Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
Depois de passar pelo medo de ser mais um brasileiro barrado na fronteira da Espanha, tudo mais ficou de boa. Segui para o lugar indicado e fui para o couch. Meu host chamava-se Daniel e era um catalão (catalão, não espanhol, como ele gostava de dizer).
Pra quem não entende o porquê de ele tanto enfatizar isso, deixe-me explicar. Há algum tempo atrás, a Catalunha foi um reino independente, mas posteriormente foi unificada (ou tomada, como eles mesmos gostam de dizer) pelo reino de Castela (daí vem o nome “Castelhano” que alguns se referem ao espanhol) formando-se assim a Espanha Contemporânea. Os bascos também entraram nessa e viraram Espanha, só que aí é outra história. Apesar dessa “unificação”, vários catalães sempre tiveram problemas com esse “rebaixamento” de Estado independente para província da Espanha. Esse ressentimento atingiu o seu auge durante a ditadura de Franco (1939-1975) quando a Catalunha perdeu sua autonomia e sofreu pesada repressão cultural e lingüística do regime (falar Catalão chegou inclusive a ser proibido). Hoje a Catalunha é uma comunidade autônoma da Espanha, sendo reconhecida como uma “nacionalidade”, e desfruta de uma maior autonomia, com Constituição própria e, claro, língua oficial. Só como última curiosidade, como a Catalunha não tem seleção oficial, a “seleção” deles é o time do Barcelona que possui como maior rival o Real Madrid, que, como o próprio nome já diz, é o principal time de Madrid e por tabela da Espanha (ou Castela). Não raro é comum você ver em jogos entre o Real Madrid e Barcelona alguns espanhóis vaiando o hino espanhol. Na verdade, não são espanhóis, são catalães =)
Dois monumentos dedicados a Catalunha. Acima, a chama que nunca é apagada pra simbolizar o nacionalismo catalão e abaixo flores para os que lutaram pela Catalunha.
Apesar de toda a expectativa que eu vinha nutrindo por Barcelona, acabou que nem foi tão legal quanto eu estava esperando. Sim, Barcelona é uma cidade bem interessante, mas acabou que eu acho que não tive muita sorte. As baladas que eu fui foram um tanto quanto meia-bocas e as pessoas que conheci, tirando o meu host, não foram lá tão interessantes. Foi legal andar pelas ruas medievais de Barcelona, ver as transformações e como foi bom pra cidade ter sediado os jogos olímpicos de 1992.
Barcelona é uma cidade de praia, portanto tava meio chata quando cheguei, no inverno. Uma das paradas engraçadas foi que eu ADORO Burger´s King. Quando saí daqui de Brasília, aqui não tinha, tampouco em São Luís. Como sabia que aquela seria a minha penúltima semana viajando, resolvi que Barcelona seria o lugar que eu comeria Burger´s King “até dizer chega”! Era pra comer até enjoar! Comer o suficiente pra não sentir saudade! Comecei a “jantar” lá todos os dias da semana! Mas comi sanduíche que não agüentava mais! Comia, comia e comia. Quando voltei de Barcelona, eu fui descobrir que tinham aberto um Burger´s King em Brasília e eu tinha entupido minhas veias pra nada.
Outra coisa que rolou e foi bem engraçada foi que andamos a cidade inteira a procura de um prédio que teoricamente mudava de cor quando estava a noite. Andamos, sem brincadeira, umas duas horas (não pegamos um ônibus porque cada esquina achávamos que estávamos pra chegar) e quando chegamos lá descobrimos que tínhamos ido ver o prédio no ÚNICO dia da semana em quem eles não ligavam as luzes. Felicidade extrema.
Fomos também em uma exposição bem interessante. Artistas catalães, cansados de ver pessoas serem tratadas como índices tiveram uma ideia no mínimo inusitada. Resolveram pegar diversas estatísticas e personificá-las. De que maneira? Pra cada ser humano de uma estatística havia um grão de arroz. Logo, 2 milhões de africanos morrem de AIDS por ano? Eles separam 2 milhões de grãos de arroz e fazem uma pilha pra você poder ter uma ideia. Existem 214 milhões de pessoas subnutridas na Índia? 214 milhões de grãos de arroz pra poder exemplificar. Cara e isso é impressionante, viu? Quando falamos de números assim, ao léu, realmente não te transmite o que é esse número em seres humanos. Era realmente IMPRESSIONANTE ver algumas montanhas de grãos de arroz do lado de algumas estatísticas que eu até tinha noção de quanto era numericamente, mas não tinha noção do que era se fosse pra contar…
PARA VARIAR, PROBLEMAS NO AEROPORTO
Inicialmente eu até pensava em ficar mais tempo na Espanha. De Barcelona eu tava planejando viajar para outras cidades na Espanha como Madrid, Bilbao ou Ibiza. Ocorre que, como falei há alguns posts atrás, a crise de 2008 estourou bem no meio da minha viagem e eu vi o meu dinheiro (que estava em reais) praticamente virar pó com as super valorizações do dólar e do euro. Devido a isso, tive que ir adiantando a minha viagem e acabou que eu tive os meus planos de viajar pela Espanha frustrados.
Placas em Catalão, língua oficial de Barcelona e de toda Catalunha
Marquei a minha passagem pra Lisboa, Portugal, mais cedo e fui para o aeroporto pra poder voar. Lá ia rolar o Encontro Europeu do Couchsurfing, o LIU (Lisbon Invites You). Caraca, tava radiante pra poder chegar logo em Lisboa e rever uma galera que havia conhecido em Praga. Cheguei serelepe e saltitante ao aeroporto e quando fui pra passar a minha bagagem, a surpresa! Meu nome não constava na lista de passageiros. Perguntei pra mulher como isso era possível e ela falou que era isso mesmo. Meu nome não tava lá e por isso eu não poderia voar. Mas pombas, eu havia reservado a minha passagem ligando no Brasil! Ela me mandou num guichê e o cara começou a me atender.
Vasos preguiçosos em Barcelona
Cara, sério, parecia cena de filme. O bicho tinha uma cara de ser meio maluco e falou que ia resolver o meu problema. Fiii, quando vi a cara do sujeito me deu foi medo do que ele ia fazer. E o cabra falava que não tinha como resolver e que tava difícil. E soltava gargalhada. Ele virava e falava: – Ih, cara, vai dar pra eu resolver não!!! HAHAHAHAHA – e começava a rir descontroladamente! Eu comecei foi a achar que ele tava era de brincadeira com minha cara! Nada! Ele era meio pirado mesmo. No final acabou que ele conseguiu mesmo resolver meu problema e entrei no avião em direção a Lisboa!
