Quartinho aprazível

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A casa do Avinash em si foi um lugar bem aprazível, como já tinha falado. A parte ruim mesmo foi só ter que ficar dividindo quarto com uma pancada de macho. Tínhamos apenas uma cama de casal e dois sofás e sempre ficávamos tendo que revezar. Mais o melhor do quarto era Avinash explicando:
– Cara, não esqueça de, antes de ir embora, colocar todos os seus aparelhos eletrônicos dentro de sua mochila e fechá-la.
Ahn? Aparelhos eletrônicos dentro da mochila? Fiquei curioso. Pra que diabos isso? Será se era medo de ladrão?
Depois ele foi lá e me explicou:
– É porque senão os ratos entram na sua mochila e roem os cabos dos seus carregadores!
Ratos!?!?! RATOS!?!?! No meu quarto?!?!?! Éguas, doido!! Pára com isso!!
Não sabia que a casa do Avinash seria um dos locais mais limpos que visitaria por toda Índia. Afinal, lá tinha apenas ratos e ratos não são venenosos.
Enfim, depois dessa semana em Deli, acabei “pegando carona” com os dois nômades e fui junto com eles para Katmandu no Nepal. Comprei um bilhete de avião e convidei Samanta, uma americana que conheci numa “festa no Apê” em Deli, e fomos nós quatro para o Nepal. Mas isso já é assunto para o próximo post.
Na foto: Eu, Samanta, os dois nomades e nosso host em Katmandu no Nepal em um encontro do Couchsurfing

P.s: Estou em Viena, mas estou comecando a escrever sobre quando passei pelo Nepal

Companheiros em Deli

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Além de Avinash e sua família mais outros dois caras ficaram hospedados com a gente. Dois couchsurfers, um irlandês e um austríaco, acabaram ficando lá por casa. No começo eles pareceram ate ser gente boa, mas no final acabei não me dando muito bem com eles. Não que eu tenha brigado ou algo assim, mas acho que nossas personalidades apenas não era compatíveis.
Mike, o austríaco

