





























(No museu não era permitido tirar fotos, portanto todas as imagens que aqui estão eu tirei na internet, fora, claro, as fotos que nada tem a ver com tortura)
Entre os vários museus que havia na Cidade do México, um me chamou a atenção em particular e resolvi dar uma passada lá antes de pegar o meu voo, o Museu da Tortura. Foi muito interessante ver até que ponto a criatividade humana poderia ir para infligir dor e sofrimento nas pessoas.
O Museu iniciava citando como era o“julgamento” da Inquisição, que era, por si só, parte do show. A pessoa chegava ao julgamento já considerada culpada, a única função do inquisitor era extrair informações que corroborassem a acusação. Podia extrair confissões a base de tortura ou de falsas promessas de concessão de graças ou perdão.
O que me impressionou foi que várias daquelas torturas não infligiam dor alguma, eram apenas adereços que eram colocados nas pessoas para humilhá-las perante toda a comunidade. Se hoje uma menina de interior fica “falada” se sai pegando muita gente, imagina isso quinhentos anos atrás. Um dos adereços era uma trança de palha que era colocada nas cabeças raspadas de meninas solteiras que ficavam grávidas. Elas eram obrigadas a vesti-las e ficarem sentadas na frente das igrejas aos domingos, momento de maior movimento possível no povoado.
Segundo o Museu, houve uma mudança na concepção de como infligir a tortura. Antes a tortura era dolorosa e bem explícita. Ocorria em praças públicas ou obrigava pessoas a usarem estacas, objetos pontiagudos e afiados ao redor de suas cabeças durante dias, infligindo, assim, medo e terror e servindo como um exemplo para que todos vissem. Basta lembrar que Jesus teve que usar uma coroa feita de espinhos e carregar a sua cruz enquanto era chicoteado. Hoje o conceito de tortura é algo mais implícito, com uma grande preocupação em não deixar marcas. Pode até ficar uma marca ou outra, mas nada que se compare a Idade Média onde a intenção era justamente essa. Isso deve-se a um amadurecimento da sociedade humana, que hoje condena a tortura e portanto não é interesse de nenhum regime ser associado a isso. Por mais assassino que um ditador possa ser, ele nunca irá admitir que em seu regime a tortura seja política de estado, mas sim obra de alguns poucos psicopatas. Os militares brasileiros, por exemplo, não reconhecem que houve tortura durante o seu regime, por mais impressionante que isso possa ser, apenas dizemque isso ocorria em uma outra delegacia, tal qual os dias atuais.
Outro instrumento que muitos julgam como de tortura e, segundo o museu, não era, é o cinto de castidade. Segundos o museu, esta história de que os maridos colocavam cintos de castidade nas mulheres quando iam viajar por longos períodos não passa de balela. Um cinto desses usado por meses, sem retirar para limpá-lo ou algo assim, facilmente levaria a infecção e morte da mulher. Na verdade, o cinto era utilizado como uma forma de proteção das mulheres contra o estupro. Geralmente elas vestiam voluntariamente quando viajavam sozinhas, quando seus maridos viajavam e elas ficavam em casa sem nenhum homem ou quando havia aquartelamento de soldados em seu povoado. O fato de ser voluntário, de forma alguma retira o caráter da violência contra a mulher, na verdade o enfatiza, dado que as mulheres se violentavam a si mesmas, se autotorturavam, para não serem estupradas. Segundo o museu, o uso do cinto chegou até próximo dos dias atuais, pois há relatos de senhoras sicilianas e espanholas ainda vivas hoje que chegaram a utilizá-lo.
Outras torturas me chamaram a atenção pelo caráter demorado que levavam a morte, como ferver os pés da vítima, serrá-la de ponta cabeça (de forma que a oxigenação continuasse irrigando a cabeça durante um bom tempo) ou simplesmente colocar a vítima em uma jaula deixando-a morrer de fome e apodrecer no meio da praça da cidade. Isso tudo pode parecer algo meio cruel, mas não consigo imaginar um cara como o Bolsonaro condenando atitudes como essas.







