Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Vou pecar por ser previsível, mas sim, é impressionante a que ponto se chegou o culto a personalidade na Coréia do Norte. Lá não é como outros países que viajei como Síria, onde todo canto havia uma foto do seu ditador. Ao contrário da Síria, os “grandes líderes” parecem realmente fazer parte do cotidiano e vida de todos os norte-coreanos. Kim Il Sung, o primeiro Kim, foi o “fundador” da pátria coreana. Ele é o grande pai da Coréia e de longe o mais venerado dos três. Ele é considerado o presidente eterno e líder supremo.
Kim Il Sung, em uma de suas milhares de fotos em prédios do Governo
A Constituição da Coréia do Norte inclusive inicia-se citando que a Coréia do Norte é um país com um presidente eterno e que se baseia nos ensinamentos do líder supremo da Coréia, Kim Il Sung.
Os dois bonitões
Tecla PAUSE
Outra curiosidade da Constituição é que ela prevê, entre outras bizarrices, liberdade de expressão (no país com o pior índice de imprensa livre, segundo a organização Repórteres sem Fronteira), liberdade de culto (no pior país para um cristão viver, segundo organizações cristãs) e até, pasmem, direitos humanos (precisa-se de citação?). Tem até um excerto da Constituição, que, de tão bizarro, para mim é o preferido:
“Nosso Querido Líder Kim Jong-Il fez de nosso país um estado invencível em termos de ideologia política, um estado dotado de arma nuclear e uma potência militar indomável, abrindo assim um caminho para a construção de um país forte e próspero”
Sempre bom lembrar, a “invencível” Coréia do Norte é o país que mais recebe ajuda internacional no planeta.
Tecla PLAY
O seu filho, Kim Jong Il, segundo na escala sucessória do reino mágico de Kim Il Sung, também é venerado hoje, porém em menor escala.
FILOSOFIA JUCHE – A IDEOLOGIA COMUNISTA DOS KIM
Como grande líder e venerado por todos, é lógico que Kim Il Sung teria que criar uma teoria própria. Marx não é nada comparado com ele. Ele chamou a sua nova filosofia de Juche, hoje a base de todo ensinamento da Coréia. Segundo a Wikipédia:
Mural com placas de diversos lugares do mundo onde existem grupos de estudo da ideia Juche. Sim, temos apoiadores estrangeiros da Coréia do Norte. Claro que eles não moram lá.Sim, havia grupos de lusófonos.Só que ao que me parece é em Portugal
“A ideia Juche defende que o objetivo da revolução deve ser as massas e não qualquer poder externo, o que implica que a nação tenha confiança em si mesma como autarquia, num sentido lato. O ideólogo do Juche foi, essencialmente, Kim Il-Sung. Segundo os dirigentes norte-coreanos, a Ideia Juche não é apenas o marxismo-leninismo adaptado à realidade coreana, mas sim uma nova ideologia, superior ao próprio marxismo. Em suas memórias Kim II-Sung diz que durante a luta revolucionária “sua doutrina”, “seu credo” foi o chamado “iminwichon”, que significa considerar o povo como o centro de tudo.”
Um dos monumentos mais famosos de Pyongyang. A tocha, representando a ideia Juche “iluminando” a humanidade. Foi de cima dessa torre que tirei as fotos aéreas de Pyongyang do post passadoRemodelação do símbolo clássico do comunismo. Foice, Martelo e no meio a Tocha, representando os intelectuais. Vamos lá. Todo mundo tira foto imitando monumentos, não sou só eu.
Como o próprio texto acima explica, o ego de Kim Il Sung era tão elevado que ele adaptou o símbolo do comunismo e adicionou um novo componente no já martelo (representando os operários) e foice (agricultores). Adicionou uma pequena tocha para representar os intelectuais que também contribuem para a construção de uma nova sociedade. E sim, essa tocha brilha tanto que até existe um “Partido Juche” na França, quem quiser se filiar, é só visitar o site http://www.parti-juche.org/.
Eu não disse que tinha mais gente imitando?
Esse lugar é chamado de algo como a Escola do Povo. Repare que ele é meio curvado para dentro, como se estivesse abraçando as pessoas, no caso as crianças.
Outro ponto a ser destacado é que a ideia Juche propõe a autossuficiência e a colocar o povo como o objetivo em si. As palavras que Kim Il Sung mais gostava de falar eram “O povo é minha vida!”. Vários lugares em Pyongyang tem nome do povo no meio “Biblioteca do Povo” e coisas assim.
Por todo lado é possível ver o “povo” marchando aparentemente sem motivo algum. Quando estávamos por lá, milhares e milhares de crianças ensaiavam exaustivamente sob sol e chuva, literalmente, para mais uma demonstração de algo aleatório. Isso demonstra o quanto eles gostam do povo por lá.
Todos os dias em que passeamos por Pyongyang havia pessoas ensaiando alguma apresentação diferente
O guia me perguntou se eu havia lido algo sobre essa filosofia mequetrefe antes de ir para a Coréia. Como vi que ele realmente parecia feliz em me perguntar isso e ficaria bem feliz em saber que eu tivesse lido, eu disse que sim, havia lido, mas não lembrava muito bem. Ele só respondeu “É impressionante, né?”. Fiquei meio sem jeito e falei que sim.
Depois ele veio me explicar mais algum dos pilares da filosofia Juche que dizia que para mudar o país, você precisa mudar a si mesmo “você deve ser o mestre do seu destino”. Que com a filosofia revolucionária passada eles não iriam “libertar a Coréia” (jargão que eles repetem de dez em dez minutos), era necessária uma nova filosofia, sendo a Juche um dos principais motivos da vitória deles sobre o Japão (sim, eles realmente acreditam que venceram a guerra contra o Japão).
Na boa, na hora deu vontade de rir, mas como queria voltar para casa com meu pescoço no lugar me limitei a dizer “nossa, que impressionante!”. Era realmente impressionante ouvir isso de um cidadão de um país onde seus habitantes em média medem 10 cm a menos de altura do que seus vizinhos (Coréia do Sul) que dividem códigos genéticos semelhantes. Isso, lógico, devido a má-alimentação (quando há). Pelo menos na Coréia do Norte dificilmente alguém era mais alto que eu (Sweeettt…).
Diferença de tamanho entre o guia e nossos amigos europeus =)
Ele disse que aprendeu sobre a filosofia Juche na universidade, pois quando está na escola, aprende apenas superficialmente o que é essa filosofia.
“…detalhes tão pequenos em vocêêê…”
Retratos de Kim Jong Il e, lógico, de Kim Il Sung estão em todos, TODOS, os lugares da Coréia do Norte. Em todos os lugares que íamos havia estátuas e representações deles. Vamos numa fazenda? Tem uma estátua de bronze deles carregando foices ou arados e o povo ao redor.
Vamos em uma fábrica? Ele carregando um martelo e operários ao redor.
Vamos ao boliche? Fotos de quando ele visitou o boliche e por aí vai.
E dentro do boliche, claro, letreiro apoiando a Revolução Juche
E antes de entrar no lugar, lógico, todo mundo fica em linha e curva-se para poder reverencia-lo.
Inclusive a gente
Há também desde o clichê, como outdoors e fotos em prédios públicos, até o mais extremo, dentro de TODAS as casas da Coréia do Norte e no peito de quase todos coreanos.
