transcrever em coreano? Rapaz, pense num menino que deu um frio na espinha inventando uma frase “adorei, gostei muito” e tendo que repetir sem gagejar?
Essa já foi mais de boa
Vi uma vez uma guia contando a alguns viajantes que certo dia um estrangeiro perguntou a um menino na rua se ele sabia quantos pesava aquela estátua de bronze de Kim Il Sung. Ele respondeu:
– Lógico que eu sei quanto pesa essa estátua, estrangeiro.
Vamos lá, todo mundo faz fila, prestem reverência!! Toda estátua era assim!
– E quanto pesa – perguntou o pedante estrangeiro.
– Muito simples, caro amigo estrangeiro, essa estátua pesa o mesmo tanto que todos os corações de todos os coreanos somados.
Às vezes é melhor ficar calado…
Esse buquê de flores custou quase uma semana de alimentação, mas vale pelo grande líder!
Acho que dá mais ou menos para perceber o quanto é essa histeria em relação a isso.

Fico olhando aquilo tudo de longe, como eles parecem acreditar naquilo e como parecem felizes em viver aquela realidade e me sinto como um antropólogo que adentra em uma tribo indígena e não pode de forma alguma influenciar o modo de vida deles mesmo sabendo que pequenas adaptações no cotidiano poderiam melhorar e muito a vida deles. A diferença é que o antropólogo não fala nada por causa do seu trabalho, eu não faço nada por causa do meu pescoço. Pior que a gente fica meio que com um grito por dentro, com as palavras entaladas na garganta sem poder falar nada. As vezes da vontade de falar pro guia um pouco mais da verdade, mas pode ser perigoso. Na verdade, as vezes dá vontade de agarrá-lo pelo pescoço e gritar:

Enquanto no Rio de Janeiro todo mundo quer ter uma casa com visto para o Cristo, na Coréia do Norte, todo mundo deve querer ter uma casa com vista para alguma estátua dos Kims!
– “Tudo isso que você está falando é lixo! Kim Il Sung é um facínora que condena o próprio povo dele a morrer de inanição! Este país é uma prisão! Sabe essa idiotice que dizem para você sobre a Coréia do Sul? A Coréia do Sul é um dos países mais ricos do mundo, logo, logo será mais rico que o Japão e eles são basicamente como vocês! Mesma língua, mesma carga genética, mesmos antepassados! Vocês não são livres, não são ricos e não são prósperos! Vocês são apenas uns pobres coitados e todos os turistas que vem visitar esse país, inclusive eu, o vem apenas por um prazer sádico de saber como Kim Il Sung aprisiona vocês no dia a dia.”
Mas como pensei, é melhor ficar calado e voltar com seu pescoço inteiro.
Fico pensando que um dia quando toda essa merda acabar eles vão ficar impressionados como é o mundo lá fora! Como todo esse mundo mágico que Kim Il Sung criou não passa de uma grande baboseira. Fico imaginando a cara deles que nem a cara dos alemães orientais naquela cena do filme “Adeus Lenin” vendo pornografia americana.

OK, VAMOS COLOCAR UM POUCO DE PINGO NO “I”?

Aula de inglês em uma escola de Pyongyang. Bandeira dos Estados Unidos ao fundo? Lógico que não! Retratos dos Kims!
Cara, apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, não era difícil achar carros de luxo como esses por todos os cantos

Apesar de tudo, é preciso tentar entender sem julgar. É preciso tentar entender que a Coréia do Norte é um país de história muito sofrida. Eles sofreram durante diversas tentativas de “japonização”, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas dos japoneses até o fim da Segunda Guerra Mundial. Cinco anos após o fim da Segunda Guerra, 1950, quando o mundo inteiro estava em paz, ocorreu a “guerra esquecida”, a guerra da Coréia, que quase ninguém lembra, mas foi tão fratricida que quase levou a uma Terceira Guerra Mundial.

Mais um mural a caminho! Lógico, louvando a mais um Kim

GUERRA DA COREIA – VAMOS ENTENDER UM POUCO?

