Uma visita inesperada e muita confusão.

O problema é que desse jeito não acontece quase nada. Só hoje que teve uma presepada que foi um pouquinho engraçada. Dois caras fedendo a cachaça apareceram aqui e tentaram fazer o check in. Logicamente que, devido ao estado de cana dos caras, eu ia inventar alguma desculpa (dizer que o cartão deles não tava funcionando ou algo do tipo) pra não deixá-los dormirem aqui. Nem precisou, já que nem cartão eles tinham.

Os caras começaram a ficar indignados e quando eles começaram a gritar eu já peguei o telefone do gancho e fingi que tava ligando pra polícia. Ah rapaz, mas a palavrinha “polícia” é mágica aqui nos EUA! Foram eles me ver ligando pra polícia pra ficarem caladinhos, colocarem o rabo entre as pernas e ir embora!

Beleza, o que esqueci de citar é que depois de quatro anos de universidade pública você começa a entender a malevolência de bêbado. Todo mundo sabe que o cara quando tá bêbado ele se acha o cara mais engraçado, o mais gente boa, bom de briga e, claro, o mais esperto. Deu uns vinte minutos e eu fui dar um rolê por aqui pra poder ver se tava tudo certo. Qual não foi minha surpresa? Cara, eu tava andando por aqui, indo em direção ao jardim e eu só vi aquela “cachoeira” caindo nas plantas. Aquela cachoeira amarela! Doido, o cidadão tava secando a bexiga no jardim do hotel! Ah mermão! Pense num cara que ficou popêro? Nessa hora eu peguei mais ar que pneu de trator! Fui lá e, quando fui falar com o figura, pensa que ele parou de urinar? Que nada! Continuou falando comigo e urinando ao mesmo tempo! Como se nada de errado estivesse acontecendo! Juro que na hora deu uma vontade de rir danada, mas me contive.

Como sou um rapaz solidário, esperei o nosso amigo “tirar água do joelho” pra poder conversar com ele. Falei que pela última vez eu pediria a ele que se retirasse do hotel. Ele falou que já estava saindo.

Quando eu menos me espanto, eu vejo um serelepe PÉ atrás de uma laranjeira no jardim. Mermão, eu já vi pé de laranja, mas laranja com pé foi a primeira vez na minha vida! Fui lá atrás da árvore e constatei o inevitável, o outro cara tava dormindo, deitado no meu jardim! Eu “disse pronto”, o poste quer urinar no cachorro, o capeta quer espetar o diabo, o mendigo que se dar bem em cima do maranhense! Pensei em explicar pro cidadão que a função principal de um hotel é fazer com que as pessoas DURMAM dentro dele e NÃO DO LADO DE FORA dele! E claro, que as pessoas pagam CARO pra poder dormir na parte de dentro, já que isso aqui não é República do Potro (minha república estudantil em Brasília)! Me contive e mandei ele capar o gato e ir embora, porque dessa vez eu realmente tava pensando em chamar a polícia! Ele se levantou e o outro bêbado foi ajudá-lo a ir embora do hotel.

Peguei, voltei pra recepção e fiquei observando se o cara iria embora ou não. Cara, depois que esse bicho se levantou é que foi engraçado! Eu fiquei aqui dentro, sadicamente, admirando aquele belo balé alcoólico que o embriagado cidadão parecia dançar, quando na verdade ele tentava apenas se levantar, andar e ir embora do estacionamento! Ele não andava, doido! Ele na verdade se remexia que nem um boneco de posto, dava três passos e se espatifava no chão que nem uma jaca! Era aquilo que certa vez o Guimarães Rosa chamara de “embriagatinhar”. Bicho, mas não eram umas quedinhas “véia besta” não! Não era aquela queda que você vai caindo, vai caindo, vai se desequilibrando, vai caindo e rebola no chão! Eram umas quedas “federais” mesmo, caía de maduro! O bicho chega quicava quando batia no chão! Eu ria que me mijava aqui de dentro. Eu cheguei até a contar, ele caiu seis vezes no chão. Uma queda mais bonita que a outra! Eu confesso que não liguei pra polícia porque fiquei com pena do cidadão e também porque ele me rendia boas risadas. Pombas, quem nunca ficou bêbado que jogue a primeira pedra! Que ligue pra polícia pra terminar a festa do vizinho!

Depois de capotar no chão por diversas vezes, eles começaram a ir embora. Fiquei observando e quando eles já estavam fora do estacionamento, andando pela calçada do hotel, o cara DESABOU! Mas eu nunca tinha visto isso, brother!! Ele desabou, caiu de uma vez!! Na hora a primeira coisa que eu pensei foi: – Abateram o cara! Um head shot de um sniper (um tiro na cabeça de um atirador de elite)! Cataplof! Bêbado ao chão novamente! Só que dessa vez ele não caiu com a cara na brita, caiu num gramado que tem na calçada aqui do prédio. Nessa hora eu entrei aqui na recepção e comecei a procurar o telefone da polícia.

