Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Apesar de todo mundo pensar que Cusco é a porta de entrada para MachuPicchu, não é assim. Ela é só a cidade grande mais próxima. A porta de entrada para Machu Picchu chama-se Águas Calientes. Para chegar a Machu Picchu você precisa chegar a Águas Calientes cujo caminho é como pamonha. Tem da doce e da salgada.
Se você estiver disposto a tirar o escorpião do bolso, pode entrar no site https://www.perurail.com/e comprar uma passagem de ida e volta em um trem super confortável que custa mais ou menos uns 140 dólares ida e volta, o tíquete mais barato. Na verdade, na verdade, o trem não sai de Cusco, sai de Poroy, uma cidade ao lado de Cusco onde os taxistas vão querer te enfiar a faca para te levar lá, mas que acaba saindo mais ou menos 25 soles (30 reais) cada corrida. O trem vai te deixar em Águas Calientes. Lá mesmo você pode comprar o seu tíquete para Machu Picchu que ainda fica em cima de uma montanha láááá em cima, assim você ainda vai precisar ainda pegar um ônibus para te levar lá ao custo de 20 dólares a passagem de ida e volta. Um bizú que todo mundo faz e economiza uns trocados é comprar um passeio para o Vale Sagrado dos Incas em Ollantaytambo, não voltar para Cusco e pegar o trem de ida de lá. O trem de volta é para Cusco/Poroy mesmo. Você economia uns 25 dólares fazendo isso. Essa é a pamonha doce.
PAMONHA SALGADA, A PAMONHA DOS MÃO-DE-VACA
Agora, paaaaaaaaaaara os mão-de-vaca, existe a outra opção, a pamonha salgada.
Vi alguns anúncios em Cusco que diziam “vá a Machu Picchu por 100 dólares com tudo incluso”. Sim! O “tudo incluso” incluía passagem de ida e volta a Águas Calientes, a entrada de Machu Picchu, hospedagem em Águas Calientes na noite anterior à subida a Machu Picchu, guia em Machu Picchu, almoço, jantar e café da manhã (os dois últimos em Águas Calientes). Parece bom, não? Qual que eu escolhi? É óbvio! A pamonha salgada pode não ser a mais gostosa, mas é que a sempre carrega mais histórias.
Paguei os 100 dólares e no outro dia de manhã segui para a minha jornada em direção a Machu Picchu. Quando digo jornada, é porque foi jornada mesmo, vou explicar como foi. Logo cedo fui para a Praça das Armas de Cusco e peguei a van para uma hidrelétrica. Disseram-me na agência que seria cinco horas de viagem. Na verdade foram SETE HORAS! Cara, uma coisa é você viajar sete horas em um banco confortável e reclinável de um ônibus, um veículo grande que mal chacoalha. Outra coisa é você passar sete horas em uma van que parece uma batedeira, sentado em uma cadeira que mais parece um bando de plástico.
Beleza, acabaram as sete horas DE VAN! Aí tem uma caminhada tranquila de apenas TRÊS HORAS! Sim, três horas de caminhada dessa hidrelétrica até Águas Calientes com um detalhe que, como você vai dormir lá, você tem que carregar uma mochila com roupas, máquina digital, itens de higiene pessoal…. Por TRÊS HORAS. No LOMBO! A caminhada no fim até que é legal, o caminho é bonito, vai seguindo a linha de um trem. Esse trem dá até para pegar, mas acaba que anda tão devagar que a gente que foi andando chegou primeiro que a galera que foi no trem, que era fedido e apertado. No caminho também vai uma galera caminhando, daí você pode ir conversando. Conheci um grupo de cinco gaúchas, alguns gringos e, o que eu fiquei mais tempo conversando, um grupo de três acreanos, duas meninas e um cara que eram gente boa demais. A gente foi dando risada na ida e na volta acabei que encontrei eles no caminho também.
Lá vem o trem!!!!
Depois de sete horas de van e quatro horas de caminhada (já que fomos batendo fotos e daí o caminho demorou mais) enfim estava eu em Águas Calientes. Os acreanos, mais espartanos, me falaram que não iriam pagar o ônibus para subir a Machu Picchu, iriam subir na perna mesmo. Uma hora sem parar. SUBINDO ESCADAS! Literalmente! Cê tá louco, minhas pernas valiam mais que dez dólares.
Chegando a Águas Calientes
Início das escadas para Machu Picchu
Agora, a volta foi em si mais tensa. Eles falaram que eu teria que sair onze e meia da manhã de Machu Picchu para às duas e meia estar na hidrelétrica.
