Se Marrakesh é a cidade marroquina mais visitada por turistas, Casablanca é a mais famosa e a única que eu conhecia de nome. Isso ocorre porque há um filme famosíssimo que foi filmado lá e que também tem o nome de Casablanca.
Ela é a maior e mais importante cidade do Marrocos. É uma cidade grande como São Paulo, com vários atrativos, porém poucos deles turísticos.
Todo mundo me falava que em Casablanca só tinha a mesquita. Isso é um pouco estranho, pois uma cidade que foi fundada pelos fenícios há mais de 2500 anos dificilmente teria pouco a oferecer.
O curioso da cidade é o nome. Obviamente Casablanca é um termo latino e a cidade foi nomeada por nada mais nada menos que os portugueses. Pelos idos dos anos de 1500, aquela região era apinhada de piratas que aterrorizavam todo navios que viajavam por lá. Obviamente Portugal tinha interesse que ali estivesse pacificado (pois era o caminho das Índias) e cinquenta navios com 10.000 homens enviados para combater piratas serviu para demonstrar isso. Eles combateram os piratas por décadas até conseguir expulsá-los de vez e fundar um forte que foi chamado de “Casa Branca” dando origem ao nome atual da cidade. Porém, um forte terremoto no século XVIII destruiu a cidade e os portugueses a abandonaram. Posteriormente ela foi ocupada pelos espanhóis que mudaram o nome para Casablanca, que se mantém até hoje. Infelizmente acabei ficando pouco tempo por lá.
Eu e Caio, um brasileiro que conheci no caminho, fomos conhecer essa “só tem a mesquita”. Mano, quando você chega lá…
O rei Hassan II queria deixar a sua marca e bancou a construção de nada mais nada menos que a terceira maior mesquita do mundo (só perde para as de Meca e de Medina) com a maior minarete do mundo de impressionantes 210 metros de altura. Acomoda 25.000 crentes nos seus pisos, 5.000 mulheres no segundo andar (já que mulheres e homens rezam em lugares diferentes) e quase 80.000 nos seus pátios.
Sim, ela é monumental o suficiente para ser comparada com Angkor Wat (confira o post aqui) no Camboja e a Basílica de São Pedro em Roma (confira o post aqui). Foi edificada em cima de uma rocha na beira da praia ecoando um verso constante no Corão de que o trono de Deus foi erguido sobre as águas. Ela é simplesmente monumental e sensacional. Vale demais a viagem a Casablanca para poder conhecê-la. É uma obra de encher os olhos. “Só tem a mesquita…”
Uma construção faraônica como essa é bonita de ver, só que custa dinheiro, muito dinheiro. Ela consumiu em recursos quase meio bilhão de dólares (mais ou menos como o Estádio Mané Garrincha de Brasília) e hoje questiona-se quem deve arcar com a conta de manutenção do lugar (mais ou menos como o Estádio Mané Garrincha de Brasília) já que ela já começa a dar sinais de que necessita de reformas. Está à beira do mar que vai danificando as suas estruturas. Essa reforma não vai sair nem um pouco barata e um país não democrático esse não é um debate tão fácil…
Ficamos um tempo por lá e depois voltamos no hotel para buscar nossas coisas.
Próxima parada, Brasil.
Para se ter uma noção do quão monumental é a mesquita, dá para levar o caminhão a esquerda em consideração
Espelho d´água dentro da mesquita. Originalmente servia para que os muçulmanos se lavassem antes ou depois das preces, porém nunca foi usada
Depois de Laayoune lá vou eu pegar mais cinco horas, entre voos e conexões, e passar a terceira vez por Casablanca em menos de cinco dias. Estava a caminho de Fes.
Se muitos dizem que a Marrakesh é a cidade turística do Marrocos e Casablanca a cidade dos negócios, Fes é a cidade histórica e também um dos locais mais importantes para os marroquinos.
Foi nesse cidade, fundada no final do século VIII (!!!!!), que iniciou-se a luta pela independência marroquina e foi essa a cidade que por mais tempo foi capital do Reino do Marrocos.
Fes é uma cidade de superlativos e alguns marcos. É a maior cidade medieval islâmica do mundo e tem a maior Medina (aglomerado de edifício históricos protegidos por uma muralha) do Marrocos. Lá dentro não é permitido o trânsito de carros, assim, em Fes há a maior zona de exclusão de automóveis do mundo. Assim, lá dentro, caminhando por aquelas vielas sem carros, você realmente se sente como que transportado para um microcosmo medieval, onde as pessoas comerciam as mesmas coisas há centenas de anos.
