Xangai

Quando as pessoas me perguntavam se eu já havia visitado a China, a minha resposta era sempre “- Não, só fui a Hong Kong e Macau”. Apesar de essas duas regiões serem parte da China hoje, pra mim elas não contavam como “China” em si por terem uma história diferente da China continental e, principalmente, por serem BEM ricas.
Xangai hoje posso dizer o mesmo. É um verdadeiro choque quando você sai do caos que é Pequim e outras cidades da China e cai diretamente em Xangai. Cara, Xangai é coisa de outro mundo. Começa pelo aeroporto, que parece novinho em folha e é gigantesco! Saindo de lá, quando você cai na cidade, você vê toda a opulência e riqueza que Xangai transmite, totalmente diferente das outras cidades chinesas que, como já falei, são gigantescas, porém sujas e bagunçadas. Mas como disse várias vezes, Xangai e nada na China são exemplos para ninguém.

Wall Street Chinesa

O que eu havia lido era que Hong Kong e Macau despertam um certo “ciúme” na cúpula do Partido Comunista Chinês. As duas regiões são pujantes e extremamente ricas, porém foram colonizadas por potências estrangeiras. Xangai seria uma resposta do modelo comunista chinês que eles poderiam fazer algo melhor e mais moderno seguindo o modelo comunista. Mais ou menos como a Pyongyang da China. Assim, de forma artificial, você tem uma ilha da maravilha no meio do caos das cidades do interior da China.
 

Perambulando por Xangai

Como já havia explicado antes, adiantei em alguns dias a minha ida a Xangai porque eu realmente não aguentava mais o interior da China, precisava descansar um pouco (afinal, eu não era aquele mochileiro de quatro anos atrás, agora eu era alguém tirando férias do trabalho e precisando de alguma forma descansar) e queria sentir um pouco dessa dita modernização chinesa. Xangai acabou por cumprir o que eu esperava.

Logo no metrô já começou algo bem engraçado. Assim, antes de falar preciso citar algo que temos que tirar o chapéu para os chineses. O metrô te pega quase que na porta de casa e te deixa já dentro do aeroporto. Isso é muito bom. Além disso, paguei 3 (isso mesmo TRÊS REAIS) de tarifa sair do aeroporto, atravessar toda Xangai e chegar na estação que eu deveria ir. Procurei a estação que eu supostamente deveria descer, comprei o tíquete e entrei no metrô. Eu deveria seguir a linha 2 do metrô do aeroporto até a estação que iria encontrar minha host, sem necessidade de mudança de linha. Lá estou eu sentado esperando o meu metrô ir passando as estações quando, de repente, todo mundo pula para fora do metrô. Como eu estava de cabeça baixa, escutando música, não me toquei que TODO MUNDO havia saído do metrô. Quando pensei em também cair fora (isso, afinal não parecia um bom sinal), vi que outras pessoas entraram. Bem, poderia seguir viagem, afinal, como eu disse, eu não precisava trocar a linha. Quando me toquei, quatro estações depois, o metrô estava VOLTANDO para o aeroporto. Diaboéisso? Eu supostamente não devia me manter na mesma linha? Tentei checar o que estava acontecendo, mas havia algumas instruções em chinês na estação que o trem havia voltado. Não entendi nada, saí do vagão e fui para o outro lado pegar os vagões que iam na direção que eu supostamente deveria ir. Fiquei sentado e dessa vez não pensei duas vezes, quando todo mundo pulou fora, eu pulei junto!

Aí que fui me tocar que, apesar de ser a mesma linha, em determinado momento você tem que fazer algo como uma baldeação de um vagão para o outro ainda que esteja na mesma linha, senão você corre o risco de voltar para o aeroporto. Essa eu não entendi. Acabou que eu apelidei o metrô do aeroporto de metrô ping-pong. Fica a dica aí para quem for para lá.

Host em Xangai

Consegui um couch em Xangai com uma polonesa. Ela se chamava Ewa. Era veterinária e estava entediada na Polônia quando viu um anúncio de emprego para ir trabalhar em Xangai. Aceitou e se mudou com mala e cuia para lá.

