Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Por incrível que pareça, a Guiana é mais fácil de acessar que o Suriname. Ela tem conexão por terra com o Brasil. Você pode pegar um voo para Boa Vista, de Boa Vista dá para pegar um taxa até Bonfim e de lá atravessar por uma balsa para a cidade de Lethem, na Guiana.
Anúncio de viagens a Lethem em direção a fronteira do Brasil. Georgetown
De Lethem é possível seguir para Georgetown, capital da Guiana, por pequenas aeronaves que saem diariamente e não precisa (ou não tem como) marcar com antecedência, basta chegar lá e pegar. Ou então você pode encarar uma viagem por terra (e a palavra é encarar mesmo) onde leva entre 10 a 16 horas dependendo de que estação do ano você está. Paga-se por volta de 150 reais por um trecho.
Outra forma é por meio de voo com a Surinam Airlines. Dá para sair de Belém, com escala em Caiena e Paramaribo. Lembrando, mais uma vez, que não é possível comprar passagem pela internet da Surinam Airlines se a sua origem não for Paramaribo. Se você sai de Paramaribo para algum lugar, tudo bem, mas se viaja, por exemplo, de Belém para Paramaribo tem que comprar com agências de turismo.
Por terra também é possível alcançar o Suriname, porém não a Venezuela. A Guiana apesar de ser um país pequeno tem problemas territoriais tanto com o Suriname quanto com a Venezuela que clama por quase metade das terras da já pequena Guiana. Devido ao esfriamento das relações dos dois países em relação a isso, não há fronteira por terra entre Venezuela e Guiana.
Embaixada brasileira em Georgetown
E O VISTO? COMO FAZ?
Brasileiros não necessitam de visto para ir a Guiana
Na verdade, o único problema que acabei tendo mesmo na Guiana foi na Imigração. Pode parecer estranho, mas a Guiana foi um dos lugares mais chatos na imigração até hoje. Conseguiu ser pior do que a de Trindade e Tobago (ver nesse link). Quando foi minha vez, o funcionário da imigração começou a me bombardear de pergunta, queria saber para onde eu ia, onde eu ia ficar, o que eu fazia no Brasil… Enfim, o cara começou a praticamente me interrogar. Só a título de curiosidade, tirando algumas poucas pequenas ilhas, eu nunca havia pousado em um aeroporto onde não houvesse esteira de bagagem. Até pousar na CAPITAL da Guiana. Eu ficava pensando se o cara realmente imaginava que eu poderia pensar em me perder pela Guiana enquanto observava as malas chegando em um carrinho com um cara puxando na mão e as jogando no chão. Pensava se ele me interrogava sério mesmo ou só de zueira. Mal sabia eu que isso seria o menor dos problemas em Georgetown.
Bairro brasileiro em Georgetown. Repare nas placas escritas em português
Aqui é o lugar para quem gosta de bife “assebolado”Pode não ter muita coisa em Georgetown, mas uma Igreja Universal não poderia faltar. Fui lá conversar com o pessoal e perguntar se os cultos eram em inglês e eles me disseram que às vezes era em inglês, para os guianos, e as vezes era em português, para os brasileiros. Quando fui embora, agradeci a gentileza e falei “Obrigado por me responder as perguntas, fiquei curioso porque essa é uma igreja do Brasil” ao passo que fui corrigido “Não, não é uma igreja do Brasil, é a NOSSA Igreja!”. E viva Edir Macedo!
É engraçado como nesses países minúsculos a noção de espaço é diferente da nossa. Para os granadinos a ilha é grande demais…
Teve um cara que eu perguntei onde era a melhor praia para mergulhar, ele me apontou a praia no mapa, chegou outro e falou, zoando, que aquela praia era um lixo. Quando ele foi embora, o primeiro cara me falou “liga não, ele tá me zoando porque eu sou do litoral do país e ele nasceu nas montanhas” (!!!!). Cara!!! De uma ponta a outra do país, deve ter uns 20 quilômetros!!! E eles se estranhando porque um cara do litoral achava que um do interior não sabia nada sobre praia! Isso quando eu não perguntava onde comprar algo específico e o cara só respondia “Ih, isso só em outra cidade”. Quando eu via, a cidade era a quatro quilômetros de onde eu estava.