Bem, alguns posts atrás já escrevi contando como foram minhas experiências entrando na Europa. Cara, pode parecer besteira, mas toda vez que você vai entrar na Europa, é sempre aquela tensão. Vem sempre aquela história mal-explicada dos pesquisadores brasileiros que foram barrados na Espanha e deu maior chabu e crise diplomática. Você sempre fica naquela, “pô, os caras, pesquisadores, iam fazer uma viagem curtíssima pra Portugal, tinham convite do evento no bolso. Brasileiros são os mais barrados na Espanha…” e coisas assim. Não adianta querer falar que não, sempre dá aquele gela quando você está pra atravessar a fronteira.
Tranquilo, todas as outras vezes que eu havia passado tinham sido de boa, sempre tava com todos os documentos, sempre tinha a passagem de saída com a data marcada no bolso, enfim, não havia como eles encresparem comigo, afinal, tava com toda documentação certa comigo. Era só ficar de boa e responder as perguntas. E assim foi, aquele tranqüilidade pra passar a fronteira na Áustria (link do post aqui), mais de boa ainda pra passar na Eslovênia(link do post aqui), Suíça tiveram algumas perguntas (link do post aqui). Tudo certo. Não havia com que preocupar.
Só quando estava no avião voando de Zurique para Barcelona, na maior tranqüilidade, que eu fui lembrar. “Êpa! Mas peraí! A Suíça… A Suíça não FAZ PARTE da União Européia. A Suíça não faz parte do acordo de livre tráfego de pessoas na Europa. Isso quer dizer que… que… CARACA, eu vou passar por UMA FRONTEIRA EUROPÉIA e não me preparei em NADA! E pior, vou passar pela mais famosa moedora de carne imigrante brasileira, a temida ESPANHA! EMBRIÃO da crise dos imigrantes!”. Calma! Não era preciso pânico! Era só lembrar o que eu tinha comigo na minha bagagem de mão!
Vamos lá! “Don´t be Panic”, já dizia o Guia do Mochileiro das Galáxias! Era só lembrar o que eu tinha e apresentar lá na hora. Nem ia dar nada, pô! Era só uma semana e meia na Europa mesmo! Vamos lá! Passagem de volta pro Brasil? Er… Não tinha. Seguro saúde? Vencido! Comprovante de renda? O que? Dinheiro no bolso? Uns 20 euros! Carta convite? Servia o endereço do meu couch impresso? Tava arrumado? Não parecia um imigrante ilegal? Bem, eu tava de cabelo grande, barba, bermuda e camisa. Se você olhasse pra mim jurava que o Manu Chao tinha se inspirado em minha pessoa pra poder compor a música “Clandestino”!
Cara, eu tava realmente ferrado! Eu não tinha PORRA NENHUMA que pudesse me ajudar caso o cara do posto de imigração quisesse encrespar comigo! Mas NADA mesmo! Sequer a passagem de volta comigo! E tava atravessando o posto de fronteira que TODO MUNDO falava que era pra ter o maior cuidado possível, PIOR, por Barcelona, que junto com Madrid são os dois piores pesadelos de brasileiros! Cara, eu tava realmente encrencado. Enfim, agora não tinha mais jeito. As poucas coisas que eu poderia demonstrar que só ia a turismo a Barcelona estavam na minha mala dentro do avião e eu não teria acesso. O negócio agora era, no melhor estilo Marta Suplicy, relaxar e gozar.
O avião pousou! Tensão! Me senti como um boi entrando no lugar do abate! Passou o primeiro, passou o segundo, passou o terceiro. Minha vez. Comecei a já imaginar eles me levando pra salinha, me descendo o cacete e depois me mandando de volta pra casa. Eles quebrando meus ossos só por diversão. Cheguei, olhei para o guardinha ele pra mim e começou a falar:
– Buenas tardes, amigo! O que quieres aka en Barcelona? (ou qualquer coisa parecida em Espanhol, que eu não sei falar!)
Olhei pra ele. Pombas! Não sei falar espanhol! NUNCA que eu conseguiria levar uma entrevista em outra língua que não fosse inglês ou português. Entrevista de fronteira é coisa séria! Imagina o cara te pergunta uma coisa, tu respondes achando que estais falando algo e estais dizendo outra coisa totalmente diferente? Não tive dúvida, comecei a falar em inglês!
– Então, amigo, eu sou brasileiro, como podes ver no meu passaporte. Consigo até entender espanhol e tenho certeza que se eu falasse em português claro e devagar, você compreenderia também. Mas sabe o que é? Eu prefiro falar em inglês, pois tenho medo de eu entender algo errado ou você entender algo de errado comigo e isso dar problema. Portanto, se possível, gostaria que a entrevista fosse em Português.
E ele? O que respondeu? Sabe aquela carinha de “não tou entendendo porra nenhuma”? Mas foi essa mesma que ele fez pra mim! Ficou me olhando pra mim com aquela cara de sonso e tentando me entender. Ele olhou pro cara do lado, falou em espanhol com ele. Falou algo em espanhol pra mim, carimbou meu passaporte e me mandou seguir. Nada mais! Sim, isso mesmo que você entendeu! O cara NÃO FALAVA INGLÊS! Sim, o guarda do posto de imigração não falava inglês e, portanto, não fez entrevista nenhuma comigo! Só me mandou seguir! Eu juro que não entendi nada quando isso ocorreu! Achei que ele tinha mandando eu seguir, que eu seria dirigido a uma salinha, lá ia ter alguém que falava inglês e aí sim eu seria entrevistado! Nada! Quando eu menos me espanto, já tava no meio do saguão do aeroporto caminhando livre como um passarinho! Até saí de dentro do saguão e fui pra área pra pegar táxi, só pra confirmar que não tava na área internacional! Cara, você consegue compreender o grau disso? Bicho, em todo minha viagem não teve aeroporto ALGUM que o responsável não falava inglês, fosse o Nepal, fosse a Turquia. Agora na Espanha, no Aeroporto Internacional de Barcelona, um dos mais movimentados da Europa, o cabra não sabia falar inglês! Imagina se eu fosse fazer besteira? Ele não ia neeemmm desconfiar! Os únicos lugares que me deparei com guardinhas que só falavam a língua local foram em países árabes e ainda assim quando atravessava por terra, NUNCA em aeroportos!
Ronaldo fazendo propaganda de… cabelo? Qual é a próxima? Ronaldinho Gaúcho fazendo propaganda de pasta de dente?
Sim, mas era isso mesmo! Eu tava na Espanha, atravessando a fronteira sem passagem, sem dinheiro, sem reserva de hotel, sem seguro-saúde, sem PORRA nenhuma, demonstrando que todo esse terrorismo que a imprensa sempre fez com passagem de fronteira na Europa é uma grande babaquice!