Assim, falar que ela era uma mulher é realmente algo difícil. Cara, ela era muito doida! Tinha crescido a vida inteira com amigos homens em fazendas derrubando cavalos no chão com as mãos, como ela mesmo gostava de falar. Além disso, ela também era fissurada em tuning e não raro participava de rachas pelas ruas da Polônia com o seu carro customizado. Bem mais macho que qualquer um aqui que tá lendo esse blog. O irmão dela corre em algo parecido com uma corrida de stock car e ela ficava me mostrando as fotos toda orgulhosa. E cara, como ela falava. Mas falava bem mais do que eu. Isso era bem engraçado.

Alguém pediu ovos de dragão para comer?

No começo eu tratava ela como…. bem… como uma mulher, né cara? Sei lá, tentava ser gentil ou coisas do tipo. Depois de um ou dois dias com ela me tratando como um cavalo, comecei a tratar ela quem nem brother mesmo! Aí que ficamos amigos! Ela dizia que eu era tão menininha, que quando alguém no meeting perguntava se erámos namorados ela só respondia: – “Só se for para ela ser minha esposa!”. Rapaz, mas a mulher era grossa que só parede de igreja! 

Ela dizia que na casa dela só havia uma regra: “Regar as plantinhas logo pela manhã”. Isso havia no profile dela e não parecia ser lá um problema tão complexo. Já cheguei na casa dela sabendo que teria que fazer isso. Só que eu esperava encontrar “plantinhas” e não quase uma floresta amazônica que ela mantinha em um jardim de inverno no apê dela. Eita, mas era planta! Juro que eu gastava uns vinte minutos para poder regar toda aquela Floresta Amazônica que ela mantinha no quintal dela. A única parte positiva do fato de só ter chovido nos dois primeiros dias que fiquei em Xangai (choveu tanto que nem pude sair de casa), foi que não precisei jogar água nas plantas.

Outra história engraçada dela foi que no sábado a noite ela falou que não iria poder ir no meeting porque ela ia ter um encontro com um cara. De boa, fui sozinho e quando cheguei em casa resolvi perguntar como havia sido o seu passeio romântico. Cara, foi muito engraçado! Ela foi encontrar com um italiano estilo marombeiro. Quando chegou no bar ela já perguntou para ele o que ele iria beber e o cara respondeu “Suco!”. Rapaz, disse que na hora ela já pensou em perguntar se ele era… bem… você sabe.

Depois disse que ele começou a falar que havia sido criado pela avó, mas sentia muita saudade da mãe dele. Italiano típico, se falasse que tinha feito estágio em Pelotas eu não estranharia. Depois que a Ewa já tinha tomado quase uma garrafa de rum sozinha (segundo ela para aguentar o cara, que era muito chato e nem cerveja pediu, só tomou suco de laranja!) ele começou o grand finale. Disse que havia viajado muito a vida dele, mas que agora estava pensando em se aquietar e voltar para o pequeno vilarejo italiano dele com uma mulher para ter uma família e ela criar os filhos. Isso, lógico, dando a entender que a Ewa poderia cumprir esse papel. Até porque a meta de vida de uma mulher que se embrenha no meio do continente asiático, sem eira nem beira, sozinha, que derrubava cavalo com a mão e era quase o Vin Diesel de Velozes e Furiosos na versão feminina, era substituir o papel da mama de um italiano de trinta e cinco anos. Disse que na hora ela só pensou em mandar ele virar homem, pediu a conta (que ele pagou, lógico) e voltou para casa! É amigo! A vida é dura!

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Comédia Pastelão

Mas o mais engraçado em Pingyao, foi meu café da manhã. Eis que eu paro pra poder comer uma parada num boteco de uma tia. Chega meu prato e foi só eu começar a comer que um passa um cara com uma criança de colo, para, assim, a um metro de onde estava o meu prato e começa a acocorar.

