Perambulando por Istambul, parte 2.

A história da Mesquita Azul (ou Mesquita do Sultão Ahmet, sultão que patrocinou sua construção) tem uma história peculiar e engraçada. Como já contei pra vocês, em 1453 os turcos-otomanos tomaram Constantinopla e decidiram manter a Sofia de pé, adicionando apenas as minaretes para transformá-la numa mesquita (ainda que sempre fora permitido aos cristãos realizarem suas preces lá dentro). Mais ou menos duzentos anos depois, em 1606, um sultão turco, Ahmet, estava sentando na varanda do seu palácio à beira do tédio, sem ter o que fazer e pensou: – Rapaz, essa tal de Santa Sofia até que é bonitinha mesmo. Mas, pensando bem, ela não é obra dos irmãos otomanos. Ela, apesar de hoje ser nossa, foi construída pelos bizantinos e possui influência da arquitetura bizantina. Quer saber? Vou fazer uma outra bem maior, bem mais imponente e bem mais bonita para demonstrar que os otomanos podem construir uma mesquita bem melhor que esses bizantinos aí. Tá certo que vamos ter quase 1000 anos de tecnologia a mais, mas quem precisa saber disso?

Esse gato ficava o dia inteiro sentado nessa posição, em frente à Mesquita Azul. Todo mundo que entrava na mesquita ia lá e passava a mão na cabeça dele. Era engraçado
Bem, tá certo que não foi 100% desse jeito, mas diria que foi 90%, já que realmente houve esse desejo do sultão de construir algo maior e mais suntuoso que a catedral bizantina. E, ah sim, ele construiu ela em frente à Igreja de Santa Sofia. Sim, amigo, uma em frente a outra. Dois mundo, duas civilizações e dois estilos arquitetônicos frente a frente, simplesmente sensacional.

A Hagia Sofia na esquerda com a Mesquita Azul a poucos metros de distância. Destaque abaixo para os navios cruzando o estreito de Bósforo
Santa Sofia ao fundo
A mesquita na parte de dentro também é suntuosa. Diversos vitrais e mosaicos estão espalhados dentro. Não há imagens, afinal, os muçulmanos não as cultuam (basta lembrar daquela confusão das charges na Dinamarca que tacaram fogo no mundo muçulmano). O melhor de tudo é que a entrada é franca, não precisa pagar nada, basta apenas não ir durante os momentos de prece islâmica.
Interior da Mesquita Azul
Depois da Mesquita Azul, visitei as cisternas da Basílica, uma construção bizantina realizada ainda sobre o reinado de Constantino, o mesmo que falei há alguns posts atrás e que quase retomou todos os territórios do antigo Império Romano. As cisternas foram construídas no século VI, possuem 9.800 metros quadrados e são sustentadas por 28 colunas bizantinas.

Os turistas tem a tradição de jogar moedas nas cisternas para realizar os seus desejos. Peixes também podem ser encontrados por lá.

Depois das cisternas, segui para um típico bazar turco. Milhares de turcos tentavam nos enfiar dentro das suas lojinhas a qualquer preço. Rolou até uma coisa engraçada comigo. Tinha uma camisa que eu tava muito a fim de comprar e parei pra falar com um vendedor turco quanto era. Segue o diálogo:

– Amigo, amigo! Venha aqui comprar umas coisas na minha lojinha.
– Cara, quanto custa aquela camisa ali?
– Qual? Aquela com a bandeira da Turquia?
– Sim! Quanto custa.
– Quer pagar quanto? (E as Casas Bahia faziam história…)
– Não sei…
– Olha só, ela é de qualidade, bom tecido…
– Você, REALMENTE, quer saber quanto eu QUERO pagar?
– Sim, quanto?

– Uai, eu QUERO pagar sete dólares (a camisa valia pelo menos uns 20 dólares)
– Sete?
– Sim, você perguntou quanto eu quero pagar, não quanto eu acho que ela vale. Eu pago sete dólares.
– ORA SEU X%^*(@. ENFIA ESSES SETE DÓLARES NO SEU #$(#$(*#&*@). SAI DAQUI ANTES QUE EU TE ENCHA DE PORRADA.
E continuou me xingando em turco enquanto eu ia embora. Fique pensando se na Turquia tratar bem os clientes é coisa de viadinho…
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Voltei…

Galera, não morri, aqui estou vivo novamente : )

Muitas coisas ocorreram nessa semana e minha vida REALMENTE virou de ponta-cabeça. Pra começar, saiu o resultado daquele concurso de gestor que eu estava fazendo. Pois é, como vocês devem estar imaginando, não passei! Fiquei entre os classificados, mas estou a 90 posições das vagas, portanto a esperança é baixa. Depois que saiu o resultado, tive que me ocupar durante três ou quatro dias pra poder fazer uns recursos e tentar elevar a nota das minhas redações e, portanto, não pude fazer nada além disso na semana passada. Essa semana fiquei ocupado com uns problemas aí. Larguei o meu emprego no Ministério do Meio Ambiente pra poder estudar pro próximo concurso: Analista de Planejamento e Orçamento. Esse concurso é parecido com o outro que eu estava estudando e possui o mesmo salário, portanto a esperança ainda está acesa.