O interessante dos dois é que eles eram dois nômades. Sim, nômades! Eles não tinham casa! A vida dos caras é viajar, viajar, viajar e ficar hospedados em casas pelo couchsurfing. Eles sao aquilo que eu acho de “neohippies”. Eles trabalham um pouco (geralmente ensinando alemão ou inglês) pelos lugares que passam, juntam uma grana e saem viajando. E vão desse jeito! Juntou grana, vai embora pra outro país. A grana encurtou? Ou volta pra Europa pra trabalhar ou começa a dar aula no pais em que se encontra. Junta grana, vai embora… E assim vão indo! Achei isso muito interessante! Imagina que vida louca, cara? Sério, depois eu fiquei pensando, se der algo errado na minha vida, meu plano B vai ser esse! E o pior que eles nem foram os primeiros nômades que conheci.
Tecla PAUSE
Pra quem leu a matéria do Imparcial que falava sobre a minha viagem, eu cheguei a falar do primeiro neohippie que conheci na vida. Um dia eu tava em Brasília na internet e alguém mandou uma mensagem pro yahoogroups do couchsurfing de Brasília falando que tinha um cara, Daniel, que precisava de um lugar pra ficar. Na mesma hora ofereci o meu apartamento e três horas depois o figura tava lá em casa. Quando fui falar com ele, perguntei quanto tempo ele queria ficar. Ele só respondeu:
– Ué, o máximo que puder!
Rapaz, na hora eu ri demais, cara! Falei pro bicho que ele podia ficar lá em casa o tempo que quisesse. E o cara foi ficando, ficando, ficando… Ele era nômade também que nem os figuras acima. O cara ficou quase um mês e meio lá em casa até que um dia ele encheu o saco de Brasília (e até agüentou muito, bicho! Um mês e meio e não encher o saco de Brasília, o cara tem que ser herói!) e foi embora pra Bolívia. Simples assim. Pirei tanto com essa experiência que acabei metendo o pé no mundo também! O Dani foi um dos caras que inspiraram essa minha viagem inclusive.
Tecla PLAY
O que era mais interessante era que os dois, por estarem há algum tempo na Índia, já estavam mais do que acostumados às particularidades da cultura indiana, leia-se, comer com as mãos.
Sim, gente, aquela parada que falam pra gente sobre os indianos, comer com a mão direita e “se limpar” com a mão esquerda realmente ainda existe. Só pra vocês terem uma idéia, em quase todos os banheiros que fui na Índia, ou pelo menos os que eu prestei atenção, há uma famigerada torneirinha próxima ao vaso sanitário. Os indianos geralmente não utilizam papel higiênico em si. Eles passam os dedos da mão esquerda no, digamos, “vão”, e depois limpam a mão na torneirinha!!! Pense nisso na próxima vez que oferecer a sua mão esquerda pra cumprimentar um indiano.
Cara, esse com certeza foi o maior choque cultural que tive na Índia. Sério, sou um cara super-sussa com diferenças culturais e sempre, no máximo possível, tento me adaptar à situação sem ser “aquele moleque chato do Ocidente”. Já “obrei” de cócoras por diversas vezes na Indonésia, comi gafanhoto na Tailândia e o caramba! Mas comer com as mãos é algo que me transcende, cara! Não dá mesmo! Alguns indianos chegavam até a ficar meio chateados quando a gente ia no restaurante e eu pedia pra alguém buscar uma colher pra mim, mas eu explicava:
– Cara, vocês quererem que eu coma com as mãos porque eu estou na Índia é o mesmo que eu querer que vocês comam picanha porque estão no Brasil. Não dá!
O irlandês em si era uma figura a parte! O cara andava com um porrete na mão! Sim, um porrete! Pra onde quer que ele fosse ele carregava aquele porrete dele. E era um senhor porrete, meu amigo! Depois de alguns dias, não agüentando mais de curiosidade, fui lá e perguntei pra ele:
– Oh, meu amigo! Pra que diabos você anda com esse porrete na mão pra cima e pra baixo?
– Porque eu gosto!
– Uai, mas só porque você gosta? Não tem outro motivo?
– Porque você anda com esse colar imenso no pescoço? – ele me perguntou
– Er.. hum.. é porque… Uai, é porque eu gosto de andar com ele.
– Sem mais perguntas – ele respondeu.
Sutil como um tanque de guerra numa descida esse menino.
Spyro e seu porrete…

Hospedagem em Delhi – Meu couch

O meu couch em Deli foi, sem sombra de dúvidas, um dos mais interessantes que fiquei desde que comecei esta viagem. Avinash se predispôs a me hospedar pelo fato de eu ser o primeiro brasileiro que ele iria conhecer. Como já explicado em um post anteriormente (história aqui), o “visto para o coração das pessoas” mais uma vez ajudou bastante. O mais interessante de ser hospedado por Avinash foi eu poder conviver com a sua família, apesar dele me confidenciar que sua mãe e seu pai ficavam sem graça pra poder conversar comigo. Mesmo assim eles foram bem simpáticos comigo. Eles eram tão gente boa que às vezes eles iam me levar o café-da-manhã quando eu acordava e ia direto acessar a internet ou ficavam tentando me arrancar do computador pra poder almoçar ou jantar. Hehehe. Sim, na casa de Avinash, todas as refeições, café-da-manhã, almoço e jantar eram servidas. E “ai de mim” se eu me atrevesse a não querer comer, heheh. Se eu não estivesse à alguma refeição (caminhando pela cidade por exemplo), eles faziam questão de guardar a comida pra quando eu chegasse. Sério, cara, Avinash e sua família eram gente boa MESMO!
Além desse fato de eles serem super gente boa, teve um pequeno choque cultural que foi MUITO engraçado. Claudiomar Filho, burrão, no primeiro dia, como sempre faço, me ofereci pra cozinhar um pouco de “comida brasileira”. “Comida brasileira” que me disponho a cozinhar nada mais é do que um tipo de arroz (arroz com tomate, arroz com salsicha…) e algum tipo de carne. Sempre faço isso quando chego nas casas que vão me hospedar por dois motivos:
1 – Quero ser gentil
2 – Tem dias que eu REALMENTE quero comer arroz (pombas, eu sou maranhense, brother! E maranhense é famoso como comedor de arroz!)!
No final acaba dando super certo, haja vista que pra pessoa que tá me hospedando é uma novidade danada comer arroz temperado e salgado (como já falei antes, o arroz na Ásia não tem gosto. Eles cozinham o arroz branquinho, sem nenhum pingo de sal) com um tipo de carne diferente e pra mim é uma felicidade danada comer arroz salgado e temperado com um tipo diferente de carne, pelo mesmo motivo expressado acima. O choque cultural foi que, e eu tenho certeza que até agora menos de 5% das pessoas se tocaram, os Hindus NÃO COMEM CARNE!!! Sim, cara! Esqueceu? A vaca é sagrada pros bichos!!

