Los Roques – A Fernando de Noronha da Venezuela

Quando estava decidindo minhas férias, queria procurar um lugar que pudesse descansar e mergulhar um pouco e ao mesmo tempo me trouxesse um pouco de história, presepadas e aprendizagem, como sempre busco em minhas viagens. Los Roques me pareceu uma boa escolha por ser na Venezuela (quer um momento mais único que um país sob a batuta de Chávez, para o bem ou para o mal?) e ser uma ilha paradisíaca no meio do Caribe.
Los Roques vista do avião
Antes mesmo de chegar a ilha, já no caminho, como tudo na Venezuela, foi na tensão. Resolvi dormir em uma pousada que ficava perto do aeroporto para evitar perder o voo que saía bem cedo no outro dia. Na ida fui pego por um motorista filho de pais árabes e, como todo árabe, um cara super gente boa (pode isso, cara? Taxista e gente boa?). Ele me deixou na pousada, perguntou se eu queria trocar dólares (já que em Los Roques era impossível, segundo ele. Depois fui descobrir que era mentira. Bem, antes de árabe, ele era taxista, né?) e falou que no outro dia pela manhã iria me buscar. Fui dormir o sono dos justos sem nenhuma preocupação.
No outro dia pela manhã, saí da pousada e tinha outro cara me esperando. Blz, ele não ia me sequestrar, foi chamado pela pousada, era de confiança. Tudo escuro, quatro e meia da manhã, saio com esse bicho para o aeroporto. No caminho, ele começa “tenho que botar gasolina!”. Disse que sem problema e falei que ele podia colocar, já achando que era um golpe para poder me fazer pagar mais (já que a corrida era por conta da pousada). Lembrou-me até esse post aqui da Índia. Quando foi no terceiro “tenho que botar gasolina” e passando pelo segundo posto de gasolina fechado, percebo que, efetivamente, o tanque do cara tava no vazio. Tudo a noite, no meio de Caracas, com um bando de “manos” caminhando pelas ruas. E eu me sentindo dentro do carro cercado no melhor estilo The Walking Dead.
Me senti assim perdido no meio de Caracas pela madrugada
O cara simplesmente me liga o carro no pisca alerta no melhor estilo “me assalte” e começa a ir devagar, segundo ele para economizar gasolina. E eu, claro, adorei, porque tudo que mais se quer quando está atrasado para um voo é um táxi na iminência de se faltar a gasolina, no meio DO NADA e com o pisca alerta ligado. Será se tudo na Venezuela tem que ser do jeito mais difícil? Nessa hora, cara, vale tudo rezar para tudo, Nossa Senhora do Bom Parto, Iemanjá, Saint Seya, Jaspion, Sailor Moon. Não sei se meu cosmos tava bem invocado, só sei que tive sorte da entrada do aeroporto ser em uma descida e o carro ir na banguela.
Cheguei à fila do check in e aquela fila. Saí do check in DEZ MINUTOS antes do voo e me deparo com uma fila GIGANTESCA para a sala de embarque. Fiquei de olho em uma careca de um cara que tinha acabado de fazer check-in comigo e fui acompanhando. Chegando lá, me desesperei quando vi uma fila gigantesca e a maioria da galera com o tícket do voo que saía as 06:15, sendo que meu voo era as 06:00. Não sei se fiquei mais desesperado por ter perdido o voo em si ou por ter que ficar mais um dia em Caracas. Depois que eu fui descobrir. A empresa aérea dava aula de corte de custos. O mesmo carinha que faz o check in, faz o embarque por isso temos que esperar ele terminar com o balcão de check in primeiro na parte de cima. Ele cobra escanteio e faz o gol de cabeça. Fiquei de olho, se ele colocasse o chapeuzinho de piloto, juro que eu ficava uma semana em Caracas.

