Ruanda… Ruanda…
Cara, Ruanda é um daqueles países que eu sempre tive uma vontade enorme de conhecer e que, mesmo agora, depois de ter ido, ainda acho meio surreal pensar: “Caracas, eu realmente fui parar em Ruanda.”

É um país pequeno, encravado no coração da África, sem saída para o mar e cercado por gigantes como a República Democrática do Congo e a Tanzânia. Durante muito tempo, para quem conhecia alguma coisa sobre Ruanda, o país era lembrado pelas montanhas, pelos parques nacionais e, principalmente, por ser um dos poucos lugares do planeta onde é possível encontrar gorilas-das-montanhas vivendo em seu habitat natural.

Infelizmente, porém, outro acontecimento colocou definitivamente o nome de Ruanda nos livros de história.
O genocídio de 1994.
Em aproximadamente cem dias, entre abril e julho daquele ano, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas, segundo a estimativa mais conhecida das Nações Unidas. Outras estimativas, incluindo a utilizada pelo próprio governo ruandês, passam de um milhão. A maioria das vítimas era tutsi, mas também foram mortos hutus moderados e outras pessoas consideradas inimigas pelos extremistas. Estamos falando de algo próximo de 10% da população do país exterminada em pouco mais de três meses.

E foi justamente por causa dessa história que Ruanda entrou no meu imaginário muitos anos antes de eu sequer imaginar que um dia pisaria lá.
Em 2004, ainda no segundo semestre da faculdade, fui a um Fórum Social em Minas Gerais e encontrei um livro com um título que imediatamente chamou minha atenção:
“Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”, do jornalista Philip Gourevitch.
Com um título desses, obviamente peguei o livro para descobrir do que se tratava.
Foi meu primeiro contato de verdade com o genocídio de Ruanda.

E o livro me marcou profundamente.
Eu já conhecia, claro, o Holocausto judeu e outros massacres da história. Mas havia alguma coisa especialmente perturbadora em Ruanda: a velocidade. Aquilo aconteceu não em décadas ou anos, mas durante pouco mais de três meses, em um país minúsculo, muitas vezes com facões e com vítimas e assassinos vivendo nas mesmas comunidades. Amigos massacrando amigos, vizinhos mutilando vizinhos.
Anos depois, lendo mais sobre o genocídio, encontrei uma comparação brutal atribuída a um sobrevivente: naquele ritmo de assassinatos, os ruandeses haviam conseguido, com ferramentas simples, tornar a bomba atômica obsoleta.

A frase ficou na minha cabeça.
E, desde aquele livro que encontrei por acaso em 2004, eu carregava uma curiosidade enorme de conhecer Ruanda e tentar entender como um país conseguiu atravessar uma tragédia daquela dimensão.
Mais de vinte anos depois, finalmente estava indo para lá.

Depois do genocídio: como Ruanda tentou reconstruir uma sociedade. O país onde vítimas e assassinos tiveram que voltar a viver lado a lado
Para entender o genocídio dos hutus contra os tutis em Ruanda, primeiro é preciso entender uma coisa que eu mesmo demorei a compreender que é sobre as duas principais etnias do país, os tutsis e os hutus.
Eles não eram exatamente dois povos completamente separados. Eles compartilhavam língua, religião, território e boa parte da cultura. Historicamente, as diferenças estavam relacionadas também à posição social e econômica: de maneira simplificada, os tutsis eram mais associados à criação de gado e às elites políticas, enquanto os hutus eram majoritariamente agricultores. Essas categorias já existiam antes da colonização, e havia desigualdades reais entre elas, mas suas fronteiras eram menos rígidas do que se tornariam depois.

Primeiro os alemães e, principalmente, depois os belgas passaram a administrar Ruanda utilizando essas divisões. Influenciados pelas teorias raciais europeias da época, os colonizadores consideraram os tutsis, que eram minoria em Ruanda, racialmente superiores e durante anos favoreceram essa elite na administração e na educação. Na década de 1930, os belgas chegaram a colocar a classificação étnica nos documentos de identidade. Aquilo que antes tinha alguma mobilidade passou a ser oficialmente registrado pelo Estado: você era hutu, tutsi ou twa.
Quando Ruanda se tornou independente, em 1962, o poder estava nas mãos dos hutus, a maioria dos ruandeses, e dezenas de milhares de tutsis já viviam no exílio.