Bagunça generalizada para encontrar as vans
Eu, mão-de-vaca, pensei “para que pagar um ônibus para descer? Para baixo todo santo ajuda!”. Cara, eu nunca tinha feito isso e não recomendo a ninguém. Descer uma hora de escadas é ruim demais. Cada degrau, quando você vai descer, concentra todo o peso do corpo em um joelho. No final meus joelhos estavam doendo demais. Isso porque eu ainda ia enfrentar mais duas horas e meia de caminhada, pois se você for sem parar, dá para fazer nesse tempo.
Mas o pior não foi isso. O pior foi a van mesmo. Cara, na ida eram sete horas de van, mas pelo menos era no claro. A volta era metade do caminho no escuro. Bicho, se você acha motorista de táxi louco no Brasil, é porque você não foi nessa van peruana. Você lembra do Senna tentando ultrapassar os carros em Mônaco naquelas pistas minúsculas? Lembra? Pois imagina o mesmo, só que um motorista conduzindo uma van com 20 pessoas, uma pista indo outra voltando e com um precipício de centenas de metros de altura do lado com nenhum tipo proteção na pista. Ele passava tão perto do precipício que você via as pedrinhas descendo ladeira abaixo. Isso, ele com o pé fundo no acelerador desviando das cruzes em túmulos de outros que por lá ficaram. O cara era louco demais. Tinha um Corola com uma pessoa dirigindo? O motorista da van não queria nem saber. Enfiava a mão na buzina, tentava ultrapassar NA CURVA ou na subida. O carinha do carro particular acelerava e não deixava a van passar, deixando o motorista ainda mais puto. E mais audacioso e maluco! E você ali, dentro de uma van, margeando um precipício e assistindo dois caras achando que estavam em um filme dos Velozes e Furiosos só, que, mais uma vez, o cara com uma van com 20 pessoas dentro. Quanto mais os carrinhos fechavam ele, mais ele ficava nervoso, mais ele ficava audacioso e mais você via o pneu da van se aproximando do precipício. Lendo agora eu dou risada, mas lá dentro foi uma das vezes que eu mais cheguei perto de morrer mesmo. O motorista da minha van pelo menos tinha uma aliança no dedo e era um pouco mais velho. Bem, ele tinha alguém esperando alguém em casa, então ele tinha que ser mais prudente – era o que eu pensava me agarrando no meio último fio de esperança. O motorista da van da frente era um moleque que parecia ter uns 18 anos (então com MUITA boa vontade ele tinha aprendido a dirigir há uns dois anos) e, segundo os relatos do brasileiros que estavam nela, ia ouvindo Wesley Safadão no caminho. Hoje tem!
Presta atenção como eram os desfiladeiros
Uma visão geral de como eram as estradas
Cara, hoje quando me perguntam “Claudiomar, pego o trem ou vou no mais barato” eu só respondo “Vá de van só se você não tiver amor a sua vida”. E o pior que falo sério
Cachorrinho que entrou em nossa van quando fomos comer e fez a maior bagunça lá dentro
Quando a van tava indo me buscar, me deparei com essa cena bizarra nas ruas de Cusco, uma mulher dentro de um saco plástico. Vai entender…
Depois de passar de boa pela Bolívia, enfrentando altitude de quase 5.000 metros de altitude, comer em lugares mais do que suspeitos por lá, chegou uma hora que meu corpo entregou as pontas.
Cusco era a cidade com menor possibilidade para eu passar mal, já que não era tão alta (3.400 metros) comparada com as pedreiras da Bolívia e, lá por ser uma das principais cidades turísticas do mundo, tinha um padrão de limpeza alto até mesmo para o Peru, que está longe de ser um país bagunçado. Fiquei em um hotel até arrumadinho (Arcangel Hotel chamava o lugar. De longe o melhor custo benefício que pude achar na cidade. Anotem esse nome) não em uma espelunca. Mas ainda assim, meu corpo não aguentou.
Comecei a sentir tonturas fazendo um passeio pelos arredores de Cusco e, por mais que eu chupasse balas de coca, eu não melhorava. No outro dia de manhã, ainda que tenha comido só frutas e pão integral, acordei vomitando, com um mal-estar ferrado e diarreia. Depois de algum tempo vendo que não ia melhorar, resolvi procurar um médico. Perguntei no hotel onde havia uma clínica onde eu pudesse ir e a mulher me deu um panfleto de uma próxima. Panfleto em inglês. Perguntei quanto mais ou menos iria sair uma consulta e ela me disse que uns cem reais. Bem, tava valendo.