Demorei algum tempo para poder acreditar que ele ia fazer o que eu estava imaginando que ele ia fazer. Sim, ele bota a criança pra, digamos, evacuar (ou cagar, para os menos íntimos) do LADO DE ONDE EU TAVA COMENDO, mas assim, no meio da rua. Eu juro que eu parei de comer e fiquei “admirando” aquela cena. Também, não deixei por menos, saquei a minha máquina e comecei a bater foto do menino cagando.

De repente aparece um chinês, doido, bêbado e começa a gritar com esse cara. Quando virei a máquina e ia começar a bater foto do véio, vi que ele estava com o casaco da policia.

Não sei se era uma fantasia ou se o cara era policia mesmo, mas não quis pagar pra ver. Só soquei a máquina dentro da mochila e fingi que nada estava acontecendo. Não é que do nada o cara com o bebê começa a gritar de volta com o velho, o velho vai pra cima, o cara, segurando o bebê no colo, solta um chute no peito do véio e aí o circo foi montado. Mermão, o PAU COMEÇOU A COMER! Foi porrada de um lado, porrada de outro, mulher gritando,o véio correndo pra poder pegar um bloco de concreto para jogar no cara, cachorro passando no meio, a turma do deixa-disso entrando em cena, eu tentando proteger meu prato… Entre mortos e feridos, retrovisores para um lado, restos de para-brisa e marcas de borracha do outro, conseguiram levar o velho embora e eu consegui terminar meu café da manha.

Para situações como essas que o mercado, sempre ele facilitando a vida dos cidadãos, inovou e criou um novo modelo para facilitar a vida dos chineses. Lá, as roupinhas de bebê vem com uma abertura atrás para aquela hora que você precisar parar para a criança se aliviar no meio da rua. Mais prático impossível.

Roupinhas de bebê com o furo atrás

Cidade moderna a poucos passos da cidade antiga de Pyngao

 

 

Muralhas cercando a cidade antiga de Pyngao

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PINGYAO – CIDADE HISTÓRICA NA CHINA

Depois segui para Pingyao, uma cidade histórica da China. Cidade chinesa padrão, suja, confusa e empoeirada. Tudo bem, isso não é problema, há várias cidades do Brasil que também são assim. A cidade em si era bem legal e charmosa. A parte antiga era cercada por muralhas e um belo exemplo de como era, e talvez funcionava, uma cidade chinesa na época imperial. Lógico que ela foi engolida por uma cidade moderna devido ao crescimento repentino chinês nos últimos anos.

No trem, conheci três franceses que depois ficamos andando juntos em Pingyao. Eles eram bem gente boa, odiavam imigrantes, diziam que eles estavam destruindo a França e que logo logo a sede da Al Qaeda ia ser transferida para Paris, enfim, uns amores de pessoas. De cada quatro palavras que conversávamos, três eram xingando os muçulmanos e africanos e que agora os franceses tinham que se submeter ao cúmulo de estudar história dos muçulmanos nas escolas. Adorei os três fofuchos e os apelidei de trio Le Pen. Versão francesa de uma amiga que conheciem Israel, a senhora Sharon! (leia a história clicando aqui)

Igreja Católica

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Fazendo amigos

Uma grande vantagem que aconteceu comigo foi que consegui ficar amigo de duas chinesas que falavam um inglês perfeito e também estavam a viagem pela China. Aí era “win the game”, cara. Poxa, sem mais necessidade de negociar nada, de tentar achar lugar nenhum, era só sentar no banco de carona e segui-las. Ficamos bem amigos e ainda nos encontramos na outra cidade que viajei, Pingyao. Na verdade elas eram duas gracinhas, pareciam duas Hello Kitties.

Eu com as duas Hello Kitties



Fomos juntos para um templo suspenso na montanha, muito legal! Dava um pouco de medo de subir até lá, mas a vista valia a pena.
Depois fomos visitar os budas entalhados nas paredes de pedra. A resposta chinesa para Petra (para ler sobre Petra, clicar aqui). O legal é que do lado de um sítio arqueológico milenar havia uma indústria de material químico pesado e destruidor. Nada mais apropriado para o lugar.



