Na fila do chocolate em Havana

Apesar de tudo, teve um jineteiro que realmente soube como me derrubar. Ele chegou como todos os outros, com um papo desprentensioso, como quem não quer nada. Eu fui dando papo porque ele tava numa fila de uma fábrica de chocolates e achei que também era turista. Depois de um tempo conversando comigo, me falou que era cubano e me disse que tinham três filhos em casa e que eles amavam o chocolate daquela fábrica. Perguntou se eu não poderia comprar um para ele para ele levar para suas crianças. Porra, quer me derrubar é botar criança no meio. Graças a Deus isso nunca foi um problema lá em casa, mas sempre que você conversa com pais em geral, eles dizem que o que mais dói o coração é quando eles querem comprar algo pro filho e não podem. Quase ia comprando para ele, podia até ser golpe, ele podia até revender, mas quando ele me pediu logo o mais caro, refuguei e fui embora. Mas bicho, que dor no coração. Até hoje o rosto dele me esmolando essa parada me assombra as vezes só de lembrar.
Fila da indústria de chocolate onde encontrei o cara da história. A cara dele me assombra até hoje…
Além dos jineteiros, também existem as jineteiras em Cuba. Ao contrário dos homens, elas não tentam aplicar golpes, elas trabalham… com o corpo, o que é absurdamente mais triste. Muitas cubanas às vezes nem se prostituem em si, para elas, sair com um gringo, nem que seja só para tomar uma cerveja, às vezes é a chance de entrar em uma balada que só gringos podem pagar para entrar, ou, sei lá, ganhar um presente ou algo assim. Porém, prostituição é um problema grave em Cuba, meio que “tolerado” pelo governo porque, bem, a pouca época que eles levavam mulheres presas por isso, segundo uma dona de casa particular me disse, abarrotaram as prisões de mulheres e o problema não foi resolvido.
Esse figura, no início, eu achei que fosse um jineteiro. Chegou como quem não quer nada, puxando papo e eu nem dando corda. Quando ele perguntou de onde eu era e eu disse que era do Brasil, ele ma falou que já havia viajado ao Brasil e visitado só uma cidade: SÃO LUÍS!!! Não foi que ele perguntou de que cidade eu era! Ele já foi direto dizendo que já havia ido a São Luís, que havia conhecido uma mulher de lá quando ela viajava por Cuba e ela o convidou para visitá-la. Fiquei tão feliz que até dei de presente um cartão postal de São Luís que eu tinha. Coisas que só acontecem em viagens…
O problema é que a maioria paga pela minoria e os caras que conversei me diziam que evitavam dar papo para cubanas que chegavam neles nas baladas por temer que, bem, que isso fosse o sustento delas, exatamente como os mochileiros se sentem na Indonésia ou Tailândia. Essa mesma dona de casa particular me disse que muito provavelmente se você chegar em uma casa particular encontrará problemas para entrar com uma cubana no quarto, haja vista que todos vão pensar se tratar de uma jineteira e, bem, sendo bem direto e sem meias palavras, ninguém quer que a sua casa seja transformada em um… vocês sabem.

