Dando uma volta

Se não fosse a menina que me hospedou em Caracas, teria ficado em casa, pois além da tensão, a arquitetura não é lá essas coisas. Mas tensão mesmo. Todo canto que eu queria tirar mais uma foto de Simon Bolivar, primeiro eu perguntava para minha host, ela olhava para um lado, olhava para o outro e falava “tira rápido e depois bota no bolso!”, isso quando ela falava “aqui não, aqui é muito perigoso”. Mas, como sempre falo, uma das grandes vantagens do Couchsurfing é ter essa possibilidade de conhecer locais e com isso conhecer um pouquinho mais sobre a cidade também.
Centro de Caracas
Saímos, batemos algumas fotos, fomos escutando um pouco sobre a história da Venezuela, como era viver na Venezuela nesses tempos e coisas assim. Eu tava meio que preocupado já que estávamos andando no meio de Caracas em alguns lugares mal-iluminados, batendo fotos e falando em inglês. Basicamente bancando o papel de Happy-Turista-Feliz-Imbecil. Do nada, a minha host só falou assim ”anda mais rápido que tem um cara de camisa azul seguindo o Claudiomar”. Bem, uma das coisas que eu aprendi desde cedo é que se o morador local fala para você correr, não questione, CORRA!!

Enquanto eu andava pela rua, eu vi uma pequena apresentaçãozinha no centro de Caracas. Não entendi direito o que era, só sei que depois vinha esse INRI Cristo aí e no final salvava ela
Quando passamos do lado de uma viatura da polícia resolvi virar e ver se não era só uma neurose da minha host quando vi que efetivamente havia um cara de camisa azul atrás de mim. Como estava do lado de um carro da polícia (e do lado da polícia qualquer um vira macho), virei para ele e comecei a encará-lo. Ele deve ter ficado com medo, não é todo dia que um maranhense do alto dos seus 1,60m te encara dando a entender que vai te matar na porrada. Mas de qualquer forma veio para perto de mim, balbuciou algo em espanhol, eu só fiz que não com a cabeça, ele foi embora e estava terminado o meu primeiro capítulo de um Bad Boy in Caracas.

Couch em Caracas

O couch em Caracas acabou sendo algo, digamos, diferente. Primeiro que a minha host me falou que eu teria a companhia de um brasileiro e de um venezuelano que haviam viajado para Caracas para correr uma maratona. Quando vi quem era o brasileiro, qual não foi a minha surpresa ao ver que já havíamos nos conhecido alguns anos atrás em Curitiba. Que louco isso, encontrar um conhecido dentro de um apartamento no meio de Caracas! Se bem que encontrei um conhecido em Los Roques numa baladinha também, mas aí é outra história…



A nossa host e seus três guests
O mais engraçado era que o outro venezuelano era de classe média e, portanto, odiava Chávez. A nossa host era de classe baixa e, portanto, AMAVA Chávez. Não precisa explicar que isso vez ou outra criava atrito entre os dois. Eu, claro, adorava, porque quando algum falava alguma coisa a favor ou contra, eu já tinha lá, em primeira mão, a opinião contrária e daí ouvia argumentos dos dois lados.
A nossa host tinha uma pequena deficiência que eu não sei direito qual era, nada muito sério, mas que comprometia ela em algumas entrevista de emprego. Um dos motivos dela AMAR o Chávez era ele ter criado uma lei (que apesar de simples faz uma diferença danada) obrigando as empresas a contratarem um mínimo de trabalhadores deficientes recebendo desonerações tributárias por isso. Cara, essa lei é de uma simplicidade tamanha e de um impacto social tão gigantesco que é simplesmente difícil entender como não existia ainda na Venezuela. Pois é, mas foi o Chávez que fez isso com, julgue do jeito que quiser, a sua ênfase na inclusão social conforme já havia explicado. São ações pequenas como essas que ajudam a explicar porque Chávez tem uma popularidade tão gigantesca em toda Venezuela.