Tecla PAUSE

A vaca é, de longe, um dos mais sagrados animais para o sub-continente indiano. No início achei que fosse algo da religião Hindu, mas depois descobri que os Sikhs, que são uma religião totalmente diferente, também não comem carne, logo nao comer carne está envolvido a cultura também! Enfim, na mitologia Hindu há um espaço reservado para santificar a vaca, mas sou capaz de arriscar que o hábito de não comer carne veio antes da religião Hindu (apesar de estarmos falando de uma das religiões mais antigas do mundo e que se acredita ter mais de 4000 anos!). Avinash me explicou que eles respeitam bastante a vaca, além do caráter religioso, por ela ser a “provedora” do sub-continente indiano. Quem primeiro provém alimento a você? Sua mãe, através do leite materno. O que ocorre quando sua mãe não pode mais lhe prover leite? A sua segunda mãe é a vaca! Sim, acho que falar que sua mãe é UMA VACA na Índia parece ser algo bom!
– Beleza, a vaca te provém leite, mas porque você não pode comer o boi, Avinash? – eu perguntei!
– Uai, pergunta idiota, Claudiomar! Você não pode comer o boi simplesmente porque ele é o marido da vaca! Às vezes você faz perguntas tão imbecis!
– Ah, então tá bom!

Exemplo de um seguidor da religião Sikh. Explicarei mais sobre essa interessante religião posteriormente

Tecla PLAY

Rapaz, foi eu perguntar pro Avinash aonde vendia carne pro bicho me falar:
– Pelamordedeus, cara. Não fala isso aqui nessa casa! Se meu pai ouve ele te mata!!
Hahaha. Eu tinha esquecido! Não é que os caras não comiam carne de vaca! A família dele INTEIRA era vegetariana, bicho! Avinash me explicou que a casta dele era (eu digo era porque hoje ele não dão mais importância quanto antes) a casta dos Brahmin ou dos sarcerdotes! Logo, a sua casta não comia nenhum tipo de carne e eles acabaram mantendo essa cultura! Depois que eu fui me tocar que realmente não havia nenhum pedaço de carne nas refeições que eles me serviam! O que eu acreditava ser carne nada mais era do que glúten de soja!
Pela primeira vez na minha vida, cara, por uma semana, eu virei vegetariano! Fiquei impressionado comigo mesmo. Sério, sou um dos caras mais carnívoros que vocês podem imaginar. O pior que nem foi muito difícil. Acho que o mais complicado pra mim é cozinhar ou escolher comida apenas vegetariana, mas quando alguém já vai lá e coloca pra você, você acaba devorando sem nem pensar!