Depois de tirar o telefone do gancho, mais uma vez fiquei com pena dos cidadãos, fui lá e sacudi o cara, falando que daquela vez era a última vez que eu falava! Voltei e ele nem se mexeu, desmaiado de bêbado. Confesso que até pensei em ligar pra polícia, mas aquilo ia dar uma dor-de-cabeça danada. E liga pra polícia, e explica pro policial, e explica pro gerente, e explica pros hóspedes que vierem aqui perguntar o porquê da polícia… Aí já viu, deixei ele lá. Caso o gerente me perguntasse no outro dia, ia falar que não vi, já que ele estava bem longe da recepção.

Quando foi de manhã, eu fui lá ver se o cidadão ainda tava dormindo. Não deu outra, ele tava lá jogado no gramado. Não era deitado não, era jogado mesmo! Você percebia claramente que ele não tinha deitado pra dormir, já que a posição era estranha e claramente ele estava desconfortável. Parecia até um cachorro atropelado! Parecia um ovo estrelado! Das duas uma, ou ele desmaiou e dormiu ou ele desmaiou, bateu com a cabeça e morreu. Eu fui embora antes de ser acusado de homicídio culposo ou de não dar assistência à vítima.

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Homeless – moradores de rua

Cara, eu sempre pensava em postar algo relacionado aos MILHARES de mendigos que temos aqui em Santa Bárbara, mas sempre ia me esquecendo. Eis que um dia eu fui comprar Big Macs mágicos de um dólar no McDonald’s e me deparei com uma singela tranca na porta do banheiro que mais parecia uma daquelas trancas de cofres.

Comecei a pensar que lógica tinha aquilo, disponibilizar um banheiro no estabelecimento, mas ao mesmo tempo colocar uma tranca de cofre pra ninguém entrar. Depois de algum tempo matutando, percebi que havia um espaçozinho para que fosse posto uma moeda dentro. Fui ao caixa e descobri que pra poder usar o banheiro deles, ou você paga 25 centavos, ou, ao comprar algum lanche no McDonald’s, eles te dão uma moedinha especial que você coloca dentro pra poder usar o banheiro. Conversando com amigos descobri que eles tiveram que tomar essa medida especial devido ao IMENSO número de mendigos que tem aqui na cidade vagando pelas ruas. Antes deles implementarem esse sistema de “banheiro cofre”, muitos mendigos iam lá, usavam o banheiro e praticamente tomavam banho na pia da parada, deixando uma bagunça imensa, além do inconveniente de ter um mendigo fedorento dentro de um restaurante.

Depois comecei a prestar atenção e percebi que TODOS os estabelecimentos de Santa Bárbara ou tem banheiros como os citados, ou enchem de cartazes as suas vitrines dizendo que seus banheiros não são públicos. Não raro, você vê funcionários de lojas enxotando mendigos que tentavam malevolentemente utilizar os banheiros.

É engraçado você ver esses caras pelas ruas daqui. No Brasil, quando você vê alguém jogado na rua, você fica até com pena, porque, cá entre nós, a vida no Brasil é difícil e, apesar dos inúmeros programas sociais do governo, não é tão fácil conseguir um emprego e pagar suas contas.

Mas aqui, doido? Porra, é como eu já falei pra vocês! Eu cheguei aqui com visto temporário, inglês marromeno e sem conhecer ninguém, em menos de três semanas já tava com a vida engatilhada. Esses mendigos são todos americanos, falam inglês nativo e podem trabalhar quantas horas quiserem. Porque eles viram mendigos então? Chega a ser engraçado quando você, depois de uma jornada de trabalho de 12 horas em um dia, está no caminho de casa, só o bagaço da laranja e chega um mendigo desses e te pede um trocado! Dá vontade de desmembrar um cara desses, não dá? No Brasil, quando alguém me pede dinheiro, se eu tiver uns trocados, umas moedas, eu até dou, se não tiver nada, eu até digo educadamente que realmente não tenho e até troco uma idéia com o cidadão, pois, como disse, dá pena ver alguém marginalizado no Brasil. Aqui? Esses caras vem falar comigo eu faço questão de virar a cara e deixar eles falando sozinho.