Jineteiros e Jineteiras em Cuba

O grave problema é que, como expliquei, “se virar” é meio que o modo de vida em Cuba e isso implica em muitas vezes aplicar golpes em turistas desavisados. São os famosos jineteiros”. Chegar para conversar com eles de uma forma meio desprentensiosa e depois arrancar algum dinheiro com isso. Dessa forma, todos os guias sobre Cuba são categóricos em dizer “não dê papo para cubanos que lhe abordarem nas ruas”.
Isso acaba sendo um problema, porque às vezes é só um cubano querendo ser gente boa contigo mesmo, querendo conversar (eles são muito curiosos sobre outros países, acho que é porque, sem internet, tem pouco acesso a informação) e você o ignora solenemente achando que é mais um malandro querendo te passar um golpe. Na verdade, eu sofri até um pouco com isso, as vezes eu chegava para um outro gringo mais para pedir informação mesmo, coisas como “que horas são” ou “sabe onde posso achar um restaurante aqui perto” e os caras me ignoravam na alta pensando que eu era mais um jineteiro. Eles só falavam “no gracias” e iam caminhando. No início eu mandava um “I don´t wanna your fucking Money, it´s just a information I need”, mas depois de um tempo parei de ser tão grosseiro quando vi que, na verdade, acabava sendo a forma que eu agia quando cubanos vinham falar comigo na rua. No começo eu tratava os cubanos que nem quando estava na Índia apenas os ignorando, mas depois vi o quanto estava sendo babaca e que bastava você falar um “no, gracias” educado que tava tudo certo, ao contrário da Índia que enquanto você não gritasse “EU NÃO QUERO ISSO!”, o cara não parava de insistir.
Na verdade, quando eu não queria ser ignorado o jeito era sacar a máquina digital semiprofissional que logo percebiam que eu era turista. Era triste, mas era a única forma de eu conseguir informações que só gringos poderiam me dar. O pior é que todo mundo sempre perguntava se eu era argentino. Pombas, era melhor quando eu era confundido com cubano.
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Máfia das Casas Particulares em Cuba

Depois eu acabei descobrindo que em Cuba rola meio que uma máfia de Casas Particulares. Bicho, basta você escolher a primeira, depois disso, não há com o que se preocupar. É muito engraçado. Quando falei para Magnólia que eu estava indo para Cienfuegos, ela disse que não havia problema, que sabia uma ótima casinha lá e que eu não precisava me preocupar. Fiquei meio sem-graça de falar não e acabei aceitando. Ela perguntou que outras cidades eu iria. Eu fui falando e ela só anotando. “Pode ficar tranquilo, quando chegar em Cienfuegos, vai ter alguém com uma plaquinha só te esperando. Quando comprar a tua passagem para Trinidad, só liga avisando que em Trinidad vai ter alguém te esperando na rodoviária. É só ir fazendo assim, vai só falando que horas sai o seu ônibus de uma cidade que na outra quando chegar, vai ter alguém te esperando com uma plaquinha”. Rapaz, mas foi dito e feito. Era um “a nossa amiga em Trinidad é essa, vou ligar para ela”, “a nossa amiga em Santa Clara é essa, assim que tu chegares ela te pega” e por aí vai. A parada era quase uma máfia. Caiu em um casa, você vai ficando na rede de “amigas” em todas as outras cidades.
Símbolo que identificava que ali existia uma “Casa Particular” para hospedagem
Elas poderiam até estar me cobrando um pouco mais, algo como três ou cinco dólares, já que eu não ia em outras casas e procurava uma mais barata. Mas, pombas, era tão cômodo chegar na rodoviária e não ter que se preocupar com nada, não ter que se preocupar em sair pela cidade procurando lugar para ficar. Além de que, não sei, melhor não mexer com essas tias mafiosas. Vai que depois de refugar uma casa particular dessas eu não sofro um pequeno “acidente” alguns metros depois…

Libertinagem no albergue de Havana

O mais engraçado foi que todo mundo começou a se pegar e quanto mais saíamos e ficávamos amigos, mas queríamos gastar mais noites em Havana (eu fiquei duas a mais que o planejado, por exemplo). O problema era que ia chegando mais gente com reserva e nós não teríamos onde dormir. Para Magnólia nunca há problema, ela simplesmente falava “vocês dois aí, casalzinho, não já tão juntos? Porque vocês dois não dormem na mesma casa e liberam a sua para o Claudiomar ficar mais essa noite?”. A galera aceitava e ia vagando mais uma cama. Tava uma libertinagem aquele albergue. De noite quando eu acordava para beber uma água ou algo assim, eu escutava só os gemidos da galera. Eu achava melhor assim do que quando um ou outro casal se trancava no nosso único banheiro e daí ficava aquela galera desesperada para se aliviar e os dois lá dentro! Bukowsky ficaria orgulhoso.
A minha maior preocupação foi quando acabaram as meninas solteiras. Se chegasse mais um e não tivesse vaga, era capaz de Magnólia pedir para eu ir dormir junto com um dos chilenos. Aí já era demais… No dia que fui embora para Cienfuegos, havia 13 pessoas dormindo em dez camas. Quando acordei, tinha até um alemão pelado abraçado com uma francesa, cena desnecessária para você ver as seis e meia da manhã. Fiquei com pena e doei o lençol que eu tava usando para ele cobrir aquela bunda branca. Ainda bem que acordei antes de Magnólia entrar no quarto para me despertar. Eu hein…