Em Granada não tem ônibus, só minivan, o que não quer dizer que não funcione muito bem e nem seja divertido. As vanzinhas são rápidas e totalmente malucas. Os motoristas achavam que estavam pilotando carros de Fórmula 1, um querendo ultrapassar o outro! Falando em transporte, em Granada aconteceu algo que nunca havia acontecido comigo em lugar algum do planeta.
Apesar de eu ter sido enrolado assim que cheguei a Granada por uma dessas vans (inclusive o cobrador ladrão parecia super gente boa me dizendo que poderia conseguir qualquer coisa em Granada dando bastante ênfase no “qualquer coisa”), a melhor lembrança que levo de Granada é a de como um país pode ter pessoas tão simpáticas quanto lá.Eu estava sentado esperando uma van e parou um caminhãozinho do meu lado. Achei que ele estava me pedindo informação, mas só depois que eu vi que ele estava oferecendo carona para mim e para a menina que aguardava no ponto. Eu já havia conseguido carona em outros lugares, porém sempre pedindo, nunca alguém havia parado para me OFERECER carona sem eu pedir. Isso porque o cara ainda foi um pouco além de onde ele estava planejando só para poder me deixar na entrada da praia que eu ia.
COMO CHEGAR À GRANADA
Cara, chegar lá é muito fácil. Existem diversas companhias aéreas que voam para lá. Até voo direto para Miami tem. A maioria dos voos vai ser pela Liat ou Caribbean Airlines. Eu voei de Liat em um aviãozinho que não tinha nem turbina, era a hélice mesmo, mas foi e voltou de boa.
Algo engraçado e bastante burro de minha parte foi que, como eu só peguei voo saindo cedo pela manhã (Essa não foi a parte burra. Fiz isso porque no Caribe você não aproveita a noite e sim o dia. É bom chegar cedo para aproveitar o dia), sempre chegava morrendo de sono no avião esperando dormir. Só que o avião era pequeno e não tinha daquelas poltronas de aeronaves comuns, na verdade pareciam mesmo eram aquelas cadeiras de praia, o que me levou a crer que elas não reclinavam. Só no meu último voo é que eu fui descobrir que elas reclinavam! É, agora saio de idiota, mas eu entrava tão lesado de sono no avião que nunca me passou pela cabeça perguntar à aeromoça como reclinava a poltrona.
Estátua feita por sobrevivente de um naufrágio em agradecimento ao socorro prestado por granadinos
COMO TIRAR VISTO
Granada é mais um país da América Central onde não é necessário visto. Você chega ao aeroporto e, pimba!, eles carimbam seu passaporte e é só alegria. Só precisa, como na maioria dos países, ter um lugar onde vai ficar. Aí é só pegar no guia, escrever o nome de qualquer hotelzinho e tá tranquilo. Tecnicamente você não está mentindo, você está escrevendo o lugar que você acha que vai ficar. É o que eu sempre faço
TENTANDO CHEGAR À GRANADA
Cara, não tive sorte com voos. Em toda essa viagem, mais da metade dos meus voos atrasaram ou foram cancelados sempre da pior forma possível.
O voo de Belém para o Suriname atrasou quase oito horas. Tranquilo, segundo o que vi os passageiros falando, não era nem para se estressar, já que a Surinam Airways é famosa por não cumprir horários. Do Suriname para Trinidade e Tobago peguei o primeiro voo do dia. Avião no pátio, impossível dar problema. Bem, como a Surinam Airways é zelosa, fez questão de atrasar em meia hora o voo só para eu achar que a vida não é muito fácil.
