Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Na volta para Barcelona resolvi testar o Bla Bla Car, aplicativo de carona que todo mundo havia me falado. Paguei 12 euros e marcamos de nos encontrar em uma praça de Andorra. Engraçado que, por mais que não tenhamos feito controle imigratório na ida, na volta tivemos que passar por uma aduana.
Assim, ir de carona paga foi mais barato, mas é que estava incluso no desconto o risco de vida. Rapaz, o cara que foi me buscar chega tinha o pé pesado, parecia o Ayrton Senna. Eu ficava de olho no velocímetro do carro dele que nunca ia abaixo de 160 km/h. E, assim, quando eu falo que parecia um carro de Fórmula 1, não é mentira não! Meu pescoço, literalmente, começou a doer por causa das curvas. No início eu achava que iria conseguir ir conversar nada, haja vista que eu não estava querendo muito socializar e meu espanhol não é muito bom, mas, mano, conversar com o motorista foi questão de sobrevivência, haja vista que, conversando, o Ayrton Senna ia um pouco mais devagar, a uns 140 km/h! No carro também tinha um argentino, com cidadania italiana, de carona.
O motorista era espanhol, mas trabalhava em Andorra como corretor de imóveis, ramo que está com problemas desde que a Espanha afundou na crise de 2008. Ele me explicou que o preço dos imóveis na Espanha estava tão alto que já tinha começado a cair já em 2007 e só afundou em 2008, que tinha gente que tinha comprado um apartamento financiado, pagado várias prestações e juros e no final estava vendendo os apartamentos por menos do que havia pago de entrada. Continuar lendo “Regressando para o aeroporto de Barcelona – Testando o Bla Bla Car”→
Existem ônibus que saem direto do aeroporto de Barcelona para lá. Conforme disse, não há aeroportos em Andorra e o único acesso é por terra. Ao descer no aeroporto de El Prat, é só chegar e perguntar pelos ônibus que vão para Andorra, que saem de duas em duas horas. É meio salgado, custou 30 euros
Visto também não é necessário para brasileiros. Se você chegou em Andorra é porque ou já desceu em um aeroporto da França ou da Espanha, então nem controle imigratório eles fazem.
Rapaz, morar naquela casa lá atrás deve ser bacana, né?
Como não consegui um couch, aluguei um cantinho pelo Airbnb e fiquei na casa de uma menina, que, veja você, era nascida e criada em Andorra. Foi a única nativa que conheci! Ela foi criada em uma cidade pequena e, quando mudou para a capital, teve que se acostumar em viver em uma cidade grande. Cara, se Andorra, a Velha, era cidade grande para ela, com 40.000 habitantes, fiquei pensando o que seria essa cidade pequena. Devia ser do tamanho de um quarto. Achei engraçado e lembrei como em países pequenos as comparações podem ser um pouco diferentes das nossas, que nem o cara de Granada (leia a história aqui).
Apesar de viver em um dos países com melhor qualidade de vida do mundo, ela me reclamava que a vida de lá não era tão boa, que pagava muito caro de aluguel, recebia pouco de salário e, realmente, vivia no fio da espada. Contribui para isso o fato dela não ter estudado e ficado 10 anos da vida viajando e morando em vários lugares da Europa diferentes. Aquela vida de quem acha que vai ser jovem para sempre e quando passa dos 40 vê que poderia ter se preocupado um pouco mais com a vida (enfim, pelo menos ela pode escolher isso, pior é a maioria da galera no Brasil que vive no fio da navalha e nem teve escolha). Ela me falava que tinha um amigo brasileiro, que até chegou a jogar futebol em Andorra que parecia ter uma vida bem melhor do que a dela, pois ainda que ele não fosse rico, vivia em uma fazenda. Era o sonho dela, já que isso é difícil em Andorra que quase não tem terra agricultável por ficar nas montanhas.
Como disse, Andorra é um país minúsculo e a atração por lá é fazer esqui e caminhada nas montanhas. Nenhuma das duas atividades me interessam. Só me restou dar uma volta pela cidade.
