VIAGEM A SEYCHELLES| Quando parei de ser turista e comecei a entender o país

E, cara, vou te falar uma coisa: depois que você começa a entender como Seychelles funciona, o país muda completamente. É como desbloquear uma fase secreta de um videogame. Você deixa de viver como um turista e começa a viver, dentro do possível, como um morador. Descobre onde ficam os supermercados, aprende como funciona o transporte público, entende quais lugares são feitos para os locais e quais existem exclusivamente para arrancar dinheiro dos turistas.

Foi aí que Seychelles começou a fazer muito mais sentido para mim.

Em vez de pagar uma fortuna em táxis, eu pegava ônibus junto com estudantes indo para a escola, trabalhadores voltando para casa e senhorinhas carregando sacolas de supermercado. Passava por bairros que dificilmente conheceria se estivesse preso entre um resort e outro. Comecei a observar o cotidiano das pessoas, e essa, para mim, sempre foi a melhor parte de viajar.

E o melhor de tudo era o preço.

A passagem do ônibus custava menos de três reais.

Três reais.

Em um dos países mais caros do mundo.

E não era um sistema ruim, muito pelo contrário. Os ônibus percorrem praticamente toda Mahé e Praslin, as duas ilhas onde fiquei hospedado. Bastava baixar o aplicativo oficial do transporte público para saber exatamente em que horário o próximo ônibus passaria no ponto. Confesso que achei que os horários seriam apenas uma sugestão, mas não. Funcionavam surpreendentemente bem. Quase sempre o ônibus aparecia na hora prevista.

A vista das paradas de ônibus de Seychelles

Outra descoberta interessante foi que o governo mantém uma marca estatal que vende diversos produtos básicos a preços subsidiados. Arroz, farinha, açúcar, sal e outros itens essenciais podem ser encontrados em praticamente qualquer supermercado pelos mesmos valores tabelados. Isso ajuda bastante os moradores a enfrentarem o alto custo de vida do arquipélago.

A partir do momento em que comecei a cozinhar, usar ônibus e fazer compras onde os seichelenses fazem, a viagem ficou muito mais barata. Continuava longe de ser um destino econômico, claro, mas deixava de parecer inviável. Para minha surpresa, encontrei frutas custando praticamente o mesmo que no Brasil. Carne bovina continuava bastante cara, mas peixe era abundante e muito mais acessível, o que faz todo o sentido em um arquipélago cercado pelo oceano.

E tem mais uma vantagem que pesa bastante no orçamento.

As praias.

Elas são públicas.

Não importa se na frente existe um resort de cinco estrelas ou um hotel que cobra milhares de dólares por diária. Você pode simplesmente chegar, estender sua toalha na areia e aproveitar uma das praias mais bonitas do planeta sem pagar absolutamente nada por isso.

O ferry do Satanás – A travessia que me fez entender por que existe avião 

Depois de passar dois dias em Beau Vallon, finalmente chegou o momento que eu mais esperava desde que comecei a planejar a viagem: conhecer Anse Lazio. Durante anos ela apareceu em listas das praias mais bonitas do mundo e, pelas fotos que eu via na internet, parecia aquele lugar que alguém inventou no Photoshop. Era justamente por causa dela que eu tinha decidido incluir Seychelles no roteiro.

O único detalhe é que Anse Lazio fica na ilha de Praslin.

“Sem problemas”, pensei.

Era só colocar a mochila nas costas, pegar o ônibus até o porto, embarcar no ferry e, cerca de uma hora depois, estaria do outro lado.

Tudo muito simples.

Até chegar à bilheteria do porto.

O ferry custava…

300 reais.

CADA trecho.

Isso mesmo.

Trezentos reais para ir. Trezentos reais para voltar.

Comentei o preço com o Alex, meu anfitrião no Airbnb.

Esperando ouvir alguma reclamação.

Ele simplesmente respondeu:

— Barato, né

Barato.

Foi nessa hora que percebi que os seichelenses vivem em uma realidade econômica completamente diferente da nossa e começa a entender o custo de vida que eles estão sujeitos.

Enfim…

Respirei fundo, engoli o choro, passei o cartão e fui embarcar.

Dava para ir de avião também. O detalhe é que se o ferry era caro, o avião custava cerca de cinco vezes mais do que o ferry e, considerando o tempo de check-in, embarque, desembarque e deslocamento até o aeroporto, a economia de tempo nem era tão grande assim.

