Comentários comentados

1 – Bruno Bononi comentou:

Pergunta meio óbvia (ok, pergunta TOTALMENTE óbvia e desnecessária), mas mandarei só pelo humor:

Não rolava o esquema carona amigo que você usou lá na Polônia/Leste Europeu?

Tipo, dispensava o turco mala e usasse a minazinha eslovaca como chamariz, ia angariando caronas até Istambul.

^^

Qualquer diferença sócio-cultural entre Polonia e a região fronteiriça entre Síria e Turquia é desprezível no exemplo.

hehehehehe

Abraços fi

R – Rapaz, se eu tivesse uma eslovaca como chafariz, acho que a última das minhas intenções seria descer com ela pra Istambul, não acha? Acho que eu iria procurar era ficar logo com ela lá pela Europa Oriental mesmo, hehehe. Além do mais, é complicado pra quem possui passaporte brasileiro ir da Europa Oriental para Istambul de carona. Os países no caminho não mais pertencem à União Européia e por isso precisaria de vistos para alguns lugares. Por isso foi mais fácil fazer isso de avião mesmo 😛

2 – Anônimo comentou no post “Eslovênia”:

Essa viagem parece o livro Mil e uma noites… não acaba nunca, rs!

R – Rapaz, e se eu te falar que provavelmente agora que chegamos na metade dos posts, você acredita?

3 – Janine comentou no post: “Procurando lugar pra ficar em Beirute…“:

oi
Já faz algum tempo que eu acompanho o blog, mas não tinha postado. Só que dessa vez não dava para deixar passar. É que eu acho que conheço o cara que vc conversou no bar. Qndo eu estava no colégio, tinha um cara que dirigia a oficina de jornalismo que eu participava. Ele tinha descendência libanesa, tava fazendo jornalismo na época e agora ele era correspondente da BBc no Líbano. Ah o nome dele era Tariq Saleh. Será que é o mesmo?…

R – Caraca, Janine, tu acreditas que é ele mesmo?? Coloquei o nome dele no google e acabei achando uma entrevista que ele concedeu e algumas fotos. Rapaz, é o bicho mesmo!! Coincidência, né?? Ta aí o nome do cara que eu falei no post sobre Beirute, galera. Acabei me encontrando com o grande “Tariq Saleh”, as fotos vão abaixo e o link da entrevista é esse aqui:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/ult76u351458.shtml.

O cara é tão chique que até verbete na wikipedia ele tem, se liga: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tariq_Saleh\

4 – Anônimo comentou no post “Problemas com tradução”:

MARANHÃO VC AINDA TÁ VIVO????????????

Jota09 perguntou no post “Problemas com tradução”:

Cara, faz tempo que acompanho seu blog e queria fazer uma pergunta. Estou planejando fazer uma viagem como a sua, só que menor. Meu roteiro é Indonésia, Malásia, Tailandia, Camboja, Vietnã, Laos, Burma e Índia. Desculpe pela pergunta indiscreta, mas quanto você gastou mais ou menos nestes países? Parabéns pelo seu blog e vê se para de sonhar com o kanguru e seja mais ”ativo”no seu blog.

Abraço

Anônimo comentou no post sobre Istambul:

Sem comentarios…

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

R – Cara, esses dias realmente eu andei vacilando com vocês. Esse último mês foi realmente bem complicado. Teve uma vez que eu deixei um intervalo entre os posts de quase uma semana e meia e outro de mais de uma semana. Bem, eu não sei se isso pode resolver alguma coisa, mas o fato é que eu tenho que pedir desculpas. Esses últimos dias foram um tanto quanto complicados aqui. Estava estudando forte pra um concurso do Ministério do Planejamento e não obtive êxito. Depois que saiu o resultado eu realmente fiquei bem chateado e passei alguns dias sem querer fazer nada. Só ficava em casa deitado, vendo TV, dormindo e coisas assim. Fiquei bem abatido e não estava muito a fim de fazer nada. Depois de um tempo assim, que ocorreram ao mesmo tempo dos atrasos nos posts, que eu fui reparando que se continuasse dessa maneira o máximo que eu conseguiria era entrar em depressão ou ficar mais gordo do que estava. Por isso esses dias eu resolvi dar uma guinada, voltei a estudar, entrei numa academia e logo, logo, voltarei a trabalhar, estou apenas esperando ser chamado em um outro concurso que passei dentro das vagas, mas que paga 1/3 do concurso que eu estou estudando. Enfim, percebi que pior do que fazer coisa pra cacete, é ficar sem fazer nada. Ficar sem fazer nada só me deixava MUITO pior. Vou tentar postar pelo menos duas vezes por semana, palavra de escoteiro.

Além do problema do concurso o que me abateu também foi que por um tempo parecia que ninguém mais tava lendo aqui. Até a galera que costumava comentar por aqui, o Bruno, a Maricotinha, a Paulistana etc. não estavam deixando mais nada de comentários. Aí foi que eu fiquei puto mesmo. Falei pra mim mesmo que se ninguém comentasse nada, eu também não ia escrever 😉 Pode parecer frescura, mas ficar escrevendo com a sensação de que ninguém está lendo é um saco. Se for pra ser assim eu vou escrever é um diário ;P

Enfim, entre mortos e feridos, peço desculpas pela demora e vou tentar não atrasar mais…

Eslovênia

Cara, a Eslovênia foi meio que um “acidente de percurso” na minha viagem. Nunca tive desejo em conhecer esse lugar e nunca havia lido nada de interessante sobre. Como eu fui para lá? Bem, quando eu estava desenhando, ainda no Brasil, como seria minha viagem de volta ao mundo, chegou uma hora que tudo havia se fechado: O traçado dava uma volta por cima do Atlântico e uma por cima do Pacífico, eu iria viajar 23800 milhas (portanto 200 milhas a menos que o limite de 24000) e estava passando por quatro continentes. Basicamente tudo da maneira que eu havia planejado. O único problema que ocorria comigo é que eu estava com 14 paradas, quando o máximo permitido eram 15. Pô, tinha dado um trabalho GIGANTESCO fazer um traçado respeitando o limite de 24000 milhas e que passasse pelos lugares que eu queria, eu REALMENTE não iria mudar tuuudoooo de novo só por causa de uma parada a mais. Ia dar MUITO trabalho fazer isso. Mas acontece que quando eu estava desenhando o trajeto, eu vi que seria possível sair de Istambul e pousar numa cidade de nome impronunciável: Ljubljana (leia Lubliana)! Eu lá sabia onde diabos ficava e que diabos era essa cidade, rapaz? Eu NUNCA havia ouvido falar dessa cidade, tampouco que ela poderia ser capital de algum país europeu. Acabou que depois de consultar o São Google descobri que ela era a capital de um pequeno país europeu chamado Eslovênia, fruto da esfacelada Iugoslávia. Resolvi colocá-la na calculadora de milhas da Staralliance e qual não foi a minha surpresa que, ao invés de fazer Istambul-Viena, eu poderia fazer Istambul- Ljubljana-Viena, ou seja, adicionar a última parada que faltava sem estourar o limite de milhas. Não era uma cidade que eu nutria QUALQUER interesse, mas no final acabou que era a pedra final do meu quebra-cabeça das quinze paradas ao redor do mundo e, além disso, seria uma ótima chance para visitar um país que um dia pertenceu a esfacelada Iugoslávia…

Bem, antes de começar a falar um pouco da Eslovênia e a explicar o que é esse pequeno país incrustado bem na Europa Central, cabe explicar o que foi a Iugoslávia, o berço da Eslovênia.

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Antiga Iugoslávia

Até 1991, quando acabou a Iugoslávia, a Eslovênia nunca tinha sido um país independente. Os eslovenos sempre pertenceram a um ou outro império da Europa. No começo eles fizeram parte do Império Romano e depois foram passando pra diversos impérios diferentes. Até que, depois da Segunda Guerra, foi criada a Iugoslávia, uma colcha de retalhos de vários grupos étnicos, religiões, povos, times de futebol… diferentes em um só país atendendo a interesses geopolíticos da União Soviética, que tentou manter o país sob sua influência na cortina de ferro, embora não tenha conseguido. Logicamente isso estava fadado a dar merda, mas inacreditavelmente durante décadas, o país e a região onde se situava, os Bálcãs (conhecido como o “barril de pólvora europeu”. Lembrem-se que o estopim que deflagrou a Primeira Guerra Mundial ocorreu lá com o assassinato de Franz Ferdinando) viveu em paz. Isso porque o país foi governado sob a mão-de-ferro de um ditador chamado Josip Broz Tito, ou apenas Tito, como era mais conhecido. Uma piada que circulava naquele tempo e sintetizava o governo de Tito era: “Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos e um partido”94bab-sdc11897.jpg

Por mais que ninguém acreditasse que fosse possível, Tito conseguiu impor uma relativa estabilidade na região através de um governo que aliava uma boa habilidade em governar com uma repressão violenta a manifestações nacionalistas dos diversos povos que por lá viviam. Tito, como todo bom comunista, impôs uma forte censura na imprensa, instalou o terror e coisas assim.