Para quem não sabe, a Coréia era um país unificado quando foi invadido e colonizado pelo Japão. Após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos estavam para conquistar a Península Coreana, a Rússia e a China intervieram e ocuparam a parte norte da Península, implementando um país satélite assim como havia sido feito na Alemanha Oriental e no Vietnã do Norte (que também foi dividido em dois). A China não queria tropas americanas bem na sua fronteira, tampouco a Rússia, portanto criaram a Coréia do Norte. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, essas duas Coréias ficaram em pé de guerra. A Guerra da Coréia começou quando, quando… basicamente quando eles saíram de ameaças de invasões para ação e o pau começou a quebrar. Os EUA dizem que a Coréia do Norte começou, a Coréia do Norte diz que a Coréia do Sul começou e não temos consenso. De qualquer forma, em uma região de conflito como aquela, com várias trocas de ameaças e escaramuças é difícil saber de que lado estava o estagiário que deu o primeiro tiro.  É mais ou menos aquela cena quando a mãe pergunta pros dois irmãos quem começou e os dois ficam gritando: – “Foi ele, mãe, foi ele!”, ela perde a paciência e senta a mão nos dois.

A Coréia do Norte partiu pro pau e quase reunificou a península coreana (ou libertou os coreanos do sul como diz o guia), 90% da península ficou sob o seu poder. Quando os EUA viram que iam perder um aliado estratégico, entraram com tudo na guerra, com ajuda de tropas da ONU e foram levando as tropas do Norte de volta até quase a fronteira na China. Quando a China viu que ia perder o seu satélite, adivinha o que ocorreu. Sim. Ela levou o caminhão de cream cracker para fronteira e saiu distribuindo bolacha pra todo lado. Entrou com tudo na guerra (e imagina o que é guerrear na fronteira do país de maior exército do mundo), com apoio da mãe Rússia e aí o pau comeu de vez. O pau foi comendo, as tropas americanas foram recuando e quando o pau realmente ficou sério, com os dois lados ameaçando usar armas nucleares, todo mundo pediu “júri-juri” e a turma do deixa-disso entrou em ação. Assinaram um cessar fogo e por um momento a guerra cessou. Resultado da guerra? Um milhão de coreanos mortos e as fronteiras EXATAMENTE no mesmo lugar de antes. Um milhão de vidas ceifadas de graça.
Importante citar que, como falei, não foi assinado um tratado de paz e sim um cessar-fogo. E faz diferença? Sim, faz TODA diferença. Um cessar-fogo diz basicamente “vamos parar de se matar por um instante e tentar conversar para chegar a um acordo para acabar a guerra”, porém ele não TERMINA a guerra. Portanto, tecnicamente as duas Coréias ainda estão em guerra. Isso pode parecer bobagem para a gente, mas para um país extremamente fechado e paranoico ter uma declaração de guerra assinada contra ele até hoje faz muita diferença. Por essas e outra que a Coréia do Norte tem hoje o quarto maior exército do mundo (maior do que o de países como Brasil, Alemanha…), sendo formado basicamente por tropas mal treinadas e mal alimentadas. Apenas carne humana segurando um rifle.
E vamos lá! Ensaiando pro titio Kim!
Bem, porque eu me alonguei tanto? Alonguei-me para que seja possível entender como funciona a cabeça de um coreano. Pombas, o país ficou sendo destruído e massacrado (Pyongyang foi reduzida a cinzas várias vezes durante a guerra) e de repente, PIMBA!, cinquenta anos de relativa paz, “prosperidade” e ”respeito internacional”. Tudo isso por causa dos incansáveis esforços dos grandes líderes que trabalham incansavelmente para que todo coreano possa viver em paz (Kim Jong Il inclusive só aparecia em público com roupas militares para representar que ele sempre estava no front “lutando” por uma Coréia melhor). Adicione isso em um país extremamente fechado, com pouquíssima informação entrando de fora e a um rígido controle educacional e da mídia e, pronto, está feito o culto a personalidade de um Grande Líder.
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Os grandes líderes da Coreia do Norte

Eu e meu amigo Kim Jong Il todo pimpão na foto

Vou pecar por ser previsível, mas sim, é impressionante a que ponto se chegou o culto a personalidade na Coréia do Norte. Lá não é como outros países que viajei como Síria, onde todo canto havia uma foto do seu ditador. Ao contrário da Síria, os “grandes líderes” parecem realmente fazer parte do cotidiano e vida de todos os norte-coreanos. Kim Il Sung, o primeiro Kim, foi o “fundador” da pátria coreana. Ele é o grande pai da Coréia e de longe o mais venerado dos três. Ele é considerado o presidente eterno e líder supremo.

