Nosso albergue em Cuba

Para deixa-los mais por dentro. Pelo menos até onde li, em Cuba é ilegal você receber estrangeiros em sua casa sem possuir uma autorização especial do governo. Depois descobri que eles tem um esquema parecido com a China, a imigração quer monitorar todos os seus passos.
Assim que chegávamos, eles nos colocavam para assinar um livro e os levavam até a imigração, mais ou menos como o registro da China. Assim, Couchsurfing, além do já problema de Cuba quase não possuir internet (segundo a lenda que eu escutei, Cuba não pode se conectar a rede mundial de fibra óptica devido aos problemas com os Estados Unidos, por isso a internet lá é jurássica e cara), não é permitido.
Tive que apelar para hotéis e pousadas. Se você não quer gastar muita grana, pode optar por não ficar em hotéis e ficar nas famosas “casas particulares” de Cuba. Elas funcionam assim, você que tem uma casa, paga uma taxa extremamente cara para o governo (um dono de casa particular me disse que pagava algo como 132 dólares por mês, independente se hospedasse 40 pessoas ou ninguém durante o mês) e pode transformar sua casa em uma pousada recebendo uma graninha no fim do mês que pode fazer toda a diferença. Procurei, procurei e nada de conseguir achar um albergue, tive que acabar indo para uma casa particular mesmo.
Qual não foi a minha surpresa ao descobrir, fuçando no Couchsurfing, que uma simpática senhora possuía uma casa particular em Havana só que com uma particularidade, ela os transformou em quartos coletivos. Tá certo que era só um banheiro para 11 camas, mas ela cobrava cinco dólares por noite, enquanto na outra casa que eu ia, eu iria pagar VINTE E CINCO dólares por noite. Albergue, absurdamente mais barato? Tou dentro.
Magnólia, a dona do albergue com a sua cachorrinha Lucy (homenagem a Lucy in the Sky of Diamonts, clássico dos Beatles. Ela era muito fã deles.)

Engraçado que assim que eu fui chegando no albergue, a Magnólia, dona do albergue (que era uma outra atração a parte. Super meiga e atenciosa com a gente. Depois descobri que todas donas de casas particulares são sempre muito atenciosas), me disse que ainda ia ver em que cama eu iria ficar, porque havia acabado de chegar três suecas lá no albergue (!!!!!!!!!). Beleza, a minha época de correr atrás de suecas quentes (UUUhhhhhh!!) já passou, porém, porra, três suecas mexem com o coração de qualquer brasileiro. Depois, quando as conheci, vi que as três eram feias e bem chatinhas. Menos mal, mas continuam sendo três suecas.
Outra vantagem do albergue da Magnólia era que do lado tinha uma padaria 24 horas. Mas não, não era aquelas padarias que conhecemos no Brasil, que você volta da balada e vai na padoca para comer um misto ou um salgado. A padaria só vendia pão. E era 24 HORAS!! Quem diabos vai querer comprar um pedaço de pão as três da manhã, eu também me perguntava. A gente voltava da bagunça as duas, três da manhã e lá dentro tava o padeiro fazendo pães e vez ou outra alguém comprando. Se o cara tivesse com uma mulher grávida em casa e ela despertasse com uma daquelas vontades estranhas, era torcer para que fosse uma baguete! Era tão estranho que um dia um espanhol sugeriu de, ao voltar da balada, comprar um pão as três da manhã e tentar fumar para ver se dava um barato legal.
E que escolha da hora o albergue, viu? Tinha uma galera lá que tava praticamente morando no albergue, uns ficando um mês, outra menina que ia ficar lá quase quatro (cara, lá era muito barato) e as pessoas que conheci lá foram uma atração em si. Rolou uma interação entre a turma que depois de algumas horas parecia que éramos amigos há anos. E como parte dos que estavam hospedados também estudavam em universidades, vez ou outra rolava uma festinha universitária e eles nos convidavam. Teve uma vez que foi até engraçado, a menina falou assim “vamos ali numa festinha, vai ser uma coisa meio intimista, nem sei se posso levar vocês, mas vamos, qualquer coisa vocês voltam”. Quando a gente chegou, descobriu que a festa era em um estádio de baseball e mais parecia um Woodstock a parada!!!