Logicamente, quando ele morreu, as coisas começaram a ficar mais feias. Brigas internas de sucessão e ressurgimentos de antigos anseios nacionalistas, que antes eram esmagados por Tito, foram gradativamente enfraquecendo o poder central da Iugoslávia. Até que veio o estopim para a deflagração da Guerra Civil, que muitos sabiam que estava para ocorrer. Com o fim da União Soviética em 1991, diversos países da antiga Iugoslávia começaram a clamar por independência. A Sérvia, que sempre foi o país que mais se beneficiou da Iugoslávia, logicamente não queria perder a sua boca e com os seus planos de estabelecer a “Grande Sérvia” começou a invadir países vizinhos. Antigos ressentimentos religiosos entre os países (na região que antes fora Iugoslávia, há países católicos, cristãos-ortodoxos e muçulmanos) também contribuíram para que o pau comesse de vez. E o resto da história vocês já devem saber. Pau comendo, guerra, massacres, genocídio e o maior conflito em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial. Hoje a antiga região da Iugoslávia abriga Sérvia, Croácia, Kosovo, Montenegro, Bósnia e Herzergovina, Eslovênia e Macedônia. Apesar de hoje esses países serem independentes, ainda existem algumas pequenas vilas de uma ou outra etnia em determinado território. Chega a ser engraçado como elas se comportam. Duas croatas que chegaram a ser hospedadas aqui em casa me contaram que na Croácia ainda é possível achar vilas onde TODO MUNDO é muçulmano ou TODO MUNDO é católico ou TODO MUNDO é cristão-ortodoxo e apesar de elas serem distantes uma das outras por alguns poucos quilômetros e possuírem apenas centenas ou até dezenas de pessoas, SE ODEIAM entre elas…

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Ljubljana pela manhã

A Eslovênia sempre foi uma das repúblicas mais desenvolvidas. Tem um alto índice de desenvolvimento humano e é a única entre as repúblicas que conseguiu os pré-requisitos para utilizar o Euro como moeda corrente. Possui uma população de aproximadamente oito milhões de pessoas (um pouco menos que o Distrito Federal) uma área mais ou menos do tamanho de Alagoas. Enfim, fiquei o post todo falando sobre a Iugoslávia, porque é bem mais interessante e não há muito do que se falar da Eslovênia, ehhehehe.

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Ljubljana pela noite

 

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De volta a Istambul

Apesar de achar que nada de mais aconteceria quando voltasse a Istambul, de achar que apenas iria ficar por duas noites na cidade esperando o dia do meu vôo, posteriormente percebi que eu estava enganado. Primeiro porque eu pude curtir Istambul sem estresse. Ao contrário de Damasco, de Beirute e das outras cidades que passei, nesta volta a Istambul eu não precisava ficar preocupado se o tempo era curto, preocupado que eu precisava voltar logo e, pior, como eu diabos eu iria fazer pra poder me deslocar, já que se deslocar pelo Oriente Médio sempre era dor-de-cabeça. Foram dois dias de absoluta paz e descanso na preparação para a volta à Europa que prometia ser bem hardcore.
Acordei no primeiro dia e, sem ter o que fazer, resolvi procurar um lugar onde pudesse acessar internet de maneira barata. Como não sabia pra onde ir, fiquei passeando pelo Estreito de Bósforo, pensando como diversas civilizações lutaram para ter domínio daquela região que hoje pertence aos turcos e que olhando assim não parecia nada demais.
Estreito de Bósforo

Também pude ver as pessoas que, que nem eu, pareciam não ter o que fazer, apenas ficavam pescando e curtindo aquele belo dia de sol em Istambul.
Só uma curiosidade acerca dessa curiosíssima foto de Salvador Dali. Ela não é montagem, ela é, desculpem o trocadilho, realmente real. Ela foi feita com a ajuda de, se não me engano, mais quatro pessoas. Uma atirou os dois gatos, a outra segurou a cadeira, a outra atirou o outro gato e a outra atirou o balde com água. Difícil acreditar, né?

E tava eu lá, andando de boa, quando vejo um cartaz com uma foto meio familiar. Um cidadão com os olhos perdidos, cara de maluco, mexendo no seu bigode… Rapaz, eu acho que eu conheço esse cara de algum lugar. Jogador do Flamengo? Não… Peraí… Aquele cara era… Era… Dali! Salvador Dali!!
Depois de um tempo que eu fui reparar que estava em frente a um centro de eventos e que lá estava ocorrendo uma exposição de quadros originais de Salvador Dali!! Caraca, doido!! Doido demais!! Corri lá pra dentro e qual não foi a minha surpresa a descobrir que ainda era de graça. Pronto, aí foi todo o meu primeiro dia em Istambul!! Acabei me perdendo pro aquelas dezenas de quadro, aquela loucura em telas do surrealismo!! Lendo etiqueta pro etiqueta, me deliciando com detalhe por detalhe que podia perceber em cada quadro. Foi sensacional!! Dentre os diversos quadros que pude ver estava o seu mais famoso, o do relógio com o tempo se desfazendo. Não sei se era o original, ou apenas uma réplica. Enfim, o fascínio ser o mesmo…
No outro dia, resolvi passar o dia inteiro dentro da Mesquita Azul (falei dela num post atrás, se não se lembra, favor clicar aqui). Por quê? Bem, cara, além de ser uma das maiores jóias arquitetônicas que pude presenciar em toda a minha viagem, a Mesquita Azul era uma das poucas atrações em Istambul que, pasmem, não cobrava entrada. Era de graça. Entre ficar dentro de casa escrevendo sobre os futuros posts do blog e ficar dentro da mesquita fazendo o mesmo, a única diferença seria a passagem de ônibus até lá. Resolvi descer para a mesquita.
Cheguei lá, coloquei minha mochila no carpete macio da mesquita, tirei o meu bloquinho de anotações, coloquei meu agasalho do Brasil em cima da minha mochila e comecei a escrever algumas coisas que eu não poderia esquecer de postar no blog. Depois de um tempo, um cara veio falar comigo, perguntando se eu era brasileiro. Falei que sim e logo ficamos amigos. O nome dele era Fabrício e ele trabalhava como técnico em alguma área relacionada a petróleo. Ficamos trocando uma idéia. O cara era muito engraçado…