Mas para mim o mais legal do museu, mesmo, foi que você fica lá, lendo sobre sangue, sofrimento, tortura, destino dos infelizes e atrás fica tocando um canto gregoriano na maior calma do mundo, parecendo até que você tá dentro de uma igreja. Vontade maior de associar tortura a uma instituição, é impossível.
Por último, o museu também falava de alguém que é meio esquecido quando se fala em tortura: o carrasco ou o torturador, que na Idade Média eram quase a mesma coisa. Tal profissão logicamente era muito mal-vista e muitas vezes desempenhada por etnias “inferiores” (como os ciganos na Turquia) ou era algo como um trabalho passado de pai para filho. Achei interessante o relato de que quando um desses carrascos foi questionado por Napoleão III se ele não se sentia mal em desempenhar tão desprezível profissão ele respondeu que apenas executava as leis que os governantes elaboraram. Então, os políticos, sim, eram os principais carrascos.
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Há duas coisas que eu tenho certeza que vem a cabeça de qualquer pessoa quando se pensa em México. Uma são os povos pré-colombianos (astecas, maias, olmecas…) e outro é o Chaves.
É impossível não associar ao México a imagem de Chaves ou Chapolin.


Na verdade, os mexicanos que pude conversar, ficaram surpresos em saber que até hoje Chaves passa no Brasil em horários bons, como sete da noite ou cinco da tarde e batendo programas com investimentos muito maiores. Se pudesse traçar um parâmetro, poderia dizer que Chaves no México é como nossas novelas no Brasil. Apesar de fazer um sucesso GIGANTE fora, no país de origem é algo visto como brega ou até mesmo vulgar. Você pode até gostar, mas não é algo que vais sair falando orgulhoso para os seus amigos, por exemplo.
Quando disse então que queria ir a Acapulco por causa do Chaves, aí que eles não entenderam mesmo. Na verdade fiquei até um pouco chateado com a situação, pois achava que todo mundo ia ficar empolgado que nem eu quando falava de Chaves. Mas enfim, bola para frente. Se Acapulco se revelara inviável por causa do tempo gasto, o túmulo do Seu Madruga, eu faria de tudo para ir.

Pesquisando na internet vi que Ramón Baldez estava enterrado em um lugar chamado “Mausoleu del Angels” e eu iria fazer DE TUDO para poder ir lá visitá-lo. Depois que eu fui ver que o lugar era quase que do outro lado da cidade, mas eu ia nem que fosse em outro estado.

Peguei um metrô até a última estação, desci dentro de uma universidade pública e de lá estava disposto a encarar uma caminhada de meia hora até o cemitério. Depois de caminhar uns dez minutos, fui descobrir que estava indo no caminho contrario. Nossa, aí veio aquela sensação de descarregar um caminhão de tijolo no lugar errado. Me lembrou a pedalada de Cuba (Pedalada Cuba). Como já eram rodados cinco da tarde, eu fiquei com medo do lugar fechar e resolvi pegar um táxi que me custou incríveis 5 reais para me levar até a porta do cemitério. Sim, meia hora da minha vida estava valendo 5 reais. Desci cinco e meia e descobri que o lugar fechava as seis.
De resto, é só conferir a postagem emocionada que deixei no meu facebook no dia em que visitei o Mausoléu:

“Hoje foi um dia extremamente feliz.
É difícil não pecar pelo clichê, pieguice ou sentimentalismo barato de facebook, mas é impossível descrever a emoção. Hoje voltei a ser a criança no Maranhão assistindo aos mesmos episódios e rindo das mesmas piadas de sempre, mas que sempre pareciam tão engraçadas.
Chaves é aquela felicidade simples, inocente, sem estereótipos baratos ou piadas apelativas. É aquela terça a tarde que você acabou de chegar do Colégio e descobriu que ainda tem um resto de Guaraná Jesus na geladeira, aquela nota de dois reais achada no bolso da bermuda quando vc é criança e que dá para comprar tanta coisa, aquela peça de lego que vc acha debaixo da cama e pensava que tinha perdido…
Um programa barato, simples, com quase nenhum cenário, pouquíssimos atores, mas que faz ainda tanto sucesso mesmo competindo com enlatados americanos, que sempre se repetem com seu sarcasmo sem graça e sua propaganda excessiva.
Como Don Ramón pode ter morrido em 1988, quando eu tinha quatro anos, e ainda assim me parecer alguém tão próximo…
Quem se importa se tive que pegar uma hora de metrô lotado, me perder no caminho, pegar um táxi e depois sofrer a mesma saga na volta apenas para uma foto? Hoje pude me sentir pertinho do senhor de calças surradas que, apesar de todas as intempéries, sempre arrumava uma forma de cuidar do menino que praticamente morava dentro de um barril. Hoje pude chorar baixinho, sem me envergonhar, do lado do túmulo, ao me sentir tão perto de quem tanto me marcou e nesses trinta anos me fez rir tantas vezes. Hoje estive tão longe de casa, mas tão perto do mito.
Viva Seu Madruga! Viva Dona Clotilde! Viva Chespirito! Que Chaves passe por mais vinte, trinta anos na TV! Que eu possa rir junto com meus filhos e netos!
Que maias, astecas ou Cancun! Passeio no México mesmo é visitar os túmulos de Seu Madruga e Dona Clotilde, tão pertinhos um do outro no Mausóleu del Angels.
Viva a cultura latina!
P.s: Engraçado ver as bandeirinhas do Brasil e as homenagens que outros brasileiros deixaram nos túmulos. Engraçado como Chaves faz sucesso no Brasil. Juro que da próxima vez colo um adesivo do SBT…”
Rapaz, que parada impressionante! Mas, assim, é só você enfiar a cara dentro da arena que você sente a paulada e vê que isso não tem nada de turístico. Você entra, parece arena de futebol! É galera gritando, apertando buzina, torcendo, aquele barulho infernal! Existem os lutadores do bem, que se vestem com cores claras e os atores do mal, geralmente de preto. Cara, é MUITO legal! Eles literalmente voam, são arremessados uns pelos outros, às vezes para fora do ringue, dão piruetas nesses arremessos e vez ou outra caem no meio da plateia. Teve um cara que estava sentado na primeira fila que o óculos dele até voou na hora que um lutador caiu voando em cima dele! Não é permitido ficar de pé, mas tem umas horas que os caras arremessam algum lutador que é impossível a galera não levantar e gritar. Assim, é bobo, é teatral, mas bicho, é muito legal! Nossa, no começo você fica até com vergonha, mas depois eu já tava no clima, a galera te contagia e você acaba saindo literalmente rouco de tanto gritar!









Depois, lendo mais um pouco, vi que essa Lucha Livre existe há DÉCADAS! Quando você vê uma banquinha de máscaras, várias delas, fica procurando uma e procurando a mais bonita. Chega o vendedor e vai falando o nome de qual lutador usa cada diferente estilo e cor de máscara. Essa máscara é a do o Diamante Azul, essa do Último Guerreiro, essa do Terror Asteca!!!
Cara, se for a Cidade do México, VÁ! Lucha Livre e ao Túmulo do Seu Madruga, foram, de longe as coisas que eu mais gostei de ir ao México!


Nos outros dias saímos juntos para comer e sempre era um lugar da hora, uma comida da hora, uma experiência super interessante e uma briga para eles deixarem eu pagar a conta.E puxa tequila daqui, puxa tequila dali, começou um verdadeiro buffet de tequila. Só que, como você já deve imaginar, tequila não é como cerveja que você vai bebendo de boa. Depois de uma meia hora, já tava eu lá, mais louco que o Batman. Me lembrou até os apuros que passei com mexicanos e tequila em Santa Bárbara anos atrás.


Enfim, os dois couchs foram experiências agradabilíssimas e um dos motivos que ainda que eu tenha todo dinheiro do mundo, eu nunca vou deixar de ficar em couch para ficar em um hotel sozinho. Longa vida ao Couchsurfing!

Apesar de haver vários povos indígenas quando Cortéz chegou no México, a cultura deles meio que se originou de um tronco comum, motivo que eu vou descrever só os pontos que eu achei mais interessantes, sem descrever se é maia, astecas, olmeca etc.

Atribuía-se uma boa colheita ao sacrifício deste capitão que voltava a terra para fertilizá-la. Não entendi direito porque, mas eles só ofereciam o crânio, o coração e o fêmur como oferenda aos deuses, o resto do corpo era incinerado.

