





Se forem a Marrakesh, fiquem noEquity Point, sugiro demais.

O termo Marraquexe vem da língua nativa dos berberes e significa “A terra de Deus”. Ela foi por mais tempo capital que Fez, Rabat, Casablanca ou qualquer outra cidade do Marrocos.
Lógico que na primeira noite eu não tive coragem de sequer pisar fora do albergue. Vai que eu me perdesse e tivesse que sair perguntando novamente?
No outro dia pela manhã andava dois passos, parava, olhava para trás para decorar o caminho. Mais dois passos, olhava para trás. Cara, sério, eu tava pensando em fazer como João e Maria e sair jogando umas pedrinhas no chão para ir marcando o caminho de volta. Depois que fui descobrir que eu estava ficando do lado de uma das mais famosas mesquitas da Medina (centro histórico em Marraquexe), a Moassine. Eu falava em Moassine e o pessoal me apontava o caminho.

E essa acaba sendo a principal atração de lá. Se perder em uma cidade que foi fundada há mil anos. Fui a mesquitas e a zonas turísticas indicadas no guia. Eram até bonitas, mas legal mesmo era ficar perambulando por lá e pensar que há quase mil anos as pessoas trabalham da mesma forma com pouco mudando desde então.Esse receio todo, na verdade, foi só no primeiro dia. Cara, é impressionante, no segundo dia eu já tava me orientando muito bem dentro da Medina. Apesar das ruas apertadas e medievais, já não me perdia mais.


Engraçado que eu passava do lado dos vendedores e eles começavam “Hello, my friend. Como estas, tudo bien? Sa vá? Bongiorno!” iam mandando em várias línguas diferentes até achar qual era a minha para ganhar a minha simpatia e me vender algo. Vez ou outra até um “obrigado” rolava entre essas tentativas, ao que meu sorriso acabava denunciando que eles tinham acertado.Comerciam os mesmos artigos. As cores e o colorido, os diferentes tipos de cheiro de ervas, de especiarias e de sons, a gritaria dos mercantes, tudo era muito interessante. Senti-me tão extasiado quanto o guia da Coreia do Norte me falou que se sentiria se um dia viajasse pela Venezuela (confira a história aqui). A disposição das lojinhas, as vielas, os produtos expostos… Desviar da meninada correndo, das motinhas atravessando no meio da galera, dos burros puxando carroças (!!!) em caminhos que mal passavam três pessoas ao mesmo tempo… parecia demais aquelas cenas de filmes da idade média.
Outro dia eu tava parado do lado de uma mesquita com um mapa aberto e um cara se ofereceu para me ajudar. Pensei que, bem, quem sabe ele não queria só me ajudar mesmo? Lembrei inclusive de um ocorrido no Egito onde todo mundo foi super gente boa e sem interesse (história do Egito aqui).
O cara perguntou de onde eu era, puxando papo, e eu falei que era do Brasil. Depois de um tempo eu fui perceber que ele era um guia e, agradeci, falei que não queria o serviço. Cara, mas foi engraçado. Aí foi até o fim do dia todo mundo falando em um português comigo. Mano, esses bichos só podem ter um grupo do whatsapp onde compartilham “Brasileiro com cara de idiota caminhando pela cidade. Ataquem-no!”.