Ao contrário da questão social que leva à mendicância no Brasil, aqui nos EUA grande parte desses mendigos ou são hippies preguiçosos que não saíram da loucura de Woodstock até hoje ou nativos que se envolvem com drogas e acabam caindo nesse mundo. Dar dinheiro é apenas mais um meio de mantê-los se drogando e coisas do tipo. Só pra vocês terem uma idéia, grande parte desses caras têm a minha idade que eu e não aparentam nenhuma deficiência física ou mental, só a preguiça de trabalhar mesmo.

Outro dia teve um que foi até engraçado. Eu tinha gastado quase 15 minutos pra ir pro McDonald’s mais próximo pra poder comprar dois Big Macs mágicos e na hora que eu tou voltando, um vagabundo me veio com a seguinte frase:

– Oi amigo, será se eu poderia ficar com o seu lanche?

Não precisa dizer que deu vontade de enfiar os Big Macs no “…” dele, né? Pombas, pensei em falar “Claro, por que não? Por que não gastar 30 minutos da minha vida pra depois dar minha comida pra um vagabundo!”, mas me contive e apenas o ignorei como de costume.

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Trabalhos e trabalhos

Cara, trabalhar pela madrugada é bom, pena que passa rápido! É engraçado como às vezes eu passo sete, oito horas, sentado aqui e parece que foi meia hora! Acho que é porque eu já tou acostumado.

O mais engraçado é que aqui parece o banco da Praça é Nossa do Manuel de Nóbrega, cada vez vem uma figura diferente pra poder fazer o check-in ou o check-out. Outro dia troquei uma idéia com um cara que foi, nada mais, nada menos, que o médico particular do rei saudita, ou seja, o cara tinha grana pra dar a rodo! Interessante que ele ligou aqui pedindo um café e enquanto eu falava com ele, ele me perguntou se eu era brasileiro, por causa do sotaque. Ele foi a primeira pessoa que me perguntou isso desde que cheguei aos EUA, já que geralmente as pessoas escutam meu sotaque e acham que eu sou mexicano (até porque eu tou parecendo um, com esse cabelo comprido). Quando fui levar o café pra ele, ele falou que reconheceu meu sotaque porque ele tinha um escritório em Porto Alegre e trabalhou durante muito tempo por lá… Ficamos conversando um tempão, principalmente sobre a Arábia Saudita, um país que sempre quis visitar, mas que é impossível, dado que dificilmente eles liberam vistos de turistas.

Enquanto a gente conversava, ele me contou uma vez sobre uma conversa que ele estava tendo com o rei saudita. O rei foi lá e perguntou pra ele se dava pra fazer muito dinheiro trabalhando com medicina aqui nos EUA (o cara é especialista em coração), ele falou que se faz menos dinheiro com medicina do que com petróleo. O saudita, foi lá e perguntou quanto que ele cobrava pra poder abrir um peito de uma pessoa doente, no que o médico prontamente respondeu “cinco dólares”. Cinco dólares? Perguntou o rei. Mas como é que vocês fazem dinheiro lá? O médico respondeu: – Uai, a gente não faz dinheiro pra abrir, mas sim pra fechar! Pra fechar é um milhão de dólares! Se não quiser pagar, não tem problema, largo aberto!! Hahahaha. Contando assim parece ser sem graça, mas na hora foi muito engraçado. Segundo o médico, o rei falou que não ria de uma piada como essa há anos.

Já a lua-de-mel com o meu outro emprego está acabando. Primeiro que, pra começar, a gerente iraniana agora deu pra, no final do expedientem quando tou lavando o chão, ficar gritando “Mais rápido, mais rápido!!”. Ela só pode ir embora quando eu terminar o serviço! A doceria fecha, todas as doceiras vão pra casa e acaba ficando só eu e a gerente na doceria, eu limpando e ela lixando as unhas e gritando “mais rápido”! Não sei vocês, mas não há algo que me deixe com mais raiva na vida do que eu estar limpando o chão ou varrendo e alguém ficar do lado sem fazer nada, mas dando palpite. Dá vontade de esfregar o cara junto! Agora, imagina, você depois de uma jornada de trabalho de oito horas, todo molhado e cansado, ainda tem que ficar ouvindo uma rapariga gritando “mais rápido”? A vontade que eu tinha de fazer era chegar pra ela e falar:

– Olha, só tem nós dois aqui! Se tu continuar a gritar “mais rápido, mais rápido” eu vou ali à cozinha, pego uma faca, corto tua garganta e depois vou embora pro Brasil. Não vai dar nem tempo pra poder achar teu corpo!

Eu acho que assim ela parava de gritar enquanto fica lixando as unhas (isso sim dá raiva de ver!).