Porém, há sempre o porém

Porém, algo que é consenso entre os pró-Fidel e contra Fidel na ilha é que a miséria extrema foi extirpada ainda que com isso tenha decorrido a quase extinção de uma classe média na ilha. O fim da miséria veio a um preço alto demais. A nível de comparação, um cubano que eu estava conversando (e que até era pró-Fidel) me explicava que “presente de cubano” para cubano são coisas que você sabe que fazem falta na casa. Portanto, se você vai em um hospital e é bem atendido pelo médico, na outra consulta leva um queijo, um molho de tomate, meia garrafa de azeite, um litro de detergente. Fome ninguém passa, mas a um custo bem alto do bem-estar de toda a população.
Então, em Cuba não é difícil você ver um taxista que pela manhã trabalha como médico (e deve receber a metade do que recebe como taxista), uma professora universitária que largou a academia para viver de fazer pequenos reparos de costuras em roupas (como eu conheci) ou até mesmo um físico nuclear trabalhando de maleiro em um hotel (como um amigo meu conheceu). Isso é por causa do comunismo? Isso é por causa do embargo? Escolha a sua ideologia e se mate em uma discussão na mesa de bar no Brasil, porque a resposta para isso ninguém nunca vai conseguir. Enquanto isso, nossos amigos cubanos trabalham por algumas migalhas por mês por decisões que foram tomadas sem eles terem sidos consultados…

Dois pesos, duas medidas e muita bagunça

Isso no final acabou por bagunçar toda a economia cubana, diferenciando quem trabalha por CUC por quem trabalha por pesos cubanos. Um médico em Cuba ganha por volta de 45 CUCs por mês. Só para efeito de comparação, outro dia quis andar numa daquelas bicicletinhas que usam de táxi, tal qual no Nepal, chorei, chorei, chorei e o cara fez por quatro CUCs, ou seja, ganhou 10% do salário de um médico em vinte minutos.
Esses dois estavam casando e batendo algumas fotos do albúm. Achei muito legal o lugar que eles estavam posando e bati algumas fotos.
Sim, o noivo era bem fanfarrão

O setor médico de Cuba é tão estratégico e tão que só para citar um exemplo, quando estava voltando de Varadero para Havana, conheci um italiano que estava casado com uma cubana e tinha tido um filho com ela. Eles estavam esperando há SETE anos que o Governo Cubano desse baixa do serviço dela, pois enquanto ela não tivesse a baixa, não poderia ter passaporte e, portanto, não poderia deixar legalmente o país. O Governo efetivamente sabe que paga muito pouco a essas pessoas e por isso não as deixa sair do país com medo de que elas não retornem.
Só para ter noção de como tudo pode ser distorcido, conheci um guia turístico cubano que ganhava 1000 dólares por mês só porque trabalhava para uma empresa de turismo australiana e um outro cara na rua que vendia chapéu, cada um por três CUCs e que me disse que conheceu uma brasileira de Trancoso e foi ao Brasil visita-la. Pagou 950 CUCs na passagem de avião!!!! Só foi, possível, claro, porque trabalha com CUCs.
O problema é que quanto mais pessoas recebem em CUCs, mais pessoas também querem receber nesta moeda. Então o cara que vende roupas, vai colocar os preços em CUCs, o cara que vende pastel também e por aí vai, inflacionando toda a economia. Por isso que o que todos dizem é que todo cubano consegue viver de boa metade do mês e na outra metade “se vira”.
A comida do governo, que vem em uma quantidade específica por pessoas, dura só duas semanas. Para comprar “supérfluos” como roupas, cervejas, iorgutes, você tem que pagar em CUCS. As outras duas, você tem que dar um jeito. Arrumar um táxi para trabalhar a noite, alugar quartos da sua casa para hospedar turistas chatos abdicando absurdamente da sua intimidade, comprar rum e vender mojitos na praia, tocar violão e cantar para turista e pedir um CUC por isso, dar golpe em turistas desavisados, trabalhar de guia nas suas folgas e por aí vai. Isso, como gosto sempre de frisar, em uma população extremamente estudada e educada.
 Por isso que Cuba era o único lugar que eu nunca barganhava pelo preço do quarto, me doía o coração, cara! Os caras te cobravam vinte CUC, eu sei que se eu chorasse um pouco, eles fariam por quinze, mas porra, dez reais para gente não é NADA, mas para os bichos pode ser cinco, dez por cento do que ganham por mês juntando o trabalho com o aluguel do quarto da sua casa. Além do que, com Magnólia eu economizava vinte dólares POR DIA (!!!!), já que, por dia, eu iria pagar 25 CUCs na outra casa particular e na casa dela eu pagava 5 CUCs por noite.

