Espírito Empreendedor

Marcamos de nos encontrar no albergue delas. Desci pra lá como combinado e começamos a procurar uma balada pra poder entrar. Descemos pro cais onde havia várias baladas diferentes e entramos na primeira que vimos. Não precisava pagar pra entrar.
Sentamos numa mesa e ficamos vendo de qual era da balada. Ficamos conversando um pouco. A balada chegava a ser engraçada se não fosse trágica. Só tinha homem pra tudo que era lado, todo mundo sentado e ninguém, absolutamente NINGUÉM, dançando. Claro que aquilo não seria um problema pra gente.
Enquanto estávamos sentados conversando sobre o que iríamos fazer veio um cara, que mais parecia um garçom, e perguntou se não queríamos algo. Falamos que não e ele saiu. Depois de uns dez minutos voltou e perguntou se queríamos algo. Falamos que não e ele saiu. Depois de mais uns dez minutos ele voltou e perguntou se queríamos algo e ficou nessa de dez em dez minutos. Me senti como nesse vídeo do Hermes e Renato abaixo:
Pra fugir do garçom mala, nos levantamos e fomos dançar um pouco. Cara, o que foi aquilo? A balada simplesmente PAROU pra poder ver as minas dançando. Elas também não contribuíam, né? Polacas, lindas, num lugar que só tinha homens de bigodes por todos os lados, elas dançavam de uma maneira muito sensual. Mermão, até eu parei um pouco pra ver. O que era aquilo, meu amigo? Por entre bigodes eriçados elas dançavam e rebolavam em frente a uma plateia que ia a loucura. Depois eu meio que fiquei de lado com vergonha dos caras ENCARANDO as minas sem parar. Me lembrou de uma foto célebre do tempo da Polônia.
Elas ainda por cima eram banqueiras. Toda hora iam no Dee Jay e pediam uma música diferente e quando ele não colocava, elas ainda iam reclamar. Enfim, acho que era o preço a pagar pra aquela balada ter um pouquinho de graça.
Depois de um tempo sentamos e começamos a conversar novamente. Adivinha o que aconteceu? Sim, eu tenho certeza que você já adivinhou:
– Deseja alguma coisa senhor?
– Rapaz, não, doido, obrigado! Eu REALMENTE não quero nada agora!
– Mas, você vai ficar aí sem consumir nada?
– Rapaz, pelo menos por agora sim, por quê?
– Porque você não pode fazer isso.
– Como assim?
– Você não pode ficar sem consumir nada.
– Uai, mas a festa não era de graça pra entrar?
– Sim, é de graça pra entrar, mas pra ficar tem que consumir algo.
– Tá, tá bom, eu consumo mais tarde.
– Não, senhor. Você tem que fazer um pedido.
– Uai, cara! Não tou te entendendo. Por que você tem que me FORÇAR a consumir algo?
– Senhor, como é que as pessoas fazem dinheiro no país que você vem? Meu patrão prefere não cobrar entrada, mas em compensação a única maneira de ele fazer dinheiro é assim. Quando as pessoas pedem uma bebida ou algo do tipo.
– Tá, se eu não pedir agora você vai me colocar pra fora, é isso?
– Provavelmente…
Levantei, fui lá onde as meninas estavam dançando e deixei ele falando sozinho.
Pensa que ele se fez de rogado? Naadaaa… Pegou as bolsas que as meninas tinham deixado na mesa e começou a levar na direção da porta. Eu não paguei pra ver se ele ia jogá-las pela porta ou não, mas pelo jeito que o bicho ia REALMENTE parecia que ele iria fazer isso. Pegamos as coisas delas e ele nos apontou a porta da rua. Simples assim. As ÚNICAS mulheres da festa foram expulsas porque não estavam consumindo nada dentro do bar. Tristeza geral entre os marmanjos que estavam lá dentro quando a atração estava indo embora. Pude perceber que espírito empreendedor não era lá o forte do dono da balada.
E lá vamos nós
Expulsos da balada, fomos procurar outro lugar. Paramos em um bar, dessa vez, por via das dúvidas, compramos logo uma cerveja e ficamos lá vendo que o iríamos fazer. Do nada um turco em uma outra mesa começou a gesticular um coração no ar e a gritar algumas coisas em turco apontando pra uma das meninas que estavam na minha mesa. Ele parecia querer dizer que estava apaixonado por uma das polonesas que estavam sentadas conosco. A gente tentou ignorar, mas o cidadão simplesmente não parava. Um peão de obras aqui era um lord comparado com o cara. O figura REALMENTE não parava e começou a ficar chato. Isso NO MEIO DE UM BAR LOTADO. Eu fiquei me perguntando se é assim mesmo que eles chegam em mulher na Turquia ou se de tanto as mulheres viverem cobertas, os caras quando olham uma mulher de saia simplesmente ficam mais loucos que o batman!
Enfim, como não podíamos ficar assistindo aquele show de desespero por uma mulher, resolvemos sair do bar antes que ele pegasse um tacape, desse na cabeça dela e a levasse arrastando pelos cabelos. Fomos para um outro bar e ficamos lá de boa. Do nada chegou um outro cara, mas dessa vez falando em inglês com a gente e sendo gente boa. Era o dono do bar.
O cara era REALMENTE muito sangue bom e virou nosso amigo. Depois de um tempo conversando, ele perguntou se não queríamos entrar na casa dele (o bar ficava nos fundos da casa dele) que ele queria nos mostrar algo. Eu não gostei dessa história de “vamos entrar aqui na minha casa”, fiquei com medo do cara querer fazer alguma maldade ou algo do tipo, mas as minas não tavam nem aí e foram logo entrando. Eu acabei tendo que ir mesmo.
Não era nada demais. Ele apenas foi mostrando a casa dele e no final mostrou uns gatinhos que a gatinha dele tinha acabado de parir. Claro que desmanchou o coração das minas, pois se tem algo que amolece coração de mulher é gatinho filhote sedendo de carinho. Ficamos conversando lá por um tempo e ele perguntou se não estávamos a fim de ir numa balada com ele. Eu mais uma vez fiquei escabreado e com medo de acordar numa banheiro de gelo com um rim a menos (pô, eu sou do Brasil, né, fera?), mas mais uma vez as meninas foram na frente e nem me deram tempo de titubear.
No final o cara levou a gente pra uma balada GIGANTESCA!!! Custava 30 euros pra poder entrar, mas ele nos colocou de graça lá dentro! O bicho era REALMENTE gente boa! A balada era coisa de outro mundo, o único porém é que já estava fechando. Ficamos curtindo um pouco lá até que deu umas quatro horas da manhã. Ficamos ainda dando um rolê, mas eu acabei indo embora e me despedindo das meninas e do cara, que, infelizmente, nem o nome mais eu lembro.
Noite surreal, amigo.
Voltei pra casa e comecei meus preparativos pra poder viajar Síria no outro dia.

