Antes de entrar na estação, eu sabia que não ia ser pego, mas, por via das dúvidas, resolvi pelo menos combinar com Gosia um plano pra funcionar na mais remota hipótese de sermos pegos. Ela, claro, continuou tirando onda do medo que eu tava tendo de ser pego, mas aceitou fazer aquilo pra poder me deixar mais tranquilo. Combinamos que seria assim: caso alguém nos pegasse, bastava nós fingirmos que não estaríamos entendendo nada pra deixar o cara achar que éramos estrangeiros e também não éramos capazes de falar inglês. Beleza, o plano tava feito. Entramos na estação e ficamos procurando nosso trem.
Mas peraí, esse plano não estava lá tão bem feito! Teríamos que ter uma língua pra fingirmos que estávamos falando entre a gente, afinal, eu e Gosia conversávamos em inglês e caso fôssemos pegos, não poderíamos conversar em inglês porque existia a remota possibilidade dos fiscais do tíquete entenderem. Enfim, Gosia falava alemão, polonês e inglês. Eu falo português e inglês. Como resolver o impasse? Bem, ela me falou que sabia falar algumas palavras em espanhol que ela tinha aprendido do tempo em que morou na Espanha. Como ela não precisávamos conversar sobre “Dom Quixote de la Mancha” caso fôssemos pegos, poucas palavras em espanhol seriam necessárias para poder disfarçar que sabíamos falar entre a gente. Bastava saber falar “o que esta aconteciendo” e cantar uma música da Shakira que eu boto fé que ela passava de espanhola, até porque cara de espanhola ela tinha (tá bom, eu tou ironizando).
Bem, agora o plano estava infalível, certo? IMPOSSÍVEL de sermos multados!! NUNCA me pegarão sem tíquete!! NUNCA SERÃO!! Nenhum sistema de transporte é páreo para a minha mente maligna!! Sou invencível!! Hua hua hua (risadas maquiavélicas)
“No entiendo, no entiendo”
Pegamos nosso trem e seguimos pra estação CENTRAL de Praga. A MAIOR da cidade para lá, enfim, podermos encontrar a nossa carona pra Alemanha, motivo de toda essa enrolada há vários posts atrás. Descemos do trem, nada de fiscais. De boa, era só sair da estação, encontrar o nosso carro e sair pro abraço. Beleza, andamos, andamos, andamos… Rapaz, a estação era GIGANTESCA!! Acabou que nos perdemos lá dentro e nada de conseguirmos sair. E vai daqui, e sai dali e nada da gente encontrar pra onde sair. Depois de algum tempo, vimos uma placa escrito “saída” apontando pra uma escada rolante. Subimos a escada rolante e o que encontramos lá? Um canguru? NÃO!! É UMA CILADA, BINO!!
Sim, mermão, FISCAIS DE TÍQUETE!! AAAAAAAAAAHHHHHHH!! Salvem-se quem puder!! Mulheres e maranhenses primeiro!!! AAHHHHH!! São muitos!! NUNCA ME PEGARÃO VIVO!!! AAAAAAAAAHHHH!
Calma, calma, ainda temos um plano, não? Caraca, bicho!! Na hora veio na minha cabeça: “Que azar da porra, maluco!! Afe maria!!”. Tentamos “dar um migué”, sair pro outro lado, mas os caras, na hora que nos viram, vieram NA FEBRE pra poder pedir o tíquete da gente. Rapaz, mas não teve jeito!! Os dois acuaram a gente no canto e começaram a falar “tíquete, tíquete”. Na hora lembrei do cara da Lituânia. Eles pareciam só saber falar aquilo. Ah, cara, hora de implementar o plano. A gente fez que não tava entendendo nada na esperança de conseguirmos nos livrar dos malas. Na hora que os figuras perceberam que não estávamos entendendo, começaram a FALAR INGLÊS com a gente. Ups, primeira parte do plano por água abaixo!! Eles falavam inglês! TENSÃO!!

Começaram a pedir, em inglês, os nossos tíquetes. Continuamos a fingir que não estávamos entendendo e eles começaram a nos perguntar em inglês: “Como assim, vocês viajam pela Europa e não falam inglês? De onde vocês são? Que línguas vocês falam?”. Era hora de implementar a segunda parte do plano. Comecei a arranhar um portunhol com a Gosia e ela começou a responder: “No entiendo. Como puede? O que elles quierem?”. Eu também comecei a falar pra ela: “No entiendo, no entiendo, o que esta hacendo?”.
Vencemos? Claro que não, né amigo? Se tivéssemos vencido eu não teria postado aqui essa história! Ficamos um tempo conversando entre a gente em espanhol o que vinha na nossa cabeça e os caras ficaram meio confusos. Mas pensa que houve tempo ruim pra ele? Rapaz, passou uns dois minutos, um vira pra Gosia e fala:
– Espanhola? Eres Espanhola?
E virou pra mim e falou:
– Amigo, donde esta lo ticket? Tiene que pagar o ticket! Se não tiene, tienes um problema!
PEEEEEMMMMM!! Mermão, o fiscal do tíquete falava espanhol!! AAAAAAAAAHHH!! MISERÁVEL!!! O cara era trilíngue!!!!!! AH MISERÁVEL!! E não é que o cara falava espanhol não!! Ele falava espanhol, MUITO melhor que eu. Depois de uns cinco minutos, quando eu comecei a me enrolar em falar espanhol o cara foi lá e me perguntou em inglês: – Vocês vão parar de ficar de brincadeira e me dizer logo de onde vocês são ou vai ser preciso eu chamar a polícia pra poder refrescar a memória de vocês?
Ah, meu amigo!! Mas ele falou a palavrinha mágica!! Falou “polícia”, eu comecei a cooperar. Ah porra, disse em inglês que era brasileiro ( – Ah, você fala inglês? – ele perguntou), que ia pagar aquela porra daquela multa e queria que tudo fosse pro inferno. Que me desse aquela multa logo porque eu já tinha me conformado em pagar. Pombas!! O fato de achar fiscais trilíngues valeu mais que o preço da multa. Comigo até que foi de boa, o pau comeu foi quando eles pediram a identidade da Gosia e viram que ela era da Polônia. Meu amigo, pense numa pôpa!! Os caras ficaram INJURIADOS quando viram que ela era polonesa. Por quê? Cara, a língua tcheca é MUITO parecida com a língua polonesa. A Gosia quando precisava pedir informação nas ruas, conversava em um “polotcheco” com a galera. Resumindo, ela conseguiria facilmente se comunicar com os fiscais se quisesse. Devido a isso, os caras começaram a descascar a mina! Falando que ela agiu de muita má fé, que se quisessem poderiam nos levar presos, que aquilo não se fazia, que a gente parecia dois moleques e pá pá pá…
Depois de algum tempo pedindo desculpas (e claro, depois de pagar a multinha de 40 dólares cada um), eles finalmente nos liberaram e fomos embora. Enfim conseguimos achar a saída da estação e nos encontrar com os asseclas que nos prometeram dar uma carona. Uma das caronas mais caras da minha vida…