CUCs X Pesos Cubanos

Ruim era quando eu tentava pagar em CUCs. As vezes a parada era um 1 CUC, você dava 5 CUCs e o cara não tinha troco, só para você ver como é difícil cubanos terem acesso a essa moeda.
O mais louco é que quando você efetivamente consegue se integrar a essa vida louca de duas economias e começa a aprender a como comprar as coisas em pesos cubanos, você começa a pensar como cubanos e achar as transações em CUC extremamente caras.
Uma vez eu quase perdi um ônibus para outra cidade. Culpa da dona da casa particular que me convenceu a pegar um ônibus, pois táxi ia sair muito caro, absurdamente 3 CUCs. Peguei o ônibus errado e quase não cheguei a tempo na rodoviária!
Bicho, eu só fui perceber que eu havia de fato “virado cubano” quando estava saindo de um forte no meio do nada, no frio e a noite e fui pegar um táxi para voltar para casa porque não havia ônibus de lá. Sabia que o táxi custava 2 CUCs e devia pagar no máximo 3 CUCs, o que era MUITO dinheiro para a corrida. O taxista, quando viu que eu era gringo, disse que não saía de lá por menos de 8 CUCs. Falei para ele que não ia pagar porque aquilo era muito caro e saí caminhando até a rodovia para esperar um carro para me levar. Um frio danado e eu sem agasalho. Só depois que enfim um carro parou para mim (e nem era táxi) e aceitou me levar por 3 CUCs. Eu caminhei quase meia hora até a rodovia por causa de 10 reais. Tou nem aí, como dizem os cubanos, 5 CUCs é muito dinheiro!

Economia em Cuba

Essa eu não sabia, mas Cuba antes da Revolução era o principal aliado dos Estados Unidos na América Central. Os americanos, inclusive, tentaram por diversas vezes comprar Cuba da Espanha e quando Cuba ficou independente, quase a anexou como fez com Porto Rico.
No início, a Revolução Cubana era apenas uma Revolução nacionalista e Fidel foi até mesmo recebido por Nixon depois de ter tomado o poder. Porém, o grande problema foi que as primeiras ações da Revolução foram as expropriações em uma economia que os americanos possuíam mais de 50% das propriedades do país. Detalhe que essa estatização das propriedades americanas não foram como na Venezuela, onde ao menos tenta se impor uma normalidade e indenizar os proprietários, as expropriações cubana foram sem retorno financeiro nenhum. Isso irritou profundamente o governo americano e foi o grande responsável pelo início das escaramuças entre Cuba e Estados Unidos.
Depois de quase ter o país invadido durante a invasão da Baía dos Porcos, Castro viu que só havia uma forma de sobreviver aos EUA: se tornar um estado satélite da URSS. Isso levou a crise dos mísseis e posteriormente ao Embargo Econômico a Cuba.