Kim Il Sung, em uma de suas milhares de fotos em prédios do Governo

A Constituição da Coréia do Norte inclusive inicia-se citando que a Coréia do Norte é um país com um presidente eterno e que se baseia nos ensinamentos do líder supremo da Coréia, Kim Il Sung.

Os dois bonitões

Tecla PAUSE

Outra curiosidade da Constituição é que ela prevê, entre outras bizarrices, liberdade de expressão (no país com o pior índice de imprensa livre, segundo a organização Repórteres sem Fronteira), liberdade de culto (no pior país para um cristão viver, segundo organizações cristãs) e até, pasmem, direitos humanos (precisa-se de citação?). Tem até um excerto da Constituição, que, de tão bizarro, para mim é o preferido:
“Nosso Querido Líder Kim Jong-Il fez de nosso país um estado invencível em termos de ideologia política, um estado dotado de arma nuclear e uma potência militar indomável, abrindo assim um caminho para a construção de um país forte e próspero”
Sempre bom lembrar, a “invencível” Coréia do Norte é o país que mais recebe ajuda internacional no planeta.
Tecla PLAY
O seu filho, Kim Jong Il, segundo na escala sucessória do reino mágico de Kim Il Sung, também é venerado hoje, porém em menor escala. 

FILOSOFIA JUCHE – A IDEOLOGIA COMUNISTA DOS KIM

Como grande líder e venerado por todos, é lógico que Kim Il Sung teria que criar uma teoria própria. Marx não é nada comparado com ele. Ele chamou a sua nova filosofia de Juche, hoje a base de todo ensinamento da Coréia. Segundo a Wikipédia:
Mural com placas de diversos lugares do mundo onde existem grupos de estudo da ideia Juche. Sim, temos apoiadores estrangeiros da Coréia do Norte. Claro que eles não moram lá.
Sim, havia grupos de lusófonos.Só que ao que me parece é em Portugal
“A ideia Juche defende que o objetivo da revolução deve ser as massas e não qualquer poder externo, o que implica que a nação tenha confiança em si mesma como autarquia, num sentido lato. O ideólogo do Juche foi, essencialmente, Kim Il-Sung. Segundo os dirigentes norte-coreanos, a Ideia Juche não é apenas o marxismo-leninismo adaptado à realidade coreana, mas sim uma nova ideologia, superior ao próprio marxismo. Em suas memórias Kim II-Sung diz que durante a luta revolucionária “sua doutrina”, “seu credo” foi o chamado “iminwichon”, que significa considerar o povo como o centro de tudo.”
Um dos monumentos mais famosos de Pyongyang. A tocha, representando a ideia Juche “iluminando” a humanidade. Foi de cima dessa torre que tirei as fotos aéreas de Pyongyang do post passado
Remodelação do símbolo clássico do comunismo. Foice, Martelo e no meio a Tocha, representando os intelectuais. Vamos lá. Todo mundo tira foto imitando monumentos, não sou só eu.
Como o próprio texto acima explica, o ego de Kim Il Sung era tão elevado que ele adaptou o símbolo do comunismo e adicionou um novo componente no já martelo (representando os operários) e foice (agricultores). Adicionou uma pequena tocha para representar os intelectuais que também contribuem para a construção de uma nova sociedade. E sim, essa tocha brilha tanto que até existe um “Partido Juche” na França, quem quiser se filiar, é só visitar o site http://www.parti-juche.org/.
Eu não disse que tinha mais gente imitando?
Esse lugar é chamado de algo como a Escola do Povo. Repare que ele é meio curvado para dentro, como se estivesse abraçando as pessoas, no caso as crianças.

Outro ponto a ser destacado é que a ideia Juche propõe a autossuficiência e a colocar o povo como o objetivo em si. As palavras que Kim Il Sung mais gostava de falar eram “O povo é minha vida!”. Vários lugares em Pyongyang tem nome do povo no meio “Biblioteca do Povo” e coisas assim.

Por todo lado é possível ver o “povo” marchando aparentemente sem motivo algum. Quando estávamos por lá, milhares e milhares de crianças ensaiavam exaustivamente sob sol e chuva, literalmente, para mais uma demonstração de algo aleatório. Isso demonstra o quanto eles gostam do povo por lá.

