VIAGEM A RUANDA| Kigali, genocídio, mototáxi e um chope histórico

Obviamente, o primeiro lugar que eu queria conhecer em Kigali era o Memorial do Genocídio. Assim que acordei, tentei instalar o aplicativo de transporte que funcionava por lá, o Volkswagen Move. Sim, isso mesmo: a Volkswagen resolveu criar uma espécie de Uber próprio em Ruanda. Tentei de todo jeito cadastrar meu cartão, não consegui, dinheiro não aceitava, tinha que pagar com o PIX local. Depois de perder um tempão brigando com o aplicativo, desisti.

Foi aí que descobri o meio de transporte mais popular de Kigali: o mototáxi. E, rapaz, não me arrependi. Eu estava hospedado numa região residencial meio afastada do centro e, ainda assim, conseguia praticamente atravessar Kigali pagando uns 10 reais. Quando muito. Aí você coloca na balança: ir confortavelmente dentro de um carro pagando 40 reais ou subir na garupa de uma moto, arriscar um pouco mais a integridade física e pagar 10. Acho que a escolha é evidente, né? E tem outro detalhe: como Kigali é tomada por mototáxis, você precisa perder rapidamente aquele instinto brasileiro de ficar desconfiado quando aparecem dois caras numa moto. Senão você passa a viagem inteira em estado de alerta.

Durante toda a minha passagem por Ruanda, acho que entrei em um carro apenas duas vezes: para ir e voltar do aeroporto. E olha que eu ainda queria fazer o trajeto até o aeroporto de mototáxi, com a mochila nas costas. Foi o cara do Airbnb que não deixou por motivos óbvios.

E usar algum tipo de transporte em Kigali é quase uma necessidade, porque caminhar pela cidade exige preparo físico. Ruanda é conhecida como a “terra das mil colinas”, e Kigali faz questão de honrar a fama. Mano, sério: a cidade consegue fazer Belo Horizonte parecer plana. Você dobra uma esquina e encontra uma ladeira. Sobe aquela ladeira, vira outra rua e aparece outra ainda pior. Tem rua ali que não foi feita para você subir. Foi feita para você escalar. Depois de algumas horas andando por Kigali, comecei a entender por que o mototáxi não era apenas barato. Era questão de sobrevivência.

Outra coisa que chama muito a atenção é o tanto de gente nas ruas. Ruanda e Burundi estão entre os países mais densamente povoados da África. Para você ter uma ideia, Ruanda tinha mais de 13 milhões de habitantes no último censo vivendo em apenas 26 mil km², um território menor que o estado de Alagoas. São mais de 500 habitantes por quilômetro quadrado. Então você vai andando pelas estradas e parece que nunca existe aquele momento em que a cidade acaba e começa o vazio: sempre tem uma casa, uma vila, alguém caminhando ou trabalhando em algum lugar.

Apesar de Kigali estar praticamente em cima da linha do Equador, o clima é surpreendentemente agradável. Isso acontece porque a cidade fica a cerca de 1.500 metros de altitude. Durante o dia a temperatura é gostosa e à noite chega a fazer aquele friozinho bom. É curioso pensar que Kigali está praticamente na mesma latitude de Belém do Pará, mas climaticamente parece estar em outro planeta.

Outra coisa que facilita demais a vida do turista é o inglês. Ruanda nunca foi colônia britânica — primeiro foi alemã e depois belga — e durante décadas o francês teve muito mais importância. Isso mudou principalmente a partir de 2008, quando o governo decidiu colocar o inglês no centro do sistema educacional, aproximando o país também de seus vizinhos anglófonos e da Comunidade da África Oriental. Assim, decidiu porque decidiu e pronto. O resultado é muito perceptível hoje: entre os mais velhos o inglês varia bastante, mas entre os jovens de Kigali encontrei muita gente falando muito bem. E, cara, para mim o inglês deles era extremamente fácil de entender.

