Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Apesar de haver vários povos indígenas quando Cortéz chegou no México, a cultura deles meio que se originou de um tronco comum, motivo que eu vou descrever só os pontos que eu achei mais interessantes, sem descrever se é maia, astecas, olmeca etc.
Atribuía-se uma boa colheita ao sacrifício deste capitão que voltava a terra para fertilizá-la. Não entendi direito porque, mas eles só ofereciam o crânio, o coração e o fêmur como oferenda aos deuses, o resto do corpo era incinerado.
“Cenote”, poço natural onde os restos mortais eram oferecidos como oferenda. Neste poço foram encontrados dezenas de crânios e pedaços de fêmur
Entre um dos motivos que eram realizadas guerras era para captura de prisioneiros para posterior sacrifício.
Outro ponto que achei interessante foi como eles acreditavam que ocorriam as chuvas. Tudo era gerenciado por um deus chamado Tlaloc, que morava em uma casa com quatro quartos. Em cada quarto, eles tinha um vaso guardando um determinado tipo de água: a água boa para fertilidade e colheitas, a água escassa das secas, a água abundante das enchentes e a água gélida das geadas. Ele comandava o movimento das nuvens e, segundo as suas instruções, assistentes derramavam a água escolhida em uma determinada região. O trovão era o barulho dos vasos se espatifando ao chão. Portanto, Tlaloc era um dos deuses que mais recebiam oferendas, pois eles queriam apenas que ele derramasse a água boa.
Outro ponto interessante era que, como todos nós éramos pequenas peças montadas de deuses, o uso de recursos da natureza deveriam ser utilizados com parcimônia, pois todos os animais possuíam equivalentes humanos. A nobreza, os sacerdotes, por exemplo, eram equivalentes dos jaguares e se transformavam neles quando estavam dormindo.
Acho que o principal ponto é e sempre vai ser o sacrifício humano. Por que eles faziam isso? Bem, eles acreditavam que estávamos em um quinto ciclo da vida que fora iniciado com um sacrifício dos deuses. Dos raios do quinto sol nasceram todos os minerais e serem vivos que temos na terra. Portanto, as armas, as pedras, os animais, os seres humanos, todos nós somos partes de deuses. Comemos da terra e a terra nos come, formando um clico de vida e morte. O sacrifício nada mais era que uma forma de honrar os deuses, devolver parte de sua energia como uma forma de humildade e retribuir o seu sacrifício. Acreditava-se que se o sacrifício fosse parado, o sol deixaria de se nascer e o quinto ciclo seria finalizado. Era algo tão importante que quem era sacrificado quando finalizado o jogo de futebol maia, era o capitão do time vencedor e não do time perdedor.
A bandeira do México traz no meio uma imagem de uma águia comendo uma serpente em cima de um cacto. Diz a lenda que os astecas vagavam pelo México e havia uma profecia que dizia que os astecas deveriam erguer a sua cidade em um lugar onde fosse visto isso, uma águia comendo uma serpente em cima de um cacto. Diz a lenda que eles acharam esta imagem e ergueram a capital do seu império, Tenochtitlán neste local.
Lenda ou não, Tenochtitlán possuía uma população de 200 a 300 mil pessoas no seu auge e sua, digamos região metropolitana, tinha uma concentração populacional de quase 1,5 milhão, o que a fazia uma das maiores concentrações populacionais de todo o mundo àquela época. Tenochtitlán parecia-se com Veneza, com seus canais e aspecto vibrante da cidade.
Quando os espanhóis chegaram a cidade, os astecas estavam no seu auge. Dominavam toda a região, inclusive os povos indígenas vizinhos de quem cobravam impostos extorsivos mais ou menos como em um regime de servidão. Quando os espanhóis chegaram estava plantada a semente que levaria a destruição do império asteca. Já se tornou meio cliché se perguntar como 300, 500 espanhóis conseguiram derrotar um império com milhões de pessoas (se pudéssemos criar um paralelo, seria mais ou menos como um povoado do Maranhão tomando de assalto a cidade de São Paulo e escravizando todos os seus moradores). Como em dois anos, uma cultura de 3000 anos foi transformada em cinzas.