Cienfuegos e Trinidad


Depois de Havana, segui para Cienfuegos e depois Trinidad. As duas eram cidades patrimônio da humanidade. Porém, longe da magnitude que é Havana. Meio que me arrependi de passar nessas duas. Em Cienfuegos passei só uma tarde e uma manhã, o que foi mais do que suficiente.
Só dois momentos dignos de nota.
Eu fui comprar um imã de geladeira e quando disse pro camelô que eu era do Brasil o bicho começou a me citar todas as obras de Frei Beto que ele havia lido e como ele achava genial a Teologia da Libertação. Até perguntou se eu não tinha nenhum livro em português para presenteá-lo, haja vista que estava querendo aprender português para ler sobre Frei Beto no original, pois segundo ele, você perde muito na tradução. Ah sim, o imã de geladeira na banquinha dele custava 2 CUCs.
Outra foi o do dono da Casa Particular onde eu morava tentando consertar o chuveiro.  Ele ligava o chuveiro, deixava a água sair e enfiava a chave de fenda na resistência. E eu ali, só esperando para ver ao vivo como se contorcia um condenado sendo executado em uma cadeira elétrica. Saía faísca para todo lado e eu falando pro homem “rapaz, desliga isso, mexe no chuveiro desligado” e ele só dizendo que tinha que mexer daquele jeito mesmo.
Trinidad como centro histórico foi pior ainda. Era só uma pracinha, alguns prédios coloniais, nada muito diferente do Brasil. Agora, assim, cara, muito CARA! Bicho, qualquer pratinho de comida me custava o dobro do que eu pagava em Havana. A parte legal mesmo foi um mergulho que eu fiz em uma praia próxima e a visita a uns engenhos abandonados, menos pelo lugar, mais pela companhia do taxista, um cara muito legal. Histórias que escrevo com mais detalhes abaixo.

Coisas que aprendi com o Chaves

Repasso e-mail que recebi esses dias e que achei bem interessante

O seriado chaves me ensinou muita coisa, tenho certeza que não seria essa pessoa boníssima se não fosse a turma do chaves, eu listei as 50 coisas que aprendi assistindo o seriado Chaves.
 
1. Seria muito melhor ter ido assistir o filme do Pelé.
 
2. As crianças mexicanas tem rugas.
 
3. JAMAIS encostar em alguém que esteja tomando um choque.
 
4. Seu Madruga paga o aluguel todos os meses. Por isso sempre deve 14 meses, não 15, 16, 17…
 
5. Brasília já foi carrão.
 
6. Não basta ser o maior professor do mundo. Tem que ter um pouco de pepsicologia.
 
7. Pessoas bebem leite de burra.
 
8. Existe uma fruta chamada tamarindo.
 
9. O Quico é emo.
 
10. Devemos deixar os outros fazerem nosso trabalho para evitarmos a fadiga.
 
11. A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.
 
12. As tintas verde-limão são as mais baratas no México.
 
13. Trabalho não é a pior coisa do mundo. Pior é ter que trabalhar.
 
14. Uma epístola é uma carabina, só que menor.
 
15. Azul escuro em inglês é blue marinho.
 
16. Equilibrar cabo de vassoura com o pé é maneiro.
 
17. Deixar uma casca e banana no chão pode causar um grande acidente.
 
18. O segundo episodio do Guilherme Tell é o mais caro do mundo. Por isso o Sílvio Santos não comprou.
 
19. Alguns móveis são feitos de isopor.
 
20. Portas também.
 
21. Se me acordarem às 11h, tragam o café na cama.
 
22. Socos têm barulhos de sinos.
 
23. Sempre tem um filho da puta que rouba as moedas nas fontes dos desejos.
 
24. Leite é muito parecido com gesso.
 
25. “Quero ver outra vez seus olhos olhinhos em noite serena” é a talvez a única música mexicana que metade da população brasileira conheça.
 
26. Um cabo de vassoura com um lençol amarrado na ponta equivale a uma mala.
 
27. O pai do Quico na verdade está vivo, ele simplesmente fugiu de casa.
 
28. Alguns alunos são tão tímidos que nem os professores percebem sua presença em sala de aula.
 
29. Uma caveira significa prerigo. PRE-RI-GO.
 
30. Ninguém tranca as portas nas vilas mexicanas.
 
31. As marcas de catapora feitas com caneta hidrocor ficariam muito estranhas na TV Digital.
 
32. Qualquer McDonald’s da América do Sul lucraria caso vendesse o McSanduíche de Presunto.
 
33. Hector Bonilha é o Antônio Fagundes acima da linha do Equador.
 
34. As pessoas boas devem amar seus inimigos.
 
35. Deus é um cara legal por não deixar as vacas voarem.
 
36. Os carrinhos feitos com caixas de sapatos são os mais maneiros.
 
37. Não é indicado deixar uma máquina de lavar no meio da sala.
 
38. Nunca acredite em boatos de que seus ídolos morreram num acidente de avião.
 
39. Bolinhas de tênis de mesa são parecidíssimas com ovos.
 
40. Pirulitos podem ter o tamanho de raquetes de tênis.
 
41. O trabalho infantil é legalizado no México.
 
42. Os roteiristas da série não sabiam o que era a aritmética.
 
43. O estilingue pode ser uma arma mortal.
 
44. Tem vez que Acapulco é no Guarujá.
 
45. Se você é jovem ainda um dia velho será.
 
46. Pouco me importa se você quer. Compre.
 
47. Algumas pessoas são idiotas a nível executivo.
 
48. As dívidas são sagradas.
 
49. Se você quiser vir a ser alguma coisa, que devore os livros.
 
50. Se capivaras tivessem trombas seriam trapezistas em um circo tchecoslovaco.

 