A outra foi que, preocupado com a dona da parada, eu fui lá e avisei com mais de três semanas de antecedência que estava indo embora. Só pra vocês terem uma idéia, aqui no hotel, que eu tenho medo dos caras não aceitarem muito bem a minha saída, vou avisar com uma semana de antecedência. Por que eu avisei bem antes? Porque eu tava preocupado com a mulher, de como ela ia fazer pra poder conseguir outro lavador de pratos e por isso decidi avisar antes, pra dar tempo de ela procurar outra pessoa.

Ela também não se fez de rogada, arrumou outro cara e me cortou a última semana inteira de trabalho que eu esperava trabalhar por lá. Resultado? 170 dólares a menos pra viajar! Sem vergonha ela, bicho… Isso é que dá se preocupar com as pessoas! Eu também não me fiz de rogado. Vai me jogar na rua? Então agora eu quero é mais que se foda! Chego ao trabalho 15 minutos atrasados e coloco que cheguei na hora! Vou embora um horário e escrevo na minha tabuazinha de horários que trabalhei meia hora a mais (não tenho uma carga horária fixa, como o hotel, portanto fica difícil eles controlarem!) e assim vou indo! Se todo dia eu roubar 45 minutos, no final recupero parte dessa grana! Só não pego as colheres e esfrego no traseiro porque eu sei que quem vai pagar vão ser os pobres dos clientes que não tem nada a ver…

Se alguém tiver alguma idéia de como eu posso zoar ainda mais a cozinha da mulher sem correr o risco de ser preso, estou aberto a sugestões!

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Café serelepe

Outro dia, eu cheguei aqui pra trabalhar e percebi que havia uma notinha escrita pela gerente na minha prateleira. Fui lê-la e lá havia um pedido da Hilda pra, se possível, toda manhã eu fazer café pra ela. Como não sei fazer café aqui, fui lá e perguntei pra Liz, aquela recepcionista enjoada que eu falei há alguns posts atrás, como eu poderia fazer pra poder fazer café toda manhã.
Ela falou que não era necessário eu me preocupar com aquilo, porque aquilo não era a minha função. Segundo a Liz, a gerente estava fazendo aquilo só pra poder me pressionar e que eu não deveria fazer o café pra ela. Nessa hora eu fiquei pensando “Pombas, a pipa do marido dessa mulher não deve subir há muito tempo”. Velho, pra que diabos eu vou querer arrumar confusão no serviço? Quer dizer, pra que diabos eu vou arrumar confusão no serviço que não o da doceria? Ainda mais com a gerente? É por isso que toda vez a Liz pega grito de um hóspede diferente! Eu fiquei até imaginando eu, no outro dia de manhã, falando com a gerente: “Não, eu não fiz o seu café porque eu não aceito pressão! Se você quiser, você mesmo vá lá e faça!”. Pombas ela é a gerente! Quer café? Faço!! Com açúcar ou sem açúcar? Quer chantilly? Não tem chantilly? Vou comprar, peraí! Eu vou procurar uma mula pra eu andar de noite? Pra eu sentar em cima? Vou nada…
Mas então, eles foram lá e acharam de me ensinar como se faz pra poder fazer o café. Você pega o pó de café, coloca no coador. Coloca o coador dentro de uma espécie de funil embaixo de uma máquina que jorra água quente. Pega a garrafa de café, coloca embaixo do funil. Aperta o botão verde e, supimpa! O café ta pronto!! Perguntei se havia algo a mais pra eu poder me preocupar? Foram lá e falaram que não! Que era pra fazer aquilo e nada mais!
Então beleza, decorei a ação “pó de café, coador, funil, máquina, garrafa de café” e todo dia, quando lembrava, ficava fazendo isso. Eis que um belo e serelepe dia, eu coloquei a garrafa de café embaixo e voltei pra recepção. Quando eu volto, tava aquele MAR NEGRO jorrando no chão da cozinha! Nessa hora eu só pensei o óbvio: – Tou demitido! Como já tava quase na hora do cozinheiro chegar, eu fui lá e fiquei esperando o figura pra poder saber o que eu tinha feito de errado!
O cozinheiro, ao chegar e ver aquela bagunça, ficou enfurecido!! Perguntou como eu poderia ser tão burro a ponto de fazer aquilo! Eu sem entender nada porque tinha acontecido aquilo ficava só me perguntando que besteira eu tinha feito. Depois de um tempo xingando que eu fui perceber que ele tava falando: – Como você pode ser tão burro a ponto de não CHECAR SE HAVIA CAFÉ NA GARRAFA ANTES DE COLOCAR MAIS CAFÉ?? Haehaheahahe…
Pombas, eu fui lá no “pó de café, coador, funil, máquina, garrafa de café” e acabei esquecendo de checar se tinha café antes. Resultado? Café pela cozinha inteira!! Pô, ninguém me avisou que tinha que checar a garrafa de café antes de colocar e eu tenho certeza que vocês também não perceberam que tinha que fazer isso!! Hheehe. Pô, será se sempre eu tenho que pensar em tudo?