Quando eu tava indo em direção a clínica me deparei com essa placa super amigável. Não sei o que é Justiça Popular, mas algo bom não deve ser…
Chegando à clínica, todo mundo lá só falava em inglês. Tava na cara que era clínica de gringo. Aquilo não ia me sair barato. A atendente já foi me atendendo em inglês e eu explicando o que eu tinha:
– Tudo bem, você precisar ver um médico.
– E quanto isso vai me custar?
– 160 solis (uns 180 reais)
– 160?!?!?!?!? Pois depois que eu morrer eu volto!
Levantei e quando fui saindo da clínica ela veio atrás dizendo “não, não, a gente faz por 80!”. Hahahahaha. Dá para acreditar? Oh yeah!
Fui encontrar com a médica, que me atendeu em inglês, que me passou um bando de remédio, entre eles um antibiótico. Falou que eu estava com baixa oxigenação no sangue devido a altitude. Cara, saí, comprei os remédios, mas realmente não queria tomar antibiótico pois eles ferram o estômago e saem matando tudo, bactéria boa e ruim dentro de você. Além de, claro, deixar o seu corpo resistente a novos antibióticos em uma situação real de emergência.
Mandei uma mensagem para uma prima no Brasil que é médica, passei o quadro para ela por telefone e ela chamou a médica peruana só de louca. Falou que nunca que eu precisaria tomar antibiótico por causa daquilo. Me sugeriu só ficar tomando bastante água, me hidratar com o Gatorade peruano que eu tinha comprado e pronto. Joguei os antibióticos fora e em um dia eu já tava zerado de novo. Corpo Humano 1 X 0 Remédios.
Os incas não chegaram a desenhar constelações no céu como os gregos, mas acreditavam também que as estrelas tinham algo para nos contar. A Via Láctea era como um rio. Dentro da Via Láctea há “buracos” que formam silhuetas em formas de animais. Nessa foto é possível ver uma serpente, um sapo e outros bichos “bebendo água” na Via Láctea
Cusco vista de cimaQualquer problema, siga para a rua da foto, a rua “raio que o parta”
Viajar é conhecer pessoas extraordinárias e engraçadas. Essa menina tinha uma lojinha bem próxima do meu hotel. Cara, ela era simpática de uma forma que me impressionou. Andava pela loja atendendo os clientes com um sorriso tão grande no rosto que cativava. Além de que adorei a loja dela
Amigos de Brasília que encontrei em Cusco. O rapaz bonitão ali foi o que me obrigou a comer Cuy.
Cara, chegar a Cuzco é algo muito legal. Todo mundo viaja para a cidade imaginando que ela vai ser só um porto de entrada para Machu Picchu e acaba ficando por dias, como eu.
Cuzco significa “umbigo do mundo” em quéchua e era a capital do antigo império Inca, então o que não faltam são coisas para ver por lá. A gente acha o máximo Brasília ter sido construída em formato de avião. Pois, Cusco foi construída em formato de Puma.
Foto retirada da internet
Diz aí se isso não é mais estiloso? É uma das maiores cidades do mundo construídas apenas com base em pedras e foi fundada por Manco Capa, o primeiro imperador inca. O que mais impressiona em Cusco são as paredes de pedra, algumas pedras com 15 e 20 toneladas, perfeitamente encaixadas sem a utilização de nenhuma argamassa. Tão perfeitamente encaixadas que é impossível passar uma agulha entre elas.
Pedras perfeitamente encaixadas
Paredes levemente inclinadas para suportar terremotos
Além disso as paredes eram levantadas em um formato levemente inclinado para evitar que caíssem em caso de terremoto.
É um mistério como essas pedras foram colocadas lá, um feito de engenharia gigantesco até mesmo para os dias de hoje.
Os espanhóis obviamente chegaram apavorando a cidade, matando, saqueando e destruindo o que viam pela frente. A primeira igreja em Cusco é fundada já em 1519 na principal praça da cidade construída sob os muros de pedras levantados pelos incas.
Cusco é um dos principais motivos de orgulho do peruanos e símbolo de um passado que já foi grandioso para os incas. As escolas da cidade hoje ensinam quéchua para que seja possível manter a tradição e, na praça principal, Praça das Armas, há um memorial em homenagem a Tupac Amaru que comandou uma revolta em 1780 contra os espanhóis. No memorial é possível ler a mensagem “E no final não conseguiram nos matar” lembrando que mesmo depois de 500 anos a cultura inca ainda continua no Peru. Os peruanos são tão orgulhosos do seu passado inca que a moeda do país chama-se Soles, em homenagem ao Deus Sol Inca.