Farofada em Los Roques

Los Roques é um Parque Nacional da Venezuela bem parecido com Fernando de Noronha. Existe um pequeno povoado e parece que todo mundo vive do turismo, direta ou indiretamente. Logicamente, por dependerem do turismo, todo mundo odeia Chávez.
Única pousada pró-Chávez na ilha. Lógico que era a que mais deixava a desejar na limpeza…
Não sei como surgiram as primeiras pessoas, já que ao que pude entender, o fornecimento de água doce é escasso, com os lençóis freáticos sendo bem salobros e a vida nativa se limitando a alguns lagartos pretos que infestam todas as ilhas de Los Roques (que inclusive eu fico curioso de como eles chegaram aqui dada a sua existência em quase todas as ilhas e elas serem bem afastadas do continente).
Los Roques é um mar de tranquilidade em meio a toda aquela loucura e vida louca que é Caracas. Também, Caracas tem milhões de habitantes, Los Roques 1200. Enfim pude bater fotos com a minha câmera melhor sem medo de ser roubado e não ficar enfiando todo o dinheiro vivo que tenho comigo nos bolsos das calças. A noite inclusive eu ia para a areia, colocava o laptop no colo e ficava escrevendo sem preocupação alguma de algo ocorrer.
Todos que queiram pescar, venham comigo!!!
Pipocam pousadas por todas as ilhas e o esquema farofa é meio que oficial. Todas as pousadas oferecem um serviço de pensão completa, com café-da-manhã, jantar e, como você passa o dia fora, um cooler com algumas bebidas e comidas frias, já que nas ilhas não há restaurantes. Então basicamente o que você faz é pagar um passeio (que tem o preço ridículo de em média uns 10 reais o mais caro custa 40 reais), pegar a sua farofa e ficar o dia inteiro em uma ou duas ilhas diferentes.
Eu preparado para ir para mais uma ilha. Vestido até o pescoço por causa do sol…
Eu como já fui com sede ao pote, peguei logo a mais longe e mais famosa, que tem uma passarela de areia ligando duas ilhas. Porém fui com proteção inapropriada e fiquei queimadaço os outros dias, o que me obrigou inclusive a ficar um dia inteiro sem ir para os passeios só batendo fotos na ilha principal e estudando para o curso de mergulho avançado que aproveitei para fazer por lá (que foi mais barato do que fazer em Brasília mergulhando no Lago Paranoá =P).
Outra coisa que me impressionou em Los Roques é que lá gasta-se bastante com pousadas, mas muito dinheiro mesmo e tudo é muito caro. Por outro lado, se você dá uma volta pela parte do povoado onde vivem os locais você percebe que eles parecem levar uma vida bem simples, dessa forma sempre fico me questionando para onde vai todo o dinheiro que gastamos, porque salário para esse povo não é. Ter uma pousada em Los Roques deve ser um bom negócio.

Aceitando Jesus na Pousada em Los Roques

Cheguei a Los Roques, no esquema que mais gosto, free style. Não tinha nada reservado e saí batendo de pousada em pousada até achar uma que tivesse um preço legal. Apesar de isso parecer bem bonito e romântico para quem está lendo, caminhando contra o vento sem lenço nem documento, depois que bati na oitava pousada sem vaga, comecei a ficar preocupado. Até achei uma com vaga e que parecia legal, porém eu estava só com dólares e o recepcionista me falou que eles não aceitavam porque estava perigoso trocar dólares em Los Roques, o que me deixou bem preocupado.
Luar em Los Roques na entrada do “aeroporto”
Depois de tentar algumas vezes, acabei achando uma pousada chamada “Los Corales” que recomendo bastante para quem quiser se hospedar. Fui recebido por uma argentina que falava português e só depois fui descobrir que era hóspede, mas muito amiga da dona da pousada.
O esquema, como falei, era café, jantar e cooler (eles chamam de cava) com comidas e bebidas. Paguei uns 80 dólares com tudo (o que parece ser meio que um preço médio da ilha). A pousada tinha um quê meio de uma grande família e um dos donos da pousada, o Jesus, era uma figura em particular, super gente boa e cozinhava bem para caramba. Dizia ele que aprendeu a cozinhar sozinho usando os hóspedes de cobaia. Fica a sugestão da Pousada Los Corales em Los Roques.
Para quem não gosta de peixe, Los Roques é um grande problema. Todo santo dia era peixe, o que para mim não era um problema. Jesus me explicou que era porque carne de galinha e vaca são bem caros na ilha e já chegam com uma qualidade bem ruim. Além disso, como era um parque nacional, não era permitido criar animais que não fossem da fauna local, o que fazia ele optar só por peixe pois era mais barato e de melhor qualidade. E cara, era uns filés de peixe para picanha nenhuma colocar defeito. Teve um dia inclusive que um dos hóspedes pescou uma barracuda e levou para o Jesus cozinhar.
A vida em Los Roques acaba terminando bem cedo. Quando é nove horas da noite todo mundo já tá meio que recolhido pro seu poleiro e a cidade meio que morre. Tem até uma baladinha em frente a pousada que eu fiquei, mas que toda vez que olhava lá dentro, tava só o Dee Jay e os barmans. Ao contrário das ilhas de mergulho da Tailândia onde havia mochileiros para todos os lados, Los Roques é um destino basicamente de casais. Ir sozinho para lá é fria, o mergulho pode até ser legal, mas quando é de noite você acaba indo dormir cedo também, porque acaba que não consegue conhecer ninguém na cidade, haja vista que parece haver só casais.
Baladinha em frente a minha pousada. Dá para ver o tanto de gente que tem dançando lá..