Só algumas horas…

Uma das mais famosas sorveterias em Cuba, agora também na Venezuela =)
A minha host havia me passado o bizu de como chegar na casa dela primeiro pegando um busão e depois um metrô, mas eu tava tão tenso que resolvi pegar logo foi um táxi. Quando cheguei ao couch, mais uma grata surpresa. Zanzei um pouco até achar a casa dela e qual não foi a minha surpresa quando o seu celular estava desligado e eu toquei o interfone e ninguém atendeu. Pronto, estava eu, com duas malas, perdido e sem saber o que fazer na cidade mais violenta da Américado Sul. Agora é engraçado, mas na hora eu realmente fiquei preocupado. Bem, numa situação como essa, fiz o que se tem que fazer, primeiro entrei em pânico e depois fui procurar um hotel.
Achei um hotel perto da casa dela e fui perguntar quanto era. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os bichos aceitavam alugar o quarto por apenas quatro horas (sim, eu pensei o mesmo que você sobre para que servia um hotel que aluga o quarto “só por algumas horas”. Era só não esfregar a cara na fronha que tava valendo!). Resolvi dar uma volta antes de fechar com o hotel. Bem, se a minha host não chegasse depois de um tempo, eu pelo menos teria um plano B.
Crianças brincando de baseball, o esporte mais popular da Venezuela
Não foi eu andar nem cinco metros da calçada do hotel que já chegou um carro da polícia botando o bicho em um grupo de adolescentes que estavam quase que do meu lado. Aos gritos os mandou colocarem as mãos na parede e começou a revistar geral. Assim, não sei você, mas ver a polícia chegando com aquela agressividade em um grupo de adolescentes não foi a melhor coisa para me deixar tranquilo acerca do grau de violência do lugar. Enfim, resolvi dar uma volta e bater algumas fotos.
Sim, também existe peão na Venezuela
Depois de um tempo, resolvi voltar no apartamento e checar se a minha host já tinha voltado. Toquei duas vezes no interfone e quando já estava sem esperanças, sentando na calçada pensando o que fazer, ela surgiu como a cavalaria do velho oeste!

Chegando a Venezuela

Cara, só há uma palavra para se definir a chegada a Caracas: tensão! Sim, em Caracas a tensão é desde a hora em que você desce do avião. Primeiro que Caracas é de longe a cidade mais violenta das América do Sul, com um índice de homicídio pior do que o de Bagdá (sim, o esquema é tenso!). Segundo que, como expliquei, Tio Chávez achou que seria uma boa ideia controlar o dólar e, dessa forma, assim que você desce do avião você fica se perguntando como DIABOS você vai fazer para poder comprar bolívares, haja vista que comprar no câmbio oficial é uma roubada, comprar no câmbio negro é efetivamente um crime e pode te causar problemas. Taxista você não pode aceitar nenhum, pois vi relatos em fóruns de pessoas que foram sequestradas por taxistas COM CREDENCIAIS que as abordaram no aeroporto. Você precisa pagar o táxi no balcão oficial do aeroporto e entrar direto no indicado pela balconista (cara, quando um taxista com credencial pode te sequestrar, é sinal de que a situação tá realmente preta).