Sim, pelo menos os lugares que podemos visitar e pelo que pudemos perguntar aos guias, todos os norte-coreanos possuem dentro dos seus apartamentos dois retratos, um de Kim Jong Il e outro de Kim Il Sung. E o retrato tem uma particularidade. A base da moldura é mais estreita que o topo, o que deixa o quadro levemente para baixo e dá a sensação que o quadro lhe olha de cima para baixo.
Faz tudo certinho que titio Kim tá te olhando
Sim, o bagulho é doido! Bem, nada mais justo, afinal, o apartamento que você mora (e parece que TODOS moram em apartamentos em Pyongyang, não vi casas na capital a não ser embaixadas) é “doado” para você pelo Estado (leia Kim Il Sung). Doado é forma de falar, já que você não pode vende-lo ou aluga-lo. Você também não pode simplesmente mudar de apartamento. Você mora com seus pais e teoricamente quanto maior a sua família, maior o apartamento que você recebe. Se você mora com os pais, não pode simplesmente se mudar para morar sozinho, tem que aplicar para um apartamento do governo. Caso não haja disponíveis, continua morando no mesmo apartamento. E se você se casar? Bem, se tiver disponível, você muda para o novo, senão ou muda-se para a casa dos pais do noivo ou dos pais da noiva. Lógico, com os dois retratos na parede lhe observando. E se eu quiser mudar de cidade? É impossível quem é de fora vir para cá, a não ser que seja convidado pelo governo e ganhe um apartamento novo, pois ninguém vive nas ruas. Cidadãos de Pyongyang inclusive tem carteiras de identidade próprios, mostrando que são residentes de lá.
Vai uma placenta de ovelha aí? Pra que serve? Brother, não tenho a mínima ideia, mas se vendia em farmácias! E você reclamando do chá de boldo que sua mãe lhe preparava
Outro fator é que quase todos os coreanos carregam no peito um broche com a bandeira vermelha e as fotos de Kim Il Sung ou Kim Jong Il juntos ou separados. Perguntei ao guia e ele me falou que eles ganham esses broches aos 14 anos, quando iniciam algo como a quinta série, como prova de que são cidadãos conscientes e por isso podem caminhar com o retrato dos grandes líderes. Perguntei onde eu poderia comprar um igual para mim e ele falou que você não pode compra-lo e, como você deve merecê-lo, pouquíssimos estrangeiros tem essa “honra” de obter um para si. Por coincidência quando estávamos lá, pude ver um europeu com um no peito e o guia me explicou que ele era algo como presidente do centro de estudos europeus da Ideia Juche.
Todo mundo de broche
Só achei interessante essa marca de chapéu. “Ronaldinho”Eu não sabia que Ronaldinho Gaúcho tinha fábrica de chapéu na Coréia do NorteReparem no broche
É lógico que não viajamos a Coréia do Norte apenas para visitar inúmeros museus e memoriais em honra aos grandes heróis. Queríamos nos misturar ao povo, ter uma experiência mais real de como seria a vida por lá. Depois de tanto pertubarmos os nossos guias eles aceitaram nos levar para um breve passeio pelas ruas de Pyongyang. Essa foi uma das únicas experiências que tivemos de nos misturar com os coreanos normais…
Foi bem legal poder caminhar um pouco por lá e por um instante não estar seguindo alguém, ainda que estivéssemos sendo escoltados pelos guias que não nos deixava dar um passo fora da praça ou do caminho ao ônibus…
Antes de começar a contar os causos que ocorreram pela Coréia do Norte, acho que seria interessante explanar sobre alguns assuntos que eu tenho certeza que despertam a curiosidade das pessoas. Nos próximos posts tratarei sobre diversos temas que eu acho interessante citar antes de começar a narrar a história em si. Um deles é de como parece ser a vida cotidiana, pelo menos em Pyongyang.
PYONGYANG
Como sempre. a galera do nosso grupo pirando para bater fotos
Como todas as residências são disponibilizadas pelo Estado, eles saem construindo edifícios porque é mais barato e cabe mais gente, logo a cidade em si é bem compacta. Não ha casas e todo mundo vive em apartamentos. A cidade acaba sendo toda parecida. É bem aquela parada stalinista de todos os prédios sendo iguais e do mesmo estilo arquitetônico. Isso economiza mais, faz as construções serem mais baratas, mas a cidade em si fica muito sem graça. Eu facilmente me perderia pelas ruas de Pyongyang se tivesse viajando sozinho porque, como falei, todas as ruas são MUITO parecidas. Bom lembrar que Pyongyang foi totalmente destruída durante a guerra, por isso deve ter sido mais fácil reconstruir logo tudo igual.Bem, Pyongyang, a capital, como já falei, é um reino da fantasia. Uma cidade construída apenas para a elite coreana. Nem todos os coreanos podem viver lá, inclusive os residentes de Pyongyang possuem uma carteira de identidade própria escrita “residente de Pyongyang”.
A vida de quem vive em Pyongyang parece bem normal. Eles tem bares, vida noturna, saem a noite e coisas assim. Mas é só sairmos um pouco de lá (como quando fomos a Zona Desmilitarizada na Fronteira) que podemos ver como o padrão de vida cai absurdamente.
Algumas fotos panoramas que fiz de diferentes pontos em Pyongyang. É possível ter uma noção do estilo arquitetônico monótono típico de cidades com arquitetura soviética e edifícios que mais parecem caixas de fósforos.
A NORMALIDADE FORÇADA
Uma coisa que me deixou impressionado enquanto estive lá é que eles fazem um trabalho muito, mas MUITO, bem feito para tentar demonstrar alguma normalidade na vida cotidiana. Cara, se você não já chega lá sabendo que a Coréia do Norte é o país que mais recebe ajuda internacional no planeta, assolado por contínuas crises de fome, realmente jura que ali parece haver uma vida normal. Para vocês entenderem melhor, em um dos dias que estivemos caminhando e batendo fotos, caiu um toró, mas um TORÓ! Era chuva como nunca se vê em Brasília. Apesar de toda aquela água, a cidade seguia sua normalidade e não vimos uma inundaçãozinha sequer apesar de termos ficado o dia inteiro em Pyongyang. Isso era estranho, pois algumas semanas antes uma inundação havia destruído parcialmente Pyongyang e aquela chuva realmente parecia forte.
A vida dentro do hotel era bem normal, agitada até…
Só quando cheguei ao hotel e pude ver notícias (tínhamos acesso a Al Jaazera, um dos melhores canais de notícias do mundo, sediado no Catar), que soube da destruição na cidade e pude ter conhecimento que 250 pessoas haviam morrido naquele dia devido a inundações e enxurradas. Se eu não tivesse visto isso na TV, eu NUNCA acreditaria que havia ocorrido uma inundação, afinal, como disse, não vi uma lâmina sequer de água na cidade. Lógico, eles só andaram com a gente em uma parte minúscula da cidade, não onde o bicho pega, que foi onde inundou.
Um dia depois daquele temporal que enfrentamos em Pyongyang, fomos visitar uma cidade do interior da Coréia do Norte para podermos assistir a uma apresentação. Lógico que a cidade era bem menos equipada e com menos infra-estrutura que Pyongyang. Quando chegamos, pudemos ver pela janela do ônibus que a população inteira tentava de qualquer forma evitar que a próxima cheia do rio inundasse de vez a cidade. Não havia máquinas, ferramentas, equipamentos, nada. Era todo mundo dando o seu jeito, carregando pedras no braço e nos ombros, desesperados para conter a próxima cheia. Mulheres, crianças, velhos, o que for. Um retrato do desespero que deve ser MUITO maior em outras cidades que nem é permitido que visitemos.