Lá em Cusco é muito simples distinguir quem são os turistas de quem são os locais. Basta prestar atenção nas roupas. Se o cara tiver andando na rua com aquelas roupas de flautista peruano, pode ter certeza que é turista. Os cusquenhos tiram sarro disso, já que todos eles gostam de andar bem vestidos e há tempos não usam aquelas roupas. Outra coisa engraçada é que lá em Cusco parece que as ruas mudam de nome em cada esquina. Você vai andando em linha reta e a cada 50 metros a rua muda de nome. É ótimo para se perder por lá.
Esse porquinho chama-se Cuy. Ele é um prato típico de Cusco que é servido dessa forma gentil com a carinha de UUUUUEEENNN!
Enquanto passávamos por entre os paredões de pedra de Cusco esses meninos começaram a fazer uma farra danada próximo do meu grupo. Ri demais deles que me lembraram o quanto eu era atentado quando criança
Depois de passear pela Catedral de Arequipa, pelo Monastério de Santa Catalina e de quase ter a cama mijada no albergue, chegou o momento de seguir para Cuzco.
Quando ainda estava em La Paz, perguntei a mulher do albergue (Bacoo Hostel, guardem esse nome para nunca ficar naquela espelunca em La Paz, fiquem no Wild Rover), antes de ela me vender a passagem para Copacabana, quanto tempo duraria de ônibus de Arequipa a Cuzco. Ela me disse que duraria quatro horas, o que era mentira, já que a passagem durava 12 horas. Acho que fez isso só pelo prazer de mentir mesmo. Na Bolívia você sempre tem que estar desconfiado. Quando olhei no mapa, nem parecia tão longe, mas, é como falei, no Peru e na Bolívia você sempre tem que lembrar que existem montanhas. O jeito foi encarar outra viagem de ônibus de 12 horas pela noite. A terceira noite que eu iria dormir em um ônibus em menos de uma semana e meia e a segunda seguida, já que eu cheguei de madrugada em Arequipa e ia embora no mesmo dia. Além disso, para piorar tudo, mais uma vez era feriado no Peru, parece que nos Andes eles resolvem comemorar feriado sempre na época que eu preciso viajar de ônibus.
Depois do Monastério, peguei um táxi com o taxista mais mal-humorado que conheci na vida. Pelo menos o ônibus não estava caindo aos pedaços como os da Bolívia. Procurei o meu banco e do meu lado sentou uma Cholita com bebezinho de colo que era uma gracinha. Tudo tranquilo.
Até chegar a noite.
Em uma dessas viagens pelo Peru teve uma vez que até um cachorrinho subiu em uma van que eu viajava. Bonitinho ele, né?
Cara, a noite despertei de uma vez com um frio imenso! Mas não era aquele frio de boa não. Era realmente um frio grande, do lado de fora com certeza estava negativo e o busão não tinha aquecedor. Olhei para fora e imaginei que já estava amanhecendo, então era só esperar o sol aparecer e ficar de boa. Porém depois de mais ou menos uma meia hora o sol não parecia que ia aparecer tão cedo. Não, não estava amanhecendo, era noite de lua cheia. Eram duas da manhã. A tia do meu lado estava com o seu bebezinho no colo e cada sacolejada que o busão dava, ela ia jogando o bebezinho mais perto do meu colo. Eu ia lá e devolvia ele à mãe.
Tecla Pause
Você acha isso desleixo materno? Um amigo, em um desses ônibus na Bolívia, entrou e quando foi colocar a mochila naquelas prateleiras no teto do busão se deparou com um lindo bebezinho deixado pela mãe que estava abaixo. De boa, né?
Tecla Play
Mas, cara, a cholita do meu lado tinha colocado uns dez lençóis enrolados naquele bebê, ele mais parecia um casulo. Um casulo quentinho… Me abracei a esse casulinho boliviano e comecei a me esquentar. Porém chegou um momento em que meus pés começaram a ficar dormentes. Fiquei com medo de meus dedos do pé congelarem. Cara, no desespero eu decidi tentar falar com o motorista para ele parar o ônibus e eu poder pegar algumas meias na minha mochila.