Andorra, a Velha, é aquele clichê de cidade bonitinha da Europa para se bater foto. Casinhas bonitinhas, flores na janela e cafés para casais de namorados fazerem juras de amor para sempre, ou seja, tédio para quem tinha acabado de chegar do caos africano. Interessante mesmo foi só visitar o antigo Parlamento de Andorra. Era uma casinha pequenina (tudo em Andorra é pequenino) e, ainda que pequenino, lá dentro funcionava o Parlamento, a Suprema Corte e, veja você, a cadeia.
Se você cometesse um crime sério, da esfera penal, era julgado ali mesmo e, caso sentenciado, já saía algemado direto para a cadeia, que, na verdade, era quase que uma masmorra, já que ficava no subsolo. Parece que faz pouco tempo que esses tais dos direitos humanos chegaram por aquelas terras. Como Andorra foi crescendo (em 1955 eles tinham 5.000 habitantes, hoje mais de 70.000, fora os turistas), eles construíram um outro prédio para servir de Parlamento e a cadeia também foi construída em outro lugar. Com uma vista um pouquinho melhor…
Se liga naquela casinha azul lááááá no fundo, no meio das montanhas. É ela hoje a prisão de Andorra. Parece uma boa ir preso lá, não?
Depois que comecei a me planejar que fui descobrindo diversas curiosidades sobre Andorra. É o único país no mundo que tem como língua oficial o Catalão (o Catalão é a língua oficial da Catalunha, uma região semi independente da Espanha, mas que não é um país). Apesar de parecer um paisinho de nada, é apenas o sexto menor da Europa depois de Vaticano, Mônaco, Liechtenstein, Malta e San Marino. Ainda assim, possui a capital mais alta da Europa que se chama curiosamente de Andorra, a Velha. O país possui uma das maiores qualidades de vida da Europa com a maior expectativa de vida (83,52 anos). Possui também a terceira maior taxa de imigrantes entre sua população da Europa. Nada mais nada menos que 57% (2015) das pessoas que vivem em Andorra são imigrantes. Continuar lendo “Curiosidades sobre Andorra”→
Inicialmente eu havia planejado apenas uma viagem pelo Norte da África. Até que, analisando as rotas, vi que uma das melhores seria pousando em Barcelona. Ali pertinho tinha um paisinho, bem pequeninho, mas bem pequenino mesmo, que eu só conhecia porque uma vez a seleção deles jogou com a seleção do Brasil e o Galvão, super gentil, dizia que o Brasil iria jogar futebol contra uma seleção cujos jogadores trabalhavam como padeiros. Era Andorra. Um pequeno principado que ficava encrustado entre a fronteira da França e da Espanha. Bem, porque não?
Umas das primeiras perguntas que todo mundo me faz quando eu digo que fui para a Coréia do Norte é, sem sombra de dúvidas, “mas como foi que tu conseguiste entrar lá” geralmente acompanhada de olhos arregalados e expressão de surpresa no rosto. Tudo bem, eu não culpo ninguém por isso, até porque antes se alguém me dissesse que também chegou de lá, a minha surpresa seria a mesma. Quando eu lia reportagens em revistas sobre a Coréia do Norte, era essa também a pergunta que vinha a cabeça.
É natural que as pessoas se surpreendam em saber que alguém viajou para um dos países mais fechados do mundo, como será que se consegue o visto? – eu também me perguntava. Eu só não esperava que fosse tão, mas TÃO fácil como foi para mim conseguir fazer essa viagem acontecer…
Uma das atrações que tivemos enquanto estávamos na Coréia do Norte foi a de visitar o Museu da Indústria Pesada de Pyongyang. Quando chegamos lá, nos deparamos com as diversas peças e produtos que são produzidas por lá e expostas em um museu. Sim, a situação lá é tão brava, que até peça de Lego (sim, esse Lego da foto acima “é norte-coreano”) ou móveis são exibidos em museus, produtos que estão longe da realidade de um norte-coreano normalLógico que tinha que ter uma foto do nosso amigo Kim Jong Il, com a particularidade que este novo quadro traz o novo líder da Coréia do Norte
Tudo começou quando veio uma ideia na minha cabeça “Rapaz, eu nunca visitei esse país, acho que seria legal ir lá” e comecei a pesquisar na internet sobre como fazia para entrar lá. Não existe visto de turista para um individual ir sozinho e passear pelo país. Para entrar lá, você precisa contratar uma empresa de turismo, que faz um pacote para você, você paga e eles são responsáveis por lhe proporcionar os passeios, três alimentações por dia, entrada em parques e atrações etc., basicamente, você paga por TUDO e só precisa gastar depois com presente e souvenir.