Apesar de parecer algo trivial, o Embargo Econômico a Cuba jogou a economia cubana ao cadafalso. Além do caráter óbvio de não permitir que Cuba não compre nada dos Estados Unidos e também não venda (perdendo o acesso ao maior mercado consumidor do mundo), há várias outras pequenas maldadezinhas que a gente acaba por não saber como, por exemplo, um navio que tenha aportado em portos cubanos não pode aportar nos Estados Unidos por seis meses. Isso faz com que até mesmo itens básicos de sobrevivência possam ser difíceis de serem comprados, já que navio nenhum que ir para Cuba e depois não poder ir depois para os EUA.
Com a sociedade cubana dependendo cada vez mais do turismo, o governo resolveu criar uma outra moeda, apenas para turista, o CUC (CUBAN UNIVERSAL CURRENCY) que é uma moeda vinculada ao dólar, ou seja, um dólar vale um CUC.
Teoricamente, os turistas só podem usar CUC e os cubanos só podem usar o peso cubano, que é a moeda deles. Digo teoricamente porque isso efetivamente não funciona assim. Em CUC eu pagava coisa de turista mesmo, casa particular, souvenir, passeio, táxi… De resto, era tudo com moeda nacional, como comida na rua, ônibus etc. Para efeito de comparação, nas casas de câmbio um CUC era 24 pesos cubanos, nas ruas para efeito de conversão (as vezes você não tinha peso, pagava com CUC e recebia em pesos), 23 pesos.
O pior é que quando se olham os preços nas etiquetas das coisas, não fica claramente distinto se está em pesos cubanos ou em CUCs. Como faz para saber? Como dizia uma amiga minha: “você sabe”. Digamos, se você chega em uma bodega e uma pizza é 10, só pode ser 10 pesos cubanos. Se você vai comprar uma camisa e nela tá escrito 10, só pode ser em CUC. Pode parecer complicado, mas depois de um tempo você acaba aprendendo.
Acontece que os cubanos recebem em pesos cubanos, portanto, tudo que é em peso cubano é absurdamente barato. Como eu me entrosei com a galera do albergue que tava morava em Cuba e tentava comer o máximo como cubano, pagava um real em uma lata de refrigerante local, um real por uma pizza responsa, cinco centavos de passagem de ônibus, dez centavos em um jornal, cinquenta centavos por um pastel, três reais por um litro e meio de cerveja e o melhor, O MELHOR, O MELHOOOOORRRR!!!!, dois, três reais por um livro. Sim, como achei umas livrarias de locais, era só eu chegar sem falar nada (porque pareço cubano e portanto eles não me cobravam mais caro), pegar o livro, entregar uns 40 pesos cubanos e esperar o troco. E o troco sempre vinha!

Revolução Cubana

Primeiro, antes de tudo, Cuba foi um grande aprendizado. Sugiro que qualquer pessoa tente ao menos uma vez na vida viajar a Cuba para conhecer o que é uma realidade totalmente diferente.
Havana Vieja
Há meio que um consenso, mesmo entre os pró-Fidel e os contra que a Revolução Cubana teve um papel importante na história de Cuba e que ela foi melhor do que viver sobre os auspícios de Fulgêncio Baptista (que no início também se revelou um cara promissor, inclusive promulgando a Constituição mais livre que Cuba já conheceu).
Plaza de la Revolucion

A Revolução Cubana zerou o analfabetismo de Cuba e simplesmente catapultou os índices sociais do país para os de um país de primeiro mundo. Para servir de ilustração, Cuba possui índices de mortalidade infantil e expectativa de vida melhor do que os Estados Unidos que possui um gasto por pessoa em saúde dez vezes maior que o cubano. Conheci um argentino no albergue da Magnólia que um dos motivos dele viajar a Cuba era o de comprar uma medicação de vitiligo para a cunhada dele e que só era vendida em Cuba. Isso é Cuba!

Cienfuegos
Che Guevara

Educação é também outra coisa muito forte no país. Em Cuba, parece que virtualmente qualquer pessoa tem um diploma de curso superior e as pessoas que não tem, me disseram que foi porque não quiseram mais estudar, ou por achar que iam ganhar pouco, ou por preguiça mesmo. Se você é de outra cidade e não tem o curso que você quer, nas universidades há dormitórios para todos, assim você não tem que pagar albergue.

Plaza de la Revolución
=)
Passei do lado e vi esses caras se xingando e gritando alto no meio de uma praça central de Havana. Perguntei o que era e me falaram que eles se reúnem para discutir beisebol todos os dias. Rapaz, mas eles gritavam…
É isso aí, amigo. Tudo na vida é ter estilo
Já viu esse ônibus em algum filme americano? Pois é, ele também existe em Cuba

Apesar de ser uma ditadura comunista, há em muitos setores da sociedade muito mais liberdade do que temos no Brasil e até mesmo em alguns países desenvolvidos. A mulher na sociedade cubana é efetivamente incluída no mercado de trabalho e não possuem as disparidades de renda que possuímos no Brasil, onde mulheres recebem quase a metade para fazer o mesmo tipo de trabalho que um homem.
E, claro, o mais visível, não existe a diferença entre as cores como em toda a América. Assistindo um pouco de TV cubana, vi um programa falando sobre uma conferência de médicos cirurgiões que houve em Havana. Você olhava na plateia e via brancos, mas também uns negros, mas negões mesmo, cara, entre os médicos sentados e participando das discussões. Apesar de ser do segundo estado mais negro do país, nunca fui atendido por médico negro no Maranhão e em lugar algum no Brasil. Isso era alguma coisa que eu via e dizia “Cuba é foda!”. Os caras que moravam naquela puta casa que descrevi e nos levaram para uma festa eram todos bem negros e puta inteligentes, eu fiquei impressionado com o nível das discussões que eu levava com um em particular que depois até pedi para bater uma foto com ele. O cara gente boa demais.