O trabalho de transmitir normalidade para a gente era muito bem feito. Só depois desse dia que comecei a perceber que, danadinhos, apesar de viajarmos para vários lugares da cidade, óperas, balés, monumentos, restaurantes, sempre passávamos pelas mesmas ruas, lógico, bem asfaltadas e pavimentadas.Falando em monumentos, pra onde você vai na cidade há monumentos louvando alguma feito heroico ocorrido na guerra e a sua “vitória” sobre o Japão. Sim, na cabeça dos coreanos eles ganharam a guerra. Nunca ouviram falar de Hiroshima e Nagasaki e é realmente bem irônico que os Estados Unidos, o grande Satã, foi o responsável pelo Japão ter se retirado da Península Coreana e “libertado” a Coréia e não o fanfarrão do Kim Il Sung que só surfou na onda e aproveitou para montar o seu mundo mágico.
Esse monumento em especial me chamou a atenção devido a riqueza de detalhes. Ficou bom, não?Arco do Triunfo em Pyongyang “comemorando” a vitória da Coréia do Norte sobre o Japão. Três metros maior que o da França, como o guia gostava de citar…
Mas a maior bronca deles parece ser mesmo, ao contrário do que possamos imaginar, com os japoneses. Nessa, eles tem um pouco de razão, pois eles comeram o pão que o diabo amassou com o Japão. Os japoneses seguiram o mesmo “script” na Coréia do que seguiram na China. Levaram a cabo um programa de “japonização” da Coréia, proibindo a língua coreana, forçando os coreanos a aprender japonês, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas. Só não foram como os nazistas porque não jogavam corpos em fornos crematórios. Por isso a bronca deles ser bem maior com os japoneses. Os americanos eles até citam uma hora ou outra como imperialistas, mas nada que se compara com os japoneses.
Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel (essa foto não é minha =P)
Teve até um poema que vimos em um museu, que eu achei bem interessante e importante citar. Ele conta como os coreanos devem ser: Ate as formigas podem derrubar um castelo quando se juntam e vão retirando pedaços da muralha devagarzinho. Uma formiga, sozinha, não é nada, mas quando todas trabalham em conjunto e começam de forma alguma elas podem ser vencidas. Exatamente como a Coréia deve ser em relação ao Japão Imperialista.
FESTAS E VIAGENS
Para viajar para fora do país, você precisa pedir permissão pra sua empresa, que pede permissão ao seu governo. Uma das nossas guias já havia ido para a china, mas só em uma cidade de fronteira e porque o seu pai é um homem de negócios. Diz ela que ficou extremamente impressionada com as luzes e o tanto de shoppings que havia por lá. Disse que nunca viu tanta fartura na vida dela. Lembrar que se a China já é um país pobre, imagina uma cidade de fronteira o quanto não deve ser.
Em um país onde racionamentos de comidas são comuns, perguntei para um dos guias como eles faziam quando queriam fazer uma festa. Ele me disse que cada um levava um pouco de comida e com isso eles celebravam e faziam a festa deles. Mais ou menos como eu já ouvi falar que pessoas de outros países comunistas, como Cuba, também fazem quando querem festejar algo, afinal, não podem esbanjar muita comida.
DAVID
Como já citei, o dono da empresa estava com a gente. Na verdade, na verdade, no melhor estilo Luís XIV, o David poderia dizer “A empresa sou eu”, já que a sua empresa era na sua casa e ele não tinha nenhum funcionário. Como eu disse, ele era bem engraçado e vez ou outra quando eu reclamava que o cronograma estava muito puxado e não sobrava tempo para dormimos, ele respondia:
– Tá reclamando que está dormindo pouco? Você não veio para Coréia do Norte para dormir, cara! Se vocês quisesse gastar 1000 euros pra poder dormir, era só ter me falado que eu te levava pra dormir na minha casa lá em Londres! Servia café e ainda botava minha mãe para tomar conta de você…
Monumento à unificação das Coreias. Sim, os norte coreanos querem isso
Ele contava para gente sobre as reuniões de negócios que fazia enquanto estávamos visitando os pontos turísticos. Diz que as reuniões na Coréia do Norte são bem engraçadas. Eles começam a reunião tomando um shot da cachaça coreana e depois continuam bebendo durante a reunião. Depois de umas duas horas ninguém ta mais falando nada com nada e ta todo mundo bêbado. Por isso, dizia ele, ele tinha que tentar ser rápido, afinal, o tempo em que todo mundo estava consciente para poder negociar algo era bem exíguo. Alguém consegue imaginar de que país eles receberam influência? É, a Rússia não deixou só gasolina subsidiada por lá.
Além do tour que estávamos realizando, o David organiza também um tipo de turismo muito bizarro. Chama-se Aviation Tour e consiste em basicamente levar turistas para Coréia do Norte para poder voar em aviões da época da União Soviética que hoje só voam por lá. Não estamos falando de caças ou aviões supersônicos, estamos falando de aviões de passageiros mesmo, algo como alguém viajar para o Brasil só pra poder viajar naqueles Fokker 100 da TAM (que devem ser mais velhos que os aviões soviéticos que existem na Coréia). Acha que isso é bizarro e que pouquíssimas pessoas se dispõe a fazer isso? Pois só esse ano o David organizou quatro tours que foram rapidamente preenchidos. Ele falou que gosta desse tipo de tour porque as pessoas meio que já se conhecem (pô, não é todo mundo que tem um hobby bizarro desses, logo os caras meio que se conhecem pela internet) e fica um ambiente meio festivo no avião. Ele falou de um cara que gosta tanto desse passeio que veio nos quatro tours que ele organizou esse ano. Ele voou de Londres para cá especialmente para isso e depois voltou. Outro bem engraçado foi sobre um cara que estava no avião todo serelepe quando ele notou um pequeno detalhe em uma das asas do avião. Ele perguntou pro David qual era o avião e ele falou que era um BS-321-A, o cara diz que só faltou chorar “Ah! Eu achei que era uma BS-312-B. Eu voei num avião igual a esse aqui na década de 70” e ficou a viagem inteira olhando para o infinito e sem falar com mais ninguém, depressivo. Sim, pode ser bizarro como parece. Outra coisa que ele faz é deixar os passageiros visitarem o bagageiro do avião e o abre no meio do ar para que eles possam ficar batendo fotos. Diz que eles só faltam ter um orgasmo quando fazem isso. Pode parecer que é uma parada simples, mas diz que esse é um dos passeios mais complexos de se fazer, que tudo é tal cheio de detalhe que ate a forma que o avião pousa tem que ser especifica (virado para o pôr-do-sol para poder ficar melhor nas fotos).
Como sei que o hotel desperta bastante curiosidade nas pessoas, resolvi fazer alguns vídeos para que fosse possível conhecê-lo um pouquinho mais por dentro e ficar claro que, apesar do que pensamos, ele é um hotel bem normal. Só achei estranho não ter nenhuma foto gigantesca dos Kims, deve ser porque não merecemos tamanha honra =)
Como éramos “prisioneiros” e não era permitido que saíssemos de dentro do hotel sem estarmos acompanhados dos guias, o hotel em si tinha que ser “auto-sustentável”. Tínhamos tudo dentro dele, bar, karaokê e até um supermercado onde se vendia desde comida congelada e água até placenta de ovelha (sabe-se lá para que). Reparem que no final eu tenho que desligar abruptamente, pois não era permitido filmar lá dentro.