Todos os dias em que passeamos por Pyongyang havia pessoas ensaiando alguma apresentação diferente
Faça chuva

Ou faça sol

O guia me perguntou se eu havia lido algo sobre essa filosofia mequetrefe antes de ir para a Coréia. Como vi que ele realmente parecia feliz em me perguntar isso e ficaria bem feliz em saber que eu tivesse lido, eu disse que sim, havia lido, mas não lembrava muito bem. Ele só respondeu “É impressionante, né?”. Fiquei meio sem jeito e falei que sim.
Depois ele veio me explicar mais algum dos pilares da filosofia Juche que dizia que para mudar o país, você precisa mudar a si mesmo “você deve ser o mestre do seu destino”. Que com a filosofia revolucionária passada eles não iriam “libertar a Coréia” (jargão que eles repetem de dez em dez minutos), era necessária uma nova filosofia, sendo a Juche um dos principais motivos da vitória deles sobre o Japão (sim, eles realmente acreditam que venceram a guerra contra o Japão).
Na boa, na hora deu vontade de rir, mas como queria voltar para casa com meu pescoço no lugar me limitei a dizer “nossa, que impressionante!”. Era realmente impressionante ouvir isso de um cidadão de um país onde seus habitantes em média medem 10 cm a menos de altura do que seus vizinhos (Coréia do Sul) que dividem códigos genéticos semelhantes. Isso, lógico, devido a má-alimentação (quando há). Pelo menos na Coréia do Norte dificilmente alguém era mais alto que eu (Sweeettt…).
Diferença de tamanho entre o guia e nossos amigos europeus =)

Ele disse que aprendeu sobre a filosofia Juche na universidade, pois quando está na escola, aprende apenas superficialmente o que é essa filosofia.

“…detalhes tão pequenos em vocêêê…”
        Retratos de Kim Jong Il e, lógico, de Kim Il Sung estão em todos, TODOS, os lugares da Coréia do Norte. Em todos os lugares que íamos havia estátuas e representações deles. Vamos numa fazenda? Tem uma estátua de bronze deles carregando foices ou arados e o povo ao redor.
Vamos em uma fábrica? Ele carregando um martelo e operários ao redor.
Vamos ao boliche? Fotos de quando ele visitou o boliche e por aí vai.

E dentro do boliche, claro, letreiro apoiando a Revolução Juche
E antes de entrar no lugar, lógico, todo mundo fica em linha e curva-se para poder reverencia-lo.
Inclusive a gente

Há também desde o clichê, como outdoors e fotos em prédios públicos, até o mais extremo, dentro de TODAS as casas da Coréia do Norte e no peito de quase todos coreanos.

Sim, pelo menos os lugares que podemos visitar e pelo que pudemos perguntar aos guias, todos os norte-coreanos possuem dentro dos seus apartamentos dois retratos, um de Kim Jong Il e outro de Kim Il Sung. E o retrato tem uma particularidade. A base da moldura é mais estreita que o topo, o que deixa o quadro levemente para baixo e dá a sensação que o quadro lhe olha de cima para baixo.
Faz tudo certinho que titio Kim tá te olhando

Sim, o bagulho é doido! Bem, nada mais justo, afinal, o apartamento que você mora (e parece que TODOS moram em apartamentos em Pyongyang, não vi casas na capital a não ser embaixadas) é “doado” para você pelo Estado (leia Kim Il Sung). Doado é forma de falar, já que você não pode vende-lo ou aluga-lo. Você também não pode simplesmente mudar de apartamento. Você mora com seus pais e teoricamente quanto maior a sua família, maior o apartamento que você recebe. Se você mora com os pais, não pode simplesmente se mudar para morar sozinho, tem que aplicar para um apartamento do governo. Caso não haja disponíveis, continua morando no mesmo apartamento. E se você se casar? Bem, se tiver disponível, você muda para o novo, senão ou muda-se para a casa dos pais do noivo ou dos pais da noiva. Lógico, com os dois retratos na parede lhe observando. E se eu quiser mudar de cidade? É impossível quem é de fora vir para cá, a não ser que seja convidado pelo governo e ganhe um apartamento novo, pois ninguém vive nas ruas. Cidadãos de Pyongyang inclusive tem carteiras de identidade próprios, mostrando que são residentes de lá.