Índia – A primeira enrolada a gente nunca esquece…

Deli foi uma das maiores experiências que tive viajando pela Índia. Tanto na parte do aprendizado cultural quanto em aprender como a Índia é um local em que quase todo mundo que te enrolar com algo. Só pra vocês terem uma idéia, já na primeira noite que eu cheguei a Deli, o taxista já tentou me roubar.
Cheguei ao aeroporto e procurei por um posto de táxi pra poder ir pra casa do Avinash, brother que ia me hospedar. Fui a um balcão que vendia táxi “pré-pago” e mostrei o endereço. O cara falou que o táxi pro endereco que eu mostrei custava 200 rúpias. Fui lá, paguei e fui procurar pelo meu táxi. Peguei o primeiro taxista da fila, mostrei o comprovante, mostrei pra onde ia e ele reclamou que praquele lugar era mais caro e que eu paguei menos do que devia. Como há muito tempo eu aprendi a confiar até no cão, menos em taxista, fui ao balcão, mostrei o endereço novamente e realmente foi constatado que havia um erro. O balconista falou que eu deveria pagar mais 160 rúpias. Fui pagar a ele, mas ele falou que tava de boa, que era só pagar ao taxista direto. Como aprendi a confiar até no cão, menos em taxista, pedi a ele que escrevesse no papel aonde eu tinha anotado o endereço quanto a mais eu deveria pagar. Ele foi lá e anotou.
Voltei pro táxi e mostrei pro taxista que ia pagar as 160 rúpias a mais e que tava tudo de boa. Ele foi lá e foi me levando. O aeroporto era deveras longe da casa do Avinash. No caminho, descobri que o taxista não falava bulhufas de inglês, as únicas palavras que ele sabia falar eram as palavras pra tentar me roubar.
Rapaz, mas foi só a gente sair da área do aeroporto (tirando todas as minhas chances de trocar de taxista) que o show começou. Primeiro ele começou a falar “tool fee, tool fee” (taxa de pedágio, taxa de pedágio) e através de gestos ele falou que eu deveria pagar além das 160 rúpias, mais 50 rápidas devido ao tool fee. Na hora vi que era “migué”, haja vista que no recibozinho que me deram no aeroporto estava escrito bem claro “TODAS AS TAXAS ESTÃO INCLUSAS”. Depois de algum tempo tentando falar que eu não ia pagar p* (patavina) nenhuma a ele, resolvi entrar no joguinho dele e satisfazer o meu desejo sádico.
Fiz cara de gringo e comecei a dar a entender a ele através de gestos: – “Jura? Oh, perdão! Como não pude notar tal erro?!?! Claro que tenho que pagar as 50 rúpias devido ao tool fee, claro que vou pagar, não há problema.”. Rapaz, fiz a maior cara de gringo bobo que consegui e o rapaz realmente acreditou que eu tava aceitando o que ele falou. Ah rapaz, pra que? De dez em dez minutos chegava uma “fee” diferente. E era gasoline fee, e era parking fee (taxa de estacionamento), night fee (bandeira 2) e era uma pancada de taxa que ele ia colocando… Chegou uma hora que eu não tava entendendo era mais nada, já que o bicho se empolgou e tinha acabado todas as palavras que o cara sabia em falar em ingles(ele só sabia falar fee e os números em inglês). Ele tava falando era qualquer coisa em híndi seguida da palavra fee. Só sei que demorou quase uma hora e meia pra chegar na casa de Avinash e quando cheguei o preço já tava QUATROCENTAS RÚPIAS a mais! Queima!! Mermão, eu via a felicidade nos olhos do taxista! Cada taxinha que ele inventava (e eu aceitava sem nem reclamar dava só um sorriso e fazia o sinal de ok, ok) ele abria um sorriso de uma orelha a outra. Acho que ele ia só pensando: – “Eita que eu vou me fazer com esse gringo idiota! Vou ganhar dinheiro que só o diabo! Se pá compro até um táxi novo!”. Quando chegamos à casa de Avinash, o bicho tava sorrindo mais que professor de aeróbica.
Mas o meu plano maligno estava apenas começando! Rapaz, mas naquele dia eu tava mais malvado que cupim que rói santo! Chegando à casa de Avinash, pedi ao porteiro pra chamá-lo e o taxista ficou do meu lado. Rapaz, pense num cara que ficou mais aperriado que ateu no dia do juízo final quando percebeu que eu ia chamar um nativo pra poder pagar a conta? Ah, meu amigo, mas aí o cara se desesperou! Começou a falar money, money… e eu só gesticulando: “Relaxa doido, o money tá vindo dali de dentro”. Satisfiz plenamente o meu desejo sádico vendo aquele pobre coitado implorando (literalmente! Tava com a mãozinha estendida e tudo) pelas sonhadas 400 rúpias dele. Cara, o bicho depois de uns 10 minutos começou a fazer foi cara de choro! Eu nunca tinha visto um homem crescido fazer aquilo, cara! Confesso que esse foi o único momento que realmente senti pena do taxista!
Cara do motorista implorando pelas tão sonhadas 400 rúpias dele