E essas são as crianças brincando no maquinário da fábricaLógico que sempre tem alguém batendo foto no trenzinho
Na América do Sul não existia nenhuma, algumas nos EUA e outras na Europa, principalmente em Londres. Cliquei em uma que parecia possuir representações em Pequim, Londres e, pasmem, Pyongyang. Bem, se uma empresa de turismo tem sede em Pyongyang, ela deve ser grande – pensei. Entrei em contato com o e-mail fornecido e no mesmo dia me responderam.Entrei no site www.wikitravel.org e comecei a pesquisar empresas de turismos que faziam pacotes para a Coréia do Norte. Tinha uma coisa na cabeça, eu não queria de forma alguma uma empresa que tivesse sede na China, se fosse para eu comprar que fosse com sede ou na Europa ou nas Américas. Pode chamar de preconceituoso ou o que for, mas quando é o seu dinheiro, você fica bem mais cuidadoso.
Mais algumas fotos da sombria Pyongyang
Fui ao Banco do Brasil e disse que queria fazer essa transferência, conversa daqui, conversa dali e o cara me falou que eu iria pagar quase 30% entre taxas, impostos e outros entraves para transferir essa grana. Bem, perder 650 euros já estava ficando caro demais. Mandei um e-mail para o David, expliquei o ocorrido e perguntei se ele não aceitava receber a grana dele por paypal. Qual foi a resposta? “Não, cara, relaxa, faz o seguinte, me paga 100% quando nos encontrarmos em Pequim” – um dia antes de ir para Pyongyang, que fique claro.Já tinha visto alguma coisa relacionado ao festival do Arirang em alguns documentários que vi na internet, de forma que mandei um e-mail dizendo que eu gostaria de ir nessa época. O David me respondeu e disse que sem problemas, quando estivesse próximo, ele iria me mandar uma mensagem. Desencanei.Meses depois, eu nem lembrava mais, recebi um e-mail da Juche Travels, a agência do David, me informando que o período estaria próximo e agora, com isso, eu deveria transferir 50% do valor como adiantamento. Cara, nessa hora você vê o que é ser frio. Transferir 500 euros, para uma conta aleatória, apenas baseado em alguns e-mails com alguém imaginário que você conversou na internet, é algo para deixar qualquer um preocupado. Como realmente queria viajar para lá, decidi que correr o risco de mandar 500 euros para a conta de algum espertalhão na internet era algo aceitável e que no final, se fosse mesmo um golpe, eu perderia “só” 500 euros.
Parecia fácil demais para ser verdade. Como assim, cara? Era a Coréia do Norte! Como assim eu não iria pagar nenhum adiantamento? E as despesas com reserva de passagem? Reserva de hotel? Juro que por um tempo fiquei imaginando que esse cara ia marcar um lugar comigo, me esperar e quando eu chegasse com 1050 euros no bolso, ia me dar uma pancada na nuca e eu ia acordar em uma piscina de gelo sem dinheiro e os rins. Diga aí se isso não é estranho? Parecia demais golpe! Parecia muito fácil. Você pode dar risada agora que eu voltei vivo, mas queria ver se fosse você no meu lugar. Bem, de qualquer forma dei prosseguimento ao plano. Tá certo que agora eu iria arriscar 1050 euros e dois rins, mas valia o risco.
Só fiquei mais tranquilo mesmo quando o David me mandou um e-mail dizendo que eu poderia tirar o visto aqui no Brasil e sair com ele já no meu passaporte. Bem, se havia uma embaixada no meio, a probabilidade de ser um golpe caía consideravelmente.
