VIAGEM A SEYCHELLES | Como viajar por Seychelles sendo pobre

Eu não sabia muita coisa sobre Seychelles antes da viagem. Na verdade, praticamente tudo o que eu conhecia do país cabia em uma única frase. Toda vez que eu comentava que iria para lá, a reação era sempre a mesma:

“Você vai para Seychelles? Rapaz… então você está milionário!”

Se eu ganhasse uma rúpia seichelense cada vez que ouvi isso, provavelmente não ia comprar muita coisa. Seychelles consegue ser cara de um jeito quase ofensivo.

E o pior é que eu estava chegando justamente da Etiópia. Um país que tinha acabado de me surpreender pela beleza, pela história e, principalmente, pelos preços. Durante vários dias eu fiz e refiz conversões para reais porque simplesmente não acreditava no quanto as coisas eram baratas na Etiópia. Toda hora eu pensava: “Não é possível… devo ter feito a conta errada.”

Agora o jogo virava completamente.

Eu estava saindo de um dos países mais baratos que já visitei para desembarcar em um dos destinos mais caros do planeta. Meu medo já não era mais converter errado para menos.

Era converter certo e descobrir que um sanduíche custava o equivalente a um financiamento imobiliário.

Entre o cartão-postal e o interrogatório 

Seychelles começa a te conquistar antes mesmo de você colocar os pés no país. A chegada pelo aeroporto é, sem exagero, uma das mais bonitas que eu já fiz na vida. Existem pousos memoráveis. Existe o pouso em Fernando de Noronha. Existe o pouso nas Ilhas Maurício. Existe o pouso nas Maldivas.

E existe Seychelles.

O avião vai perdendo altitude lentamente. Você olha pela janela e vê apenas o oceano.

Água.

Mais água.

Mais água.

A sensação é muito parecida com a de pousar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. O avião continua descendo e, por vários segundos, tudo o que você consegue enxergar é mar. Você começa até a pensar que aquele sujeito errou alguma coisa.

De repente…

Do nada…

Surge uma tripa de terra.

E, praticamente no último instante, aparece a pista.

É um daqueles pousos que fazem qualquer passageiro largar o celular e olhar pela janela. Se o piloto errar a conta por alguns metros, o banho de mar já está garantido.

A chegada já explica por que Seychelles ficou famosa no mundo inteiro. A cor da água é absurda, as montanhas de granito brotam do oceano e você já entende, antes mesmo de desembarcar, que está chegando a um lugar muito diferente.

Só que a beleza da paisagem foi rapidamente substituída pela realidade da imigração.

Com a quantidade de carimbos que já tenho no passaporte, normalmente eu nem me preocupo muito. Geralmente o agente pergunta onde vou ficar, quantos dias pretendo permanecer no país e, no máximo, qual é a minha profissão no Brasil. Foi assim em Moçambique. Foi assim nos Estados Unidos. Imaginei que Seychelles seguiria exatamente o mesmo roteiro.

Rapaz…

Cheguei ao guichê da imigração e tudo começou exatamente como eu esperava. A agente perguntou o motivo da viagem, quantos dias eu ficaria no país, onde estava hospedado, o endereço do hotel… aquele roteiro de sempre. Depois perguntou qual era a minha profissão no Brasil. Respondi simplesmente:

— Sou programador Python.

Já peguei minha mochila e fiz aquele movimento clássico de quem está indo embora.

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Quem disse.

A entrevista estava só começando.

Ela continuou perguntando sobre a viagem, até que soltou:

— Você tem dinheiro suficiente para se manter em Seychelles?

Respondi tranquilamente que sim.

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Ela então respondeu:

— Então me mostra.

Eu confesso que fiquei alguns segundos processando a informação. Minha primeira reação foi pensar que eu tinha entendido o inglês errado. Não era possível que ela estivesse pedindo para eu provar que tinha dinheiro.Mas era exatamente isso.

Abri a mochila e mostrei os dólares que eu carregava em espécie.Ela olhou e respondeu:

— Isso é pouco.

Na minha cabeça só vinha uma pergunta:

“Gente… quem anda com um bolo de dinheiro vivo em 2026?”

Expliquei que praticamente todas as minhas despesas de viagem eram pagas no cartão de crédito.

Ela perguntou:

— E qual é o limite do seu cartão?

Aí complicou.