Por último houve o voo Trinidade e Tobago – Granada. Voo tranquilo, horário ótimo, cinco horas da manhã. Simplesmente, Deus sabe porque, cancelaram o meu voo e me enfiaram em um outro meia hora depois. Tranquilo se não houvesse QUATRO ESCALAS até eu chegar em Granada. Cara, uma ponta a outra do Maranhão é mais longa do que a distância entre Trinidade e Tobago e Granada, mas ainda assim eu iria fazer um périplo pela América Central que, em horas, daria para cruzar o Brasil de uma ponta a outra. De Trinidade seguimos para São Vicente e Granadinas, depois para Santa Lúcia, depois para Barbados e só depois, quatro horas após, descemos em Granada. Isso não foi uma viagem, foi uma epopeia!
Vários locais onde viajei pelo Caribe possuíam placas como essa dizendo que não aceitariam “linguagem obscena”. Realmente isso deve ser um problema por lá.
Essa semana se inicia com dois pequenos marcos sendo atingidos. Primeiro, a página que mantenho do livro/blog no Facebook ultrapassou a marca das 500 curtidas. Ainda não é um Luciano Huck, mas vamos indo com um passo de cada vez. Quem ainda não curtiu e quiser curtir, é só clicar no link aqui.
Além da página outro marco simbólico que foi ultrapassado essa semana foi o de 200 livros vendidos. Digo “passou dos 200” e não “vendi 200” porque o controle aqui é meio caótico, já que agora até meu irmão tá vendendo livro também! Olhando assim o número por si só, ele parece meio frio, “200”. Porém a minha satisfação é entre esses 200 receber os comentários como:
– Claudiomar, eu comprei o livro e deixei aqui no quarto para poder ir lendo aos poucos. Meu pai acho ele, pegou, começou a ler e não me deixou tocar o livro enquanto ele não terminasse!
– Claudiomar, fazia anos que eu não lia um livro. Confesso que comprei o seu só para te ajudar (?!?!), mas depois que eu comecei, cara, li em menos de uma semana!!
– Claudiomar, meu primo tinha comprado um livro e quando fui passar um tempo na casa dele, peguei e comecei a ler. Rapaz, não consegui parar e nem terminar a tempo! Agora vou ter que comprar um, já que não terminei a leitura e ele não quer me emprestar de jeito nenhum!
– Claudiomar, esse teu livro é daqueles que agarra a gente pela goela e só deixa a gente ficar em paz quando termina de ler!
Parte dessas pessoas inclusive estão no meu Facebook e poderão ler isso 😉
Fora as diversas pessoas que leram e vem comentar das risadas, das histórias preferidas, das presepadas, de como gostaram de ler! Se hoje eu não vendesse mais nenhum, parasse nesses 200, ainda assim já teria valido a pena…
Que logo logo eu possa escrever comemorando os 100.000 livros vendidos! Sonhar pequeno e sonhar grande dá o mesmo trabalho =)
P.s: Optei por postar a página onde tem a descrição da equipe atuante no livro. Ficou engraçado, mas realmente ilustra como tem sido complicado eu ter que ir tocando tudo, tirando os toques que todos me dão, quase que sozinho!
P.s2: Galera de Brasília que quiser adquirir, dia 19 de março, quinta feira, vai ocorrer o lançamento no Bar Moisés na 208 sul. Mais detalhes do evento aqui:
Hoje de manhã recebi uma chamada no interfone e achava que já era alguém reclamando que eu tava tentando tocar algo no violão. Nada! Era o porteiro dizendo que “tinham chegados uns sacos” para mim. Disse que era tanta coisa que ia mandar no carrinho de supermercado do prédio!
Caramba! Chegou a terceira remessa!! E chegou tudo junto!!! Depois de quase 200 livros vendidos! Daqui a pouco o Paulo Coelho vai se sentir ameaçado!!! Lembrando que o lançamento vai ser dia 19 de março no bar Moisés!! Mais detalhes do evento aqui:
Interessante sobre Granada é que parece ser o único lugar o qual visitei onde as pessoas tem uma visão positiva acerca de uma invasão americana. O dia em que as tropas americanas desembarcaram no país é um feriado nacional e os Estados Unidos investiram pesadamente no país após invasão.