Depois de toda história que já contei em um outro post, cheguei lá e consegui meu visto. Cara, parecia ser verdade.
Pai e filho no melhor estilo Rei Leão “Filho, um dia tudo isso vai ser seu”
Até achei que era engodo quando liguei a primeira vez na embaixada e me falaram que não tinha nenhuma autorização de visto para mim, mas depois me mandaram uma mensagem dizendo que era engano e que eu poderia sim ir lá aplicar para o visto.
Só realmente acreditei quando vi o David em Pequim e no outro dia desci em Pyongyang. Com meus rins. O visto para China me deu mais trabalho que o visto para Coréia do Norte.
Criança se escondendo para não nos deixar fotografá-la na rua
DAVID, O NOSSO DONO
Acho que várias vezes citei o nome do David, mas acabou que eu não escrevi tanto sobre ele. O David, como falei em alguns posts, era o dono da agência de turismo que havia nos enviado para a Coréia do Norte. Ele é inglês e trabalha com exportação e importação. Há alguns anos atrás, ele viajou para a Coréia do Norte e pensou se não seria uma boa ideia abrir uma agência de turismo para fazer o mesmo. Pesquisou, entrou em negociação com a Coréia do Norte e abriu a sua agência. De início, a agência é só ele mesmo, ele que atende aos telefonemas, responde a dúvidas por e-mails e coisas do tipo, mas tem planos de agora aumentar um pouco a sua estrutura.
Confidenciou para gente que grande parte das pessoas que entram em contato com a agência dele possuem o mesmo tipo de receio, o de estarem caindo em um golpe ou algo assim devido o preço dele ser tão baixo. Um dos espanhóis quando transferiu o dinheiro para a conta do David transferiu com a seguinte mensagem “eu sei que não deveria estar fazendo isso, mas estou transferindo 2000 euros para a sua conta bancária neste exato momento”. Diz que para diminuir o receio das pessoas com ele, ele tentava na medida do possível responder no mesmo dia os e-mails que a ele eram enviados e quando a pessoa morava em Londres, marcava de tomar um chopp para explicar um pouco sobre a viagem. Além de, claro, tentar ao máximo sempre estar nas viagens do grupo a Coréia do Norte.
Populares nos olhavam desconfiados
E sim, ele era bem engraçado e tinha uma risada parecida com a do Rabugento, aquele cachorro da Corrida Maluca.
Ele também atiçava a nossa curiosidade e até levamos várias discussões com ele já que TODA noite ele ia beber com a gente. Houve uma discussão e o David trouxe um importante ponto de vista. Algumas pessoas argumentam que quando viajamos para a Coréia do Norte, estamos contribuindo para a manutenção do regime em si, pois estamos dando recursos para ele. Sim, tem gente que acredita que se não viajássemos para a Coréia do Norte, se parássemos de dar ajuda humanitária e deixássemos o regime basicamente colapsar, os Kims perderiam o poder. Bem, isso pode até ocorrer, mas a custo do sofrimento e morte de milhões de pessoas durante décadas. É fácil falar assim quando se está de bucho cheio.
Sim, pessoas dessa “fofura” são raras pelas ruas de Pyongyang
E foi aí que começaram os questionamentos. Dando dinheiro pra manter o regime? Quem é o regime? São os guias super gente boa que podem ter um bom emprego na Coréia do Norte por causa da gente? Parece que o dinheiro que a gente gasta vai direto para o bolso do notável, o que não é verdade. Vai mudar o mundo se não formos para lá? Vai fazer o regime cair? Não, pelo contrario! Isolar ainda mais o pais é pior do que fazer o que fazemos. Pelo menos geramos empregos e cada criança que nos vê acenando para ela pode saber que não somos um estrangeiro sádico que quer matá-la por nada. Tentar achar que a vida é bem mais simples do que ela efetivamente é não é a melhor resposta para tudo.
Guardinha de trânsito para um trânsito inexistente
Lógico que assim que você chega a Noronha, uma das primeiras curiosidades é como fazer para pegar mala e cuia e se mudar para lá. É possível? A resposta é, não, não é possível.