Respondi, com toda a sinceridade do mundo, que eu não fazia a menor ideia. Nunca tinha decorado o limite porque simplesmente nunca precisei.

Ela ficou alguns segundos me olhando com uma expressão que parecia dizer:

“Meu Deus… o que eu faço com esse cidadão?”

Depois levantou da cadeira e chamou a SUPERVISORA. Oxi, subiu mais um degrau, a coisa começou a ficar séria.

Nessa hora eu já comecei a imaginar que ia inaugurar a estatística de brasileiros deportados de Seychelles.

A supervisora veio, fez mais algumas perguntas, onde eu ia ficar, se já tinha pago hotel, se já tinha pago o ferry para viajar entre as ilhas, olhou meu passaporte, conferiu que eu tinha passagem de saída, reservas de hospedagem, um transfer já me esperando do lado de fora e dezenas de carimbos de outros países. Ficou analisando. Pediu para ver de novo. Perguntou mais algumas coisas e ficou pensando e me encarando.

Depois de um tempo, devolveu os documentos e disse que eu podia entrar.

Confesso que saí da imigração um pouco sem entender o que tinha acontecido.

Eu já tinha entrado em países bem mais complicados do que Seychelles e nunca tinham me interrogado daquele jeito.

Confesso que foi uma das imigrações mais chatas pelas quais já passei. Na hora até fiquei meio sem entender o motivo de tanta desconfiança. Depois, pensando melhor, lembrei que tinha vivido algo parecido nas Maldivas (confira a história aqui). Lá eles chegaram ao ponto de ligar para o Airbnb onde eu estava hospedado para confirmar que a minha reserva realmente existia antes de me autorizarem a entrar no país.

Mais tarde fui pesquisar na internet e descobri que eu não era exceção. Vários viajantes relatavam experiências muito parecidas em Seychelles. Acho que isso acontece porque o perfil de turista que eles recebem costuma ser bem diferente do meu. O visitante típico chega em um voo vindo da Europa, já comprou um pacote completo, entra em um transfer organizado pelo hotel, passa uma semana dentro de um resort e volta para casa. Eu apareci sozinho, vindo da Etiópia, dizendo que ia pegar ônibus, ferry, Airbnb e sair andando pelo país inteiro. Convenhamos… olhando pela perspectiva deles, eu realmente não parecia o turista padrão de Seychelles. Para ter uma ideia do público que o país costuma atrair, foi justamente em Seychelles que o príncipe William e Kate Middleton passaram a lua de mel.

Outro detalhe também ficava martelando na minha cabeça. Antes da viagem eu tinha assistido a uma reportagem da BBC que me impressionou bastante. O documentário mostrava que cerca de 10% da população economicamente ativa de Seychelles era dependente de heroína, uma das maiores proporções do mundo. A matéria teve enorme repercussão internacional justamente porque quebrava aquela imagem de paraíso perfeito vendida pelos folhetos de turismo.

O próprio governo reconheceu a gravidade do problema e parte da imprensa local discutiu o impacto que aquela exposição poderia ter sobre a reputação do país. No fim, o turismo continuou forte, mas ficou claro que, por trás das praias de areia branca, dos resorts de luxo e das águas azul-turquesa, Seychelles também convive com desafios sociais bastante sérios. Talvez justamente por isso a imigração seja tão criteriosa com quem entra no país. Não posso afirmar que uma coisa esteja ligada à outra, mas, depois daquela entrevista, confesso que essa hipótese passou pela minha cabeça.

Então eles tão arrochando qualquer um que eles tenham suspeita disso. Há um tempo atrás eles chegaram a proibir todo e qualquer cidadão da Nigéria de entrar. Daí chega um doidinho, sul-americano, praticamente vizinho de Pablo Escobar, direto da África, com uma cara de fi duma égua, falando que alugou um Airbnb e que vai pegar um ferry para outra ilha sozinho. Com um passaporte cheio de carimbo (exatamente o que você espera de um traficante de drogas internacional). É óbvio que eles dão uma arrochada. Eles não querem turista desse tipo por lá. Eles querem alguém com euros, muito deles, e não alguém com reais na carteira.

Na verdade, além de europeus tem muitos russos também. Rapaz, nunca vi tantos russos fora da Rússia como vi em Seychelles. 

O país africano que parece organizado demais para ser verdade 

Seychelles é um arquipélago formado por antigos fragmentos do supercontinente Gondwana, uma cordilheira submersa que permaneceu ligada ao bloco da Índia por milhões de anos antes da separação dos continentes.