Antes de ir pegar meu busão para o meu couch, ainda tive que discutir com a menininha do câmbio do aeroporto que não queria trocar minhas cédulas de moeda da Eslováquia. A menina teimava porque teimava que a Eslováquia era Euro e, portanto, ela não podia aceitar e tentando explicar pra topeira que na Eslováquia ainda não era Euro, ela tava confundindo era com Eslovênia! Hahahah… Acabou que a única dor-de-cabeça que tive no aeroporto de Barcelona foi só aturar essas duas topeiras de guichê: a mina do câmbio e o imbecil do posto de controle.
De todos os postos de imigração que tive que passar, tirando Israel (aquilo não era um posto de imigração, era um bunker!), o que eu tive mais trabalho pra poder atravessar foi o da Suíça. Apesar de todo terrorismo que vemos na imprensa sobre imigração, o trabalho que a Suíça me deu foi só que, antes de entrar, o guardinha me perguntou pra onde eu ia, de onde eu vinha e o que iria fazer na Suíça, onde eu iria ficar e quanto tempo iria passar. Respondida todas as perguntas, eles carimbaram o meu passaporte e SÓ! Estava livre como um passarinho, saltitando e paparilando pelos corredores do aeroporto. Sim, cara, esse foi o maior trabalho que tive pra poder passar em fronteiras, pq todas as outras eles simplesmente perguntavam meu nome e depois carimbavam o passaporte.
Uma coisa interessante foi que, imagina, tinha acabado de pegar um voo do Egito, um país pobre, direto pra Suíça, um dos países mais ricos do mundo. Será se tem gente que planeja fugir de lá pra poder morar na Suíça? Pois é, os suíços pensam a mesma coisa. Cara, mas foi a gente PISAR fora do avião para três guardinhas de fronteiras saírem abordando geral e perguntando pra onde iam e o que iriam fazer em Zurique. Logicamente, eles abordavam quem tivesse traços árabes e, caso achassem necessário, encaminhavam os árabes para a salinha. Sim, isso mesmo, os árabes eram entrevistados por pelo menos dois guardinhas diferentes antes de poderem entrar na Suíça.
Confesso que sinto um pouco de dificuldade em escrever sobre Zurique. Não que me falte palavras para descrever o lugar (como Petra ou a Tailândia), me falta mesmo é o que escrever. Zurique pra mim não tem nada pra ver, nada que justifique uma viagem pra lá. Assim, se você gosta de querer tirar onda de chique, tomar um chá de alguma coisa em algum lugar bonitinho e depois sair tirando onda quando chegar no Brasil que foi a Zurrique (sim, com o sotaque francês mesmo) lá é uma boa pedida. Tirando isso não há nada demais. Não há elefantes caminhando pelas ruas, não há pirâmides no meio do deserto, uma praia muito legal pra você surfar, nenhuma construção arquitetônica em que você olhe e pense “uau, como eles foram capaz de fazer isso há centenas de anos atrás?”. Nada disso, Zurique é apenas mais uma cidade européia: arrumadinha, limpa, cara, com um bando de gente mal-humorada e de cara fechada andando nas ruas. A cidade parece uma casa de boneca, é verdade, mas está longe de ser uma Praga ou uma Budapeste. Trocando em miúdos, é apenas um bom lugar pra você fazer uma escala do seu voo e foi por causa disso que eu fui pra lá, só porque precisava descer em algum lugar saindo de Cairo (que vale MIL VEZES mais).
Ah, a língua alemã. Sempre tão bela e tão delicada! É só ler o nome das estações aí e lembrar qual é a que você vai pra sua casa…
Apesar de tudo, Zurique não foi de tão ruim assim. Pelo menos boas coisas ocorreram por lá. Primeiro que a minha host foi MUITO legal. O nome dela era Yaga e ela tinha acabado de entrar no couchsurfing, eu fui o seu primeiro guest. Ela era muito doce. Foi muito legal os tempos que passamos juntos e até hoje mantemos contato no MSN. Uma coisa engraçada que aconteceu foi que eu não tinha checado direito como tava a temperatura em Zurique antes de ir pra lá. Enquanto em Cairo tava fazendo um calor de 30ºC, em Zurique tava fazendo entre 0º e -5º. Meu amigo! Pense num menino que tremia de frio quando chegou? Cara, eu não tinha mais nada pra se proteger do frio! Cachecol, luva, meia grossa, gorro, nada! Só tinha os casacões mesmo! Resultado? Tive que pegar tudo emprestado com minha host. Só que ela só tinha tudo rosa! Fiquei lá, no primeiro dia, andando todo de rosa até que pude comprar tudo que precisava e poder sair na rua de boa. Tenho certeza que quem passava na rua olhava pra mim, TODO COLORIDO, e pensava “tinha que ser latino mesmo!”.
Segundo que foi em Zurique a primeira e única vez na minha vida que pude presenciar neve ou ver um dia nevando. De início eu estava planejando ficar lá apenas duas noites (mais do que suficiente), mas depois acabei postergando a minha passagem por mais duas noites porque a previsão do tempo dizia que só iria nevar três dias após a minha chegada (desde que eu havia chegado só chovia o dia inteiro). Fiquei numa sinuca de bico, pois tinha sete dias pra ficar em Barcelona e acabei ficando só cinco pra poder ficar mais dois em Zurique e enfim ver neve que, graças a Deus, ocorreu.
Nada como um dia ensolarado pra bater uma foto maravilhosa! Gente, detalhe, aquilo na frente é um lago, viu?
Teve também um Free Hugs que foi bem legal, conheci uma romena super gente boa e foi bem da hora sair abraçando aquele povo sisudo pelas ruas. Cara, apesar de eles parecem mal-humorados, era só a gente oferecer um abraço grátis que eles abriam um sorrisão.
Meu primeiro bonequinho de neve! Tá, não foi aquele bonecãããão, mas tá valendo, não?
Tá nevando!!!
A imagem que ficou pra mim de Zurique foi de uma cidade muito rica, onde tudo funciona e tudo é bem arrumadinho. Mas se eu voltaria pra lá novamente a turismo? Só se fosse só pra fazer outra escala…
Como havia falado, de início, a Jordânia não estava nos meus planos pra ser visitada. Pra mim parecia um lugar muito distante e inóspito pra ser alcançado. Eu até pensava em ir a Amã, capital, mas estava lá embaixo na minha escala de prioridades. Tudo mudou depois que as pessoas começaram a me falar de Petra.