Entre um dos motivos que eram realizadas guerras era para captura de prisioneiros para posterior sacrifício.
Outro ponto interessante era que, como todos nós éramos pequenas peças montadas de deuses, o uso de recursos da natureza deveriam ser utilizados com parcimônia, pois todos os animais possuíam equivalentes humanos. A nobreza, os sacerdotes, por exemplo, eram equivalentes dos jaguares e se transformavam neles quando estavam dormindo.
Acho que o principal ponto é e sempre vai ser o sacrifício humano. Por que eles faziam isso? Bem, eles acreditavam que estávamos em um quinto ciclo da vida que fora iniciado com um sacrifício dos deuses. Dos raios do quinto sol nasceram todos os minerais e serem vivos que temos na terra. Portanto, as armas, as pedras, os animais, os seres humanos, todos nós somos partes de deuses. Comemos da terra e a terra nos come, formando um clico de vida e morte. O sacrifício nada mais era que uma forma de honrar os deuses, devolver parte de sua energia como uma forma de humildade e retribuir o seu sacrifício. Acreditava-se que se o sacrifício fosse parado, o sol deixaria de se nascer e o quinto ciclo seria finalizado. Era algo tão importante que quem era sacrificado quando finalizado o jogo de futebol maia, era o capitão do time vencedor e não do time perdedor.
Os mexicanos se orgulham muito do seu passado.
A bandeira do México traz no meio uma imagem de uma águia comendo uma serpente em cima de um cacto. Diz a lenda que os astecas vagavam pelo México e havia uma profecia que dizia que os astecas deveriam erguer a sua cidade em um lugar onde fosse visto isso, uma águia comendo uma serpente em cima de um cacto. Diz a lenda que eles acharam esta imagem e ergueram a capital do seu império, Tenochtitlán neste local.
Lenda ou não, Tenochtitlán possuía uma população de 200 a 300 mil pessoas no seu auge e sua, digamos região metropolitana, tinha uma concentração populacional de quase 1,5 milhão, o que a fazia uma das maiores concentrações populacionais de todo o mundo àquela época. Tenochtitlán parecia-se com Veneza, com seus canais e aspecto vibrante da cidade.
Quando os espanhóis chegaram a cidade, os astecas estavam no seu auge. Dominavam toda a região, inclusive os povos indígenas vizinhos de quem cobravam impostos extorsivos mais ou menos como em um regime de servidão. Quando os espanhóis chegaram estava plantada a semente que levaria a destruição do império asteca. Já se tornou meio cliché se perguntar como 300, 500 espanhóis conseguiram derrotar um império com milhões de pessoas (se pudéssemos criar um paralelo, seria mais ou menos como um povoado do Maranhão tomando de assalto a cidade de São Paulo e escravizando todos os seus moradores). Como em dois anos, uma cultura de 3000 anos foi transformada em cinzas.
São várias as razões que defende-se para isso ter ocorrido, no final o motivo acaba sendo um acumulado de todas elas.
Existia uma lenda entre os astecas que um dia o Deus serpente desceria a terra sob a forma de um homem branco e com pelos na cara (índios não tem barba) acompanhado de seus filhos e semelhantes. Defende-se que essa lenda se originou devido a visita dos vikings algumas centenas de anos atrás ao continente americano e ao fato dos índios terem se impressionado com a barba e a brancura da pele dos nórdicos. Quando Montezuma ouviu falar que torres flutuantes chegaram a praia com bestas que cuspiam fogo pela boca (os tiros de mosquetes dos espanhóis), não teve dúvida que esse momento tenha chegado. Para quem acha que isso é baboseira, Montezuma chegou a convidar Cortéz para ser hóspede em Tenochtitlán, onde ele permaneceu por meses. Houve uma rebelião no litoral e levaram a cabeça de um capitão espanhol para tentar fazer Montezuma acreditar que os espanhóis eram humanos e não deuses, ainda assim ele não se convenceu. Só depois de uma rebelião em Tenochtitlán, em que Montezuma foi morto, não se sabe pela população ou pelos espanhóis, que os astecas começaram a reagir contra a dominação espanhola.
A partir daí entraram as principais armas espanholas. Primeiro que os espanhóis eram bem mais desenvolvidos tecnologicamente, tinham conhecimento do aço, pólvora e uma poderosa marinha perfeita para bombardear cidades com bolas de canhão, enquanto os astecas tinham tacapes de madeira com pedras de obsidiana (uma pedra vulcânica extremamente afiada). Além disso, os espanhóis espalharam doenças que hoje são banais, mas que naquela época dizimaram 90% da população indígena como sarampo, gripe, catapora e, principalmente, varíola. Com uma população doente, é mais fácil você atacar. Porém, a principal arma de Cortéz foi a política, que ele sabia manejar muito bem. Os espanhóis passaram centenas de anos para reunificar os seus territórios que estavam sob domínio árabe e a diplomacia foi uma de suas principais armas para isso. Depois foi só usá-la contra os astecas.