 

Viagem à Mauritânia – Todas suas flores – Curiosidades sobre a Mauritânia

Nouakchott
Antes de viajar, conhecia muito pouco desse país. Na verdade, na verdade, apenas sabia do bizarro fato de que a Mauritânia foi o último país do mundo a oficialmente abolir a escravidão, há menos de quarenta anos atrás (o Brasil foi o último entre os países ocidentais em 1888).
Bem, não é por proibir alguma coisa que ela deixa de existir. A ONU estima que existam hoje por volta de 340 mil escravos na Mauritânia. A título de comparação, supõe-se que no Brasil existam 200.000 trabalhadores em regime análogo a escravidão, desde os bolivianos trabalhando em oficinas têxteis subterrâneas em São Paulo aos agricultores esquecidos no interior do Pará e Amazonas. Porém estamos falando de um país com 200 milhões de habitantes de dimensões continentais, enquanto a Mauritânia tem menos de quatro milhões.
As mulheres também têm problemas no país. Apenas um terço delas são alfabetizadas e ainda ocorre a mutilação genital em zonas rurais. Homossexualismo não é só proibido como punido com pena de morte.
Países onde o homossexualismo é punido com pena de morte estão pintados em preto no mapa. Se liga na Mauritânia

Ademais, o autor do Pequeno Príncipe, Saint Exupéri, como piloto da Força Aérea da França, viajava bastante ao lugar. Nouakchott era um posto francês no Saara, deserto onde é ambientado o seu livro, àquela época.Na verdade, a Mauritânia tem uma história muito parecida com os dos países do Norte da África, como o Marrocos. Foi inicialmente colonizada pelos bérberes, depois pelos árabes e, por fim, pelos franceses. Conseguiu independência e tem um histórico de ditadores se matando uns aos outros por meio de golpes. Hoje é um país majoritariamente islâmico e, em sua maioria, desértico.

Operário dando uma pausa no trabalho para realizar uma das cinco orações diárias dos muçulmanos

Não é permitido entrar no país com bebidas alcoolicas. Até cheguei a ver uma galera em fóruns de internet sugerindo que você esvasiasse garrafas de plástico de água mineral e colocassem gin ou cachaça dentro, que elas parecem água e você com certeza iria conseguir passar na imigração. Juro que fiquei pensando o tanto que o cidadão deve gostar de encher a cara para vir a fazer uma patacada dessas. O produto de exportação da Mauritânia é o ferro e o país basicamente vive de minerais e pescados.

Pôr do sol no Saara

Era um país que dificilmente eu iria visitar em um futuro próximo.

Acontece que um amigo meu diplomata, o Emanuelzinho, foi alocado por um tempo na Mauritânia. Ele me convidou a visitá-lo e eu, obviamente, topei.
Eu e o Manolo em uma praia próxima a Nouakchott
A gente a caminho da praia

Foi uma boa oportunidade, até porque segundo o site inglês foreign advice travel (algo como conselho acerca de viajar a um país), site que uso como base para saber a segurança de um lugar para onde estou viajando, metade da Mauritânia só deve ser visitada para viagem indispensáveis e não evitáveis e a outra metade em hipótese alguma.
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Curitiba

Semana passada ocorreu o quarto Encontro Nacional do Couchsurfing em Curitiba. Aproveitando-se do feriado, o pessoal de lá realizou um evento bem legal onde centenas de couchsurfers de diversas partes do país puderam se conhecer e se divertir durante quase uma semana em Curitiba. O encontro foi bem estafante e até hoje, uma semana e meia depois, minha garganta ainda sofre as conseqüências de tantas noites de esbórnia.

Couch em Curitiba

Bem, pra começar o post acho que não teria como eu deixar de falar de uma das partes mais legais do evento que foi o couch que pude ficar em Curitiba. Fiquei na casa de Ana Cláudia, uma amiga minha do colégio dos tempos do Maranhão. Cara, foi aquilo que eu chamo de couch cinco estrelas como esse aqui e esse aqui. A Cláudia passava o dia inteiro com a gente, pra cima e pra baixo no carro dela e sempre estava a disposição pra poder ir pra qualquer lugar!

A Cláudia não morava sozinha, ela tinha, digamos, uma “companheira de casa” e que no final sempre era o centro das atenções. Ela se chamava Zaha e era da raça maltês, uma cachorra MUITO fofa e que fazia muita bagunça. Deixar a Zaha solta pelo apartamento era pedir pra casa virar do avesso.

Por último, mas não menos importante, a Cláudia também hospedou uma outra menina durante o meeting. Ela se chamava Larissa e era estudante de medicina, o que foi de muita valia enquanto estivemos em Curitiba. Por que, Claudiomar? Você ou a Claudia passaram mal? Não, nós não, Zaha sim. Mas a Larissa era médica ou veterinária? Bem, deixa eu explicar.

Larissa e Claudia

A Larissa é médica e, como todos os médicos devem ser a meu ver, ela tinha um conceito de “nojo” meio que diferente das pessoas normais. Um catarro pras pessoas normais é uma coisa asquerosa, mas pra ela nada mais é do que uma mistura de proteína, água e restos celulares, comum em pessoas que ela um dia virá a tratar quando se formar. Tem que ser assim mesmo, né amigo? Imagina o que seria um médico com nojo de catarro e outros excrementos orgânicos? Eles parecem simplesmente relevar tudo isso. A Larissa foi muito útil nesse ponto.

