Como é voar na Air Koryo, a pior companhia aérea do mundo
Depois que a Air Koryo foi eleita a pior empresa aérea no ranking da SkyTrax, o blog Melhores Destinos solicitou que um blogueiro que acabou de visitar a Coréia do Norte fizesse um relato de como é voar de Air Koryo. Acabou que ele teve a mesma impressão que eu, voar com Air Koryo só dá medo do avião cair, mas tirando isso é bem mais confortável do que viajar com a Gol ou a Webjegue.
Segue o relato…
“…A Coreia do Norte é considerada a nação mais fechada do mundo. Os números não são precisos, mas a quantidade de ocidentais que visita o país a cada ano gira ao redor de apenas 3 mil pessoas. Para chegar lá, esses viajantes têm duas alternativas: avião ou trem. Se escolherem chegar por via aérea, é grande a chance de precisarem voar na única companhia com apenas uma estrela no ranking SkyTrax e, portanto, considerada a pior do mundo: a Air Koryo.
Essa empresa de péssima fama foi fundada em conjunto por norte-coreanos e soviéticos em 1954 e foi batizada de Chosonminhang. Chegou a voar para lugares como Moscou, Berlim e Praga, mudou para o nome atual em 1992, mas, aos poucos, junto com a decadência do comunismo e do próprio país, foi perdendo destinos internacionais regulares até chegar aos três que tem hoje: Pequim e Shenyang, na China, e Vladivostok, na Rússia. Existem relatos de voos para Kuala Lampur, na Malásia, e para Bangcoc, na Tailândia, mas os mesmos não são regulares nem constam no site da companhia.
Uma olhada na Wikipedia atrás de informações sobre a frota da Air Koryo pode ser assustadora para quem não é fã de aviação. Com exceção de um Antonov ucraniano, todos os outros aviões são os russos Ilyushin e Tupolev. Isso não é necessariamente um motivo de preocupação, afinal existem modelos modernos desses fabricantes, todos autorizados a voar na União Europeia, por exemplo. Mas uma pesquisa mais cuidadosa mostra que esse não é o caso da maioria dos aviões da Air Koryo. Os modernos, ali, são poucos.
Apesar dessas características potencialmente arrepiantes, a Air Koryo é membro da IATA (a Associação Internacional de Transporte Aéreo) e o histórico de acidentes da companhia é baixíssimo. São apenas dois registrados em mais de 50 anos de atividades, em 1983 e em 2006, sendo que esse último não teve nem feridos. Mas é bom lembrar que estamos falando da companhia aérea estatal de uma ditadura, o que sempre pode significar informações sonegadas ou falsas.
Mesmo sabendo de tudo isso, quando fechei minha viagem para lá não tive a menor dúvida e escolhi chegar de avião com a Air Koryo. Eu tinha consciência de que poderia ser, no mínimo, tenso, mas viajar para a Coreia do Norte é como viajar no tempo, direto para o período da Guerra Fria. Eu queria entrar no clima logo que fosse possível e não podia perder aquela oportunidade de voar em um equipamento fabricado na falecida União Soviética.
Então eu fui…”
Para ler o relato completo, clique no link abaixo:
http://www.melhoresdestinos.com.br/avaliacao-air-koryo.html
O culto à personalidade na Coreia do Norte e a influência da Guerra das Coreias (1950 – 1953) nisso
Kim Il Sung e Kim Jong Il são quase o “Leonardo Da Vinci” das Coréias. Eles escreveram livros, filosofias, óperas, balés, dirigiram centenas de filmes, ensinaram agricultores a plantar, operários a trabalhar… Só parecem não ter ensinado como fazer dinheiro, pois, com sua renda per capita de meros 1400 dólares por ano, a Coréia do Norte está entre as dez piores rendas do planeta.



Todo ato deles é representado por quadros em museus. A casa que Kim Il Sung nasceu é um museu a céu aberto. Saímos da casa fomos tomar água no poço que ele tomava todos os dias.