Quando Avinash chegou, já fui logo falando: – “Avinash, eu não sei o que esse cara tá me enchendo o saco, cara! Tá aqui o comprovante do táxi pré-pago que eu paguei lá no aeroporto dizendo que é pra me deixar no teu endereço! Tá aqui omostrando que eu paguei o que devia (é LÓGICO que eu não falei do erro do balcão e que, pelo menos as 160 rúpias que o cara me cobrava a mais, estavam certas!). Ele tá querendo me cobrar quase três vezes mais!”. Ah, menino, Avinash ficou que nem bicho! Eu vi Avinash bater na mesma hora no cara! Na mesma hora mandou o cara ir embora! Falou ele não ia pagar era nem 10 rúpias a mais e que era pra ele deixar de ser cabra safado!

Ah mermao, mas na hora que o Avinash falou que nao ia dar nem 10 rupias a mais pra ele, o cara pegou mais ar que pneu de trator… Na hora que o taxista viu que nao ia receber nada, ficou mais brabo que siri dentro de lata… Beleza, ele tentou me roubar, mas pelo menos as 160 rúpias era direito dele de receber. Avinash chegou até a me perguntar e eu falei que não sabia que diabo o cara estava falando (Hua hua hua, Risada Maléfica). Depois que o taxista começou a se exaltar (pô, cara, as 160 rúpias eu realmente deveria pagar) até o porteiro, bufando, na febre, já veio pra saber o que era. Ficou aqueles tres caras olhando pra ele com aquela cara “qual é, brother?”. De uma hora pra outra o taxista se viu mais bandeado que peru em véspera de natal! Como o taxista era metido a esperto e não a suicida o pobre indiano, franzino e bigodudo, vendo que o bicho ia pegar pra ele, entrou correndo no táxi e foi embora. Mas foi sem nem pestanejar!
Resultado: O pobre taxista que achou que ia fazer uma grana besta em cima de mim, acabou indo embora recebendo a metade do que tinha direito e por pouco não levou umas porradas. Se eu ri? Por pelo menos uma semana esse “feitiço contra o feiticeiro” ou “caça contra o caçador” me fizeram rir MUITO.
E essa foi apenas a primeira das milhares de tentativas de me roubar que tive experiencia na India.
O mal do esperto é achar que todo mundo é besta.

Índia – Delhi

Apesar de oficialmente a capital da Índia ser Nova Deli, resolvi fazer colocar o titulo deste blog de Deli, já que Nova Deli é apenas uma das cidades situadas dentro da zona metropolitana de Deli e quando você anda por lá parece ser tudo a mesma coisa. É como ocorre com Osasco e Guarulhos, que apesar de oficialmente serem duas cidades “independentes”, a gente não consegue se referir como não sendo tudo parte da cidade de São Paulo propriamente dita.
Deli é uma cidade imensa e, como tudo na Índia, pavorosamente caótica. É uma das maiores cidades do planeta com uma população de 17 milhões de pessoas (segundo o último censo realizado). É uma Brasília imensa! Já foi ocupada por diversos povos diferentes em sua história e vem sendo continuadamente habitada desde o século VI a.C. Diversos povos passaram por lá e a conquistaram e ocuparam. Ela já foi e deixou de ser por diversas vezes a capital da Índia, mas desde 1911 vem sendo continuadamente a capital. A cidade de Nova Deli foi construída em 1920 após a determinação de que Deli voltasse a ser a capital do império britânico.
Passei por Deli quatro vezes durante a minha viagem pela Índia. Cada passada diferente será explicada posteriormente. Não vou fazer só um post sobre Deli, pois tenho medo da galera acabar se confundindo e ficar meio perdida!
A título de informação, enquanto estive na Índia a cotação era 1 dólar / 42 Rúpias.
Se alguem estiver planejando visitar a India por esses dias, vou deixando aqui uma dica importante sobre Deli. Quando cheguei à cidade, logo nos primeiros dias, Deli pra mim era uma cidade fantástica. Tinha coisa DEMAIS pra poder ver! Achei que ia precisar gastar pelo menos uma semana pra poder ver tudo. Cheguei até a eleger Deli como capital preferida em detrimento de Bangkok. E realmente, Deli tem MUITA coisa pra poder se ver.
Mas cara, depois que fiquei amigo de um americano no Norte da Índia ele me falou algo que eu depois realmente tive que aceitar. Se você vai passar pelo menos um mes na Índia, Deli não vale NENHUM dia de sua visita. Tudo bem que eles tem várias coisas, mas de todas as construções existentes em Deli SEMPRE há algo melhor em outra cidade até muitas vezes próxima. Deli tem uma tumba que é sensacional, mas parece brincadeira de criança próxima ao Taj Mahal em Agra. O Taj Mahal possui o mesmo estilo, Mughal, mas é absurdamente mais impressionante.