Forever Alone nas noites de Los Roques

De noite eu saía vagando pela ilha, meio que procurando um grupo que pudesse ser amigo. Chegar em uma mesa que alguém tivesse tomando uma cerveja, me apresentar e pedir para sentar, como já fiz algumas vezes, sim, no melhor estilo “não tenho amigos”, mas que acaba não sendo tão invasivo quando você tem um lugar apinhado de mochileiros. Eu tava disposto a sentar em qualquer mesa que não tivesse um casal. Dois homens e uma mulher, três homens, duas mulheres e um homem, qualquer combinação valia, mas quem disse? Foram sete noites “forever alone” em Los Roques, portanto, fica a dica, se for, leve toda a sua leitura atrasada do ano, porque você vai conseguir colocar em dia.
Única balada em Los Roques. E não é que lá encontrei um carioca que tinha ficado amigo em um encontro do Couchsurfing?

Claudio Bonitão

Como sempre acontece quando viajo, as pessoas tem dificuldade em pronunciar meu nome e acabei sendo chamado de Claudio mesmo. O problema era que havia outro Claudio na pousada e quando o Jesus chamava “Claudio!!!” vínhamos nós dois. Ele perguntou se alguém tinha uma ideia de como acabar com essa confusão, eu sugeri chama-lo de Claudio Italiano e me chamar de Claudio Guapo (o que em espanhol quer dizer algo como bonito). A galera achou engraçado e até mesmo depois do Claudio Italiano ir embora, fiquei com o apelido de Claudio Guapo.

Por último, acabei conhecendo uma mulher que estava precisando um pouco de dólares e acabou me oferecendo uma cotação que de tão boa, quase que eu vendi todos os meus dólares para ela, aluguei um maleiro, botei um chapeuzinho e fui ficar cochichando “dólares, dólares” no ouvido dos turistas no aeroporto. Pode parecer brincadeira, mas eu tou falando sério. Troquei tantos dólares que depois no final fiquei preocupado como diabos eu iria fazer para gastar todo o dinheiro. Refiz as contas e vi que com todos os gastos de mergulho, alimentação, cana, hospedagem em Los Roques e Caracas, ainda iam me sobrar uns cem dólares em bolívares! Ainda pensei em trocar de volta com ela, mas pombas, ela me fez um câmbio tão bom que fiquei sem graça. O jeito era gastar esses cem dólares (já que em Caracas ninguém trocava bolívares por dólares, a não ser por um câmbio muito desfavorável), só que não sabia de que forma. Bem, difícil é ganhar dinheiro, gastar é o mais fácil, a gente dava um jeito.
Quatrocentos dólares compram dinheiro demais sô!