Saí da imigração já com a tensão em alta. Veio um taxista com credencial e já começou a cochichar “Táxi? Câmbio?”, juro que imaginei ele já ir emendando “Pó? Meninas? Pedra?”. Fingi que não era comigo e saí andando. Fui ao banheiro, coloquei todas as minhas notas de cem dólares no meu coldre e fui atrás de alguém pra trocar moeda para mim. Teria que trocar pouco, pois, se não fosse tensão suficiente, o aeroporto é famoso por possuir cambistas que lhe dão notas falsas. Fui andando e passei do lado de um carregador de malas que me falou baixinho “câmbio?”. Vi que ele era mais ou menos do meu tamanho e caso ele me dessa uma nota falsa, seria mais fácil sair na mão com ele. Respondi que sim e começamos a negociar no meio do aeroporto, cochichando, os dois visivelmente tensos e fechamos uma cotação, meio ruim para mim, mas tudo bem, eu só queria sair do aeroporto o mais rápido possível. Só para deixa-los mais a par da situação, estava com bastante dinheiro vivo no meu coldre, pois nem em Cuba, nem na Venezuela dá para viajar utilizando o cartão de crédito.
Quando estávamos no aeroporto, um muçulmano parou embaixo da escada e começou a fazer a as suas preces. Estranhei, pois aquela não era a hora apropriada para fazer uma das cinco preces do islamismo, haja vista que ainda havia algumas horas até o pôr-do-sol. Depois, o taxista, que também era muçulmano, me explicou que provavelmente aquele rapaz tava orando porque o pôr-do-sol seria quando ele estivesse dentro do avião e, imagina a cena, um muçulmano, no meio de um voo internacional ajoelha no chão e começa a orar! Isso poderia levar pânico aos passageiros, pois, afinal, tem muita gente idiota no mundo. Por isso, alguns muçulmanos preferem fazer as suas orações antes de embarcar. Interessante, né?
Ele me levou para dentro de um elevador (!!!!). Quando as portas fecharam e eu achei que ele ia me dar uma facada e fugir com meus dólares, ele me deu as notas de bolívares. Quando comecei a contar ele gritou “Espera, a porta do elevador fechar novamente!!!”, tava tão tenso que não havia visto que o elevador estava abrindo a porta. Nessa hora é botar tudo no bolso, assobiar e fingir que nada tá acontecendo! Quando as portas do elevador fecharam novamente, ranquei os quarenta dólares que tinha, dei para ele e estava realizada a primeira transação ilegal com dólares da minha vida!

Primeiro trecho para Venezuela

A primeira parte da viagem a Venezuela foi tranquila. Logo que cheguei ao avião vi algumas crianças e fiquei preocupado delas fazerem barulho e não me deixarem dormir, mas foi de boa. Até porque elas tiveram um pouco de distração quando estávamos voando.

O avião tava mais ou menos assim pelo lado de dentro…
Depois de uns trinta minutos de voo olhei para o lado e vi crianças brincando de fazer boneco de neve no corredor do avião. O avião deve ter ido, sem brincadeira, abaixo dos 10 graus devido a “problemas no ar-condicionado” (esse foi o primeiro avião que vi que fica mais frio quando o ar-condicionado não funciona!). Eu, como estava viajando só para países teoricamente tropicais, não tinha nenhum agasalho e fui a viagem inteira tremendo de frio.
Na Koryo Airlines (empresa aérea norte-coreana) essas coisas não acontecem. Confira um relato aqui

E aí?

Bem, se eu pudesse descrever uma opinião pessoal era a de que Chávez perdeu uma ótima oportunidade de ser um cara fantástico. Se tivesse se preocupado apenas em suas reformas sociais, em seus programas de redistribuição de renda, encorajamento de produções em cooperativas e programas de inclusão social, seguindo mais ou menos o modelo brasileiro, ele teria sido um cara fantástico. Pela primeira vez na história da Venezuela, teria utilizado a vultosa renda do petróleo em favor da população, jogado milhões de venezuelanos na classe média e ao mesmo tempo criado um mercado de consumo de massa na Venezuela, entrando em um ciclo virtuoso da economia, mais ou menos parecido com o que ocorre no Brasil.
Foto tirada no centro da Venezuela. Eu tava indo me posicionar e a minha host bateu a foto. Eu ia apagar e fazer outra, mas pô, ficou uma posição legal, não? Ficou parecendo mais ou menos como um “like a boss”!
O grande problema é que para Chávez ele é quase como um messias, um enviado dos céus, um ser superior que veio para a terra para ser cultuado e amado. Vejo que muitos venezuelanos que odeiam Chávez efetivamente reconhecem a importância dos seus programas sociais, porém a bagunça que ele criou na economia com o controle do câmbio e expropriações sem sentido, ferraram a vida de todo mundo por lá. 
 Em poucas palavras, essa é minha opinião =).