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E uma última coisa me pegou completamente de surpresa: a Skol. Sim, meu amigo, a nossa velha conhecida Skol. Você está no meio da África, em um país sem saída para o mar, e começa a encontrar propaganda da Skol em bar, restaurante e em tudo quanto é canto. Só que ela não chegou ali importada do Brasil. A marca Skol é internacional e os direitos dela na África pertencem ao grupo belga Unibra, que produz a cerveja localmente em Kigali desde 2010. A operação cresceu tanto que a própria empresa afirma que a Skol passou de 25% do mercado de cerveja ruandês. Diz aí: de todas as coisas que você imaginaria encontrar no meio de Ruanda, uma Skol gelada provavelmente não estaria na lista.

Dále SKOL!

Kigali: quando a história deixa de parecer distante e 1994 ainda parece ontem

Infelizmente, visitar o Memorial do Genocídio de Kigali é uma experiência tão ruim quanto parece. É um soco no estômago. O memorial segue um pouco aquela estética que você encontra nos grandes museus dedicados ao Holocausto: ambientes escuros, fotografias, depoimentos, documentos e uma narrativa que vai conduzindo você passo a passo até entender como uma sociedade inteira conseguiu chegar naquele ponto. Só que ali existe uma diferença brutal: você não está apenas dentro de um museu. Do lado de fora estão enormes valas coletivas onde foram sepultadas mais de 250 mil vítimas do genocídio.

Algumas imagens são particularmente difíceis de esquecer. Você vê fotografias das ruas depois dos massacres, carros abandonados e corpos espalhados por lugares que, poucos meses antes, faziam parte da vida cotidiana das pessoas. Algumas cenas parecem retiradas daqueles filmes ou jogos de videogame de apocalipse zumbi, só que aquilo não era ficção. Aconteceu ali, naquela mesma cidade, em 1994.

Poucos lugares que visitei na vida me deixaram tão mal. Talvez Auschwitz, na Polônia, o Museu do Holocausto em Washington, o memorial do genocídio armênio em Yerevan e os locais relacionados ao Khmer Vermelho em Phnom Penh tenham provocado uma sensação parecida. E existe uma característica do genocídio ruandês que me perturbou especialmente. Stálin e Hitler mataram milhões de pessoas. Mas sob eles existia um ideologia. De gosto duvidoso, mas ainda assim uma ideologia. O que mais me chocou no genocídio ruandês é que ele foi realizado sob o simples objetivo de matar outra etnia. Massacre puro e simples. Em muitos casos não era um agente do estado, um soldado desconhecido matando alguém que nunca tinha visto. Eram vizinhos denunciando vizinhos, conhecidos atacando conhecidos e até pessoas da mesma família se voltando umas contra as outras.

Talvez seja justamente isso que torne tudo tão difícil de processar. A violência atingiu praticamente toda a sociedade. Existem sobreviventes que perderam pais, irmãos, filhos, tios e primos e descobriram, quando tudo terminou, que eram praticamente os únicos membros da família ainda vivos. E não estamos falando de alguma tragédia perdida num passado distante. Estamos falando de 1994. Quando eu estava visitando aqueles memoriais, havia milhares de ruandeses andando pelas mesmas ruas que tinham vivido tudo aquilo pessoalmente.

Também me chamou a atenção a quantidade de estrangeiros visitando o memorial. Infelizmente, por mais que Ruanda faça um enorme esforço para construir uma nova imagem, o genocídio continuará fazendo parte do roteiro de quem visita o país durante muito tempo. E não é apenas no Memorial de Kigali. Existem memoriais espalhados por toda a cidade e por todo o país.

E esses lugares não funcionam simplesmente como museus. Muitos são também cemitérios e espaços de luto. Você encontra flores, fotografias e homenagens sobre os locais onde as vítimas estão enterradas. Existem placas indicando áreas onde não se deve caminhar justamente porque existem restos humanos sepultados ali. Não é um simples museu com algumas peças e exposições sobre o acontecido. Há centenas de milhares de pessoas enterradas ali do seu lado. É nesse momento que você percebe que aquilo não é apenas uma exposição contando uma tragédia histórica. Para os ruandeses, aquilo ainda é memória familiar. As pessoas enterradas ali eram pais, mães, filhos, irmãos e amigos de gente que continua vivendo em Kigali hoje.