Se liga na riqueza de detalhes esculpidas na coluna
Enfim, eu acho meio difícil expressar em palavras o que é realmente andar por entre aquelas muralhas naturais de Petra. Em ter a sensação de estar no meio do de um deserto e do nada um dos mais extraordinários trabalhos humanos surgindo diante dos seus olhos.Pra quem não sabe o que é Petra. Lá é um dos lugares mais impressionantes já construídos pelo o homem. Petra significa “rocha” em grego e é isso mesmo que ela é: uma cidade incrustada nas rochas. Deixe-me ser mais claro. O povo Nabateu, uma tribo árabe, ao chegar ao local, encontraram uma região repleta de rochas, cânions e gargantas por todos os lados. Lá resolveram edificar a sua cidade e viver. Como o que não faltavam eram paredes de rochas e cavernas eles pensaram “Hum, porque não facilitar o trabalho?” e simplesmente começaram a esculpir as suas construções nas pedras. Não, eles não arrancavam a pedra, esculpiam e depois levantavam as edificações. Eles simplesmente iam nas paredes de pedra e, literalmente, iam fazendo um buraco nelas. Cara, isso era muito louco! Durante centenas de anos a cidade prosperou como uma importante rota comercial chegando a ter uma população de quase 20 mil pessoas.Os Estados Unidos possuem duas atrações turísticas semelhantes e que são famosas no mundo inteiro: os rostos de quatro presidentes americanos esculpidos no Monte Rushmore e o Grand Canyon. Petra é quase que uma fusão dos dois, com a diferença que foi esculpida nas rochas há milênios sem a utilização de dinamites ou engenharia avançada, só de picaretas!
Grand Canyon e, abaixo, o Monte Rushmore
E da mesma maneira misteriosa que foi construída, Petra foi misteriosamente desocupada. As conclusões mais aceitas propõem que os habitantes da cidade simplesmente fugiram de lá depois que dois sucessivos terremotos destruíram quase que toda a cidade. Temendo que outros pudessem estar por vir e com a perda de importância da rota comercial que passava por lá, os habitantes remanescentes decidiram desocupar a cidade.
Após o abandono, Petra ficou esquecida durante centenas de anos. Durante todo esse tempo, o Ocidente imaginava que fosse uma lenda e que realmente nunca existira, mais ou menos como Atlântida ou a cidade de Tróia. Em 1812, porém, um explorador suíço “redescobriu” a cidade e hoje Petra é um dos principais pontos turísticos de todo o mundo. Ficou ainda mais famosa quando foi o cenário das aventuras do filme “Indiana Jones e a Última Cruzada”. Até novela da Globo já foi filmada lá.
Não tenho muitas histórias de Petra. Só passei um dia por lá e ainda assim fiquei só batendo fotos e passeando entre as ruínas. De qualquer maneira, faltaram presepadas, mas sobraram histórias e saudades de um dos lugares mais impressionantes desse planeta! Petra é SHOW!
Depois de Petra, a Helena voltou para a Palestina e eu resolvi atravessar por barco o Mar Vermelho pra assim chegar logo ao Egito e evitar todo o trabalho e rotina de entrevistas para passar pela fronteira de Israel. Entrei no Egito por mar. Era chegada a hora de se preparar para voltar para a Europa. Suíça!
Cara, se liga em um dos beduínos que trabalhavam por lá. Diz aí se ele não é IGUALZINHO o Jack Sparrow do filme “Piratas do Caribe”?
Estávamos andando no meio do deserto e olha o que achamos no meio do NADA. Esse simpático gatinho que todo mundo que passava, passava a mão na cabeça dele. Me lembrou um gato semelhante que achei em Istambul.
Alguém fez um comentário no post passado, acho que a Paulistana, com uma proposta que eu achei bem interessante. Ela pedia que eu desse a minha visão sobre o conflito entre Israel e Palestina. Cara, se posicionar sobre um tema tão delicado como esse é realmente muito complicado. Como falei, desde que o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo existem, eles estão lutando entre si, com um se aliando ao outro com o passar do tempo.
É complicado falar sobre a Questão Palestina por que, por mais que queiram nos fazer acreditar, esse conflito que está ocorrendo agora, logicamente, não se iniciou com a criação do estado de Israel. Só pra lembrar, as cruzadas nada mais foram do que a tentativa de se recuperar a Terra Santa das mãos dos infiéis muçulmanos que ocupavam Jerusalém há um bom tempo. Por nove vezes os cristãos guerrearam com os islâmicos, algumas vezes obtendo sucessos outras não.
Desde o começo do século e, principalmente, depois do Holocausto, milhões de judeus começaram a comprar terras e a migrar para a Palestina onde começaram a formar os seus kibutzi. Após a declaração de sua independência (o qual o Brasil foi um dos maiores entusiastas), Israel foi atacado por vários países árabes coligados e milagrosamente conseguiu derrotá-los. Com a justificativa que precisava de faixas de terras para se proteger dos próximos ataques, anexou diversas regiões de países vizinhos e no caminho ou expulsou (versão palestina) ou simplesmente assistiu os palestinos indo embora temendo por suas próprias vidas (versão de Israel). Esses palestinos acabaram indo se refugiar nos países vizinhos (Síria, Líbano, Jordânia…). Aí estava feita a panela do diabo.
Os judeus de Israel, por temerem se tornar uma minoria no seu próprio país, não aceitam que os palestinos voltem. Os países árabes não aceitam negociar enquanto os palestinos não puderem voltar para suas antigas moradas. E os pobres dos palestinos ficam sendo usados como massa de manobra por ambos os lados.
O cerne da questão é: – Afinal, a quem pertence as terras? Quem é o LEGÍTIMO dono? Essa resposta é muito difícil de ser respondida por que terras de países não são como o terreno de sua casa. Quando você vai comprar a sua casa, você vai lá, conversa com o antigo morador, ele lhe vende, o Estado lhe confere legitimidade e a casa é sua. Ninguém pode vir, dizer que morava lá há quarenta anos atrás e lhe expulsar de onde você está se você fez tudo de maneira legal, afinal, como falei, há o Estado para lhe garantir a legitimidade. O problema é que com países as coisas não são tão simples…
Num pensamento simplista, poderíamos dizer que os judeus “invadiram” o lugar onde hoje é Israel e expulsaram os Palestinos que lá estavam. Portanto eles “roubaram” as terras e casas dos árabes. Mas quando os árabes lá chegaram, não havia ninguém? Pelo contrário, os árabes também expulsaram os antigos detentores de Jerusalém (se não me engano os bizantinos) e ocuparam a terra por lá ficando. Então, eles também expulsaram alguém pra poder se alojar por lá. Além de que, se você pegar lá atrás na história, vai ver que os judeus são provenientes dessa região (guiados até lá por ninguém menos que Moisés) e foram expulsos pelos romanos há dois mil anos atrás da terra que eles acreditam lhe ser prometida por Deus. Por isso que você ao conversar com um ultra-ortodoxo ele vai argumentar que os judeus estão apenas voltando pra casa, ainda que 2000 anos depois. Você pode falar sobre essa história toda durante horas, mas imagina que você foi expulso da sua casa, da sua cidade? Será se um dia você vai aceitar isso? O Hamas tá aí pra poder te dar a resposta!