Fui visitar uma igreja em Granada e dei sorte que quando cheguei estava ocorrendo uma missa. Bem, como também sou cristão, entrei e fiquei lá fora observando a missa. Engraçado como os ritos são todos os mesmos, até na hora do “paz de Cristo” eu saí apertando a mão de todo mundo =)
Porém acho que uma das coisas que mais impactam de forma benigna a ilha é a parceria entre a universidade de St. Georges, em Granada, e universidades americanas, notadamente da área de saúde. Cara, se em Tobago só se via velhos e famílias na praia, Granada foi contrário. Havia muita gente jovem na praia e foi o lugar na América Central que achei mais próximo de ser uma Tailândia ou uma Indonésia. Para quem viaja solteiro, Granada é um ótimo lugar, rapaz. Depois saí conversando com o pessoal na praia e fui entender que grande parte daquela galera são estudantes que vão a Granada cursar alguns anos de universidade para depois voltar aos Estados Unidos. Explico. Os Estados Unidos tem um teste parecido com o Enem daqui do Brasil. Todo mundo faz a prova e, dependendo da sua nota, você pode escolher para qual universidade ir. A grande maioria dos estudantes que pude conversar eram estudantes que não conseguiram uma nota tão boa para entrar em uma universidade de medicina americana. Eles me explicaram que muitos vão a Granada, fazem o ciclo básico de dois anos na universidade de St. George e depois voltam aos Estados Unidos para terminar o curso por lá sem se preocupar com refazer os testes. Assim não precisam se preocupar em conseguir uma nota melhor no Enem americano além de também poder desfrutar de dois anos morando em Granada, o que não é nada mal.
Até cheguei a conhecer uns estudantes quando fomos a um bar depois de um mergulho. Provei um drink típico chamado Rum Punch(murro de rum!). Pelo que consegui entender tinha Rum, pimenta e outros ingredientes. Cara, não sei o que foi aquilo, só sei que parece que havia tomado um soco de uma garrafa de Rum mesmo. Saí cambaleando do bar.
Rum Punch
Na hora de ir embora, vendo que eu tava meio tonto, um dos caras da mesa, granadino, perguntou se eu sabia onde eu ia. Eu tava tranquilo, pois antes de sair havia pedido para o atendente anotar o nome do hotel em um papel. Quando eu tiro o papel do bolso e mostro para o granadino ele só me responde: – “Mas isso aqui é o nome de um supermercado!”. Bicho, sabe-se lá Deus porque cargas d´águas o cara anotou o nome de um supermercado para mim, só sei que o jeito foi sair andando tentando reconhecer a fachada do hotel, pois todas são bem conhecidas. Enrolei-me um pouco, mas felizmente deu certo.
FURACÃO IVAN – DEVASTADOR DE GRANADA
Outro fato histórico da ilha foi a passagem de um furacão em 2005 que destruiu ou devastou 90% das habitações do lugar. Quase uma bomba atômica!
Corte de Granada
Para os mais religiosos: a Igreja foi destruída, porém o altar ficou intacto
O furacão Ivan foi bem traumático para Granada que conseguiu se reerguer parte por meio de remessas de dinheiro de granadinos que trabalhavam no exterior, parte por meio de uma força tarefa dos países vizinhos que enviaram força de trabalho para reconstruir as casas e parte por, como um granadino chegou a me dizer, mendigando (sim, ele usou essa palavra, “begging”) dos navios de cruzeiros que iam aportando na ilha. Se isso vez muita diferença mesmo, não sei, mas segundo ele, eles chegaram a arrecadar quase um milhão de dólares “mendigando”.
Conversei com um granadino como foi viver durante esse furacão e ele me disse que tudo que puderam fazer foi se trancar em casa, como se isso fosse resolver algo, e torcer para que tudo passasse logo.
O furacão ainda está bem recente na memória de todos os granadinos. Passeando pelo centro da cidade, dá para ver que algumas construções importantes ainda não foram reconstruídas, como da corte de Granada e uma igreja protestante.
Porém há quem acredite que ele foi até benigno, pois após o desastre, Granada foi reconstruída, alguns setores replanejados e hoje o país encontra-se bem mais estruturado para o turismo.