Contos em Istambul

Conversa vai daqui, conversa vai dali e fomos nos apresentando um ao outro. Depois de um tempo eu falei pra ele que estava em uma viagem de volta ao mundo e que da Turquia estava voltando pra Europa. Ele me falou que também estava viajando bastante:
– Ah é? Massa e onde você esteve antes? França, Inglaterra, Espanha? – fui perguntando aquele roteirozinho besta que todo mundo faz e acaba não sabendo que há um mundo muito grande lá fora além de Europa Ocidental/Estados Unidos da América.
– Não, não, pra falar a verdade, são uns países um pouco mais exóticos.
– Ah tá. República Tcheca, Eslovênia, Bulgária??
– Não, não, pô! Eu trampo com petróleo. Eu primeiro fui para o Azerbaijão, depois Líbia e depois Cazaquistão.
Eita porra, e eu tirando onda achando que tinha viajado pra lugares malucos. O cara não sabe nem brincar, coloca logo Líbia e Cazaquistão na mesa. Mandou mal. Fui lá e perguntei como havia sido viajar para tais países e ele me falou que havia sido, no mínimo, exótico. A Líbia, segundo ele, não havia sido nada demais, a não ser o fato de que ele havia tido alguns problemas pra poder passar no posto de imigração do aeroporto, já que NINGUÉM falava inglês (qualquer semelhança com a Síria é mera bobagem…). Falou que só conseguiu atravessar a fronteira quando os caras conseguiram ler no passaporte dele que ele era do Brasil e ficaram gritando “Ronaldo” até a hora que o tradutor da empresa chegou no aeroporto e desenrolou tudo. Problema mesmo ele disse que havia tido era no Cazaquistão.
Problema por quê? Ah, cara, besteira. Como dizia o saudoso Tiririca Jr. (sim, eu também sei ser trash. Eu confesso, eu achava ele engraçado… “Ai Jurubira como é grande a emoção, toda vez que eu te vejo faz tum-tum meu coração…”) no programa do Gugu: No aeroporto ele foi bem recebido de todos os lados, foi tijolada de um lado, tijolada do outro. Cara, não foi tijolada em si, mas foi parecido com isso. Diz ele que ao estar caminhando pelo o aeroporto, procurando um telefone pra poder ligar para alguém da empresa ir lhe buscá-lo, um cazaque, começou a gritar e a correr na direção dele. Coisa comum, você vê todo dia, né? Desce do avião, num país TOTALMENTE estranho, NO MEIO DA ÁSIA e vem um maluco correndo pra cima de você. Só faltava estar montado num elefante rosa pra completar a cena surreal…
O que você faz numa situação dessas? Vendo um louco, correndo, NO CAZAQUISTÃO, apontando pra você e gritando? Isso, logicamente o que você pensou: Nada, você fica paralisado olhando o que aquele maluco vai tentar fazer. Diz ele que ficou olhando aquele pandemônio pra ver o que ele diabos queria. Quando o cara chegou, o agarrou pro braço e começou a apontar pro braço dele, mas precisamente para a sua pele. Fabrício é negro como vocês podem perceber nesta foto abaixo.
O cara diz que agarrou com força no braço dele e começou a gritar. Depois de um tempo ele foi perceber que o fato dele ser negro e de haver um negro no aeroporto, segundo ele, parecia irritar aquele cara. Diz ele que apenas se soltou do cara, saiu correndo, entrou no primeiro táxi que viu e seguiu pra uma lan house pra poder ligar no skype e ser “resgatado” por alguém da empresa. Diz ele que a vontade que dava era de rir, mas ele ficou com medo e depois foi se informar com os companheiros da empresa (a maioria italianos), o que diabo acontecia naquele país tão distante onde a única coisa que o mundo sabe é que eles produzem potássio e que o Borat é o segundo repórter mais importante de lá…
Os italianos falaram para ele tomar cuidado, pois aquilo parecia ser algo recorrente com negros que iam trabalhar no Cazaquistão, pois muitas pessoas no país não estavam acostumadas a ver pessoas de pele negra (vale lembrar que durante muito tempo o Cazaquistão foi um país MUITO fechado, pertencente à falecida União Soviética) e isso poderia lhe trazer problemas. Por via das dúvidas, ele evitava sair de casa para não ter problemas. Bicho, só um segundo aqui antes de eu começar a escrever. Cara, imagina a loucura que não é viver num país que nem esse… O bicho falou que ele só saía pra rua acompanhado dos italianos e não-raro algumas pessoas gritavam quando olhavam pra ele. Diz que teve até uma vez que ele estava andando no meio da rua e começou a chover pedra pra cima do grupo dele. Ele diz que já havia visto chuva de todo o jeito, mas de pedra era a primeira vez. Quando ele foi ver, era um cazaque jogando pedras neles e, logicamente, gritando!! Antes eu achava que o filme Borat trazia uma imagem muito negativa acerca do Cazaquistão, hoje eu penso é se eles não pegaram foi muito leve. E você aí preocupado com seqüestro relâmpago…
Diz ele que era pra ele ficar seis meses por lá, mas deu dois meses ele pediu pra sair. Diz que não tinha paz e não dava pra ficar vivendo daquele jeito. Os caras relutaram um pouco, mas acabaram transferindo ele de volta pro Rio de Janeiro. Tá louco, imagina ficar vivendo desse jeito?
Com essas histórias não me espantava que ele havia, digamos, não se adaptado ao Cazaquistão. Gente boa demais o moleque… Ele ainda me contou que preferia morar no Rio de Janeiro, apanhando de PM, do que morar naquele lugar de maluco. Apanhando de PM? – perguntei. Ele me explicou.
Diz ele que um dia de madrugrada, por volta de uma cinco da manhã, estava caminhando com uns primos, voltando de uma balada quando foram abordados por um PM que pediu os documentos deles. Como já tava todo mundo bêbado e saliente, o primo dele só virou pro PM e falou: – Pode ficar frio, tio, aqui ta todo mundo limpo… O PM diz que respondeu à altura, ou melhor, “à baixura” já que baixou uma bolacha no pescoço dele que foi caindo por cima dos primos e todo mundo rebolando no chão, quase um boliche de embriagados, já que bêbado não é muito bom em manter o equilíbrio.
– Tio? Vê lá se eu tenho sobrinho feio desse jeito, rapaz!! Senta todo mundo no canto ali!! – o PM gentilmente respondeu. Ficaram os cinco sentados no parapeito da calçada olhando pra ele. O bicho só falou: – Agora vocês cinco vão ficar aí sentados até a hora de acabar o meu horário. Os cinco, podem sentar aí, tão de castigo que é pra aprender a obedecer autoridade. E ai de quem dormir aí!! Pode ficar todo mundo com os olhinhos abertos!!
E lá foi ele e os primos ficar até sete horas da manhã de castigo pra poder aprender a respeitar autoridade, hehehehe.
No aerporto de Istambul, quatro horas da manhã, esperando o avião e escrevendo o blog…
Depois de um tempo conversando, de ouvir esses e muitos outros causos (o cara era muito engraçado, não dá pra escrever tudo aqui, senão vou ter que fazer um blog só pra ele), nos despedimos e foi chegada a hora de eu voltar para casa pra poder pegar minhas coisas e descer pra Eslovênia. Chegando em casa nem deu pra gente se despedir direito, pois o casal que estava me hospedando pareceu que estavam brigado e por isso nem puxei muito papo com eles. Segui logo pro aeroporto pra poder esperar meu avião que sairia SEIS horas depois…

Atravessando a fronteira da Síria para a Turquia – agora a volta!

Cara, tava tudo dando certo e se encaixando direitinho. Apesar de ter sido difícil entrar na Síria e o mesmo pra poder entrar no Líbano, a saída de ambos países foi bem tranquila. O ônibus que eu peguei no Líbano não atrasou, chegou no horário e com isso consegui ficar quase cinco horas a mais em Alepo. Bati várias fotos, o que me deixou satisfeito. O transporte de Alepo até a fronteira da Turquia também foi bem tranquilo, deu tudo certo. Ninguém tentou me roubar e, apesar de uma história que eu vou narrar abaixo, nada demais aconteceu. Cara, tudo estava acontecendo de uma maneira que me deixava assustado, pois, afinal, no Oriente Médio, tudo ocorrendo de maneira correta, era um mau presságio.
Dica, sério, se vocês vão viajar por aquela região, faça com que algo dê errado, pois senão vai acontecer o mesmo que aconteceu comigo.
Enrolei-me com dois gringos que conheci em Alepo, pegamos o transporte em direção à fronteira e seguimos em direção ao posto de controle da fronteira turca. Eles eram um casal de eslovacos e também estavam indo em direção a Istambul. Fiquei amigo dos figuras. Estava lá, dentro do carro, pensando em devaneios, quando lembrei de algo que me preocupou sobremaneira. Eu não sei se vocês lembram, mas num post lááááá atrás, escrevi sobre um sírio que conheci que era jornalista e fazia vários documentários e reportagens contra a ditadura síria. Aquele que já havia sido preso várias vezes. Enfim, aqui está o post dele pra que vocês possam refrescar a memória.

Casal eslovaco que viajou comigo até Istambul. Fui só eu o mais alguém achou a menina a cara da Trinity do Matrix?
Sim, por que estou falando tanto dele? Bem, acho que vocês não lembram, mas no post eu falei que ele havia salvo alguns dos seus trabalhos no meu pen drive quando eu estava em Damasco pra eu depois poder ver em casa. Gravei no meu pen drive e acabei nem me lembrando de abri-lo e ver o que ele havia colocado lá dentro. Só fui me lembrar quando estava cruzando a fronteira. Qual o problema? Amigo, estamos falando de um cara que já foi preso várias vezes pela ditadura síria, altamente subversivo e com grande probabilidade de estar fazendo um trabalho novo e querendo propagandeá-lo pelo mundo. Como? Ora, como, disponibilizando para vários estrangeiros diferentes. Cara, não sei se vocês se tocaram, mas eu estava com uma probabilidade MUITO GRANDE de ter um material altamente subversivo no meu pen drive. Vocês podem achar que eu estou falando besteira, mas basta apenas lembrar que estamos falando de uma das ditaduras mais sanguinárias do planeta que tem como um dos seus principais modelos, nada mais, nada menos, do que o ditador iraquiano Saddam Hussein.
O desespero bateu forte quando lembrei disso. Cara, e se eles resolvessem mexer nas nossas malas, ver o que estávamos levando assim como fizeram no Camboja com um estrangeiro que estava no meu ônibus (que até o laptop eles ligaram pra ver o que tinha no HD do cara)? Mermão, aquilo tinha um GRANDE potencial de dar merda. Comecei a pensar em mil maneiras de como eu poderia fazer pra poder esconder aquele pen drive. Não, não pensei em colocar naquele lugar íntimo que iria arder bastante, também não precisava esse grau todo de desespero, né? Resolvi apenas jogá-lo embaixo do meu banco e rezar pra que nada de errado acontecesse no final. Chegamos ao posto de controle da Síria. Por mais desesperado que eu estivesse, o único problema que acabamos tendo foi que havia uma fila GIGANTESCA de carros querendo cruzar a fronteira (boto fé que todo mundo quer ir embora da Síria) e o fato de que não poderíamos sair com nenhuma nota de dinheiro sírio do país. Sim, não é permitido sair com dinheiro sírio de lá e nem é possível trocar a sua moeda em qualquer lugar que não seja dentro da Síria. Interessante, né? Acho que é pra evitar que especulem com a moeda da Síria e assim desestabilizem a sua economia. Nem no nosso carro tocaram, só carimbaram meu passaporte e me mandaram voltar pro carro. Nada demais. No final, quando eu vi o que havia no pen drive, não havia nada demais, apenas algumas fotos de um campo de refugiados da Palestina e umas novelas que ele havia feito. Infelizmente antes de eu puder passar pro meu pc os arquivos, o pen drive deu pau e eu acabei perdendo os mesmos.