Só um parênteses. Você aí se achando todo pimpão porque andou em uma montanha-russa com quarenta loopings nos Estados Unidos. Grandes coisas. Quando estávamos lá no parque de diversões da Coréia, o guia perguntou se queríamos ir em um. Proposta indecente! Lógico! Fomos num brinquedo que no Maranhão costumávamos chamar de “Ranger”. Furamos uma fila de , literalmente, milhares de pessoas (estrangeiros não precisam pegar filas, aquela é a fila dos coreanos – falava o guia quando dizíamos que furar fila não era certo) e seguimos. Cara! Que emoção, viu? Quando demos o primeiro looping, o brinquedo fez um BARULHÃO e começou a se tremer! Manutenção não deve ser o forte da Coréia do Norte. Os gritos entoados depois desse barulho não foram de emoção! Foram pela vida! Mas estávamos seguros, antes do brinquedo começar a rodar, veio um dos carinhas do parque e deu um aperto, mas um APERTO, no cinto de segurança que saímos falando fino depois que descemos. Depois vê até onde vai esse cinto de segurança…





Eles estão no ano 2012? Lógico que não, eles levam em consideração a história antes e depois do nascimento de Kim Il Sung, não parece lógico? Logo, estamos no ano 101 da era Juche (1912 é ano 1 e não ano 0, por isso ano 101 e não 100). Cara, você conseguem perceber o quanto isso é maluco? Até a contagem dos anos é diferente. Acho que é a primeira sociedade moderna que eu conheço que conta o tempo baseado na figura de um líder não-religioso, Kim Il Sung (os muçulmanos contam baseados em Maomé, nós baseados em Jesus Cristo). Como eu falei, eu não duvidaria se depois de alguns dias começassem a nos falar que um deles ressuscitava mortos, curava enfermos ou andava sobre as águas.





Fico olhando aquilo tudo de longe, como eles parecem acreditar naquilo e como parecem felizes em viver aquela realidade e me sinto como um antropólogo que adentra em uma tribo indígena e não pode de forma alguma influenciar o modo de vida deles mesmo sabendo que pequenas adaptações no cotidiano poderiam melhorar e muito a vida deles. A diferença é que o antropólogo não fala nada por causa do seu trabalho, eu não faço nada por causa do meu pescoço. Pior que a gente fica meio que com um grito por dentro, com as palavras entaladas na garganta sem poder falar nada. As vezes da vontade de falar pro guia um pouco mais da verdade, mas pode ser perigoso. Na verdade, as vezes dá vontade de agarrá-lo pelo pescoço e gritar:

OK, VAMOS COLOCAR UM POUCO DE PINGO NO “I”?


Apesar de tudo, é preciso tentar entender sem julgar. É preciso tentar entender que a Coréia do Norte é um país de história muito sofrida. Eles sofreram durante diversas tentativas de “japonização”, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas dos japoneses até o fim da Segunda Guerra Mundial. Cinco anos após o fim da Segunda Guerra, 1950, quando o mundo inteiro estava em paz, ocorreu a “guerra esquecida”, a guerra da Coréia, que quase ninguém lembra, mas foi tão fratricida que quase levou a uma Terceira Guerra Mundial.

GUERRA DA COREIA – VAMOS ENTENDER UM POUCO?
Para quem não sabe, a Coréia era um país unificado quando foi invadido e colonizado pelo Japão. Após a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos estavam para conquistar a Península Coreana, a Rússia e a China intervieram e ocuparam a parte norte da Península, implementando um país satélite assim como havia sido feito na Alemanha Oriental e no Vietnã do Norte (que também foi dividido em dois). A China não queria tropas americanas bem na sua fronteira, tampouco a Rússia, portanto criaram a Coréia do Norte. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, essas duas Coréias ficaram em pé de guerra. A Guerra da Coréia começou quando, quando… basicamente quando eles saíram de ameaças de invasões para ação e o pau começou a quebrar. Os EUA dizem que a Coréia do Norte começou, a Coréia do Norte diz que a Coréia do Sul começou e não temos consenso. De qualquer forma, em uma região de conflito como aquela, com várias trocas de ameaças e escaramuças é difícil saber de que lado estava o estagiário que deu o primeiro tiro. É mais ou menos aquela cena quando a mãe pergunta pros dois irmãos quem começou e os dois ficam gritando: – “Foi ele, mãe, foi ele!”, ela perde a paciência e senta a mão nos dois.
A Coréia do Norte partiu pro pau e quase reunificou a península coreana (ou libertou os coreanos do sul como diz o guia), 90% da península ficou sob o seu poder. Quando os EUA viram que iam perder um aliado estratégico, entraram com tudo na guerra, com ajuda de tropas da ONU e foram levando as tropas do Norte de volta até quase a fronteira na China. Quando a China viu que ia perder o seu satélite, adivinha o que ocorreu. Sim. Ela levou o caminhão de cream cracker para fronteira e saiu distribuindo bolacha pra todo lado. Entrou com tudo na guerra (e imagina o que é guerrear na fronteira do país de maior exército do mundo), com apoio da mãe Rússia e aí o pau comeu de vez. O pau foi comendo, as tropas americanas foram recuando e quando o pau realmente ficou sério, com os dois lados ameaçando usar armas nucleares, todo mundo pediu “júri-juri” e a turma do deixa-disso entrou em ação. Assinaram um cessar fogo e por um momento a guerra cessou. Resultado da guerra? Um milhão de coreanos mortos e as fronteiras EXATAMENTE no mesmo lugar de antes. Um milhão de vidas ceifadas de graça.
Importante citar que, como falei, não foi assinado um tratado de paz e sim um cessar-fogo. E faz diferença? Sim, faz TODA diferença. Um cessar-fogo diz basicamente “vamos parar de se matar por um instante e tentar conversar para chegar a um acordo para acabar a guerra”, porém ele não TERMINA a guerra. Portanto, tecnicamente as duas Coréias ainda estão em guerra. Isso pode parecer bobagem para a gente, mas para um país extremamente fechado e paranoico ter uma declaração de guerra assinada contra ele até hoje faz muita diferença. Por essas e outra que a Coréia do Norte tem hoje o quarto maior exército do mundo (maior do que o de países como Brasil, Alemanha…), sendo formado basicamente por tropas mal treinadas e mal alimentadas. Apenas carne humana segurando um rifle.
Os grandes líderes da Coreia do Norte