São várias as razões que defende-se para isso ter ocorrido, no final o motivo acaba sendo um acumulado de todas elas.
Existia uma lenda entre os astecas que um dia o Deus serpente desceria a terra sob a forma de um homem branco e com pelos na cara (índios não tem barba) acompanhado de seus filhos e semelhantes. Defende-se que essa lenda se originou devido a visita dos vikings algumas centenas de anos atrás ao continente americano e ao fato dos índios terem se impressionado com a barba e a brancura da pele dos nórdicos. Quando Montezuma ouviu falar que torres flutuantes chegaram a praia com bestas que cuspiam fogo pela boca (os tiros de mosquetes dos espanhóis), não teve dúvida que esse momento tenha chegado. Para quem acha que isso é baboseira, Montezuma chegou a convidar Cortéz para ser hóspede em Tenochtitlán, onde ele permaneceu por meses. Houve uma rebelião no litoral e levaram a cabeça de um capitão espanhol para tentar fazer Montezuma acreditar que os espanhóis eram humanos e não deuses, ainda assim ele não se convenceu. Só depois de uma rebelião em Tenochtitlán, em que Montezuma foi morto, não se sabe pela população ou pelos espanhóis, que os astecas começaram a reagir contra a dominação espanhola.
A partir daí entraram as principais armas espanholas. Primeiro que os espanhóis eram bem mais desenvolvidos tecnologicamente, tinham conhecimento do aço, pólvora e uma poderosa marinha perfeita para bombardear cidades com bolas de canhão, enquanto os astecas tinham tacapes de madeira com pedras de obsidiana (uma pedra vulcânica extremamente afiada). Além disso, os espanhóis espalharam doenças que hoje são banais, mas que naquela época dizimaram 90% da população indígena como sarampo, gripe, catapora e, principalmente, varíola. Com uma população doente, é mais fácil você atacar. Porém, a principal arma de Cortéz foi a política, que ele sabia manejar muito bem. Os espanhóis passaram centenas de anos para reunificar os seus territórios que estavam sob domínio árabe e a diplomacia foi uma de suas principais armas para isso. Depois foi só usá-la contra os astecas.
Aproveitando-se do ódio que os povos indígenas dominados tinham dos astecas, Cortéz conseguiu montar um exército de mais de 100 mil indígenas para tentar tomar Tenochtitlán. Esses indígenas não eram só números, eles conheciam o terreno, as estratégias utilizadas pelos astecas, suas linhas de suprimento e como eles guerreavam. Isso se tornou uma imensa vantagem para Cortéz. Ainda assim, a cidade resistiu bravamente por sete meses, um dos mais prolongados cercos da história, ainda que estivesse devastada pela peste e pela convulsão social a que foi acometida.
Depois da queda de Tenochtitlán, o inferno na terra foi dado aos astecas. A tripulação de Cortéz não era composta de cientistas ou liberais, mas sim da pior corja possível existente na Espanha e prisões foram esvaziadas para compor a sua tripulação (quem mais iria se arriscar em uma viagem mar adentro que matava a maioria dos seus tripulantes?). Então, o único interesse de tais espanhóis era enriquecer da forma mais rápida e “barata” possível, ou seja, por meio do trabalho exaustivo e até a morte dos indígenas dominados. Quando a Espanha se jogou no mar com as caravelas de Colombo, o que eles pretendiam fazer era achar um caminho até as Índias por meio de volta ao mundo, já que Portugal já dominava o caminho contornando o continente africano. Depois de perceberem que eles não haviam chegados às lendárias índias e de que perceber que ir as índias por meio de volta ao mundo era extremamente caro (Fernão de Magalhães foi um dos poucos que fez isso naquela época sob um custo altíssimo, inclusive de sua vida), os espanhóis se decepcionaram e invejaram os portugueses. Começaram a pensar em outra “utilidade” para o continente americano. Quando ouviram falar de contos de cidades feitas de prata e ouro no continente americano, os seus olhos brilharam e eles viram que era hora de ganhar dinheiro. Irônico q depois de alguns anos a Espanha ficou podre de rica com a exploração da América Central e Portugal teve que ir explorar o Brasil pois viu-se que o comércio com as Índias não era tão rentável assim.