Bem, teve um dia que resolvemos dar uma volta por uma feirinha de Curitiba e levamos a Zaha pra poder dar uma volta também. E cachorro, ainda mais filhote, vocês sabem como é, né? Sai comendo tudo que vê pela frente. E gente, só uma pausa. Esses cachorros de hoje em dia tão muito fresco, né? Hoje cachorro de madame não pode comer uma carnezinha mais gordurosa que já passa mal. Tem cachorro hoje em dia que não pode mais nem, PASMEM, comer osso porque se engasga. É muita frescura! Essa meninada que hoje passa o dia ouvindo Restart…

Cara, porque a gente tava caminhando com a Zaha e ela comeu um pedaço de bacon que tava no chão. Rapaz, pense num aperreio depois disso? “Ah, meu Deus, a Zaha vai passar mal” – dizia a pobre da Cláudia desesperada. E eu tentando acalmar a coitada, falando que não ia dar nada. A Zaha, apesar de fofinha e cheia de pelos ainda era um cachorro e cachorros são carnívoros, oras! É cara, mas depois de meia hora tive que me render aos fatos.
Não, isso não machuca. A corrente passa no meio do peito dela

Estávamos dentro do carro, já voltando pra casa. Eu e a Cláudia na frente e a Larissa atrás com a Zaha no colo. Sim, se eu enrolei esse tempo todinho pra explicar, você sabe do que eu tou falando. Dali a pouco a gente só escuta um barulhinho: Bleerrrgggghhh!!! A Zaha vomitou tudo o que tinha no estômago em cima da pobre da Larissa. Aí, meu amigo, aí foi banco pra um lado, ração de cachorro de madame pro outro, jantar da noite passada TUDO em cima da pobre da Larissa. Rapaz, pense em alguém que ficou desesperado? Ela? Não, eu e Cláudia ficamos desesperados preocupados com a Larissa e ela só de boa! A gente desesperado pra poder chegar em casa pra menina poder se lavar logo e a Larissa, que tava vomitada, falando pra gente ficar de boa, aquilo era só, cara, eu não lembro como era a palavra que ela utilizava, mas era algo como “Ah gente, isso é só fisiológico!”. Cara, sério! Imagine como seria uma menina, digamos, “normal”? Ela já estaria gritando mais que uma arara tendo os intestinos arrancados! Larissa não, Larissa tava lá, serena!

Além desse teve outro dia que a gente tava em casa se preparando pra sair e resolvemos soltar a Zaha dentro de casa pra poder dar um pouco mais de alegria no recinto. Ela ficou doida pra cima e pra baixo na casa. Como estávamos nos arrumando, não pudemos dar muita atenção a ela. Como cachorro hoje é bicho inteligente, ela pensou que só tinha uma maneira de chamar a nossa atenção. Subiu em cima do meu colchão, próximo ao meu travesseiro e ficou em posição de ataque. Começou a se contorcer e aquele negócio marrom começou a descer de dentro da cachorra! Rapaz, foi um Deus nos acuda dentro do apartamento! “A cachorra tá cagando, a cachorra tá cagando!” – gritava alguém de dentro do banheiro quando Larissa mais veloz que o Papa-Léguas só enrolou a sua mão em um saco plástico de supermercado e colocou embaixo da cachorra no exato local da, digamos, aterrissagem do projétil marrom. Missão cumprida, cachorra amarrada depois disso e eu e a Cláudia impressionados com a coragem da menina! “Ah gente, isso é só fisiológico” – ela repetia seu velho bordão.

Nada mais irônico e apropriado que ela vir de uma cidade que se chamava “Vassouras”.

Dia na feirinha

Esse dia na feirinha foi até legal. Não que eu ache interessante ficar visitando feira e mercado, isso é coisa pra gringo, mas como as companhias eram legais, valia o passeio. No caminho eu tentei bater foto, mas não deu tempo, de uma “pichação” que era comum pelo centro da cidade de Curitiba. Algum figura saiu escrevendo pelas paredes da cidade o endereço do MySpace dele pras pessoas poderem lhe visitar. A que ponto chega uma pessoa no afã de quere ser famoso.

Demos uma volta pela feirinha e depois fomos voltar pra casa. Na hora de voltar pro carro, alguma coisa estava faltando. Chave da casa? Carteira? Juízo? Não, Cláudia deu por falta do carro. Ah, meu amigo, aí começou o desespero. Cláudia começou a se desesperar, o carro fora roubado! E se desespera daqui; liga dali; o carro não tem seguro; ah meu Deus, o que fazemos agora; Fulano no telefone falando pra ligar pra polícia. O desespero tomou conta de todos nós e, principalmente, de Cláudia.

Eu, no meu íntimo particular, também estava um pouco desesperado. Além do fato de Cláudia ter perdido o carro, lembrei que dentro dele eu havia deixado o meu casaco do Brasil. Sim, aquele casaco que vocês já conhecem que está em todas minhas fotos e que viajou o mundo comigo! Se vocês olharem as fotos lá de cima, dá pra ver que ele está em três delas!

Tudo bem, um casaco não tem o mesmo valor de um carro, mas pô, foi o casaco que viajou comigo o mundo inteiro, né? Quando eu o teria novamente? Tinha um valor sentimental meio grande naquela peça de algodão e poliéster. Agora que eu o perdera, eu teria que comprar um outro casaco e dar outra volta ao mundo com ele! E pô, eu pensando em tudo isso, mas não podia nem comentar com a Cláudia, né? Imagina, ela desesperada com um carro e eu preocupado com um casaco? Enfim, Cláudia era a prioridade.

Enquanto o desespero tomava conta do clima, tive uma ideia sublime. Senão genial! Cara, sabe aquela ideia que se fosse na área da ciência lhe valeria um Nobel? Poderia me chamar de Claudiomar Einstein depois dessa. Qual foi a minha brilhante sugestão? “Gente, que tal a gente descer mais um pouco e ver se o carro não ficou mais abaixo?”.

Sim, exatamente como você pensou. O carro se encontrava uma quadra abaixo e meu casaco estava lá dentro. Ela havia estacionado uma rua abaixo e não lembrava… Alívio geral e a constatação que essa juventude anda usando drogas demais…

Obs: Sim, galera, eu vou continuar escrevendo sobre as viagens de volta ao mundo, mas só tou escrevendo sobre outra viagens minhas porque uma hora ou outra esse blog vai acabar e não quero que seja tão rápido…

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Cruzando a fronteira da Turquia com a Síria

No outro dia consegui pegar o meu busão em direção a Damasco na Síria. Ainda estava meio confuso se eu conseguiria ou não o maldito visto pra poder entrar no país. Uns me falavam que era super de boa pra poder tirar, que era só pagar a taxa que você estava dentro enquanto outros me falavam que era maior embaço e complicado. Isso era um tanto quanto preocupante, haja vista que não ter todas as informações necessárias em um ambiente possivelmente hostil como aquele não é o melhor dos cenários. Se os caras da fronteira percebessem isso, eles poderiam tentar me enrolar (fazendo eu pagar mais pela taxa do visto, que eu sequer sabia de quanto era) ou então me pedir suborno, o que eu só faria em último caso.