Rapaz, não é que quando eu chego perto da cadeira do motorista do ônibus tinha uns três edredons lá? Provavelmente seriam para ele, mas, nessas horas, tudo o que você pensa é nos dedos do seu pé. Surrupiei dois e levei para o meu banco como se nada tivesse acontecido. Bem vindo a selva, amigão. Com esses edredons consegui me esquentar de boa e seguir viagem.
O pobre do motorista deve estar se tremendo até hoje.
Arequipa foi supostamente fundada por Pizarro em 1540 e já em 1579 foi fundado um monastério que, por algum tempo, foi o maior do Peru. Como nunca havia feito uma vista a um monastério para valer, resolvi pagar a absurda quantia de dez reais e realizar uma visita guiada por ele.
Hoje vivem 14 monjas naquele monastério com idades variando entre 26 e 65 anos. Porém, na época áurea esse número poderia ser até dez vezes maior. Hoje as regras a que estão sujeitas as monjas são mais flexíveis, porém vou descrever como era na época em que o Monastério foi criado pois são mais interessantes os relatos antigos que os atuais.
As monjas viviam em regime de completo isolamento frente ao mundo exterior. Qualquer contato era realizado por uma parede onde havia uma venda e elas só conseguiam ouvir quem estava fora. Para pegar comprar coisas como remédios e mantimentos, havia uma gaveta onde era possível fazer essa troca.
Sala onde havia “contato” com o mundo exterior
Se quisessem sair para ver alguém ou receber uma vista, um familiar ou algo assim, teriam que receber autorização do bispo, o que nem sempre era concedido.
Só a elite do Peru fazia parte desse convento, pois ele era extremamente caro. Para ser aceita, a família da monja teria que pagar 2400 moedas de prata, uma fortuna na época, que era dividida em suaves prestações de quatro anos, período que levava para a iniciada ser convertida em monja. Com esse recurso era mantido todo o Monastério, pois um dote era o necessário para bancar até 10 anos de manutenção.
Lá dentro as monjas trabalhavam confeccionando hóstias e roupas para padres e elas podiam ter até oito escravas para ajudar nos afazeres domésticos. Dormiam em uns quartinhos que mais pareciam quitinetes, com fogão, uma salinha e coisas assim. Às escravas era possível sair vez ou outra do monastério, desde que a monja que detinha a escrava autorizasse. Outra coisa que achei interessante é que caso uma monja ficasse doente um médico era chamado. Era amarrado um cinto com sinos em sua cintura e, ao ouvir o barulho dos sinos, as monjas deveriam entrar para seus aposentos, pois só a monja principal e a doente teriam contato com o médico.
Como as monjas viviam em um regime de clausura dedicado a muito estudo, elas eram bem mais instruídas do que a maioria do povo da cidade e bastante procuradas a busca de conselhos que iam desde a esfera íntima à esfera política. Não é de se estranhar que convulsões políticas tenham acontecido com envolvimento, ainda que tênue, das monjas. Até mesmo refugiadas políticas foram aceitas pelas monjas que as hospedavam e as guardavam até o momento em que a poeira baixasse. O exército costumava respeitar o Monastério e não o invadia, porém após algum tempo esse asilo deixou de ser concedido porque já tava virando bagunça. Ainda assim, o Monastério ficou asilando mulheres que necessitavam de ajuda, como mães solteiras expulsas da família.
Essas são algumas das dezenas de histórias que os guias vão narrando enquanto entramos naquele labirinto de quartos, corredores e salões. A visita guiada ao Monastério vale muito a pena, pois o lugar em si é muito impressionante.
Arequipa vale demais a visita, nem que seja para se chegar pela manhã e ir embora pela tarde, como fiz. O monastério e a catedral de Arequipa foram dois dos lugares mais bonitos por onde já pude viajar, de forma que recomendo demais.
Enquanto estávamos realizado o tour pela Catedral de Arequipa fomos brindados com o pianista ensaiando no órgão centenário da Catedral. Impressionante o som e a opulência do órgão.
Arequipa se destaca pela sua Praça das Armas (ao que parece, em todas as cidades da América do Sul a praça principal é chamada de Praça das Armas). Grande, elegante e muito frequentada.
Enquanto no Brasil a gente se refere aos pombos como ratos de asa, eles não parecem ser um problema em Arequipa. Rapaz, você andava pela praça, era pombo para todo lado e a meninada fazendo a festa. O mesmo ritual:
1 – O pai jogava milho
2 – O pombo vinha tentar comer
3 – A criança ia correndo
4 – A criança tentava chutar o pombo
5 – O pombo ia embora com fome
Isso de dois em dois minutos. O pombo vinha desesperado tentar comer, a criança ia desesperada tentar chutar e ficavam naquela brincadeira sadia por horas…
Nesta praça se encontra uma Catedral o qual não há outro adjetivo para se referir a ela que não “impressionante”. Ela é gigantesca e lá dentro dá para fazer uma visita guiada que custa 10 soles (12 reais) e vale muito a pena.