Vou pecar por ser previsível, mas sim, é impressionante a que ponto se chegou o culto a personalidade na Coréia do Norte. Lá não é como outros países que viajei como Síria, onde todo canto havia uma foto do seu ditador. Ao contrário da Síria, os “grandes líderes” parecem realmente fazer parte do cotidiano e vida de todos os norte-coreanos. Kim Il Sung, o primeiro Kim, foi o “fundador” da pátria coreana. Ele é o grande pai da Coréia e de longe o mais venerado dos três. Ele é considerado o presidente eterno e líder supremo.

A Constituição da Coréia do Norte inclusive inicia-se citando que a Coréia do Norte é um país com um presidente eterno e que se baseia nos ensinamentos do líder supremo da Coréia, Kim Il Sung.

Tecla PAUSE

FILOSOFIA JUCHE – A IDEOLOGIA COMUNISTA DOS KIM






Outro ponto a ser destacado é que a ideia Juche propõe a autossuficiência e a colocar o povo como o objetivo em si. As palavras que Kim Il Sung mais gostava de falar eram “O povo é minha vida!”. Vários lugares em Pyongyang tem nome do povo no meio “Biblioteca do Povo” e coisas assim.
Por todo lado é possível ver o “povo” marchando aparentemente sem motivo algum. Quando estávamos por lá, milhares e milhares de crianças ensaiavam exaustivamente sob sol e chuva, literalmente, para mais uma demonstração de algo aleatório. Isso demonstra o quanto eles gostam do povo por lá.





Ele disse que aprendeu sobre a filosofia Juche na universidade, pois quando está na escola, aprende apenas superficialmente o que é essa filosofia.



Há também desde o clichê, como outdoors e fotos em prédios públicos, até o mais extremo, dentro de TODAS as casas da Coréia do Norte e no peito de quase todos coreanos.

Sim, o bagulho é doido! Bem, nada mais justo, afinal, o apartamento que você mora (e parece que TODOS moram em apartamentos em Pyongyang, não vi casas na capital a não ser embaixadas) é “doado” para você pelo Estado (leia Kim Il Sung). Doado é forma de falar, já que você não pode vende-lo ou aluga-lo. Você também não pode simplesmente mudar de apartamento. Você mora com seus pais e teoricamente quanto maior a sua família, maior o apartamento que você recebe. Se você mora com os pais, não pode simplesmente se mudar para morar sozinho, tem que aplicar para um apartamento do governo. Caso não haja disponíveis, continua morando no mesmo apartamento. E se você se casar? Bem, se tiver disponível, você muda para o novo, senão ou muda-se para a casa dos pais do noivo ou dos pais da noiva. Lógico, com os dois retratos na parede lhe observando. E se eu quiser mudar de cidade? É impossível quem é de fora vir para cá, a não ser que seja convidado pelo governo e ganhe um apartamento novo, pois ninguém vive nas ruas. Cidadãos de Pyongyang inclusive tem carteiras de identidade próprios, mostrando que são residentes de lá.