Fábrica poluidora ao lado

Encontrando o albergue e Datong

Chegando lá, lógico, ninguém falava inglês. Peguei um táxi e mostrei para o motorista o nome do lugar, em chinês, para onde eu estava indo. De boa, o táxi me levou, parou no meio de uma praça, só apontou para ela e falou, é para lá. Desci. Olhei para um lado. Olhei para o outro e nada de eu conseguir achar o albergue. Na rua, além de ninguém entender o que eu falava, ainda que eu tivesse o nome do albergue em chinês, ninguém parecia saber onde ficava aquilo. Rodei, rodei, rodei quase uma meia hora quando escuto alguém falando em inglês:

– Procurando o albergue, cara?

Quando virei, era um não-asiático, acenando para mim e me chamando:

– Sim, cara, deve ser o mesmo albergue que o meu! Eu também não conseguia achar o albergue quando cheguei aqui. Só consegui achar quando outro cara me chamou na rua, que nem eu tou fazendo agora contigo.

Sim, o albergue era algo como uma confraria, onde você só consegue entrar se já conhecesse algum membro anteriormente. Super bem pensando para um lugar como esse.

Quando foi a noite fiquei embaixo tentando achar algum gringo de mochila perdido para poder mostrar para ele onde era o albergue e continuar a minha corrente do bem. Na foto abaixo dá para ver como é fácil achar o letreiro do lugar.

Datong


           Depois que voltei da Coréia do Norte comecei a me tocar que estava com um pequeno problema. Eu havia feitos planos, contatos, pesquisado, lido, tudo sobre Coréia do Norte e sabia exatamente o que iria fazer por lá. Porém, quando desci novamente em Pequim que fui me tocar. Rapaz, eu não tinha feito plano nenhum de viagem para a China. E ainda tinha três semanas! Que diabos eu ia fazer em três semanas na China? Depois de pesquisas e algumas sugestões, resolvi descer para Datong pois lá havia alguns Budas esculpidos na parede que pareciam bem legais. Comprei a passagem de trem e segui.

Mão invisível do mercado nas muralhas

Como fui voto vencido, seguimos em frente. Cara, sabe aquela imagem das muralhas que você em cartões postais e na tv? Ela toda bonitinha e talz? Pois é, aquilo é a exceção e não a regra. Aquilo ali é só na parte bonitinha e turística para os turistas gordos poderem bater fotos e colocar no facebook. A maioria da muralha hoje é feita de ruínas e depois que saímos da parte turística, fomos para a verdadeira muralha! Aí, cara era pedra descolada fazendo você tropeçar e quase desabar precipício abaixo, zonas da muralha quase inexistentes, vegetação dificultando a caminhada, zonas intensamente íngremes e, o pior, NENHUM ser humano a vista, ou seja, com tudo para dar errado.


Seguimos caminhando e de repente veio aquela cena de filme. Sabe aquela ilhota, famosa em filmes de náufragos? Não, a muralha não virou mar, nem o mar virou muralha (sábio Antônio Conselheiro!), mas serve como metáfora para o oásis que vimos. Ao longe foi se formando a imagem de um ser humanoide sentado ao lado de algo que parecia um cubo branco. Sim, demorei a acreditar, mas era isso mesmo. Um VENDEDOR AMBULANTE perdido NO MEIO DAS MURALHAS!! É isso aí, meu caro! A mão invisível do mercado suprindo a demanda e ofertando os seus produtos onde quer que acha necessidade deles serem comprados. Com o nosso estoque de água quase no fim, aquele cara seria uma benção! Adam Smith ficaria orgulhoso! Porém, sempre há um porém! Como já havia dito nesse post da Indonésia, a mão invisível do mercado não carrega o isopor dele montanha acima.
Então? Bem, então o cabra queria que pagássemos SETE VEZES MAIS pelo preço que normalmente pagávamos em outros ambulantes! Adam Smith ficaria orgulhoso! Tentamos argumentar, mas não teve jeito, ou pagávamos a ele, ou ficaríamos com o nosso estoque de água perigosamente baixo. Você se sente humilhado, depois de estudar Economia na universidade por quatro anos, não conseguindo argumentar com um ambulante que mal sabe escrever o nome! Marx, David Ricardo, Keynes, nada adiantava, a única linguagem que ele entendia, e bem, era a do dinheiro! Depois de muito choro, ele resolveu baixar para cinco vezes o preço de mercado de um ambulante comum e seguimos viagem. Nunca paguei tão caro por uma garrafa d´água na minha vida, cara! Aquele ambulante me ensinou sobre Economia do que qualquer universidade.