Apesar do grau de pobreza do país, os nossos quartos eram bem confortáveis. Inicialmente paguei para ficar em um quarto com outra pessoa, porém o cara perdeu o voo e acabou que eu fiquei sozinho no quarto =)
Na saída do aeroporto, pessoas cavando de uma forma bem primitiva, com poucas máquinas ou equipamentos, realizando uma obra no aeroporto de Pyongyang
No outro dia pela manhã, segui para o aeroporto e fui direto para o guichê do meu voo para Coréia. La encontrei o dono da empresa, David, que me passou algumas orientações e segui para a sala de espera. Na sala de espera para o voo da Coréia do Norte dava para perceber a ansiedade de todos os presentes. Entramos no avião e, cara, o primeiro susto! Bicho, mas sabe aqueles aviões russos, da década de 60, que você vê em filme de comedia americana zuando a União Soviética?
Olha o bichão aí! Do lado de fora e do lado de dentro! Vê que ele parece um busão pelo lado de dentro!
Sim, exatamente daqueles, só que, com você dentro é bem menos engraçado! Cara, juro que fiquei com medo do bicho não subir, digo, do avião não subir (mente poluídas…). Como não havia muito que fazer, pensei, se for para ter problema, que pelo menos seja dormindo, será indolor! Baixei o meu banco e comecei a dormir. Bem, na verdade, tentei abaixar, pois atrás tinha uma gorda e ela se achava no direito de empurrar o meu banco de volta quando eu o abaixava. Ah, mas eu ficava moído! Pegava e abaixava de volta ate que ele desistiu e foi a viagem inteira comigo apertando as pernas dela (uuhhhhh!!).
Apenas um dia normal em Pyongyang visto pela janela do ônibus
Outro dia a gente tava saindo de uma biblioteca e olha quem eu acho toda serelepe passeando por Pyongyang? A gorda que não deixou eu dormir. Também, gorda desse tamanho a gente até entende o desespero dela. Ela é tão gorda que é mais fácil pular por cima dela do que dar a volta.
Descemos e desde o primeiro formulário de imigração já era possível ver claramente a tensão nos olhos das pessoas. Tá, tudo bem, estávamos todos com uma empresa de turismo, mas, mais uma vez, cara, estávamos na Coréia do Norte!! Vai que um cara encana com você! Vai que eles acham alguma coisa em sua mochila que não seja permitido e resolvam te mandar de volta! Sei lá!! Num pais maluco como esses, você pode esperar tudo. Logo no guichê de imigração já éramos saudados pelos quadros dos dois grandes lideres, Kim Jong Il e Kim Il Sung como se nos vigiassem!
Em todos os cantos que íamos na Coréia do Norte, todos as salas, haviam esses dois quadros dos últimos dois ditadores. Reparem que a base do quadro é mais estreita que o topo, o que deixa o quadro levemente inclinado para baixo. Isso acaba dando a impressão que os dois ditadores estão lhe observando e vigiando atentamente tudo o que você faz, no melhor estilo 1984 do George Orwell
Peguei a fila com todo mundo e foi passando um por um. Passou um, passou outro, e outro, e outro. Bem, você já deve ter deduzido o ocorrido. Sim, o oficial coreano resolve invocar comigo! Eu disse “agora pronto!”. E eu não entendia o que ele falava e eu tremia mais que vara de bambu verde e eu não conseguia falar inglês e quanto menos eu falava inglês menos ele me entendia (você tá rindo, mas queria ver você, tigrão, no meu lugar!) ate que o David interviu e me disse que eu deveria pegar a outra fila porque, veja você!, eu era o UNICO de todo o nosso grupo que tinha visto no passaporte, pois havia tirado o visto no Brasil. Todos os outros não haviam tirado visto, tinham apenas um “visto grupal” que o David entregou antes de passarmos a imigração. E dai? Bem, e dai que eu fui o UNICO que ficou com o carimbo da Coréia do Norte no passaporte. Oh yeah! Highway to Hell! Sabe o que isso significa? Todos os outros só dirão que viajaram pela Coréia do Norte, mas o passaporte deles continuar em branco! Foi engraçado ver a galera passando e IMPLORANDO, quase ajoelhando, literalmente, para que o oficial da imigração carimbasse o passaporte deles!!
Todos morriam de inveja!! Eu era o único que tinha visto no passaporte!!Ainda que ele tenha me custado 1100 reais!! Confira a história aqui
Depois da imigração, foi a vez de termos as mochilas minimamente vasculhadas, os celulares e passaportes confiscados e seguirmos para o ônibus. Sim, eles ficam com os nossos celulares guardados numa caixa do aeroporto (os passaportes ficam com os guias) e só nos devolvem na saída. E, cara, depois que você compra um smartphone (ou espertophone), você meio que se vicia nele. Foi bem difícil para mim ficar uma semana longe do meu celular. Como você faz para poder colocar o alarme para despertar? E se você quiser ouvir música? E se quiser uma lanterna? Cara, como fiquei feliz quando consegui o meu de volta.
Pior que na hora de eles começarem a vasculhar a minha mochila eu passei um gelo danado. Eu tinha duas revistas Piauí na minha mochila e uma delas tinha uma charge de um cara vasculhando uma cabeça oca (meio que questionando uma sociedade sem liberdade de expressão como a da Coréia do Norte o que poderia me fazer ser confundido com um ativista ou jornalista), parecida com a acima e outra como a abaixo sobre a recessão espanhola, fazendo referência ao culto ao consumo, mas trajando as pessoas como na Coréia do Norte. O cara folheou, folheou, viu as charges, mas graças a Deus não me perguntou nada. Caraca, que gelo na espinha…
Meu quarto de hotel e, abaixo, a vista da minha janela
Engraçado que não pode celular e câmera com GPS, mas Ipad eles não encanam. Tudo bem que o Ipad tem 3g, GPS e o que for… Porque eles não retém o Ipad? Vai saber… Só para vocês terem uma ideia de como é a neura deles com celular, outro dia estávamos conversando sobre a falta que o celular estava fazendo para gente. Rapaz, um dos guias tava no ônibus, envolto em seus pensamentos, viajando, olhando pro lado, mas foi só ele escutar a palavra “celular” que o bicho deu uma popa, olhou pra trás e começou a prestar atenção no que conversávamos. Outra coisa que ocorreu foi com um amigo nosso. Ele tinha um daqueles celulares furrecas, chulé, saca? Sabe aquele que você compra pra ir pra show pra se perder não ter problema? Pois é, ele tinha um desses e esqueceu na mochila. Na ida, passou na máquina de raio-x, ele não lembrava que estava lá e o cara da máquina não viu. Trocando em miúdos? Ele ficou uma semana com um celular na mochila na Coréia do Norte. Rapaz, na volta isso deu um moído grande… Quando ele estava passando a máquina de raio-x deu um barulhinho. Aí foi oficial daqui, oficial dali, e cada hora aparecia um oficial com um chapéu maior e mais broche pendurado na roupa, ou seja, mais graduado. A gente já estava imaginando que ele ia era ser fuzilado. Depois de um tempo que ele foi entender que aquela confusão toda era para saber como ele havia conseguido passar com o celular e ficado essa semana com o celular na mochila. Ele explicou que havia esquecido. Os caras perguntaram que horas ele havia entrado, que dia e se a máquina era a 1, a 2, a 3 o a 4. Ele falou qual era e os caras foram lá na planilha de operadores de raio-x para saber QUEM HAVIA DEIXADO ELE ENTRAR com o celular. Eita porra, eu não queria ser esse pobre coitado operador de raio-x. Nessa exata hora deve estar em uma prisão de trabalhos forçados levantando pedras…
Tinha voo direto pro Kuwait!!!