Histórias de Mochileiro

Entre essa galera toda de Caracas, escutei uma história que de tão interessante, daria para escrever uma crônica sobre ela. O Alexandre uma vez conheceu um israelense enquanto os dois viajavam de ônibus e ficaram bem amigos. Conversa vai daqui, conversa vai dali e o israelense contou que tinha tido uma filha com uma dinamarquesa, mas que ainda não tinha dito a mãe dele porque ela era uma judia muito fervorosa e para um judia ter um neto de uma não-judia é algo complicado (só lembrando, para ser judeu, você tem que nascer judeu e não se converter ao judaísmo. Para ser judeu, sua mãe tem que ser judia, não importa o seu pai, por isso o problema. Para mais detalhes, checar esse post). Depois de alguns anos quando cada um seguiu o seu rumo.
Alguns anos depois, Alexandre recebeu uma carta em casa desse seu amigo contando sobre como andava a vida e junto com a carta um recado da mãe dele dizendo que o israelense havia saído para fazer um hiking nas montanhas, foi atingido por uma montanha e morreu. Antes de morrer, ele havia escrito essa carta e iria mandar para o Alexandre. Perto da carta havia o endereço e mãe dele resolveu postar a carta dizendo tudo que ocorreu.

Alexandre depois de um tempo aproveitou uma viagem que iria fazer ali por perto e resolveu ir a Tel Aviv ver se conseguia encontrar essa mãe dele. Foi no endereço da carta e ela não morava mais lá. Como sabia o sobrenome dele, procurou na lista telefônica e achou algumas pessoas com esse sobrenome. Ao sair ligando para uma por uma, acabou encontrando a casa da mãe do amigo que inclusive disse que gostaria muito de conhece-lo. Eles se encontraram e depois de conversar um pouco, Alexandre perguntou como estava o filho que o amigo dele tinha tido com a dinamarquesa, qual não foi a surpresa ao descobrir que a mãe não sabia que tinha sido avó há alguns bons anos e ficou extremamente interessada no neto. Diz que ele passou os contatos que tinha para ela, mas que depois nunca mais conversaram.

Eu achei essa uma história bem interessante, porque mostra como histórias sempre podem ocorrer quando você tem uma mochila nas costas.

Dando uma volta

Se não fosse a menina que me hospedou em Caracas, teria ficado em casa, pois além da tensão, a arquitetura não é lá essas coisas. Mas tensão mesmo. Todo canto que eu queria tirar mais uma foto de Simon Bolivar, primeiro eu perguntava para minha host, ela olhava para um lado, olhava para o outro e falava “tira rápido e depois bota no bolso!”, isso quando ela falava “aqui não, aqui é muito perigoso”. Mas, como sempre falo, uma das grandes vantagens do Couchsurfing é ter essa possibilidade de conhecer locais e com isso conhecer um pouquinho mais sobre a cidade também.
Centro de Caracas
Saímos, batemos algumas fotos, fomos escutando um pouco sobre a história da Venezuela, como era viver na Venezuela nesses tempos e coisas assim. Eu tava meio que preocupado já que estávamos andando no meio de Caracas em alguns lugares mal-iluminados, batendo fotos e falando em inglês. Basicamente bancando o papel de Happy-Turista-Feliz-Imbecil. Do nada, a minha host só falou assim ”anda mais rápido que tem um cara de camisa azul seguindo o Claudiomar”. Bem, uma das coisas que eu aprendi desde cedo é que se o morador local fala para você correr, não questione, CORRA!!

Enquanto eu andava pela rua, eu vi uma pequena apresentaçãozinha no centro de Caracas. Não entendi direito o que era, só sei que depois vinha esse INRI Cristo aí e no final salvava ela
Quando passamos do lado de uma viatura da polícia resolvi virar e ver se não era só uma neurose da minha host quando vi que efetivamente havia um cara de camisa azul atrás de mim. Como estava do lado de um carro da polícia (e do lado da polícia qualquer um vira macho), virei para ele e comecei a encará-lo. Ele deve ter ficado com medo, não é todo dia que um maranhense do alto dos seus 1,60m te encara dando a entender que vai te matar na porrada. Mas de qualquer forma veio para perto de mim, balbuciou algo em espanhol, eu só fiz que não com a cabeça, ele foi embora e estava terminado o meu primeiro capítulo de um Bad Boy in Caracas.