AMIGOS, AMIGOS…

Caminhamos mais por uma hora e, como a pomba que volta com um ramo no bico mostrando para Noé que ele estava próximo de terra firme, vimos alguns chineses caminhando em sentindo contrário ao nosso. Bem, essa maldita vila deveria estar perto.
Caminhamos mais um pouco e nos deparamos com um problema complicado. Chegamos a uma torre de observação e o acesso dela do outro lado estava simplesmente em ruínas. Era necessário pular algo como uns dois metros, dois metros e meio de queda livre para poder continuar viagem. Cara, isso é algo como pular do primeiro andar de uma casa. Bem, com muito cuidado até dá para você fazer isso e pular no seu quintal em cima da grana, o problema é que o terreno abaixo era pedregoso e um piso em falso poderia levar a uns belos arranhões ou, o pior dos mundos em um lugar como aquele, uma torção do tornozelo a algumas horas sendo carregado até o socorro mais próximo. Ficamos matutando o que fazer quando, do nada, lá detrás, vem um chinês correndo com uma escada na mão. Lógico, do lado dele, uma outra caixa de isopor. Ficamos bem agradecidos com o que ele estava fazendo e pensamos até em comprar umas garrafas d´água da mão dele como agradecimento. Só havia um detalhe, cara, estávamos na China. Assim que ele botou a escada na torre, que eu ia pisar ele só falou: – “É dois reais para descer. POR PESSOA!!!”. Adam Smith ficaria orgulhoso!

Ok, cara, não quero que ninguém trabalhe de graça e talz, mas POMBAS! Era só uma escada! Eu, lógico, nem quis barganhar com aquele enviado dos infernos. Não era por causa do preço nem nada, era mais a atitude mesmo. Mole, mole, erámos apenas seres humanos em uma situação de risco! Entreguei a minha mochila para a galera em cima e fui me esgueirando, esgueirando e consegui alcançar o chão. Peguei as mochilas, ajudei os outros homens a descer, fizemos as mulheres pularem nos nossos braços e seguimos viagem.

Nosso amigo com sua caixinha de isopor

Em que língua escrevem os vândalos?

CINCO HORAS DEPOIS do momento em que decidimos não voltar e chegar à vila, chegamos em uma parte da muralha onde vários ambulantes conversavam. Exaustos, pobres, extorquidos, mas vivos e hidratados. Cara, não tinha placa nem nada, o caminho seguia e se não fosse a nossa amiga chinesa, para perguntar se aquela trilhazinha de nada levava até a vila, estaríamos caminhando até hoje nas muralhas. Isso é, até o momento que nosso dinheiro acabasse de tanto comprar água inflacionada. No acesso para a trilha, lógico, mais uma pequena queda de um metro e meio e mais uma operação padrão para içar as meninas de cima para baixo.