A história de Seychelles é relativamente curta quando comparada à de outros países. Diferentemente de Madagascar ou das Comores, o arquipélago permaneceu desabitado até o século XVIII. Embora navegadores árabes e suaílis provavelmente já conhecessem aquelas ilhas por fazerem parte das rotas comerciais do Oceano Índico, não há evidências de que tenham criado povoamentos permanentes. Os primeiros europeus a registrar Seychelles foram os portugueses, durante a viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1503. Apesar disso, Portugal nunca se interessou em colonizar o arquipélago. Quem efetivamente tomou posse das ilhas foram os franceses, em 1756, iniciando a colonização com plantações e a chegada de escravizados africanos.

Após as Guerras Napoleônicas, Seychelles passou ao domínio britânico em 1814, permanecendo como colônia até conquistar sua independência em 1976. Ao longo desse período, africanos, franceses, britânicos, indianos e chineses contribuíram para formar a identidade multicultural do país e o crioulo seichelense, hoje a língua mais falada do arquipélago. Depois de um golpe de Estado em 1977 e anos sob um regime de partido único, Seychelles iniciou sua democratização na década de 1990. Atualmente é o país mais rico da África com uma das maiores rendas per capita da África, baseada principalmente no turismo e na pesca, e é reconhecido mundialmente por sua política de preservação ambiental.

Coco de Mer. Maior semente do mundo e símbolo das Seychelles

Atualmente, Seychelles é considerada uma democracia multipartidária, realizando eleições livres desde o início da década de 1990, quando abandonou o regime de partido único. Apesar do tamanho reduzido do país e de algumas críticas relacionadas à concentração de poder e à liberdade de imprensa, o arquipélago é visto como uma das democracias mais estáveis da África. Sua economia depende fortemente do turismo, responsável pela maior parte da entrada de divisas, além da pesca, especialmente do atum, e de serviços financeiros internacionais. Graças a essa combinação, Seychelles possui uma das maiores rendas per capita do continente africano. De modo geral, a população desfruta de um padrão de vida elevado para os padrões africanos, com bons indicadores de educação, saúde e expectativa de vida. Por outro lado, o país enfrenta problemas como o alto custo de vida e a forte dependência do turismo que ficou mais clara quando tudo teve que ficar fechado devido a COVID19.

É realmente impressionante como tudo parece funcionar na ilha.

Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a limpeza.

Não era apenas impressão.

O país parece fazer um esforço deliberado para permanecer limpo.

Existem políticas específicas para gerenciamento de resíduos, lixeiras por toda parte e uma preocupação constante com a imagem do arquipélago.

Só para você ter uma ideia, a gente acha que o problema do turismo em lugares como o Rio de Janeiro é a violência, mas a principal queixa de turistas na saída do Rio é sobre limpeza urbana.

Em Seychelles, ela parece tratada como patrimônio nacional.

A mesma sensação aparece quando o assunto é segurança. Me explicaram que as penas para crimes, principalmente contra turistas, são bem pesadas, justamente porque eles querem que seja mantido essa visão de paraíso intocado. Enquanto fiquei nas praias e cidades não encontrei vendedores insistentes. Não encontrei caixas de som tocando música merda no volume máximo. Não encontrei pedintes circulando pelas praias.

A lógica é simples. A economia depende do turismo. A reputação do país vale dinheiro.

Mas nem tudo são flores

Existe um detalhe que quase ninguém comenta.

Seychelles é extremamente montanhosa.

No mapa parece tudo perto.

Na prática…

…você descobre que precisa subir e descer morros o tempo inteiro. Então prepare as suas panturrilhas.

Descobrindo como não falir em Seychelles 

Antes de sair do aeroporto, fiz a minha primeira anotação para escrita.

“Caro demais. Meu Deus.”

Era um excelente resumo de Seychelles.

E, sinceramente, eu nem consigo culpar os caras por isso. Estamos falando de um pequeno arquipélago perdido no meio do Oceano Índico, a mais de mil quilômetros do continente africano. A população é pequena, o relevo é bastante montanhoso, há pouca terra disponível para agricultura e praticamente tudo o que os moradores consomem precisa chegar de navio ou de avião. Some a isso uma economia baseada no turismo de alto padrão e fica fácil entender por que os preços são tão salgados. Para você ter uma ideia, quando estive lá, o litro da gasolina custava algo em torno de 2 dólares (10 reais). Se até abastecer um carro é caro, imagine todo o resto. Então não adiantava reclamar. Era aceitar a realidade, engolir o choro e seguir viagem.