Na hora eu pensei:

“Quem é o maluco que paga tudo isso para economizar tão pouco tempo?”

Algumas horas depois eu descobri exatamente quem.

As pessoas que já fizeram o trajeto de ferry.

Cara, durante boa parte da minha vida eu sempre me considerei uma pessoa tranquila em relação a enjoo em embarcações. Pegava a lancha de São Luís para Alcântara sem problema nenhum. Passeio de barco? Tranquilo.

Só que, de uns anos para cá, alguma coisa aconteceu.

A idade chegou.

Comecei a enjoar em praticamente toda embarcação.

Em São Vicente e Granadinas eu sobrevivi a seis horas em um barco minúsculo sendo sacudido pelo mar o tempo inteiro. Achei que, depois daquela experiência, nada mais conseguiria me impressionar.

Ledo engano.

Quando entrei no ferry de Seychelles, a primeira coisa que chamou minha atenção foi um detalhe curioso. Cada poltrona tinha um saquinho de vômito. Pensei comigo:

“Que povo exagerado…”

Rapaz…

Era eu quem estava sendo inocente.

Enquanto o barco permanecia dentro da baía, a viagem parecia um passeio de domingo. Foi só sair para mar aberto que parecia que alguém tinha apertado um botão. Ou, para ser mais preciso, parecia que Satanás tinha assumido o controle do Oceano Índico.

O ferry começou a balançar de um lado para o outro de um jeito completamente absurdo. Não era aquele balanço gostoso de barco. Era uma pancada para um lado, outra para o outro, depois um mergulho na onda e, em seguida, outra pancada.

Foi aí que tudo fez sentido os saquinhos. Em poucos minutos começaram a surgir uma tia com um saco de lixo grande. Para que. Ela recolhia os saquinhos cheios e já entregava outro novinho para o próximo passageiro que estivesse prestes a contribuir com a estatística. Era uma linha de produção. Eu não cheguei a vomitar. Mas também não fiquei muito confiante.

A tia do vômito

Quando finalmente o ferry atracou em Praslin, minhas pernas estavam literalmente tremendo. Mas eu tinha sobrevivido. E agora, finalmente, era hora de conhecer Anse Lazio.

Anse lazio – Cheguei suando e encontrei uma das praias mais bonitas do mundo 

Consegui uma hospedagem muito boa em Anse Volbert, uma das melhores bases para explorar a ilha de Praslin. No outro dia acordei cedo, preparei a mochila de praia, coloquei máscara de snorkel, toalha e lá fui eu seguir o ritual que já tinha aprendido em Seychelles: caminhada até o ponto de ônibus e transporte público para economizar uma pequena fortuna em táxi.

Peguei o ônibus, acompanhei o trajeto pelo aplicativo e desci exatamente na parada que me disseram ser a de Anse Lazio.

Olhei para um lado.

Olhei para o outro.

Cadê a praia?

Cadê Anse Lazio?

Na minha frente havia apenas um paredão gigantesco coberto de vegetação.

Foi aí que um pessoal que estava passando explicou que eu ainda precisava caminhar uns vinte minutos até a praia.

“Caminhar”, no caso, é uma forma bastante generosa de descrever a situação.

Boa parte do percurso é uma subida bem íngreme. Você sobe, sobe, sobe… depois desce tudo de novo até finalmente chegar ao mar.

Vale a pena?

Muito.

A vista até que compensa

Mas ninguém coloca essa parte no Instagram.

As fotos mostram apenas a areia branca, o mar azul-turquesa e os coqueiros. Não mostram o cidadão suando feito uma tampa de chaleira para chegar até lá.

Quando finalmente alcancei a praia, veio outra preocupação.

Quanto iria custar uma cadeira?

Se em Beau Vallon eu já tinha pago cerca de oitenta reais para usar uma espreguiçadeira com direito a banheiro e chuveiro, imaginei que em Anse Lazio, uma das praias mais famosas do planeta, a facada seria histórica.

Fui me aproximando do restaurante já preparado psicologicamente.

Na minha cabeça, qualquer coisa entre quinhentos e oitocentos reais parecia perfeitamente possível. Respirei fundo e perguntei o preço. O rapaz respondeu:

Cinquenta reais.

Pensei que tinha entendido errado.

Perguntei de novo.