Odisséia turca

Cambada na Rodoviária
Problema mesmo eu fui ter foi quando cheguei na Turquia. Bicho, aquilo não foi uma viagem. Aquilo foi uma odisséia. Se eu achava que havia tido problemas demais na ida, eu não sabia o que me esperava na volta. Cara, só quando eu cheguei na maldita rodoviária de Antákia, aquela que me trazia péssimas recordações que eu fui ter notícia de que eu estava viajando na véspera de um dos MAIS IMPORTANTES feriados turcos!! Era algo mais ou menos como se eu estivesse viajando no dia 23 de dezembro aqui no Brasil. Mermão, a rodoviária tava um INFERNO de gente caminhando pra tudo que era lado, todo mundo estressado e, claro, ninguém com a mínima paciência para forasteiros.
Cheguei no guichê, com a maior das esperanças do mundo, e fui falar com o atendente:
– Opa, tudo bom? Então, cara, o próximo ônibus pra Istambul, que ainda tenha passagem disponível, sai que horas?
– Daqui a uma semana. Você prefere janela ou corredor?
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Rapaz, no começo eu até achei que ele tava era de molecagem comigo. Mas só depois que eu fui me tocar que ele realmente falava sério. Não havia passagens para Istambul de maneira alguma. Istambul? Não havia passagens era pra LUGAR ALGUM da Turquia saindo daquela rodoviária ABARROTADA de gente. Parecia que a melhor idéia pra mim seria ficar acampando naquele deserto por uma semana antes de pegar o próximo ônibus, já que nem hotel eu poderia pagar, pois o preço deveria estar nas alturas. Comecei a conversar com o casal de eslovacos pra ver o que poderíamos fazer e surgiu a idéia de tentarmos viajar para a cidade mais próxima no caminho de Istambul e ver se lá teríamos mais sorte. Acabamos tendo que ir de novo para Antália e de lá tentar chegar em algum outro lugar.

Tudo o que eu consegui comer em 24 horas de viagem. Correria é assim mesmo, chefe!
Ao chegarmos em Antália, também não havia busão no mesmo dia para Istambul. Cara e foi do mesmo jeito. Viaja pra outra cidade mais próxima, não tem busão pra Istambul, vai pra outra, não tem busão pra Istambul, vai indo, indo, indo… Foi indo assim até que em uma dessas rodoviárias conhecemos um turco que falava inglês e achavámos que seria a nossa redenção. Realmente, ele foi nos ajudando de boa por algumas cidades nas trocas de ônibus. Mas bicho, teve uma hora que ele quase saiu no tapa com o motorista de um dos ônibus por um motivo que não fazíamos a MÍNIMA idéia. Os passageiros do ônibus até chegaram a querer vir falar com a gente, perguntando alguma coisa em turco, mas desistiram quando viram que só falávamos inglês. Devido ao estado aleatório do figura, achamos que seria menos arriscado se déssemos um perdido nele e continuássemos sozinhos…
No final, levamos 30 horas para fazer uma viagem que facilmente daria para fazer em 12. Ninguém falava inglês com a gente, todo mundo queria nos roubar, tudo era sempre mais difícil. Mas enfim, conseguimos chegar, são e salvos a Istambul… Mais dois dias nessa cidade e depois eu seguiria para o meu próximo destino: Eslovênia…

Problemas com tradução

Saindo de Beirute, resolvi seguir viagem de volta à Turquia, pois já tinha marcado o meu voo em direção à Europa. Tentei de todas as maneiras ver como poderia não sofrer mais o mesmo tanto que sofri no caminho de ida da Turquia para Síria, mas mais tarde pude perceber que a viagem de volta seria bem, mas BEM pior do que a viagem de ida. Por quê? Bem, vamos lá…

Não havia ônibus direto de Beirute para Istambul. Pra falar a verdade, sequer havia ônibus de Beirute para a fronteira da Turquia, ou seja, a sorte estava lançada. Depois de muito lutar, conseguir achar um busão que poderia me levar de Beirute para a segunda maior cidade da Síria, Alepo. Alepo é uma cidade tipicamente síria, no meio do deserto e com muito menos turistas que Damasco. Além disso, a cidade possui uma cidadela construída nos tempos das cruzadas que parecia ser MUITO da hora de visitar. Havia visto algumas fotos dessa cidadela quando conheci um turco, que estava vindo de Allepo, na rodoviária de Antakia e realmente me deixava empolgado a chance de poder visitá-la.

Portão principal da cidadela de Alepo

Beleza, tudo é festa. Peguei o meu busão e segui em direção à Síria mais uma vez. Ao contrário da primeira vez que entrei na Síria, que foi bem tranquila, na segunda foi bem complicado desenrolar com os carinhas no posto de fronteira. Motivo? Bem, logicamente eles não falavam inglês e dessa vez não havia o búlgaro que conheci na fronteira da Síria com a Turquia pra traduzir pra mim. Os guardas da fronteira tentavam de todas as maneiras me fazer perguntas, mas depois de um tempo desistiram de tanto eu falar “Istambul, Istambul”, acho que eles se tocaram que eu estava apenas de passagem pela Síria. Mas eles ainda necessitavam recolher alguns dados meus e com isso ficou um impasse sem eu poder entendê-los e vice-versa. Depois de um tempo, um dos soldados foi até o ônibus e voltou com um molequinho pelo braço me dando a entender que ele falava um pouco de inglês. Fiquei um pouco aliviado, pois achava que aquilo poderia facilitar a minha vida. Ledo engano. O molequinho só sabia falar “I speak english” e “my name is…” e nada mais. Os militares falavam uma parada pra ele, mandavam ele traduzir e o moleque não conseguia falar nada. Depois de um tempo o soldado começou a ficar puto e gritar com o moleque, nitidamente irritado porque ele não falava nada de inglês e aí piorou mais a situação. O molequinho se viu aperriado e, com medo, enrolava ainda mais a língua e mandava um enrolation X rebolation pra cima de mim, achando que tava falando inglês. Eu, logicamente, não entendia nada. E aí ficou nessa situação, o soldado dava uns gritos no moleque, ele tentava do jeito que dava me falar alguma coisa e eu fingia que entendia com medo daquele guri acabar levando uns tapas por causa de mim. Os olhos do moleque chegam tavam mais esbugalhados que um sapo cururu!! Eu fiquei foi com uma pena do bichinho…

Dentro da cidadela

Só sei que o soldadinho no final desistiu, me mandou entrar no busão e nos mandou embora. Pensei que enfim ia ter paz, mas que nada… Quando subi no busão e comecei a fechar o olho pra dormir, esse molequinho veio pra querer conversar comigo. No início eu nem me importei, pois achei que ele nunca havia visto tantos estrangeiros na sua vida e conversar com um devia ser algo que realmente mexia com a curiosidade dele. Mas o problema era que o menino não falava NADA de inglês. Boto fé que os pais deles o matricularam em um curso e com isso ele tentava lembrar das poucas expressões que havia aprendido como “what time is it” ou coisas assim e tentava falar comigo. Ficava aquela situação constragedora, ele do meu lado, me olhando e sem falar nada e nada de eu conseguir dormir. Eu realmente me sentia um animal exótico próximo a ele. Só sei que, graças a Deus, ele desceu TRÊS horas depois e eu pude tentar tirar um cochilo.

Allepo

Desci na cidade de Alepo e logo de começo foi aquele estresse que já estava acostumado. Desce do busão, procura um taxista, o taxista não fala inglês, arruma um lugar pra dormir, o taxista vai querer te roubar e coisas assim… Fiquei procurando no guia que eu tinha um lugar pra dormir e acabei optando por um local que o maior destaque que o livro dava a ele era o fato que as meninas deveriam tomar cuidado ao tomar banho, pois os donos do lugar costumavam fazer buracos na parede para poderem vê-las nuas. É amigão, Oriente Médio é assim mesmo… O esquema é bruto. O taxista dessa vez me deixou bem rápido no lugar e enfim pude largar minhas coisas, tomar um banho (logicamente, sem virar a bunda pra parede, preocupado com o perigo dos bigodudos ficarem me espiando dentro do banheiro) e dormir cedo pra no outro dia acordar e seguir para o forte pela manhã. O busão que seguia para a Turquia saía mais ou menos pela hora do almoço.