Outro fator é que quase todos os coreanos carregam no peito um broche com a bandeira vermelha e as fotos de Kim Il Sung ou Kim Jong Il juntos ou separados. Perguntei ao guia e ele me falou que eles ganham esses broches aos 14 anos, quando iniciam algo como a quinta série, como prova de que são cidadãos conscientes e por isso podem caminhar com o retrato dos grandes líderes. Perguntei onde eu poderia comprar um igual para mim e ele falou que você não pode compra-lo e, como você deve merecê-lo, pouquíssimos estrangeiros tem essa “honra” de obter um para si. Por coincidência quando estávamos lá, pude ver um europeu com um no peito e o guia me explicou que ele era algo como presidente do centro de estudos europeus da Ideia Juche.



Manhã de caminhada numa praça em Pyongyang
Reparem na música ao fundo, que beleza…
Explanações e divagações de um maranhense
PYONGYANG

Como todas as residências são disponibilizadas pelo Estado, eles saem construindo edifícios porque é mais barato e cabe mais gente, logo a cidade em si é bem compacta. Não ha casas e todo mundo vive em apartamentos. A cidade acaba sendo toda parecida. É bem aquela parada stalinista de todos os prédios sendo iguais e do mesmo estilo arquitetônico. Isso economiza mais, faz as construções serem mais baratas, mas a cidade em si fica muito sem graça. Eu facilmente me perderia pelas ruas de Pyongyang se tivesse viajando sozinho porque, como falei, todas as ruas são MUITO parecidas. Bom lembrar que Pyongyang foi totalmente destruída durante a guerra, por isso deve ter sido mais fácil reconstruir logo tudo igual.Bem, Pyongyang, a capital, como já falei, é um reino da fantasia. Uma cidade construída apenas para a elite coreana. Nem todos os coreanos podem viver lá, inclusive os residentes de Pyongyang possuem uma carteira de identidade própria escrita “residente de Pyongyang”.

A NORMALIDADE FORÇADA

Só quando cheguei ao hotel e pude ver notícias (tínhamos acesso a Al Jaazera, um dos melhores canais de notícias do mundo, sediado no Catar), que soube da destruição na cidade e pude ter conhecimento que 250 pessoas haviam morrido naquele dia devido a inundações e enxurradas. Se eu não tivesse visto isso na TV, eu NUNCA acreditaria que havia ocorrido uma inundação, afinal, como disse, não vi uma lâmina sequer de água na cidade. Lógico, eles só andaram com a gente em uma parte minúscula da cidade, não onde o bicho pega, que foi onde inundou.





O trabalho de transmitir normalidade para a gente era muito bem feito. Só depois desse dia que comecei a perceber que, danadinhos, apesar de viajarmos para vários lugares da cidade, óperas, balés, monumentos, restaurantes, sempre passávamos pelas mesmas ruas, lógico, bem asfaltadas e pavimentadas.
Falando em monumentos, pra onde você vai na cidade há monumentos louvando alguma feito heroico ocorrido na guerra e a sua “vitória” sobre o Japão. Sim, na cabeça dos coreanos eles ganharam a guerra. Nunca ouviram falar de Hiroshima e Nagasaki e é realmente bem irônico que os Estados Unidos, o grande Satã, foi o responsável pelo Japão ter se retirado da Península Coreana e “libertado” a Coréia e não o fanfarrão do Kim Il Sung que só surfou na onda e aproveitou para montar o seu mundo mágico.


Mas a maior bronca deles parece ser mesmo, ao contrário do que possamos imaginar, com os japoneses. Nessa, eles tem um pouco de razão, pois eles comeram o pão que o diabo amassou com o Japão. Os japoneses seguiram o mesmo “script” na Coréia do que seguiram na China. Levaram a cabo um programa de “japonização” da Coréia, proibindo a língua coreana, forçando os coreanos a aprender japonês, prisões em massa, sequestro de coreanas para servir como escravas sexuais de oficiais japoneses, utilização de prisioneiros coreanos em experimentos com armas químicas e biológicas e perversões diversas. Só não foram como os nazistas porque não jogavam corpos em fornos crematórios. Por isso a bronca deles ser bem maior com os japoneses. Os americanos eles até citam uma hora ou outra como imperialistas, mas nada que se compara com os japoneses.

