Servidor Público nas horas não-vagas, escritor nas vagas e mochileiro nas horas felizes. Formado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, Claudiomar ainda procura algo pra utilizar os seus conhecimentos adquiridos na graduação. Devido a este fato viaja e escreve análises socio-economicas sobre o Brasil e pelos locais que passa. Enquanto não viaja, destila toda a sua pseudo-intelectualidade sobre política nacional
A última cidade do Irã que visitei acabou sendo Teerã. Ao contrário das outras cidades persas que tem milhares de anos, Teerã é relativamente nova. Demorou tanto a ganhar importância, que inclusive nem chegou a ser murada (a maior parte das grandes cidades medievais eram muradas para evitar invasões).
Teerã é uma metrópole com sete milhões de habitantes e principal centro financeiro e político persa. A gente acha que vai chegar no Irã e encontrar várzea, mas se impressiona quando chega a Teerã. A cidade tem parques para todos os lados e é bem parecida com São Paulo. E, assim como São Paulo, tem um trânsito caótico! Para andar de carro em Teerã, só com o Waze (é engraçado e irônico que um aplicativo de celular israelense nos salvava por lá).
Depois de Esfahan seguimos para Abyaneh. Era uma cidade escondida no meio das montanhas e, de tão isolada, falava um persa muito arcaico, semelhante ao falado no começo do milênio. A cidade era bem charmosa, mas passamos só uma noite lá.
Ciro em frente a placa de mais um Mártir da Revolução Islâmica
Os iranianos gostam bastante de acampar. O que no Brasil seria uma farofa, lá é uma importante fonte de entretenimento.
Depois seguimos para Kashan, uma cidade bem interessante e que, por um curto período de tempo, foi capital do Irã sob a dinastia dos Qazars, reis de origem azari (do Azerbaijão). Sim, assim como a China foi governada um tempo pelos mongóis, os persas também foram governados por estrangeiros. O mais interessante em Kashan (além dos palácios) era um esconderijo subterrâneo que foi construído para se proteger das invasões mongóis.Esse esconderijo foi feito porque à época das invasões dos mongóis, o bagulho era feio mesmo. Não existia meio termo, se ganhassem a batalha, matavam todos os homens, estupravam as mulheres (e as transformavam em escravas sexuais) e escravizavam as crianças. E a gente hoje se achando porque faz textão no Facebook reclamando do governo! Devido a isso, o povo de Kashan fez meio que uma cidade subterrânea para se esconder quando os mongóis passassem. É a cidade subterrânea de Nooshabad. Mano, o lugar era engenhoso demais!
Qnat para abastecimento de águaÀ esquerda era um “quarto” para uma família de até cinco pessoas
Lá dentro passava um qnat (não lembra o que é qnat? Clica aqui) para abastecimento de água. Túneis que levavam até o topo garantiam ventilação. E, assim, o lugar parecia que tinha sido planejado para um filme do Indiana Jones, porque era um labirinto e com várias armadilhas. Apesar de estar a dezena de metros do chão, não fazia tanto calor e havia um clima fresco lá dentro, até um pouco de frio, tamanha a engenhosidade do sistema de ventilação do lugar.
Imagem de um monarca iraniano com roupas turcas, típica da dinastia dos Qazars
O Zigurate de quase 10.000 anos atrás que expliquei mais neste post
Depois de Parságada, seguimos para Esfahan. Ela já foi capital do Irã e hoje é o principal destino turístico do país. Destaca-se a sua praça principal, a segunda maior do mundo (a primeira é a Tiananmen, na China, que é bem mais sem graça). Ao chegar ao Irã, imaginava que, devido a má fama do país pelas nossas bandas, quase não haveria turistas por lá. Ledo engano. Cara, tem hordas e hordas de turistas por todos os cantos nas cidades iranianas que visitei. Nem em cidades brasileiras vi tanto gringo. E não faltam lugares para visitar, pois, com mais de 4.000 anos de história, a civilização persa rivaliza com a chinesa e a indiana em matéria de antiguidade. Esfahan era cheia deles.