Fernando de Noronha é uma situação meio complicada. Não é uma cidade, é um distrito estadual, logo não tem prefeito. Grande parte da ilha é Parque Nacional, portanto tudo é muito difícil por lá e, conforme falei, turista tem que pagar uma taxa diária de preservação da ilha. Hoje a migração para lá é bem restrita e para se mudar de vez, tirando as pessoas que já moravam até a legislação atual, existem três caminhos:
1 – Ser parente de primeiro grau de alguém da ilha, ou seja, ter pai ou mãe noronhenses;
2 – Casar com alguém que seja morador permanente da ilha;
3 – Conseguir um trabalho em Noronha.
As duas primeiras são as únicas formas de conseguir morar permanente por lá. Conseguir um trabalho em Noronha nunca vai lhe dar o status de morador permanente da ilha, ainda que você viva lá por 50 anos. E, apesar da lógica apontar o contrário, a maioria das pessoas que conheci por lá tinham residência permanente em Noronha. Inclusive não era raro achar alguém que cumpria os três pré-requisitos: filho de noronhense, casado com noronhense e com trabalho fixo em Noronha.
Uma forma que eu vi algumas pessoas meio que “burlando” ao menos a taxa obrigatória aos turistas era por meio de amigos que tinham negócios na ilha e os “contratavam” para trabalhar por um mês ou dois. Assim, eles podiam ficar esse tempo de boa na ilha sem se preocupar com pagamento de taxa. Outra coisa que me falavam que ocorria era o cara que pagava sete dias de taxa e depois desse tempo se perdia na ilha. Alugava um lugar e ficava morando lá meio que “ilegal”. Diz até que dava certo, demorava algum tempo até alguém caguetar que ele estava ilegal e outro tempo para ser mandado embora. Diz que você paga uma multa por dia a mais que fica na ilha, mas geralmente quem fazia isso era bicho grilo sem patrimônio, se fosse botar ela para pagar multa ia dar um trabalho danado e acabava que simplesmente se contentavam em expulsar o cara e sumir com o processo dele. Apesar do caráter restritivo dessas normas, segundo os servidores que mergulharam com a gente, a população da ilha havia triplicado em 15 anos.
Conversei com alguns “forasteiros” que estava morando lá de forma temporária, trabalhando na ilha, e eles me relatavam os mesmo problemas dos moradores em relação a baixos salários e várias restrições. Apesar disso, todos gostavam de morar lá, ainda que em caráter temporário.
Outra forma de dar um jeito de estar sempre indo lá é abrindo um negócio em Noronha ao se associar com um noronhense, da forma que expliquei nesse post aqui. Quem fez isso foi aquele ator global Bruno Gagliasso que tem uma pousada em Noronha e sempre tá por lá.
Agência dos Correios em Noronha
Você reclama do preço da gasolina em sua cidade? É porque nunca foi a Noronha. Na época em que fui a gasolina de Brasília, uma das mais caras do Brasil, era três reais o litro. Se liga quanto era lá
Cara, ainda quando eu estava pedindo couch, as pessoas paravam para me perguntar “Ué, mas porque você escolheu a Argélia?”. Todo mundo me falava que não era um lugar muito turístico.
Quando tava na imigração, o oficial me perguntou a mesma coisa:
– Mas porque você escolheu viajar para a Argélia?
– Estou viajando pelo Norte da África, senhor, já fui na Tunísia, no Marrocos, na Mauritânia, no Egito…
– Sim, mas porque você escolheu a Argélia?
Isso ocorre porque existe um senso comum que não há nada turístico por lá, o que eu discordo. O centro histórico da cidade é muito bonito, todo em branco e tem o seu charme especial. E foram esses prédios brancos que acabaram me levando a ser conduzido para dentro de uma delegacia.