Além disso, em Fes foi fundada a primeira universidade do mundo (construída em 859. Obviamente, os europeus não reconhecem isso) e que se encontra em operação até hoje.
Fes se destaca pela indústria do couro. Ele é trabalhado de forma artesanal com poucas mudanças nessas centenas de anos. Fui visitar uma cooperativas dessas e fiquei impressionado com o quão desumano é o trabalho que eles fazem por lá. Cara, é um cheiro tão insuportável de carne em decomposição (já que eles arrancam o couro do animal e deixam ele de molho em uma pedra especial para retirar restos de carne e pelos) que, antes de você entrar na cooperativa, os caras te dão algumas folhas de menta para você ficar cheirando e disfarçar o cheiro forte.
Setor do couro em Fez
Você olha os caras lá embaixo, maltrapilhos, envoltos em matéria orgânica decomposta, aquela água fétida escorrendo e é impossível não ficar com pena deles. O cara da cooperativa me falou que antes a situação de trabalho era bem pior, apesar de ser difícil de imaginar o que seria pior que aquilo. De qualquer forma, só podemos ver uma pequena parte do que antes era o lugar onde eles trabalhavam. O lugar foi declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO que agora está o reformando.
Reforma do lugar de tratamento de couro sendo financiada pela UNESCO. Notem o guindaste na fotoLembrem de olhar para essa foto toda vez que acharem ruim seus trabalhos. Mano, é muito mais chocante ao vivo, ainda mais por causa do cheiro forte
Outra coisa engraçada foi que no albergue onde eu estava hospedado encontrei uma colega de universidade do tempo de UNB. Que coincidência.
Albergue onde fiquei em Fes
COMPRAS EM FES
Por lá, aproveitei para fazer algumas compras também. Comprei um bom cinto de couro por sete reais, uns bons perfumes por 10, 15 reais, lembrancinhas para dar de presente no Brasil…
Esqueçam preços tabelados, no Marrocos não tem nada disso e você tem que discutir tudo que vai comprar.
Quando eu precisava comprar alguma coisa perguntava no albergue antes “Ow, quanto achas que devo pagar por tal coisa?” e eles me respondiam a faixa de preço que eu deveria negociar. No wikitravel.com tem inclusive uma TABELA com preços de quanto você deve pagar por determinados tipos de produtos, de sapatos a alimentos.
Tabela de preços do wikitravel onde se vê de sapatos a tatuagem de henna
Você descobre mais ou menos quanto é e sai negociando. Eu detesto isso, pois sempre saio com a certeza de que fui roubado, mas é inegável que é engraçado. Com certeza eu ainda conseguiria pagar mais barato pelas coisas que comprei, mas para mim já estava barato suficiente.
DO YOU WANT CHILDREN? CHILDREN ARE CHEAP…
Um amigo meu ao chegar em Marrakech obviamente se perdeu e não conseguiu achar o seu albergue. Matutou, matutou, matutou e nada de conseguir. Decidiu pedir informação a um vendedor que foi super solícito e lhe explicou como era o caminho. Quando ele terminou de explicar o caminho virou para o meu amigo e ofereceu: – “Mas então, você não quer levar uma criança? Crianças aqui são baratas…”. Meu amigo disse que se empaledeceu e se assustou na hora. “Caraca, é tão descarado assim?”. Só depois que ele foi entender que na verdade o comerciante estava oferecendo uma criança para guiá-lo até o albergue, não para ele levá-la como escrava.
Em Fes é a mesma coisa. A Medina é tão gigante e tem tantas vielas, que eu acabei contratando uma criacinha também para me levar ao meu albergue.