Enfim, voltei à minha vida de estudante e agora estou reprogramando meu tempo. Podem ter certeza que vou separar um tempinho gentil para o blog e tentarei não atrasar mais os posts 🙂

É isso aí. Amanhã tem post novo. Pra galera relaxar, posto um videozinho que acabei de ver no kibeloco e ri MUITO aqui sozinho…

Perambulando por Istambul

Já havia conseguido meu couch em Istambul há algum tempo antes de sair da Polônia. Os meus hosts eram super gente boa. Um casal: uma menina do Azerbaijão e um cara que era filho de um turco com uma brasileira, mas tinha nascido nos Estados Unidos. Sim, ele foi a primeira pessoa que eu conheci que tinha três nacionalidades ao mesmo tempo. Ele realmente tinha três passaportes diferentes. Chegou a morar um tempinho no Brasil e falava um pouquinho de português, idioma que conversávamos quando ele não queria que sua namorada entendesse o que estávamos falando, hehehe.
Estreito de Bósforo
A chegada a Istambul foi interessante já desde o trajeto pra poder chegar em casa. O povo turco parece ser um povo MUITO bruto, brother! Sério, foi muito engraçado já no primeiro ônibus que eu entrei. O cobrador, logicamente, não falava inglês e eu meio que no “mimication” tentava explicar pra ele que queria ir para um bairro que eu havia escrito no papel. Um outro turco já veio subindo no busão direto e não quis nem saber se eu tava no caminho ou não, foi me empurrando com tudo e passou a roleta. Eu meio que cambaleie, mas não caí no chão. O cara nem falou desculpa nem nada! Parecia até um trator!
Chegando à parada de ônibus combinada, vi um cara balançando uma bandeira do Brasil, era o meu host, que se chamava Yunus. Deixei minhas coisas na casa dele e perguntei o que havia de bom pra poder fazer em Istambul além de, claro, a Igreja Santa Sofia e a Mesquita Azul, os dois principais cartões postais da cidade. Ele foi me falando e eu fui só escrevendo: As cisternas da cidade, a torre Galata, o Estreito de Bósforo, o “banho-turco”… Ãhn? Banho-turco? Que diabos era aquilo? Perguntei pra ele e ele me explicou dizendo que era algo mais ou menos assim:
– Cara, é assim: um turco só de sunga, com pelo pra todo lado, um bigodão imenso, te deita em uma cama, te enche de porrada com umas pedras quentes, depois te joga água fervente nas costas e depois te faz uma massagem.
– !!!!
– Eu não consigo entender como alguém pode gostar disso – ele me disse.
– É, parece que não é muito meu tipo não – eu respondi.
Resolvi guardar o primeiro dia pra visitar o monumento que eu mais queria visitar desde que cheguei na Turquia, a Igreja de Santa Sofia. Mas o que foi a “Igreja de Santa Sofia” e o que ela é hoje? Bem, a Igreja de Santa Sofia foi construída pelo Imperador Teodósio em 532 d.C. como um símbolo da opulência e do poder do Império Bizantino. Durante muitos anos foi considerada uma das maravilhas do mundo da Idade Média. Em 1453, após a tomada de Constantinopla pelos turcos, a Igreja, devido a sua opulência, foi poupada. Ao invés de tacarem fogo e mandarem ao chão como eles costumavam fazer, os turcos ficaram impressionados com aquela construção milenar e gigantesca. Resolveram preservá-la e, melhor que isso, resolveram, er… digamos… pegá-la meio que emprestada pra dar uma rezadas ou outras. Sim, eles ergueram quatro minaretes (aquelas torres que ficam ao redor das mesquitas) e, PIMBA, a Igreja virou uma mesquita. O que ela é até hoje! A primeira celebração islâmica na nova mesquita ocorreu em 1 de Junho de 1453.
Foi engraçado tentar chegar à Igreja de Santa Sofia. Era meio complicado conseguir andar naquelas ruas medievais de Istambul. As ruas eram sinuosas e era difícil você se situar. Encontrei o primeiro turco e fui pedir informação pra ele:
– Oi senhor, tudo bom? O senhor poderia me dar uma informação? Onde fica a Sofia?
– Bulgária.
– Ãhn?
– Sim, Sofia fica na Bulgária, é a capital da Bulgária

Ah sim, ele era daqueles piadistas, pensei. Vou arrumar uma vaga pra ele no Zorra Total.
– Ok, e a “Hagia Sofia” (Santa Sofia em Turco)?
– Ah, sim, a Hagia Sofia fica naquele caminho.
Turco imbecil, pensei. Enfim, segui o caminho, mas me perdi depois novamente. Parei outro turco e pedi informação:
– Bom dia, Senhor. O senhor poderia me informar onde fica a Sofia?
– Bulgária, senhor! Sofia é a capital da Bulgária.
– Ok!!! E a Hagia Sofia, pra onde fica?
– Naquele caminho, senhor!
Gatinho comendo cabeças de peixes na saída da Hagia Sofia
Cara, dá pra acreditar nisso? Sério, muito engraçado, de quatro pessoas que eu pedi informação, três me falaram primeiro que Sofia era a capital da Bulgária. Os caras lá REALMENTE querem que você fale Hagia Sofia quando se referir à mesquita-igreja deles, ehehehe. Eu fiquei imaginando o tanto de turista imbecil que deve falar Sofia ao invés de Santa Sofia pra esses caras. Pensando bem, eu acho que até dou razão pra eles…
“Hagia Sofia” vista de fora
Vitrais na Hagia Sofia
Consegui chegar lá e paguei mais ou menos uns quinze dólares pra poder entrar. O interior da Igreja-Mesquita é… é… é… assim… bonitinho… Nada que valha o dinheiro que você paga pra poder entrar. Lá dentro há alguns dos mais famosos e bem preservados mosaicos bizantinos e cristãos-ortodoxos.
Esse mosaico fez parte de muitos livros de história da galera

Havia também dentro da Igreja um buraco na parede que os turcos costumavam dizer que era um teste pra poder checar se você não tinha pecados, se era uma pessoa pura. Bastava que você enfiasse o dedo dentro, mantivesse os pés juntos e imóveis e conseguisse dar uma volta de 360 graus com uma de suas mãos. Logicamente que eu, depois de quase um mês de Europa Oriental, não consegui girar nem 60 graus a minha mão. O que não faltava era pecado dentro de mim, rapaz…

Depois de mais ou menos uma hora, saí da Hagia Sofia e me dirigi a Mesquita Azul, uma das mais lindas mesquitas que pude presenciar em toda minha viagem.