Nosso albergue em Cuba

Para deixa-los mais por dentro. Pelo menos até onde li, em Cuba é ilegal você receber estrangeiros em sua casa sem possuir uma autorização especial do governo. Depois descobri que eles tem um esquema parecido com a China, a imigração quer monitorar todos os seus passos.
Assim que chegávamos, eles nos colocavam para assinar um livro e os levavam até a imigração, mais ou menos como o registro da China. Assim, Couchsurfing, além do já problema de Cuba quase não possuir internet (segundo a lenda que eu escutei, Cuba não pode se conectar a rede mundial de fibra óptica devido aos problemas com os Estados Unidos, por isso a internet lá é jurássica e cara), não é permitido.
Tive que apelar para hotéis e pousadas. Se você não quer gastar muita grana, pode optar por não ficar em hotéis e ficar nas famosas “casas particulares” de Cuba. Elas funcionam assim, você que tem uma casa, paga uma taxa extremamente cara para o governo (um dono de casa particular me disse que pagava algo como 132 dólares por mês, independente se hospedasse 40 pessoas ou ninguém durante o mês) e pode transformar sua casa em uma pousada recebendo uma graninha no fim do mês que pode fazer toda a diferença. Procurei, procurei e nada de conseguir achar um albergue, tive que acabar indo para uma casa particular mesmo.
Qual não foi a minha surpresa ao descobrir, fuçando no Couchsurfing, que uma simpática senhora possuía uma casa particular em Havana só que com uma particularidade, ela os transformou em quartos coletivos. Tá certo que era só um banheiro para 11 camas, mas ela cobrava cinco dólares por noite, enquanto na outra casa que eu ia, eu iria pagar VINTE E CINCO dólares por noite. Albergue, absurdamente mais barato? Tou dentro.
Magnólia, a dona do albergue com a sua cachorrinha Lucy (homenagem a Lucy in the Sky of Diamonts, clássico dos Beatles. Ela era muito fã deles.)

Engraçado que assim que eu fui chegando no albergue, a Magnólia, dona do albergue (que era uma outra atração a parte. Super meiga e atenciosa com a gente. Depois descobri que todas donas de casas particulares são sempre muito atenciosas), me disse que ainda ia ver em que cama eu iria ficar, porque havia acabado de chegar três suecas lá no albergue (!!!!!!!!!). Beleza, a minha época de correr atrás de suecas quentes (UUUhhhhhh!!) já passou, porém, porra, três suecas mexem com o coração de qualquer brasileiro. Depois, quando as conheci, vi que as três eram feias e bem chatinhas. Menos mal, mas continuam sendo três suecas.
Outra vantagem do albergue da Magnólia era que do lado tinha uma padaria 24 horas. Mas não, não era aquelas padarias que conhecemos no Brasil, que você volta da balada e vai na padoca para comer um misto ou um salgado. A padaria só vendia pão. E era 24 HORAS!! Quem diabos vai querer comprar um pedaço de pão as três da manhã, eu também me perguntava. A gente voltava da bagunça as duas, três da manhã e lá dentro tava o padeiro fazendo pães e vez ou outra alguém comprando. Se o cara tivesse com uma mulher grávida em casa e ela despertasse com uma daquelas vontades estranhas, era torcer para que fosse uma baguete! Era tão estranho que um dia um espanhol sugeriu de, ao voltar da balada, comprar um pão as três da manhã e tentar fumar para ver se dava um barato legal.
E que escolha da hora o albergue, viu? Tinha uma galera lá que tava praticamente morando no albergue, uns ficando um mês, outra menina que ia ficar lá quase quatro (cara, lá era muito barato) e as pessoas que conheci lá foram uma atração em si. Rolou uma interação entre a turma que depois de algumas horas parecia que éramos amigos há anos. E como parte dos que estavam hospedados também estudavam em universidades, vez ou outra rolava uma festinha universitária e eles nos convidavam. Teve uma vez que foi até engraçado, a menina falou assim “vamos ali numa festinha, vai ser uma coisa meio intimista, nem sei se posso levar vocês, mas vamos, qualquer coisa vocês voltam”. Quando a gente chegou, descobriu que a festa era em um estádio de baseball e mais parecia um Woodstock a parada!!!