Lá no albergue ainda conheci uma galera legal da Polônia, mas como tinha que sair cedo no outro dia, nem fiquei conversando muito com eles não. Acordei e segui para o forte.

Depois que eu comecei a passear pela cidade, comecei a perceber que Alepo não era apenas só “uma cidade com um grande forte pra se bater fotos”. Caminhando por suas ruas e prestando um pouco de atenção na arquitetura da cidade, comecei a desconfiar que aquela cidade era muito mais grandiosa do que eu pensava. Só depois de ler no meu guia e de fazer algumas pesquisas na internet que pude me dar conta da grandiosidade que era aquela cidade. Alepo possui mais de cinco milhões de habitantes e por muito tempo foi a terceira maior cidade de todo mundo islâmico, perdendo apenas para Constantinopla e Cairo. Como todas cidades na Síria e no Líbano, é uma das mais velhas do mundo, com registros históricos de que a cidade é ocupada desde o século XI antes de Cristo.Comparem o tamanho das pessoas em relação ao tamanho da entrada da cidadela. É GINGANTESCA!

Fosso da cidadela. Mais uma vez, comparem o tamanho dos carros com o tamanho do fosso e o imaginem cheio de jacarés 😛

Alepo chegou a ser uma das mais importantes cidades da região, pois ficava em um dos mais movimentados entrepostos da Rota da Seda. Porém, com a construção do Canal de Suez no século XIX a rota foi alterada e a cidade perdeu grande parte de sua importância. Bati algumas fotos do bairro velho de Alepo, com seus milhares de anos de história, e depois segui para a sua mais importante atração, a cidadela de Alepo.

O local onde foi construída a cidadela vem sendo sagrado por milhares de anos para os habitantes do local. No alto da colina onde foi construída, havia um templo que os historiadores acreditam ter sido construído no milênio III a.C. A cidadela tomou a forma que possui hoje, com um fosso gigantesco, muros enormes em volta com sua fortaleza, apenas no século XIII depois de Cristo. Os árabes, preocupados com os constantes assaltos das tropas cruzadas cristãs e temendo perder o controle de uma de suas mais estratégicas cidades, ergueram a fortaleza para poder lutar contra os cruzados. No final acabaram logrando sucesso, pois, apesar de Jerusalém ter mudado de mãos diversas vezes durante a época das cruzadas, Alepo nunca foi conquistada pelos guerreiros do Papa.

A cidadela é bem imponente e é impossível não ficar maravilhado com o seu tamanho, se sentir ainda mais pequeno perto dela e não ficar imaginando as batalhas ocorridas próximas a suas muralhas.

Já dentro da cidadela, é possível ter uma visão panorâmica de toda a cidade de Allepo. Uma curiosidade interessante que acho importante destacar é que a cidade parece ser toda cinza, como vocês podem ver na foto. Alguém sabe me dar uma explicação pra isso? Eu sei que o concreto é cinza e as pedras com que eles fizeram a cidade também, mas, pombas, você pode ver na foto que NENHUMA construção da cidade tem uma cor que destoe do tom “pastel” que Allepo parece ter vista de cima, não? Não há nada azul ou vermelho. Será se é proibido pintar as casas dessa cidade?

Enfim, peguei meu busão e segui em direção a Istambul em um dos mais épicos translados de toda minha viagem…

Brother que acabou me vendendo umas falsificações de perfumes legais antes de eu seguir viagem…

Biblos – Onde nasceu a moderna escrita

Há apenas alguns quilômetros de Beirute, fica a impressionante cidade de Biblos. Eu tenho certeza que alguns de vocês já ligaram o nome da cidade à palavra Bíblia e isso não é uma mera coincidência. Biblos é uma das cidades mais antigas do mundo, disputando o título com Damasco. Escavações arqueológicas comprovaram que a cidade foi fundada por volta do ano 5000 A.C. Em árabe a cidade se chama Gebal, que é seu antigo nome fenício, sendo chamada por nós ocidentais de Biblos devido a esse ter sido o nome que os gregos deram à cidade por ela ser um importante centro produtor de papiros egípcios (Bublos, em grego) e também pelo alfabeto grego ter sido inspirado no alfabeto fenício que, acredita-se, foi desenvolvido nessa cidade. O alfabeto fenício foi inspirado nos hieróglifos egípcios, aquela linguagem simbólica que vemos em filmes sobre faraós e coisas do tipo. A grande sacada que os fenícios tiveram, motivo do sucesso do seu alfabeto, foi a sua abstração dos símbolos do hieróglifo egípcio. Como assim? Bem, antes dos fenícios, todos os alfabetos existentes eram baseados em ideogramas (assim como ainda é hoje na China e no Japão). Se você quisesse dizer que um gavião pousou na sua casa, você “desenhava” um gavião e uma casa do lado e isso criava um significado. Isso podia deixar tudo mais fácil de entender, mas por outro lado, você tinha que decorar MILHARES de símbolos diferentes para poder ser alfabetizado. O que os fenícios fizeram? Bem, pegaram 26 símbolos diferentes, tiraram alguns traços, abstraíram e, bingo, criaram um alfabeto! Só pra vocês terem um ideia da genialidade disso, os alfabetos hebraico, grego, árabe e latino (os alfabetos mais utilizados no mundo) tem como base o alfabeto fenício. Além disso, o que faz ser tão difícil aprender chinês ou japonês não é nem a língua em si, mas ter que decorar milhares de ideogramas diferentes. A cidade também é um grande centro arqueológico pelo fato de várias civilizações terem conquistado a cidade e se apoderado dela devido ao seu ponto estratégico. Escrevendo assim não parece muito, mas cara, eu fui num centro lá que mais parecia um parque de diversões arqueológico. Em um local que eu seria capaz de chutar com não mais do que dois quilômetros quadrados era possível ver pilastras romanas, um castelo do tempo das cruzadas, ruínas de um castelo persa, um anfiteatro grego e construções de outras civilizações que eu não tinha tanto conhecimento. Isso tudo num espaço de alguns quilômetros quadrados, sempre bom repetir. Quer conhecer o mundo inteiro numa caminhada? Vá a Biblos!!Depois de um bom tempo caminhando e curtindo tudo o que Biblos tinha para oferecer, resolvi voltar para Beirute pra poder ver como iria fazer pra poder conseguir um busão pra Síria, pra depois seguir para Turquia novamente, pois meu voo para Eslovênia estava marcado pra uma semana depois. No caminho de volta resolvi parar pra poder comprar uma coca e ocorreu um dos momentos mais legais de toda a minha viagem de volta ao mundo. Um fato ocorrido que eu lembro com carinho até hoje quando lembro dessa história.Ao entrar no estabelecimento pra poder comprar o refrigerante, eu estava com um agasalho do Brasil nas costas. Assim que eu entrei, o balconista me perguntou se eu era brasileiro. Quando falei que sim, ele foi atrás do balcão e pegou a imagem de uma santa de cor negra e perguntou se eu sabia quem era. Respondi na lata que era Nossa Senhora Aparecida, a Santa Padroeira do Brasil e fiquei surpreso com o fato de ele ter uma imagem dela perdida no meio do Líbano. Ele me falou que era devoto da santa e que por isso tinha aquela imagem sempre no balcão. Além disso, ele me falou que a sua irmã estava bastante doente e que iria passar por uma cirurgia complicada em dois dias e ele estava com medo dela não conseguir sobreviver. Por isso, rezava todos os dias para Nossa Senhora Aparecida pedindo graças e que sua irmã fosse agraciada com a cura. Fiquei triste com a história que ele estava me contando, disse a ele que esperava que sua irmã melhorasse e que tivesse bastante fé naquilo que acreditava. Depois de um tempo conversando com ele, lembrei que eu tinha amarrado ao tornozelo algumas fitinhas coloridas de Nossa Senhora Aparecida e que eu ando com elas há mais de cinco anos. Achei que tinha alguma guardada na mochila e comecei a procurar pra poder dar de presente pra ele. Infelizmente eu não tinha mais e disse que não seria possível eu entregar pra ele uma nova como lembrança. Ele falou que não tinha problema e perguntou se seria possível eu tirar uma das que eu já havia amarrado na perna e dar para ele:
– Mas essas estão sujas e desgastadas, cara!
– Não há problema! Tudo bem!
– Ok – peguei uma faca, cortei a pulserinha e dei a ele
– MUITO OBRIGADO, AMIGO!! MUITO OBRIGADO MESMO!! Amanhã vou amarrá-la no braço da minha irmã doente e eu tenho certeza que ela vai se curar.
– Quanto é a coca mesmo?- Nada, filho! Nada, é de graça!! Pegue pra você!! Leve o que você quiser da minha loja. Nada pode pagar o favor que você está me fazendo. Cara, acho que lendo vocês não conseguem perceber o quão emocionante foi pra mim tudo o que ocorreu nesse curto espaço de tempo em uma lojinha que eu havia entrado apenas pra poder comprar uma coca-cola. Saí de lá me sentindo tão bem, sabe? Um gesto tão pequeno como esse, arrancar uma fitinha de algodão de alguns centavos do tornozelo e entregar pra um cidadão foi o suficiente pra eu ter certeza que ele nunca mais vai me esquecer. Foi muito legal mesmo…No final ainda cheguei a ver uma loja pegando fogo e uma pancada de jipe do exército pra ver o que havia ocorrido. Sabe como é, num país como aquele, qualquer fumacinha a galera já sai desesperada achando que foi ataque terrorista. E, ah sim, antes que vocês perguntem, eu só levei a coca-cola do bar dele, viu? Não aproveitei o estado emocional do figura pra encher a minha mochila de comida pra semana inteira não…
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Perambulando por Beirute/Líbano