E o Forte Vermelho? Cartão postal de Delhi? Esqueça! Jaipur e Orcha, como vou mostrar posteriormente, possuem fortes MUITO mais ostentosos!
Forte vermelho. Quem se atrever a dizer que eu tou parecido com o Nhonho nessa foto vai se ver comigo…

Bares, lugares pra sair? É até covardia comparar a vida noturna quase inexistente de Deli com a loucura que é Mumbai à noite (sem dúvidas uma das melhores cidades do mundo para sair à noite!). E o “Arco do Triunfo Indiano” que comemora a independência da Índia? Esqueça, em Mumbai tem um bem maior e mais bonito. Cara, e por aí vai… Isso porque eu não tou incluindo Katmandu no Nepal que, devido a proximidade com a Índia, um mochilão pela Índia invariavelmente quer dizer “mochilão pela Índia e pelo Nepal”.
Se você tem apenas uma semana pra poder ficar na Índia a melhor cidade para se visitar sem dúvida é Deli, pois ela possui algo como um “resumo” das principais atrações de outras cidades da Índia, apesar de BEM mais modesto. Deli é como um “jogo demo”, uma “amostra grátis” do que pode ser a Índia.

Independência da Índia

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Com a vitória do Partido dos Trabalhadores na Inglaterra, a sua política externa sofreu um divisor de águas. Por perceber que ficar mantendo uma Índia em polvorosa não era um negócio muito vantajoso, a Inglaterra pôs a negociar uma independência indiana que pudesse contemplar a todos os povos do subcontinente.
Os muçulmanos inicialmente até sentaram-se à mesa de negociação para tentar negociar um país unido, mas, depois de um tempo, começaram a temer uma Índia dominada apenas por hindus e conseqüentemente serem subjugados por eles. Apesar dos inúmeros apelos e esforços de Gandhi para manter uma Índia unida e poderosa, os muçulmanos não aceitaram dividir o poder com os hindus.
Em 1946 a Inglaterra tentou intermediar um acordo entre muçulmanos e hindus pela independência, sem sucesso. Pra falar a verdade, o país quase que entrou em guerra civil depois dessa negociação. Depois dessas conversações, a Inglaterra mudou completamente, se antes ela achava importante intermediar um acordo de paz entre muçulmanos e hindus, após 1946 começou a ficar desesperada pra poder se livrar logo desse pepino gigante e assim poder retirar as suas tropas do território indiano que se encontravam entre fogo cerrado, hora tendo que apartar massacres de muçulmanos contra hindus, hora tendo que apartar massacres hindus contra muçulmanos.
Com o pau comendo por todo canto, a Inglaterra decidiu logo dividir a Índia em dois países: Um muçulmano, Paquistão e o outro Hindu, a Índia propriamente dita. Gandhi, claro, um dos mais viscerais oponentes. Mas gente, era uma situação complicada. Não tinha uma linha no chão dizendo “pra esse lado só hindu, pra aquele só muçulmano”. Ok, alguns estados tinham claramente maioria Hindu ou Muçulmana, mas outros não, além de que havia “ilhas” de uma determinada religião em território majoritariamente de outra. Pra piorar ainda mais a situação, as duas regiões com maior concentração muçulmana se encontravam em lados opostos, logo o novo estado muçulmano seria dividido ao meio por um imenso estado Hindu e hostil. Só pra deixar vocês mais situados do que estou falando, quando ficou independente o Paquistão tinha o território atual mais o território de Bangladesh. Depois da independência da Índia, Paquistão e Bangladesh eram um só país muçulmano chamado Paquistão. Só depois de 25 anos é que Bangladesh realmente se tornou um país independente.