Por isso que é muito complicado opinar sobre esse assunto, cara! Israel tem o direito de existir e realmente precisa se proteger dos seus vizinhos hostis (Israel nunca iniciou uma guerra contra um país vizinho, eles sempre foram ameaçados ou atacados primeiro. Se a resposta foi totalmente desproporcional, aí é outra história. Bom lembrar que um dos principais objetivos do Irã e do Hizbollah é empurrar todos os judeus para o mar), mas ao mesmo tempo em que se protege, trata os palestinos como gado. Os palestinos também têm o direito de terem um Estado independente, mas não aceitam o traçado que Israel está disposto a ceder. Como não tem como fazer frente ao poderio bélico de Israel, utilizam o terrorismo para poder atacar. Por isso que eu sempre digo que ambos os lados estão super certos e super errados ao mesmo tempo. Há muita gente querendo pouca terra e esse conflito, infelizmente, tende a se arrastar durante um bom tempo…
SAINDO DE ISRAEL
Depois de passar por altas aventuras com uma turminha do barulho, meu plano era seguir de volta para o Egito e pegar meu avião em direção à Suíça. Pra minha grata surpresa, Helena tinha planos diferentes. Ela e a mãe dela planejavam viajar para a Jordânia para visitar as ruínas de Petra, a cidade perdida, a cidade construída nas pedras da Jordânia.
Tinha ouvido um pouco sobre a história dessa verdadeira pérola do Oriente Médio, mas não tinha feito planos de ir para lá. Na verdade parecia até um pouco difícil de chegar, por isso eu meio que desanimei. Depois do convite da Helena e de descobrir que Petra foi eleita uma das sete maravilhas modernas, não pensei duas vezes e resolvi ir para lá com ela. Só não sabia que ia dar tanto trabalho.
Trabalho pra poder chegar lá? Não, amigo, trabalho pra SAIR de Israel. Raios! Eu querendo sair do país e os caras pareciam que não queriam deixar eu ir embora. Foi quase que a mesma dor-de-cabeça pra poder entrar. Entra aqui, é entrevistado aqui. Entra ali é entrevistado ali. E por aí vai! Cara, isso porque eu tava indo embora! Passei quase uma hora para atravessar uma faixa de terra de uns cem metros. O melhor não foi isso. O melhor foi que fizemos amizade com uma brasileira que estava por lá atravessando também. Essa brasileira nos presenteou com uma das cenas mais engraçadas/sem noção que pude ver em toda minha vida.
Estávamos nós quatro conversando enquanto os guardas checavam os nossos passaportes. Quando eu olho pro lado, tá lá a cena inimaginável! A gente já DENTRO da base militar, olha pro lado e tá a mulher com a câmera ligando e filmando tudo lá dentro! Pra quem não sabe o teor da maluquice que ela estava fazendo, basta lembrar o que aconteceu comigo quando eu fui bater uma foto na RODOVIÁRIA. Cara, sabe quando acontece aquela parada que você não tá nem um pouco esperando? Tipo, imagina que você está andando de boa na rua e um elefante rosa com bolinhas amarelas passa do seu lado fazendo malabarismos! Foi mais ou menos como eu me senti quando eu vi aquela mulher com a câmera ligada! Fiquei uns cinco segundos com aquela cara de “MAS QUE PORRA É ESSA?” olhando pra ela e tentando não acreditar! Fiquei tão confuso que na hora de falar “meu, desliga essa câmera”, errei até a língua e comecei a falar em inglês com ela. Depois que consertei a língua correta, falei pra ela desligar e ela, graças a Deus, desligou primeiro e foi me perguntar depois por quê. Felizmente o guardinha não viu o que ela tinha feito. Perguntei por que ela estava fazendo aquilo e a resposta foi o que coroou aquela noite: – Ah, mas a lua tava tão bonita, resolvi fazer uma filmagem dela! (!!!!!!!!). Nessa hora deu vontade de dar uma chacoalhada e gritar “AMIGA! ISSO AQUI É UMA BASE MILITAR DE UM DOS PAÍSES MAIS PARANÓICOS DO MUNDO! Espera a gente passar pro lado da Jordânia que lá, cem metros depois daqui, vai ter uma lua tão bonita quanto essa!!!!”. Mas fiquei de boa.
Tudo deu certo e escapulimos pro lado da Jordânia, mas não sem antes conversar em português com, pasmem, o último guardinha que checava nosso passaporte. Ele havia morado em São Paulo por um tempo e ainda lembrava algumas palavras em português. Cara gente boa demais. Foi uma das ÚNICAS pessoas simpáticas que pude conhecer em Israel, pra falar a verdade. Na saída de Israel ainda tive que pagar uns 40 dólares de “taxa de saída” (!!!). Pra entrar eu não paguei nada, mas pra sair tive que levar essa facada! Fiquei me perguntando se eles tavam fazendo aquilo comigo só pra eu nunca mais voltar. Se foi pra isso, cara, pode ter certeza, eles chegaram muito próximo disso. Só pra vocês terem um ideia, depois que saí da Jordânia, teoricamente deveria passar por terra por Israel em direção ao Egito. Para evitar toda essa dor de cabeça, preferi pegar um ferry boat da Jordânia, atravessando todo o Mar Vermelho e já descendo direto no Egito. Deus me livre passar por todos esses postos de fronteira novamente. Pode ter sido só um infeliz azar, mas, cara, Israel me entristeceu bastante.
(Pessoal, esse post vai vir meio cheio de figuras, mas é interessante por causa do contexto)
Ter a oportunidade de visitar o dueto Israel-Palestina foi uma das mais importantes e enriquecedoras experiências que minha viagem pôde proporcionar. Depois de passar por lá, visitar e poder conversar com palestinos e israelenses pude entender que o conflito entre muçulmanos, cristãos e judeus que ocorre lá há mais de 1000 anos é bem mais complexo e difícil de entender e resolver do que alguns analistas políticos de banheiro querem lhe fazer acreditar.
De início, achei que seria necessário pedir um couch pra poder ficar em Ramallah, mas logo no começo da viagem descobri que uma amiga estava servindo na representação diplomática brasileira na Palestina e ela me convidou pra poder ficar na casa dela. Bom demais.
Procure uma bandeira brasileira nessa foto na Palestina!
Cara, antes de eu efetivamente visitar a Palestina, eu tinha uma visão totalmente diferente de lá. Eu sempre achei que fosse um lugar paupérrimo e com todo mundo se matando pelas ruas. Uma sucursal do inferno mesmo. Mais ou menos como a foto abaixo.
Pô, mais dia menos dia eles estão sobre bombardeio intenso de Israel que vez ou outra corta a eletricidade, a água e as rotas de escoamento do país inteiro. Lá não podia ser tão rico! Mas apesar de tudo, quando cheguei por lá fiquei impressionado como as cidades parecem até bem arrumadinhas, não muito diferentes das cidades que temos aqui no Brasil. A economia de lá ainda parece sobreviver apesar de todos esses problemas. Não lembro de ver em lugar algum aquela pobreza abjeta, miserável, ou algo assim. Ramallah parecia uma grande cidade de classe média.