Grandes Muralhas

Cara, sabe aquela história do deixar sempre tudo para a última hora? Pois é, isso em viagens também acontece. As grandes muralhas, eram de longe o lugar que mais me interessava em Pequim. Eu fui deixando, deixando, deixando. Não era tão fácil chegar lá e parecia que não seria lá tão da hora ir sozinho. O problema é que o tempo foi passando e, quando dei por mim, já estava quase que no último fim de semana de China e precisa ir nessas muralhas.
 Comecei a pesquisar como fazia para ir e estava decidido a ir sozinho quando uma menina postou no grupo que estava a fim de visitar as muralhas no sábado, meu último dia em Pequim. Não era muito inteligente fazer isso, afinal, sábado é fim de semana e, se tudo na China já é lotado, imagina no fim de semana quando todos estão de folga. Logo mais uns dois também postaram e resolvi me entrosar no grupo. Trocamos mensagens por telefone e ficamos de nos encontrar no outro dia as seis e  meia da manhã numa estação de metrô, pois o busão para as Muralhas saía as sete de Pequim. Previsão de duas horas e meia para poder chegar lá.

Cheguei no horário combinado e me encontrei com a menina, uma chinesa (meu, como tudo fica mais fácil quando temos alguém que fala chinês) e um alemão, Mark. Fomos para a parada de ônibus e ficamos esperando o terceiro couchsurfer que deveria chegar. Esperamos dez, quinze, vinte minutos e nada do bicho chegar. De repente, ele liga, fala que tava chegando na estação de metrô e que precisava que a chinesa fosse busca-lo por lá. Ela foi correndo para não perder o ônibus e eu acabei ficando com o alemão lá esperando. Do nada um outro alemão que também estava indo para as muralhas se entrosou com a gente (aprendam uma coisa, se viajarem na Ásia, SEMPRE, se entrosem com os ocidentais. Tentar resolver as coisas em grupo é sempre mais fácil do que sozinho).

 De repente o busão começou a ir embora e o Mark falou que ia esperar os outros dois chegarem e talvez pegar o ônibus de mais tarde. Apesar de sair como babaca, resolvi não esperar e seguir logo. Pombas, era o meu último dia de Pequim, eu não poderia arriscar e, caraca, eu havia chegado na hora, brother! É complicado você comprometer um grupo por causa de uma pessoa que se atrasa e que você nem conhece (no final acabei me arrependendo do que fiz, pois conseguimos fazer o passeio de boa, como vou explicar posteriormente, e o cara que se atrasou era super gente boa).
Isso, gira a câmera para esse lado

 Antes de falar como foi o passeio nas muralhas, um briefing. As muralhas, segundo a história oficial, foram erguidas para conter as diversas hordas mongóis que apavoravam a China durante anos. Segundo os historiadores mais sérios e respeitados, a Muralha na verdade foi construída para deter Chuck Norris. Bem, em ambas as hipóteses, elas falharam miseravelmente. São uma das maiores obras de engenharias da humanidade (depois da construção da Ponte José Sarney em São Luís) e além de serem usadas como proteção, foram de grande utilidade para ligar diversos pontos montanhosos do Império Chinês, haja vista que era possível caminhar entre suas paredes e com isso abria uma “trilha” em pleno terreno montanhoso chinês.

VOTO VENCIDO 

Eles conseguiram pegar um outro busão, se viraram por lá e acabou que chegamos quase ao mesmo tempo. Como falei, quando há alguém que fala chinês é tudo mais fácil.
Quando fomos para subir a muralha, havia duas opções. Uma era pegar um bondinho, aproveitar a vista, cair direto nas muralhas e pagar uns quinze reais e a outra era subir um lance de escadas de quase meia hora. Meu, você tem noção do que é subir meia hora de escadas? Se você acha que já é difícil subir quatro andares, imagina uns 50. Se eu gostasse de subir escada alugava um apartamento no terceiro andar sem elevador nas quadras das 400. Pô, 15 reais não vai matar ninguém!!! É lógico que era a melhor ideia. É lógico que não pegamos o bondinho. Fui voto vencido. É lógico que os couchsurfers escolheram o mais barato. E lá vou eu subir escadas.
Bondinho, ao longe. Longe de mim que subia as escadas
Subimos um lance gigantesco de escadas e no final fizemos o que? Mais e mais escadas, mas dessa vez caminhando pela muralha da China.
Quando chegamos lá em cima já éramos um grupo de seis couchsurfers, pois não sei como uma polonesa acabou nos encontrando por lá. No caminho um outro chinês acabou se juntando a gente.
Depois de duas horas de caminhadas, subindo e descendo escadas, chegamos a um local onde dizia que a partir dali não era mais permitido caminhar porque as muralhas começavam a ficar perigosas. Um dos alemães disse que checou no GPS que se seguíssemos em frente caminhando na muralha, iriamos levar menos de duas horas para poder chegar a um outro vilarejo e de lá poderíamos pegar um taxi. Tínhamos cinco litros de agua para sete pessoas, sendo duas mulheres. Ou seja, tinha tudo pra dar errado, por isso todo mundo ficou doido pra ir.
Isso pra mim é um nível de racionalidade semelhante ao de torcer pro Botafogo, mas enfim, voto vencido novamente, seguimos em frente. Juro que me imaginei alguns anos depois estrelando algum documentário da Discovery tipo o “Sobrevivi” que conta como pessoas escaparam de situações extremas sem agua e comida!
 