Nossos passaportes ficam com os guias e só nos são devolvidos no ultimo dia! O meu, inclusive, veio com dois carimbos a mais depois do dia que passei pela imigração. O primeiro com a data que eu havia chegado, normal em todos os países, e mais duas datas diferentes. As datas a mais foram de visitas de oficiais coreanos que foram no hotel apenas para conferir se estava “tudo certo!”.
Pior que depois que passamos a fronteira e entramos no país, há um pouco de perda da magia. Você só olha e pensa “mas foi tão fácil assim?” e tudo entra numa estranha normalidade.
Existe sempre aquelas coisas que você nunca imagina que vão acontecer com você: pegar uma doença muito ruim, ficar pobre, torcer pro Botafogo… Umas das que estavam no meu rol de “isso nunca vai acontecer comigo” era ter uma mochila extraviada. Pô, viajo MUITO no Brasil, seja a trabalho, seja a turismo e nunca, eu disse NUNCA, tive uma mochila extraviada. Por isso, nunca fiz o que varias pessoas recomendam que é deixar artigos de higiene básica e uma muda de roupa dentro da mochila de mão para o caso de você ter uma bagagem extraviada. Por isso o moído foi grande quando eu descobri que a minha mochila não iria mesmo aparecer naquela esteira de bagagem. Falem o que quiser do Brasil, mas comigo isso nunca havia acontecido em terras brasileiras. Se tivesse acontecido isso com qualquer um no Brasil já iam começar o velho clichê: “Se aconteceu isso agora, imagina como não vai ser na Copa…”.
Centro de Pequim
Como não havia o que fazer, fui reclamar no guichê da empresa no aeroporto da China e, lógico, não havia ninguém que falasse um inglês decente para poder me explicar o que estava acontecendo. Papo de cá, mimica de lá, acabamos que nos entendemos e eles ficaram de me entregar a minha mochila no próximo dia pela manhã. Como eu havia mudado minha rota (saí direto de Washington), minha mochila tinha sido extraviada. Saí do guichê com aquela cara de “tá, eu tenho certeza que tudo vai dar certo, United Airlines! Você nunca me aprontou uma!” (NOT!!!!!) e fui para o centro de Pequim procurar o meu couch.
COUCH (HOSPEDAGEM) EM PEQUIM
Até que não foi muito difícil encontrar o lugar que eu iria ficar. Me enrolei um pouco com todas aquelas letras chinesas, mas depois de um tempo zanzando que nem uma barata tonta, me passa um gringo do meu lado (uma coisa que vocês tem que aprender quando viajam na Ásia. Deu algum tipo de problema, pede ajuda pro primeiro gringo que vir!). Pedi o celular dele emprestado, o bicho foi de boa, liguei pra minha host e marquei de me encontrar em frente a uma lojinha lá. Ela foi me buscar e tudo de boa.
Eu iria ficar num couch super irado. No lugar moravam um francês, um inglês, uma russa, uma estoniana e uma chinesa, fora os agregados que iam se jogando lá pelos sofás (quando eu cheguei, além de mim, havia um esloveno babaca). E sim, o lugar era mais bagunçado que o Campeonato Maranhense de Futebol. Assim que cheguei, Sacha, a russa, me perguntou se eu queria dormir um pouco e eu, lógico, disse que não, que era melhor ficar acordado.
Tecla PAUSE
Aqui já vai a primeira dica pra quem estiver pensando em fazer viagens pela Ásia. Se você vem direto do Brasil, NÃO DURMA assim que chegar. Se quiser se acostumar com o fuso horário, controle o seu cansaço e só durma meia noite, uma hora da manhã. Você não vai conseguir dar uma dormidinha de uma hora só para relaxar, você vai capotar, acordar três da manhã e ficar zanzando esperando o dia amanhecer. Portanto, quer vencer o Jet Lag? Durma apenas no horário que você normalmente dormiria no Brasil. Eu dormi meia noite, por exemplo, apesar de esse horário no Brasil ser onze da manhã. Não tem vezes que você volta da balada e vai dormir sete da manhã? Pois é, fique com isso na cabeça e você não vai ficar com sono. Se não for assim, é prego de caixão, vai estar um solzão no lugar, você vai estar na cabeça que no Brasil é de madrugada e lá vai uma semana perdida tentando se adaptar com Jet Lag.
Tecla PLAY
Centro de Pequim
PRECISO DE ROUPAS!!!
Na verdade, na verdade, eu precisava mesmo era ir em um mercado, pois todos meus materiais de higiene pessoal (tirando escova de dente e desodorante) estavam na minha mochilona que só Deus sabia onde estava viajando nesse momento. Não tinha nenhuma roupa tirando a do corpo (que já estava com ela por pelo menos umas quarenta horas) e, o pior, não tinha cuecas.
Descemos para uma feira em um shopping que de cara dava para ver que era bem turístico. Por quê? Nada, só porque a atendente já começou me atendendo em espanhol (não era que lá eles falavam inglês! Ela fala espanhol!). Comprei algumas camisas no melhor estilo “fui em Beijing e lembrei de você”, uma bermuda e depois seguimos para o mais complicado: “comprar cuecas”. Porque? Ah, parceiro, se já é constrangedor você chegar em um camelô e falar “desce um par de cuecas ai”, imagina ter que chegar em um camelô e, por mímicas, querer dizer “estou procurando cuecas”. Parceiro, não teve outro jeito, tirei o cinto da calça, virei de lado, puxei de dentro da calça o “lado” da cueca que eu tava usando (tentando não deixar escapar as teias de aranha e morcegos porque já eram rodados quase 47 horas de uso da mesma cueca) e o cidadão entendeu. Mas, veja bem, eu tava fazendo isso de maneira discreta. A Sacha, amigo, não queria nem saber, já chegava botando o bicho na galera e alardeando para quem quisesse ouvir na feira “estou procurando cuecas para o maranhense ao lado aqui!!!”. E tome constrangimento!
Existem diversas formas de se ganhar a vida na China. Acredite, seu trabalho não é tão ruim quanto você pensa.
Tentei dizer para ela que aquela cena toda era meio constrangedora, uma menina intermediando com seu parco chinês uma compra de cuecas pra mim, mas ela só ficou mais discreta mesmo quando uma vendedora disse que tinha cuecas bem baratas para o seu marido!! Sim, porque se você vê dois gringos de idade semelhante caminhando numa feira e a mulher pedindo cuecas para o homem, você na hora vai deduzir o que? Se bem que, ela devia era ter achado o máximo! Não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ser casada com um maranhense com 1,60m de pura emoção. Compramos alguns poucos pares, pois, me havia sido prometido que no outro dia pela manhã, eu receberia minha mochila de volta. Comprei mais cuecas mesmo pq o preço tava barato e eu tava precisando de cuecas de qualquer forma. Outra parada bem engraçada é que, muita gente diz que é lenda, mas cara, aquilo sobre os asiáticos é verdade, viu? Não, eu não fui trocar de cueca com o vendedor no banheiro, mas acontece que eu tive que pegar a cueca XXXXXL para ficar um pouco apertada, mas confortável.