Veja a impressionante acústica das mesquitas de lá. Parece que o cara tá cantando com alto falante
O principal centro arquealógico do Irã é, sem sombra de dúvidas, Persépolis.
Apesar da primeira capital do Império persa aquemênida ter sido Pasárgada, o rei Dario I empreendeu a construção deste massivo complexo suntuoso, ampliado posteriormente por seu filho Xerxes I e seu neto Artaxerxes I. Persépolis foi então o símbolo da força e do Império Persa. Foi construída em uma região remota e montanhosa, sendo bem conveniente para ser visitada durante a primavera.
Quando Alexandre Magno conquistou o Império Persa, saqueou e incendiou Persépolis, algo não tão comum em Alexandre, que preocupava-se em misturar e incorporar os impérios que conquistavas por meio da cultura helênica. Disse que isso ocorreu devido a um pedido da esposa de Alexandre para se vingar do saque ocorrido anteriormente em Atenas pelos persas.
Os afrescos, as colunas, as esculturas são testemunhas do que foi o Império Persa daquele tempo. Em um mural é possível ver povos turcos, romenos, africanos, indianos, assírios… trazendo presentes para o Imperador da Pérsia que governava o maior Império já conhecido pelo homem.
O lugar tava até bem preservado (para um sítio de 2.500 anos!) e a guia que nos auxiliou foi realmente muito boa. Se alguém por aqui estiver lendo sobre o Irã e quiser sugestão de guia para Persépolis e Pasárgada, sugiro demais fechar com ela. Se chama Elahe, fala inglês bem e o Telegram dela é +989365001507. Também responde pelo e-mail elaheh.talebi@gmail.com. Se entrar em contato com ela por meio do blog, só diz que fui eu que indiquei. Não ganho nada com isso, mas é só uma forma de agradecimento por ela ter sido tão gente boa.
Sim, mano, protegido até o olho! Lá fazia MUITO sol
De Yazd seguimos para Shiraz, cidade mais ao sul do Irã, mas antes passamos por Abarkuh.
Em Abarkuh não há muita coisa a se ver, porém a única atração vale a parada na cidade. Lá é possível ver a Cipreste de Abarkuh, uma árvore gigantesca e que é símbolo do Irã. Acredita-se que ela tenha 4.000 anos de vida e seja o segundo ser vivo mais velho de toda a Ásia. Mano, ela é gigantesca, tem 25 metros de altura por 18 metros de circunferência. É grande, mas ainda é menor que o Cajueiro de Natal =)
Um Basij, polícia religiosa, em AbarkuhA Cipreste de AbarkuhO cajueiro de Natal
Em Yazd, acabamos vendo tudo numa pressa danada porque no outro dia era Ashura, um dos dias mais importantes para os muçulmanos xiitas. Nesse dia eles comemoram o martírio do Iman Houssein (para saber mais a história dele, clique aqui). São dez dias de comemoração e quanto mais vai chegando perto da data da morte (que ocorreu em 1580), maiores e mais fortes vão ficando as celebrações. Durante a Ashura, o Irã inteiro para, pois fica celebrando o martírio e tudo fecha. Não chegar a ser um Shabat, que quase fez eu dormir na rua em Eilat, Israel (leia sobre a minha agonia no Shabat em Israel clicando aqui).
Ashura pela noite, Ashura pela manhã
Porém, depois de passar pelo lugar dos pombos malditos, ainda tínhamos que procurar algum lugar para ficar. O problema é que Yazd estava lotada e nada de a gente conseguir uma hospedagem. Depois de alguma luta, conseguimos um quarto de hotel (que acabou sendo o quarto mais caro que pagamos em toda a viagem), deixamos nossas coisas por lá e fomos conhecer a cidade. Como o dia era de celebração religiosa, fomos abordados algumas vezes por Basijs, a polícia religiosa, e toda vez eu ficava preocupado (apesar de não estar fazendo nada de errado, polícia sempre me deixa nervoso).