Dois pesos, duas medidas e muita bagunça

Isso no final acabou por bagunçar toda a economia cubana, diferenciando quem trabalha por CUC por quem trabalha por pesos cubanos. Um médico em Cuba ganha por volta de 45 CUCs por mês. Só para efeito de comparação, outro dia quis andar numa daquelas bicicletinhas que usam de táxi, tal qual no Nepal, chorei, chorei, chorei e o cara fez por quatro CUCs, ou seja, ganhou 10% do salário de um médico em vinte minutos.
Esses dois estavam casando e batendo algumas fotos do albúm. Achei muito legal o lugar que eles estavam posando e bati algumas fotos.
Sim, o noivo era bem fanfarrão

O setor médico de Cuba é tão estratégico e tão que só para citar um exemplo, quando estava voltando de Varadero para Havana, conheci um italiano que estava casado com uma cubana e tinha tido um filho com ela. Eles estavam esperando há SETE anos que o Governo Cubano desse baixa do serviço dela, pois enquanto ela não tivesse a baixa, não poderia ter passaporte e, portanto, não poderia deixar legalmente o país. O Governo efetivamente sabe que paga muito pouco a essas pessoas e por isso não as deixa sair do país com medo de que elas não retornem.
Só para ter noção de como tudo pode ser distorcido, conheci um guia turístico cubano que ganhava 1000 dólares por mês só porque trabalhava para uma empresa de turismo australiana e um outro cara na rua que vendia chapéu, cada um por três CUCs e que me disse que conheceu uma brasileira de Trancoso e foi ao Brasil visita-la. Pagou 950 CUCs na passagem de avião!!!! Só foi, possível, claro, porque trabalha com CUCs.
O problema é que quanto mais pessoas recebem em CUCs, mais pessoas também querem receber nesta moeda. Então o cara que vende roupas, vai colocar os preços em CUCs, o cara que vende pastel também e por aí vai, inflacionando toda a economia. Por isso que o que todos dizem é que todo cubano consegue viver de boa metade do mês e na outra metade “se vira”.
A comida do governo, que vem em uma quantidade específica por pessoas, dura só duas semanas. Para comprar “supérfluos” como roupas, cervejas, iorgutes, você tem que pagar em CUCS. As outras duas, você tem que dar um jeito. Arrumar um táxi para trabalhar a noite, alugar quartos da sua casa para hospedar turistas chatos abdicando absurdamente da sua intimidade, comprar rum e vender mojitos na praia, tocar violão e cantar para turista e pedir um CUC por isso, dar golpe em turistas desavisados, trabalhar de guia nas suas folgas e por aí vai. Isso, como gosto sempre de frisar, em uma população extremamente estudada e educada.
 Por isso que Cuba era o único lugar que eu nunca barganhava pelo preço do quarto, me doía o coração, cara! Os caras te cobravam vinte CUC, eu sei que se eu chorasse um pouco, eles fariam por quinze, mas porra, dez reais para gente não é NADA, mas para os bichos pode ser cinco, dez por cento do que ganham por mês juntando o trabalho com o aluguel do quarto da sua casa. Além do que, com Magnólia eu economizava vinte dólares POR DIA (!!!!), já que, por dia, eu iria pagar 25 CUCs na outra casa particular e na casa dela eu pagava 5 CUCs por noite.