Eu e Marcos, amigo cubano

Galera reunida na casa colonial
Galera reunida na mesa de jantar do albergue. Um jantar completo, com suco, era quatro reais. E ainda tinha gente que achava caro e ia comer em um outro restaurante onde o jantar era 1,5 real. Saudades de Cuba.
Eis que um dia eu tava do nada sentado na sala quando só escutei um barulho: PLÁ! Quando eu vi era o teto literalmente caindo na minha cabeça. MEDO!
Magnólia, a dona do albergue onde fiquei. Super gente boa…
O bicho me deu uma aula sobre a importância da liberdade de expressão, liberdade de escolha, viver sobre tirania e coisas assim. Lembrava-me dos debates que travávamos quando eu ainda estava na UnB. Ele dizia “O sistema cubano não é sustentável, em toda nossa história vivemos de parasitar outros países, quando deixou de ser a União Soviética (o que foi um inferno para Cuba quando a União Soviética parou de subsidiar a economia cubana. Ele me contou que um cigarro que hoje custa 7 pesos, naquela época chegou a custar 50), começou a ser Venezuela. Agora com a morte de Chávez quem vamos parasitar? Podemos ter várias coisas, mas você não pode vir aqui e querer me dizer o que é viver em Cuba, eu vivo aqui e sei da dificuldade que às vezes passamos de conseguir sabonete ou papel higiênico. Cuba não é esse paraíso que vocês querem que ela seja.” Isso de um cidadão que trabalhava vendendo cerveja em um bar estatal e recebendo 35 reais por mês de salário. Se fosse no Brasil, o máximo que um figura desses ia conseguir conversar comigo era sobre como o Corinthians fez uma grande besteira contratando o Alexandre Pato que não tá jogando mais nada. Se muito…
Hotel preferido por Al Capone, um dos maiores mafiosos da história do Estados Unidos. Antes de Fidel, Cuba era um paraíso para máfia americana, devido ao jogo, prostituição e depravações liberadas. Aqui, a plaquinha do quarto preferido por Al Capone quando ele se hospedava no hotel…

E sim, o que mais me deixava impressionado era o nível educacional da população em si. Você ia discutir com um cara sobre a Revolução, quando ele te dava argumentos contra não era aquele besta que você imagina (ah, eu não posso ter um carro, ah eu não posso comprar isso ou aquilo), mas argumentações inteligentes.

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Fidel e coisas assim


Outra coisa foi que de tanto a gente ouvir falar em balsa feita de pneu de carro em direção a Flórida, Fidel Castro ditador e filhote do capeta, embargo e coisas assim, eu realmente esperava encontrar um país pobre, MUITO pobre. Mas não, Cuba não é nenhum Estados Unidos, lógico, mas pelo menos por agora não parece faltar nada, a não ser produtos eletrônicos e carros. Eles parecem ter acesso fácil a água, comida, bens de consumo e coisas assim, longe daquela visão que eu tinha deles.
Cuba é o paraíso do rum. Rum por aquelas bandas é tão barato quanto cachaça e todo mundo só toma rum. Rum era como cachaça. A gente ia sair para algum lugar, comprava umas garrafas de rum a preços ridículos (sete reais uma garrafa de um litro) e ficava todo mundo bêbado a preços módicos. Viva la Revolución.
Outra coisa que também me fez ver que não era como eu imaginava é o culto a personalidade a Fidel. Eu achava que, como uma ditadura comunista, por todo canto que eu fosse andar, ia ter uma foto de Fidel ou algo assim. Mas não, nem nas cédulas de dinheiro ele está presente, só os mortos (como Cienfuegos e Che). Achava que ia chegar em Cuba e encontrar uma ditadura a la Kim Il Sung e achei bem menos culto a personalidade do que na Venezuela de Chávez, por exemplo.
Os três comandantes. Fidel, Che Guevara e Cienfuegos
Fidel é algo polêmico como mamilos. Alguns cubanos os ama e outros os odeia. Apesar de ser um escritor voraz de jornais clandestinos na sua fase pré-revolução, assim que assumiu o poder, fechou todos os jornais e imprensa livre efetivamente não existe em Cuba. No final, apesar de suas conquistas sociais, o regime cubano se tornou uma ditadura igual a que sempre combateu e essa é a principal crítica da oposição a Fidel. Infelizmente, aqueles guerrilheiros acastelados na Sierra Miestra com um certo grau romântico, hoje se tornaram burocratas velhos e que tentam de toda forma manter tudo sob o seu controle.
Cienfuegos e Che Guevara em um museu de Havana
Pintura em um teto do Museu da Revolução em Havana