O legal de viajar para essas ilhas perdidas no meio do mar é que você não sabe de nada e de repente descobre bastante coisa sobre o lugar. Granada foi assim. Granada para maioria das pessoas é aquela bomba usada em guerras. Mas não, Granada tem história para caramba!
Visão do quarto que consegui alugar
Primeiro que como toda ilha da América Central ela já foi espanhola, holandesa, francesa, inglesa, quase americana etc. Parece que era esporte ver quem conseguia tomar a ilha.
Segundo que, cara, Granada já recebeu uma invasão de peso dos Estados Unidos na década de 80 e eu nem sabia disso. Tudo começou quando foi fundado em Granada um partido parecido com o PT aqui do Brasil. Ele surgiu da fusão de movimentos sociais, sindicatos e outros setores representativos. Ao contrário do PT, que depois se tornou um partido com tendências mais sociais-democratas, o partido de Granada manteve a todo momento o seu caráter socialista.
Depois de um tempo deram um golpe no governo e Maurice Bishop assumiu como presidente. Ao contrário do que se poderia imaginar, ele, apesar de se dizer socialista, trabalhou para tentar transformar Granada em um importante destino turístico, mantendo o respeito à propriedade privada e buscando uma aproximação com os Estados Unidos.
Lógico que a turma do “José Dirceu granadino” não gostou nada dessa história e deu um golpe dentro do golpe alegando que Bishop não era um socialista de verdade. O retirou do poder e o aprisionou. Como Bishop tinha uma popularidade danada, o povo foi lá soltá-lo. Depois de solto ele foi novamente recapturado e, para dar menos problema dessa vez, foi fuzilado junto sua mulher e seus apoiadores mais próximos em um quartel em Granada.
O povo, lógico, não gostou nenhum pouco dessa história, porém, após algumas escaramuças, o novo governo conseguiu se manter. O novo presidente estreitou ainda mais os seus laços com a União Soviética e, claro, Cuba. É lógico que tudo o que os Estados Unidos menos queriam era outra Cuba na América Central, ainda mais com o posicionamento estratégico de Granada. O novo governo, para tentar apaziguar os ânimos e continuar com a política de atração do turismo iniciada por Bishop, resolveu construir um novo aeroporto para a ilha já que o passado estava sobrecarregado e não tinha mais como expandi-lo. Contratou uma empresa canadense para iniciar a construção que depois foi transferida para uma empresa inglesa.
Titio Reagan, que via simpatizante comunista até na bandeira vermelha do Mcdonalds, ficou doido, jogou água no chope dos granadinos e começou a questionar porque uma ilha que, veja você, estava querendo investir no turismo precisava de um aeroporto confortável para receber as tias gordas e aposentados endinheirados dos Estados Unidos. Ora, que viessem nadando! Titio Reagan começou a alegar que aquilo era um plano maligno do Foro de São Paulo para dominar o mundo, quer dizer, que aquele aeroporto estava sendo construído para receber aviões militares de carga (!!!!) da União Soviética para servir como um entreposto estratégico para alimentar futuras revoluções e sublevações na América Latina com o apoio de Cuba! Não, não tou brincando, alegaram isso mesmo!
Não adiantou o Canadá e a Inglaterra alegarem que, beleza, a gente pode sair caçando comunista em qualquer lugar, mas aquilo já era ridículo demais. Não adiantou um representante do Congresso Americano ser enviado ao aeroporto em obras e constatar que sim, tudo indicava que aquilo seria um aeroporto civil. Não adiantou nada disso. Titio Reagan tava com um estoque de balas sobrando e um bando de militares entediados, então pensou, se não tou fazendo nada aqui mesmo, vou ali invadir uma ilha no Caribe.
Reuniram uma força militar americana com apoio de outros países caribenhos, a maior movimentação americana desde a Guerra do Vietnã, e surraram os comunistas granadinos. Só a título de comparação, Granada inteira tem quase 90.000 habitantes enquanto os Estados Unidos tem uma população 3.500 vezes maior e levaram quase 8.000 soldados. O presidente foi deposto, preso, julgado por um tribunal financiado pelos Estados Unidos e condenado a morte, o que depois foi comutado para prisão perpétua.