Couch em Caracas

O couch em Caracas acabou sendo algo, digamos, diferente. Primeiro que a minha host me falou que eu teria a companhia de um brasileiro e de um venezuelano que haviam viajado para Caracas para correr uma maratona. Quando vi quem era o brasileiro, qual não foi a minha surpresa ao ver que já havíamos nos conhecido alguns anos atrás em Curitiba. Que louco isso, encontrar um conhecido dentro de um apartamento no meio de Caracas! Se bem que encontrei um conhecido em Los Roques numa baladinha também, mas aí é outra história…



A nossa host e seus três guests
O mais engraçado era que o outro venezuelano era de classe média e, portanto, odiava Chávez. A nossa host era de classe baixa e, portanto, AMAVA Chávez. Não precisa explicar que isso vez ou outra criava atrito entre os dois. Eu, claro, adorava, porque quando algum falava alguma coisa a favor ou contra, eu já tinha lá, em primeira mão, a opinião contrária e daí ouvia argumentos dos dois lados.
A nossa host tinha uma pequena deficiência que eu não sei direito qual era, nada muito sério, mas que comprometia ela em algumas entrevista de emprego. Um dos motivos dela AMAR o Chávez era ele ter criado uma lei (que apesar de simples faz uma diferença danada) obrigando as empresas a contratarem um mínimo de trabalhadores deficientes recebendo desonerações tributárias por isso. Cara, essa lei é de uma simplicidade tamanha e de um impacto social tão gigantesco que é simplesmente difícil entender como não existia ainda na Venezuela. Pois é, mas foi o Chávez que fez isso com, julgue do jeito que quiser, a sua ênfase na inclusão social conforme já havia explicado. São ações pequenas como essas que ajudam a explicar porque Chávez tem uma popularidade tão gigantesca em toda Venezuela.

Só algumas horas…

Uma das mais famosas sorveterias em Cuba, agora também na Venezuela =)
A minha host havia me passado o bizu de como chegar na casa dela primeiro pegando um busão e depois um metrô, mas eu tava tão tenso que resolvi pegar logo foi um táxi. Quando cheguei ao couch, mais uma grata surpresa. Zanzei um pouco até achar a casa dela e qual não foi a minha surpresa quando o seu celular estava desligado e eu toquei o interfone e ninguém atendeu. Pronto, estava eu, com duas malas, perdido e sem saber o que fazer na cidade mais violenta da Américado Sul. Agora é engraçado, mas na hora eu realmente fiquei preocupado. Bem, numa situação como essa, fiz o que se tem que fazer, primeiro entrei em pânico e depois fui procurar um hotel.
Achei um hotel perto da casa dela e fui perguntar quanto era. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que os bichos aceitavam alugar o quarto por apenas quatro horas (sim, eu pensei o mesmo que você sobre para que servia um hotel que aluga o quarto “só por algumas horas”. Era só não esfregar a cara na fronha que tava valendo!). Resolvi dar uma volta antes de fechar com o hotel. Bem, se a minha host não chegasse depois de um tempo, eu pelo menos teria um plano B.
Crianças brincando de baseball, o esporte mais popular da Venezuela
Não foi eu andar nem cinco metros da calçada do hotel que já chegou um carro da polícia botando o bicho em um grupo de adolescentes que estavam quase que do meu lado. Aos gritos os mandou colocarem as mãos na parede e começou a revistar geral. Assim, não sei você, mas ver a polícia chegando com aquela agressividade em um grupo de adolescentes não foi a melhor coisa para me deixar tranquilo acerca do grau de violência do lugar. Enfim, resolvi dar uma volta e bater algumas fotos.
Sim, também existe peão na Venezuela
Depois de um tempo, resolvi voltar no apartamento e checar se a minha host já tinha voltado. Toquei duas vezes no interfone e quando já estava sem esperanças, sentando na calçada pensando o que fazer, ela surgiu como a cavalaria do velho oeste!