Abaixo dá para ver o sentimento que eu tava na fronteira:

Pra piorar, todos no busão pareciam ser turcos e ninguém parecia que sabia falar inglês, muito menos o motorista. Enfim, o jeito foi seguir viagem. Quando fui cruzar a fronteira, fiquei impressionado, pela primeira vez desde quando havia começado a viajar, me deparei com guardas de fronteira que não falavam uma palavra em inglês. Os caras não sabiam falar nem hot-dog. Pode parecer besteira, mas lembre-se que eles trabalham com fronteira, cara! Eles são os responsáveis por deixar ou não uma pessoa passar pra dentro de um país ou outro. Eles pareciam falar só turco e árabe. Não parecia que forasteiros de outras nacionalidades eram muito comuns por aquelas bandas. Quando foi pra poder sair do país, havia uma fila para sírios, outra para turcos e outra para “o resto”. Qual não foi a minha surpresa ao ver que um outro cara ia comigo pra fila do “resto”. Opa, um estrangeiro em lugares isolados como esses sempre são bons, duas cabeças pensam melhor que uma e sempre podemos nos ajudar caso algo aconteça.
Fui trocar uma ideia e ele me saiu melhor que o esperado. O cara, apesar de falar pouco inglês, sabia falar turco e árabe! BINGO!! Tudo certo, amigo!! Agora nada pode dar errado!!! O bicho era búlgaro (sim, já pode ir contando línguas faladas: turco, inglês, árabe e búlgaro. Pelo menos), marinheiro e gente boa pacas. Depois que cruzamos a fronteira da Turquia sentei do lado dele e fomos conversando no caminho. Ele me contou que já havia viajado pro Brasil e visitado dois portos: Santos e um tal de Madieiria. Maidieiria?? Que diabo é isso?? Tá certo que eu não sei todos os portos do Brasil, mas com certeza a gente não teria um porto com esse nome. Devia ser um nome parecido. Fiquei pensando, pensando… Rapaz, depois de um tempo eu não fui me tocar do porto que ele tava falando? Era o porto de PONTA DA MADEIRA!! O que é Ponta da Madeira??? É o porto do ITAQUI!! O que é o Itaqui?? É um dos maiores portos do Brasil e fica situado numa cidade patrimônio da humanidade!! SIM, O CARA JÁ HAVIA PASSADO POR SÃO LUÍS!! Rapaz, que felicidade!!
Fiquei todo feliz e fui bombardeando o cara de perguntas: o que ele havia visto, se tinha gostado, se tinha passado muito tempo e talz. Pô, não é todo dia que se conhece alguém que já foi a São Luís NO MEIO DO ORIENTE MÉDIO, né? Enfim, eu vi que ele meio que não entendeu o que eu tava perguntando (ele não falava inglês tão bem, como já falei) e foi me contando como foi essa “excursão” dele por terras ludovicenses.
Diz ele que ficou quase uma semana esperando pra poder descer do navio. Ele me contou que quando eles chegam, eles ficam numa fila de barcos esperando obter autorização pra poder descer em terra firme. Falou que era um saco. Você dorme e acorda todo o dia olhando a terra firme e não pode descer! Isso depois de provavelmente ter cruzado um oceano inteiro! Depois que ele enfim conseguiu descer, tentou ver como faria pra poder dar uma volta na cidade, mas foi informado que o centro histórico era MUITO longe do porto do Itaqui (e bicho, real? É longe MESMO!!). Juntou quatro amigos pra tentar rachar um táxi, mas o taxista que fez mais barato queria 100 reais POR CABEÇA pra levá-los ao centro e trazê-los de volta ao porto do Itaqui, o que fica mais que demonstrado que seja na Índia ou seja no Maranhão não há raça mais FILHA DA PUTA do que taxista pra querer te roubar. Só pra vocês terem uma ideia, eu paguei uma vez uns 250 reais pra viajar de Brasília a São Luís de ônibus. Como eles não estavam lá tão a fim de conhecer a cidade, resolveram buscar um programa um pouco mais educativo e saudável. Compraram uma garrafa de vodca e foram atrás de um puteiro.
Bem gente. Eu vou falar uma coisa pra vocês. São Luís é uma cidade bonita, mas mulher é uma situação complicada. Se tu olha uma mulher gatinha caminhando na rua tu achas logo que é turista. É… a situação aqui é braba mesmo. Agora imagina como deve ser isso em um puteiro?? Imaginou? Agora pensa como deve ser assim em um puteiro baixo, mas BAIXO nível como são os ao redor do porto (dizem que o mais rico dos que lá frequentam chega de bicicleta)? Pensou, pois é!! Foi isso que ele me falou… E o coitado ainda espocou 100 dólares com o pacote completo: Vodca, entrada, mulher e tudo… Gringo só se complica…
Eu percebi que a experiência que ele teve com São Luís não foi das melhores, por isso mudei logo de assunto: – Olha, chegamos no posto de fronteira da Síria!! Vamos descendo??
Descemos e ele foi na frente, pois, como disse, falava árabe. Rapaz, assim que entrei no posto eu só faltei foi rir. Imagina um bando de gordo, de bigodinho e farda por todos os cantos?? Pois era assim o posto de fronteira. Mas parecia um bando de Saddam Hussein por todos os lados. Engraçado DEMAIS!! Perguntei quanto era pra poder pagar pelo visto e o marinheiro me falou que era uns 30 dólares. Tirei 30 dólares e quando ia pagar ele me falou que só podia ser pago em moeda local. Ow beleza, que boa notícia. E onde eu iria trocar? “Seus problemas acabaram”, tinha uma casa de câmbio DENTRO do posto de fronteira só pra isso. Agora pense comigo. Aquela era a casa de câmbio em centenas de quilômetros. Já deduziu? Claro que a conversão foi a PIOR possível e o visto que era pra sair por uns 30 dólares, acabou saindo por 40 só com o tanto que eles me roubaram no câmbio.
No final graças a Deus deu tudo certo e eu conseguia atravessar, são e salvo, a fronteira da Síria…

Como é voar na Air Koryo, a pior companhia aérea do mundo

Depois que a Air Koryo foi eleita a pior empresa aérea no ranking da SkyTrax, o blog Melhores Destinos solicitou que um blogueiro que acabou de visitar a Coréia do Norte fizesse um relato de como é voar de Air Koryo. Acabou que ele teve a mesma impressão que eu, voar com Air Koryo só dá medo do avião cair, mas tirando isso é bem mais confortável do que viajar com a Gol ou a Webjegue.