Istambul

Se fosse possível definir Istambul com apenas uma palavra, a mais próxima que eu conseguiria achar seria “fantástica”. Uma cidade tão curiosa que é a única capital de um país que se situa em dois continentes diferentes ao mesmo tempo!!
Poucas cidades no mundo foram tão disputadas por tantos povos diferentes e trocaram de mãos como Istambul. Istambul era Bizâncio quando foi tomada por Roma. Depois mudou seu nome para Constantinopla e por muito tempo foi capital do Império Romano do Oriente e do Império Bizantino. Se a queda de Roma, em 476, é considerada como um marco de divisão entre a Idade Antiga e a Idade Média, a tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turco-otomanos marca a divisão da Idade Média para a Idade Moderna.
Estreito de Bósforo
Toda essa importância deve-se a sua posição estratégica importante. Istambul fica situada no Estreito de Bósforo, que separa geograficamente a Europa da Ásia. Possuir o domínio sobre o Estreito é praticamente possuir a Europa a seus pés. Se você parar para pensar, todos esses impérios citados, assim que assumiram controle sobre Bósforo, “pegaram um naco” considerável da Europa para si. Como pode ser visto abaixo os Impérios Romano, Bizantino e Turco Otomano nos seus auges.
Império Romano

Império Bizantino e Império Romano do Ocidente

Império Turco Otomano

Possuir o Estreito de Bósforo sobre o seu domínio também significava controlar uma importante rota comercial. O Estreito é porta de entrada para o Mar Negro, que se estende sobre diversos países tais como Ucrânia, Rússia, Bulgária, Romênia, Geórgia… Importante lembrar que um dos motivos que levaram os portugueses a contornar a África em direção à Índia foi a tomada de Constatinopla, já que os turcos elevaram absurdamente o preço das especiarias.
A tomada de Constantinopla foi uma das batalhas mais épicas de toda a humanidade. Constatinopla era uma barreira tão inexpugnável que apesar do Império Bizantino não ter a muito tempo a força que possuía durante a queda de Roma, centenas de anos se passaram até que a cidade fosse tomada. Árabes, mongóis, hunos, russos, ávaros, diversos povos que aterrorizaram a Europa, destruíram os seus impérios e levaram ao completo desespero dos Europeus (os forçando à construção de milhares de castelos para se proteger) não conseguiram tomar Constantinopla. Os árabes inclusive conseguiram tomar Jerusalém. Isso se deve principalmente a suas gigantescas muralhas, a praticamente a impossibilidade de sitiar a cidade (já que ela era cercada por mares) e também a uma substância química que só os bizantinos tinham conhecimento que simplesmente esfacelava os barcos inimigos em batalha (que curiosamente era chamada de “fogo grego” e até hoje divide os especialistas sobre o material utilizado), a correntes que era utilizadas entre um lado e outro do estreito e que, quando levantadas, rachavam os barcos inimigos ao meio e colocavam todo mundo pra nadar.
Ilustração de como era Constantinopla em 1453. Preste atenção nas correntes. Abaixo, as diversas muralhas que cercavam Constantinopla. Detalhe que “Wall” em português significa “muralha

Os turcos também sofreram pra poder conseguir tomar a cidade. Pra falar a verdade, os bizantinos há algum tempo já vinham perdendo territórios para os turcos na região que hoje é a atual Turquia. Só que, tomar Constantinopla não seria tão fácil quanto. Com uma tecnologia muito superior, os turcos possuíam a “Grã Bombarda” um canhão gigantesco de bronze com oito metros de comprimento e 7 toneladas. Eram necessários mais de 60 bois e 200 homens pra poder carregar o monstro. Durante o dia, Constatinopla era incansavelmente bombardeada pelas catapultas e canhões dos turcos. Durante a noite, a cidade inteira tentava desesperadamente reconstruir as suas muralhas com sacos de areia e pedras.

O fim todo mundo já conhece e eu até já adiantei. Apesar da heroica resistência dos bizantinos, os turcos enfim conseguiram adentrar os muros da cidade e trucidaram quem eles conseguiram encontrar, script comum em todas as conquistas de cidades sitiadas durante a história.
Enfim, eu poderia ficar durante horas, dias, anos contando as histórias de Istambul. Assim como Roma, cada esquina, cada rua, cada prédio, cada mesquita pode carregar consigo anos de batalhas, glórias, sofrimentos e história! Com certeza uma das minhas cidades preferidas…

O Levante do Gueto de Varsóvia e o Levante de Varsóvia – Polônia

Nada de muito novo ocorreu depois que voltei, pela terceira vez, para Varsóvia. Reencontro com os velhos amigos, mais algumas idas ao café do Toni e algumas andanças pela cidade.
Acabei indo também ao fantástico museu do Levante de Varsóvia, um dos mais bem equipados e interessantes museus que pude comparecer em toda a minha viagem. Tema que escreverei neste post porque acho que é uma história que nunca deve ser esquecida.