Aproveitando-se do ódio que os povos indígenas dominados tinham dos astecas, Cortéz conseguiu montar um exército de mais de 100 mil indígenas para tentar tomar Tenochtitlán. Esses indígenas não eram só números, eles conheciam o terreno, as estratégias utilizadas pelos astecas, suas linhas de suprimento e como eles guerreavam. Isso se tornou uma imensa vantagem para Cortéz. Ainda assim, a cidade resistiu bravamente por sete meses, um dos mais prolongados cercos da história, ainda que estivesse devastada pela peste e pela convulsão social a que foi acometida.
Depois da queda de Tenochtitlán, o inferno na terra foi dado aos astecas. A tripulação de Cortéz não era composta de cientistas ou liberais, mas sim da pior corja possível existente na Espanha e prisões foram esvaziadas para compor a sua tripulação (quem mais iria se arriscar em uma viagem mar adentro que matava a maioria dos seus tripulantes?). Então, o único interesse de tais espanhóis era enriquecer da forma mais rápida e “barata” possível, ou seja, por meio do trabalho exaustivo e até a morte dos indígenas dominados. Quando a Espanha se jogou no mar com as caravelas de Colombo, o que eles pretendiam fazer era achar um caminho até as Índias por meio de volta ao mundo, já que Portugal já dominava o caminho contornando o continente africano. Depois de perceberem que eles não haviam chegados às lendárias índias e de que perceber que ir as índias por meio de volta ao mundo era extremamente caro (Fernão de Magalhães foi um dos poucos que fez isso naquela época sob um custo altíssimo, inclusive de sua vida), os espanhóis se decepcionaram e invejaram os portugueses. Começaram a pensar em outra “utilidade” para o continente americano. Quando ouviram falar de contos de cidades feitas de prata e ouro no continente americano, os seus olhos brilharam e eles viram que era hora de ganhar dinheiro. Irônico q depois de alguns anos a Espanha ficou podre de rica com a exploração da América Central e Portugal teve que ir explorar o Brasil pois viu-se que o comércio com as Índias não era tão rentável assim.
Mas se um pressuposto básico da diplomacia, é que você possa conversar, como os espanhóis se comunicavam com os indígenas? Algum dos componentes da tripulação de Colombo, não regressaram para a Espanha (para que diabos você vai pegar o inferno de outra viagem?) e ficaram em terras indígenas, compondo famílias e se misturando a cultura local aprendendo, lógico, a língua. Eles serviram de guias aos espanhóis. Mas a principal tradutora de Cortéz durante a sua dominação do México foi uma indígena chamada Malinche, que falava duas das principais línguas indígenas da região, depois aprendeu espanhol e se casou com Cortéz. Os mexicanos tem um ódio tão grande dessa mulher que o termo “Malinchista” se tornou sinônimo de traidor, o Judas mexicano (sim, eu vi os caras xingando “malinchistas” enquanto a gente via futebol na TV).
Depois da dominação houve a conversão. Índios que se convertiam ao catolicismo tinham um tratamento menos infernal (não que deixassem de ser explorados até a morte) pelos espanhóis. Dessa forma, hoje o México é um dos principais países católicos do mundo. Isso não quer dizer que a Igreja Católica desempenhou um papel social na América Latina, pelo contrário, também explorou os indígenas baseada no seu próprio interesse. A única exceção ficou por conta de alguns franciscanos que durante anos denunciaram os maus-tratos e a exploração indígena. Como os indígenas eram analfabetos, as igrejas eram decoradas com artes trabalhadas e figuras gigantes de santos católicos para que fosse mais fácil a sua conversão, motivo de toda a decoração das igrejas que pude visitar no México.
Há algum tempo o México já constava entre os países que eu gostaria de visitar. História é de longe o tema que mais me atrai a viajar para um lugar e o México, lar de grande parte das civilizações das Américas, seria uma escolha natural.
Aproveitei que uma amiga do tempo da universidade iria se casar na Cidade do México e peguei duas semanas para poder viajar.
A cidade do México tem varias atrações por si só. Apesar de ser uma cidade gigantesca, com um trânsito caótico e uma poluição catastrófica, tem seus encantos devido a ser o local onde se encontrava Tenochtitlan, a capital do Império Asteca e próximo de Teotihuacan, uma outra cidade pré-colombiana.