Claudiomar e a volta ao mundo

Tá complicado conseguir manter as atualizações do blog na sexta. Mais uma vez a jornada extenuante de trabalho conseguiu exaurir as minhas forças e mais uma vez o blog vai atrasado.
De novidades apenas que, enfim, essa vida de trabalhar como um cavalo tá se acabando. Provavelmente daqui a três posts estarei postando do Havaí e se Deus quiser tudo vai ficar mais legal e, principalmente, engraçado.
Os posts abaixo estão relacionados à reviravolta que ocorreu na minha viagem depois de saber que não posso aplicar pro visto pro Japão e um pouco sobre o meu trabalho e mão-de-obra aqui nos EUA.
Antes de começar os posts em si, gostaria apenas de compartilhar as buscas no Google cada vez mais estranhas que acabam levando ao meu blog. Eu já falei disso, mas volto a comentar. Cara, TODO SANTO DIA, tem alguém que procura alguma coisa relacionado a homens das cavernas no Google e acaba caindo no blog. Mas todo dia MESMO! É foto de homens das cavernas, é estilo de vida de homens das cavernas, é comida dos homens das cavernas… Tudo que você imaginar! Eu realmente queria entender esse fetiche estranho dessas pessoas por homens das cavernas…
Outra busca engraçada foi a de um cara que digitou a seguinte frase: “Depois que imprime a primeira folha, na segunda folha a impressora fica maluca”. Exatamente com essas palavras, copiei literalmente. Que problema ele quis explicitar, eu não sei…
Mas a melhor pra mim até agora foi: “Como fazer sexo com primas”!
Sim, o nosso amigo digitou no search do Google literalmente essa frase. Eu fiquei até imaginando a cena! O moleque vai à reunião de família, naquele almoço na casa da avó, olha a prima dele de top e mini saia e já sai fissurado! Depois de sair do banheiro, ele se lembra de ouvir alguém falar que o Google sempre sabe de tudo, logo, vai lá e entra no Google à procura de um manual do tipo “Como pegar sua prima ninfetinha”… Fiquei até imaginando como seria o manual: 1- Compre umas cervejas, 2 – Espere seu tio ir tirar aquela soneca depois do almoço, 3 – Chame ela pra jogar “Banco Imobiliário”… Hheehhe

Mudança de planos

A cada dia que se aproxima a data da minha viagem pro Havaí eu vou cada vez mais ficando mais ansioso. Não vejo a hora de sair dessa vida de trabalho de manhã, de tarde e de noite e cair de vez na viagem propriamente dita.

Houve uma mudança de planos. Eu estava planejando viajar pelo Japão e depois prosseguir viagem pela China e Coréia do Sul. Só descobri esses dias que, não sei por que cargas d’água, brasileiros não podem aplicar pra visto de turista estando aqui nos EUA. Não é que meu visto foi negado, a parada é que eles SEQUER aceitam que você aplique estando daqui.
Uma das explicações mais plausíveis que achei foi que, devido ao grande fluxo de brasileiros descendentes de japoneses de volta ao Japão, os japoneses encontram-se mais cautelosos em relação aos brasileiros ou latinos em geral. Essa cautela se explica pelo fato de que muitos brasileiros que adquirem cidadania japonesa e voltam ao Japão, muitas vezes não conseguem se acostumar com a cultura (cá entre nós, cultura japonesa é um pouquinho diferente da cultura brasileira) e acabando se envolvendo com a criminalidade. Um amigo meu que morou lá durante cinco anos, falou que os brasileiros que vivem no Japão são como os mexicanos que vivem aqui nos EUA, em sua maioria vistos como possíveis criminosos e tráficantes..
Tudo bem, existem alguns males que vem para o bem. Pesquisando mais pude perceber que ia gastar MUITA grana no Japão, já que o país é MUITO caro (uma banana lá pode custar a bagatela de um dólar) e meu orçamento não tá essas coisas. Refiz o meu trajeto de viagem e cheguei até mesmo a cogitar em ir pra Nova Zelândia e depois Austrália, mas também abandonei a idéia devido, mais uma vez, ao fato de tais países serem ricos e, portanto, caros. Tou pensando mesmo é em adicionar mais paradas na Europa e mudar minha passagem pra pousar diretamente em Brasília, o que quebraria um galho já que é mais próximo de São Luís.
Tirando esse fato da passagem, a outra dor de cabeça que eu tou tendo é que, justamente NO ANO EM QUE RESOLVO VIAJAR, acha de estourar essa crise dos Estados Unidos e desvalorizar o dólar em nível mundial. O que mais me assusta, com certeza é a valorização absurda que o Euro vem sofrendo, o que me faz cada vez mais acreditar que o mochilão na Europa vai ficar pra próxima. Heheheheheh