Questão democrática venezuelana

Apesar de todas as suas conquistas sociais, apesar de fazer um grande trabalho relacionado a melhora da população mais pobre venezuelana, apesar de efetivamente ter diminuído a concentração de renda na Venezuela, tudo isso veio a custa de um preço. O país hoje é um barril de pólvora, extremamente cindido entre partidários e inimigos de Chávez.
Hoje Chávez não desfruta de tanto poder como antigamente e é obrigado a muitas vezes enfrentar greves gerais que acabam por comprometer ainda mais a já combalida economia venezuelana.
No dia 11 de abril de 2002, ocorreu uma marcha para pedir a renúncia de Chávez. Quando esta marcha estava chegando ao palácio do presidente, uma outra manifestação pró-Chávez estava ocorrendo. Não precisa dizer que isso deu um problema danado, afinal, há extremistas dos dois lados. O pau comeu e quinze pessoas de ambos os lados foram mortas. Chávez estava na berlinda, pois já havia perdido o apoio de diversos partidários e membros das altas patentes do exército venezuelano. No dia seguinte, aproveitando-se da convulsão social que se desencadeou dessas mortes indústria e contando com o apoio de Estados Unidos e Espanha, setores da mídia e da elite venezuelana tentaram um golpe de estado contra Chávez.
Porém, eles se esqueceram do enorme apoio popular que Chávez contava e o povo ocupou as principais sedes do governo alegando que só sairiam de lá quando Chávez voltasse, o que acabou ocorrendo.
Depois disso, Chávez ficou ainda mais neurótico e entrou de forma mais efetiva na sua revolução, cindindo mais ainda a população entre os pró-Chávez e os contra. Cassou a concessão de uma das principais emissoras que lhe faziam oposição (se bem que isso foi depois que um jornalista defendeu em rede nacional que Chávez deveria ser morto e amarrado de cabeça para baixo como um porco na praça central da Venezuela e fosse cuspido pelo povo que nem ocorreu com Mussolini. Ok, isso não é motivo para se fechar uma TV, mas demonstra o nível que a Venezuela está).
A situação tá tão louca que quando se aproximam as eleições venezuelanas, simplesmente se esgotam as passagens de voos internacionais saindo dos Estados Unidos e da Espanha para a Venezuela devido a venezuelanos “no exílio” que gastam o que for possível só para poder votar e tentar a fazer a sua diferença na deposição de Chávez.
Outro problema também do Chávez é a personalização do seu governo. As pessoas não entendem que o Estado Venezuelano as está abrigando sob um guarda-chuva de políticas públicas, mas sim que Chávez fez isso. Pode parecer banal, mas isso cria um problema tão grande que quando ficou doente, Chávez foi se tratar em Cuba porque se fosse se tratar no Brasil, na França, no México, seria mais possível as pessoas terem informações sobre o seu estado de saúde. Em Cuba, como tudo é controlado, ele pôde ficar tranquilo com isso.