Porém, há sempre o porém

Porém, algo que é consenso entre os pró-Fidel e contra Fidel na ilha é que a miséria extrema foi extirpada ainda que com isso tenha decorrido a quase extinção de uma classe média na ilha. O fim da miséria veio a um preço alto demais. A nível de comparação, um cubano que eu estava conversando (e que até era pró-Fidel) me explicava que “presente de cubano” para cubano são coisas que você sabe que fazem falta na casa. Portanto, se você vai em um hospital e é bem atendido pelo médico, na outra consulta leva um queijo, um molho de tomate, meia garrafa de azeite, um litro de detergente. Fome ninguém passa, mas a um custo bem alto do bem-estar de toda a população.
Então, em Cuba não é difícil você ver um taxista que pela manhã trabalha como médico (e deve receber a metade do que recebe como taxista), uma professora universitária que largou a academia para viver de fazer pequenos reparos de costuras em roupas (como eu conheci) ou até mesmo um físico nuclear trabalhando de maleiro em um hotel (como um amigo meu conheceu). Isso é por causa do comunismo? Isso é por causa do embargo? Escolha a sua ideologia e se mate em uma discussão na mesa de bar no Brasil, porque a resposta para isso ninguém nunca vai conseguir. Enquanto isso, nossos amigos cubanos trabalham por algumas migalhas por mês por decisões que foram tomadas sem eles terem sidos consultados…

CUCs X Pesos Cubanos

Ruim era quando eu tentava pagar em CUCs. As vezes a parada era um 1 CUC, você dava 5 CUCs e o cara não tinha troco, só para você ver como é difícil cubanos terem acesso a essa moeda.
O mais louco é que quando você efetivamente consegue se integrar a essa vida louca de duas economias e começa a aprender a como comprar as coisas em pesos cubanos, você começa a pensar como cubanos e achar as transações em CUC extremamente caras.
Uma vez eu quase perdi um ônibus para outra cidade. Culpa da dona da casa particular que me convenceu a pegar um ônibus, pois táxi ia sair muito caro, absurdamente 3 CUCs. Peguei o ônibus errado e quase não cheguei a tempo na rodoviária!
Bicho, eu só fui perceber que eu havia de fato “virado cubano” quando estava saindo de um forte no meio do nada, no frio e a noite e fui pegar um táxi para voltar para casa porque não havia ônibus de lá. Sabia que o táxi custava 2 CUCs e devia pagar no máximo 3 CUCs, o que era MUITO dinheiro para a corrida. O taxista, quando viu que eu era gringo, disse que não saía de lá por menos de 8 CUCs. Falei para ele que não ia pagar porque aquilo era muito caro e saí caminhando até a rodovia para esperar um carro para me levar. Um frio danado e eu sem agasalho. Só depois que enfim um carro parou para mim (e nem era táxi) e aceitou me levar por 3 CUCs. Eu caminhei quase meia hora até a rodovia por causa de 10 reais. Tou nem aí, como dizem os cubanos, 5 CUCs é muito dinheiro!

Economia em Cuba

Essa eu não sabia, mas Cuba antes da Revolução era o principal aliado dos Estados Unidos na América Central. Os americanos, inclusive, tentaram por diversas vezes comprar Cuba da Espanha e quando Cuba ficou independente, quase a anexou como fez com Porto Rico.
No início, a Revolução Cubana era apenas uma Revolução nacionalista e Fidel foi até mesmo recebido por Nixon depois de ter tomado o poder. Porém, o grande problema foi que as primeiras ações da Revolução foram as expropriações em uma economia que os americanos possuíam mais de 50% das propriedades do país. Detalhe que essa estatização das propriedades americanas não foram como na Venezuela, onde ao menos tenta se impor uma normalidade e indenizar os proprietários, as expropriações cubana foram sem retorno financeiro nenhum. Isso irritou profundamente o governo americano e foi o grande responsável pelo início das escaramuças entre Cuba e Estados Unidos.
Depois de quase ter o país invadido durante a invasão da Baía dos Porcos, Castro viu que só havia uma forma de sobreviver aos EUA: se tornar um estado satélite da URSS. Isso levou a crise dos mísseis e posteriormente ao Embargo Econômico a Cuba.