O que foi o Levante de Varsóvia? Bem, durante a Segunda Guerra Mundial, a Polônia acabou sendo atacada pelos dois lados e foi esmagada pelas duas maiores potências militares da época: A União Soviética e a Alemanha Nazista. É daí que vem a expressão “corredor polonês” que consiste em uma pessoa indefesa ter que sair correndo entre duas filas, recebendo ataque dos dois lados e levando porrada pra todo lado. Os poloneses na Segunda Guerra Mundial meio que se sentiram assim durante a invasão dos dois maiores exércitos assassinos da história, os nazistas e os stalinistas. O final já era esperado, em menos de três semanas o mundo estupefato assistia ao desaparecimento de um dos maiores países da Europa. Eu falo assim a galera parece que não se liga direito do que é você tomar um país do tamanho de São Paulo em apenas três semanas, mas só a título de comparação, os EUA levaram quase seis meses pra expulsar as tropas de Saddam Hussein do Kuwait durante a guerra do Golfo. Isso porque eles tinham uma coalização de 29 países (entre eles Inglaterra, França…) por detrás. SEIS MESES pra tomar de volta um país que se duvidar é menor do que o Estado de Alagoas.

Após esse verdadeiro massacre sofrido pelas tropas polonesas, os nazistas amontoaram judeus poloneses em guetos. Amontoar é mesmo o nome certo, já que quase 400.000 judeus poloneses foram transferidos pra um bairro da cidade de Varsóvia para morrerem lentamente de fome, frio e doenças. Mais uma vez, só para ilustrar, 30% da população foi transferida pra menos de 2,4% do território da cidade de Varsóvia. A ração a que cada judeu tinha direito dentro do gueto supria menos de 200 kcal diárias o que é menos do que 10% do necessário para o corpo humano se manter vivo. Para evitar fugas, os alemães ergueram verdadeiras muralhas ao redor do gueto, colocaram arame farpado e ostensiva vigilância o que tornava quase impossível escapar do gueto.

Judeus tentando escapar do gueto
Desesperados, os judeus iam morrendo lentamente, mas sem nunca a população do gueto diminuir de forma drástica, já que judeus de todas as partes da Europa eram trazidos para o gueto o que sempre o tornava super-lotado.

Depois de algum tempo morrendo como moscas eles perceberam que não teriam chances e que mais cedo ou mais tarde a morte seria o fim de todas as pessoas que estavam dentro daquele inferno. Então, já que iriam morrer mesmo eles pensaram: – Bem, até que não seria uma má ideia se ao invés de morrermos de fome, nós levássemos uns alemães com a gente. E dessa maneira, armados de tudo que eles poderiam carregar os judeus decidiram sair no pau no melhor estilo “o que é um peido pra quem já tá cagado? Bem, o resultado vocês podem imaginar o que foi, né? Imagine você armado com escorredor de macarrão, panela de barro e umas colheres de madeira lutando contra soldados com coletes a prova de bala e armas automáticas? O fim não deveria ser outro. Do lado dos alemães eles perderam menos de 50 soldados contra mais de 50.000 judeus que foram mortos ou transferidos pra campos de concentração. Bem, se você olhar pelo lado dos números, parece que não adiantou de nada, mas deixando a frieza da matemática de lado, imagine o simbolismo que o levante teve para os poloneses e para os judeus que pelo menos morreram lutando. Além disso, houve a tremenda dor de cabeça para os alemães de ter que retirar tropas do front para poder conter a revolta e, o mais importante, o aumento da moral dos poloneses e dos judeus em geral após isso.