Vai uma placenta de ovelha aí? Pra que serve? Brother, não tenho a mínima ideia, mas se vendia em farmácias! E você reclamando do chá de boldo que sua mãe lhe preparava

Outro fator é que quase todos os coreanos carregam no peito um broche com a bandeira vermelha e as fotos de Kim Il Sung ou Kim Jong Il juntos ou separados. Perguntei ao guia e ele me falou que eles ganham esses broches aos 14 anos, quando iniciam algo como a quinta série, como prova de que são cidadãos conscientes e por isso podem caminhar com o retrato dos grandes líderes. Perguntei onde eu poderia comprar um igual para mim e ele falou que você não pode compra-lo e, como você deve merecê-lo, pouquíssimos estrangeiros tem essa “honra” de obter um para si. Por coincidência quando estávamos lá, pude ver um europeu com um no peito e o guia me explicou que ele era algo como presidente do centro de estudos europeus da Ideia Juche.

Todo mundo de broche
Só achei interessante essa marca de chapéu. “Ronaldinho”Eu não sabia que Ronaldinho Gaúcho tinha fábrica de chapéu na Coréia do Norte
Reparem no broche
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Manhã de caminhada numa praça em Pyongyang

É lógico que não viajamos a Coréia do Norte apenas para visitar inúmeros museus e memoriais em honra aos grandes heróis. Queríamos nos misturar ao povo, ter uma experiência mais real de como seria a vida por lá. Depois de tanto pertubarmos os nossos guias eles aceitaram nos levar para um breve passeio pelas ruas de Pyongyang. Essa foi uma das únicas experiências que tivemos de nos misturar com os coreanos normais…
Foi bem legal poder caminhar um pouco por lá e por um instante não estar seguindo alguém, ainda que estivéssemos sendo escoltados pelos guias que não nos deixava dar um passo fora da praça ou do caminho ao ônibus…

Reparem na música ao fundo, que beleza…

Explanações e divagações de um maranhense

Antes de começar a contar os causos que ocorreram pela Coréia do Norte, acho que seria interessante explanar sobre alguns assuntos que eu tenho certeza que despertam a curiosidade das pessoas. Nos próximos posts tratarei sobre diversos temas que eu acho interessante citar antes de começar a narrar a história em si. Um deles é de como parece ser a vida cotidiana, pelo menos em Pyongyang.

PYONGYANG

Como sempre. a galera do nosso grupo pirando para bater fotos

Como todas as residências são disponibilizadas pelo Estado, eles saem construindo edifícios porque é mais barato e cabe mais gente, logo a cidade em si é bem compacta. Não ha casas e todo mundo vive em apartamentos. A cidade acaba sendo toda parecida. É bem aquela parada stalinista de todos os prédios sendo iguais e do mesmo estilo arquitetônico. Isso economiza mais, faz as construções serem mais baratas, mas a cidade em si fica muito sem graça. Eu facilmente me perderia pelas ruas de Pyongyang se tivesse viajando sozinho porque, como falei, todas as ruas são MUITO parecidas. Bom lembrar que Pyongyang foi totalmente destruída durante a guerra, por isso deve ter sido mais fácil reconstruir logo tudo igual.Bem, Pyongyang, a capital, como já falei, é um reino da fantasia. Uma cidade construída apenas para a elite coreana. Nem todos os coreanos podem viver lá, inclusive os residentes de Pyongyang possuem uma carteira de identidade própria escrita “residente de Pyongyang”.

A vida de quem vive em Pyongyang parece bem normal. Eles tem bares, vida noturna, saem a noite e coisas assim. Mas é só sairmos um pouco de lá (como quando fomos a Zona Desmilitarizada na Fronteira) que podemos ver como o padrão de vida cai absurdamente.
Algumas fotos panoramas que fiz de diferentes pontos em Pyongyang. É possível ter uma noção do estilo arquitetônico monótono típico de cidades com arquitetura soviética e edifícios que mais parecem caixas de fósforos.