Mapa indiano com as respectivas concentrações islâmicas no país. Quanto mais verde-escuro, maior a porcentagem de muçulmanos na população. Note que as duas maiores concentrações, e que depois se tornaram Paquistão e Bangladesh, estão situadas em lados opostos.

Sobrou pra Inglaterra a ingrata tarefa de traçar as linhas dos dois países. A pior situação acabou por ficar, claro, aonde seria a área de fronteira, na verdade no estado de Punjab. Como Punjab era uma zona de transição entre as regiões muçulmanas e hindus (e além disso o estado com maior concentração de Sikh, religião que vou explicar depois), é lógico que as suas cidades seria quase que igualmente dividida entre as religiões. Punjab tinha tudo pra ser banhado em sangue e não deu outra. A Inglaterra passou uma linha dividindo Punjab ao meio e milhões de pessoas tiveram que deixar tudo o que tinham, fruto de anos e anos de trabalho, para trás e apenas levar consigo o que conseguiram carregar nos braços para o lado de sua região. Só pra vocês terem uma idéia, a cidade de Lahore, uma das maiores de Punjab e que ficou do lado paquistanês, tinha uma população de 1,2 milhões de pessoas, sendo aproximadamente 500.000 hindus e 100.000 Sikhs. Depois da divisão aproximadamente apenas 1000 Sikhs e hindus restavam na cidade, todos os outros fugiram temendo por suas vidas para território hindu. Pra piorar ainda mais uma situação que parecia não ter como piorar, trens lotados de muçulmanos que fugiam para o Paquistão eram parados no meio do caminho por multidões de Hindus e Sikhs e massacrados. Trens lotados de hindus sofriam o mesmo destino. Os exércitos de ambos os lados foram mandados pra controlar a situação e tentar dar um fim ao massacre, mas tudo se mostrou pior, já que os soldados, com armas bem melhores do que facão e pedaços de pau, acabaram pro entrar na “festinha” também e mostraram que sempre pode-se piorar ainda mais as coisas. Saldo final? Dez milhões de pessoas fugiram de suas casas e mais de QUINHENTAS MIL PESSOAS foram mortas…
Esse triste episódio de sua independência, constantes problemas de território com a China (chegando até mesmo a entrar em guerra em 1962) e outros conflitos com o Paquistão contribuíram para criar um sentimento na Índia de que a mesma está cercada por inimigos.