DE REPENTE, RECEBEMOS UM TELEFONEMA DO GOVERNO DO IRÃ!
Seguimos para Yazd que, conforme falei, é a cidade principal para os Zoroastras. Primeiro iríamos dar uma volta nela e depois acompanhar a celebração da Ashura, que vou explicar em outro post. Ciro tinha, de alguma forma, conseguido reservar um apartamento para gente. Quando chegamos o lugar era super agradável, só que não era só para gente. Iríamos ter que dividir. COM POMBOS! Rapaz, aquilo não era um apartamento, aquilo era um viveiro de pombo! Eu nunca tinha visto aquilo! Era pombo para todo lado. Pombo na janela. Pombo na sala. Pombo na varanda. Pombo na cama. Pombo na cozinha. Pombo em cima de pombo… Lugar sujo, sério, troço ruim mesmo.
Não tínhamos muita escolha. A cidade tava apinhada de gente, hotéis lotados e eu realmente comecei a considerar ficar por lá. Até a hora que o Ciro foi na sacada e viu um CADÁVER de um POMBO se decompondo e começou a surtar. É, aí já era um pouco demais. Cemitério de Pombo também não! Pegamos nossas coisas e acabamos indo embora. Continuar lendo “Irã – Em Yazd, dormindo em uma hospedaria da histórica Rota da Seda”→
A primeira cidade que visitamos no Irã foi Meyboud. Fomos ao Castelo Narin, feito de lama e palha há 2000 anos atrás. Pode parecer algo primitivo ou precário, mas bicho, as paredes eram duras como pedra e, de alguma forma, absorviam o calor de fora, deixando uma temperatura fresca e agradável dentro do castelo. Já foi um bom começo para entender como seria o Irã…
Sabia que os voos não iriam ser moleza! São muitas horas de viagem. Mas quando a viagem já começa a ter história antes mesmo de você chegar, é um bom sinal! Vamos lá, a saga até chegar no primeiro destino do Irã!
No primeiro voo, do meu lado, um cara de batina!
Aconteceu algo inusitado no meu voo de Brasília para Lisboa. Do meu lado foi sentado um padre. De batina e tudo. Era europeu e vivia no Brasil há mais de 14 anos. Fiquei conversando com ele quase umas duas horas e ele foi me contando o trabalho que fazia de proteção a famílias que foram expulsas de suas casas devido aos bandidos locais. Ele trabalhava para protegê-las e até mesmo acolhia algumas em sua casa. Atormentava ao máximo ministros, juízes, qualquer autoridade possível para pedir ajuda a essas centenas de famílias! Dizia que devido a isso, mandaram a seu whatsapp fotos da porta da sua casa e de sua paróquia, o ameaçando de morte. Na hora lembrei da missionária católica americana Dorothy Stang que foi assassinada no interior do Pará devido ao seu trabalho de proteção de trabalhadores rurais expulsos de suas terras pela grilagem.
Porém, o que mais me impressionou foi que, mesmo sendo ameaçado de morte, mesmo com os bandidos mandando fotos de pessoas esquartejadas (para o padre ver o que acontece com quem se opõe a eles), mesmo com medo, ele não transmitia sensação alguma de ódio, sequer de raiva. As suas palavras eram de paz, eram de pena, era a preocupação de como salvá-los da vida transgressora. Isso é muito doido, ainda mais lembrando que hoje em dia você quer matar alguém só porque pensa diferente de você e ele ali, tendo compaixão de seus carrascos. Continuar lendo “De Brasília até o Irã: três conexões, 29 horas de viagem e muitas aventuras com uma galerinha do barulho aprontando altas confusões”→