A NORMALIDADE FORÇADA

Uma coisa que me deixou impressionado enquanto estive lá é que eles fazem um trabalho muito, mas MUITO, bem feito para tentar demonstrar alguma normalidade na vida cotidiana. Cara, se você não já chega lá sabendo que a Coréia do Norte é o país que mais recebe ajuda internacional no planeta, assolado por contínuas crises de fome, realmente jura que ali parece haver uma vida normal. Para vocês entenderem melhor, em um dos dias que estivemos caminhando e batendo fotos, caiu um toró, mas um TORÓ! Era chuva como nunca se vê em Brasília. Apesar de toda aquela água, a cidade seguia sua normalidade e não vimos uma inundaçãozinha sequer apesar de termos ficado o dia inteiro em Pyongyang. Isso era estranho, pois algumas semanas antes uma inundação havia destruído parcialmente Pyongyang e aquela chuva realmente parecia forte.
A vida dentro do hotel era bem normal, agitada até…

Só quando cheguei ao hotel e pude ver notícias (tínhamos acesso a Al Jaazera, um dos melhores canais de notícias do mundo, sediado no Catar), que soube da destruição na cidade e pude ter conhecimento que 250 pessoas haviam morrido naquele dia devido a inundações e enxurradas. Se eu não tivesse visto isso na TV, eu NUNCA acreditaria que havia ocorrido uma inundação, afinal, como disse, não vi uma lâmina sequer de água na cidade. Lógico, eles só andaram com a gente em uma parte minúscula da cidade, não onde o bicho pega, que foi onde inundou.

Um dia depois daquele temporal que enfrentamos em Pyongyang, fomos visitar uma cidade  do interior da Coréia do Norte para podermos assistir a uma apresentação. Lógico que a cidade era bem menos equipada e com menos infra-estrutura que Pyongyang. Quando chegamos, pudemos ver pela janela do ônibus que a população inteira tentava de qualquer forma evitar que a próxima cheia do rio inundasse de vez a cidade. Não havia máquinas, ferramentas, equipamentos, nada. Era todo mundo dando o seu jeito, carregando pedras no braço e nos ombros, desesperados para conter a próxima cheia. Mulheres, crianças, velhos,  o que for. Um retrato do desespero que deve ser MUITO maior em outras cidades que nem é permitido que visitemos.

O trabalho de transmitir normalidade para a gente era muito bem feito. Só depois desse dia que comecei a perceber que, danadinhos, apesar de viajarmos para vários lugares da cidade, óperas, balés, monumentos, restaurantes, sempre passávamos pelas mesmas ruas, lógico, bem asfaltadas e pavimentadas.Falando em monumentos, pra onde você vai na cidade há monumentos louvando alguma feito heroico ocorrido na guerra e a sua “vitória” sobre o Japão. Sim, na cabeça dos coreanos eles ganharam a guerra. Nunca ouviram falar de Hiroshima e Nagasaki e é realmente bem irônico que os Estados Unidos, o grande Satã, foi o responsável pelo Japão ter se retirado da Península Coreana e “libertado” a Coréia e não o fanfarrão do Kim Il Sung que só surfou na onda e aproveitou para montar o seu mundo mágico.

Esse monumento em especial me chamou a atenção devido a riqueza de detalhes. Ficou bom, não?
Arco do Triunfo em Pyongyang “comemorando” a vitória da Coréia do Norte sobre o Japão. Três metros maior que o da França, como o guia gostava de citar…

Mas a maior bronca deles parece ser mesmo, ao contrário do que possamos imaginar, com os japoneses. Nessa, eles tem um pouco de razão, pois eles comeram o pão que o diabo amassou com o Japão. Os japoneses seguiram o mesmo “script” na Coréia do que seguiram na China. Levaram a cabo um programa de “japonização” da Coréia, proibindo a língua coreana, forçando os coreanos a aprender japonês, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas. Só não foram como os nazistas porque não jogavam corpos em fornos crematórios. Por isso a bronca deles ser bem maior com os japoneses. Os americanos eles até citam uma hora ou outra como imperialistas, mas nada que se compara com os japoneses.

Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel
(essa foto não é minha =P)
Teve até um poema que vimos em um museu, que eu achei bem interessante e importante citar. Ele conta como os coreanos devem ser: Ate as formigas podem derrubar um castelo quando se juntam e vão retirando pedaços da muralha devagarzinho. Uma formiga, sozinha, não é nada, mas quando todas trabalham em conjunto e começam de forma alguma elas podem ser vencidas. Exatamente como a Coréia deve ser em relação ao Japão Imperialista.