Castelo Real Polonês. Foi totalmente destruído após a Segunda Guerra Mundial e levou mais de vinte anos para ser reconstruído
Após a revolta do Gueto de Varsóvia, foi a vez dos poloneses realizarem um ainda mais brutal. Sabendo que o fim da guerra estava próximo e que as tropas russas estavam a alguns quilômetros das possessões da cidade, a resistência polonesa se empolgou e viu que aquela era a hora para poder dar o troco nos alemães. Mal-armados, mas com a moral elevada e esperando contar com o apoio do Exército Vermelho, os poloneses saíram metendo bala nos alemães que, apesar de bem armados, já se encontravam com a moral abalada.
Interior do museu
Os alemães viram o inferno nascer do dia para a noite. Sem entender o que estava acontecendo e acostumados com a calmaria de apenas patrulhar uma cidade dominada e longe do front de guerra, os alemães se viram no meio de uma cilada. Homens, mulheres, velhos surgiam de todos os lados e de todos os buracos armados com submetralhadoras, granadas e o que mais haviam conseguido contrabandear. Os poloneses metiam bala do jeito que dava nos alemães como quem diziam: – Tá ruim agora? Espera só os nossos amigos soviéticos chegarem pra vocês verem o que é o pau comendo. E assim foi durante alguns dias enquanto cada vez mais as tropas soviéticas se aproximavam da cidade.
Placas com nomes de pessoas mortas durante o Levante
Até que a meros 10 quilômetros de Varsóvia, o Exército Vermelho simplesmente parou! Parou de marchar e ficou assistindo a desesperada revolta polonesa. Ninguém entendeu nada. Eles simplesmente pararam e não avançaram mais nenhum passo. Os poloneses se desesperaram. Percebendo que os soviéticos pareciam que não interviriam no levante, os alemães saíram da defensiva e desceram o cacete nos poloneses que não puderam fazer nada a não ser continuar sua desesperada guerrilha urbana contra os alemães. Como Direitos Humanos não eram lá a maior preocupação de Hitler, de Berlim veio a ordem de demolir cada centímetro de Varsóvia. Casa por casa, engenheiros alemães iam demolindo e tacando fogo com lança-chamas. Nos planos de Hitler, Varsóvia deveria simplesmente desaparecer, ornando-se apenas um entreposto militar ou, quem sabe, um lago.
Esta imagem aqui não tem nada a ver com a história não. Só coloquei uma foto dos Lençóis
Maranhenses pra galera relaxar um pouco e sair desse tema de “Guerra, guerra, guerra” 🙂
Estima-se que 85% da cidade viraram escombros, com especial atenção à destruição de monumentos históricos e de grande simbolismo para os poloneses, como tumbas de grandes heróis nacionais, o Parlamento Polonês, sua Biblioteca Nacional, seu Museu Nacional entre outros. Em 1945 não havia sequer uma ponte ainda de pé. Água corrente e eletricidade? Claro que não. Viver na cidade em 1945 era como viver em uma vila medieval na Alta Idade Média.
Depois que os alemães esmagaram a revolta e transformaram a cidade inteira em pó, o Exército Vermelho enfim marchou sobre Varsóvia e massacrou os alemães “libertando” assim a cidade. Só após alguns anos que se obteve conhecimento que a ordem para as tropas pararem de marchar e esperarem o fim do levante para só assim lutarem contra os alemães partiu diretamente de Stálin. Por quê? Bem, se o Exército Vermelho cooperasse com a revolta, eles teriam apenas um papel de coadjuvantes, algo como o papel que os americanos reservam aos franceses na sua luta da independência quando se não fossem pelos franceses, os EUA nunca teriam vencido a guerra contra os ingleses. Além de terem o papel de coadjuvantes, os poloneses sairiam mais fortes e dificilmente aceitariam ser um reles estado-satélite dos russos como foram de 1945 a 1991. Mesmo que os soviéticos quisessem impor um governo fantoche na Polônia eles teriam que enfrentar uma tropa polonesa bem armada e de moral elevada, esmagá-los e só assim colocar o fantoche que quisessem para governar a Polônia. Foi muito mais fácil deixar os alemães fazerem esse “serviço”. Fechou certinho: Os alemães mataram tudo o que havia de um remanescente exército polaco, os poloneses mataram uma pancada de alemães e pros russos sobrou só o serviço mais fácil que foi o de lutar contra os alemães que restaram e ainda saíram pagando de “libertadores” da Polônia.
Relógio que Stálin deu “de presente” para os poloneses após “libertar” os poloneses. Ele seria algo como uma “Estátua da Liberdade russa”. Logicamente é um dos monumentos mais odiados pelos poloneses em geral.
Bem, o final todo mundo já conhece. A Polônia ao invés de conquistar a sua tão sonhada liberdade, amargou durante mais de cinquenta anos um dos mais sanguinários regimes da história da humanidade, que foi o comunismo russo. Tanto é que se você perguntar pra qualquer polonês há quantos anos faz que a Polônia é independente, ele vai responder:
– Há 18 anos. Estamos independentes desde 1991.
Figura pintada numa das paredes do museu
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E o desânimo começa a nos vencer…

Assim que descemos no posto, começamos, loucamente, a tentar conseguir de qualquer maneira uma carona em direção à Praga. Estava começando a escurecer, o que nos preocupava cada mais pois, afinal, estávamos no começo do inverno europeu e a temperatura a noite facilmente chega nos dez, oito graus. Já era umas cinco da tarde e o friozão começou a surgir. Boto fé que devia estar por volta de uns quinze graus o que pode não ser tão frio assim, mas em um ambiente de vento contínuo, duas pessoas sem agasalhos e em exposição ao ambiente (uma vez que não ficávamos dentro da loja de conveniência pra poder pedir carona, mas sim do lado de fora esperando os carros pararem) podia fazer lá seus estragos. Começamos a ficar já sem esperanças, pois anoitecia e nada de conseguirmos um carro pra poder nos levar. Como parecia que nada ia sair dali, fomos a um hotel que pertencia ao posto e que era próximo de onde estávamos pra podermos checar se havia possibilidade de ficarmos hospedados lá por uma noite e pela manhã tentaríamos ter mais sorte. Diária? 100 Euros! É, parece que ou a gente conseguia uma carona ou íamos dormir na rua mesmo.

Voltamos para as bombas de gasolina e continuamos implorando (sim, o verbo certo era implorar mesmo! Nessa hora a ideia de viajar de carona não parecia mais tão divertida assim) para que alguém nos levasse. Até que um carro com uma mãe e sua filha adolescente parou para abastecer e Gosia perguntou se tinha como elas nos darem uma carona, nem que fosse pra cidade mais próxima para ficarmos em um albergue. A mulher não falava inglês, mas conseguimos nos comunicar com a sua filha. Explicamos nossa situação e sua mãe falou que tinha uma ideia melhor. Ela iria nos levar a outro posto de gasolina já que aquele que estávamos, segundo ela, era muito ruim pra pegar carona, pois o fluxo de caminhões era muito baixo e o posto era meio que um desvio da rodovia. Ela nos disse que iria nos levar a um outro posto, esse sim na rodovia, que lá era melhor para tentar conseguir algo. Entramos no carro e seguimos adiante. Uns quinze minutos depois elas nos deixaram lá e, não obstante, a mãe nos deu o celular dela dizendo que era pra ligarmos pra ela caso não conseguíssemos carona alguma. Pra que iríamos ligar? Bem, ela disse que se não conseguíssemos sair dali, ela iria nos buscar no posto, nos levar pra casa dela para lá passarmos uma noite e no outro dia de manhã poderíamos tentar a sorte. Resumindo, a mulher era UM ANJO!! Ela não só nos deu uma força, como se dispôs a recolher dois transeuntes no meio da rua e levar pra dentro da casa dela. Quase um amigo do Eion de saias (leia a história aqui). Perguntamos porque ela estava sendo tão gentil com a gente (cara, confesso seriamente que fiquei com medo dela levar meus rins) e ela explicou que cresceu na Alemanha Oriental e viajar de carona era a única maneira que ela tinha como viajar nos tempos da Cortina de Ferro. Devido a isso, sempre costumava ajudar mochileiros perdidos pela Alemanha.
 Casa do Snoop