Vi um lugar falando que o centro histórico já afundou quase 10 metros e inclusive algumas igrejas hoje tem escadas para você pode descer. A cidade tem museu de tudo que você imaginar, da imprensa a tortura, dos astecas aos Correios e dá para ficar meses aquí se você resolve visitar museu por museu. Inclusive há o museu das ruínas do antigo Templo Maior, principal templo asteca, local onde os astecas teriam visto a imagem da águia comendo a cobra e cujo museu tem informação demais, acho que nunca gastei tanto tempo em um museu como naquele.

Algo interessante é que como a cidade foi construída em cima de onde antes era um lago, com um solo poroso e cujos lençóis freáticos são cada día mais usados para abastecer de agua uma cidade de milhões de habitantes, a cidade está, literalmente, indo para o buraco. Sim, o solo da cidade nâo foi feito para aguentar o peso das contrucoes gigantescas que os espanhóis construíram em cima dos templos astecas e é visível ver como varias igrejas hoje tem torres e colunas tortas.

No Palácio do Governo há os famosos murais de Diego Rivera, onde ele pintou a história dos astecas desde antes da invasão espanhola, até o seu martírio. O Palácio foi construído exatamente onde se situava o palácio de Montezuma, assim como a impressionante Catedral que foi construída em cima do mais importante templo asteca (inclusive utilizando das pedras do templo) e a praça central do México que foi construída onde era a praça central de Teotican.
Próximo a cidade do México há a antiga cidade de Teotihuacan (não confundir com Tenochtitlan), um dos vários povos avançados que povoou a região onde agora é a Cidade do México. Esta cidade chegou a ter no seu auge quase 125 mil pessoas. O auge do Império foi quase 1000 anos antes dos astecas, mas o seu legado ficou até os dias atuais, pois vários dos seus deuses como a serpente Quetzalcóalt e Tláloc, deus da chuva e da água, que vou explicar posteriormente, ainda eram cultuados pelos astecas quando os espanhóis chegaram. A elite asteca chegava a fazer procissões para as pirâmides da cidade, pois acreditavam que este havia sido o local onde os deuses haviam se sacrificado para o nascimento do sol e da vida como um todo. Tais pirâmides, são a terceira maior já construídas pelo homem, perdendo apenas para a de Queóps no Egito e para um outra pirâmide da região que hoje é apenas uma colina. Importante lembrar que tal pirâmide foi construída com três milhões de toneladas de pedra sem o uso de ferramentas de metal, rodas ou animais de carga, foi tudo no braço! Ah sim, a pirâmide tem 248 degraus com a altura de uns 30 cm cada um, o que faz ser uma subidinha deveras chata para ser realizada. 


Quando as pessoas me perguntavam se eu já havia visitado a China, a minha resposta era sempre “- Não, só fui a Hong Kong e Macau”. Apesar de essas duas regiões serem parte da China hoje, pra mim elas não contavam como “China” em si por terem uma história diferente da China continental e, principalmente, por serem BEM ricas.
Xangai hoje posso dizer o mesmo. É um verdadeiro choque quando você sai do caos que é Pequim e outras cidades da China e cai diretamente em Xangai. Cara, Xangai é coisa de outro mundo. Começa pelo aeroporto, que parece novinho em folha e é gigantesco! Saindo de lá, quando você cai na cidade, você vê toda a opulência e riqueza que Xangai transmite, totalmente diferente das outras cidades chinesas que, como já falei, são gigantescas, porém sujas e bagunçadas. Mas como disse várias vezes, Xangai e nada na China são exemplos para ninguém.