Chegando a Venezuela

Cara, só há uma palavra para se definir a chegada a Caracas: tensão! Sim, em Caracas a tensão é desde a hora em que você desce do avião. Primeiro que Caracas é de longe a cidade mais violenta das América do Sul, com um índice de homicídio pior do que o de Bagdá (sim, o esquema é tenso!). Segundo que, como expliquei, Tio Chávez achou que seria uma boa ideia controlar o dólar e, dessa forma, assim que você desce do avião você fica se perguntando como DIABOS você vai fazer para poder comprar bolívares, haja vista que comprar no câmbio oficial é uma roubada, comprar no câmbio negro é efetivamente um crime e pode te causar problemas. Taxista você não pode aceitar nenhum, pois vi relatos em fóruns de pessoas que foram sequestradas por taxistas COM CREDENCIAIS que as abordaram no aeroporto. Você precisa pagar o táxi no balcão oficial do aeroporto e entrar direto no indicado pela balconista (cara, quando um taxista com credencial pode te sequestrar, é sinal de que a situação tá realmente preta).


Saí da imigração já com a tensão em alta. Veio um taxista com credencial e já começou a cochichar “Táxi? Câmbio?”, juro que imaginei ele já ir emendando “Pó? Meninas? Pedra?”. Fingi que não era comigo e saí andando. Fui ao banheiro, coloquei todas as minhas notas de cem dólares no meu coldre e fui atrás de alguém pra trocar moeda para mim. Teria que trocar pouco, pois, se não fosse tensão suficiente, o aeroporto é famoso por possuir cambistas que lhe dão notas falsas. Fui andando e passei do lado de um carregador de malas que me falou baixinho “câmbio?”. Vi que ele era mais ou menos do meu tamanho e caso ele me dessa uma nota falsa, seria mais fácil sair na mão com ele. Respondi que sim e começamos a negociar no meio do aeroporto, cochichando, os dois visivelmente tensos e fechamos uma cotação, meio ruim para mim, mas tudo bem, eu só queria sair do aeroporto o mais rápido possível. Só para deixa-los mais a par da situação, estava com bastante dinheiro vivo no meu coldre, pois nem em Cuba, nem na Venezuela dá para viajar utilizando o cartão de crédito.
Quando estávamos no aeroporto, um muçulmano parou embaixo da escada e começou a fazer a as suas preces. Estranhei, pois aquela não era a hora apropriada para fazer uma das cinco preces do islamismo, haja vista que ainda havia algumas horas até o pôr-do-sol. Depois, o taxista, que também era muçulmano, me explicou que provavelmente aquele rapaz tava orando porque o pôr-do-sol seria quando ele estivesse dentro do avião e, imagina a cena, um muçulmano, no meio de um voo internacional ajoelha no chão e começa a orar! Isso poderia levar pânico aos passageiros, pois, afinal, tem muita gente idiota no mundo. Por isso, alguns muçulmanos preferem fazer as suas orações antes de embarcar. Interessante, né?
Ele me levou para dentro de um elevador (!!!!). Quando as portas fecharam e eu achei que ele ia me dar uma facada e fugir com meus dólares, ele me deu as notas de bolívares. Quando comecei a contar ele gritou “Espera, a porta do elevador fechar novamente!!!”, tava tão tenso que não havia visto que o elevador estava abrindo a porta. Nessa hora é botar tudo no bolso, assobiar e fingir que nada tá acontecendo! Quando as portas do elevador fecharam novamente, ranquei os quarenta dólares que tinha, dei para ele e estava realizada a primeira transação ilegal com dólares da minha vida!

Primeiro trecho para Venezuela

A primeira parte da viagem a Venezuela foi tranquila. Logo que cheguei ao avião vi algumas crianças e fiquei preocupado delas fazerem barulho e não me deixarem dormir, mas foi de boa. Até porque elas tiveram um pouco de distração quando estávamos voando.