Segue o relato…

“…A Coreia do Norte é considerada a nação mais fechada do mundo. Os números não são precisos, mas a quantidade de ocidentais que visita o país a cada ano gira ao redor de apenas 3 mil pessoas. Para chegar lá, esses viajantes têm duas alternativas: avião ou trem. Se escolherem chegar por via aérea, é grande a chance de precisarem voar na única companhia com apenas uma estrela no ranking SkyTrax e, portanto, considerada a pior do mundo: a Air Koryo.

Essa empresa de péssima fama foi fundada em conjunto por norte-coreanos e soviéticos em 1954 e foi batizada de Chosonminhang. Chegou a voar para lugares como Moscou, Berlim e Praga, mudou para o nome atual em 1992, mas, aos poucos, junto com a decadência do comunismo e do próprio país, foi perdendo destinos internacionais regulares até chegar aos três que tem hoje: Pequim e Shenyang, na China, e Vladivostok, na Rússia. Existem relatos de voos para Kuala Lampur, na Malásia, e para Bangcoc, na Tailândia, mas os mesmos não são regulares nem constam no site da companhia.

Uma olhada na Wikipedia atrás de informações sobre a frota da Air Koryo pode ser assustadora para quem não é fã de aviação. Com exceção de um Antonov ucraniano, todos os outros aviões são os russos Ilyushin e Tupolev. Isso não é necessariamente um motivo de preocupação, afinal existem modelos modernos desses fabricantes, todos autorizados a voar na União Europeia, por exemplo. Mas uma pesquisa mais cuidadosa mostra que esse não é o caso da maioria dos aviões da Air Koryo. Os modernos, ali, são poucos.

Apesar dessas características potencialmente arrepiantes, a Air Koryo é membro da IATA (a Associação Internacional de Transporte Aéreo) e o histórico de acidentes da companhia é baixíssimo. São apenas dois registrados em mais de 50 anos de atividades, em 1983 e em 2006, sendo que esse último não teve nem feridos. Mas é bom lembrar que estamos falando da companhia aérea estatal de uma ditadura, o que sempre pode significar informações sonegadas ou falsas.

Mesmo sabendo de tudo isso, quando fechei minha viagem para lá não tive a menor dúvida e escolhi chegar de avião com a Air Koryo. Eu tinha consciência de que poderia ser, no mínimo, tenso, mas viajar para a Coreia do Norte é como viajar no tempo, direto para o período da Guerra Fria. Eu queria entrar no clima logo que fosse possível e não podia perder aquela oportunidade de voar em um equipamento fabricado na falecida União Soviética.

Então eu fui…”

Para ler o relato completo, clique no link abaixo:

http://www.melhoresdestinos.com.br/avaliacao-air-koryo.html

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O culto à personalidade na Coreia do Norte e a influência da Guerra das Coreias (1950 – 1953) nisso

Vou pecar por ser prolixo, mas tenho que falar! Lá o culto a personalidade atingiu proporções nunca antes vistas.  Os grandes líderes são retratados como seres notáveis, parecem seres divinos, com poderes fantásticos e especiais e tudo que eles fazem ou já fizeram tem um caráter inacreditável. Assim como veneramos Jesus na religião católica por seus feitos sobre-humanos, vi um paralelo semelhante com as diversas histórias sobre os líderes.
Kim Il Sung e Kim Jong Il são quase o “Leonardo Da Vinci” das Coréias. Eles escreveram livros, filosofias, óperas, balés, dirigiram centenas de filmes, ensinaram agricultores a plantar, operários a trabalhar… Só parecem não ter ensinado como fazer dinheiro, pois, com sua renda per capita de meros 1400 dólares por ano, a Coréia do Norte está entre as dez piores rendas do planeta.
Para que ler outro autor se você pode ler apenas sobre os Kims? É impressionante como em todas as livrarias só havia livros deles. Aí fica fácil achar eles um gênio, não tem outro para comparar 😛
É lógico que a biografia dele não caberia em um só volume, né?  Uma vida guerreira merece MILHARES de volumes!!!

Diversas óperas escritas pelo Grande Líder

Todo ato deles é representado por quadros em museus. A casa que Kim Il Sung nasceu é um museu a céu aberto. Saímos da casa fomos tomar água no poço que ele tomava todos os dias.