Câmbio maluco

Só que qualquer um sabe que quando o governo tenta controlar um mercado, ele simplesmente fica mais ou louco ainda. Se você fosse em uma casa de câmbio da Venezuela e levasse um dólar na época que eu estava lá, eles te dariam 6,3 bolívares. Se trocasse na mão de um taxista, com sorte e sabendo negociar, ele te daria DEZOITO bolívares e não te sequestraria. Se você passar o seu cartão de crédito em algo que custa 24 bolívares, na sua fatura (cotação oficial) chegará o preço de quatro dólares, se você trocasse na rua, pagaria um dólar e meio por esse valor.
E o problema é que isso vai se tornando um círculo vicioso. Quanto mais a moeda local fica desacreditada, mais as pessoas compram dólares e quanto mais as pessoas compram dólares, mais o preço dele sobe e aí vai indo. A Venezuela, neste ponto, está caminhando para uma “cubanização”. Em Cuba existem dois tipos de moeda, uma utilizada pelo povo cubano e outra usada pelos gringos. Na Venezuela o Bolívar para o povo e os dólares para os gringos.
Cara, o mercado é algo tão perfeito, que até um site de cotação do dólar paralelo foi criado. Criaram um site para dizer quanto custa o preço da “alface verde” na fronteira da Colômbia com a Venezuela (local onde mais acontecem troca de bolívares por dólares). Quando vi o site, vi que um quilo de alface verde, em dólares, estava custando 23,71 bolívares (sim, tem duas casas decimais, o negócio é tenso mesmo) e estava em alta. O valor em euros não lembro. Quem estiver curioso é só acessar http://eldolarparalelo.info/lechugaverde.php.
Pior que depois fui descobrir que trocar dólares em Caracas é algo longe do trivial. Todo couchsurfer que eu perguntava se trocava dólares, falava que não e só conhecia um amigo de um amigo que fazia isso. Cara, mas exatamente como se faz para comprar drogas. Até que um dia um couchsurfer se dispôs a me ajudar e ligou para um amigo que falou que a irmã dele queria drogas, digo, dólares. Liga daqui, liga de lá, esse cara transferiu para a conta do couchsurfer que foi comigo até o shopping e me deixou esperando no banheiro. Depois entrou no banheiro, olhou para ver se não tinha ninguém, entrou na cabine comigo e nos trancamos lá dentro. Pensei “tomara que se alguém olhar, pense que sou gay, melhor sair com fama do que sair preso…”. Ele me deu os bolívares, eu lhe dei os dólares e estava consumada a segunda transação ilegal da minha vida (já que a primeira foi no aeroporto e posto posteriormente) no melhor estilo Claudiomar, 13 anos, drogado e prostituído.
Tudo isso porque ele realmente podia estar encrencado se fosse pego. Conversando depois com um taxista, que depois acabou ficando meu amigo, ele me explicou que já tinha oito amigos presos por terem sidos pego em flagrante trocando dólares no aeroporto. Segundo ele, os caras vão amargar uns dois anos na cadeia fora uma multa gigantesca.
Trocando em miúdos, nenhum estrangeiro utiliza cartão de crédito na Venezuela, pois isso implica em gastar três a quatro vezes mais por alguma coisa. Assim, tudo na Venezuela se resolve com dinheiro vivo, você tem trocar tudo que acha que vai gastar em dólares no Brasil e andar com o bolso CHEIO de dinheiro vivo na cidade mais violenta da América do Sul. E você achando que era radical porque brincou de montanha-russa na Disney…
Vida loca.

Revolução Bolivariana

O grave problema de Chávez é quando ele resolve abrir a boca e começar os seus arroubos de grande líder revolucionário. O que mais revolta a classe média venezuelana é Chávez gastar grande parte dos recursos do país propagandeando a sua “revolução”. Além disso, Chávez efetivamente persegue a propriedade privada e se você tem algum tipo de negócio que seja “de interesse social” (ou contra o governo em particular), o Governo Federal pode expropriar a sua propriedade sob o “interesse público”. Por esse motivo, hoje se você pertence a classe média ou possui um comércio na Venezuela, tudo o que você mais quer é juntar dinheiro, comprar dólares e fugir do país, pois nunca se sabe se o governo pode se apropriar dos seus pertences.
Edifício expropriado no centro de Caracas sob “interesse público” e transformado em moradia estudantil. Reparem as faixas louvando a Chávez. Você pode até achar isso legal, desde que não seja a sua casa que seja expropriada
Não falo dos mais ricos do país não. Sabe aqueles dois apartamentos que a sua vó comprou para alugar depois de se matar de trabalhar a vida inteira para garantir uma aposentadoria tranquila? Pois é, o Estado pode vir e toma-los dela a jogando na miséria.
Dessa forma, quem vai investir na Venezuela? Que empresa vai querer se instalar no país gerar empregos e renda se de um dia para o outro pode ser expropriada sob interesse público?
Para evitar que mais pessoas vendessem tudo o que tinham, comprassem dólares e fugissem para o exterior o que o grande governo bolivariano pensou? Isso mesmo! Vamos controlar o dólar. Sim, o governo praticamente proibiu o comércio de dólares na economia e criou uma cotação oficial que é controlada pelo governo. Se um Venezuelano decide viajar para o exterior de férias, tem que fazer um pedido de autorização ao governo para comprar dólares com o valor da quota dependente de qual país vai viajar. Por exemplo, se for para os Estados Unidos, pode gastar até 2500 dólares. Tendo o pedido aprovado você recebe um cartão com este crédito e, para evitar que você faça uma reserva de notas vivas para fugir depois, só pode sacar até 10% desse valor. O resto você tem que passar no cartão. Inclusive alguns locais nos Estados Unidos com grande concentração de venezuelanos colocam em suas vitrines “aceitamos cartão de crédito venezuelano”, o que leva a crer que não seja tão simples usá-lo no exterior. Ou seja, uma semana nos EUA com 250 dólares no bolso. A vida parece ficar bem menos divertida quando é controlada pelo Estado, não?