Mas se um pressuposto básico da diplomacia, é que você possa conversar, como os espanhóis se comunicavam com os indígenas? Algum dos componentes da tripulação de Colombo, não regressaram para a Espanha (para que diabos você vai pegar o inferno de outra viagem?) e ficaram em terras indígenas, compondo famílias e se misturando a cultura local aprendendo, lógico, a língua. Eles serviram de guias aos espanhóis. Mas a principal tradutora de Cortéz durante a sua dominação do México foi uma indígena chamada Malinche, que falava duas das principais línguas indígenas da região, depois aprendeu espanhol e se casou com Cortéz. Os mexicanos tem um ódio tão grande dessa mulher que o termo “Malinchista” se tornou sinônimo de traidor, o Judas mexicano (sim, eu vi os caras xingando “malinchistas” enquanto a gente via futebol na TV).
Depois da dominação houve a conversão. Índios que se convertiam ao catolicismo tinham um tratamento menos infernal (não que deixassem de ser explorados até a morte) pelos espanhóis. Dessa forma, hoje o México é um dos principais países católicos do mundo. Isso não quer dizer que a Igreja Católica desempenhou um papel social na América Latina, pelo contrário, também explorou os indígenas baseada no seu próprio interesse. A única exceção ficou por conta de alguns franciscanos que durante anos denunciaram os maus-tratos e a exploração indígena. Como os indígenas eram analfabetos, as igrejas eram decoradas com artes trabalhadas e figuras gigantes de santos católicos para que fosse mais fácil a sua conversão, motivo de toda a decoração das igrejas que pude visitar no México.
Há algum tempo o México já constava entre os países que eu gostaria de visitar. História é de longe o tema que mais me atrai a viajar para um lugar e o México, lar de grande parte das civilizações das Américas, seria uma escolha natural.
Aproveitei que uma amiga do tempo da universidade iria se casar na Cidade do México e peguei duas semanas para poder viajar.
A cidade do México tem varias atrações por si só. Apesar de ser uma cidade gigantesca, com um trânsito caótico e uma poluição catastrófica, tem seus encantos devido a ser o local onde se encontrava Tenochtitlan, a capital do Império Asteca e próximo de Teotihuacan, uma outra cidade pré-colombiana.
Vi um lugar falando que o centro histórico já afundou quase 10 metros e inclusive algumas igrejas hoje tem escadas para você pode descer. A cidade tem museu de tudo que você imaginar, da imprensa a tortura, dos astecas aos Correios e dá para ficar meses aquí se você resolve visitar museu por museu. Inclusive há o museu das ruínas do antigo Templo Maior, principal templo asteca, local onde os astecas teriam visto a imagem da águia comendo a cobra e cujo museu tem informação demais, acho que nunca gastei tanto tempo em um museu como naquele.
Ruínas do Templo Mayor
Algo interessante é que como a cidade foi construída em cima de onde antes era um lago, com um solo poroso e cujos lençóis freáticos são cada día mais usados para abastecer de agua uma cidade de milhões de habitantes, a cidade está, literalmente, indo para o buraco. Sim, o solo da cidade nâo foi feito para aguentar o peso das contrucoes gigantescas que os espanhóis construíram em cima dos templos astecas e é visível ver como varias igrejas hoje tem torres e colunas tortas.