O avião tava mais ou menos assim pelo lado de dentro…
Depois de uns trinta minutos de voo olhei para o lado e vi crianças brincando de fazer boneco de neve no corredor do avião. O avião deve ter ido, sem brincadeira, abaixo dos 10 graus devido a “problemas no ar-condicionado” (esse foi o primeiro avião que vi que fica mais frio quando o ar-condicionado não funciona!). Eu, como estava viajando só para países teoricamente tropicais, não tinha nenhum agasalho e fui a viagem inteira tremendo de frio.
Na Koryo Airlines (empresa aérea norte-coreana) essas coisas não acontecem. Confira um relato aqui

E aí?

Bem, se eu pudesse descrever uma opinião pessoal era a de que Chávez perdeu uma ótima oportunidade de ser um cara fantástico. Se tivesse se preocupado apenas em suas reformas sociais, em seus programas de redistribuição de renda, encorajamento de produções em cooperativas e programas de inclusão social, seguindo mais ou menos o modelo brasileiro, ele teria sido um cara fantástico. Pela primeira vez na história da Venezuela, teria utilizado a vultosa renda do petróleo em favor da população, jogado milhões de venezuelanos na classe média e ao mesmo tempo criado um mercado de consumo de massa na Venezuela, entrando em um ciclo virtuoso da economia, mais ou menos parecido com o que ocorre no Brasil.
Foto tirada no centro da Venezuela. Eu tava indo me posicionar e a minha host bateu a foto. Eu ia apagar e fazer outra, mas pô, ficou uma posição legal, não? Ficou parecendo mais ou menos como um “like a boss”!
O grande problema é que para Chávez ele é quase como um messias, um enviado dos céus, um ser superior que veio para a terra para ser cultuado e amado. Vejo que muitos venezuelanos que odeiam Chávez efetivamente reconhecem a importância dos seus programas sociais, porém a bagunça que ele criou na economia com o controle do câmbio e expropriações sem sentido, ferraram a vida de todo mundo por lá. 
 Em poucas palavras, essa é minha opinião =).

Questão democrática venezuelana

Apesar de todas as suas conquistas sociais, apesar de fazer um grande trabalho relacionado a melhora da população mais pobre venezuelana, apesar de efetivamente ter diminuído a concentração de renda na Venezuela, tudo isso veio a custa de um preço. O país hoje é um barril de pólvora, extremamente cindido entre partidários e inimigos de Chávez.
Hoje Chávez não desfruta de tanto poder como antigamente e é obrigado a muitas vezes enfrentar greves gerais que acabam por comprometer ainda mais a já combalida economia venezuelana.
No dia 11 de abril de 2002, ocorreu uma marcha para pedir a renúncia de Chávez. Quando esta marcha estava chegando ao palácio do presidente, uma outra manifestação pró-Chávez estava ocorrendo. Não precisa dizer que isso deu um problema danado, afinal, há extremistas dos dois lados. O pau comeu e quinze pessoas de ambos os lados foram mortas. Chávez estava na berlinda, pois já havia perdido o apoio de diversos partidários e membros das altas patentes do exército venezuelano. No dia seguinte, aproveitando-se da convulsão social que se desencadeou dessas mortes indústria e contando com o apoio de Estados Unidos e Espanha, setores da mídia e da elite venezuelana tentaram um golpe de estado contra Chávez.
Porém, eles se esqueceram do enorme apoio popular que Chávez contava e o povo ocupou as principais sedes do governo alegando que só sairiam de lá quando Chávez voltasse, o que acabou ocorrendo.
Depois disso, Chávez ficou ainda mais neurótico e entrou de forma mais efetiva na sua revolução, cindindo mais ainda a população entre os pró-Chávez e os contra. Cassou a concessão de uma das principais emissoras que lhe faziam oposição (se bem que isso foi depois que um jornalista defendeu em rede nacional que Chávez deveria ser morto e amarrado de cabeça para baixo como um porco na praça central da Venezuela e fosse cuspido pelo povo que nem ocorreu com Mussolini. Ok, isso não é motivo para se fechar uma TV, mas demonstra o nível que a Venezuela está).
A situação tá tão louca que quando se aproximam as eleições venezuelanas, simplesmente se esgotam as passagens de voos internacionais saindo dos Estados Unidos e da Espanha para a Venezuela devido a venezuelanos “no exílio” que gastam o que for possível só para poder votar e tentar a fazer a sua diferença na deposição de Chávez.
Outro problema também do Chávez é a personalização do seu governo. As pessoas não entendem que o Estado Venezuelano as está abrigando sob um guarda-chuva de políticas públicas, mas sim que Chávez fez isso. Pode parecer banal, mas isso cria um problema tão grande que quando ficou doente, Chávez foi se tratar em Cuba porque se fosse se tratar no Brasil, na França, no México, seria mais possível as pessoas terem informações sobre o seu estado de saúde. Em Cuba, como tudo é controlado, ele pôde ficar tranquilo com isso.