E não, cara, lá não há violência. Lá é MUITO calmo e as pessoas não estão cortando as gargantas de umas as outras nas ruas. Lá é apenas um lugar normal, com pessoas normais e ruas normais. Lá é inclusive BEM mais seguro que andar pelas ruas do Brasil.
Chegar a Ramallah, capital da Palestina, é muito fácil. Tem ônibus toda hora saindo de Jerusalém. Na verdade, pra ser mais exato, Ramallah fica a mais ou menos uns 30 km de Jerusalém, cidade (parte oriental) que era pra ser a capital do estado Palestino. Pegar esses busões de volta pra Ramallah eram interessantes porque eu sempre podia voltar conversando com os palestinos que todos os dias faziam esse trajeto de ida e volta pra ir trabalhar em Jerusalém e contavam como era a sua rotina de dia após dia ter que passar pela humilhação de serem revistados por recrutas israelenses de 16 anos de idade, isso quando os soldados não encasquetavam e seguravam a van durantes horas na fronteira levando a atrasos no trabalho.
Afim de tomar uma no Stars & Bucks Cafe?
Os palestinos em si eram bem amigáveis. Sempre dispostos a uma boa conversa e a te ajudar caso você precisasse de uma informação ou alguma foto, mais ou menos a experiência que tive quando estive em outros países árabes. Você conversando com eles, dá uma pena, cara! Eles relatando aquela vida de humilhação e indignação que sempre são obrigados a enfrentar. É como outro dia um palestino me falou em um busão na volta pra Ramallah:
– Eles falam em paz com a gente. Mas como você pode ter paz quando um lado em questão tem todas as armas e o poder e o outro é relegado a segundo plano? Tratado como sub-raça sem ao menos poder decidir o seu futuro?
Lá na Palestina “pegar um Mercedes pra ir pra casa” está longe de ser voltar de busão
Além de todos esses problemas, há o infame muro construído por Israel para supostamente protegê-los dos palestinos. O muro contorna toda Palestina e em alguns trechos tem oito metros de altura (bem, só pra vocês terem idéia, o Muro de Berlim tinha entre quatro e cinco metros). Construir um muro na fronteira pra lhe separar do vizinho não é algo, digamos, “novo”. Na verdade, até os EUA tem um muro desses na fronteira do México. Isso sempre ocorreu na história humana quando uma nação se sentiu ameaçada por uma vizinha, a Grande Muralha da China que o diga. Mas cara, o pior mesmo desse muro de Israel é que o bicho é MUITO maligno. Por quê? Bem, digamos que estamos falando de uma região onde as fronteiras não são claramente definidas. Bem pior que isso, a Palestina nem um país em si pode ser considerada. Então, você acha que Israel foi lá, sentou com os Palestinos, conversou com eles e aí construiu o muro? Claro que não! Israel foi lá e começou a subir o muro do jeito que eles bem entenderam, onde ELES imaginam que é a fronteira. Resultado? Os caras cortaram propriedades e oliveiras milenares no meio na Palestina e colocaram dentro de território israelense. Numa tacada dessas já levaram 12% do território da Cisjordânia (Palestina Oriental). Não é a toa que esse muro é conhecido como o Muro do Apartheid. Esse muro, lógico, é um dos maiores ódios que os Palestinos tem de Israel e é quase que todo pichado com palavras pedindo liberdade e justiça, além de várias pinturas e obras de arte.
O mapa da Palestina parece um rim, né?
Bandeira brasileira pintada ao lado de uma bandeira palestina no Muro. Foto da internet
Uma coisa que você aprende quando viaja pela Cisjordânia é que lá há uma unanimidade e ela se chama Yasser Arafat. Cara, não há uma esquina, uma rua, um prédio, qualquer lugar em que você não vire e olhe ao menos uma foto ou um cartaz do famoso engenheiro egípcio, parecia até a África do Sul. Apesar de extremamente fragmentada e muitas vezes lutando entre si, a resistência palestina respeita bastante Arafat. Em Ramallah, há o túmulo onde se encontra embalsamado o corpo de Arafat onde, lógico, eu fui visitar.
Não é só Arafat que é ídolo por lá não. Também há esse figura aí de cima. Sempre bom lembrar que Saddam Hussein foi um grande apoiador da causa palestina
Mas o que ocorreu de mais interessante e mais legal comigo enquanto estive na Palestina foi que tive a EXTREMA sorte de estar em Ramallah em um dia superimportante. Eu só não sabia qual. Aconteceu assim, estava eu, de boa, no meio da rua, caminhando e dando uma volta em Ramallah e DO NADA uma MULTIDÃO começou a passar do meu lado carregando algumas bandeiras e gritando palavras de ordem. Eu realmente não entendi o que estava havendo. Cara, imagina, se aqui no Brasil, quando você tá no meio na rua e um protesto passa do seu lado, já dá um pouco de medo de sair do controle e vir a polícia com o caminhão de Cream-Cracker e distribuir bolacha pra todo lado, imagina isso NA PALESTINA! Pois é, era melhor não gritar truco e pagar pra ver porque tinha grande probabilidade de ser um protesto contra Israel e eles virem descendo o cacete ou duas facções diferentes da resistência palestina resolverem se desentender e a porrada comer solta.
Olha o tamanhozinho do rifle dos policiais
Fiquei meio de lado, mas continuei batendo algumas fotos, meio que brincando de “correspondente internacional”. Tava de boa até que teve uma hora que, bem, teve uma hora que uma bandeirinha bem, digamos, “polêmica” começou a surgir no meio do protesto. Era uma bandeira meio amarelada… Cara, era a bandeira do Hizbollah! E bicho, aí eu já meio que comecei a entrar em pânico. Pra quem não sabe o que é o Hizbollah, é um dos partidos árabes mais radicais e reconhecido como uma organização terrorista por diversos países ocidentais. Uma de suas principais bandeiras é a de gentilmente empurrar todos os israelenses no mar. Protesto de organização terrorista? Hum, isso não podia acabar bem…
Mermão, nessa hora fiquei em pânico! Protesto do Hizbollah NUNCA termina bem! Os caras são tão malucos e fundamentalistas que se vissem o Bolsonaro falariam que ele é muito contido em suas palavras. Até em sair correndo eu pensei, mas depois fiquei imaginando os caras olhando um estrangeiro, com uma máquina digital na mão, saindo correndo no meio da multidão, com uma cara de filho da puta… Aí já viu, né? Iam achar que eu era espião e eu iria virar maranhense ao sugo. Saí de mansinho e fui pra longe da multidão.