Catedral da Cidade do México inclinada. Não há nenhum efeito de photoshop na foto. Ela é inclinada assim mesmo devido a porosidade do terreno
No Palácio do Governo há os famosos murais de Diego Rivera, onde ele pintou a história dos astecas desde antes da invasão espanhola, até o seu martírio. O Palácio foi construído exatamente onde se situava o palácio de Montezuma, assim como a impressionante Catedral que foi construída em cima do mais importante templo asteca (inclusive utilizando das pedras do templo) e a praça central do México que foi construída onde era a praça central de Teotican.Próximo a cidade do México há a antiga cidade de Teotihuacan (não confundir com Tenochtitlan), um dos vários povos avançados que povoou a região onde agora é a Cidade do México. Esta cidade chegou a ter no seu auge quase 125 mil pessoas. O auge do Império foi quase 1000 anos antes dos astecas, mas o seu legado ficou até os dias atuais, pois vários dos seus deuses como a serpente Quetzalcóalt e Tláloc, deus da chuva e da água, que vou explicar posteriormente, ainda eram cultuados pelos astecas quando os espanhóis chegaram. A elite asteca chegava a fazer procissões para as pirâmides da cidade, pois acreditavam que este havia sido o local onde os deuses haviam se sacrificado para o nascimento do sol e da vida como um todo. Tais pirâmides, são a terceira maior já construídas pelo homem, perdendo apenas para a de Queóps no Egito e para um outra pirâmide da região que hoje é apenas uma colina. Importante lembrar que tal pirâmide foi construída com três milhões de toneladas de pedra sem o uso de ferramentas de metal, rodas ou animais de carga, foi tudo no braço! Ah sim, a pirâmide tem 248 degraus com a altura de uns 30 cm cada um, o que faz ser uma subidinha deveras chata para ser realizada.
O casamento foi legal porque pude reencontrar vários amigos do tempo de faculdade, o que acabou por não me deixar ficar sozinho grande parte do tempo.
Quando as pessoas me perguntavam se eu já havia visitado a China, a minha resposta era sempre “- Não, só fui a Hong Kong e Macau”. Apesar de essas duas regiões serem parte da China hoje, pra mim elas não contavam como “China” em si por terem uma história diferente da China continental e, principalmente, por serem BEM ricas.
Xangai hoje posso dizer o mesmo. É um verdadeiro choque quando você sai do caos que é Pequim e outras cidades da China e cai diretamente em Xangai. Cara, Xangai é coisa de outro mundo. Começa pelo aeroporto, que parece novinho em folha e é gigantesco! Saindo de lá, quando você cai na cidade, você vê toda a opulência e riqueza que Xangai transmite, totalmente diferente das outras cidades chinesas que, como já falei, são gigantescas, porém sujas e bagunçadas. Mas como disse várias vezes, Xangai e nada na China são exemplos para ninguém.
O que eu havia lido era que Hong Kong e Macau despertam um certo “ciúme” na cúpula do Partido Comunista Chinês. As duas regiões são pujantes e extremamente ricas, porém foram colonizadas por potências estrangeiras. Xangai seria uma resposta do modelo comunista chinês que eles poderiam fazer algo melhor e mais moderno seguindo o modelo comunista. Mais ou menos como a Pyongyang da China. Assim, de forma artificial, você tem uma ilha da maravilha no meio do caos das cidades do interior da China.
Perambulando por Xangai
Como já havia explicado antes, adiantei em alguns dias a minha ida a Xangai porque eu realmente não aguentava mais o interior da China, precisava descansar um pouco (afinal, eu não era aquele mochileiro de quatro anos atrás, agora eu era alguém tirando férias do trabalho e precisando de alguma forma descansar) e queria sentir um pouco dessa dita modernização chinesa. Xangai acabou por cumprir o que eu esperava.
Logo no metrô já começou algo bem engraçado. Assim, antes de falar preciso citar algo que temos que tirar o chapéu para os chineses. O metrô te pega quase que na porta de casa e te deixa já dentro do aeroporto. Isso é muito bom. Além disso, paguei 3 (isso mesmo TRÊS REAIS) de tarifa sair do aeroporto, atravessar toda Xangai e chegar na estação que eu deveria ir. Procurei a estação que eu supostamente deveria descer, comprei o tíquete e entrei no metrô. Eu deveria seguir a linha 2 do metrô do aeroporto até a estação que iria encontrar minha host, sem necessidade de mudança de linha. Lá estou eu sentado esperando o meu metrô ir passando as estações quando, de repente, todo mundo pula para fora do metrô. Como eu estava de cabeça baixa, escutando música, não me toquei que TODO MUNDO havia saído do metrô. Quando pensei em também cair fora (isso, afinal não parecia um bom sinal), vi que outras pessoas entraram. Bem, poderia seguir viagem, afinal, como eu disse, eu não precisava trocar a linha. Quando me toquei, quatro estações depois, o metrô estava VOLTANDO para o aeroporto. Diaboéisso? Eu supostamente não devia me manter na mesma linha? Tentei checar o que estava acontecendo, mas havia algumas instruções em chinês na estação que o trem havia voltado. Não entendi nada, saí do vagão e fui para o outro lado pegar os vagões que iam na direção que eu supostamente deveria ir. Fiquei sentado e dessa vez não pensei duas vezes, quando todo mundo pulou fora, eu pulei junto!