Chávez

Antes de começar a escrever sobre a Venezuela, vamos escrever um pouco sobre esse cidadão que com certeza é mais polêmico que mamilos…


Uma das principais razões que me fizeram ir a Venezuela este ano foi o de ter a experiência de viajar ao país ainda sob o regime de Hugo Chávez. Consegui chegar antes do seu falecimento e por três dias perdi de presenciar toda a comoção social desencadeada por sua morte (inclusive tou tendo que ouvir as piadinhas de que fui eu quem matou o Chávez!).
Adoro essas faixas “revolucionárias”. Vou postando várias delas no decorrer dos posts…

A primeira coisa que você aprende sobre Chávez, assim que chega a Venezuela, é que efetivamente não há meio termo, ou você ama o Chávez, ou o odeia profundamente. A minha host em Caracas, por exemplo, o amava, a imprensa brasileira o odeia. Se você me perguntar de que lado eu estou, bem, digo que como não sou venezuelano posso ficar em cima do muro. Nos posts sobre a Venezuela, vou tentar expor os prós (sim, eles existem!) e os contra e deixar que o leitor tome as suas decisões. Acho que fica melhor assim.

               
Chávez, o início, o fim e o meio

Chávez fez a sua carreira no exército venezuelano. Quando era tenente-coronel, revoltado com as injustiças do seu país fundou o Movimento Quinta República, mobilizou um grupo de aproximadamente 300 milicos e tentou dar um golpe de estado ao governo do Presidente Carlos Andrés Perez. O golpe de estado não logrou êxito e Chávez foi preso. Porém, este golpe de estado foi responsável por catapultar a popularidade de Chávez, que alegava que o golpe era legítimo como reação a crise econômica venezuelana, marcada por inflação, desemprego e pobreza extrema, apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo do planeta. Durante o período que o Chávez tentou o golpe, a Venezuela já estava em polvorosa com protestos e saques de uma população cada vez mais faminta.
Alimentos produzidos em cooperativas, uma importante ação de encorajamento a agricultura familiar e apoiada fortemente pelo Governo Chávez. Reparem nos coraçãozinhos “Hecho en socialismo” que possuem todos os bens produzidos por cooperativas.

Após dois anos vendo o sol nascer quadrado e ser solto da cana, concorreu a eleições presidenciais. Depois de vencer, foi eleito 56º presidente da Venezuela e se declarou líder da Revolução Bolivariana, revolução que se baseia na chamada doutrina bolivarianista ou socialismo do século XXI.


TECLA PAUSE

Apesar de hoje muita gente ao escutar a palavra “Bolívar” já ficar puto lembrando de Chávez, Bolívar foi um grande herói de toda a América Latina contribuindo para a independência de Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. Ele nasceu na Venezuela, é um grande herói nacional do país (algo como um Lincoln para os americanos) e todos os presidentes da história moderna venezuelana tentam colar a sua imagem a de Bolívar (mais ou menos como alguns políticos tentam com Getúlio no Plano Nacional ou Kubitscheck em Brasília). Portanto, Bolívar, coitado, não tem nenhuma relação com os planos megalomaníacos de Chávez e nem Chávez foi o primeiro a tentar usurpar a imagem de Bolívar para si mesmo.