Jantar oferecido em um restaurante norte-coreano em Pequim. Como tudo dos norte-coreanos, o restaurante era bem luxuoso
PORQUE TODO MUNDO TEM O SEU DIA DE GRINGO SOLTA FRANGA
No outro dia, como era de se esperar, minha mochila não chegou. Lá fui eu ter que ir comprar mais roupas (principalmente cuecas) só que dessa vez sozinho, pois a Sacha tinha que trabalhar. Após me encontrar com o pessoal da agência de turismo da Coréia do Norte em um restaurante de Pequim e pagar o meu pacote, segui para o mesmo shopping que havia ido com Sacha no dia anterior para comprar as cuecas. Só que, ferrou, tava fechado! O lugar fechava as sete. E aí, parceiro? Se lá que a galera falava pouco inglês já era difícil, imagina como seria nos outros lugares que NINGUÉM fala inglês. Vamos dar um jeito. Camisas eu ate podia pedir emprestadas para a galera do meu couch, mas cueca já é um pouco demais. Fui andando pela rua a procura de algo ou algum lugar que pudesse parecer vender cuecas e nada. Parei em frente a um sex shop e pensei “será se sex shop vende cueca?”, mas depois desisti da ideia de chegar na Coréia do Norte (cujo voo era no outro dia pela manhã) com cuecão de couro (uuhuuuooo!!) ou cuecas de super-homem, águias, elefantes (imagine como seria a tromba), Homem-Aranha, angry birds ou coisas assim. Depois de um tempo, entrei em um supermercado e qual não é a minha surpresa ao descobrir que nos fundos havia uma lojinha de roupas.
Cheguei lá e só vi calcinha para vender (não, amigão, eu não comprei calcinha. Se eu cogitei comprar? Se eu tivesse, cê acha que eu falaria?). Fiquei procurando cueca e nada de achar. Quando fui procurar um vendedor, problema! Só tinha vendedora mulher! Qual problema? Pombas, eu não poderia usar minha estratégia de virar de lado e puxar minha cueca dizendo que eu precisava de aquilo porque, bem, porque ela era mulher, cara! Vai que ela entende que eu tou assediando ela sexualmente (E ai, gatinha? Quer terminar de tirar isso aqui lá em casa?). Sei lá, ninguém falava inglês. Dai, no desespero, não deu outra, apela pra mimica. Nada dela entender. Mais desespero. Tento desenhar uma cueca no papel, nada dela entender. Mais desespero. Resolvi apelar. Comecei a apontar para a calcinha e depois para mim, batendo no peito tentando explicar “quero um desses, só que para homem!”. Na hora eu vi que a cara que ela fez foi “pronto, mais um gringo querendo comprar calcinha! Mais um que vem para Ásia para soltar a franga!” e me entregou uma calcinha!!!! Falei que não era aquilo!! Ela ficou me olhando com uma cara meio estranha e depois fez que entendeu. “Ufa”, pensei. Parceiro, a mulher não me vem lá de dentro e me traz um sutiã? Aí eu realmente tive certeza que ela achava que eu torcia pro São Paulo. Na hora eu fiquei meio sem saber o que falar (pô cara, a mulher achou que eu fui lá para comprar sutiã!!!), mas depois comecei a apontar para a minha bacia!! Ate que, enfim, uma velha que tava lá atrás do balcão entendeu e me trouxe umas cuecas XXXXXL acabando por vez com minha agonia.
United, você me apronta cada uma.
Pior que no final não adiantou de nada. Assim que eu cheguei em casa, Sacha recebe uma ligação. Pela reação dela parecia ser algo bom. Descemos e NA MINHA ULTIMA NOITE EM PEQUIM ANTES DA CORÉIA, me para uma Kombi e me desce um GORDO suado com a minha mochilinha, inteirinha, viva, sã e salva e, o melhor, com todas as minhas cuecas dentro!
Isso, vai lá, mostra pro tio como é que se faz uma pose para foto.
Olha como era simples achar o restaurante que eles haviam indicado, havia só CAMINHÕES em frente da entrada
Centro de Pequim
Pragmatismo, é isso que eu admiro nos chineses. Para que comprar um carrinho de bebê se você já tem uma mala com rodinhas?
Vamos lá, todo mundo ensaiando direitinho para o titio Kim Jong-Un poder ficar orgulhoso.
Minha primeira passagem aérea fazia o singelo trecho Brasília – São Paulo- Washington – Nova York – Pequim. Tranquilinho, 35 horas entre conexões e horas de voo pela United Airlines. Trinta e cinco horas não dão nem para sentir a viagem, quanto mais ficar cansado. Vida loca!
Tudo o que você menos quer quando está em um verdadeiro périplo mundial como o meu, é dor-de-cabeça. É lógico que isso é pedir demais quando se viaja por United Airlines.
Eu já estava esperando dar algo errado no meu voo, afinal eu voava pela United Airlines. Não imaginava que seria logo na minha primeira parada: Estados Unidos. Assim que eu cheguei ao aeroporto de Washington já tenho a primeira surpresa. Meu voo de Washington para Nova York estava atrasado em mais de quatro horas e muito provavelmente eu não conseguiria chegar a tempo de pegar o voo Nova York – Pequim. Qual o problema disso tudo? Bem, deixa o tio te explicar.
Oktoberfest alemã acima e Oktoberfest coreana abaixo
Eu chegaria a Pequim num domingo, na segunda feira encontraria o pessoal da agência de viagem e pagaria o meu pacote da Coréia do Norte a vista (como sei que todo mundo é curioso com o preço, deixa eu dizer logo quanto foi. Pacote para Coréia do Norte me custou exatos 1050 euros. Tudo incluso: passagem China-Coréia-China, hotel que parecia cinco estrelas, três refeições diárias, guias, ônibus, entradas nas atrações… No final acho que não foi caro. Quanto da isso em reais? Ah, larga de ser preguiçoso e vê no Google). Captaram o tamanho do problema? Se eu perdesse um dia de viagem, minha viagem inteira para a Coréia poderia ir para o saco. United, United, you broke my guitar. Sempre me dando novas surpresas.
Para quem não está por dentro do meu histórico de amor e ódio com a United, o primeiro trecho da minha viagem de volta ao mundo em 2008 foi pela United e eles, além de cancelarem o meu voo e só me mandarem no outro dia, ainda me largaram tarde da noite em Los Angeles quando eu na verdade deveria chegar pela manhã. Mais detalhes nesse post aqui. Não satisfeitos, resolveram me presentar com mais essa.
Bem, não havia o que fazer. Sentar e chorar? Não, vamos tentar resolver! Fui desesperado falar com a mulher do balcão e já recebo a primeira resposta animadora.
– Senta ali e espera seu voo daqui a quatro horas
– Mas eu tenho uma passagem para China
– Senta ali e espera seu voo daqui a quatro horas
Isso a gente chama de boa vontade. Falem o que quiserem dos nossos aeroportos, mas no Brasil com quatro horas de atraso, pelo menos para um hotel eles teriam que me mandar! Famosa resolução 141 da ANAC.
É impressionante como as construções em Pyongyang arecem estar caindo aos pedaços depois de alguns dias de chuva.
Contrastando, lógico, com o hotel Ryugyong, que se destaca novo em folha, imponente, no meio da capital.
Para não arrancar a goela da atendente, resolvi me sentar em um dos bancos e pensar o que eu poderia fazer. De repente tive uma ideia: “E se ao invés de voar de Washington para Nova York e depois para Pequim, eles me mandassem pra Pequim direto de daqui de Washington?”. Sim, eles tinham voos direto. Procurei um atendente que parecia mais latino (por isso, esperava eu, mais amigável) e expliquei meu drama, a minha viagem para Coréia do Norte e coisas assim. O cara foi bem mais amigável (fica a dica, sempre procurem os latinos) e ficou de ver isso pra mim. No final falou que era possível e que provavelmente me colocaria na cabine executiva como um pedido de desculpas da United. Bem, não rolou a desculpa da United e nem a cabine executiva, mas pelo menos o voo para Pequim partiria em três horas. Iria chegar uma hora mais tarde, mas, enfim, vinte vezes melhor que chegar no outro dia. Viagem para China e Coréia resolvida, era chegada a hora de tratar de um problema BEM MAIS SÉRIO.