Saindo do emprego

Já que estou quase pra ir embora, resolvi logo avisar a chefe da doceria pra ela não ter problemas em contratar uma nova pessoa para ficar no meu lugar. Eu já estava suspeitando e depois ela me confirmou que a minha saída vai dar um problemão pra ela, já que, achar alguém que deseja trabalhar como Dishwasher, recebendo o salário mínimo, nos Estados Unidos, está cada dia mais difícil.
Existe aquele velho clichê que alguns pseudo-intelectuais sempre colocam como se fosse um fato indiscutível. Há vários empregos que “americanos não querem trabalhar” porque são muito pesados e americanos são preguiçosos e frescos, portanto não querem fazer esse tipo de trabalho. Esse pensamento tem o seu quê de verdade, mas não porque, como pregam esses imbecis (na maioria professores de História ou Geografia do segundo grau), americano é preguiçoso, mas sim porque precisa ser muito burro pra poder querer trabalhar num emprego desses sendo americano.
Para exemplificar vou falar do meu perfil assim que cheguei aqui nos EUA. Brasileiro, com inglês macarrônico, visto de trabalho legal, mas temporário. No meu primeiro dia de trabalho não tinha casa, registro de trabalho, não tinha experiência e não conhecia ninguém. Apesar de todos esses problemas, em três semanas já tinha arrumado casa e trabalho de 40 horas por semana, super sossegado e que me paga 10 dólares por hora. Agora me responda, pra que diabos um americano, com todos os documentos, que conhece várias pessoas aqui na cidade (portanto se quiser arrumar trabalho é só ir perguntando pros amigos que rapidamente pode achar), tem inglês como língua mãe e pode trabalhar aqui pelo resto da vida (uma garantia importante pra quem vai contratar) vai querer trabalhar num emprego, que é pesado como sono de surdo, ganhando 8 dólares por hora? É CLARO que eles não querem trabalhar com isso. Se nem eu, que tenho visto de trabalho temporário queria um trampo desses, pra que um nativo vai querer se meter nessa?
O mais interessante não é isso, o mais interessante é que nem os amigos que moram comigo, que só podem trabalhar ilegalmente, querem trabalhar como Dishwasher. Porque eles não querem trabalhar como lavadores de prato? Apesar de ilegais, todos falam inglês muito bem, logo podem conseguir um trabalho igual ao meu do hotel ou como caixas de loja de conveniência. O contratante também pode se dar bem, já que pode adquirir mão-de-obra extremamente qualificada, educada e com um inglês satisfatório pagando um salário mínimo (já que como estão ilegais, eles aceitam trabalhar recebendo menos). No final acaba saindo bem pra todo mundo.
Deu pra entender? É por isso que só mexicano, totalmente ilegal, que acabou de pular o muro e não fala nenhuma palavra em inglês, costuma aceitar um trabalho como esse. Eu só aceitei esse trabalho porque eu já estava quase para ir embora dos EUA e ninguém ia me contratar pra trabalhar por apenas um mês em um trabalho razoável. Ainda sim, deixei bem claro pra dona da parada, que só aceitava trabalhar lá se recebesse um pouquinho mais que o mínimo, afinal, tenho meu orgulho, né?? Hehehehe.
Isso tudo, é pra demonstrar que fechar as portas do país a imigração de mão-de-obra barata, pode levar, a curto prazo, a uma crise na economia. Se passasse no Congresso aquela lei que os republicanos queriam aplicar, de que, estar ilegal no EUA passaria a ser crime, o país ia desforra. Hoje, se você é pego ilegal nos EUA, eles apenas te colocam numa caixa e te mandam pra casa. Se ficar ilegal nos EUA fosse crime, você ia ser pego, julgado e se condenado teria que pagar uma multa ou amargar uns meses na cadeia, o que faria muita gente voltar pra casa.
Se hoje já está difícil arrumar pessoas para trabalhar em serviços caros e mal pagos, imagina como seria se todos os ilegais voltassem pra casa? Além de faltar gente pra trabalhar, eles iam precisar pagar MUITO mais caro pros americanos aceitarem trabalhar com isso (se pagassem 12 dólares por hora pra lavar prato eu largava fácil o meu trabalho de recepcionista). Imagina os fazendeiros tendo que pagar 20 dólares por hora pra ter quem trabalhe na colheita? Isso ia aumentar consideravelmente o preço final do produto deles e seria impossível competir com um país como o Brasil que o salário mínimo pago em um mês é igual ao que eles pagam em três dias de trabalho…
Simples fechamento dos portões da imigração levam ao caos. Você pode até aumentar o salário da sua população média ou de baixa qualificação, mas perde muito em competitividade. Por isso que os governos dos países desenvolvidos tentam sempre controlar e chegar a um meio termo entre bons salários e competitividade.