Dez mortos e um país ainda mais abandonado, o memorial ao massacre que fez a Bélgica sair de Ruanda

No outro dia fui ao memorial aos soldados belgas mortos durante o genocídio. O Camp Kigali fica no antigo quartel onde dez capacetes-azuis belgas da ONU foram levados e assassinados em 7 de abril de 1994, logo no início dos massacres. Eles faziam parte da missão da ONU em Ruanda e estavam protegendo a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana, uma hutu moderada que também seria assassinada naquele dia. A morte dos soldados não foi um acontecimento qualquer: os extremistas sabiam que a Bélgica era o principal contingente militar da missão e esperavam que, depois de perder homens, o país retirasse suas tropas.

Imagina o que iria acontecer. Você, belga, tem tropas em um país “selvagem”, no meio da África, que nunca ouviu falar e de repente 10 cidadãos do seu país são massacrados e mutilados de forma selvagem.

E foi exatamente o que aconteceu. Poucos dias depois, a Bélgica decidiu sair de Ruanda e pressionou pela redução da missão da ONU justamente quando o genocídio estava ganhando força. No memorial ainda estão os antigos edifícios do quartel e dez pilares de pedra, um para cada soldado morto, marcados simbolicamente de acordo com o tempo que cada um teria resistido ao ataque. É um lugar pequeno, mas ajuda a entender como decisões tomadas nos primeiros dias acabaram deixando os ruandeses ainda mais abandonados no momento em que mais precisavam de ajuda internacional.

O dia em que a ONU foi embora e Michel Teló apareceu

Fui também ao Nyanza Genocide Memorial, outro lugar pesado da história de Kigali. Durante o genocídio, milhares de tutsis buscaram proteção na região da École Technique Officielle, onde havia soldados belgas da missão da ONU. O problema é que, depois do assassinato dos dez capacetes-azuis que eu tinha acabado de contar, a Bélgica decidiu retirar suas tropas. Os refugiados ficaram praticamente abandonados. Pouco depois, milhares deles foram levados para Nyanza, onde acabaram massacrados. Hoje o local funciona como memorial e cemitério, com valas coletivas onde estão enterradas milhares de vítimas. O que mais me marcou foi justamente perceber como essas histórias vão se conectando: você visita o memorial dos dez belgas e depois chega a Nyanza e entende uma das consequências daquela retirada. Para quem estava escondido acreditando que a bandeira da ONU significava proteção, deve ter sido desesperador assistir aos soldados simplesmente indo embora e só levando os não-ruandeses com eles.

Cheguei lá e não entendi direito se o memorial estava aberto ou fechado. Só havia um guarda, acompanhado de mais um daqueles fuzis enormes que parecem fazer parte da decoração oficial de Ruanda. Ele me deixou entrar normalmente, mas depois começou a implicar porque eu estava tirando fotos e gravando alguns vídeos. Segundo ele, aquilo não era permitido. Depois começou a fazer perguntas demais e, confesso, me passou pela cabeça que talvez estivesse esperando uma “gasosa”, como tinha acontecido comigo em Angola. Só que o inglês dele era ruim até para pedir uma eventual gasosa. Posso estar cometendo uma tremenda injustiça com o sujeito, então fica aqui o benefício da dúvida. Só achei estranho porque, nos outros lugares onde fotografar era proibido, havia placas deixando isso muito claro. Resolvi não descobrir até onde aquela conversa iria: me fiz de bobo, saí, montei no primeiro mototáxi que apareceu e fui embora.

De lá segui para conhecer provavelmente o hotel mais famoso de Ruanda: o Hôtel des Mille Collines. Foi ali que, durante o genocídio, mais de mil pessoas buscaram proteção, episódio que inspirou o filme Hollywoodiano Hotel Ruanda. No cinema, o gerente Paul Rusesabagina foi interpretado pelo ator Don Cheadle, indicado ao Oscar pelo papel. O filme conta como Rusesabagina teria usado seus contatos, negociações e influência para proteger os refugiados hospedados no hotel. Vale dizer que sua figura se tornou bastante controversa posteriormente, especialmente em Ruanda, onde a versão heroica apresentada pelo filme é contestada por sobreviventes e pelo governo. Mas isso é outra história.

Me hospedar ali estava completamente fora de cogitação. As diárias custavam muito mais do que meu orçamento estava disposto a aceitar. Mas eu sabia que havia um bar próximo à famosa piscina do hotel, que também aparece na história do genocídio: com o abastecimento de água interrompido, a água da piscina teria sido utilizada pelos refugiados para necessidades básicas. Então fui entrando… entrando… entrando… esperando alguém aparecer para perguntar o que aquele maltrapilho o estava fazendo ali. E… Ninguém perguntou nada.