Se liga na marra do meu primeiro guia
No albergue havia uma tartaruga de estimação. Era engraçado que vez ou outra a gente ia caminhando pelo albergue e quando via ela tava emborcada de cabeça para baixo sem conseguir se desvirar. Aí a gente ia lá e ajudava bichinha
Cara, por onde você andava tinham esses meninos vendendo pão nesse carrinho. Os caras devem gostar demais de comer isso no Marrocos
Fes vista de cima. Reparem no TANTO de antena parabólica nas casas. O sinal analógico lá não deve ser dos melhores…Viela onde só cabe uma pessoa? Queriam nem saber! Era sair da frente para não ser atropelado por burros
A noite, depois de ficar o dia inteiro andando pela cidade, estava com a sensação de ter levado uma surra de paulada. Todo cansado. Porem, tava morrendo de fome, mas com preguiça de sair para comer. Pensei em ir dormir logo, porém sair para comer algo me faria ao menos passear um pouco mais pela cidade. Optei por sair para buscar algo para comer antes de ir dormir.
Coloquei meu agasalho do Brasil e foi só eu pisar na praça central de Marrakesh para os vendedores voarem como gaviões em cima de mim gritando: Brasil!!! Ronaldo!!! Rivaldo!!! Neymar!!! Nossa, nossa, assim você me mata!!! – todos na esperança de, ao serem “gentis” gritando no meu ouvido, me fazerem comprar algo na vendinha deles.
Até que um veio na febre! Lá detrás, correndo e gritando “Brasil” no meu ouvido. O ignorei. Quando passo por ele, só escuto ele gritar: CHUPA ANA MARIA BRAGA!!!
Não sei se ele sabe quem é Ana Maria Braga e menos ainda que ensinou isso para ele, mas é óbvio que parei para comprar algo.
Dormir não dá XP.
O que mais me impressionou em Marrakech foram as apresentações com animais nas ruas. Elas são realmente bem cruéis. Tem uns macacos acorrentados pelo pescoço que são puxados com tanta força que os bichinhos até seguram a corrente com a mão para não enforcá-los. Mas, de longe, o que mais chamou a minha atenção foram os “adestradores” de cobras. Eles são famosos no Marrocos e na praça principal de Marrakech. Achei que era algo que nem desenho animado, que eles colocavam a cobra no cesto e iam tocando uma flauta. Pelo menos aqui não tem nada disso. Eles largam as cobras pelo chão e ficam as provocando com um barulho ensurdecedor de tambores. Se eu já ficava puto com esse barulhão todo, imagina como deve estressar o bicho que não tem a mínima ideia do que tá acontecendo.
As cobras ficam assim pelo chão porque eles arrancam as suas presas e seus bolsos de veneno (tipo o instituto Butantã e imagino que com o mesmo cuidado).
Interessante e triste ao mesmo tempo.
Porém Marrakech é muito da hora!
Estava caminhando pela praça Jemaa El-Fna quando me deparei com uma cena no mínimo curiosa. Dois caras estava com luvas e uma multidão os cercava para vê-los. Quando enfim conseguir ver o que era…
Cara, no meio da Jemaa El-Fna tem uns caras que levam um par de luvas e ficam perguntando pro povo que tá andando se alguém quer desafiar alguém. Daí pega dois caras quaisquer, dá as luvas, e fala para eles saírem na mão. Sim, os caras ficam trocando soco no meio da praça e o dono da luva só fazendo graça e recolhendo dinheiro.
Resumindo, dois lutam de graça para fazer dinheiro para um cara dono de dois pares de luva.
Às vezes é muito barato se fazer dinheiro no Marrocos.
Porque se tem uma linguagem que sempre será a mesma onde for, ela é o futebol. Jogo Champion’s League, Arsenal x Bayern de Munique no Saara Ocidental.
Obviamente queria ir em um bar onde tivesse um chope. Fui no único lugar em toda Laayoune onde há autorização para se vender álcool. Cheguei la, só uns poucos gringos. Calados. Tomando umas latinhas. Parecia que tavam assistindo desenho animado.
Sai de la e fui em um café onde a galera praticamente fez uma arquibancada para ver o jogo. E eles gritavam e eles torciam e eles dançavam e eles vibravam e eles faziam festa! Mas parecia final de Copa do Mundo!
E o mais engraçado todo mundo tomando só suco, pingado ou coca cola!
Laayoune, como todo mundo havia me falado, era uma cidade mais tradicional e religiosa do que as outras cidades que viajei pelo Marrocos. Mais ou menos como você viajar para uma cidade do interior do Nordeste onde as pessoas ainda são bem católicas.
Há muito mais mulheres usando véu para cobrir os cabelos e homens caminhando com roupas tradicionais. Também é bem difícil conseguir bebida alcoólica na cidade e só um hotel tinha autorização do governo para vender.