Era isso mesmo.

Cinquenta reais.

Pelo mesmo esquema: cadeira, banheiro, chuveiro e estrutura durante o dia inteiro. E não era uma estrutura improvisada, não. O restaurante era limpo, organizado e muito bem cuidado. Depois de passar dias tomando susto com os preços de Seychelles, encontrar uma pechincha justamente em uma das praias mais famosas do mundo foi uma surpresa.

O snorkel na praia também era maravilhoso. Muito peixes, arraias e até uma outra tartaruga que aparecia para dar um alô.

O mais legal era depois pegar o busão. Você pagava por um deslocamento de ônibus e ganhava junto um passeio de montanha russa. Juro, o motorista dirigia como se estivesse disputando uma etapa do Mundial de Rally. As curvas já são fechadas. As estradas são estreitas. O terreno é montanhoso. E eles simplesmente aceleram. Que nem um louco. Que não vive a vida ao máximo perde a oportunidade de ser extraordinário. Naqueles ônibus você aprende rapidamente a segurar firme. Pela janela você vê as pessoas, literalmente, pulando no mato para não serem atropeladas. Eu mesmo pulei no mato umas duas vezes.

No outro dia eu tomei uma decisão que parece quase um crime em Seychelles. Não fui para La Digue. Fazia alguns bons dias que eu só pulava de uma cidade para outro. De um país para outro. De uma ilha para outra. Estava cansado. Poderia ter ido apenas para dizer que fui. Ou podia descansar e aproveitar um dia de Anze Lazio. Preferi descansar em Anse Lazio mais um dia.

Viajar também é saber quando parar.

Curieuse – Tartaruga, jabuti… sei lá. O bicho era gigante 

No meu último dia paguei um passeio para La Curiese. 

A Ilha Curieuse é uma das atrações mais famosas de Seychelles por reunir, em um espaço relativamente pequeno, algumas das características mais marcantes do arquipélago. Ela abriga uma das maiores populações de tartarugas-gigantes-de-Aldabra vivendo em liberdade, além de extensos manguezais, praias preservadas e uma rica biodiversidade. No passado, Curieuse também teve um papel importante na história do país: durante o século XIX funcionou como uma colônia para pessoas com hanseníase, cujos antigos edifícios ainda podem ser visitados. Atualmente, toda a ilha faz parte do Parque Nacional Marinho de Curieuse, sendo uma área protegida dedicada à conservação da fauna e da flora locais, especialmente do coco-de-mer, a palmeira que produz a maior semente do mundo. E, sim, no passeio tava incluso um snorkel em St. Pierre, um dos melhores snorkels de Seychelles

Mas eu fui mais por conta das tartarugas. As tartarugas-gigantes existiam em praticamente todas as ilhas de Seychelles antes da chegada dos europeus, mas foram caçadas até a extinção entre os séculos XVII e XIX. A única população que sobreviveu foi a do remoto Atol de Aldabra, por ser muito isolado. Entre 1978 e 1982, cerca de 250 tartarugas de Aldabra foram levadas para Curieuse como parte de um projeto de conservação. A ilha foi escolhida porque é protegida, desabitada, possui vegetação adequada, pouca interferência humana e fica muito mais próxima das áreas turísticas do que Aldabra, permitindo tanto a conservação quanto a educação ambiental. Imagina, cada turista que pisa lá paga uma taxa de 100 reais. E eu vi dezenas de turistas chegando sem parar. É mais do que suficiente para financiar a preservação. Tem dessas tartarugas por toda Seychelles. Inclusive no primeiro airbnb que eu fiquei o cara criava uma no quintal. Segundo ele, era costume você ganhar uma tartaruga quando nascia para poder criá-la. E, assim, ela pode durar duzentos anos, então serve para você, seu neto, bisneto e põe gente pelos anos.

Agora, uma coisa me deixou meio confuso. Todo mundo chamava aqueles bichos de tartarugas-gigantes. Mas, convenhamos, tartaruga vive no mar. Quem vive exclusivamente em terra é jabuti. Então, na minha cabeça de brasileiro, aquilo eram uns jabutis gigantes. Enfim… pode chamar do que quiser. O importante é que elas são enormes.