(essa foto não é minha =P)
Teve até um poema que vimos em um museu, que eu achei bem interessante e importante citar. Ele conta como os coreanos devem ser: Ate as formigas podem derrubar um castelo quando se juntam e vão retirando pedaços da muralha devagarzinho. Uma formiga, sozinha, não é nada, mas quando todas trabalham em conjunto e começam de forma alguma elas podem ser vencidas. Exatamente como a Coréia deve ser em relação ao Japão Imperialista.FESTAS E VIAGENS
Para viajar para fora do país, você precisa pedir permissão pra sua empresa, que pede permissão ao seu governo. Uma das nossas guias já havia ido para a china, mas só em uma cidade de fronteira e porque o seu pai é um homem de negócios. Diz ela que ficou extremamente impressionada com as luzes e o tanto de shoppings que havia por lá. Disse que nunca viu tanta fartura na vida dela. Lembrar que se a China já é um país pobre, imagina uma cidade de fronteira o quanto não deve ser.
DAVID

Ele contava para gente sobre as reuniões de negócios que fazia enquanto estávamos visitando os pontos turísticos. Diz que as reuniões na Coréia do Norte são bem engraçadas. Eles começam a reunião tomando um shot da cachaça coreana e depois continuam bebendo durante a reunião. Depois de umas duas horas ninguém ta mais falando nada com nada e ta todo mundo bêbado. Por isso, dizia ele, ele tinha que tentar ser rápido, afinal, o tempo em que todo mundo estava consciente para poder negociar algo era bem exíguo. Alguém consegue imaginar de que país eles receberam influência? É, a Rússia não deixou só gasolina subsidiada por lá.
Hotel em Pyongyang
No caminho para Coréia do Norte

No outro dia pela manhã, segui para o aeroporto e fui direto para o guichê do meu voo para Coréia. La encontrei o dono da empresa, David, que me passou algumas orientações e segui para a sala de espera. Na sala de espera para o voo da Coréia do Norte dava para perceber a ansiedade de todos os presentes. Entramos no avião e, cara, o primeiro susto! Bicho, mas sabe aqueles aviões russos, da década de 60, que você vê em filme de comedia americana zuando a União Soviética?






Peguei a fila com todo mundo e foi passando um por um. Passou um, passou outro, e outro, e outro. Bem, você já deve ter deduzido o ocorrido. Sim, o oficial coreano resolve invocar comigo! Eu disse “agora pronto!”. E eu não entendia o que ele falava e eu tremia mais que vara de bambu verde e eu não conseguia falar inglês e quanto menos eu falava inglês menos ele me entendia (você tá rindo, mas queria ver você, tigrão, no meu lugar!) ate que o David interviu e me disse que eu deveria pegar a outra fila porque, veja você!, eu era o UNICO de todo o nosso grupo que tinha visto no passaporte, pois havia tirado o visto no Brasil. Todos os outros não haviam tirado visto, tinham apenas um “visto grupal” que o David entregou antes de passarmos a imigração. E dai? Bem, e dai que eu fui o UNICO que ficou com o carimbo da Coréia do Norte no passaporte. Oh yeah! Highway to Hell! Sabe o que isso significa? Todos os outros só dirão que viajaram pela Coréia do Norte, mas o passaporte deles continuar em branco! Foi engraçado ver a galera passando e IMPLORANDO, quase ajoelhando, literalmente, para que o oficial da imigração carimbasse o passaporte deles!!

Depois da imigração, foi a vez de termos as mochilas minimamente vasculhadas, os celulares e passaportes confiscados e seguirmos para o ônibus. Sim, eles ficam com os nossos celulares guardados numa caixa do aeroporto (os passaportes ficam com os guias) e só nos devolvem na saída. E, cara, depois que você compra um smartphone (ou espertophone), você meio que se vicia nele. Foi bem difícil para mim ficar uma semana longe do meu celular. Como você faz para poder colocar o alarme para despertar? E se você quiser ouvir música? E se quiser uma lanterna? Cara, como fiquei feliz quando consegui o meu de volta.

Pior que na hora de eles começarem a vasculhar a minha mochila eu passei um gelo danado.
Eu tinha duas revistas Piauí na minha mochila e uma delas tinha uma charge de um cara vasculhando uma cabeça oca (meio que questionando uma sociedade sem liberdade de expressão como a da Coréia do Norte o que poderia me fazer ser confundido com um ativista ou jornalista), parecida com a acima e outra como a abaixo sobre a recessão espanhola, fazendo referência ao culto ao consumo, mas trajando as pessoas como na Coréia do Norte. O cara folheou, folheou, viu as charges, mas graças a Deus não me perguntou nada. Caraca, que gelo na espinha…