A cidade é toda da mesma cor, rosa (me lembrou inclusive Jaipur na Índia, confira a postagem aqui) e, apesar de ser margeada por um rio, a água que é utilizada por eles vem de um dessalinizador. Achei estranho, já que água dessalinizada costuma ser bem cara.
Andar pelas ruas era muito legal. Laayoune não é uma cidade de receber muitos turistas, por isso eu atraía muitos olhares de curiosos, ainda mais com esse meu cabelo liso e muito longo (em toda minha semana não vi um marroquino sequer de cabelos grandes). Apesar disso, o pessoal era realmente bem legal. Eu passava, eles me cumprimentavam e até um pedido de casamento eu cheguei a receber! A criançada passava por mim e ficava gritando e brincando comigo.
Se liga na zona
Lá aconteceu algo comigo que nunca havia ocorrido antes. Fui pegar um táxi e perguntei quanto o cara queria para me levar para um determinado local. Eu entendi ele falar seis. Quando dei seis para ele, ele me devolveu um e disse “eu falei cinco!”. Caraca, acredita nisso? Taxista honesto. Ainda que o primeiro taxista que eu tenha pegado tenha tentado me enrolar de todo jeito (normal, taxista é a raça mais FILHA DA PUTA deste mundo).
Por último, Laayoune, assim como o Marrocos, tem algumas características que me lembraram o Brasil.
Primeiro que você anda pelas ruas e tem um bando de caras sentados nas mesas de cafés olhando o movimento e tomando uma. Uma dose de café, é óbvio, pois, como falei, eles não bebem. Porém, eles podem não beber, mas também fumam o dia todinho. Fumam mais que uma caipora! Cigarro que é pior, pode, cerveja que é menos nocivo, não poooooode!
Segundo que eles podem não beber, mas é só passar uma mulher com a roupa um pouco mais justa que o olho dos caras vão direto… bem… você sabe. É amigo, a mulher pode estar vestida até com um saco de arroz que o olho do cara vai lá do mesmo jeito.
Por último, o futebol. Ainda em Marrakesh, estava eu e um brasileiro conversando sobre futebol quando veio um gringo, do nada, conversar com a gente. Ele falou: – “Sei que você estão falando em português, mas é sobre futebol, né?”. Foi lá, emendou uma conversa e perguntou se sabíamos onde ele poderia ir ver um jogo da Champion´s League que eu nem sabia que ia ter. Rapaz, não sei em Marrakesh, mas foi esse jogo começar que em Laayoune… Eu andava pelas ruas e todos os cafés transmitiam o jogo. Parecia final de Copa do Mundo e que a cidade inteira tinha parado para assistir.
Obviamente, ao chegar no hotel, a primeira coisa que fui querer saber era sobre como era a segurança de Laayoune, motivo das minhas preocupações.
Foi-me explicado o óbvio. Em um lugar sitiado, tudo o que menos pode acontecer de errado com você é algo relacionado a crime. E Laayoune é uma cidade sitiada.
Fui conversando com as pessoas e, ao que entendi, existem quatro tipos de níveis de segurança por lá. A polícia normal, uniformizada, como em qualquer cidade. O exército para guardar a capital. A milícia marroquina local. E, o último, a Inteligência. Lembra de quando eu falei que quando cheguei ao aeroporto tinha um paisano fazendo um policial quase de secretária? Então, ele era na verdade do corpo de inteligência.
Além desses quatro níveis de vigilância (cara, na hora lembrei de GTA e daquelas estrelinhas que ficam piscando com os níveis de polícia atrás de você!) tem também o corpo de paz da ONU que é responsável por checar se está tudo certo pelo país.
Disseram-me que era tudo bem sair batendo foto do que quisesse, evitando o óbvio de sempre: Não bater foto de policiais, de militares, de veículos militares, de bases militares e nem de pessoas na rua sem autorização.
O máximo que poderia acontecer comigo nas ruas era um policial ou outro me questionar porque eu estava batendo fotos por lá, mas aí era só dizer que era turista que tava tudo bem. No meu caso, teoricamente, seria mais de boa, já que eles não encanam muito com latinos americanos (apesar do Brasil não reconhecer o Saara Ocidental como parte do Marrocos). Se eu fosse espanhol, alemão ou argelino, com certeza iria ter um oficial de inteligência vigiando cada passo que eu desse na cidade. Segundo o que pude apurar, esses são os países mais engajados na causa do Saara Ocidental, o que irrita o Marrocos.