Aí que fui me tocar que, apesar de ser a mesma linha, em determinado momento você tem que fazer algo como uma baldeação de um vagão para o outro ainda que esteja na mesma linha, senão você corre o risco de voltar para o aeroporto. Essa eu não entendi. Acabou que eu apelidei o metrô do aeroporto de metrô ping-pong. Fica a dica aí para quem for para lá.
Host em Xangai
Consegui um couch em Xangai com uma polonesa. Ela se chamava Ewa. Era veterinária e estava entediada na Polônia quando viu um anúncio de emprego para ir trabalhar em Xangai. Aceitou e se mudou com mala e cuia para lá.
Assim, falar que ela era uma mulher é realmente algo difícil. Cara, ela era muito doida! Tinha crescido a vida inteira com amigos homens em fazendas derrubando cavalos no chão com as mãos, como ela mesmo gostava de falar. Além disso, ela também era fissurada em tuning e não raro participava de rachas pelas ruas da Polônia com o seu carro customizado. Bem mais macho que qualquer um aqui que tá lendo esse blog. O irmão dela corre em algo parecido com uma corrida de stock car e ela ficava me mostrando as fotos toda orgulhosa. E cara, como ela falava. Mas falava bem mais do que eu. Isso era bem engraçado.
Alguém pediu ovos de dragão para comer?
No começo eu tratava ela como…. bem… como uma mulher, né cara? Sei lá, tentava ser gentil ou coisas do tipo. Depois de um ou dois dias com ela me tratando como um cavalo, comecei a tratar ela quem nem brother mesmo! Aí que ficamos amigos! Ela dizia que eu era tão menininha, que quando alguém no meeting perguntava se erámos namorados ela só respondia: – “Só se for para ela ser minha esposa!”. Rapaz, mas a mulher era grossa que só parede de igreja!
Ela dizia que na casa dela só havia uma regra: “Regar as plantinhas logo pela manhã”. Isso havia no profile dela e não parecia ser lá um problema tão complexo. Já cheguei na casa dela sabendo que teria que fazer isso. Só que eu esperava encontrar “plantinhas” e não quase uma floresta amazônica que ela mantinha em um jardim de inverno no apê dela. Eita, mas era planta! Juro que eu gastava uns vinte minutos para poder regar toda aquela Floresta Amazônica que ela mantinha no quintal dela. A única parte positiva do fato de só ter chovido nos dois primeiros dias que fiquei em Xangai (choveu tanto que nem pude sair de casa), foi que não precisei jogar água nas plantas.
Outra história engraçada dela foi que no sábado a noite ela falou que não iria poder ir no meeting porque ela ia ter um encontro com um cara. De boa, fui sozinho e quando cheguei em casa resolvi perguntar como havia sido o seu passeio romântico. Cara, foi muito engraçado! Ela foi encontrar com um italiano estilo marombeiro. Quando chegou no bar ela já perguntou para ele o que ele iria beber e o cara respondeu “Suco!”. Rapaz, disse que na hora ela já pensou em perguntar se ele era… bem… você sabe.