Casa onde o Grande Líder nasceu, hoje um museu
Todo lugar que visitamos, eles citam “este lugar foi visitado sete vezes por Kim Il Sung!”, Kim Jong Il batizou esse lugar como “…”, andou no brinquedo do parque de diversões.
Só um parênteses. Você aí se achando todo pimpão porque andou em uma montanha-russa com quarenta loopings nos Estados Unidos. Grandes coisas. Quando estávamos lá no parque de diversões da Coréia, o guia perguntou se queríamos ir em um. Proposta indecente! Lógico! Fomos num brinquedo que no Maranhão costumávamos chamar de “Ranger”. Furamos uma fila de , literalmente, milhares de pessoas (estrangeiros não precisam pegar filas, aquela é a fila dos coreanos – falava o guia quando dizíamos que furar fila não era certo) e seguimos. Cara! Que emoção, viu? Quando demos o primeiro looping, o brinquedo fez um BARULHÃO e começou a se tremer! Manutenção não deve ser o forte da Coréia do Norte. Os gritos entoados depois desse barulho não foram de emoção! Foram pela vida! Mas estávamos seguros, antes do brinquedo começar a rodar, veio um dos carinhas do parque e deu um aperto, mas um APERTO, no cinto de segurança que saímos falando fino depois que descemos. Depois vê até onde vai esse cinto de segurança…
As minas piram no parque de diversões da Coreia do Norte
Voltando. Fatos fantásticos ocorreram em sua infância (Kim Il Sung, por exemplo, escreveu “Liberdade para a Coréia” quando ele tinha apenas quatro anos, sendo essas as primeiras palavras que ele aprendeu a escrever), quando criança, Kim Il Sung aprendeu do seu pai diversos ensinamentos sobre como seria a Coréia livre.
Pessoas nos mostravam orgulhosas quadros em que netos e filhos posavam com algum dos líderes (ainda que fosse um quadro com centenas de pessoas ao mesmo tempo).
Olha a felicidade da tia em nos mostrar que seu sobrinho tem uma foto com Kim Jong Il. Sim, ele e outros 150
Os guias contavam como o pai de Kim Il Sung, quando ele já estava bem doente e para morrer, virou pra mulher dele e fez um ultimo pedido. Pediu que ela entregasse o seu par de pistolas para Kim Il Sung para que ele pudesse com elas lutar pela indep da Coréia. Essas foram as primeiras armas do Exercito Revolucionário Coreano e são reverenciadas quase como o Cálice Sagrado dos cristãos.
Meu filho! Eu te entrego a Coréia! Faça o que quiser com ela! Reparem  nas armas sagradas na mão da  mãe. As armas em um vidro abaixo
As armas da Liberdade Coreana
Uma das primas de Kim Il Sung foi capturada pelos japoneses, torturada e por se recusar a dizer a localização do campo rebelde, teve os olhos arrancados pelos japoneses (sim, como falei, os japas eram hardcore). Apesar de tudo, antes de morrer ela disse: “Eu não posso ver nada, mas posso ver a liberdade da Coréia”.
Você fica injuriado porque uma outra rua no Brasil tem nome de um irmão ou filho de político? É porque não foi ainda não Coréia do Norte. Lá existe um “jardim dos mártires” para homenagear todos os heróis que lutaram por uma Coréia livre. Aí meu amigo, é primo do Kim Il Sung, irmão do Kim Jong Il, filho, a prima dos olhos arrancados, vizinho, o que você imaginar, tem gente sendo homenageado. A mãe preparou uma refeição para Kim Il Sung ir lutar? Então foi uma refeição revolucionária! Estátua para ela no jardim dos mártires!
Eles estão no ano 2012? Lógico que não, eles levam em consideração a história antes e depois do nascimento de Kim Il Sung, não parece lógico? Logo, estamos no ano 101 da era Juche (1912 é ano 1 e não ano 0, por isso ano 101 e não 100). Cara, você conseguem perceber o quanto isso é maluco? Até a contagem dos anos é diferente. Acho que é a primeira sociedade moderna que eu conheço que conta o tempo baseado na figura de um líder não-religioso, Kim Il Sung (os muçulmanos contam baseados em Maomé, nós baseados em Jesus Cristo). Como eu falei, eu não duvidaria se depois de alguns dias começassem a nos falar que um deles ressuscitava mortos, curava enfermos ou andava sobre as águas.
E lógico, pode faltar comida no país, mas apenas alguns meses depois da morte de Kim Jong Il, já havia uma gigantesca estátua de bronze ao lado da do seu pai em um dos principais pontos de Pyongyang.
É nóis na Coreia!
Falando sobre essas estátuas, tudo era cheio de frescura. Você tinha que demonstrar respeito, não podia fazer isso, não podia fazer aquilo, não podia bater foto de um jeito, não podia bater foto de outro, mas, principalmente, não podia bater foto dos pés da estátua. E isso, eles falavam de dez em dez minutos! Isso era realmente um assunto sério, cara! Como de uma forma ou de outra queria ir contra o sistema, rage against the machine, deixar voar o meu espírito Che Guevara, saí batendo várias fotos dos pés das estátuas! Fuck the police!! Sei que pode parecer pouco para você, mas me senti satisfeito de deixar o meu espírito transgressor fluir, nem que fosse por um pouquinho… E o medo de eles checarem as fotos da minha máquina na fronteira… rapaz…
Essa foto quase me custou a cabeça. Clique na foto e veja o que eu deixei escrito no livro de visitas de um museu da Coréia do Norte. Cem anos depois, isso estará arquivado como o dia em que um maranhense arriscou a sua vida para deixar uma marca no mundo mágico de Kim Il Sung!!! HUÁ HUÁ HUÁ! Depois o guia não pediu para eu falar em inglês o que havia escrito para ele transcrever em coreano? Rapaz, pense num menino que deu um frio na espinha inventando uma frase “adorei, gostei muito” e tendo que repetir sem gagejar?
Essa já foi mais de boa
Vi uma vez uma guia contando a alguns viajantes que certo dia um estrangeiro perguntou a um menino na rua se ele sabia quantos pesava aquela estátua de bronze de Kim Il Sung. Ele respondeu:
– Lógico que eu sei quanto pesa essa estátua, estrangeiro.
Vamos lá, todo mundo faz fila, prestem reverência!! Toda estátua era assim!
– E quanto pesa – perguntou o pedante estrangeiro.
– Muito simples, caro amigo estrangeiro, essa estátua pesa o mesmo tanto que todos os corações de todos os coreanos somados.
Às vezes é melhor ficar calado…
Esse buquê de flores custou quase uma semana de alimentação, mas vale pelo grande líder!
Acho que dá mais ou menos para perceber o quanto é essa histeria em relação a isso.