Além disso, que eu escondesse a minha máquina, pois ela parece profissional e com certeza eu seria questionado na rua o tempo inteiro se ficasse com ela à mostra. Porém não ia ser preso ou sequer conduzido para ser interrogado em outro lugar, pois o governo marroquino tem todo interesse em transparecer uma sensação de normalidade no local.
Tá certo que pela manhã eu acordei com barulho de tiros. Quando fui perguntar no hotel porque tavam trocando bala no meio da cidade, me explicaram que, na verdade, como o rei marroquino iria chegar em poucas semanas para inaugurar a estação de ônibus de frente ao hotel, o exército estava “limpando” a cidade e matando os cachorros que via pelas ruas. A bala. Bem, é uma morte menos dolorosa que a paulada, né?
Estação de ônibus nova, motivo da matança indiscriminada de cachorros
No começo fiquei meio preocupado de ser questionado pela polícia. Batia a foto com minha máquina e a guardava dentro da minha bolsa. Depois de um tempo e de já ter batido várias fotos, pô, eu tava pensando que podia ser interrogado ao menos uma vezinha, né? Era história para contar depois. Comecei a caminhar com a máquina na mão. Nada. Coloquei a máquina no pescoço e saí caminhando com ela pelo meio dos guardas no melhor estilo gringo. Nada. Bati foto de carro de polícia, de polícia, de carro da ONU. Nada. Fui embora e acabou que nenhum guarda me perguntou de nada.
Ao chegar ao hotel, fui recepcionado por um dos caras mais gente boa que pude conhecer em todo Marrocos. Ele era muito simpático, solícito, gente boa, sempre preocupado em me ajudar. Enfim, o árabe médio.
Ao me ver ele já puxou um mapa da cidade, começou a me explicar como funcionava Laayoune e como eram as pessoas de lá. Disse que a população de Laayoune, que fica no meio do deserto, durante milhares de anos foi nômade e dependeu muito da solidariedade alheia para conseguir um abrigo para uma noite, uma garrafa d´água, um lugar para os camelos descansarem e coisas assim. Por isso todos eram muito solidários por lá. Achei que isso era meio clichê, mas quando conheci o dono do hotel pude perceber que isso era verdade. Ele me disse que eu havia pago por um quarto pequeno de uma cama de solteiro, mas como o hotel não estava tão cheio, e eu era o seu convidado, eu poderia escolher qualquer quarto que ele iria me cobrar o preço que eu havia reservado. Parecia fazer isso sem nenhum interesse, mais pelo tipo de pensamento “pô, se tem um quarto melhor para ele ficar, porque eu vou deixar ele em um lugar menos confortável?”. Fiquei um pouco sem-graça, mas ele foi tão gente boa que não tive como não aceitar. Peguei um quarto no último andar, cama de casal e com uma boa vista de Laayoune.
No dia que eu tava para ir embora, ele tava lá na recepção. Perguntou-me onde eu ia e respondi que estava indo ao aeroporto. Ele não pensou duas vezes: “- Pô, tou aqui entediado sem fazer nada. Quer saber? Vou te levar para o aeroporto no meu carro. Precisa pagar nada não!”.
Ao forasteiro que aqui estiver lendo, se você por um acaso for a Laayoune, fica a dica, fique no Grande Care Hotel. Barato, boa localização, confortável e com um pessoal super agradável. Não tinha ar-condicionado, nem ventilador (eles me disseram que vão colocar lá em alguns meses, que o hotel é novo), mas vale pelo tanto que fui bem atendido. Além de tudo, é a vinte minutos caminhando do aeroporto e em frente a nova estação de ônibus que irão inaugurar na cidade. Tema do próximo post.
Na porta do hotel já havia um carro da ONU estacionado, mostrando mais ou menos como seria a realidade da cidade.
Desembarcar em Laayoune foi uma das experiências mais lindas da minha vida. O deserto gigantesco pela janela do avião. Você voa um tempão passando por cima de areia, areia, muita areia! Aquela imensidão laranja, infinita. Você olha pelo horizonte e não vê nada, para onde a vista alcança é alaranjado! É mais ou menos como sobrevoar o oceano, para, no final, láááááááá longe, você ver aquilo que parece uma ilha. Umas casinhas e uma pista de aeroporto e a pista de pouso.