Os cubanos


A primeira coisa que me deixou mais impressionado sobre Cuba em si, disparado, foi, cara, como eles são gente boa. Como os cubanos nas ruas são educados, solícitos, sempre estão dispostos a te ajudar e parecem ter uma alegria indescritível. O taxista que me trouxe do aeroporto ia me explicando tudo da cidade, o que era cada prédio, juro que achei que ele ia me pedir dinheiro depois, afinal, ele era taxista. Mas não, fomos dando risada do aeroporto até o albergue e ele só me cobrou o combinado.
Isso fora os locais que toda vez que a gente saía e ficava fazendo zoada na rua se juntavam e começavam a beber com a gente e, claro, sempre muito engraçados e divertidos. Eles parecem ter uma alegria de viver indescritível. Teve uma vez que foi inclusive bem engraçado. Tava andando em Trinidad procurando um restaurante que não fosse os olhos da cara para poder comer (caraca e que cidade cara! É mais cara que Havana) e parei em frente a uma casa e pedi informação de onde poderia achar um restaurante. O cara não sabia, foi perguntar para a mãe, depois para a avó, pro primo e eu na porta esperando. Quando enfim ele descobriu onde havia um, parou o que tava fazendo e fez questão de me levar até o restaurante. Eu no caminho já fui pensando “que droga, vai acabar me pedindo dinheiro”, mas que nada, ele só me deixou no restaurante, perguntou se eu precisava de mais algo e depois fui embora, simples assim. Parecia a Índia 
E o pior que a carne que eu comia lá em Cuba devia ser exposta desse jeito… Lá não tem ANVISA, amigo!
Teve até um dia que a gente foi sair para beber e paramos em um bar cubano porque lá a cerveja era bem barata, coisa de 2,5 reais por um litro e meio de chopp. Viva la Revolucion. Tá certo que o bicho teve que ir na casa de um amigo dele buscar umas garrafas plásticas de água para encher de cerveja para gente, já que o bicho tirava diretamente do barril de chopp e não tinha embalagem. Ver o cara lavando aquelas garrafas d´água na pia do bar, foi algo singelo. Quando estávamos no bar, uns cubanos chamaram a gente para beber na mesa deles. Os caras sangue-bom DEMAIS, engraçados e, lógico, barulhentos!
Havana Velha
Trabalhavam para a TV estatal e um deles era até diretor. O pior era que ficavam querendo pagar cerveja para gente, tá certo que era barato, mas porra, um país onde um médico ganha 45 dólares por mês, você sabe que uns dois reais de cerveja devem fazer falta. Estávamos fazendo uma zorra danada no bar até que chegou a polícia e perguntou o que estava havendo. O funcionário do bar (que eu achava que era dono, mas não, o bar era estatal! “Se esse bar fosse meu não estaria caindo aos pedaços” – me disse depois o bartender) foi lá falar com a polícia e eles nos deixaram em paz).
Quando estávamos indo embora eles nos convidaram para no outro dia visitar a sua casa. Ficamos meio desconfiados um pouco, afinal, eles eram todos homens, mas no outro dia fomos. E cara, que grande decisão. Eles moravam em uma casa colonial que era uma verdadeira jóia por si só. Datava de 1939 e possuía um estilo colonial bem forte, com um luxo decadente (pô, algumas partes do teto eram banhadas a ouro!). Até um banco feito todo de mármore enfeitava a sala.
Lustre de cristal

Um dos antepassados
Banheiro da casa
Aproveitamos para poder ficar conversando e depois fui descobrir que um deles era um produtor premiado em alguns festivais internacionais. Ele até nos mostrou seus certificados. Um cara que você não dava nada, só um bêbado barulhento em um bar na noite passada. Ficamos lá fazendo muito barulho, dançando e bebendo rum (lógico) a noite inteira. Coisas que só acontecem em Havana.
Livro sobre a Coluna Prestes em uma livraria de Cuba