FESTAS E VIAGENS

Para viajar para fora do país, você precisa pedir permissão pra sua empresa, que pede permissão ao seu governo. Uma das nossas guias já havia ido para a china, mas só em uma cidade de fronteira e porque o seu pai é um homem de negócios. Diz ela que ficou extremamente impressionada com as luzes e o tanto de shoppings que havia por lá. Disse que nunca viu tanta fartura na vida dela. Lembrar que se a China já é um país pobre, imagina uma cidade de fronteira o quanto não deve ser.

Em um país onde racionamentos de comidas são comuns, perguntei para um dos guias como eles faziam quando queriam fazer uma festa. Ele me disse que cada um levava um pouco de comida e com isso eles celebravam e faziam a festa deles. Mais ou menos como eu já ouvi falar que pessoas de outros países comunistas, como Cuba, também fazem quando querem festejar algo, afinal, não podem esbanjar muita comida.

DAVID

Como já citei, o dono da empresa estava com a gente. Na verdade, na verdade, no melhor estilo Luís XIV, o David poderia dizer “A empresa sou eu”, já que a sua empresa era na sua casa e ele não tinha nenhum funcionário. Como eu disse, ele era bem engraçado e vez ou outra quando eu reclamava que o cronograma estava muito puxado e não sobrava tempo para dormimos, ele respondia:
– Tá reclamando que está dormindo pouco? Você não veio para Coréia do Norte para dormir, cara! Se vocês quisesse gastar 1000 euros pra poder dormir, era só ter me falado que eu te levava pra dormir na minha casa lá em Londres! Servia café e ainda botava minha mãe para tomar conta de você…
Monumento à unificação das Coreias. Sim, os norte coreanos querem isso

Ele contava para gente sobre as reuniões de negócios que fazia enquanto estávamos visitando os pontos turísticos. Diz que as reuniões na Coréia do Norte são bem engraçadas. Eles começam a reunião tomando um shot da cachaça coreana e depois continuam bebendo durante a reunião. Depois de umas duas horas ninguém ta mais falando nada com nada e ta todo mundo bêbado. Por isso, dizia ele, ele tinha que tentar ser rápido, afinal, o tempo em que todo mundo estava consciente para poder negociar algo era bem exíguo. Alguém consegue imaginar de que país eles receberam influência? É, a Rússia não deixou só gasolina subsidiada por lá.

Além do tour que estávamos realizando, o David organiza também um tipo de turismo muito bizarro. Chama-se Aviation Tour e consiste em basicamente levar  turistas para Coréia do Norte para poder voar em aviões da época da União Soviética que hoje só voam por lá. Não estamos falando de caças ou aviões supersônicos, estamos falando de aviões de passageiros mesmo, algo como alguém viajar para o Brasil só pra poder viajar naqueles Fokker 100 da TAM (que devem ser mais velhos que os aviões soviéticos que existem na Coréia). Acha que isso é bizarro e que pouquíssimas pessoas se dispõe a fazer isso? Pois só esse ano o David organizou quatro tours que foram rapidamente preenchidos. Ele falou que gosta desse tipo de tour porque as pessoas meio que já se conhecem (pô, não é todo mundo que tem um hobby bizarro desses, logo os caras meio que se conhecem pela internet) e fica um ambiente meio festivo no avião. Ele falou de um cara que gosta tanto desse passeio que veio nos quatro tours que ele organizou esse ano. Ele voou de Londres para cá especialmente para isso e depois voltou. Outro bem engraçado foi sobre um cara que estava no avião todo serelepe quando ele notou um pequeno detalhe em uma das asas do avião. Ele perguntou pro David qual era o avião e ele falou que era um BS-321-A, o cara diz que só faltou chorar “Ah! Eu achei que era uma BS-312-B. Eu voei num avião igual a esse aqui na década de 70” e ficou a viagem inteira olhando para o infinito e sem falar com mais ninguém, depressivo. Sim, pode ser bizarro como parece. Outra coisa que ele faz é deixar os passageiros visitarem o bagageiro do avião e o abre no meio do ar para que eles possam ficar batendo fotos. Diz que eles só faltam ter um orgasmo quando fazem isso. Pode parecer que é uma parada simples, mas diz que esse é um dos passeios mais complexos de se fazer, que tudo é tal cheio de detalhe que ate a forma que o avião pousa tem que ser especifica (virado para o pôr-do-sol para poder ficar melhor nas fotos).
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