Elas nos deixaram no outro posto e seguiram viagem. Umas palavras de conforto e um encontro agradável como aquele que acabávamos de ter era tudo o que precisávamos para poder aumentar a moral da tropa. Ninguém dá carona pra quem chega com um semblante triste na face. Após descer do carro dela, eu e Gosia fomos na febre em cima dos motoristas pra ver se conseguíamos sair logo dali. Mas cara, foi rápido dessa vez. A tiazona realmente tinha razão. Gosia abordou um caminhoneiro, falando em inglês, e ele fez uma cara de que não entendia patavinas do que ela falava. Ele meio que falou gesticulou que não falava inglês. Nós meio que perguntamos de que país ele era e ele meio que respondeu que era da Polônia. Felicidade geral! O cara era polaco!!

Gosia se empolgou e começou a falar com ele em polaco e perguntou se o cara poderia dar uma carona pra gente pra Praga. Ele ficou meio que chateado e falou que não era possível, já que, olha só, ele estava indo direto pra Varsóvia!! AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! Não brinca, amigo!! Falamos pra ele que na verdade queríamos mesmo era ir pra Varsóvia, que Praga apenas estava no caminho. Ele falou que tudo bem e nos enfiou dentro do caminhão dele! Felicidade nível 5!!
O cara parecia ser gente boa, mas não falava inglês. Gosia meio que conversava um pouco com ele e depois conversava comigo. Ele vendo que eu tava meio entediado, perguntou se eu não queria beber algo e VLAPT! puxou uma gaveta de baixo do meu assento. O que surgiu?? Dezenas, MUITAS latas de cerveja geladas!! O cara tinha uma gaveta refrigerada dentro da boleia do caminhão dele!!! Algo como uma mini geladeira! Gosia falou que não queria beber. O cara falou que não tinha problema e VLAPT! puxou outra gaveta e de lá tirou um queijo francês. Eu comecei a ficar impressionado com o tanto de coisa que tinha naquela boleia, cara! Parecia até a casa de cachorro do Snoop (pra quem não lembra do desenho animado. A casa do Snoop por fora parecia minúscula, mas quando ele entrava a casa o interior da casa era gigantesco! Parecia uma mansão! Coisa de desenho animado)! Eu perguntei pra ele se ele tinha mais alguma uma surpresa escondida por lá e o bicho VLAPT! puxou uma cortina que estava atrás dos nossos bancos. O que surgiu? Uma grade de cerveja? Não!! Uma BELICHE!! O cara tinha uma BELICHE dentro da boleia do caminhão dele!! Pô depois de uma beliche o que eu comecei a procurar? Lógico! Perguntei pra ele se ele teria dentro do caminhão um chuveiro quente pra eu tomar um banho. E só servia se fosse quente! Gosia traduziu e ele falou que infelizmente não tinha, mas se eu quisesse outra cerveja, não havia problema!
Gosia segurando uma das latinhas de cerveja que ele nos deu
(repare que a latinha é  de uns 500 ml) e o caminhoneiro segurando a sua gavetinha refrigerada mágica!
Fomos conversando e viajando até que eu e Gosia resolvemos pedir pra ele nos deixar em Wroclaw, cidade polonesa no caminho que já havíamos sido hospedados. Po, dormir numa boleia de caminhão não parecia ser uma coisa muito agradável. Ele falou que tudo bem e nos largou por la. Ligamos pro couchsurfer que havia nos hospedado antes e ele falou que poderia nos hospedar mais uma noite sem problema. Dormimos por lá e no outro dia pegamos carona pra Varsóvia com um tiozão num carro bem rápido.
Chegávamos a Varsóvia, acabando por vez minhas viagens e estripulias com Gosia. Era hora de se preparar pra poder continuar caminho e viajar para Istambul na Turquia.

Comentários Comentados

Galera, esse feriado passei em uma fazenda. Sem internet, telefone e qualquer contato com o mundo civilizado. Acabei atrasando os posts, desculpe 🙂
Na foto eu e Emanuelzinho, um dos parceiros de viagem, na fazendo do glorioso Brunão…

1 – Anonymous comentou no post “A caminho de Munique”:
Grande Maranhão!
Já tem um tempo que leio o blog e queria perguntar algo, mas me sinto meio tímida… Bem, vamos lah, estou pensando em viajar pela África durante uns seis meses… Queria saber como é a questão da saudades.. é foda mesmo.. bate quando não tah tendo graça a lambuja.. como é isto e como foi para vc?
Valeu Velho!
R – Rapaz, saudade não costuma ser um problema tão sério não. No começo, quando você está se adaptando a tudo (arrumar casa, arrumar emprego, não conhece ninguém) é realmente complicado e você realmente sente MUITA falta da vida na sua casa. Você sente saudade da sua vida mansa e começa a se perguntar: O que diabos eu vim fazer aqui? Isso aconteceu comigo e fica bem claro em um dos posts que fiz ainda na Austrália (clique aqui) quando havia acabado de chegar. No post dá pra ter uma ideia do que eu tou falando. Sinta o sentimento de arrependimento e desespero carregados em cada palavra. Mas, cara, depois dos primeiros meses, quando você já está instalado, já tem emprego, amigos e começa a viajar, pô, aí fica mais de boa porque a saudade dos pais, dos amigos do Brasil é vencida pela excitação de conhecer novos lugares, novas pessoas, viajar, sair pra balada. No final você acaba esquecendo as partes ruins da viagem e vendo que o balanço foi MUITO positivo.
2 – Anônimo comentou:

Oi
Agora que o dólar está 1,70 , era hora de você pegar de novo a estrada!
R – Rapaz, se a galera que lê o blog fizer uma vaquinha, juro que eu faço isso por vocês. Porque ainda que o dólar esteja 0,50 o salário é raso e a grana é complicada, hehehe.
3 – Anônimo perguntou:

Maranhão
Essa polaquinha faz o que da vida?
Trampa, estuda…e o restante da galera que vc conheceu?
A coração gelado,o indiano que o recebeu…Como eles ganham a vida?
R – Cara, a Gosia, na última vez que falei com ela, tava ainda estudando e terminando a universidade. O Avinash também. A Coração Gelado hoje tá na Coréia do Sul dando aulas de inglês e fazendo o pé-de-meia dela por lá. Ela me falou que fazia uma grana boa trabalhando com isso e até me convidou pra ir lá pra Coréia dar aula também, mas, logicamente, não aceitei, ehehehe. Uma hora a gente tem que começar a levar a vida a sério, né?
4 – Thiagones postou em Free Hugs em Praga:
Versão espírito de porco do Free Hugs:
5 – G. Aragao comentou no post “Er… casa sempre é importante…”:
PERGUNTA PARA COMENTARIOS COMENTADOS:

Claudiomar… ja faz algum tempo que voce terminou a sua viagem e com certeza nao tem como voce lembrar de todos os detalhes/presepadas que acontecaram. Como voce fez para “guardar” todas essas estorias? Voce tinha um journal? gravava os acontecimentos num tape recorder?
Abracao!!
R – Vê que o cara foi bem direto, né? Botou logo nominalmente “PERGUNTA PARA COMENTÁRIOS COMENTADOS”. Cara, isso foi um percalço que tive no início da viagem. No começo eu apenas decorava as histórias e o que eu ia lembrando eu ia anotando. Isso era um problema muito complicado porque sempre que eu escrevia assim, umas semanas depois eu acabava lembrando de histórias que eu não havia postado. Devido a isso, no Camboja fui numa birosquinha e comprei um caderninho de anotações. Nele eu ia anotando algumas coisas pra sempre lembrar das histórias. Logicamente eu não anotava as histórias inteiras, mas apenas palavras que me fariam lembrar delas e assim reproduzí-las. Por exemplo eu anotei “Sede da BWM” para poder me lembrar da visita à sede da BMW. Assim, um ano depois, quando eu escrevi sobre Munique, eu consultei o caderninho e lembrei que eu deveria escrever sobre a visita à sede da BMW em Munique. E assim eu vou lembrando de centenas de histórias diferentes mesmo um ano depois delas ocorrerem. Antes de fazer o próximo post acerca do fim da carona até Varsóvia, eu vou, dou uma consultadinha no caderninho e começo a escrever. O que ocorreria se eu perdesse esse caderno? Meu amigo, não quero nem pensar nisso, hahahah

Caderninho com todas anotações das minhas viagens

Página com anotações sobre a Suécia. Alguém consegue decifrar algo?
6 – Anonymous comentou acerca dos BMWs no post “Munique”:

Aposto que o maranhense se tremeu todo só de chegar perto daqueles BMW
^_^
R – Hahahaha. Que é isso, rapaz? O carro é que tremia perto do maranhense aqui. Por pouco eles não me convidaram pra poder ficar de modelo lá apresentando os BMWs…

Saindo de Munique…

Pela manhã acordamos e fomos dar um rolê por Munique. Nada de muito importante a não ser a visita à sede da BMW. O que rolou de mais louco quando estive nessa cidade foi que a segunda feira que eu estive em Munique foi a famosa “Segunda-Feira negra”. Eu sei que isso já faz mais de um ano e que nosso país acabou, graças a Deus, saindo bem dessa crise (nunca antes na história desse país…). Pra quem não lembra, a “Segunda-Feira negra” ocorreu quando o Banco Lehman Brothers decretou falência e desencadeou, assim, a crise mundial do ano passado.

Pra maioria da galera que tava na vida do “vou pro trabalho, volta pra casa e durmo” no Brasil, recebendo em real e gastando em real, a crise não foi muito sentida, uma vez que, como falei, o nosso país sofreu pouco com a crise. Por outro lado, pra mim que estava no exterior, olhar aqueles jornais com cenas catastróficas de bolsas mundiais despencando e desespero por toda a parte foi uma cena aterradora. Primeiro porque estava tudo em alemão e não dava pra entender PATAVINAS do que estava escrito e segundo, bem, segundo porque a minha grana em dólar já tava acabando e o pouco que eu tinha estava em reais e eu sabia que, uma hora ou outra, eu iria precisar pedir ajuda pro meu pai pra terminar a viagem e ele iria (assim como me ajudou) também com reais. Em menos de um mês eu vi o real se desvalorizar quase 0,70 centavos em relação ao dólar e a outras moedas como o Euro. Era realmente desesperador abrir o site da Folha e ver que o dólar tinha fechado o dia com valorização de cinco, sete por cento em UM DIA. Houve um dia, que ainda está bem claro na minha mente, que eu abri o site e vi o euro se valorizando quase DOZE por cento em um dia em relação ao real!!! Aquilo realmente foi desesperador e foi um dos motivos em eu adiantar a minha volta ao Brasil em quase um mês. Minha grana simplesmente virou farelo!!!