Acesso a zona mais turística de Beirute

Como eu já havia falado, Beirute é conhecida como a “Paris do Oriente Médio”. Como já estava por lá mesmo, resolvi dar um rolê e ver de qual é em uma cidade que almeja um “título” tão ostentoso. A cidade é realmente bem interessante e bonita, é impressionante a diferença que você percebe entre caminhar por uma cidade como Damasco e Beirute. Beirute parece uma cidade europeia, com várias praias de águas cristalinas e pessoas caminhando de sunga e biquíni nas suas areias, algo que eu sei que pode ocorrer numa praia da Síria, mas eu só não imagino. Uma grande diferença existente também entre Beirute e Damasco é que Beirute parece uma cidade sitiada. Bicho, o patrulhamento pelas ruas por tropas do exército é ostensivo. Cada esquina que você vira, dá de cara com um tanque com alguns soldados armados até os dentes.
Praça dos Mártires, principal símbolo de Beirute
A estátua, lógico, com várias marcas de bala
Teve um dia que a gente foi sair que eu achei muito engraçado. A gente tava andando de boa pela rua indo para uma balada (sim, existem baladas. MUITAS baladas em Beirute) e do nada para um carro da polícia próximo onde estávamos. De repente desce um policial carregando um rifle GIGANTESCO e começa a sair correndo que nem um louco. Eu não sei como é aí na cidade de vocês, mas no Maranhão quando você vê alguém do exército ou da polícia correndo e carregando um rifle no meio da rua é porque uma merda MUITO grande deve ter ocorrido. O que eu pensei na hora? Uai, nessa hora você só pensa o pior: Ataque terrorista! Como eu vi que os caras que estavam do meu lado pareciam nem se importar com o que estava ocorrendo e ninguém na rua sequer mudou a feição dos rostos, fiquei de boa e continuei caminhando. O que aquele policial foi fazer? Bicho, o rapaz simplesmente passou a bandoleira (algo como a alça que você usa pra apoiar o rifle nas costas) no pescoço, jogou o rifle nas costas, pegou um APITO e começou a ORGANIZAR O TRÂNSITO!! Mermão!! Imagina só isso!! Se o guardinha de trânsito caminha com um rifle nas costas, eu fico imaginando o que um soldado do exército deve utilizar. É de bazuca pra cima! Eu realmente fiquei impressionado e fui perguntar pra alguém da nossa galera o porquê daquela ignorância. Ele simplesmente me falou: “Claudio, isso aqui é um país em que um espirro pode detonar uma guerra civil pelas ruas da cidade. Por essas e outras que qualquer guardinha desses anda sempre bem armado”.
Soldadinho no meio da rua com seu rifle

Essa noite foi uma das duas que pude sair pra balada quando estava em Beirute. As baladas lá eram bem legais, com uma população jovem, vibrante e animada. Eu não sei se fica muito chato eu enfatizando o tempo todo “Balada, Balada, Balada”, mas é que o que faz o Líbano realmente ser um país tão interessante quando viajamos é devido a essa despreocupação com preceitos religiosos, algo que dificilmente pude ver em outros países árabes que viajei. Acho que é por causa da grande influência católica do país. De todos os países árabes, o Líbano foi o mais ocidentalizado que conheci. Só pra vocês terem uma ideia do que falo, foi o único país árabe que viajei que cheguei a sair pra alguma baladinha, pois nos outros isso simplesmente não existia.
Outra parada que eu achei muito legal de Beirute são essas duas fotos aqui. Você pode estar caminhando de boa no centro da cidade e, do nada, se depara com diversos sítios arqueológicos do tempo dos romanos.

Teve uma noite que foi até engraçado. A gente marcou com um galera do Couchsurfing em um bar e depois fomos pra uma balada. Como era encontro do Couchsurfing, havia meninas de vários países diferentes com a gente. E foi aí que um dos libaneses que estavam com a gente começou insistentemente a cantar uma das minas que estavam com a gente. O pior que o bicho parecia uma criança querendo chegar na menina. Me lembrou até um amigo nosso na Tailândia. Quem quiser relembrar, favor clicar aqui, aqui e aqui.
Coisas que só se vê nas ruas de Beirute. Imagens de Jesus Cristo e carros com a assinatura de Ayrton Senna no vidro…
Vocês conseguem ver alguém fumando nessa foto?
O bicho tava tão chato que a gente teve que fingir que todo mundo tava voltando pra casa e marcarmos de nos encontrar em outro lugar pra poder nos ver livres da peste. No final acabou dando certo. Descemos todo mundo pra outra balada e por lá ficamos o resto da noite. Quando foi no outro dia, fomos dar um rolê pela cidade e pelo museu histórico de Beirute com várias esculturas de antes de Cristo. Caminhamos bastante pela cidade e depois de um tempo resolvemos parar em um dos cafés do centro de Beirute, numa das zonas mais turísticas e caras de lá. Bem, se fosse pra só uma cerveja não ia sair lá tão caro, né?
Museu de Beirute
Sol de lascar na cabeça o dia inteiro

Pedimos um chopp pra cada um e ficamos tomando de boa. De repente o garçom chegou com uma garrafa de água e largou na nossa mesa. Oba, os caras fornecem água de graça pra gente tomar, os bichos são gente boa – pensamos. Depois de mais ou menos uns dez minutos veio o garçom novamente e trouxe uns amendoins e uns petiscos pra gente comer. Rapaz, os caras realmente são bem gente boa aqui. A gente pediu só uma cerveja e eles já trouxeram até petisco? – mais uma vez pensamos. Comemos os amendoim e logo veio o garçom alegre e sorridente trazendo outro. Rapaz, aquilo não parecia estar ocorrendo bem. Por via das dúvidas, resolvemos continuar dando nosso rolê pela cidade e pedimos a conta. Quando o cara veio com a conta, a singela surpresinha!! A minha parte deu SETE DÓLARES e eu só havia pedido UMA CERVEJA!! Por quê? Ora, amigão, o figura havia me cobrado TUDO o que ele havia colocado na mesa AINDA QUE não a gente não tivesse pedido. Espertão, não? A gente ainda tentou argumentar, mas ele falou que a gente não tinha pedido, mas tinha comido, por isso deveríamos pagar. SAFADO!!

Eu e minha cerveja de sete dólares
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Procurando lugar pra ficar em Beirute…