Cheguei ao bar, sentei perto da piscina e pedi aquilo que cabia no orçamento: um chope. E, para minha surpresa, nem foi caro. Paguei algo em torno de 15 reais. Considerando que eu estava tomando uma cerveja em um hotel cinco estrelas, ao lado de um dos lugares mais conhecidos da história recente de Ruanda, achei um excelente negócio. Hospedagem no Mille Collines eu não podia pagar. Mas um chope histórico ainda cabia no orçamento. Ponto alto foi quando eu estava lá observando a piscina, pensando no poder histórico daquele local e começou a tocar “Ai se eu te pego” em português e depois traduzido pro inglês. Obrigado Michel Teló.

Ruanda: muito além de 1994, O país que se recusou a ficar preso ao genocídio

Apesar de eu não querer transformar esse relato numa sequência de genocídio, matança, genocídio, matança, é praticamente impossível viajar por Ruanda sem que o assunto apareça o tempo inteiro. A tragédia de 1994 ainda está muito presente no país. Ela aparece nos museus, nos memoriais espalhados pelas cidades, nas valas coletivas e, principalmente, na história das famílias. Muita gente que você encontra andando pelas ruas de Kigali viveu aquilo pessoalmente.

Felizmente, depois de alguns dias você começa a perceber que Ruanda é muito mais do que o genocídio. E acho que essa foi uma das coisas que mais gostei de descobrir durante a viagem. Os ruandeses que encontrei foram extremamente simpáticos e solícitos e, em vários momentos, curiosos comigo. Alguns vinham perguntar de onde eu era, o que estava fazendo ali e como diabos um brasileiro tinha resolvido parar justamente em Ruanda. E existe também uma sensação muito forte de que o país quer seguir em frente. Não esquecer o que aconteceu, porque esquecer seria impossível e até perigoso, mas também não aceitar que 1994 seja a única coisa pela qual Ruanda será conhecido para sempre.

E eu realmente não gosto muito de ficar elogiando ditador, mas é difícil ignorar o papel de Paul Kagame na reconstrução do país. O sujeito governa de maneira autoritária, está no comando de Ruanda há décadas e existem sérios questionamentos sobre repressão à oposição, liberdade de imprensa e espaço para críticas ao governo. Isso tudo precisa ser colocado na conta. Ao mesmo tempo, também precisa entrar na conta o fato de que ele recebeu um país que tinha acabado de passar por algo próximo de um apocalipse social e conseguiu transformá-lo em um dos países mais organizados e economicamente dinâmicos daquela região da África.

Pensa na situação: uma parcela enorme da população tinha sido assassinada, milhões tinham fugido ou estavam deslocados, a economia estava destruída, as instituições praticamente tinham desmoronado e uma parte da população tinha acabado de tentar exterminar outra. Qualquer país teria enorme dificuldade para simplesmente voltar a funcionar. Ruanda não apenas voltou a funcionar como reconstruiu estradas, instituições e serviços públicos, atraiu investimentos e manteve durante muitos anos taxas elevadas de crescimento econômico. Hoje você anda por Kigali e encontra uma cidade limpa, segura, cheia de construções novas e com uma preocupação quase obsessiva em mostrar que o Estado funciona.

A comparação inevitável é com o vizinho Burundi. Os dois países são pequenos, montanhosos, extremamente densos, sem saída para o mar e possuem histórias coloniais e divisões entre hutus e tutsis muito parecidas. Só que hoje o Burundi é o país MAIS pobre do planeta. Não da África, não do hemisfério sul ou norte. DO PLANETA. Claro que seria simplista colocar toda essa diferença na conta de um único governante, porque história e economia nunca funcionam assim. Mas basta conhecer os dois países para perceber que, nas últimas três décadas, Ruanda e Burundi seguiram caminhos completamente diferentes. E depois de tudo o que aconteceu em 1994, só o fato de Ruanda estar onde está hoje já é bastante impressionante.

Era hora de pisar em um dos países mais tensos que já viajei. Era hora do Burundi.

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