E o mais legal é que elas ficam completamente soltas. Você pode chegar perto, fazer fotos, acariciar o casco e até alimentá-las com as folhas que você acha no chão. Cara… eu vi uma criança simplesmente beijando uma delas. A tartaruga — ou jabuti, escolha o nome que preferir — não pareceu particularmente impressionada. Provavelmente já tinha visto turistas muito mais estranhos do que aquele. Passei quase a manhã inteira brincando com elas. É uma experiência muito diferente de vê-las atrás de cercas ou em um zoológico. Você realmente tem a sensação de estar dividindo o espaço com animais que vivem ali há décadas e que simplesmente aprenderam a ignorar completamente os seres humanos. Eu cheguei a ver algo parecido em Galápagos. Lá também tinha umas tartarugas gigantes. Só que tinha uma cerca e você não podia nem chegar perto. Em Curiese não, como falei, tinha criança beijando as tartarugas.

Depois da visita, serviram um almoço crioulo para o grupo e seguimos para a última etapa do passeio: o snorkel em St. Pierre, supostamente o melhor snorkel de Seychelles. Infelizmente, essa foi a única parte que foi ruim. O mar estava bastante agitado — algo que eu já tinha percebido durante a travessia de ferry — e toda aquela movimentação levantava areia do fundo. Resultado: a água ficou bem turva e a visibilidade caiu muito. Ainda deu para ver alguns peixes, mas passou longe daquela água cristalina que aparece nas fotos de Seychelles.

O país que começou me expulsando e terminou me conquistando

Depois do passeio em Curieuse, era hora de voltar para Praslin, dormir mais uma noite e, no dia seguinte, enfrentar novamente o famoso ferry do Satanás para retornar a Mahé e pegar o voo para o próximo destino.

Confesso que, na hora de ir embora, bateu uma tristeza daquelas.

Minha relação com Seychelles começou da pior forma possível. Primeiro veio a imigração, que parecia um interrogatório policial. Depois, o susto com os preços, que me fizeram pensar que eu teria que vender um rim até o fim da viagem. Mas, à medida que os dias foram passando e eu fui entendendo como o país realmente funciona, tudo mudou. Muito mudou.

Seychelles acabou se tornando o lugar mais próximo de um paraíso que eu já visitei.

É difícil encontrar outro país que consiga reunir tantas qualidades ao mesmo tempo. O clima é agradável praticamente o ano inteiro. O mar é morno, cristalino e de um azul que parece editado no Photoshop. As praias são espetaculares. O país é limpo, organizado, seguro e funciona surpreendentemente bem.

Outra coisa que me chamou a atenção foi a qualidade de vida da população. É claro que Seychelles tem seus problemas — basta lembrar da grave crise relacionada ao consumo de heroína —, mas, de maneira geral, a impressão que tive foi a de um país onde as pessoas conseguem viver relativamente bem. Diferentemente de destinos turísticos como Fernando de Noronha, onde tudo é muito caro, mas a população local vive no veneno, em Seychelles você percebe uma infraestrutura pública funcionando, bairros bem cuidados e um padrão de vida bastante elevado para os padrões africanos.

Normalmente, quando viajo, cada país se destaca por alguma característica específica. Um tem uma natureza extraordinária, outro possui uma história fascinante, outro é extremamente barato, outro é muito seguro. Sempre existe algum ponto forte… e alguma fraqueza.

Seychelles foi um dos raríssimos lugares onde eu tive dificuldade de encontrar essa fraqueza.

No fim das contas, o país me conquistou completamente.

E a maior descoberta da viagem nem foi Anse Lazio.

Nem Curieuse.

Nem Beau Vallon.

Foi perceber que Seychelles fica muito mais interessante quando você larga o roteiro tradicional de lua de mel, coloca uma mochila nas costas, pega um ônibus junto com os moradores, faz compras no supermercado e passa a conhecer o país como ele realmente é.

Mesmo que, aparentemente, a imigração ainda ache essa uma péssima ideia.

Gostou do post? Então veja nossos vídeos no nosso canal http://www.youtube.com/@omundonumamochila

Se gostou das fotos, visite e siga nosso Instagram para sempre receber fotos e causos de viagens: www.instagram.com/omundonumamochila

Quer entrar em contato direto com o autor ou comprar um livro? Clique aqui e tenha acesso ao nosso formulário de contato!

Quer receber as atualizações direto no seu e-mail? Cadastre-se na nossa mala direta clicando na caixa “Quero Receber” na direita do blog

Deixe um comentário