Apesar de parecer algo trivial, o Embargo Econômico a Cuba jogou a economia cubana ao cadafalso. Além do caráter óbvio de não permitir que Cuba não compre nada dos Estados Unidos e também não venda (perdendo o acesso ao maior mercado consumidor do mundo), há várias outras pequenas maldadezinhas que a gente acaba por não saber como, por exemplo, um navio que tenha aportado em portos cubanos não pode aportar nos Estados Unidos por seis meses. Isso faz com que até mesmo itens básicos de sobrevivência possam ser difíceis de serem comprados, já que navio nenhum que ir para Cuba e depois não poder ir depois para os EUA.
Com a sociedade cubana dependendo cada vez mais do turismo, o governo resolveu criar uma outra moeda, apenas para turista, o CUC (CUBAN UNIVERSAL CURRENCY) que é uma moeda vinculada ao dólar, ou seja, um dólar vale um CUC.
Teoricamente, os turistas só podem usar CUC e os cubanos só podem usar o peso cubano, que é a moeda deles. Digo teoricamente porque isso efetivamente não funciona assim. Em CUC eu pagava coisa de turista mesmo, casa particular, souvenir, passeio, táxi… De resto, era tudo com moeda nacional, como comida na rua, ônibus etc. Para efeito de comparação, nas casas de câmbio um CUC era 24 pesos cubanos, nas ruas para efeito de conversão (as vezes você não tinha peso, pagava com CUC e recebia em pesos), 23 pesos.
O pior é que quando se olham os preços nas etiquetas das coisas, não fica claramente distinto se está em pesos cubanos ou em CUCs. Como faz para saber? Como dizia uma amiga minha: “você sabe”. Digamos, se você chega em uma bodega e uma pizza é 10, só pode ser 10 pesos cubanos. Se você vai comprar uma camisa e nela tá escrito 10, só pode ser em CUC. Pode parecer complicado, mas depois de um tempo você acaba aprendendo.
Acontece que os cubanos recebem em pesos cubanos, portanto, tudo que é em peso cubano é absurdamente barato. Como eu me entrosei com a galera do albergue que tava morava em Cuba e tentava comer o máximo como cubano, pagava um real em uma lata de refrigerante local, um real por uma pizza responsa, cinco centavos de passagem de ônibus, dez centavos em um jornal, cinquenta centavos por um pastel, três reais por um litro e meio de cerveja e o melhor, O MELHOR, O MELHOOOOORRRR!!!!, dois, três reais por um livro. Sim, como achei umas livrarias de locais, era só eu chegar sem falar nada (porque pareço cubano e portanto eles não me cobravam mais caro), pegar o livro, entregar uns 40 pesos cubanos e esperar o troco. E o troco sempre vinha!

Revolução Cubana

Primeiro, antes de tudo, Cuba foi um grande aprendizado. Sugiro que qualquer pessoa tente ao menos uma vez na vida viajar a Cuba para conhecer o que é uma realidade totalmente diferente.
Havana Vieja
Há meio que um consenso, mesmo entre os pró-Fidel e os contra que a Revolução Cubana teve um papel importante na história de Cuba e que ela foi melhor do que viver sobre os auspícios de Fulgêncio Baptista (que no início também se revelou um cara promissor, inclusive promulgando a Constituição mais livre que Cuba já conheceu).
Plaza de la Revolucion

A Revolução Cubana zerou o analfabetismo de Cuba e simplesmente catapultou os índices sociais do país para os de um país de primeiro mundo. Para servir de ilustração, Cuba possui índices de mortalidade infantil e expectativa de vida melhor do que os Estados Unidos que possui um gasto por pessoa em saúde dez vezes maior que o cubano. Conheci um argentino no albergue da Magnólia que um dos motivos dele viajar a Cuba era o de comprar uma medicação de vitiligo para a cunhada dele e que só era vendida em Cuba. Isso é Cuba!

Cienfuegos
Che Guevara

Educação é também outra coisa muito forte no país. Em Cuba, parece que virtualmente qualquer pessoa tem um diploma de curso superior e as pessoas que não tem, me disseram que foi porque não quiseram mais estudar, ou por achar que iam ganhar pouco, ou por preguiça mesmo. Se você é de outra cidade e não tem o curso que você quer, nas universidades há dormitórios para todos, assim você não tem que pagar albergue.