Maior aprendizado em Cuba

Porém o principal aprendizado que pude obter em Cuba e na Venezuela foi que se existe algo pior que praga de mãe, só praga de mulher!
Alunos de Medicina com a professora nas escadarias da Universidade de Havana, uma obra de arte por si só. Interessante vê-los discutindo sobre Mal de Parkison…
Universidade de Medicina de Havana. Na foto Che Guevara, que também era médico
Universidade de Havana

Antes de sair de Brasília, no caminho para o aeroporto, Taíze me perguntou se eu estava levando um casaco comigo. Podia fazer frio no avião. Lógico que desdenhei dela. “Arf, levar casaco para poder viajar para Venezuela e Cuba, dois países tropicais, é cada uma que eu tenho que escutar. Eu, grande mochileiro, quase um Marco Polo maranhense, tenho que ficar escutando esses tipos de baboseiras” – eu pensava. Cara, que derrota viu? Já no primeiro avião fez um frio de eu querer checar se havia bola de neve descendo pelo corredor. Cheguei na Venezuela, frio pela noite. Cuba? Caraca, frio, frio, FRIO!!!! Tava tão frio que no segundo dia em Cuba foi obrigado dar o braço a torcer e comprar um casaco em uma loja cubana. Um frio dos próprios cubanos me disserem que nunca viram Cuba fazer tanto frio na vida deles. Eu quase que dizia a eles quando reclamavam do frio “Esquenta não, a culpa é minha, eu devia ter escutado Taíze”. Da próxima vez é bom ser obediente.

Vista de cima das escadarias da Universidade de Havana
Na foto, o Museu Napoleônico de Cuba, vou falar sobre ele em um post posterior

Hasta siempre, Comandante

Saiu nos jornais que dois dias depois da morte de Chávez, haveria uma grande homenagem a ele em Havana. Ia ser na Praça da Revolução, pátio de discursos memoráveis de Fidel e onde milhões de pessoas já se aglomeraram para ver o papa. Caraca, fiquei super empolgado, achei que ia ter um discurso do Raúl Castro, quem sabe até Fidel. Atrasei em um dia a minha saída de Havana para quando chegar lá, descobrir que a homenagem que iriam fazer a ele, basicamente foi por uma foto do Chávez em uma torre da Praça da Revolução e deixar que as pessoas desse o último adeus a UMA FOTO do Chávez. Pombas, o cara merecia coisa melhor em Cuba.
Tamanho da fila quilométrica para ver a FOTO de Chávez. Segundo o guardinha tava levando mais ou menos cinco horas para chegar na foto. Lógico que eu não fui…


Dica, há só uma carroça na foto…


Nas televisões, lógico, foram duas semanas só falando dele, como ele era um grande homem, um grande socialista, seu legado, que um homem como ele morre só fisicamente, mas não nos nossos corações e blá blá blá.



Gambiarra que existia na porta de entrada do albergue. Diga aí se não dá medo…
Acho que a maior homenagem que eu pude presenciar a Chávez foi um dia quando estávamos em um bar tomando cerveja e, como sempre, tocando tambor e fazendo barulho até a chegada da polícia. Achei que o policial iria só mandar a gente parar, dada as altas horas da noite. Qual não foi a surpresa quando ele começou a dar sermão na gente “como podem vocês, estar aqui festejando, cantando e dançando, um dia depois da morte de Chávez? Vocês não sabem que Cuba está de luto pela morte dele? Respeitem a alma de Chávez! Ele foi um grande socialista…” – e a gente só escutando, lógico, afinal, o homem com a maior arma sempre tem razão.


Depois que o guarda parou de dar o sermão dele, um dos nossos amigos resolveu achar um meio termo, entrar em um acordo. Pegou o tambor e disse pro guarda: – Pois então nós vamos cantar só essa música aqui “Hasta siempre, comandante, Chááááááávveeezzz…”. Lógico que o cana fez uma cara de poucos amigos e fomos obrigados a continuar só bebendo. Porém, bebendo em homenagem ao grande socialista Chávez.
Hasta siempre, comandante Chávez!
O prédio do Parlamento Cubano te lembra o de algum outro país? Abaixo o dos Estados Unidos para comparar. Sim, o Parlamento Cubano foi construído pelos estadunidenses, demonstrando o quanto era próximas as relações de Cuba com os EUA antes de Fidel