No final, sim, o aeroporto foi construído e hoje é o principal aeroporto de Granada. O nome do aeroporto? Maurice Bishop!
Domingo agora saiu uma reportagem sobre o meu livro no jornal o Imparcial do Maranhão. Inicialmente eu achava que ia ser só uma chamada ou algo do tipo, nunca iria imaginar que seria uma reportagem de uma página inteira em um jornal de domingo. Cara, ficou bem legal.
Para quem ainda não sabe, o lançamento vai ser no dia 19/03 aqui em Brasília no Bar Moisés. Segue o link do evento: https://www.facebook.com/events/679745072133902
No primeiro dia em Tobago resolvi seguir o conselho que haviam me dado e aluguei uma bicicleta para dar a volta por toda extensão da ilha. Quando descobri que teria que pedalar quase uns 150 km para fazer todo o trajeto, lembrei que não tenho mais 15 anos e resolvi pedalar “só” 40 quilômetros, visitando algumas cidades da ilha e cortando ela de leste a oeste.
Quando fui alugar a bicicleta não gostei nenhum um pouco do preço, 13 dólares por dia (saudades de Bali onde uma moto era cinco dólares o dia. Confira aqui). Porém quando eu subi na bicicleta vi que ela valia cada centavo. Cara, era uma mountain bike de última linha! Sério, deu vontade de ficar o dia inteiro pedalando só para ficar pedalando nela.
Forget UN, soccer will save the world!
Saí pedalando para a maior cidade de Tobago, Scarborough a metrópole da ilha com seus incríveis 25 mil habitantes. Quando saí de Scarborough e segui para cruzar a ilha de leste a oeste que fui ver no que havia me metido. Sabe aquelas coisas que são bem mais legais de contar do que de fazer? Daquelas que você só viu que fez besteira quando está na metade do caminho? Pois então, foi essa pedalada! Cara, atravessar a ilha foi um dos piores caminhos que já enfrentei pedalando! O caminho era todo de morro! O problema quando não se pedala não é subir ou descer, é subir e descer toda hora!!! E o meio da ilha parecia Belo Horizonte! Isso sem falar que o mapa que eu tinha não ajudava em nada, não havia sinalização nas ruas, a rodovia principal serpenteava a todo momento e toda hora eu me perdia.
Os poucos seres humanos que eu encontrava na rua primeiro me olhavam com aquela cara de “o que diabos esse gringo tá fazendo aqui no meio do nada de bicicleta?” e quando iam tentar me ajudar falavam com aquele sotaque incompreensível! Bicho, um perrengue!
Jardim Botânico em Scarborough, capital de Tobago
Quando enfim cruzei a ilha, achava que ia ter a minha recompensa, pois no mapa parecia que a estrada no caminho de volta seguia margeando o mar e ai ser aquela brisa e aquele paisagem. Que ledo engano! Bicho, os caras tiveram a manha de fazer a estrada a uns 100 metros do mar, o suficiente para você não ver nada e sair fritando no sol escaldante de Tobago! Rapaz, até agora não sei como eu não travei e saí tendo convulsão que nem o Ronaldo na final da Copa de 98!
Achei que o visual da pedalada ao redor da ilha iria ser assim
Mas na verdade, acabou sendo assim
Tobago é paraíso
Cara, a todo tempo eu escutava isso, Tobago é paraíso! Tudo que eu perguntava em Tobago o pessoal falava isso:
– Cara, posso ir nadar na praia e deixar minha mochila na areia sem ninguém tomando conta?
– Amigo, Tobago é paraíso, mas não quer dizer que isso não vai acontecer, alguém vai pegar sua mochila!
– Senhor, onde fica o banco mais próximo?
– Você vira a direita, segue em frente e lembre-se, Tobago é paraíso!
Tobago é paraíso? Cara, não vou dizer que Tobago é uma Cubatão, mas está longe de ser como Fiji, Los Roques ou Cuba, esse paraíso todo que falavam. Lá é bonito, mas não achei nada que valesse sair do Brasil para poder ir para lá. Na verdade, só vale a pena mesmo para quem mora em Trindade. Não sei se é porque metade do tempo ficou nublado ou se o fato da areia ser mais escura deixa a impressão que o mar é menos azul, mas eu confesso que esperava muito mais.