Depois disse que ele começou a falar que havia sido criado pela avó, mas sentia muita saudade da mãe dele. Italiano típico, se falasse que tinha feito estágio em Pelotas eu não estranharia. Depois que a Ewa já tinha tomado quase uma garrafa de rum sozinha (segundo ela para aguentar o cara, que era muito chato e nem cerveja pediu, só tomou suco de laranja!) ele começou o grand finale. Disse que havia viajado muito a vida dele, mas que agora estava pensando em se aquietar e voltar para o pequeno vilarejo italiano dele com uma mulher para ter uma família e ela criar os filhos. Isso, lógico, dando a entender que a Ewa poderia cumprir esse papel. Até porque a meta de vida de uma mulher que se embrenha no meio do continente asiático, sem eira nem beira, sozinha, que derrubava cavalo com a mão e era quase o Vin Diesel de Velozes e Furiosos na versão feminina, era substituir o papel da mama de um italiano de trinta e cinco anos. Disse que na hora ela só pensou em mandar ele virar homem, pediu a conta (que ele pagou, lógico) e voltou para casa! É amigo! A vida é dura!
Mas o mais engraçado em Pingyao, foi meu café da manhã. Eis que eu paro pra poder comer uma parada num boteco de uma tia. Chega meu prato e foi só eu começar a comer que um passa um cara com uma criança de colo, para, assim, a um metro de onde estava o meu prato e começa a acocorar.
Demorei algum tempo para poder acreditar que ele ia fazer o que eu estava imaginando que ele ia fazer. Sim, ele bota a criança pra, digamos, evacuar (ou cagar, para os menos íntimos) do LADO DE ONDE EU TAVA COMENDO, mas assim, no meio da rua. Eu juro que eu parei de comer e fiquei “admirando” aquela cena. Também, não deixei por menos, saquei a minha máquina e comecei a bater foto do menino cagando.
De repente aparece um chinês, doido, bêbado e começa a gritar com esse cara. Quando virei a máquina e ia começar a bater foto do véio, vi que ele estava com o casaco da policia.
Não sei se era uma fantasia ou se o cara era policia mesmo, mas não quis pagar pra ver. Só soquei a máquina dentro da mochila e fingi que nada estava acontecendo. Não é que do nada o cara com o bebê começa a gritar de volta com o velho, o velho vai pra cima, o cara, segurando o bebê no colo, solta um chute no peito do véio e aí o circo foi montado. Mermão, o PAU COMEÇOU A COMER! Foi porrada de um lado, porrada de outro, mulher gritando,o véio correndo pra poder pegar um bloco de concreto para jogar no cara, cachorro passando no meio, a turma do deixa-disso entrando em cena, eu tentando proteger meu prato… Entre mortos e feridos, retrovisores para um lado, restos de para-brisa e marcas de borracha do outro, conseguiram levar o velho embora e eu consegui terminar meu café da manha.
Para situações como essas que o mercado, sempre ele facilitando a vida dos cidadãos, inovou e criou um novo modelo para facilitar a vida dos chineses. Lá, as roupinhas de bebê vem com uma abertura atrás para aquela hora que você precisar parar para a criança se aliviar no meio da rua. Mais prático impossível.
Depois segui para Pingyao, uma cidade histórica da China. Cidade chinesa padrão, suja, confusa e empoeirada. Tudo bem, isso não é problema, há várias cidades do Brasil que também são assim. A cidade em si era bem legal e charmosa. A parte antiga era cercada por muralhas e um belo exemplo de como era, e talvez funcionava, uma cidade chinesa na época imperial. Lógico que ela foi engolida por uma cidade moderna devido ao crescimento repentino chinês nos últimos anos.
No trem, conheci três franceses que depois ficamos andando juntos em Pingyao. Eles eram bem gente boa, odiavam imigrantes, diziam que eles estavam destruindo a França e que logo logo a sede da Al Qaeda ia ser transferida para Paris, enfim, uns amores de pessoas. De cada quatro palavras que conversávamos, três eram xingando os muçulmanos e africanos e que agora os franceses tinham que se submeter ao cúmulo de estudar história dos muçulmanos nas escolas. Adorei os três fofuchos e os apelidei de trio Le Pen. Versão francesa de uma amiga que conheciem Israel, a senhora Sharon!(leia a história clicando aqui)
Uma grande vantagem que aconteceu comigo foi que consegui ficar amigo de duas chinesas que falavam um inglês perfeito e também estavam a viagem pela China. Aí era “win the game”, cara. Poxa, sem mais necessidade de negociar nada, de tentar achar lugar nenhum, era só sentar no banco de carona e segui-las. Ficamos bem amigos e ainda nos encontramos na outra cidade que viajei, Pingyao. Na verdade elas eram duas gracinhas, pareciam duas Hello Kitties.