Engraçado que não pode celular e câmera com GPS, mas Ipad eles não encanam. Tudo bem que o Ipad tem 3g, GPS e o que for… Porque eles não retém o Ipad? Vai saber… Só para vocês terem uma ideia de como é a neura deles com celular, outro dia estávamos conversando sobre a falta que o celular estava fazendo para gente. Rapaz, um dos guias tava no ônibus, envolto em seus pensamentos, viajando, olhando pro lado, mas foi só ele escutar a palavra “celular” que o bicho deu uma popa, olhou pra trás e começou a prestar atenção no que conversávamos. Outra coisa que ocorreu foi com um amigo nosso. Ele tinha um daqueles celulares furrecas, chulé, saca? Sabe aquele que você compra pra ir pra show pra se perder não ter problema? Pois é, ele tinha um desses e esqueceu na mochila. Na ida, passou na máquina de raio-x, ele não lembrava que estava lá e o cara da máquina não viu. Trocando em miúdos? Ele ficou uma semana com um celular na mochila na Coréia do Norte. Rapaz, na volta isso deu um moído grande… Quando ele estava passando a máquina de raio-x deu um barulhinho. Aí foi oficial daqui, oficial dali, e cada hora aparecia um oficial com um chapéu maior e mais broche pendurado na roupa, ou seja, mais graduado. A gente já estava imaginando que ele ia era ser fuzilado. Depois de um tempo que ele foi entender que aquela confusão toda era para saber como ele havia conseguido passar com o celular e ficado essa semana com o celular na mochila. Ele explicou que havia esquecido. Os caras perguntaram que horas ele havia entrado, que dia e se a máquina era a 1, a 2, a 3 o a 4. Ele falou qual era e os caras foram lá na planilha de operadores de raio-x para saber QUEM HAVIA DEIXADO ELE ENTRAR com o celular. Eita porra, eu não queria ser esse pobre coitado operador de raio-x. Nessa exata hora deve estar em uma prisão de trabalhos forçados levantando pedras…

Nossos passaportes ficam com os guias e só nos são devolvidos no ultimo dia! O meu, inclusive, veio com dois carimbos a mais depois do dia que passei pela imigração. O primeiro com a data que eu havia chegado, normal em todos os países, e mais duas datas diferentes. As datas a mais foram de visitas de oficiais coreanos que foram no hotel apenas para conferir se estava “tudo certo!”.
Mochila extraviada e mercado com muita confusão

Como não havia o que fazer, fui reclamar no guichê da empresa no aeroporto da China e, lógico, não havia ninguém que falasse um inglês decente para poder me explicar o que estava acontecendo. Papo de cá, mimica de lá, acabamos que nos entendemos e eles ficaram de me entregar a minha mochila no próximo dia pela manhã. Como eu havia mudado minha rota (saí direto de Washington), minha mochila tinha sido extraviada. Saí do guichê com aquela cara de “tá, eu tenho certeza que tudo vai dar certo, United Airlines! Você nunca me aprontou uma!” (NOT!!!!!) e fui para o centro de Pequim procurar o meu couch.
COUCH (HOSPEDAGEM) EM PEQUIM
Eu iria ficar num couch super irado. No lugar moravam um francês, um inglês, uma russa, uma estoniana e uma chinesa, fora os agregados que iam se jogando lá pelos sofás (quando eu cheguei, além de mim, havia um esloveno babaca). E sim, o lugar era mais bagunçado que o Campeonato Maranhense de Futebol. Assim que cheguei, Sacha, a russa, me perguntou se eu queria dormir um pouco e eu, lógico, disse que não, que era melhor ficar acordado.
Tecla PAUSE
Tecla PLAY

PRECISO DE ROUPAS!!!
Na verdade, na verdade, eu precisava mesmo era ir em um mercado, pois todos meus materiais de higiene pessoal (tirando escova de dente e desodorante) estavam na minha mochilona que só Deus sabia onde estava viajando nesse momento. Não tinha nenhuma roupa tirando a do corpo (que já estava com ela por pelo menos umas quarenta horas) e, o pior, não tinha cuecas.
Descemos para uma feira em um shopping que de cara dava para ver que era bem turístico. Por quê? Nada, só porque a atendente já começou me atendendo em espanhol (não era que lá eles falavam inglês! Ela fala espanhol!). Comprei algumas camisas no melhor estilo “fui em Beijing e lembrei de você”, uma bermuda e depois seguimos para o mais complicado: “comprar cuecas”. Porque? Ah, parceiro, se já é constrangedor você chegar em um camelô e falar “desce um par de cuecas ai”, imagina ter que chegar em um camelô e, por mímicas, querer dizer “estou procurando cuecas”. Parceiro, não teve outro jeito, tirei o cinto da calça, virei de lado, puxei de dentro da calça o “lado” da cueca que eu tava usando (tentando não deixar escapar as teias de aranha e morcegos porque já eram rodados quase 47 horas de uso da mesma cueca) e o cidadão entendeu. Mas, veja bem, eu tava fazendo isso de maneira discreta. A Sacha, amigo, não queria nem saber, já chegava botando o bicho na galera e alardeando para quem quisesse ouvir na feira “estou procurando cuecas para o maranhense ao lado aqui!!!”. E tome constrangimento!