Novinho
País estranho com gente esquisita, eu não tou legal, não consigo achar uma TV
Estava para começar a final olímpica do futebol e eu só queria sentar e assistir a vitória fácil que o Brasil ia conseguir em cima do México. Três gols de Neymar, no mínimo. Agora era só achar um bar, dentro de um dos maiores aeroportos do mundo, que estivesse transmitindo a final DO ESPORTE MAIS POPULAR DO MUNDO! Lógico que não seria difícil, o aeroporto é CHEIO de bares. Cara, se eu estou contando a historia é porque, logicamente, não deu certo.
Dá para acreditar que havia varias TVs transmitindo golfe, eliminatórias do remo, DISPUTA DA MEDALHA DE BRONZE DE VOLEI FEMININO, mas não havia ninguém transmitindo A FINAL DO FUTEBOL OLIMPICO!?!?!?! Cara, serio, eu não acreditava que isso fosse possível de acontecer, aquilo era mundo real? O que será que esses americanos tem na cabeça? Bem, quem não tem cão, caça com gato, vaca, porco-espinho, o que for, resolvi apelar para a wireless do aeroporto.
Liguei a wireless do meu celular e fiquei uns vinte minutos caminhando pelo aeroporto para poder achar o melhor sinal, até que consegui. Mais problemas (cara, tem tanto drama aqui que esta parecendo novela mexicana…), a wireless não deixava assistir vídeos! Juro que nessa hora, parei, olhei para cima e perguntei “o que eu fiz para merecer isso?!?!?! Porque o senhor faz isso comigo? Já não basta eu ter nascido maranhense e ter que ficar a vida inteira ouvindo piada sobre ser filho do Sarney e além disso ser parecido com o Zacarias??”.
Rapaz, você sabe o que é você ter que acompanhar a final olímpica por narração escrita em tempo real? Globoesporte.com? Enfim, foi o melhor que eu consegui. Começa o jogo, um minuto do primeiro tempo, gol do México (bicho, aquele não era o meu dia mesmo!!!). E lá vou eu ficar lendo o jogo. Começa o segundo tempo, chamada do meu voo!! E agora? Vou ou não vou? Resolvi enrolar o máximo possível e ficar na fila acompanhando pela wireless do celular antes de entrar no avião. Vinte minutos do segundo tempo escuto um “ou você entra no avião agora, ou o avião vai te largar aqui!” e tive que embarcar. ONZE HORAS DE TENSAO no avião sem saber como terminou o jogo.
O final da historia vocês já sabem, chego na fila de bagagens e fiquei mendigando para as pessoas com smartphone, procurando um que tivesse 3G e tivesse a piedade de deixar eu ver o resultado. Um inglês que morava na China se predispôs a me ajudar. Pela risadinha na cara dele, eu deduzi a surpresa que o Mano Menezes havia me preparado. Fiquei tão baqueado que nem fiquei tão chateado quando descobri que minha mochila havia sido extraviada. É, Pequim realmente estava sendo emocionante!
Caraca, isso sim merece uma foto! Se liga no que achei na Coréia do Norte! QUILMES!! Para quem não sabe Quilmes é a cerveja mais popular da Argentina. Conta como sul-americano, vai…
Preso dentro do hotel, em uma noite entendiante, sem ter o que fazer… Um lero inicial explicando como estava ocorrendo a semana em Pyongyang. Um pouco longo, mas vale pela informações…
Primeira filmagem antes de chegar na Coréia do Norte. Dá para perceber a tensão nos olhos de um pobre maranhense não sabendo se o avião efetivamente vai chegar são e salvo em solo coreano. Tá rindo? É porque você não viu o estado do avião e como ele fazia barulho!!!
“Mas porque diabos você vai viajar para Coréia do Norte? O que diabos você vai fazer lá?” essa com certeza era a pergunta que eu mais escutava depois de “você não tem medo de morrer lá?” (como se o Brasil não fosse um dos países mais violentos do mundo). A resposta que eu sempre quis dar, e isso você poder ter certeza, era: – “Por que não? Porque diabos ir para os Estados Unidos então?”.
Arirang Mass Games. Maior apresentação coreografada do mundo que ocorre no maior estádio do mundo. Um dos principais motivos que me fizeram decidir viajar para a Coréia do Norte.
É cara, eu estava indo para a Coréia do Norte. Um país que sempre me intrigou e que eu sempre tive a vontade conhecer, de vencer a barreira da ditadura louca dos Kims e ver de perto, frente a frente, sem intermediários, aquela vida maluca que iria me esperar por lá. Vi uma passagem no filme Xingu que falava mais ou menos o que eu sentia e sinto quando viajo: “Ir para lugares que ninguém nunca visitou, ouvir histórias de um lugar que ninguém nunca falou, tentar chegar em lugares que ninguém nunca foi. De alguma forma isso parecia uma boa ideia.” (não lembro exatamente, mas era algo assim). Cada vez mais que alguém me perguntava “Coréia do Norte?!?!!?!?!?” eu tinha certeza que havia escolhido o destino certo pra poder passar ferias.
Outro motivo que também me faz viajar é visitar lugares que logo logo me darão grande saudade de voltar para casa, lugares que me demonstrem o quanto a minha vida medíocre é confortável no Brasil e fazer eu dar valor as poucas coisas que tenho. Sim, a China e a Coréia do Norte serviram perfeitamente para poder me fazer sentir isso. Se você perguntar para mim se a viagem para a China, em particular, foi legal, eu responderia que foi, digamos, neutra. Houve várias coisas que eu adorei, mas também houve MUITAS coisas que simplesmente detestei.
Na verdade, na verdade, eu não estava planejando viajar para a China. Meu plano sempre foi viajar para a Coréia do Norte. Posteriormente, quando vi que teria que parar na China de qualquer maneira, resolvi estender um pouco e aproveitar para viajar três semanas por lá.
Eu e meu amigo Kim Jong Il em uma fábrica de maçãs
Mas enfim, acho que as pessoas viajam por dois motivos: Para relaxar ou para conhecer uma realidade diferente da sua. Não sou um velho que viaja para relaxar, gosto de viajar para conhecer lugares diferentes, pessoas diferentes, enfrentar realidades diferentes da minha vida trabalho-casa-esportes-fim de semana com os amigos-trabalho. Quase um Indiana Jones maranhense. Born to be Wild… Gosto de viajar para lugares “mas o que diabos você vai fazer lá?” para aprender, ter experiências realmente malucas, enfrentar um choque de realidade ou, sei lá, ver uma porrada comer solta (quase um programa do Ratinho ao vivo) porque um cara achou que era uma boa ideia botar o filho dele pra cagar do lado da mesa que eu tava inocentemente tomando café da manhã (essa história vai ficar para depois). Estar sentado no avião e começar a questionar a mim mesmo “mas que diabos eu vou achar por lá?”. “Será se lá as pessoas conhecem o Brasil?” “Será se elas jogam futebol?” “Como são as pessoas no meio da rua?” “O que elas comem, como elas vivem?” “Será se elas também falam que Maradona foi melhor que Pele?”.