Depois de passearmos pela cidade, eu e Gosia fomos para a casa do Chris, amigo do Eion que falou que iria nos hospedar.
Preparei um arroz para comermos, conversamos um pouco com aquele cara meio doido (pombas, ele praticamente recolheu dois malucos pra dentro de casa e levou pra dormir) e fomos dormir. O figura foi gente boa demais! No outro dia acordamos cedo e saímos pra poder conseguir uma carona de volta pra Varsóvia.
Tentando volta a Varsóvia
Cara, que parto foi pra poder conseguirmos sair de Munique!! A cidade era GIGANTESCA e tava extremamente difícil achar a saída dela. Descemos em um ponto de ônibus e ficamos perdidos tentando achar onde deveríamos pegar a carona sabendo que bastava apenas virar uma esquina e achar a rua certa. De repente, uma simpática senhora alemã se aproximou da gente com um inglês muito engraçadinho (Excuseeee me!! Do you want some heeeelllppp??) e nos indicou o local. Agradecemos a ela e saímos no sentido indicado e, pimba, estávamos na saída da cidade. Ficamos um bom tempo tentando conseguir uma carona, mas realmente tava muito difícil lá.
Caminho que deveríamos seguir até Praga
Depois de mais ou menos uma ou duas horas, conseguimos uma carona, mas só pra 30 quilômetros depois. Bom, vamos lá, pelo menos sair da cidade e ficar em um posto no meio da autoestrada facilitaria e muito a nossa vida. Chegamos no posto, compramos alguma coisa pra comer e ficamos pedindo carona pra cada um que entrava na loja de conveniência pra ver se alguém se sensibilizava e nos colocava pra dentro. Uma hora depois, nada de conseguirmos. Resolvemos mudar de estratégia e ficamos na saída do posto fazendo sinal de carona pra todos os carros/caminhões/bicicletas que saíam. Depois de uns quinze minutos um carro veio parando. Ôpa!! Uma carona.
Engraçado, o carro era meio diferente dos que estávamos acostumados a ver. Ele era azul, tinha uns detalhes em branco do lado… Eita porra!! POLÍCIA!! Era a polícia!! E tava vindo na nossa direção!! A polícia veio vindo e eu fui só pensando: – Bem, não era exatamente esse tipo de carona que eu esperava. Tá certo que cadeia é casa e comida de graça, mas não era muito o tipo de carona que eu esperava… O carro veio vindo, vindo e nós tentando aparentar tranquilidade fazendo que não era com a gente. Ele parou do nosso lado. Sim, era com a gente!! Eu pensei: – Pronto! Tou preso!! Nesse país facista do caralho tudo deve ser proibido! Deve ser proibido pegar carona também!!!”. Ficamos esperando o que ia rolar quando o vidrinho do carro foi baixando e o simpático guardinha foi falar comigo:
DOCUMENTO!!
Sim, não foi “Bom dia” não foi “Oi, tudo bom?” nada disso. O bicho só deu um grito no melhor estilo “DOCUMENTO, PORRA!!”. Dei meu passaporte, ele me fez algumas perguntas e depois nos deixou ir embora. Não tinha nada de errado, portanto ele não poderia fazer nada (não que ele não quisesse).
Depois dessa singela abordagem policial, continuamos na saída do posto, tremendo mais que trator em ponto morto devido o frio que dóia nos nossos ossos. Depois de mais ou menos uma hora, um simpático senhor parou seu caminhãozinho e nos ofereceu carona. Gosia enrolou um alemão lá com ele e ele falou que não iria para o nosso caminho, mas que só poderia nos deixar uns 70 quilômetros a frente em um posto um pouquinho mais movimentado. O dia realmente tava rendendo, em quase seis horas tínhamos conseguido viajar por volta de uns cem quilômetros. Só pra vocês utilizarem como base, se tivéssemos ido a pé teríamos percorrido quase a metade disso.

TECLA Pause
Esse é um dos grandes problemas de viajar de carona. A gente tem até aquela imagem romântica, você em pé do lado da auto-estrada com os ventos batendo nos seus cabelos, viajando pra onde o vento lhe levar. Sem gastar nada, sem se preocupar com o tempo, apenas curtindo uma vida que teima em passar rápido demais. Quase uma mistura de um filme de James Dean e Indiana Jones. Beleza, realmente é desse jeito, cara!! NO COMEÇO é desse jeito. No começo tudo é novidade, você fica ali em pé com o braço estendido e só curtindo a onda. Mas, sério, imagina você depois de duas horas segurando uma maldita placa, com um braço estendido no calor ou no frio, sem que ninguém pare pra poder te ajudar? Bem, você imaginou. Era exatamente assim que eu estava me sentido depois de seis horas, e apenas 100 quilômetros depois, implorando pra que as pessoas nos enfiassem dentro dos carros delas. Sério, depois de uma hora, pedir carona começa a encher o saco…

Senhor, me dá um carona, pelamordedeus…

TECLA Play
O tiozão era até gente boa. Ele foi nos guiando e explicando várias coisas no caminho. Dizia que nutria uma certa simpatia por Hitler quando ele assumiu o poder na Alemanha. Falou que ele tinha feito importates reformas no país, mas depois de um tempo ele começou a ficar louco e matar todo mundo, aí ele não tinha ficado mais tão legal assim. Nos deixou em um posto e continuamos tentando ver se conseguíamos pelo menos dormir em Praga, um terço do trajeto até Varsóvia, mas já ajudava em alguma coisa.