Assim que descemos do ônibus já foi aquele choque na primeira parada. Ao contrário da Síria, país islâmico com uma ditadura sanguinária e repressora, Beirute é uma cidade que respira liberdade em um Oriente Médio onde as liberdades individuais parecem ser repreendidas cada vez mais. Como não havia conseguido um couch a tempo (culpa minha, pois comecei a procurar com pouco tempo de antecedência. Ah sim, o Líbano foi o ÚNICO país em que não consegui ficar de graça em nenhuma de suas cidades), tive que procurar um albergue com os outros dois amigos do Matt. O canadense, Dino, como era bem mais esperto, já tinha reserva em um albergue super da hora e nós fomos conferir se havia vagas nele para que pudéssemos ficar também.
Tanque com soldados em cima no meio da rua de Beirute (sim, eu bati a foto meio mal porque eu não podia bater uma foto abraçado com o tanque, né cara? Se os militares vissem que eu tava batendo fotos poderiam encrencar…) 
Infelizmente ao chegar no albergue onde o Dino possuía as reservas ele se encontrava lotado e tivemos que sair à procurar de um lugar pra ficar. Estávamos na região central de Beirute e achávamos que não seria muito complicado conseguir um lugar para ficar. Repararam na ênfase no verbo “achávamos”, né? Sim, porque foi isso que aconteceu mesmo. Cara, saímos que nem um bando de loucos pra poder achar um lugar pra ficar e todo lugar que a gente ia sempre tava lotado. Só nos restou um último albergue que nós REALMENTE não queríamos ficar…
Bem, por quê? Cara, leitores MMMUIIITOOO antigos do blog podem lembrar de uma descrição que eu fiz do albergue que fiquei em Fiji. Mas, mermão, esse era MUITO pior. Primeiro que o lugar parecia uma casa mal-assombrada, tudo mal-iluminado com paredes descascadas. A porta de ferro que os caras usavam pra fechar o albergue de noite era crivada de bala (reflexo das inúmeras guerras civis que ocorreram por lá) e além de tudo o tiozão, com uma bela barriguinha de chopp, que atendia lá era mais fedorento que arroto de corvo. Afe maria…
Parte de trás do prédio do albergue
Bicho, os quartos era totalmente abafados e o banheiro, bem, o banheiro não merece comentários, vamos apenas naquela do “uma imagem vale mais que mil palavras”:
“Mas se tava ruim, porque você resolveu ficar por lá?”. Cara, no final não tive escolhas, ou era ficar naquele albergue ou dormir na rua, já que, como falei, todos os outros albergues estavam lotados. O tiozão ainda teve a cara de pau de querer cobrar pra gente o mesmo tanto que os caras cobravam no albergue do Dino que, comparado com o nosso, mas parecia um hotel cinco estrelas… No começo eu achava que ele tava era tirando onda com a gente quando falou quanto que custava a noite naquele pardieiro, mas ele REALMENTE estava falando sério. Cara, aí já era demais, tudo o que eu menos esperava era além de ter que ficar naquele pardieiro, ainda ter um tiozão daquele querendo me roubar. Pensei em voar na jugular dele e brincar de “guerra civil libanesa”, mas apenas fomos BEM duros com eles e o cara acabou fazendo por metade do preço que, real, saiu MUITO caro, pois aquela espelunca dele não valia nem os cascos da parede.
Só sei que fiquei lá por uma noite. Quando foi no outro dia, o Dino me passou o bizú que abriu uma vaga no albergue dele. Se eu queria ir? Opa, na hora! Fui só buscar minhas coisas lá no albergue mal assombrado e desci pra ficar lá no albergue do Dino.
Quando fiz meu check-in, acabei ficando amigo dos donos do albergue. Bastante simpáticos, eles me explicaram que antes daquele lugar ser um albergue, ele foi um campo de concentração há mais ou menos trinta anos atrás e por isso ele tinha conseguido comprar tão barato. Além disso, tinha outra curiosidade também. Pra poder tomar banho, você tinha que pedir autorização na recepção pros caras poderem liberar o registro do banheiro. Cada hóspede tinha direito a dois banhos por dia de sete minutos cada, o que eles REALMENTE levavam muito a sério. Se você tivesse se ensaboando e terminasse seu tempo, ele falava que era pra tirar o sabão com a torneira da pia, porque eles realmente não iriam liberar mais água pro chuveiro. Perguntei se teria como a gente negociar, de eu pegar parte das cotas de outras pessoas, já que eu tinha quase certeza que uma pancada dos caras do meu quarto não chegavam nem perto de utilizar sua cota diária, os caras fediam demais, hehehehe. Mas não teve jeito. Os caras não liberavam mesmo e eles SEMPRE cortavam a minha água enquanto eu tomava banho, pois eu sempre esquecia que tinha essa maldita cota, afinal, o calor lá era de lascar e nada mais confortável que um banho.
Teve outro fato engraçado também. Como a recepção sempre tinha uma galera lá, eu gastava um bom tempo conversando com geral. Uma vez, eu fiquei conversando em inglês com um figura por quase trinta minutos pra depois descobrir que ele era brasileiro também, hahaha. Cara, a gente REALMENTE não reparou que éramos do mesmo país. Eu jurando que ele era árabe e ele achando que eu era italiano. O nome dele infelizmente não lembro, mas ele era correspondente da BBC Brasil no Líbano e estava lá desde os bombardeios de 2004. Disse que cobriu o conflito e diariamente ele via caças israelenses sobrevoando a sua cabeça. Imagina que vida mais pacata…

Como chegar ao Líbano – Perrengue

Pra falar a verdade, quando ainda planejava a minha viagem de volta ao mundo, a Síria não estava nos meus planos. O país que mais me fascinava no Oriente Médio (além de Israel) era sem sombra de dúvidas o Líbano. Por quê? Cara, não sei dizer… Talvez pela grande influência libanesa na cultura brasileira. Talvez por ter conhecido alguns libaneses na Austrália que eram apaixonados por Beirute (quando ela não estava sendo bombardeada, é lógico) e a imagem da Paris do Oriente Médio.

Talvez por me fascinar como um país com metade da extensão do menor estado brasileiro (Sergipe) ou o dobro da área do Distrito Federal possuir tanto conflitos e religiões. Enfim, o Líbano me fascinava. Eu acabei indo pra Síria quase que na inércia mesmo, pois a única fronteira terrestre possível de ser cruzada para o Líbano é a fronteira com a Síria (já que a fronteira com Israel é fechada). Inclusive, uma curiosidade que eu acho que eu ainda não contei pra vocês. Quando você vai entrar na Síria ou no Líbano eles fazem poucas perguntas e quase não lhe importunam. A ÚNICA coisa que eles procuram com bastante seriedade é se você tem traços de que passou por Israel, ou seja, se você viajou pra Israel antes de ir para a Síria ou para o Líbano.

Se você tiver uma passagem aérea com trechos passando por Tel-Aviv ou um carimbo da imigração israelense no seu passaporte demonstrando que você entrou no país, você é barrado antes de entrar nesses países. E não só no Líbano e na Síria. Possuir um carimbo da imigração de Israel no seu passaporte automaticamente o impede de entrar também no Irã, no Afeganistão, na Argélia, Iraque, Kuwait, Líbia, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Iêmen… Ou seja, planeje bastante a sua viagem pro Oriente Médio pois senão você pode ser barrado numa fronteira de um país sem nem saber porque (eles não falam inglês. Então a única coisa que eles irão fazer é apontar para o outro lado da fronteira e mandar você voltar. E ah sim, sempre bom lembrar, eles tem rifles, e os caras que possuem rifles sempre possuem a razão, como eu já falei diversas vezes no blog nessas histórias aqui e aqui).

Como eu consegui ir a Israel e a esses países pedreiras ao mesmo tempo? Bolei um plano… Primeiro fui pra Síria e pro Líbano por terra, vindo da Turquia, regressei a Turquia, voltei para a Europa, da Europa fui de avião pro Egito e do Egito atravessei, por terra, a fronteira de Israel. Sem problemas, certo? Errado! Você até pode entrar em Israel tendo carimbos de países hostis como Líbano e Síria, mas pode ter certeza que passará por um looonnngooo interrogatório na fronteira, tal qual ocorreu comigo, mas isso é história, muito engraçada por sinal, pra posts lá na frente.

Quando estava na Síria, alguns amigos europeus do Matt também estavam planejando ir ao Líbano em alguns dias. Acabei ficando mais dois dias na Síria além do esperado, mas no fim valeu a pena, haja vista que os amigos do Matt falavam um pouco de árabe e isso tornava tudo sempre mais fácil. Fomos à rodoviária, a mesma do Servicio del taxi, e lá começamos a recolher informação de como nós poderíamos seguir para o Líbano. “Nós” é jeito de dizer, pois a única função que foi delegada ao latino burro aqui foi ficar cuidando das mochilas enquanto os caras saíam perguntando qual ônibus deveríamos pegar.

De qualquer maneira fiz o meu melhor pra guardar as mochilas e elas se comportaram direitinho, no final, o que me ajudou bastante.

Depois de um bom tempo sem sucesso, conseguimos falar com um cara que sabia como era o esquemas e resolveu ajuda a gente. Rapaz, esse cara só faltou pegar a gente pela mão. O bicho foi num guichê, foi em outro, foi no outro, achou o guichê que vendia a passagem pro Líbano, começou a barganhar pra ver se o cara fazia mais barato (éramos quatro no total), enfim, o cara fez tudo pra gente. No final, nos entregou a passagem e eu já estava me preparando pra tirar a grana da carteira que eu tinha certeza que ele ia pedir uma comissão pra ele… Que nada… O cara só falou que tava tudo certo, nós agradecemos e ele foi embora. Nada mais que isso.

No final ainda perguntei pros caras: “Pô, o bicho foi mó gente boa, a gente não vai dar nenhum troco pra ele em agradecimento?”. Rapaz, fui seriamente repreendido por eles. Eles me falaram que é esse tipo de pensamento do tipo “se você me ajuda, eu te dou dinheiro” que contaminam as relações entre as pessoas quando você viaja mundo afora. Por isso que vários lugares turísticos, você não pode contar com as pessoas porque certamente elas irão tentar te enganar pra poder pegar um pouco de dinheiro de você. Rapaz, os caras ficaram brabos comigo. Mas pô, foi o que eu aprendi quando estava viajando, tratar as pessoas que nem foca: Foca faz uma pirueta? Toma um peixe! Ela bate palma? Toma outro peixe… Só estava contaminado, hehehehe.