Europa e EUA são dois lugares bem manjados para se viajar, somos bombardeados desde a mais tenra infância com imagens de lá, logo, qual é a graça de viajar para um lugar se você já sabe o que vai encontrar? . Por isso a Coréia do Norte foi tão perfeita, pq, cara, quanta coisa bizarra foi possível conhecer por lá (isso vai ficar mais claro quando eu começar os posts… =P).
Deu até para esquecer as 35 horas de avião que tive que enfrentar, entre conexões e horas de voo, para poder chegar à China (bem, Cristóvão Colombo levou meses para chegar à América. De repente um dia e meio nem parece tanto tempo assim…).
Hotel Ryugyong. Arranha-céu que se destaca no meio de Pyongyang. Quando iniciaram as suas obras, era para ser a maior construção do mundo. Vinte anos depois, ele ainda não está construído. Estudiosos sugerem que ele chegou a sugar 3% do PIB coreano por ano para sua construção. Por isso suas obras encontram-se paralisadas.
Era o meu primeiro mochilão de um mês desde que eu havia voltado da minha viagem de volta ao mundo. Acho que é um tempo bem legal para se viajar, curtir e “sentir” o lugar.
É, foi legal, mas depois de viajar 3500 km na China e na Coréia do Norte, também foi legal porque eu já estava ficando doido pra voltar pra casa. Melhor que viajar é voltar para a vida medíocre de trabalho-casa-krav maga-fim de semana com os amigos-trabalho e, o melhor, sentir saudade e dar valor a sua vida de antes. Depois de duas semanas, Torre de TV já começa a virar Torre Eiffel…
Monumento em alusão a unificação das Coréias. Por incrível que pareça, a Coréia do Norte também defende a reunificação com a Coréia do Sul, mas isso é assunto para outro post.
QUANTO CUSTOU O VISTO?
As vezes as pessoas me perguntam quanto custou para eu tirar o meu visto para Coréia do Norte na embaixada aqui em Brasília. Sabe quanto foi? Por volta de uns 1050 reais. Porque isso tudo? Bem, deixa eu explicar.
Tudo começou quando eu resolvi deixar o meu passaporte na Embaixada da Coréia do Norte antes de ir para o trabalho. Fui lá as nove em ponto e fui chegar no trabalho só por volta das nove e meia da manhã. Como cheguei depois das nove, tive que estacionar meu carro em uns dos anexos atrás da Esplanada dos Ministérios. No fim da tarde, quando terminei o trabalho e fui pegar o carro para ir buscar meu passaporte de volta na embaixada, o que encontro? Meu carro arrombado, meu estepe roubado e, SABE DEUS PORQUE, o cara levou o cabo que eu conecto o meu celular no som. Não, ele não levou o som, levou SÓ O CABO! Além de não ter estepe, eu também teria que dirigir sem escutar musica, o que eu odeio! Resultado? 450 reais para poder arrumar a fechadura.
É meu!! É meu!!! Eu tenho um visto para Coréia do Norte!!!!
Você pode até argumentar que a probabilidade de ser roubado em cima ou embaixo da Esplanada é a mesma, mas se NAQUELE DIA eu tivesse estacionado o carro no mesmo lugar de sempre, NAQUELE DIA, ele não seria roubado. Logo, coloquei na conta do visto. Beleza, desencanei e segui o meu dia. Paguei os 100 reais do visto e bola para frente. No outro dia fui treinar meu Krav Maga na hora do almoço e depois do treino, um amigo me passou um bizú de onde eu poderia comprar um cabo igual ao que, SABE DEUS PORQUE, o ladrão tinha me roubado. Beleza, desci a quadra que ele havia me falado e fiquei olhando pros lados procurando a loja. Bem, olhar para os lados quando se dirige para frente não é muito esperto. Sim, enfiei o meu carro na traseira de outro! Para piorar me desce do carro batido um brutamontes com uma camisa escrita “Muai Tai (boxe tailandês), Professor!”. Porque tudo o que você mais quer depois que bate na traseira de um carro, que parece novinho, é que desça uma maquina de matar pronta para lhe encher de porrada porque você é um imbecil e, sim, ainda vai merecer levar uns tabefes na orelha.
Pronto, pensei, é agora que eu apanho mesmo. O cara, graças a Deus, SUPER calmo. Só trocou uma ideia, pegou meu telefone e no mesmo dia levou o carro dele para consertar. Prejú? 500 contos transferidos no mesmo dia. Ou seja, se NAQUELE DIA eu não tivesse ido tirar o visto, NAQUELE DIA, eu não teria tido o cabo roubado e, NO OUTRO DIA, não teria desviado o meu caminho do Krav Maga para o trabalho para procurar um cabo e batido meu carro. Consegue entender a cadeia causal, a lei de Murphy, de todo esse visto? Pois é. Mas se eu faria de novo? Ah, amigão! Nem que eu tivesse que enfiar o meu carro na traseira de um carro da policia eu teria feito tudo de novo para conseguir esse visto!
UM OFICIAL DA CORÉIA DO NORTE E MUITA CONFUSÃO
Outra historia engraçada acerca desse visto foi que eu liguei na embaixada da Coréia do Norte e falei que eu tinha uma autorização de Pyongyang para poder ter um visto de turista emitido na embaixada de Brasília. Os caras ficaram de checar e, quando eu chego em casa, escuto o meu porteiro falar que um cara falando um português meio estranho chegou lá portaria e tava procurando um tal de um “sr. Claudiomar” sobre um visto para a Coréia. O porteiro falou que eu não estava (pô, tava no trabalho!), mas o cara não parava de insistir que precisa ir no meu apartamento. Mas queria porque queria de qualquer jeito. Depois de muita luta, ele se contentou em me deixar um bilhete, o bilhete abaixo!
Trocando em miúdos! Não basta a experiência de ir para a Coréia do Norte! Eu ainda tive um OFICIAL COREANO batendo na porta da minha casa para confirmar o meu endereço! Essa eu vou contar ate para os meus netos!
Milhares e milhares de crianças ensaiando NA CHUVA para mais uma das dezenas de demonstrações que ocorrem todos os anos na Coréia do Norte para demonstrar o quanto eles são um país feliz. Esses ensaios ocorrem três vezes por semanas e levam entre duas e três horas. Assim como essas crianças estavam na chuva, poderiam estar sob o sol ou sob a neve! Isso tudo para demonstrar a felicidade no reino mágico de Kim Il Sung! A vida é dura, amigo!
P.s: Depois que eu fui descobrir. Como fazia tempo que eu havia feito meu cadastro para o visto, o cara foi no apartamento antigo. Os meus antigos companheiros de apartamento ficaram meio em duvida se davam ou não meu novo endereço quando descobriram que um oficial norte-coreano procurava por mim, mas por via das duvidas, resolveram mandar o cara para minha casa nova. Trocando em miúdos, se você é um serial-killer ou um matador de aluguel querendo me furar de bala, pode bater no meu endereço antigo. Meus amigos serão bem prestativos em lhes enviarem para o endereço certo!!!
Tá achando o que? Kim Il Sung também pode ser chique. Não é só porque ele é o rei da cocada preta na Coréia do Norte que ele também não pode abafar. Para demonstrar que ele também pode fazer bonito, foi lá e copiou um dos principais monumentos americanos. A estátua gigante do Lincoln sentado no Lincoln Memorial National Memorial em Washington. Cara, na hora que a gente entrou nessa biblioteca a galera parou e não conseguia parar de rir! Abaixo, o original em Washington.