Fico olhando aquilo tudo de longe, como eles parecem acreditar naquilo e como parecem felizes em viver aquela realidade e me sinto como um antropólogo que adentra em uma tribo indígena e não pode de forma alguma influenciar o modo de vida deles mesmo sabendo que pequenas adaptações no cotidiano poderiam melhorar e muito a vida deles. A diferença é que o antropólogo não fala nada por causa do seu trabalho, eu não faço nada por causa do meu pescoço. Pior que a gente fica meio que com um grito por dentro, com as palavras entaladas na garganta sem poder falar nada. As vezes da vontade de falar pro guia um pouco mais da verdade, mas pode ser perigoso. Na verdade, as vezes dá vontade de agarrá-lo pelo pescoço e gritar:

Enquanto no Rio de Janeiro todo mundo quer ter uma casa com visto para o Cristo, na Coréia do Norte, todo mundo deve querer ter uma casa com vista para alguma estátua dos Kims!
– “Tudo isso que você está falando é lixo! Kim Il Sung é um facínora que condena o próprio povo dele a morrer de inanição! Este país é uma prisão! Sabe essa idiotice que dizem para você sobre a Coréia do Sul? A Coréia do Sul é um dos países mais ricos do mundo, logo, logo será mais rico que o Japão e eles são basicamente como vocês! Mesma língua, mesma carga genética, mesmos antepassados! Vocês não são livres, não são ricos e não são prósperos! Vocês são apenas uns pobres coitados e todos os turistas que vem visitar esse país, inclusive eu, o vem apenas por um prazer sádico de saber como Kim Il Sung aprisiona vocês no dia a dia.”
Mas como pensei, é melhor ficar calado e voltar com seu pescoço inteiro.
Fico pensando que um dia quando toda essa merda acabar eles vão ficar impressionados como é o mundo lá fora! Como todo esse mundo mágico que Kim Il Sung criou não passa de uma grande baboseira. Fico imaginando a cara deles que nem a cara dos alemães orientais naquela cena do filme “Adeus Lenin” vendo pornografia americana.

OK, VAMOS COLOCAR UM POUCO DE PINGO NO “I”?

Aula de inglês em uma escola de Pyongyang. Bandeira dos Estados Unidos ao fundo? Lógico que não! Retratos dos Kims!
Cara, apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, não era difícil achar carros de luxo como esses por todos os cantos

Apesar de tudo, é preciso tentar entender sem julgar. É preciso tentar entender que a Coréia do Norte é um país de história muito sofrida. Eles sofreram durante diversas tentativas de “japonização”, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas dos japoneses até o fim da Segunda Guerra Mundial. Cinco anos após o fim da Segunda Guerra, 1950, quando o mundo inteiro estava em paz, ocorreu a “guerra esquecida”, a guerra da Coréia, que quase ninguém lembra, mas foi tão fratricida que quase levou a uma Terceira Guerra Mundial.

Mais um mural a caminho! Lógico, louvando a mais um Kim

GUERRA DA COREIA – VAMOS ENTENDER UM POUCO?

Para quem não sabe, a Coréia era um país unificado quando foi invadido e colonizado pelo Japão. Após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos estavam para conquistar a Península Coreana, a Rússia e a China intervieram e ocuparam a parte norte da Península, implementando um país satélite assim como havia sido feito na Alemanha Oriental e no Vietnã do Norte (que também foi dividido em dois). A China não queria tropas americanas bem na sua fronteira, tampouco a Rússia, portanto criaram a Coréia do Norte. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, essas duas Coréias ficaram em pé de guerra. A Guerra da Coréia começou quando, quando… basicamente quando eles saíram de ameaças de invasões para ação e o pau começou a quebrar. Os EUA dizem que a Coréia do Norte começou, a Coréia do Norte diz que a Coréia do Sul começou e não temos consenso. De qualquer forma, em uma região de conflito como aquela, com várias trocas de ameaças e escaramuças é difícil saber de que lado estava o estagiário que deu o primeiro tiro.  É mais ou menos aquela cena quando a mãe pergunta pros dois irmãos quem começou e os dois ficam gritando: – “Foi ele, mãe, foi ele!”, ela perde a paciência e senta a mão nos dois.

A Coréia do Norte partiu pro pau e quase reunificou a península coreana (ou libertou os coreanos do sul como diz o guia), 90% da península ficou sob o seu poder. Quando os EUA viram que iam perder um aliado estratégico, entraram com tudo na guerra, com ajuda de tropas da ONU e foram levando as tropas do Norte de volta até quase a fronteira na China. Quando a China viu que ia perder o seu satélite, adivinha o que ocorreu. Sim. Ela levou o caminhão de cream cracker para fronteira e saiu distribuindo bolacha pra todo lado. Entrou com tudo na guerra (e imagina o que é guerrear na fronteira do país de maior exército do mundo), com apoio da mãe Rússia e aí o pau comeu de vez. O pau foi comendo, as tropas americanas foram recuando e quando o pau realmente ficou sério, com os dois lados ameaçando usar armas nucleares, todo mundo pediu “júri-juri” e a turma do deixa-disso entrou em ação. Assinaram um cessar fogo e por um momento a guerra cessou. Resultado da guerra? Um milhão de coreanos mortos e as fronteiras EXATAMENTE no mesmo lugar de antes. Um milhão de vidas ceifadas de graça.
Importante citar que, como falei, não foi assinado um tratado de paz e sim um cessar-fogo. E faz diferença? Sim, faz TODA diferença. Um cessar-fogo diz basicamente “vamos parar de se matar por um instante e tentar conversar para chegar a um acordo para acabar a guerra”, porém ele não TERMINA a guerra. Portanto, tecnicamente as duas Coréias ainda estão em guerra. Isso pode parecer bobagem para a gente, mas para um país extremamente fechado e paranoico ter uma declaração de guerra assinada contra ele até hoje faz muita diferença. Por essas e outra que a Coréia do Norte tem hoje o quarto maior exército do mundo (maior do que o de países como Brasil, Alemanha…), sendo formado basicamente por tropas mal treinadas e mal alimentadas. Apenas carne humana segurando um rifle.
E vamos lá! Ensaiando pro titio Kim!
Bem, porque eu me alonguei tanto? Alonguei-me para que seja possível entender como funciona a cabeça de um coreano. Pombas, o país ficou sendo destruído e massacrado (Pyongyang foi reduzida a cinzas várias vezes durante a guerra) e de repente, PIMBA!, cinquenta anos de relativa paz, “prosperidade” e ”respeito internacional”. Tudo isso por causa dos incansáveis esforços dos grandes líderes que trabalham incansavelmente para que todo coreano possa viver em paz (Kim Jong Il inclusive só aparecia em público com roupas militares para representar que ele sempre estava no front “lutando” por uma Coréia melhor). Adicione isso em um país extremamente fechado, com pouquíssima informação entrando de fora e a um rígido controle educacional e da mídia e, pronto, está feito o culto a personalidade de um Grande Líder.
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