Eu com as duas Hello Kitties
Fomos juntos para um templo suspenso na montanha, muito legal! Dava um pouco de medo de subir até lá, mas a vista valia a pena.
Depois fomos visitar os budas entalhados nas paredes de pedra. A resposta chinesa para Petra (para ler sobre Petra, clicar aqui). O legal é que do lado de um sítio arqueológico milenar havia uma indústria de material químico pesado e destruidor. Nada mais apropriado para o lugar.
Chegando lá, lógico, ninguém falava inglês. Peguei um táxi e mostrei para o motorista o nome do lugar, em chinês, para onde eu estava indo. De boa, o táxi me levou, parou no meio de uma praça, só apontou para ela e falou, é para lá. Desci. Olhei para um lado. Olhei para o outro e nada de eu conseguir achar o albergue. Na rua, além de ninguém entender o que eu falava, ainda que eu tivesse o nome do albergue em chinês, ninguém parecia saber onde ficava aquilo. Rodei, rodei, rodei quase uma meia hora quando escuto alguém falando em inglês:
– Procurando o albergue, cara?
Quando virei, era um não-asiático, acenando para mim e me chamando:
– Sim, cara, deve ser o mesmo albergue que o meu! Eu também não conseguia achar o albergue quando cheguei aqui. Só consegui achar quando outro cara me chamou na rua, que nem eu tou fazendo agora contigo.
Sim, o albergue era algo como uma confraria, onde você só consegue entrar se já conhecesse algum membro anteriormente. Super bem pensando para um lugar como esse.
Quando foi a noite fiquei embaixo tentando achar algum gringo de mochila perdido para poder mostrar para ele onde era o albergue e continuar a minha corrente do bem. Na foto abaixo dá para ver como é fácil achar o letreiro do lugar.
Depois que voltei da Coréia do Norte comecei a me tocar que estava com um pequeno problema. Eu havia feitos planos, contatos, pesquisado, lido, tudo sobre Coréia do Norte e sabia exatamente o que iria fazer por lá. Porém, quando desci novamente em Pequim que fui me tocar. Rapaz, eu não tinha feito plano nenhum de viagem para a China. E ainda tinha três semanas! Que diabos eu ia fazer em três semanas na China? Depois de pesquisas e algumas sugestões, resolvi descer para Datong pois lá havia alguns Budas esculpidos na parede que pareciam bem legais. Comprei a passagem de trem e segui.
Como fui voto vencido, seguimos em frente. Cara, sabe aquela imagem das muralhas que você em cartões postais e na tv? Ela toda bonitinha e talz? Pois é, aquilo é a exceção e não a regra. Aquilo ali é só na parte bonitinha e turística para os turistas gordos poderem bater fotos e colocar no facebook. A maioria da muralha hoje é feita de ruínas e depois que saímos da parte turística, fomos para a verdadeira muralha! Aí, cara era pedra descolada fazendo você tropeçar e quase desabar precipício abaixo, zonas da muralha quase inexistentes, vegetação dificultando a caminhada, zonas intensamente íngremes e, o pior, NENHUM ser humano a vista, ou seja, com tudo para dar errado.
Seguimos caminhando e de repente veio aquela cena de filme. Sabe aquela ilhota, famosa em filmes de náufragos? Não, a muralha não virou mar, nem o mar virou muralha (sábio Antônio Conselheiro!), mas serve como metáfora para o oásis que vimos. Ao longe foi se formando a imagem de um ser humanoide sentado ao lado de algo que parecia um cubo branco. Sim, demorei a acreditar, mas era isso mesmo. Um VENDEDOR AMBULANTE perdido NO MEIO DAS MURALHAS!! É isso aí, meu caro! A mão invisível do mercado suprindo a demanda e ofertando os seus produtos onde quer que acha necessidade deles serem comprados. Com o nosso estoque de água quase no fim, aquele cara seria uma benção! Adam Smith ficaria orgulhoso! Porém, sempre há um porém! Como já havia dito nesse post da Indonésia, a mão invisível do mercado não carrega o isopor dele montanha acima.