Luta pela Independência da Índia

P.s: Pros que estão impacientes, último post sobre história! Proximo post virá com presepadas. 🙂
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Depois de tantos anos sendo subjugados e humilhados, o ressentimento hindu foi crescendo até o momento em que eles se preparam de fato para tomar o poder dos ingleses. Em 1885 houve o Primeiro Congresso Indiano aonde os mesmos se reuniram para reivindicar maior participação na administração territorial.
Com o estouro da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra solicitou ajuda da Índia e foi prontamente atendida. Mais de um milhão de indianos se alistaram nos exército aliado e foram lutar na Guerra, sofrendo mais de 100.000 baixas. A contribuição foi largamente apoiada pelo Congresso Indiano que esperava dessa maneira obter um retorno por tão brava participação. Depois do fim da guerra e dos 100.000 caixões mandados de volta pra casa a Inglaterra não deu mais do que um “troféu joinha” pros indianos e não atendeu nenhuma das reivindicações do Congresso o que deixou um sentimento na população de que os seus soldados morreram por nada. Mais de 100.000 indianos foram mortos numa guerra que não era deles sendo apenas serem utilizados como bucha de canhão para os planos de poder da Inglaterra. É lógico que num país de centenas de milhões de habitantes isso não ia acabar bem.
Gandhi e o Nehru, primeiro primeiro-ministro indiano. (Primeiro primeiro-ministro ficou feio, né?)
O país começou a pegar fogo e por todos os estados manifestações de desagravo a Inglaterra começaram a pipocar, especialmente em Punjab. A situação começou a ficar insustentável. Em abril de 1919, pra “dispersar” uma multidão que protestava em Amritsar, capital de Punjab, o exército inglês abriu fogo em todo mundo, sem nem se preocupar se eles estavam desarmados ou não. Resultado? Entre 500 e 1000, indianos foram mortos e o país virou do avesso. Foi nesse momento em que brilhou a estrela de um jovem advogado formado em bancos ingleses, Mohandas Gandhi.
Cara, sério, isso é um comentário meu. Gandhi era um cara que sabia fazer as pessoas segui-lo, bicho, sem noção! Imagina como tava o coração dos indianos: centenas de anos de colonização, 100.000 mortos na Primeira Guerra Mundial a troco de nada, centenas de pessoas desarmadas foram fuziladas… Sério, os caras deviam estar com ódio DEMAIS dos ingleses. Nessa hora, no desespero, não conseguir pensar racionalmente é muito fácil e a gente até entende porque os palestinos jogam pedras em tanques israelenses. Me explica como, com esse nível de exaltação, você consegue unir um povo dizendo: – “Não vamos revidar, vamos apenas apanhar mais que ganharemos a guerra sem nos rebaixarmos”? Pois foi o que Gandhi fez. Apesar de em todos os corações indianos haver a vontade de fazer ingleses cozidos, Gandhi conseguiu uni-los em sua política de desobediência civil e não-violência.
Obs: Me encontro na Eslovênia, amanhã chego à Roma e este e o próximo post são os últimos posts que estou escrevendo sobre a história da Índia. Próximo post será sobre Deli. Foto do Pub que me encontro postando aqui na Eslovênia. Gente, só comprei a cerveja porque você precisa consumir algo antes de usar a internet, só por causa disso…

Índia britânica – British Raj

A fase histórica da Índia que mais se relaciona com a história do Ocidente deu-se durante a colonização inglesa.
Durante muito tempo a Inglaterra realizou comércio com a Índia e fez muito dinheiro com isso. Depois de algum tempo e devido a lutas internas pelo poder entre marajás indianos, os ingleses enxergaram uma grande oportunidade para impor seu domínio: – “Cara, pra que a gente tá dividindo parte dos nossos lucros com esse povo se a gente pode ganhar mais com isso?” – eles devem ter pensado. A Inglaterra decidiu que seria interessante tomar controle sobre a Índia.
Mas se diversos povos não conseguiram subjugar totalmente os hindus, como a Inglaterra, do outro lado do planeta, com uma população infinitamente menor conseguiu tal feito? A Índia era governada por vários Marajás diferentes (algo como “governadores”) e a Inglaterra se aproveitou disso. Os vários Marajás estavam em guerra entre si, logo a Inglaterra chegava com o seu exército pomposo (que se não era maior do que o de todos os Marajás juntos, era bem maior do que o de apenas um Marajá) e oferecia “proteção” a um determinado Marajá contra ataques de outros. Logo o Marajá não precisava se preocupar com os seus vizinhos, apenas pagava uma taxa de proteção pra Inglaterra e vivia sua vida em paz. Simples assim. E assim a Inglaterra ia de região em região oferecendo proteção.
Percebe que isso foi algo genial para a Inglaterra? Ela ia arrecadando taxas em todas as regiões e praticamente dizendo “Não ataca ninguém que tudo fica de boa”. No final pacificou toda a região sem disparar nenhum tiro, já que atacar um Marajá vizinho era atacar à Inglaterra (que viria à defesa do agredido), e ainda tirou uma grana massa dessa história. Dessa maneira, no começo do século 19 a Índia já estava quase que em sua totalidade em mãos inglesas.De marcante ficou inglesa. Com aquela salada de diferentes línguas e culturas em território indiano, a Inglaterra não teve outra opção a não ser implementar a língua inglesa como língua oficial da burocracia colonial. Isso foi bom até certo ponto para Índia atual, já que o inglês hoje é a língua que conecta a Índia e muitos empregos são criados hoje na Índia devido ao fato de vários indianos terem inglês como língua nativa.
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