Esqueça a ONU, o futebol ainda vai salvar o mundo
Depois de uns dias que eu fui descobrir que todo esse medo e precaução não serviram de nada. Depois que eu fui descobrir que aquilo não era um protesto coisíssima nenhuma, aquilo era apenas os palestinos saindo às ruas pra poder lembrar o aniversário de Arafat e demonstrar o orgulho de terem nascido naquele lugar. Por último, as bandeiras amarelas que eles estavam carregando não eram do Hizbollah, mas sim do Fatah, o partido de Arafat. Mas pombas, olha só a semelhança das bandeiras:
Agora parece engraçado, mas queria ver os machões que tão rindo aí no meio de uma parada dessas como é que iriam se comportar.
BELÉM, ESSA SIM, A CIDADE QUE JESUS NASCEU
Além de Ramallah, na Palestina fui também a Belém, cidade que, ok todo mundo sabe, foi onde Jesus nasceu (apesar de ter crescido em Nazaré). A cidade em si tem o mesmo “problema” que Jerusalém. Há muita preocupação em criar vários lugares sagrados (lugar onde Maria amamentou Jesus, lugar onde Jesus rezou…) e pouca preocupação com os fatos históricos. Entendo que é muito importante um lugar como esse para quem é cristão praticante, mas eu sou mais interessado na História do lugar mesmo.
Mas apesar disso, vale o passeio por lá. Belém é uma cidade com mais de quatro mil anos e tem aquele charme de cidade sendo que medieval com suas casas de pedras e suas ruas minúsculas.
Não sabia da existência de Massada e tampouco estava entre os meus planos visitar essa fortaleza encravada no meio do deserto, próximo ao Mar Morto. Depois que li mais um pouco sobre e descobri que Massada era um dos locais mais importantes para Israel e para os judeus, ficava cada dia mais ansioso pra poder visitá-la.
Bem, deixe-me explicar. Durante a destruição de Jerusalém levada a cabo por Tito em aproximadamente 70 d.C., os judeus continuaram lutando e se revoltando contra o Império Romano. Eles foram sendo caçados um a um. Fugindo dos romanos, procurando um local que pudesse servir de abrigo e aproveitando-se da distração dos romanos, os judeus tomaram um palácio do rei Herodes e fizeram dele a sua muralha. O palácio era situado em um morro que se eleva a 500 metros de altura no meio do deserto. Quando eles tomaram o local, viram que estavam de posse de várias toneladas de alimentos e litros de águas estocados pelos romanos para caso ocorresse um cerco ao palácio, além de um bom estoque de armas e chumbo para produção de mais armas, caso fosse necessário. Trocando em miúdos, os romanos quase que construíram um local perfeito para servir de abrigo para os judeus.
Em 73 d.C o local estava sendo habitado por aproximadamente 960 judeus, entre homens, mulheres e crianças. Por dois anos Massada, devido a sua natureza inexpugnável, já resistia às investidas das legiões romanas, se tornando o último foco de resistência judaica. Depois de um bom tempo vendo que não tinham o que fazer, que tentar chegar ao topo subindo pelas trilhas era praticamente impossível devido aos projéteis que os judeus lançavam, os romanos resolveram apelar de vez. Trouxeram uma pancada de engenheiros de Roma e danaram-se a construir máquinas de cerco e uma rampa para que fosse possível jogar lá dentro milhares e milhares de soldados romanos para massacrar qualquer coisa que se mexesse em Massada.
Trilhas que levam a Massada
Os judeus lá de cima ficaram acompanhando cada passo dos romanos e se defendendo da maneira mais desesperada que fosse possível. Quando todo o maquinário para invasão de Massada encontrava-se construído e pronto para ser utilizado, os romanos decidiram esperar o amanhecer para poder atacar.
Por lá havia meio que um viveiro para corvos e pombas. Pra que eles mantinham isso? Porque gostavam de passarinhos? Não, amigo! Porque aves forneciam carne e adubo! É! O negócio de lá era bruto!
No outro dia quando os romanos enfim conseguiram subir e chegaram ao topo, eles estranharam que Massada estava em total silêncio, aquilo que no Maranhão chamamos de “silêncio de cemitério”. Na verdade estava assim porque, veja você, ali estava um imenso cemitério! Os 960 judeus, vendo que não tinham chances mínimas de se opor a uma legião romana dentro do complexo, se suicidaram um a um, preferindo morrer a se entregar aos romanos. Fiquei curioso acerca dessa história e inclusive perguntei a minha amiga Ariel Sharon porque eles fizeram aquilo, já que o suicídio é um grande tabu para os judeus (suicídio é considerado uma morte desonrosa para os judeus. O suicida é enterrado longe dos corpos dos outros judeus, próximo ao muro e de costas para as outras sepulturas). Ela me explicou que, segundo a tradição judaica, há algumas hipóteses em que o suicídio é aceito:
1 – Se estiverem lhe obrigando a praticar incesto;
2 – Se alguém estiver lhe forçando a matar outra pessoa sob risco de matar você se não obedecer;
3 – Se alguém estiver lhe obrigando a deixar de ser judeu ou querendo lhe escravizar até que você aceite deixar de ser judeu.
Como a hipótese 3 cabia perfeitamente no caso ilustrado o suicídio desses judeus não foi considerado uma desonra, pelo contrário, foi considerado um ato heróico. Ainda assim, para evitar o “suicídio honroso” de todos, dez homens foram sorteados para passar a fio da espada todos os outros judeus. Quando eles mataram todo mundo, sortearam um judeu que foi responsável por matar os outros nove. No final, esse foi o único que realmente se suicidou. Massada assim ficou como o grande simbolismo, o último foco de resistência judaica contra o Império Romano e que ainda assim preferiu se matar a viver sobre domínio de outro.
Ainda hoje, toda turma de jovens recrutas das Forças Armadas israelitas, ao se formarem, vão a Massada para prestar um juramento e gritar “Massada não cairá nunca mais”. Tudo bem, não vou entrar no mérito disso tudo. Mas depois fiquei me perguntando, se já iam se matar mesmo, porque eles simplesmente não se jogaram lá embaixo? Imagina a carnificina que não foi você cortar as gargantas de 960 pessoas? Que morte traumática da porra você ter que matar seus filhos, seus pais, seus amigos etc.? Ainda que pular lá de cima ia ser uma morte muito mais emocionante! Ainda assim, a minha amiga Ariel Sharon conseguiu explicar. Ela disse que isso ocorreu porque os judeus ao se matarem lá em cima ainda dariam trabalho para os romanos terem que subir tudo aquilo para irem buscá-los, além de que morreriam mais pertos de Deus. Pode parecer pouca coisa, mas imagina o dispêndio de recursos e tempo que não foi para os romanos ter que deslocar toda uma estrutura daquela pra lá em cima descobrirem que fizeram tanto serviço pra não lutar depois?