Foi entre os descendentes desses refugiados, principalmente em Uganda, que surgiu a Frente Patriótica Ruandesa, a RPF. Em 1990, a RPF invadiu Ruanda e iniciou uma guerra civil contra o governo. Nos anos seguintes, a tensão aumentou enquanto setores extremistas hutus espalhavam propaganda dizendo que os tutsis representavam uma ameaça existencial ao país e queriam, na verdade, matar todos os hutus.
Então veio 6 de abril de 1994.
O avião que transportava o presidente ruandês Juvénal Habyarimana, um hutu, foi derrubado quando se aproximava de Kigali. Até hoje existem controvérsias e acredita-se que foram os próprios hutus que derrubaram o avião dele para poder ter um pretexto. Só se sabe que no momento seguinte… As barreiras apareceram nas ruas.

As listas de pessoas que deveriam morrer começaram a ser utilizadas. A rádio extremista incitava a população. E começou o massacre dos hutus contra os tutsi.
Durante aproximadamente cem dias, os milicianos hutus incitaram a população a matar os tutsi alegando que ou era isso, ou os tutsi iriam matar os hutus na primeira oportunidade. E, quando vc acha que alguém vai te matar, você fica mais propenso a matar o seu “inimigo” primeiro. Vizinhos mataram vizinhos. Professores mataram alunos. Autoridades locais organizaram massacres. Milícias como a Interahamwe percorriam bairros e estradas procurando tutsis e hutus considerados moderados. A maioria das vítimas era tutsi, mas também foram assassinados hutus que se recusaram a participar ou que eram considerados adversários dos extremistas.
Uma das coisas mais difíceis de compreender é justamente onde muitos desses massacres aconteceram. Igrejas. Escolas. Estádios. Prédios públicos.

Quando a violência começava, era natural que milhares de pessoas corressem para lugares onde imaginavam que estariam protegidas. Em alguns casos, autoridades também orientavam civis a se concentrarem nesses locais. Só que vários deles acabaram se transformando em armadilhas. Uma vez reunidas centenas ou milhares de pessoas em um mesmo lugar, ficava muito mais fácil para soldados e milicianos cercarem o prédio e cometerem massacres. Algumas igrejas que deveriam representar proteção acabaram se tornando locais de algumas das maiores matanças do genocídio.
E existe outra coisa que raramente aparece quando contamos essa história: um país não consegue funcionar enquanto está exterminando a própria população. Quem está numa barreira procurando tutsis não está plantando feijão. Quem está participando de uma milícia não está trabalhando. Quem está fugindo não está produzindo. Quem foi assassinado obviamente também deixou de produzir.
A economia simplesmente entrou em colapso. A produção agrícola despencou, milhões de pessoas abandonaram suas casas e, quando a RPF finalmente derrotou as forças governamentais em julho de 1994, havia um país devastado. Além dos mortos, cerca de dois milhões de pessoas fugiram principalmente para os países vizinhos e outras centenas de milhares estavam deslocadas dentro do próprio território.

A RPF, tutsi conseguiu fazer a paz e voltar a implementar algo parecido com um Estado. Só que então apareceu outro problema quase absurdo: o que fazer com os assassinos?
Porque não eram cinquenta pessoas. Não eram quinhentas. Não eram cinco mil.
A participação no genocídio havia alcançado uma parcela enorme da sociedade. Havia os grandes organizadores, militares e autoridades, mas também existiam milhares de pessoas comuns que foram incitadas a matar, denunciar vizinhos, saquear propriedades ou colaborar com os massacres.
Nos anos seguintes ao genocídio, mais de 100 mil suspeitos chegaram a ficar presos.

Agora pense na situação.
O país tinha acabado de ser destruído. Faltava dinheiro, infraestrutura e funcionários públicos. E Ruanda precisava investigar e julgar uma quantidade gigantesca de pessoas.
Como?
Se cada acusado tivesse um processo criminal convencional, aquilo poderia levar décadas. E manter mais de cem mil pessoas encarceradas também custava uma fortuna. Preso precisa comer. Precisa de instalações. Precisa de guardas. Precisa de atendimento médico. E quem pagaria tudo isso era justamente um Estado que tinha acabado de sair de uma guerra civil e de um genocídio. Lembrando, mais uma vez, preso não produz.
Foi aí que Ruanda recuperou e adaptou uma tradição comunitária chamada gacaca.

Em vez de todos os casos passarem pelos tribunais convencionais, milhares de julgamentos começaram a acontecer nas próprias comunidades. Moradores se reuniam ao ar livre, geralmente uma vez por semana, diante de juízes comunitários escolhidos localmente. Acusados podiam confessar seus crimes, sobreviventes contavam o que haviam presenciado e vizinhos testemunhavam sobre o que tinha acontecido.
Não era um sistema perfeito. Organizações de direitos humanos apontaram problemas sérios relacionados ao direito de defesa, à qualidade das provas e à possibilidade de intimidação de testemunhas. Mas era o que tinha. Entre 2005 e 2012, os tribunais gacaca processaram mais de um milhão de casos, algo que seria praticamente impossível para o sistema judicial tradicional do país.