O que eu havia lido era que Hong Kong e Macau despertam um certo “ciúme” na cúpula do Partido Comunista Chinês. As duas regiões são pujantes e extremamente ricas, porém foram colonizadas por potências estrangeiras. Xangai seria uma resposta do modelo comunista chinês que eles poderiam fazer algo melhor e mais moderno seguindo o modelo comunista. Mais ou menos como a Pyongyang da China. Assim, de forma artificial, você tem uma ilha da maravilha no meio do caos das cidades do interior da China.
Como já havia explicado antes, adiantei em alguns dias a minha ida a Xangai porque eu realmente não aguentava mais o interior da China, precisava descansar um pouco (afinal, eu não era aquele mochileiro de quatro anos atrás, agora eu era alguém tirando férias do trabalho e precisando de alguma forma descansar) e queria sentir um pouco dessa dita modernização chinesa. Xangai acabou por cumprir o que eu esperava.


Logo no metrô já começou algo bem engraçado. Assim, antes de falar preciso citar algo que temos que tirar o chapéu para os chineses. O metrô te pega quase que na porta de casa e te deixa já dentro do aeroporto. Isso é muito bom. Além disso, paguei 3 (isso mesmo TRÊS REAIS) de tarifa sair do aeroporto, atravessar toda Xangai e chegar na estação que eu deveria ir. Procurei a estação que eu supostamente deveria descer, comprei o tíquete e entrei no metrô. Eu deveria seguir a linha 2 do metrô do aeroporto até a estação que iria encontrar minha host, sem necessidade de mudança de linha. Lá estou eu sentado esperando o meu metrô ir passando as estações quando, de repente, todo mundo pula para fora do metrô. Como eu estava de cabeça baixa, escutando música, não me toquei que TODO MUNDO havia saído do metrô. Quando pensei em também cair fora (isso, afinal não parecia um bom sinal), vi que outras pessoas entraram. Bem, poderia seguir viagem, afinal, como eu disse, eu não precisava trocar a linha. Quando me toquei, quatro estações depois, o metrô estava VOLTANDO para o aeroporto. Diaboéisso? Eu supostamente não devia me manter na mesma linha? Tentei checar o que estava acontecendo, mas havia algumas instruções em chinês na estação que o trem havia voltado. Não entendi nada, saí do vagão e fui para o outro lado pegar os vagões que iam na direção que eu supostamente deveria ir. Fiquei sentado e dessa vez não pensei duas vezes, quando todo mundo pulou fora, eu pulei junto!
Aí que fui me tocar que, apesar de ser a mesma linha, em determinado momento você tem que fazer algo como uma baldeação de um vagão para o outro ainda que esteja na mesma linha, senão você corre o risco de voltar para o aeroporto. Essa eu não entendi. Acabou que eu apelidei o metrô do aeroporto de metrô ping-pong. Fica a dica aí para quem for para lá.
Consegui um couch em Xangai com uma polonesa. Ela se chamava Ewa. Era veterinária e estava entediada na Polônia quando viu um anúncio de emprego para ir trabalhar em Xangai. Aceitou e se mudou com mala e cuia para lá.
Assim, falar que ela era uma mulher é realmente algo difícil. Cara, ela era muito doida! Tinha crescido a vida inteira com amigos homens em fazendas derrubando cavalos no chão com as mãos, como ela mesmo gostava de falar. Além disso, ela também era fissurada em tuning e não raro participava de rachas pelas ruas da Polônia com o seu carro customizado. Bem mais macho que qualquer um aqui que tá lendo esse blog. O irmão dela corre em algo parecido com uma corrida de stock car e ela ficava me mostrando as fotos toda orgulhosa. E cara, como ela falava. Mas falava bem mais do que eu. Isso era bem engraçado.

No começo eu tratava ela como…. bem… como uma mulher, né cara? Sei lá, tentava ser gentil ou coisas do tipo. Depois de um ou dois dias com ela me tratando como um cavalo, comecei a tratar ela quem nem brother mesmo! Aí que ficamos amigos! Ela dizia que eu era tão menininha, que quando alguém no meeting perguntava se erámos namorados ela só respondia: – “Só se for para ela ser minha esposa!”. Rapaz, mas a mulher era grossa que só parede de igreja! 
Ela dizia que na casa dela só havia uma regra: “Regar as plantinhas logo pela manhã”. Isso havia no profile dela e não parecia ser lá um problema tão complexo. Já cheguei na casa dela sabendo que teria que fazer isso. Só que eu esperava encontrar “plantinhas” e não quase uma floresta amazônica que ela mantinha em um jardim de inverno no apê dela. Eita, mas era planta! Juro que eu gastava uns vinte minutos para poder regar toda aquela Floresta Amazônica que ela mantinha no quintal dela. A única parte positiva do fato de só ter chovido nos dois primeiros dias que fiquei em Xangai (choveu tanto que nem pude sair de casa), foi que não precisei jogar água nas plantas.