Tava eu ali, todo pimpão, batendo várias fotos e do nada eu escuto um apito de um guarda. Era um tiozinho com uma submetralhadora no pescoço apitando, apitando, mas assim, apitando como se fosse morrer. Eu achei que ele tava arrumando o trânsito e continuei pimpão batendo minhas fotos. O tiozinho começou a correr em minha direção e apitando e aí eu fui perceber que eu devia ter feito alguma coisa errada. Para evitar que ele parasse de usar o seu lindo apito e começasse a usar a sua temorosa submetralhadora, coloquei a câmera na mochila e fui calmamente caminhando em sua direção porque, bem, como uma vez aprendi no Vietnã, quem tem o maior rifle sempre tem razão (leia a história aqui). O tiozinho começou a gritar comigo em árabe e, vendo que eu não entendia nada, começou a gritar comigo em francês. Vendo que eu também não entendia nada, me puxou pelo braço e começou a me conduzir a delegacia. Não deu muito papo para eu conversar come ele não. Pronto, eu tava preso!
Fui caminhando com ele e, quando cheguei na cana, uma simpática senhora, que parecia ser a chefe do lugar, começou a falar comigo em inglês e a perguntar porque eu tava batendo fotos do lugar. Respondi que era só porque achava bonito aqueles prédios brancos e aquele porto e que não sabia se havia problema. Ela me falou que eu, basicamente, tava batendo fotos só do Quartel General da Polícia Nacional da Tunísia, do Quartel General da Marinha e dos navios de guerra da Argélia. Eles basicamente acharam que eu era um espião. Nada demais:
– Posso saber por que o senhor estava batendo fotos disso?
– Senhora, eu sou só um turista, não sabia que não era permitido bater fotos.
– Não existem turistas na Argélia. Se você é um turista, porque escolheu a Argélia?
– Senhora, estou viajando pelo Norte da África, pode checar os carimbos do meu passaporte, estive semana passada na Tunísia e na Mauritânia.
Ela olhou, folheou meu passaporte, checou os carimbos, folheou novamente, me olhou desconfiada e falou que tudo bem. Depois abriu um sorriso e começou a, veja você, me dar dicas de turismo sobre a Argélia:
– A Argélia é um país lindo, meu filho. Por que você está aqui em Argel? Sugiro você visitar o interior, fazer um passeio pelo Saara, ir a tal cidade de praia…
– Tome cuidado com sua câmera, há muitos ladrões por aqui! Não quero que você sai com má impressão daqui…
Sério, bicho, os caras na Argélia são tão gente boa, que a tia que há um segundo ia me prender de uma hora para outra começou a ser minha amiga. Ficou toda bonachona e sorridente comigo. Ela realmente parecia nutrir um genuíno sentimento de querer me ajudar e a falar sobre o seu país, o problema era que eu não conseguia prestar atenção em nada do que ela falava, pois só conseguia olhar para aquelas celas lá no fundo e minhas pernas não paravam de bambear. O frio na espinha chega subia e ia bater no coco da cabeça… Você pode ser o mais macho que for, mas duvido quem não gela em uma delegacia de uma país estrangeiro. Tudo o que eu mais queria era sair de lá o mais rápido possível…
Acabou que eu saí de lá aliviado. Depois, perambulando um pouco por Argel, achei um castelo no meio da praia. Dei uma volta nele, não tinha muita coisa, só umas paredes azulejadas. Parecia que estava sendo preparado para ser algum tipo de museu. Quando saí do castelo, resolvi bater uma foto dele do lado de fora. Rapaz, foi eu bater a foto e o apito começou a comer de novo.
As duas fotos que quase me deram cadeia
Priiiiii… priiiiii…. prriiiiiiiii
Ai caramba, lá vou eu preso novamente! Quando vi, veio um guardinha, dessa vez mais simpático e que falava inglês e perguntou porque eu tava batendo fotos ali. Respondi, que, caramba, era um castelo no meio de uma praia! Será se nem isso pode? Ele falou que tudo bem, mas que eu tinha batido a foto em um ângulo onde eu também fotografava algum quartel general militar qualquer que eu não entendi o nome e pediu para ver as fotos. Mostrei as duas que eu havia batido e ele pediu para eu apagar a primeira, que, realmente, pegava uma parte daquela caixa de fósforo que era aquele prédio. Nem eu tinha reparado. Depois que eu apaguei ele pediu desculpas, mas que ele só cumpria ordens. E, mais uma vez, começou a conversar comigo. Mano, os argelinos são muito gente boa.