Talvez por isso uma das coisas mais estranhas para mim tenha sido simplesmente caminhar pelas ruas de Kigali.
Eu olhava para um senhor de 55 ou 60 anos e automaticamente fazia a conta.
“Caracas… esse cara tinha vinte e poucos anos em 1994.”
E imediatamente vinha outra pergunta:

o que esse sujeito estava fazendo durante aqueles cem dias?
Talvez estivesse escondendo alguém.
Talvez estivesse fugindo.
Talvez tivesse perdido a família.
Talvez estivesse simplesmente tentando sobreviver.
Ou talvez tivesse participado.
E provavelmente ninguém que estivesse apenas caminhando pela rua teria como saber.

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis de compreender sobre Ruanda. Depois de uma tragédia daquela dimensão, vítimas, parentes de vítimas, testemunhas e pessoas que participaram da violência precisaram voltar a morar nas mesmas cidades, frequentar os mesmos mercados e reconstruir o mesmo país.
O Estado ruandês tomou então uma decisão radical sobre a identidade nacional. Hoje, hutu e tutsi não aparecem mais nas carteiras de identidade, e o discurso oficial procura colocar acima dessas categorias uma identidade única: todos são ruandeses.

Depois do genocídio, quem assumiu o controle do país foi a Frente Patriótica Ruandesa, a RPF, guerrilha comandada por Paul Kagame que derrotou as forças do antigo governo e encerrou o genocídio em julho de 1994. Kagame inicialmente ficou como vice-presidente e ministro da Defesa, embora já fosse considerado o homem forte do novo regime, e em 2000 assumiu oficialmente a Presidência. E está lá até hoje. Ruanda realiza eleições, mas chamar o país de democracia é bastante complicado: a oposição enfrenta enormes restrições, críticos do governo são perseguidos ou presos e organizações internacionais classificam o país como “não livre”. Na eleição de 2024, por exemplo, Kagame oficialmente recebeu mais de 99% dos votos. Então, sim, na prática estamos falando de um regime autoritário. O curioso é que Kagame representa uma figura bem mais complexa do que simplesmente “o ditador malvado”. Sob seu governo, Ruanda conseguiu uma estabilidade impressionante depois de praticamente se destruir, reconstruiu sua infraestrutura, melhorou serviços públicos, combateu a corrupção e manteve crescimento econômico durante boa parte das últimas décadas. Existe também uma percepção de apoio interno ao governo, embora seja difícil medir com precisão o tamanho desse apoio justamente porque não existe um ambiente político plenamente livre onde as pessoas possam criticar Kagame sem receio. A impressão que tive conversando com os ruandeses era justamente essa contradição: você tem um governo extremamente controlador, mas que, ao mesmo tempo, conseguiu colocar um país devastado novamente nos trilhos. É aquele velho problema político que não cabe muito bem em uma frase: Kagame pode ser autoritário e, ao mesmo tempo, ter desempenhado um papel central na reconstrução de Ruanda. Uma coisa não necessariamente anula a outra.
Isso não significa que as diferenças tenham simplesmente desaparecido. Evidentemente, muitas pessoas sabem a origem de suas famílias e a memória de 1994 continua presente. Além disso, a política governamental de restringir discursos considerados divisionistas também recebe críticas quando é utilizada para limitar determinados debates políticos e históricos.
Mas existe um aspecto interessante nesse esforço. As novas gerações cresceram sem carregar “hutu” ou “tutsi” escrito em seus documentos. Pessoas das duas origens estudam juntas, trabalham juntas e se casam. Com o passar das gerações, essas fronteiras familiares tendem naturalmente a ficar cada vez mais difíceis de separar.

Talvez essa seja uma das maiores experiências sociais em andamento em Ruanda.
Durante décadas, o Estado ajudou a transformar uma diferença social em uma identidade rígida.
Depois de 1994, o novo Estado decidiu tentar fazer exatamente o contrário: convencer uma sociedade traumatizada de que, antes de qualquer outra coisa, todos ali são simplesmente ruandeses. E olhar para frente. Vida que segue.
Ruanda: ordem, fuzis e nenhuma sacola plástica
Saí de Seychelles, que fica no meio do nada no Oceano Índico, direto para Ruanda, que fica encravada no meio do continente africano. Mentira. Fiz uma conexão na Etiópia no caminho, mas vamos fingir que foi direto para a história ficar melhor.
Desembarquei em Kigali e uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o esforço quase obsessivo de Ruanda para transmitir uma imagem de limpeza, segurança e organização. Isso começa na hora que você sai do avião. Todo mundo que chegava precisava passar por um controle onde higienizava as mãos com álcool em gel e tinha a temperatura medida. Um por um. Não era uma recomendação ou uma plaquinha esquecida no canto. Tinha gente ali garantindo que todo mundo cumprisse o procedimento.