Trabalho entre mulheres

Cara, uma outra característica de só trabalhar com mulheres, além de não ter um brother pra comentar dos atributos femininos das companheiras de trabalho, é que tudo, absolutamente tudo, é motivo pra estourar um barraco dentro da doceria.
Primeiro teve um dia em que uma mulher, pra poder entrar e comprar uns bolinhos, estacionou o carro em local proibido e levou aquela canetada! Ah rapaz, não prestou! A dona da loja foi que parecia um bicho pra cima da guarda de trânsito gritando que aquilo não tava certo, que a mulher só tinha parado ali por alguns minutos e pê pê pê pê pê. Ichi, mas abriu aquele barraco no meio da rua, com todo mundo gritando com todo mundo e xingando.
Tecla Pause
Cara, é engraçado como o simples fato de você começar a trabalhar com uma vassoura, mesmo que por alguns minutos, parece fazer com que encarne uma alma de empregada doméstica dentro de você. Falo isso porque não importa o que aconteça, sempre que rolar algum babado forte na sua casa, a primeira pessoa que vai saber sempre vai ser a empregada. Comigo é a mesma coisa! Rola um babado fortíssimo na doceria, eu sempre sou o primeiro a saber e a postergar a fofoca pra todo mundo!
Tecla Play
Eu, vendo aquela papagaiada toda, com a vassoura a tiracolo (e conseqüentemente a alma de empregada…), também não me fiz de rogado, fingi que ia varrer do lado de fora e meti a cara pra ver o que tava rolando. Depois de alguns minutos de ameaças de ambas as partes e da minha torcida pra elas se atracarem, acabou que não deu em nada. A policial saiu xingando a dona da doceria, que saiu xingando a policial e a cliente foi embora com os cupcakes e a notinha da multa na mão. Após a contagem entre mortos e feridos, descobri que o barraco inteiro rolou por causa de uma multa estacionamento de meros quarenta dólares. Dá pra acreditar nisso? Por quarenta dólares, a dona da doceria quase levou uma “voz de prisão”! Pombas, é mais barato que no Brasil…
O outro barraco é que tem uma menina que trabalha duas vezes por semana que fala mais que o homem da cobra. Eita, mas a menina parece uma metralhadora, não pára nunca… Ela fala tanto que até as doceiras não agüentam mais ela. Outro dia eu cheguei pra trabalhar e tava a Sarah, a gerente gente boa, sentada no escritório olhando pra cima. Perguntei se ela tava pegando um break (intervalo) e ela falou que tava lá porque não agüentava mais ouvir a menina falando. Ixi, mas quando termina o horário dessa menina é todo mundo falando mal dela.
Eu que já perdi um emprego uma vez porque falava demais até me solidarizei com a pobrezinha. Eu sei como é essa vida de ninguém entender as pessoas que falam pelos cotovelos…

Claudiomar e a volta ao mundo em: Pra não dizer que não falei das flores

Amigos, pra não dizer que não falei bem da cidade, posto a foto abaixo. Gosto bastante dela porque ela ilustra o que Santa Bárbara tem de mais bonito, que são as montanhas ao fundo. Andando por aqui, fica a impressão de que a cidade meio que contorna essas montanhas. Elas costumam ficar azuis ao nascer do dia, como pode ser visto nessa foto que tirei ao sair do trabalho (sim, dessa vez falei certo, “nascer do sol”, ao invés de “pôr-do-sol”).

No decorrer do dia deixam um visual bem legal pra se ficar admirando, como pode ser visto nessa foto abaixo que tirei logo após comprar meu PSP (glorioso PSP!!)

Gostaria de agradecer as diversas pessoas que vêm postando no blog, me adicionando no MSN ou mandando e-mails. Fico feliz que várias pessoas estejam lendo e gostando desta fase que ainda é algo como um “aquecimento” para minha viagem, portanto tende a ser um pouco mais monótona. Só gostaria de pedir atenção as pessoas que não conheço e que costumam postar no blog para deixar os seus contatos se quiserem conversar sobre algo relacionado à viagem. Já aconteceu algumas vezes de alguém postar nos comentários pedindo alguma resposta e não deixando o contato. Aí fica difícil, né? Hehehe
No mais é isso, o blog dessa vez vem com uma história do “RÁPA” chegando pra conferir a nossa doceria e fotos dos utensílios do nosso amigo ucraniano. Dessa vez não vou pedir desculpas pelo atraso no blog, pois demorei a postar pelo simples fato de não ter assunto. Essas duas histórias que vos escrevo só foram acontecer após o período normal de postagem do blog.