Então? Bem, então o cabra queria que pagássemos SETE VEZES MAIS pelo preço que normalmente pagávamos em outros ambulantes! Adam Smith ficaria orgulhoso! Tentamos argumentar, mas não teve jeito, ou pagávamos a ele, ou ficaríamos com o nosso estoque de água perigosamente baixo. Você se sente humilhado, depois de estudar Economia na universidade por quatro anos, não conseguindo argumentar com um ambulante que mal sabe escrever o nome! Marx, David Ricardo, Keynes, nada adiantava, a única linguagem que ele entendia, e bem, era a do dinheiro! Depois de muito choro, ele resolveu baixar para cinco vezes o preço de mercado de um ambulante comum e seguimos viagem. Nunca paguei tão caro por uma garrafa d´água na minha vida, cara! Aquele ambulante me ensinou sobre Economia do que qualquer universidade.
AMIGOS, AMIGOS…
Caminhamos mais por uma hora e, como a pomba que volta com um ramo no bico mostrando para Noé que ele estava próximo de terra firme, vimos alguns chineses caminhando em sentindo contrário ao nosso. Bem, essa maldita vila deveria estar perto.
Caminhamos mais um pouco e nos deparamos com um problema complicado. Chegamos a uma torre de observação e o acesso dela do outro lado estava simplesmente em ruínas. Era necessário pular algo como uns dois metros, dois metros e meio de queda livre para poder continuar viagem. Cara, isso é algo como pular do primeiro andar de uma casa. Bem, com muito cuidado até dá para você fazer isso e pular no seu quintal em cima da grana, o problema é que o terreno abaixo era pedregoso e um piso em falso poderia levar a uns belos arranhões ou, o pior dos mundos em um lugar como aquele, uma torção do tornozelo a algumas horas sendo carregado até o socorro mais próximo. Ficamos matutando o que fazer quando, do nada, lá detrás, vem um chinês correndo com uma escada na mão. Lógico, do lado dele, uma outra caixa de isopor. Ficamos bem agradecidos com o que ele estava fazendo e pensamos até em comprar umas garrafas d´água da mão dele como agradecimento. Só havia um detalhe, cara, estávamos na China. Assim que ele botou a escada na torre, que eu ia pisar ele só falou: – “É dois reais para descer. POR PESSOA!!!”. Adam Smith ficaria orgulhoso!
Ok, cara, não quero que ninguém trabalhe de graça e talz, mas POMBAS! Era só uma escada! Eu, lógico, nem quis barganhar com aquele enviado dos infernos. Não era por causa do preço nem nada, era mais a atitude mesmo. Mole, mole, erámos apenas seres humanos em uma situação de risco! Entreguei a minha mochila para a galera em cima e fui me esgueirando, esgueirando e consegui alcançar o chão. Peguei as mochilas, ajudei os outros homens a descer, fizemos as mulheres pularem nos nossos braços e seguimos viagem.
Nosso amigo com sua caixinha de isopor
Em que língua escrevem os vândalos?
CINCO HORAS DEPOIS do momento em que decidimos não voltar e chegar à vila, chegamos em uma parte da muralha onde vários ambulantes conversavam. Exaustos, pobres, extorquidos, mas vivos e hidratados. Cara, não tinha placa nem nada, o caminho seguia e se não fosse a nossa amiga chinesa, para perguntar se aquela trilhazinha de nada levava até a vila, estaríamos caminhando até hoje nas muralhas. Isso é, até o momento que nosso dinheiro acabasse de tanto comprar água inflacionada. No acesso para a trilha, lógico, mais uma pequena queda de um metro e meio e mais uma operação padrão para içar as meninas de cima para baixo.