Quando você finalmente sai do aeroporto, percebe outra coisa imediatamente: as ruas de Kigali são limpas. Mas limpas mesmo. Não é “limpa para os padrões de uma capital africana”, é limpa para os padrões de qualquer cidade do mundo. Quase não se vê lixo jogado no chão, as avenidas são bem cuidadas e existe uma preocupação enorme com a aparência dos espaços públicos. Depois fui descobrir que isso faz parte de algo muito maior. Ruanda mantém uma tradição chamada Umuganda, um trabalho comunitário realizado no último sábado de cada mês, no qual a população participa de atividades coletivas como limpeza de ruas, manutenção de espaços públicos, plantio de árvores e pequenas obras comunitárias. Até o ditador Paul Kagame participa publicamente de algumas dessas ações.
Essa preocupação com organização aparece em praticamente tudo. Ruanda parece querer lembrar o tempo inteiro que existe um Estado funcionando ali. Nos memoriais e em vários prédios importantes, era comum encontrar militares ou policiais armados fazendo segurança. E não era um sujeito discretamente parado no canto: às vezes tinha um cara fardado segurando um fuzil enorme enquanto você estava simplesmente tentando visitar um museu. Confesso que, para mim, aquilo provocava quase o efeito contrário. Em vez de pensar “que lugar seguro”, eu começava a pensar “caracas, o que será que eles estão esperando acontecer aqui?”.

No aeroporto isso ficava ainda mais evidente. Antes mesmo de chegar ao terminal, o carro passava por uma inspeção de segurança. Todo mundo precisava descer, as portas eram abertas e as bagagens podiam ser verificadas. E atenção: eu não estou falando do controle para embarcar no avião. Estou falando simplesmente de entrar na área do aeroporto. Existe um aparato de segurança muito visível, que parece ter duas funções ao mesmo tempo: realmente controlar possíveis ameaças e transmitir para quem está ali a mensagem de que o Estado está observando e mantendo tudo sob controle.

Essa acabou sendo uma das minhas primeiras impressões de Ruanda. Tudo parecia extremamente limpo, organizado, disciplinado e seguro, mas também muito controlado. Era como se o país tivesse uma preocupação permanente em mostrar ao visitante: “Aquilo que aconteceu aqui em 1994 ficou para trás. Hoje existe ordem.” E, depois de conhecer um pouco melhor a história recente de Ruanda, comecei a perceber que essa obsessão por estabilidade não surgiu do nada.
Você vai ao supermercado e outra coisa chama a atenção: sacolas plásticas são proibidas. Ruanda foi um dos primeiros países do mundo a adotar uma proibição bastante rígida desse tipo de plástico, ainda em 2008. Cheguei a ler relatos de viajantes dizendo que tiveram as malas inspecionadas no aeroporto e as sacolas plásticas retiradas. É mais um exemplo dessa obsessão ruandesa por limpeza e organização.

O próprio presidente-ditador Paul Kagame já falou sobre a ambição de transformar Ruanda em uma espécie de “Singapura da África”. E, guardadas todas as diferenças entre os dois países, de certa forma Ruanda vem seguindo esse caminho: Estado forte, muita disciplina, investimento em infraestrutura e crescimento econômico acelerado. Cara, isso é realmente impressionante quando você lembra que o país praticamente viveu um apocalipse social pouco mais de 30 anos atrás.

A comparação que mais me chamou a atenção foi justamente com o vizinho Burundi. Os dois países são pequenos, montanhosos, sem saída para o mar, possuem histórias entrelaçadas e praticamente as mesmas divisões históricas entre hutus e tutsis. O Burundi também sofreu massacres e uma longa guerra civil, embora não tenha vivido em 1994 um genocídio nas mesmas proporções do ruandês. Mesmo assim, hoje Ruanda possui indicadores econômicos e sociais muito melhores, enquanto o Burundi continua entre os países mais pobres do planeta.
Enfim, uma impressão ficou muito forte durante minha passagem por lá: Ruanda parece fazer um esforço gigantesco para deixar de ser conhecido simplesmente como “o país do genocídio”. Eles querem que o mundo olhe para 1994 como parte fundamental da sua história, mas não como a única coisa que define o país.

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