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Eu e o Dino em Beirute

Entramos no busão e seguimos em direção ao Líbano. Lá conhecemos um canadense, Dino, MUITO gente boa, que virou nosso amigo e que ia nos ajudar bastante no Líbano, já que ele falava francês e quando os caras não conseguiam falar em árabe com os libaneses (já que o sotaque era diferente da Síria), o canadense desenrolava pra gente em francês. Além disso, eu, como estava com um agasalho do Brasil, acabei chamando a atenção de um molequinho que estava dentro do ônibus! Rapaz, esse guri ficou doido pra brincar comigo! A mãe dele falava algum inglês e me explicou que o menino era doido pelo Brasil. Que ele tinha várias camisas da seleção, sempre assistia os jogos do Brasil e coisas do tipo. Eu como gosto de criança e, pra agradar, fiquei brincando com ele enquanto viajávamos. Chegamos à fronteira e todo mundo teve que descer do ônibus. Rapaz, que inferno.

Descemos do ônibus e nos dirigimos ao guichê de imigração. Ninguém do busão precisou apresentar nada, só a carteira de identidade, nós, como éramos os únicos estrangeiros, tivemos que ir pra longa fila e o ônibus inteiro ficou nos esperando e olhando já com uma cara de raiva. Peguei a fila que eu julgava ser a menor. Rapaz, pra que? Só depois que eu vi que uma das mulheres que estava no balcão tinha era um BOLO de passaportes do IRAQUE na mão e o soldado do guichê foi lá pra poder carimbar, um por um, as DEZENAS de passaportes que ela trazia com ela. Depois eu fiquei pensando: Que guerra civil que nada! Pra quem mora no Iraque, o Líbano deve ser seguro como as ruas da Suíça.

Pra facilitar e agilizar a nossa vida, nos separamos em diversas filas e combinamos que quem chegasse no guichê primeiro, pegava os passaportes de todos os outros e assim a gente passava logo. Bem, iríamos fazer exatamente como a iraquiana com milhares de passaportes e todos os outros estavam fazendo.Ficamos esperando na fila por quase uma hora. E a galera do busão querendo MATAR a gente, pois, enquanto não resolvêssemos nosso problema, ninguém chegava em Beirute. Até que chegou a hora do Dino e ele pegou nossos quatro passaportes e deu pro cara carimbar pra gente poder passar. Rapaz, eu não sei o que aconteceu, o que foi que o cara do guichê viu no Dino que na hora que ele pegou os nossos quatro passaportes, ele jogou de volta e disse que não ia fazer aquilo. Que só ia carimbar se fosse um por vez. Por quê? Vai perguntar lá pra ele porque eu não tenho a MÍNIMA ideia! Só sei que na hora nós quatro tentamos sair das nossas filas e ir pro lugar do Dino pro soldado no guichê ver nossas caras uma por uma. Os outros caras que estavam na fila não nos deixaram passar. Resultado? Mais UMA HORA na fila com a galera no ônibus esperando doida pra achar um cinto de bombas e explodir a gente…

Só sei que no final o rapaz resolveu enfim carimbar os nossos passaportes e nos deixar passar. Quando entramos de volta no busão, a galera chega nos fuzilava com o olhar! A galera tava era FUMAÇANDO de raiva por causa de todo esse tempo de demora! Resolvi nem trocar olhares com ninguém, sentar e esperar até chegar em Beirute e cair logo fora dali. Na hora que eu fui sentar eu comecei a procurar o meu casaco. Não tava no meu banco, quando eu fui achar olha onde ele tava…

Era o meu “bem vindo ao Líbano” 🙂

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Líbano


Depois da Síria, era chegada a hora de seguir para o próximo destino: Líbano.
O Líbano é um país situado no Oriente Médio e ilustra perfeitamente o mosaico de religiões e conflitos que se desenrolam pela região. Ao contrário de seus vizinhos que possuem maiorias incontestáveis de uma ou outra religião (Israel é um país judeu e Síria, Iraque, Irã, entre outros, são países muçulmanos), o Líbano não possui uma maioria religiosa que consegue se impôr. É interessante, mas o Líbano possui a maior comunidade católica entre os árabes! Sim, árabes católicos! Sabe aquele esterótipo que a gente tem dos muçulmanos? Barbudos, morenos e com rostos de traços robustos? Pois é, há vários desses, mas que professam a fé cristã assim como nós! Isso pode ser uma vantagem ou até bonitinho para as pessoas dizerem “olha só, são várias religiões reunidas!!”, mas na verdade esse é o grande problema do Líbano. Como nem católicos, nem muçulmanos conseguem se impor uns aos outros, o pau sempre come solto por lá, com guerras civis sendo tão constantes como Copas do Mundo.
Para se tentar conseguir algum tipo de paz ou estabilidade, amplos governos de coalizão necessitam ser formados para que as várias correntes possam ser representadas. Durante boa parte do século passado isso até funcionou, pois a população se dividia basicamente em metade católicos, metade muçulmanos. O problema é que as taxas de natalidades das famílias católicas costumam ser menores do que as das famílias muçulmanas. E isso desequilibrou a frágil estabilidade religiosa no país. Eu cheguei a ouvir que hoje provavelmente o Líbano possui 70% de muçulmanos contra 30% de católicos e outras minorias. Para evitar que o pau coma solto mais ainda, que essa proporção seja oficializada e assim os árabes clamem por mais poder e por transformar o Líbano em um país muçulmano assim como a Arábia Saudita ou a Síria, nunca mais houve um censo oficial para que seja atestada essa proporção. Apesar das diversas demonstrações de força, pressão e apoio popular do Hezbollah, o acordo de repartição dos poderes entre católicos e muçulmanos se mantém como há décadas atrás.

Devido a todo a sua instabilidade, o Líbano foi palco de diversas guerras civis e bombardeios israelenses que sempre comprometem a infraestrutura do país. O país foi sede de vários massacres (com Sabra e Chatila o seu mais famoso. Quem quiser ler o massacre, basta clica nesse link aqui, a reportagem está sensacional, vale a pena gastar uns minutos lendo) e de guerras que muitas vezes nem tem relação com o povo libanês.
Isso ocorre porque durante muitos anos o Líbano foi quase uma “terra de ninguém”, com tropas israelenses, sírias, francesas e americanas estacionadas no seu território. Se aproveitando desse vácuo de poder, diversos grupos terroristas ali se abrigam para poder atacar Israel. Como nenhum país árabe é páreo contra o poderio militar da nação judia (na verdade Egito, Síria, Jordânia, Iraque, Arábia Saudita, Sudão, Argélia e Kuwait chegaram até mesmo a se juntar para lutar contra o pequeno país judeu e levaram um cacete TREMENDO), diversos países fornecem armamentos a grupos terroristas que atuam no Líbano e, de suas fronteiras, atacam o norte de Israel. O maior e mais poderoso entre eles é o Hezbollah que, acredita-se, recebe um grande apoio de tropas e armamentos da Síria e do Irã. Não sei se vocês lembram de 2006, quando Israel bombardeou mais uma vez o Líbano e mais uma vez comprometeu a infra-estrutura de Beirute. Isso ocorreu por causa de ataques terroristas provenientes do território libanês. Quem acabou pagando o pato foi o Líbano inteiro.
Foto da internet

Devido a essa história marcada por sangue e guerras constantes, grande parte dos libaneses (principalmente os cristãos) migraram para o Brasil para buscar uma vida melhor e com um pouco mais de paz. Chegando aqui encontram um país miscigenado e com grande aceitação a estrangeiros. Por aqui ficaram e deixaram as suas marcas como grandes comerciantes e, er…, políticos: Rua 25 de março, Hospital Sírio-Libanês, Paulo Maluf, Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin…
Mas nem tudo é sangue nesse belo país. O Líbano foi um dos berços de toda a civilização ocidental. Uma de suas cidades (onde estive e escreverei sobre ela) chama-se Byblos, não por coincidência parecido com o a palavra Bíblia. Byblos em grego significa “livro” e foi o nome que eles deram a essa cidade libanesa que segundo se acredita foi uma das cidades que criou o alfabeto grego que depois evoluiu para o nosso. Posteriormente falarei sobre ela. Além disso, Beirute (capital do Líbano e principal cidade com quase dois milhões de habitantes), devido ao seus diversos cafés, também foi durante muito tempo conhecida como a “Paris do Oriente Médio”.

Bem, acho que já falei demais. Vou parando por aqui, falarei mais das cidades quando estiver escrevendo sobre elas.