O problema é que existe um gasto do qual é praticamente impossível escapar: transporte. Seychelles não tem Uber, Bolt nem nenhum aplicativo semelhante. Você acaba completamente nas mãos dos táxis. Logo na chegada, paguei 50 dólares — cerca de 300 reais — apenas para ir do aeroporto até o Airbnb. Na hora achei um absurdo. Depois descobri que, pelos padrões locais, nem tinha sido uma corrida tão cara assim. Em seguida veio o chip de celular, que também custou uma pequena fortuna. E essa sensação se repetia o tempo todo. Cada compra, por menor que fosse, exigia uma pequena preparação psicológica antes de olhar o preço. Em Seychelles, você aprende muito rapidamente que a paisagem é paradisíaca… e a conta acompanha o cenário.

Antes de sair explorando, resolvi ficar duas noites na ilha principal, Mahe. Fiquei hospedado perto de Beau Vallon, provavelmente a praia mais famosa da ilha. A localização era excelente. Bastava caminhar alguns minutos e eu já estava com o pé na areia.

O dono do Airbnb era uma figura sensacional. Chamava-se Alex e era filho de um alemão com uma seichelense. O resultado era um sujeito que chamava atenção por onde passava. Muito alto, pele clara, traços europeus, mas com aquele jeito tranquilo típico das ilhas. Gente boa demais. Vivia praticamente em função do Airbnb. Em mais de uma ocasião me levou de carro ao supermercado para fazer compras e, quando voltei da ilha de Praslin, fez questão de ir me buscar no porto e me deixar na minha hospedagem seguinte. Foi daqueles anfitriões que fazem a diferença na viagem.

No primeiro dia comecei a perguntar para ele como funcionava o transporte público.

Ele me olhou com uma cara que parecia dizer:

— Mas… por que você quer saber disso?

Ele deu risada e respondeu que não fazia a menor ideia de como o sistema funcionava. Sabia apenas que existia um cartão de transporte, mas que não usava há um bom tempo. Pelo que entendi, nem os hóspedes dele costumavam pegar ônibus. Naquele momento comecei até a achar que a agente da imigração tinha um pouco de razão em desconfiar de mim. Claramente eu não era o tipo de turista que Seychelles estava acostumada a receber.

Então fica a dica para quem pretende economizar. Em Seychelles vale muito a pena comprar o cartão do transporte público. Existem opções de quatro dias, oito dias ou um cartão recarregável, que foi o que eu escolhi. O detalhe é que ele não é vendido em qualquer lugar. Normalmente você encontra em alguns supermercados e pontos específicos da empresa de transporte.

Sendo pobre em Seychelles

Cheguei todo confiante ao supermercado perto da hospedagem e perguntei onde comprava o cartão.

O atendente me olhou como se eu tivesse perguntado onde vendia um foguete para ir à Lua.

Depois respondeu, completamente intrigado:

— Mas… pra que você quer isso? Você é turista.

Expliquei novamente que queria andar de ônibus.

Ele então soltou:

— Cartão de ônibus a gente normalmente vende para trabalhador braçal.

Nessa hora eu comecei a rir.

Os caras realmente não estavam acostumados com um turista tentando economizar uns bons dólares usando transporte público. Mas enfim, consegui meu cartão.

Esperando o busão

Passei dois dias hospedado em Beau Vallon e gostei bastante da região. A praia é bonita, o mar costuma ser calmo e o snorkel ali é realmente muito bom. Dá para entrar na água com uma máscara e poucos minutos depois já encontrar uma boa quantidade de peixes.

Outra coisa que achei interessante foi um hotel de frente para a praia que alugava cadeiras e funcionava praticamente como um day use, igual aos que existem em muitas praias brasileiras. Você alugava a espreguiçadeira e podia usar os banheiros, os chuveiros e até guardar seus pertences em um armário enquanto estivesse no mar.

Quando vi a estrutura, pensei:

“Pronto. Lá vêm uns 500 reais.”

Nada disso.

Custava cerca de 80 reais.

Rapaz, barato, não Para falar a verdade, já paguei mais do que isso em Porto de Galinhas no carnaval. E correndo o risco de tomar uns tapas se eu reclamasse.

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