Tentei dizer para ela que aquela cena toda era meio constrangedora, uma menina intermediando com seu parco chinês uma compra de cuecas pra mim, mas ela só ficou mais discreta mesmo quando uma vendedora disse que tinha cuecas bem baratas para o seu marido!! Sim, porque se você vê dois gringos de idade semelhante caminhando numa feira e a mulher pedindo cuecas para o homem, você na hora vai deduzir o que? Se bem que, ela devia era ter achado o máximo! Não é todo mundo que pode se dar ao luxo de ser casada com um maranhense com 1,60m de pura emoção. Compramos alguns poucos pares, pois, me havia sido prometido que no outro dia pela manhã, eu receberia minha mochila de volta. Comprei mais cuecas mesmo pq o preço tava barato e eu tava precisando de cuecas de qualquer forma. Outra parada bem engraçada é que, muita gente diz que é lenda, mas cara, aquilo sobre os asiáticos é verdade, viu? Não, eu não fui trocar de cueca com o vendedor no banheiro, mas acontece que eu tive que pegar a cueca XXXXXL para ficar um pouco apertada, mas confortável.

PORQUE TODO MUNDO TEM O SEU DIA DE GRINGO SOLTA FRANGA
No outro dia, como era de se esperar, minha mochila não chegou. Lá fui eu ter que ir comprar mais roupas (principalmente cuecas) só que dessa vez sozinho, pois a Sacha tinha que trabalhar. Após me encontrar com o pessoal da agência de turismo da Coréia do Norte em um restaurante de Pequim e pagar o meu pacote, segui para o mesmo shopping que havia ido com Sacha no dia anterior para comprar as cuecas. Só que, ferrou, tava fechado! O lugar fechava as sete. E aí, parceiro? Se lá que a galera falava pouco inglês já era difícil, imagina como seria nos outros lugares que NINGUÉM fala inglês. Vamos dar um jeito. Camisas eu ate podia pedir emprestadas para a galera do meu couch, mas cueca já é um pouco demais. Fui andando pela rua a procura de algo ou algum lugar que pudesse parecer vender cuecas e nada. Parei em frente a um sex shop e pensei “será se sex shop vende cueca?”, mas depois desisti da ideia de chegar na Coréia do Norte (cujo voo era no outro dia pela manhã) com cuecão de couro (uuhuuuooo!!) ou cuecas de super-homem, águias, elefantes (imagine como seria a tromba), Homem-Aranha, angry birds ou coisas assim. Depois de um tempo, entrei em um supermercado e qual não é a minha surpresa ao descobrir que nos fundos havia uma lojinha de roupas.
Cheguei lá e só vi calcinha para vender (não, amigão, eu não comprei calcinha. Se eu cogitei comprar? Se eu tivesse, cê acha que eu falaria?). Fiquei procurando cueca e nada de achar. Quando fui procurar um vendedor, problema! Só tinha vendedora mulher! Qual problema? Pombas, eu não poderia usar minha estratégia de virar de lado e puxar minha cueca dizendo que eu precisava de aquilo porque, bem, porque ela era mulher, cara! Vai que ela entende que eu tou assediando ela sexualmente (E ai, gatinha? Quer terminar de tirar isso aqui lá em casa?). Sei lá, ninguém falava inglês. Dai, no desespero, não deu outra, apela pra mimica. Nada dela entender. Mais desespero. Tento desenhar uma cueca no papel, nada dela entender. Mais desespero. Resolvi apelar. Comecei a apontar para a calcinha e depois para mim, batendo no peito tentando explicar “quero um desses, só que para homem!”. Na hora eu vi que a cara que ela fez foi “pronto, mais um gringo querendo comprar calcinha! Mais um que vem para Ásia para soltar a franga!” e me entregou uma calcinha!!!! Falei que não era aquilo!! Ela ficou me olhando com uma cara meio estranha e depois fez que entendeu. “Ufa”, pensei. Parceiro, a mulher não me vem lá de dentro e me traz um sutiã? Aí eu realmente tive certeza que ela achava que eu torcia pro São Paulo. Na hora eu fiquei meio sem saber o que falar (pô cara, a mulher achou que eu fui lá para comprar sutiã!!!), mas depois comecei a apontar para a minha bacia!! Ate que, enfim, uma velha que tava lá atrás do balcão entendeu e me trouxe umas cuecas XXXXXL acabando por vez com minha agonia.
United, você me apronta cada uma.
Pior que no final não adiantou de nada. Assim que eu cheguei em casa, Sacha recebe uma ligação. Pela reação dela parecia ser algo bom. Descemos e NA MINHA ULTIMA NOITE EM PEQUIM ANTES DA CORÉIA, me para uma Kombi e me desce um GORDO suado com a minha mochilinha, inteirinha, viva, sã e salva e, o melhor, com todas as minhas cuecas dentro!