Símbolo de comemoração dos 200 anos de Bolívar. Ou como um amigo nosso gostava de dizer, foto do Bolívar montando no Brasil.
Memorial a Bolívar no centro de Caracas
TECLA PLAY

A eleição de Chávez pôs fim a quatro décadas de domínio dos partidos tradicionais da Venezuela (mais ou menos como o PMDB deles). A sua coligação conquistou 120 dos 131 assentos do parlamento, demonstrando o acachapante apoio popular que Chávez conseguiu (só a título de curiosidade, o PT, quando muito, conseguia vencer mais ou menos 90 dos 513 assentos da Câmara dos Deputados). Com todo esse apoio popular, elaborou uma nova Constituição que passou facilmente pelo parlamento e foi aprovada em um plebiscito de 71% dos eleitores venezuelanos.

“Barrios”, comunidades venezuelanas onde o apoio a Chávez é acachapante.
Essa Constituição outorgou poderes extraordinários ao presidente, dando posteriormente o direito a ele a governar por decreto (ou seja, Chávez podia fazer leis sem precisar passar pelo crivo de ninguém exatamente como faziam os nossos generais na ditadura militar), tornou o parlamento unicameral (extinguindo o Senado, uma ideia que até não seria tão ruim no Brasil) e aumentou profundamente o poder de intervenção do Estado na economia. Depois de eleito e surfando em preços de petróleo estratosféricos, Chávez deu início a diversos programas sociais que elevaram a sua popularidade para as alturas. E aqui está um primeiro pró de Chávez.

Antes da eleição de Chávez a maior parte dos recursos do petróleo eram apropriados por uma elite venezuelana que vivia como se estivesse em uma Suíça enquanto grande parte da população vivia no esgoto, mais ou menos como o Brasil há uns 15 anos atrás.

Teleférico implantando em comunidades pobres inspirados no modelo adotado no Rio de Janeiro. Sim, o modelo e as cores são os mesmos, dá até para ver o símbolo da empresa brasileira que construiu: Odebrecht.

Chávez estruturou as chamadas missões boliviarianas, cerne de suas políticas assistenciais cujo objetivo era combater doenças, analfabetismo, pobreza e outros graves problemas sociais. Você não vai ver isso na imprensa brasileira, mas depois da subida de Chávez ao poder a Venezuela o número de médicos por 10 mil habitantes quase quadruplicou de 18 para 58 fazendo com que a mortalidade infantil desabasse de 25 para 13 óbitos por mil nascidos vivos. 96% da população hoje tem acesso a água potável, o consumo de alimentos subiu 170% e a Venezuela foi declarada um país livre do analfabetismo pela Unesco (ao contrário do Brasil). Chávez também criou um programa de casas populares o Gran Misión Vivienda baseado no nosso Minha Casa, minha Vida e que já construiu 350 mil casas populares na Venezuela, metade delas edificadas com parcerias de mutirões comunitários.

Eu, minha host e dois couchsurfers, o de camisa amarela também estava sendo hospedado na casa dela.
Chávez proporcionou uma verdadeira revolução nos índices sociais do país e efetivamente melhorou a vida de grande parte da população do país que só via os recursos da venda do petróleo chegando ao país, mas nunca sendo investido para o bem da maioria. Só por curiosidade, apesar de possuir uma população bem menor que a do Brasil, a Venezuela sozinha consumia mais uísque escocês que o nosso país e possuía um dos maiores mercado de artigos de luxo apesar de estar longe de ser a segunda economia da América do Sul. Então assim, avanços durante Chávez efetivamente existiram e ele inclusive foi eleito pela revista TIME nos anos de 2005 e 2006 uma das 100 pessoas mais influentes do planeta.