Praça onde quase fui preso por estar batendo foto de outro quartel general
Acabou que depois daquilo ficou impossível para eu continuar no centro. Conforme eu falei, vez ou outra uns argelinos me gritavam para tentar conversar comigo e toda hora que algum fazia isso, eu achava que era a polícia de novo. Toda hora que um polícia apitava para arrumar o trânsito, eu achava que era comigo. Perdi a paz. Simplesmente peguei o metrô e fui para o jardim principal da cidade torcendo para que lá não houvesse algum quartel general bizarro e assim eu não tivesse que me ver com a polícia novamente.
Tirando isso só teve o fato de que na imigração eu escrevi que iria ficar em um hotel e fiquei na casa do Mohamed. Não sei se é porque sou burocrata, mas essas paradas de ficar mentindo em formulário me dão um medo danado. Sempre ficava com medo da polícia poder checar isso de uma forma ou de outra.
Mano, tive uma experiência muito legal com os argelinos. Eles eram gente boa demais e, por onde eu andava, eu parecia chamar bastante a atenção, eles realmente não são muito acostumados com turistas. Quando percebiam que eu era estrangeiro, um ou outro argelino vinha na rua querer falar comigo no pouco inglês que sabia falar. Isso quando não eles não começavam a gritar que nem uns loucos no meio da rua para chamar a minha atenção e eu achava que tinha feito alguma coisa errada! Mas não, era só para conversar comigo mesmo. E, rapaz, quando eu dizia que era brasileiro. Aí ferrava!
Tou até hoje impressionado com esse cara com essa camisa do Sport Recife que encontrei no meio de Argel
Os caras se danavam a falar de futebol! Eles são simplesmente apaixonados por futebol. Mas não era falar aquilo tipo “Neymar é bom demais!”. Não, mano! Os caras vinham falar da Copa de 86, da copa de 94, da copa de 82, falavam dos jogadores brasileiros daquela época. Bicho, teve um tiozão que me falou quase a seleção brasileira de 86 inteira. E falava com muito orgulho que eles quase desclassificaram o Brasil naquela Copa! De TRINTA anos atrás. Agora, não havia orgulho maior para eles do que quando eles falavam do sufoco que foi para a Alemanha desclassificar a Argélia nas oitavas na Copa no Brasil de 2014. Mano, naquele jogo a Argélia perdeu ganhando!
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Outra coisa que me chamou a atenção era que havia poucos negros nas ruas e os que havia era pedindo esmolas. Mohamed depois me explicou que eles eram refugiados da guerra que tá acontecendo no Mali e encontram paz em Argel devido ao espírito acolhedor e solidário dos argelinos. Assim, toda vez que entrava uma criança no ônibus ou no VLT eu nunca via ela sair sem nada porque os argelinos ajudavam bastante! Havia alguns poucos brancos pedindo esmola se dizendo ser refugiados sírios, o que Mohamed dizia ser mentira, já que na verdade eram argelinos se fazendo passar por sírios, pois, segundo ele, os sírios nunca pedem esmola e sempre se ajudam uns aos outros.
Refugiados negros esmolando em Argel
Vi também muita gente com os olhos claros, verdes e azuis, mais do que vi na Tunísia, por exemplo.
Por último, o mais interessante. Eu lembrei que havia ouvido falar que Niemeyer tinha algumas construções na Argélia e quando tive lá pude constatar. Nada mais, nada menos, que o principal monumento da Argélia, o monumento aos mártires que homenageia os mortos na Guerra Civil da Argélia e na Guerra da Independência, foi projetado por Oscar Niemeyer e inclusive é bem parecido com a Catedral de Brasília, seguem as fotos para comparação:
Outro monumento de Niemeyer em Argel
Cara, muito louco aquilo! Além daquele monumento, Niemeyer também projetou a Mesquita de Argel e algumas universidades pelo país.