Câmbio maluco

Só que qualquer um sabe que quando o governo tenta controlar um mercado, ele simplesmente fica mais ou louco ainda. Se você fosse em uma casa de câmbio da Venezuela e levasse um dólar na época que eu estava lá, eles te dariam 6,3 bolívares. Se trocasse na mão de um taxista, com sorte e sabendo negociar, ele te daria DEZOITO bolívares e não te sequestraria. Se você passar o seu cartão de crédito em algo que custa 24 bolívares, na sua fatura (cotação oficial) chegará o preço de quatro dólares, se você trocasse na rua, pagaria um dólar e meio por esse valor.
E o problema é que isso vai se tornando um círculo vicioso. Quanto mais a moeda local fica desacreditada, mais as pessoas compram dólares e quanto mais as pessoas compram dólares, mais o preço dele sobe e aí vai indo. A Venezuela, neste ponto, está caminhando para uma “cubanização”. Em Cuba existem dois tipos de moeda, uma utilizada pelo povo cubano e outra usada pelos gringos. Na Venezuela o Bolívar para o povo e os dólares para os gringos.
Cara, o mercado é algo tão perfeito, que até um site de cotação do dólar paralelo foi criado. Criaram um site para dizer quanto custa o preço da “alface verde” na fronteira da Colômbia com a Venezuela (local onde mais acontecem troca de bolívares por dólares). Quando vi o site, vi que um quilo de alface verde, em dólares, estava custando 23,71 bolívares (sim, tem duas casas decimais, o negócio é tenso mesmo) e estava em alta. O valor em euros não lembro. Quem estiver curioso é só acessar http://eldolarparalelo.info/lechugaverde.php.
Pior que depois fui descobrir que trocar dólares em Caracas é algo longe do trivial. Todo couchsurfer que eu perguntava se trocava dólares, falava que não e só conhecia um amigo de um amigo que fazia isso. Cara, mas exatamente como se faz para comprar drogas. Até que um dia um couchsurfer se dispôs a me ajudar e ligou para um amigo que falou que a irmã dele queria drogas, digo, dólares. Liga daqui, liga de lá, esse cara transferiu para a conta do couchsurfer que foi comigo até o shopping e me deixou esperando no banheiro. Depois entrou no banheiro, olhou para ver se não tinha ninguém, entrou na cabine comigo e nos trancamos lá dentro. Pensei “tomara que se alguém olhar, pense que sou gay, melhor sair com fama do que sair preso…”. Ele me deu os bolívares, eu lhe dei os dólares e estava consumada a segunda transação ilegal da minha vida (já que a primeira foi no aeroporto e posto posteriormente) no melhor estilo Claudiomar, 13 anos, drogado e prostituído.
Tudo isso porque ele realmente podia estar encrencado se fosse pego. Conversando depois com um taxista, que depois acabou ficando meu amigo, ele me explicou que já tinha oito amigos presos por terem sidos pego em flagrante trocando dólares no aeroporto. Segundo ele, os caras vão amargar uns dois anos na cadeia fora uma multa gigantesca.
Trocando em miúdos, nenhum estrangeiro utiliza cartão de crédito na Venezuela, pois isso implica em gastar três a quatro vezes mais por alguma coisa. Assim, tudo na Venezuela se resolve com dinheiro vivo, você tem trocar tudo que acha que vai gastar em dólares no Brasil e andar com o bolso CHEIO de dinheiro vivo na cidade mais violenta da América do Sul. E você achando que era radical porque brincou de montanha-russa na Disney…
Vida loca.