A visita foi bem legal e bem enriquecedora. A única hora engraçada foi quando eu já tava quase pra ir embora e, de repente, ouvi uma gritaria danada. Fui lá pra poder ver o que era e tentar entender o que estava acontecendo e quando vi eram uns clérigos gritando e chamando a segurança porque havia uma mochila aparentemente sem dono por lá! Rapaz, mas pense no auê que foi enquanto o dono dessa mochila não apareceu? Ainda pegou uns gritos quando foi buscar, haehhaehae. Pobre coitado! Mas é assim mesmo, cara! País que vive sobre intenso medo de atentado terrorista fica desse jeito! Lembrou-me de um ocorrido com minha bolsa em Mumbai.
Maquete de como era Massada
Outra parada que descobri sobre Massada e que foi relativamente engraçada também é que, pô, é um dos principais pontos turísticos de Israel, né? Você vai pra lá e imagina que lá tem uma infra-estrutura GIGANTESCA com Mc Donald´s, roda gigante, parque aquático, o que for! Não, fi! Tem não! Não tem NADA! Não tou falando de Mac Donald´s e coisas afim, tou falando é que não tem sequer um CAIXA ELETRÔNICO por lá! Mermão, tive que ficar o dia INTEIRO sem comer NADA porque a lanchonete de lá não aceitava cartão e nem tinha como sacar. Só pra você ter uma ideia, pra eu conseguir dinheiro pra poder pagar a volta de ônibus, eu tive que ficar na fila conversando com um por um e perguntando se alguém ia pagar a entrada em dinheiro, pra poder pedir pra me dar o dinheiro e eu passar no cartão, já que o busão também era só no dinheiro! Pra mim foi de boa, só tive que ficar com fome o dia inteiro. Pior foi um brother meu que comprou uma passagem de Jerusalém pra lá de noite, achando que Massada era uma cidade e quando chegou não tinha NADA! Teve que dormir no banheiro de uma casinha que o vigia usava de guarita! E o pior que não deve ter sido o único que passou por isso não! Esse vigia devia estar acostumado com uma galera chegando perdida por lá e pedindo pra poder dormir no banheiro dele. O hotel mais próximo de Massada custa uns 200 reais à noite, totalmente aquém do que um mochileiro pode pagar…
Hotelzinho baratinho do lado
Mar Morto
Uma outra vantagem que existe em ir a Massada é que ela fica muito próxima ao Mar Morto. Na verdade dá pra ir andando de lá até o Mar. Como cheguei cedo em Massada, decidi também dar uma passada no Mar Morto e visitar um dos mais famosos e estranhos espetáculos da natureza. Pra quem não sabe, o Mar Morto possui a maior concentração salina encontrada em um mar no mundo inteiro (30 gramas por 100 ml de água. Os oceanos possuem 3 gramas por 100 ml) e também a depressão mais baixa do planeta, com mais de 400 metros abaixo do nível do mar. Devido a sua concentração salina, nenhum ser vivo pode viver por lá e ocorrem dois fenômenos interessantes. Cara, lá você bóia! Não importa o que você vai fazer, se vai ficar de pé, tentar mergulhar, o que for, você VAI BOIAR! É impressionante, a água mais parece uma geléia de tanto sal que tem nela! A sensação é exatamente essa mesmo! De estar nadando em um grande pote de geléia. São famosas as fotos de pessoas boiando no Mar Morto e lendo jornal ao mesmo tempo. Acredite, dá pra fazer isso sem esforço e sem molhar o jornal!
Todo mundo tem que ter uma foto dessas, rapaz
Outra é que, não importa o quanto pareça que você está bem, ao entrar no Mar Morto, você vai descobrir TODOS os arranhões que existem em sua pele! Sim, aquele arranhãozinho MINÚSCULO! Aquela cutícula de unha que você arrancou muito forte, vai arder MUITO quando o sal começar a comê-la! Por essas e outras que nadar no Mar Morto é uma experiência inicialmente dolorosa! Mas depois fica de boa!
Cara, vou te dizer, É MUITO LOUCO! É MUITO legal, MESMO! Nadar por lá!
Existem umas “praias” que as pessoas fazem (na maioria kibutzs) na beira do lago onde é possível usufruir de toda uma infraestrutura com chuveiros, mesinhas para churrasco, lanchonetes e coisas afins. Eu, LÓGICO, não tava muito a fim de pagar por toda essa frescura e nem tinha muito dinheiro pra isso. Mas só que você não pode simplesmente ir lá no Mar Morto, tomar um banho, ficar de boa e depois ir pegar um busão? Por quê? Bem, cara, se um dia na praia sem uma chuveirada de água doce depois já te deixa meio ardido, assado e queimado por causa do sal da praia, multiplique isso POR DEZ e você começará a ter uma noção do que é o Mar Morto. Sim, se você vai lá no Mar Morto, dá um mergulho e depois vai embora, você pode ter sérias queimaduras na sua pele no decorrer do dia!
Por isso precisava de um plano. Tive que começar a confabular. Meu plano então foi o seguinte. Quando ainda estava na lanchonete de Massada esperando a hora do meu elevador pra subir, comecei a observar o lixo de lá. De repente, tive uma ideia. Havia várias garrafas de refrigerantes vazias por lá. E se, e se eu pegasse essas garrafas, fosse ao banheiro, as enchesse com água da torneira e depois corresse pro Mar Morto? Rapaz, mas eu era um gênio! Comecei a pensar quantas garrafas pegaria, mas antes fui trocar uma ideia com o atendente de uma das barraquinhas e perguntar pra ele qual seria a efetividade do meu plano genial. Ele, óbvio, me chamou só de burro e falou que, além de colocar minha pele em risco, ainda podia ter problemas com a polícia de fronteira se fizesse isso, afinal, o Mar Morto fica na fronteira de Israel com a Jordânia e um maluco nadando sozinho no Mar Morto é tudo o que eles mais querem pra poder brincar de tiro ao alvo. Falou que não valia a pena fazer isso pra poder economizar míseros cinco dólares de entrada mais três dólares de busão pra se chegar de Massada até lá. Ãhn? Sim, o meu livro-guia não dizia, mas lá de Massada tinha um busão que levava direto a uma “praia” do Mar Morto e lá eu pagaria essa mixaria pra poder ter acesso a chuveiros de água doce! Simples assim… Droga, meu plano parecia tão bem mais inteligente! Ainda por cima, ia gerar história de blog! Mas enfim, a prudência falou mais alto!
Peguei o busão e segui para a prainha. Cara, lá apesar do que eu estava imaginando, parecia uma praia mesmo! A água era limpíssima e cristalina. Realmente era um lugar bem agradável pra poder se passar uma tarde. Corri, pulei na água e já comecei a ter aquela sensação de alguém esfregando limão em uma ferida aberta no seu braço! Ah, meu amigo, mas ardia, viu? Se bem que depois de uns dez minutos acabei acostumando e fiquei pra curtir a paisagem! Cara, o Mar Morto é muito legal!