Quando cheguei ao aeroporto, fomos separados em duas filas, a dos estrangeiros e a dos locais.
– Eita, é agora que eu rodo! O cara vai perguntar tudo da minha vida!”– pensava.
Não, na verdade um cara à paisana fez as perguntas de sempre (o que veio fazer, quanto tempo vai ficar, trabalha com o que no Brasil, qual hotel vai ficar) enquanto um guardinha ia anotando meus dados a mão (!!!!!!! Cara, chega me lembrou o aeroporto da Guiana confira a história nesse link aqui) e depois de alguns minutos lá estava eu no saguão de desembarque com um tio segurando uma plaquinha com meu nome. Era o cara do hotel.
Confesso que o Saara Ocidental foi um dos poucos países onde eu senti medo de viajar. Medo não porque as pessoas diziam que era perigoso. Medo porque não havia quase nenhuma informação confiável sobre o lugar na internet e a única fonte confiável, o Foreign travel advice do Reino Unido, dizia “não faça nenhum tipo de viagem que não indispensável”. Se em algum lugar houvesse escrito “o Saara Ocidental é um lugar perigoso, portanto faça isso, não faça isso, previna-se de tal coisa assim” eu teria ficado mais tranquilo. O que me deixou mais receoso foi porque eu não sabia o que iria encontrar por lá.
Todos os marroquinos com quem eu falava me diziam que lá era super tranquilo “como qualquer lugar no Marrocos”. Outros chegaram a me falar para tomar um pouco de cuidado pois o Saara Ocidental era uma terra de enganadores e trapaceiros. Até aí, tudo bem, já que a zona turística de Marrakesh também era. Eu estava até me tranquilizando.
Até que uma noite antes de viajar para lá falei para uma alemã no albergue que estava indo ao Saara Ocidental. Ela arregalou os olhos e disse “mas todo mundo me fala para não ir para lá! Que lá é super perigoso!”. Pronto, toda segurança que eu tinha sobre o lugar ruiu por terra e eu não conseguia tirar isso da minha cabeça. Uma coisa é o pessoal do país (que fala árabe, não parece turista, sempre fala bem do país onde vive) falando do lugar, outra é um turista andando por lá.
Por último, tinha o principal problema, a capital do Saara Ocidental, Laayoune, estava longe de ser um destino turístico.O que eu iria dizer para a polícia quando chegasse? Que estava indo para uma cidade no meio do deserto, onde não há nada turístico, para turistar?
Fui no caminho pensando no que eu iria dizer caso houvesse uma entrevista. Obviamente não poderia dizer que queria visitar um lugar em conflito e entender um pouco mais sobre a história de lá. Daí inventei a minha história: “Estava viajando e querendo conhecer todo o Marrocos e por isso queria visitar o centro (Casablanca e Marrakech), o Norte (Fes) e o Sul (Laayoune) do país. Além de que todas as outras cidades eram bem turísticas, cheias de gringos, só Laayoune era uma cidade com fácil aeroporto onde havia algo mais parecido com o `Marrocos como ele é´”.
Não sei se iria colar, mas era o que eu tinha.
Desde a hora que pisei no aeroporto até a chegada, foi estranha. Engraçado foi que qualquer coisa que um guarda no aeroporto vinha falar comigo, eu achava que já era para me questionar porque eu estava indo para Laayoune!
Estava na fila de embarque. O guardinha não deixou eu entrar. Mandou-me para outro lugar! Eita, me mandou para a salinha! – pensava. Não, eu tinha pego a fila do embarque internacional, não nacional.
Quando fui ao embarque nacional, o carinha do Raio-X não me deixou passar “Eita, é agora que vão me surrar!”. Não, era só que em Marrakech não há sala de embarque para voos nacionais (!!!!!!) e você passa do raio-X direto para o avião.
Quando cheguei a Casablanca, na fila da conexão, o guardinha não me deixou passar. Apontava para minha passagem aérea e falava “Laayoune!”. “Eita, não vai me deixar embarcar, vou ter que ficar em Casablanca!”. Não, mano, eu tava na fila de conexão internacional, não nacional!. Rapaz, mas parecia filme do Chaplin!
No final embarquei, são, salvo e não-preso para Laayoune.