Depois de todo esse rolê por Chile, Bolívia e Peru, todos esses perrengues, quando cheguei em Lima eu estava só o pó da rabiola. Cansado demais.
Lá fiquei hospedado na casa de alguém que já foi famoso nesse blog aqui. O meu fiel escudeiro e parceiro de perrengues e presepadas do tempo da Austrália. Sim, fiquei na casa do grande Jonas!
Ao contrário da época da Austrália, onde eu e o Jonas éramos apenas dois moleques desesperados por tentar sobreviver na Austrália, em Lima a situação era totalmente o contrário. Jonas hoje é diplomata e mora em um apartamento super legal, em um bairro super legal chamado Miraflores.
Não teve jeito. Combinou meu cansaço, com aquele friozinho bom de ficar dormindo o dia inteiro, com o apartamento do Jonas, com o fato de que eu iria voltar a trabalhar logo depois quando voltasse ao Brasil (portanto não poderia chegar todo moído)… Passei dias só dormindo.
A maioria dos passeios foram aproveitar da diversidade gastronômica de Miraflores com o Jonas, o que na verdade foi bem bom.
Jonas começou a querer fazer eu me mexer:
– Levanta daí, seu cabra! Vai procurar alguma coisa para conhecer em Lima!
– Mas, Jonas, Lima é exatamente como todas as outras cidades que eu já fui no Peru e na Bolívia. Plaza del armas para cá, Catedral para lá, Incas para cá, Pizarro para lá.
– Sim, mas levanta e vai fazer alguma coisa da sua vida! Você viajou até aqui para ficar dormindo?
Acabou que um dia resolvi ir para o centro de Lima. Miraflores é um subúrbio de Lima, loooonnggeee de tudo. Peguei um táxi e gastei quase uma hora e meia para chegar. Quando cheguei lá, o que tinha?
Plaza del armas para cá, Catedral para lá, Incas para cá, Pizarro para lá. ¬¬
Melhor foi a hora de voltar.
Nenhum taxista queria me trazer de volta, pois era horário de pico e para eles compensava mais fazerem corridas curtas do que ficar uma hora e meia no trânsito para me deixar em Miraflores. Tive que pagar o dobro para um taxista aceitar me levar de volta. ¬¬
Outra coisa digna de nota foi que uma noite resolvi ficar em um albergue, sei lá, para ver se conhecia gente nova. Escolhi um quarto com duas beliches. Quem viria a ocupar as camas de cima? Os irmãos Ortiga que eu havia encontrado algumas vezes pelo caminho e inclusive escrevi sobre elas na história da truta maldita em Copacabana (se quiser conferir a história, clique aqui). Coincidência demais.
Fomos sair a noite por Miraflores.
Paramos em um bar para tomar uma caneca de cerveja que lá estava em promoção. Um litro de chopp! Ficamos lá conversando e tentando matar aquela monstruosidade de cerveja.
Depois seguimos pela rua, no centro de Miraflores e nunca fui tão assediado para ir em um puteiro quanto naquela vez. Toda hora chegava um cara querendo rebocar a gente para um. Fomos em um Subway para comer um lanche e um gordinho, segurança de uma balada de dentro do shopping, começou a conversar com a gente. Bicho, o cara era tão gente boa que acabou convencendo a entrar na balada dele. Falou que era de graça e lá a cerveja era barata.
Quando a gente entrou…
Não era um puteiro? Dentro de um shopping!!!! Tudo bem que era um minishopping e só funcionava a noite! Mas ainda assim era um puteiro dentro de um shopping!
O lugar ainda era decrépito, as pobres das meninas tinham aquelas caras de abandono e um bando de velho barrigudo lá dentro. Visão do inferno!
Acabou que ficamos zanzando por lá e eu fui dormir cedo, haja vista que no outro dia tinha meu voo de volta ao Brasil.



Sim, Machu Picchu era o motivo principal da minha viagem. Estava ansioso para poder chegar e poder caminhar a vontade por entre aquelas pedras que, de forma impressionante, ainda se mantinham quase que intactas. Machu Picchu deve a sua conservação a seu isolamento. Havia relatos de uma cidade perdida nas montanhas, mas sempre imaginou-se que fosse uma lenda (mais ou menos como Atlântida) e os espanhóis não chegaram a descobrir a cidade. Ainda bem, pois segundo um guia que conversava comigo, se os espanhóis tivessem chegado a Machu Picchu hoje teríamos uma igreja em cima dela.