Outra história engraçada dela foi que no sábado a noite ela falou que não iria poder ir no meeting porque ela ia ter um encontro com um cara. De boa, fui sozinho e quando cheguei em casa resolvi perguntar como havia sido o seu passeio romântico. Cara, foi muito engraçado! Ela foi encontrar com um italiano estilo marombeiro. Quando chegou no bar ela já perguntou para ele o que ele iria beber e o cara respondeu “Suco!”. Rapaz, disse que na hora ela já pensou em perguntar se ele era… bem… você sabe.
Depois disse que ele começou a falar que havia sido criado pela avó, mas sentia muita saudade da mãe dele. Italiano típico, se falasse que tinha feito estágio em Pelotas eu não estranharia. Depois que a Ewa já tinha tomado quase uma garrafa de rum sozinha (segundo ela para aguentar o cara, que era muito chato e nem cerveja pediu, só tomou suco de laranja!) ele começou o grand finale. Disse que havia viajado muito a vida dele, mas que agora estava pensando em se aquietar e voltar para o pequeno vilarejo italiano dele com uma mulher para ter uma família e ela criar os filhos. Isso, lógico, dando a entender que a Ewa poderia cumprir esse papel. Até porque a meta de vida de uma mulher que se embrenha no meio do continente asiático, sem eira nem beira, sozinha, que derrubava cavalo com a mão e era quase o Vin Diesel de Velozes e Furiosos na versão feminina, era substituir o papel da mama de um italiano de trinta e cinco anos. Disse que na hora ela só pensou em mandar ele virar homem, pediu a conta (que ele pagou, lógico) e voltou para casa! É amigo! A vida é dura!
Mas o mais engraçado em Pingyao, foi meu café da manhã. Eis que eu paro pra poder comer uma parada num boteco de uma tia. Chega meu prato e foi só eu começar a comer que um passa um cara com uma criança de colo, para, assim, a um metro de onde estava o meu prato e começa a acocorar.
Demorei algum tempo para poder acreditar que ele ia fazer o que eu estava imaginando que ele ia fazer. Sim, ele bota a criança pra, digamos, evacuar (ou cagar, para os menos íntimos) do LADO DE ONDE EU TAVA COMENDO, mas assim, no meio da rua. Eu juro que eu parei de comer e fiquei “admirando” aquela cena. Também, não deixei por menos, saquei a minha máquina e comecei a bater foto do menino cagando.
De repente aparece um chinês, doido, bêbado e começa a gritar com esse cara. Quando virei a máquina e ia começar a bater foto do véio, vi que ele estava com o casaco da policia.
Não sei se era uma fantasia ou se o cara era policia mesmo, mas não quis pagar pra ver. Só soquei a máquina dentro da mochila e fingi que nada estava acontecendo. Não é que do nada o cara com o bebê começa a gritar de volta com o velho, o velho vai pra cima, o cara, segurando o bebê no colo, solta um chute no peito do véio e aí o circo foi montado. Mermão, o PAU COMEÇOU A COMER! Foi porrada de um lado, porrada de outro, mulher gritando,o véio correndo pra poder pegar um bloco de concreto para jogar no cara, cachorro passando no meio, a turma do deixa-disso entrando em cena, eu tentando proteger meu prato… Entre mortos e feridos, retrovisores para um lado, restos de para-brisa e marcas de borracha do outro, conseguiram levar o velho embora e eu consegui terminar meu café da manha.
Para situações como essas que o mercado, sempre ele facilitando a vida dos cidadãos, inovou e criou um novo modelo para facilitar a vida dos chineses. Lá, as roupinhas de bebê vem com uma abertura atrás para aquela hora que você precisar parar para a criança se aliviar no meio da rua. Mais prático impossível.