De início a gente já dá de cara com um altar todo feito em mármore Carrara.
Pelo corredor 12 apóstolos esculpidos em Gênova.
Mais a frente um púlpito todo em madeira esculpido na França
Reparem no demônio sendo esmagado embaixo e no detalhe dele
Toda vez que eu entro em uma catedral da Bolívia, do Peru e do México eu fico pensando como as catedrais desses países são absurdamente maiores, mais luxuosas e ricas e mais imponentes do que as nossas. Acho que os maiores centros católicos brasileiros são a Basílica de Aparecida, a Catedral da Sé de São Paulo e o Templo de Maringá, todos construídos no século XX e que estão longe de rivalizar com as catedrais do século XVI desses outros países latinos. Talvez só o Templo de Salomão do megalomaníaco Edir Macedo possa rivalizar com elas, porém, volto a reiterar, construído no século XX. Você só tem noção da riqueza e do quanto essas colônias foram exploradas pela Espanha logo após o descobrimento quando entra nessas catedrais. Enquanto o Brasil passou séculos como terra de ninguém e só conheceu uma exploração plena no ciclo do ouro (lá pelos fins do século XVII) em Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, a exploração e saque desses países ocorreram ainda no Século XVI, o que se explica essas catedrais tão imponentes.
Cheguei a Arequipa ainda de madrugada. Corri para um albergue para poder tentar dormir, já que, passar a noite em ônibus, sabe como é. Ao fazer o check-in no albergue, o carinha da recepção foi até gente boa e me deixou ir para minha cama as quatro da manhã quando eu teria direito a ir só meio dia. Loki Hostel de Arequipa, fiquem nesse lugar senhores, o melhor albergue da cidade. Peguei as mochilas, segui para o quarto com vinte beliches, joguei a mochila no chão, troquei de roupa e me preparei para dormir. Quando eu coloco a cabeça no travesseiro sinto aquele peso na cabeça característico de quem vai pegar no sono em alguns minutos. Minutos. Infelizmente não em segundos.
Quando eu tava para pegar no sono, escuto o diálogo:
– Gary, o que diabos você está fazendo?!??!!?!??!
– Ora o que estou fazendo! Estou mijando! Bebi demais ontem a noite!
– SEU IDIOTA, VOCÊ NÃO ESTÁ NO BANHEIRO, VOCÊ ESTÁ MIJANDO A SUA CAMA!!
Sim, cara, o bicho da beliche ao lado estava tão bêbado que começou a mijar na cama. Aí foi aquela zorra. Liga a luz, chama o cara da recepção, acorda o quarto inteiro, pega o moleque pelo braço para se limpar, não deixa o cara que tava na cama de baixo dar porrada nele… Enfim, quando terminou toda aquela zorra já era de manhã e eu resolvi ir conhecer a cidade.
Não foi a primeira “boas-vindas” que tive hospedado em um albergue.
Fui passear na cidade onde umas das principais vantagens foi que, pela primeira vez depois de semanas, eu tive a oportunidade de usar sandálias e bermuda, luxo que não pude ter em La Paz. Como Arequipa está a “apenas” 2.300m de altitude, ela não era tão fria e assim pude, enfim, novamente, me livrar de calça e tênis.
Porque bater uma foto nem sempre parece tão fácil quanto parece…
O guia não sabia que estava me filmando, daí saiu esta pérola deste vídeo. Pô, achei engraçado eu lá pulando que nem um besta sem saber que ele não tava batendo foto de coisa alguma…
Prestar atenção também na musiquinha irritante atrás. Sim, a gente foi ouvindo ela por três dias.
A mesma música.
Depois de uma caminhada de quase uma hora morro acima, a quase 4.000 metros de altura, cheguei ao Observatório dos Incas que todos falavam que valia muito a pena visitar. Quando cheguei, era só uma pedra em cima da outra. Pelo menos a vista de Copacabana e do Lago Titicaca valia o esforço. Prestar atenção a respiração ofegante…
O observatório era utilizado pelos astrônomos incas para observar as estrelas e determinar o início do ano-novo inca, que ocorria após o solstício de primavera, 20 de março, ao contrário do nosso que comemoramos em 1º de janeiro.