Sujou! Sujou!

Cara, esses dias aconteceu algo engraçado lá no trabalho!
Cheguei, como de costume, às três horas pra poder trabalhar e, quando entrei na cozinha, notei que havia alguém diferente. Pra falar a verdade era um homem e não era dishwasher.
De início, já deu pra notar que o nosso amigo detinha modos estranhos, já que, ostentava uma bela pochete amarrado à sua cintura. Pô, cara, tem gente que fala que usa pochete porque a parada dá uma ajuda danada, mas, pra mim, aquela singela bolsinha amarrada na barriguinha proeminente deixa com um ar de fresco indescritível… Mas pois é, pela pochete eu pude perceber que algo bom não estava por vir.
Beleza, como de costume fui direto ao banheiro pra poder trocar a minha camisa e colocar a camisa do trabalho. Quando saio do banheiro, a chefe foi lá e me apresentou a figura. O cara era, nada mais, nada menos, que o representante da vigilância sanitária chegando à doceria! Mermão, resumindo, o cara era o “RÁPA”!! A casa caiu!!
Pela primeira vez na vida, após várias cozinhas já trabalhadas, tive contato com alguém da defesa sanitária. A maior ironia é que pela primeira vez a cozinha não era infestada de baratas e nem eu não torcia para que os responsáveis pela cozinha rodassem.
Mas beleza, fui lá e já comecei a agir como todo brasileiro age quando está diante de uma autoridade que tem poder pra azucrinar a sua vida: Sorrindo e tentando ser o mais simpático possível. De antemão, quando ele me foi apresentado, falei um “prazer meu nome é Claudio” e fui lá cumprimentar o figura. Foi quando veio a melhor parte. Estendi a mão e fiquei no famoso “vácuo”, já que o nosso amigo, o “senhor de pochete” se recusou a apertar a minha mão com a justificativa de que “já tinha lavado as mãos” (!!!!). Nessa hora, definitivamente, deu pra perceber que o nosso amigo pertencia ao grau mais alto de frescura, daqueles que na hora de transar, tiram a roupa, dobram, colocam em cima do criado mudo e depois consumam o ato. Porra, o que será que ele quis dizer com “já lavei as mãos”? Tá certo que eu sou o Dishwasher e faço todo o trabalho sujo da parada, mas caramba, o cara não tava ali pra cozinhar, tava só pra fiscalizar! Além disso, o cara tinha um tique MUITO irritante de ficar apertando e soltando a tampa da caneta que ele tinha na mão. Típico ato de nerd idiota.
Tentei, na medida do possível, ignorar a existência de um cidadão com poder de vida e morte sobre meu emprego dentro da cozinha e fui lá fazer o meu trabalho, fui terminar de lavar os últimos utensílios de cozinha que ainda jaziam na minha pia pra depois começar a lavar o chão. Rapaz, mas foi eu ligar aquela torneirinha da pia, pro senhor pochete começar a me azucrinar e a me falar uma pancada de coisa pra fazer. O pior que o inglês do bicho era enrolado que só rabo de porco e eu não conseguia entender nada. Enfim, em situações como essa é só balançar a cabeça e fingir que tá entendendo tudo.
A melhor do figura, foi quando o nosso amigo descobriu alguns ovos que se encontravam fora da geladeira. Ixi, mas ele soltou as penas quando viu aquilo. Soltou a franga mesmo!! Com as mãozinhas balançando no ar e tudo!! Falou que não podia, que não era permitido, que ovos NUNCA deveriam ficar fora da geladeira a não ser na hora que fossem consumidos. Pagou um sermão pra dona da parada, pegou os ovos e foi jogar fora na lixeirona que a gente tem na parte de trás da cozinha. O cidadão fez questão de jogar os ovos pessoalmente porque pareceu que ficou com medo da gente tentar reutilizar aquelas paradas. Tudo bem, foi lá atrás e, na hora de jogar os ovos fora, fez a gentileza de deixar cair metade dos ovos na parte fora da lixeira, fazendo uma bagunça danada e, claro, colocando tudo na conta do Dishwasher, que tinha deixado os carpetes da cozinha pra secar próximo ao local e depois teve trabalho em dobro, lavar os carpetes e lavar o chão que o imbecil sujou inteiro.
No final o senhor pochete foi embora e acabou não aplicando nenhuma multa, mas deixou avisado que ele ia voltar depois de duas semanas pra ver se tudo estava em ordem (leia-se: os ovos estavam na geladeira) e que a visita ia custar a bagatela de 150 dólares por hora
Façam as contas…