Cheguei às quatro e meia e já tinha uma fila gigantesca. Tou eu lá, morrendo de sono, com a bunda no chão gelado, esperando, quando um guia fala para um grupo que tava logo na minha frente:
– Óh, tá vendo aqueles dois guias? Eles tão guardando lugar para um grupo. Isso não é justo! Vocês tão aqui esperando e não podem deixar eles entrarem na frente! Façam barulho quando o grupo chegar.
Deu cinco da manhã chegou o grupo que os guias tavam marcando lugar. É lógico que os gringos da frente não fizeram nada. Ah rapaz, eu não deixei barato. Pensei no tempo que eu estava lá, na minha bunda gelada e, bem, comecei a gritar:
– Ow, tem fila aqui, vocês não perceberam não? Amigos gringos!! Tem uma fila aqui atrás.
E os caras começaram a fingir que não era com eles. Comecei a pensar que, bem, eu ia ter que ficar lá até as cinco e meia da manhã. Se eu não tinha o que fazer, eu ia começar ao menos na zueira com eles. Zueira never ends. Comecei a gritar em inglês e portunhol (para a fila toda entender):
– Ow!! Quantos custou a “espertotaxa”? Eu não quero ser bobo de ficar na fila não! Eu quero ser esperto que nem vocês! Eu quero pagar essa espertotaxa que vocês pagaram!
– Nossa, eu sou gringo! Eu sou tão esperto! Vou para América Latina e vou fazer os latinos de idiota furando fila!
– Amigos gringoooooosss!!! A fiiiilllaaaaa!!! É você mesmo que eu tou falando!!! Você de camisa verde, boné verde, calça jeans e cara de espertalhão, vamos pegar a filaaaaa!!
Rapaz, daí começou meio que uma revolução! A fila inteira começou a gritar e os caras começaram a ficar visivelmente sem graça. E eu lá, tacando o terror e dando risada. Rapaz… Até que teve uma hora que um dos gringos, um galego imenso, virou para mim e me mandou eu calar a boca… Ah, bicho, aí eu virei um capeta do avesso. Lembrei de todas as vezes na Austrália quando me tratavam como lixo, me mandavam eu calar a boca e eu ficava caladinho, pois sabia que não tava em casa. Daquela vez eu não ia calar…
Comecei a gritar que ele não podia vir para América Latina e mandar os latinos se calarem. Quem ele achava que era! Um gringo sacaneando na minha casa! Comecei a gritar alto mesmo, que ele era um safado, um miserável, que fazia as coisas erradas e ainda queria me mandar calar a boca. Comecei a gritar tanto que acharam que eu ia sair na porrada com ele. Ele obviamente não esperava a minha reação e ficou com olhar de assustado enquanto a “turma do deixa disso” chegou e ficou me segurando. Obviamente eu não ia sair na mão com ele, além de ser idiotice brigar na rua, se fizesse isso, ia perder o passeio a Machu Picchu. Acabou que parte deles saíram da fila e foram lá para o final, só os mais velhos que ficaram. Eu vi que nem todos haviam saído, mas fiquei de boa, afinal, os que ficaram eram senhores de mais idade.

A fila começou a andar. Quando eu ainda tava um pouco atrás, um dos motoristas gritou “Aqui tem uma vaga no ônibus ainda! Tem alguém sozinho? Se tiver alguém sozinho pode passar a frente”. Eu me voluntariei e, quando eu vi o lugar que tinha para sentar… Rapaz… Parecia filme. Sentei do lado dos velhinhos que furaram. Deu até pena ver o tanto que eles tavam sem-graça, pois sabiam que tavam errados.
Esses aí nunca mais furam fila na vida.
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Águas Calientes é mais do que uma cidade apenas para chegar a Machu Picchu. Uma cidade de montanhas e uma noite muito legal. Para quem viaja de casal sugiro DEMAIS ficar lá por mais uma ou duas noites, já que lá tem umas piscinas termais e um clima perfeito.