A caminho da China – Coréia do Norte – a emoção já começa no aeroporto!

Minha primeira passagem aérea fazia o singelo trecho Brasília – São Paulo- Washington – Nova York – Pequim. Tranquilinho, 35 horas entre conexões e horas de voo pela United Airlines. Trinta e cinco horas não dão nem para sentir a viagem, quanto mais ficar cansado. Vida loca!
Eu já estava esperando dar algo errado no meu voo, afinal eu voava pela United Airlines. Não imaginava que seria logo na minha primeira parada: Estados Unidos. Assim que eu cheguei ao aeroporto de Washington já tenho a primeira surpresa. Meu voo de Washington para Nova York estava atrasado em mais de quatro horas e muito provavelmente eu não conseguiria chegar a tempo de pegar o voo Nova York – Pequim. Qual o problema disso tudo? Bem, deixa o tio te explicar.





Para não arrancar a goela da atendente, resolvi me sentar em um dos bancos e pensar o que eu poderia fazer. De repente tive uma ideia: “E se ao invés de voar de Washington para Nova York e depois para Pequim, eles me mandassem pra Pequim direto de daqui de Washington?”. Sim, eles tinham voos direto. Procurei um atendente que parecia mais latino (por isso, esperava eu, mais amigável) e expliquei meu drama, a minha viagem para Coréia do Norte e coisas assim. O cara foi bem mais amigável (fica a dica, sempre procurem os latinos) e ficou de ver isso pra mim. No final falou que era possível e que provavelmente me colocaria na cabine executiva como um pedido de desculpas da United. Bem, não rolou a desculpa da United e nem a cabine executiva, mas pelo menos o voo para Pequim partiria em três horas. Iria chegar uma hora mais tarde, mas, enfim, vinte vezes melhor que chegar no outro dia. Viagem para China e Coréia resolvida, era chegada a hora de tratar de um problema BEM MAIS SÉRIO.

Liguei a wireless do meu celular e fiquei uns vinte minutos caminhando pelo aeroporto para poder achar o melhor sinal, até que consegui. Mais problemas (cara, tem tanto drama aqui que esta parecendo novela mexicana…), a wireless não deixava assistir vídeos! Juro que nessa hora, parei, olhei para cima e perguntei “o que eu fiz para merecer isso?!?!?! Porque o senhor faz isso comigo? Já não basta eu ter nascido maranhense e ter que ficar a vida inteira ouvindo piada sobre ser filho do Sarney e além disso ser parecido com o Zacarias??”.
Rapaz, você sabe o que é você ter que acompanhar a final olímpica por narração escrita em tempo real? Globoesporte.com? Enfim, foi o melhor que eu consegui. Começa o jogo, um minuto do primeiro tempo, gol do México (bicho, aquele não era o meu dia mesmo!!!). E lá vou eu ficar lendo o jogo. Começa o segundo tempo, chamada do meu voo!! E agora? Vou ou não vou? Resolvi enrolar o máximo possível e ficar na fila acompanhando pela wireless do celular antes de entrar no avião. Vinte minutos do segundo tempo escuto um “ou você entra no avião agora, ou o avião vai te largar aqui!” e tive que embarcar. ONZE HORAS DE TENSAO no avião sem saber como terminou o jogo.
O final da historia vocês já sabem, chego na fila de bagagens e fiquei mendigando para as pessoas com smartphone, procurando um que tivesse 3G e tivesse a piedade de deixar eu ver o resultado. Um inglês que morava na China se predispôs a me ajudar. Pela risadinha na cara dele, eu deduzi a surpresa que o Mano Menezes havia me preparado. Fiquei tão baqueado que nem fiquei tão chateado quando descobri que minha mochila havia sido extraviada. É, Pequim realmente estava sendo emocionante!



