Varadero em Cuba e o Resort “All Inclusive” que era especialista em suco de laranja – Economizando dois reais e quase precisando de um estômago novo

É de praxe quando você vai mergulhar, que você reserve com um dia de antecedência, haja vista que os caras tem que preparar os cilindros, equipamentos e coisas assim. Como havia chegado em Varadero as 22h, não consegui fazer isso (nem jantar). No outro dia pela manhã, assim que abriu o guichê da agência de turismo, corri para poder tentar reservar o mergulho. Liga daqui, liga de lá e de repente para o busão da galera do mergulho na frente do hotel e eu fui voado falar com os caras. Eles falaram que eu até podia ir, mas tinha que ser naquela hora. Nem fui no quarto nem nada, com a roupa do corpo, pulei dentro do busão. Depois que eu fui descobrir que a gente não iria mergulhar em Varadero, mas sim atravessar toda Cuba, duas horas e meia de ida, mais duas e meia de volta e ir mergulhar na famigerada Baía dos Porcos, onde uma das mais importantes batalhas de Cuba havia sido travada.
Como não havia conseguido tomar café da manhã, fui num boteco que havia do lado do centro de mergulho e comprei um sanduba na mão de uma mulher que, gentilmente, se ofereceu para encher uma garrafa d´água para mim, assim eu não precisaria comprar uma garrafa de água mineral e economizaria incríveis dois reais.
Fui mergulhar e depois do mergulho, iniciou-se o meu inferno astral. Meu estômago começou a dar voltas e mais voltas. Mais ou menos como gatos lutando dentro dele. E aí? O que será que havia me feito mal? A água? Fui muito fundo no mergulho? Como eu não sabia se o problema era de estômago, circulação ou o que for, tive que descer a escala máxima de precaução e lá estava eu em um hotel all inclusive, bebendo água e comendo frutas. O hotel tinha bar na praia, bar na piscina, bar 24 horas no hall. Tinha rum, cerveja, uísque, vodka e coquetéis a rodo (pina colada, mojito, cuba livre…).
E os caras do hotel resolveram apelar viu? Adivinhando que eu estava passando mal, a cozinha resolveu bagunçar com minha cara. Brother, era camarão, era carne de vaca (que é muito difícil de achar em Cuba), diversas variações de queijo, sobremesa, cerveja a rodo e eu lá, comendo mamão e tomando suco de laranja.
A noite a russaiada pegava as garrafas de vodka, bebia no gargalo, fazia zoada, literalmente tomava banho, um jogando vodka na cabeça do outro, na maior farra, mais ou menos como você imaginaria o comportamento dentro de um barco viking. Me senti em um daqueles filmes americanos quando aparece a máfia russa. E eu bebendo água mineral no balcão. Sem gelo, pois a água do gelo não era mineral.
Como quando você está mal do estômago, o mais recomendável é beber bastante água, fui no balcão pedir uma garrafa d´água para eu levar para o quarto. O barman me falou que não podia me dar uma garrafa, mas se eu quisesse, havia uma jarra térmica no quarto, parecida com uma garrafa de café e que eu poderia encher de água e levar pro quarto. Ele só falou para mim assim “a jarra é aquela ali” e apontou pra um finlandês do meu lado enchendo a dele com rum.
E foi isso. Eu fiquei ali em um resort all inclusive e não pude comer nada, uma noite porque fui mergulhar e outra porque passei mal. Me senti como um episódio do Chaves quando o Quico pergunta para dona Florinda se pode ir tomar banho na piscina e ela responde: “Pode, Tesouro, só não pode se molhar”. No resort todos estavam encharcados e só eu seco como um balde de farinha no meio do Saara.
Mas economizei incríveis dois reais evitando comprar uma garrafa de água mineral!
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Varadero