Ainda houve o mergulho que eu fiz, que me custou os olhos da cara e também não teve nada demais. Não valeu o investimento. O snorkelling também super sem graça, quase não vi peixe e quase não havia corais coloridos. Se sugiro ir a Tobago? Cara, na América Central há outros países bem mais convidativos. Vá a Trindade e Tobago só se for caminho para outras ilha da América Central.
Chegar a Trindade e Tobago é bem fácil. Diversos países tem voos para lá e o aeroporto de Trindade é relativamente bem movimentado. Eles inclusive tem a própria empresa aérea que opera para vários lugares da América Central e até para os Estados Unidos, a Caribbean Airlines.
Quem estiver visitando esse lugar a turismo, adianto logo, não perca tempo em Trindade, apenas se tiver muito tempo e realmente tiver curiosidade de conhecer. Todos me disseram que a ilha de Trindade não tem nada, só cidades industriais com hotéis e restaurantes tremendamente caros. O negócio é seguir direto pra Tobago.
Canhão que era usado para proteger Tobago de invasões
Para chegar a Tobago é possível pegar um ferry de Trindade e ir por mar, o que eu acho que só é uma vantagem se você precisa levar seu carro de uma ilha a outra. Nem me interessei em procurar, pois são horas de viagens e o preço não compensa. Paguei 24 dólares por cada vez que voei entre as ilhas. Na verdade, acho que eles te marcam em um voo só para tu não reclamares se quiseres ir em outro e não tiver vaga. A viagem leva 20 minutos. Pode comprar qualquer voo, de qualquer horário (são dezenas durante o dia), que se você mudar de ideia eles remarcam para outro horário sem custo. Achei estranho porque inclusive não me cobraram taxa de embarque nem na ida, nem na volta. Cara, parece viajar de ônibus.
Em Tobago fiquei em uma região chamada Crown Point. É onde fica o aeroporto. Literalmente. É engraçado, você desce do aeroporto, caminha uns 10 minutos e está no centro da vila e do lado da praia. Disso eu gostei, sem ter que pagar táxi nem nada. É só caminhar e, pimba, você está no meio das pousadas. Fiquei em um lugar chamado Stewart Guesthouse, custou 40 dólares a noite e tinha um quarto só para mim com ar condicionado e péssima internet. Foi o lugar mais barato que consegui encontrar em Crown Point.
Meu quarto na Stewart´s Guesthouse
Se no Suriname foram tudo as mil maravilhas, em Trindade e Tobago as coisas começaram mal. Para começo de conversa, a imigração foi a que mais fez pergunta na minha vida desde a de Israel. E a mulher queria saber para onde eu ia, onde eu ia ficar, se eu tinha hospedagem já, quanto dinheiro eu tinha, se eu tinha a passagem de saída já comprada. Cara, nem na Alemanha eu tive tanta dificuldade. Para piorar, o inglês de Trinidad e Tobago foi um dos que eu tive mais dificuldade de entender o sotaque. Cara, sério, parecia outra língua. A mulher da imigração me perguntava uma vez, duas e só na terceira que eu ia entender o que ela estava me perguntando. Ela me enchendo de pergunta, toda desconfiada, mesmo com meu passaporte cheio de carimbo dos países que já viajei. Porque assim, todo mundo quer fugir do Brasil para tentar a vida em Trindade e Tobago. Vi que ela só se aquietou mesmo quando viu o meu visto pros Estados Unidos. Eu héin!
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Quando comprei a passagem para Trindade e Tobago eu havia planejado ficar dois dias em Tobago e um em Trindade. Porém, conforme disse, todos só me falaram mal de Trindade e acabaram por me convencer a ficar só em Tobago. Além de que o aeroporto de Trindade era longe de qualquer cidade. Eu ia ter que gastar uma grana de táxi para ir a Porto Espanha, capital da ilha. No final, Trindade fui só para pegar voos.