Plaza de la Revolución
=)
Passei do lado e vi esses caras se xingando e gritando alto no meio de uma praça central de Havana. Perguntei o que era e me falaram que eles se reúnem para discutir beisebol todos os dias. Rapaz, mas eles gritavam…
É isso aí, amigo. Tudo na vida é ter estilo
Já viu esse ônibus em algum filme americano? Pois é, ele também existe em Cuba

Apesar de ser uma ditadura comunista, há em muitos setores da sociedade muito mais liberdade do que temos no Brasil e até mesmo em alguns países desenvolvidos. A mulher na sociedade cubana é efetivamente incluída no mercado de trabalho e não possuem as disparidades de renda que possuímos no Brasil, onde mulheres recebem quase a metade para fazer o mesmo tipo de trabalho que um homem.
E, claro, o mais visível, não existe a diferença entre as cores como em toda a América. Assistindo um pouco de TV cubana, vi um programa falando sobre uma conferência de médicos cirurgiões que houve em Havana. Você olhava na plateia e via brancos, mas também uns negros, mas negões mesmo, cara, entre os médicos sentados e participando das discussões. Apesar de ser do segundo estado mais negro do país, nunca fui atendido por médico negro no Maranhão e em lugar algum no Brasil. Isso era alguma coisa que eu via e dizia “Cuba é foda!”. Os caras que moravam naquela puta casa que descrevi e nos levaram para uma festa eram todos bem negros e puta inteligentes, eu fiquei impressionado com o nível das discussões que eu levava com um em particular que depois até pedi para bater uma foto com ele. O cara gente boa demais.

Eu e Marcos, amigo cubano

Galera reunida na casa colonial
Galera reunida na mesa de jantar do albergue. Um jantar completo, com suco, era quatro reais. E ainda tinha gente que achava caro e ia comer em um outro restaurante onde o jantar era 1,5 real. Saudades de Cuba.
Eis que um dia eu tava do nada sentado na sala quando só escutei um barulho: PLÁ! Quando eu vi era o teto literalmente caindo na minha cabeça. MEDO!
Magnólia, a dona do albergue onde fiquei. Super gente boa…
O bicho me deu uma aula sobre a importância da liberdade de expressão, liberdade de escolha, viver sobre tirania e coisas assim. Lembrava-me dos debates que travávamos quando eu ainda estava na UnB. Ele dizia “O sistema cubano não é sustentável, em toda nossa história vivemos de parasitar outros países, quando deixou de ser a União Soviética (o que foi um inferno para Cuba quando a União Soviética parou de subsidiar a economia cubana. Ele me contou que um cigarro que hoje custa 7 pesos, naquela época chegou a custar 50), começou a ser Venezuela. Agora com a morte de Chávez quem vamos parasitar? Podemos ter várias coisas, mas você não pode vir aqui e querer me dizer o que é viver em Cuba, eu vivo aqui e sei da dificuldade que às vezes passamos de conseguir sabonete ou papel higiênico. Cuba não é esse paraíso que vocês querem que ela seja.” Isso de um cidadão que trabalhava vendendo cerveja em um bar estatal e recebendo 35 reais por mês de salário. Se fosse no Brasil, o máximo que um figura desses ia conseguir conversar comigo era sobre como o Corinthians fez uma grande besteira contratando o Alexandre Pato que não tá jogando mais nada. Se muito…
Hotel preferido por Al Capone, um dos maiores mafiosos da história do Estados Unidos. Antes de Fidel, Cuba era um paraíso para máfia americana, devido ao jogo, prostituição e depravações liberadas. Aqui, a plaquinha do quarto preferido por Al Capone quando ele se hospedava no hotel…

E sim, o que mais me deixava impressionado era o nível educacional da população em si. Você ia discutir com um cara sobre a Revolução, quando ele te dava argumentos contra não era aquele besta que você imagina (ah, eu não posso ter um carro, ah eu não posso comprar isso ou aquilo), mas argumentações inteligentes.

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