Varadero é mais conhecida como a gringolândia cubana. É basicamente uma praia com hotel para tudo que é lado, a grande maioria all inclusive, e com um bando de gringo indo a desforra. Na verdade, eu inicialmente não estava planejando viajar para lá, pois isso não é muito minha praia. Acabei mudando um pouco de ideia quando comecei a ver os pontos de mergulho que haviam por lá e que efetivamente me fizeram mudar de ideia. O problema é que tudo por lá era muito caro.
Resolvi seguir de qualquer forma já que não tinha muitas escolhas a fazer e Varadero estava no caminho de volta para Havana. Falei com o pessoal da Casa Particular em Santa Clara que estava indo para Varadero e eles me indicaram uma casa particular por lá.
Só que desde o começo eu já não gostei muito da ideia. Primeiro que ninguém ia me buscar na rodoviária e o que mais gostava de Casas Particulares é a situação de não ter que me preocupar de barganhar com taxista (que eu ODEIO!). Além disso, eles ainda iam me cobrar 25 CUCs, de longe a Casa Particular mais cara de todas! Não fui gostando muito da ideia, mas fui levando, afinal, não queria gastar muita grana.
Em Cuba é assim. Se o motorista quer fumar um cigarrinho, ele para o busão e desce. Os passageiros que esperem… Quem achar ruim que pegue o volante e siga em frente
Momento Silvio Santos com o jogo “Qual é a música” rolando no resort
 
No caminho, pedi para o motorista do busão me largar próximo ao endereço. Desci do ônibus e aconteceu uma das coisas que eu mais gosto em viagens. Quando você desce do ônibus, olha para um lado, olha para o outro e não vê NADA! Sim, ele me largou no meio do nada. Lembrou-me meu primeiro dia em Santa Bárbara. Bola para frente. Desci e fui na Casa Particular, era até legalzinha, mas, pombas, 25 CUCs é muita grana. SEM CAFÉ DA MANHÃ! Segui para um hotel all inclusive que eu sabia que havia por perto e descobri que lá o preço era de 49 CUCs, só que com todas as refeições e bebidas, inclusive eles serviam em um bar na praia. Ah, amigo, era 50 reais de diferença. O hotel não era nenhuma maravilha, paredes descascadas e talz, mas pelo menos o quarto estava limpo e o banheiro, o mais importante, também. Negócio fechado.
Pros fluentes em russo, é só escolher o passeio que mais lhe agrada…

Mas o mais interessante mesmo do hotel era que ele era CHEIO de russos. Mas eram russos para tudo que era lado. Era tanto russo que os avisos do hotel eram em espanhol e russo, nem em inglês tavam escrito. Bem, eu só achei graça, mas realmente fiquei impressionado com essa particularidade. Confesso que no começo até dava um medo de um deles sair com uma Kalashinikov e sair metendo bala em todo mundo.
 O problema foi que acabei ficando forever alone já que ninguém desses malditos falavam inglês ou espanhol. Além de russos, também tinham franceses, que são lendários em sua habilidade de não saber falar inglês. Na primeira noite eu enchi a cara de coca cola, já que no outro dia iria mergulhar e, bem, como já expliquei algumas vezes, mergulho é um esporte de risco e portanto não se deve consumir bebidas alcoólicas um dia antes de ir a 30 metros de profundidade.